Minhas respostas ao jornalista Fernando Correia de Oliveira, director do Anuário dos Relógios (AR) que acaba de publicar num número especial comemorativo dos 25 anos:AR – O que é o tempo?
Introdução
Já os
antigos gregos criticavam a húbris (em grego “hybris”), que significa orgulho
desmedido, presunção extrema, arrogância contra os deuses, e que foi o tema de
várias histórias mitológicas, que continham ensinamentos morais. A prática da
húbris significa ir além dos limites considerados naturais, exceder aquilo que,
ainda que de forma apenas implícita, está estabelecido. O castigo dos deuses
para a húbris era a némesis, isto é, a vingança que consiste no retorno aos
limites que foram indevidamente transpostos.
O Cristianismo recebeu de herança esse sentimento maléfico de excesso de limites, considerando grave pecado grave o orgulho e uma notável virtude a humildade. No Livro dos Provérbios do Antigo Testamento, encontramos sentenças como «Ele [Deus] zomba dos zombadores, mas concede graça aos humildes» (3:34), «Quando vem o orgulho, chega a desgraça, mas a sabedoria está com os humildes» (11.2), ou «O orgulho vem antes da destruição» (16:18). No Novo Testamento encontramos frases do mesmo teor como «Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança» (Mateus 5:5), «Pois todo aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado, e todo aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado» (Mateus 23:12) e «Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a vocês mesmos» (Filipenses 2:3).
Para Tomás
de Aquino, o filósofo medieval italiano que conseguiu a “quadratura do círculo”
ao fundir uma parte da visão antiga com a cristã, a humildade consistia em «conservar-se
dentro dos seus próprios limites, não tentando alcançar coisas acima de si, mas
submetendo-se ao que lhe é superior» (Summa Contra Gentiles, Aquino 2017,
livro IV, cap. LV). Na teologia do século XX, o escritor norte-irlandês C. S.
Lewis, o bem conhecido autor das Crónicas de Nárnia, escreveu: «Foi
através do orgulho que o demónio se tornou demónio: o orgulho leva a todos os
outros vícios: é o estado de espírito completamente anti-Deus» (Lewis 2001). É-lhe
também atribuída a frase: «humildade não é pensar menos de si mesmo, mas pensar
menos em si mesmo.» Apesar de a
inspiração poder provir de Lewis, a frase deve antes ser creditada ao pastor
protestante e escritor norte-americano Rick Warren, autor do best-seller
The Purpose Driven of Life (Warren 2012).
O sentido religioso – etimologicamente
religião significa ligação – obriga a humildade, pois na aderência a uma
religião expressa-se a necessidade de estar com os outros, partilhando com eles
crenças e expectativas. A humildade é a virtude que consiste no reconhecimento
das limitações tanto do género humano como do próprio indivíduo e na prática conduzida por essa
consciência. Uma pessoa humilde respeita os outros: não se exibe nem se vangloria,
considerando-se superior aos demais.
Uma cientista que Einstein muito admirava, a físico-química francesa Marie Curie ou Madame Curie, nascida Sklodowska na Polónia, único prémio Nobel em duas disciplinas científicas diferentes, era também uma figura humilde, completamente dedicada ao seu trabalho e à sua família. Ficou proverbial o seu continuado espírito de missão à ciência e o seu alheamento relativamente às glórias do mundo. Sobre ela disse Einstein que «de todos os seres celebrados, foi o único a quem a fama não corrompeu.» Embora a maioria dos cientistas tenham sido, como Einstein e Madame Curie, pessoas humildes, a verdade manda dizer, dizer que a história da ciência revela a existência de sábios arrogantes ou com laivos de arrogância, como foi o caso do físico inglês Isaac Newton, que tentou, por vários meios, denegrir a obra dos outros para enaltecimento da sua. A peça Cálculo, do bioquímico e dramaturgo norte-americano Carl Djerassi (Djerassi 2012), transmite de um modo literário o seu desencontro com o filósofo alemão Gottfried Leibniz, mas ele esteve longe de ser caso isolado.
No quadro do pensamento sergiano (de Manuel Sérgio, António Sérgio que me desculpe), um jogador ou um treinador ou um dirigente desportivo podem mostrar a sua qualidade sem necessitar de se auto-proclamar como “o melhor”, depreciando os outros. Um jogador pode ser muito talentoso, mas deve reconhecer os limites das suas capacidades, respeitando com isso as capacidades dos outros. O reconhecimento é sempre mais justo e, portanto, mais verdadeiro e mais duradouro, quando é feito pelos outros. Além do mais, uma vitória ou um bom resultado podem ser seguidos por uma derrota ou por um mau resultado, a um dia de glória pode seguir-se um dia de frustração. Só um conjunto bem arreigado de valores – no qual se incluem a vontade de ganhar, mas também a humildade nas vitórias ou nos bons resultados – pode sustentar uma carreira prolongada. Como diz uma frase que é vox populi “ganhar ou perder, tudo é desporto.” Manuel Sérgio, o autor, entre vários outros, dos livros Filosofia do Futebol (Sérgio 2009), Crítica da Razão Desportiva (Sérgio 2012), e Para uma Epistemologia da Motricidade humana (Sérgio 2018), disse-o de uma outra maneira: «O desporto não pode ser uma guerra. O desporto tem de ser encontro, tem de ser abraçar os outros. Eu costumo dizer que não há jogos, há pessoas que jogam.»
Já contei noutro lado (Rodrigues e Pinheiro 2016) o que foi a entrada na
minha segunda década, aos dez anos, a ver na televisão o que fez Eusébio, de
seu nome completo Eusébio da Silva Ferreira, no memorável jogo de Portugal
contra a Coreia do Norte no Campeonato Mundial de Futebol de 1966, realizado em
Inglaterra. Ninguém ganha jogos de futebol sozinhos, mas esse jogo foi ganho quase
só por Eusébio, um atleta verdadeiramente excepcional, que, tendo tido uma
origem humilde em Lourenço Marques (hoje Maputo), em Moçambique, permaneceu
fiel a essa sua origem, nunca se deslumbrando com os grandes sucessos que foi
conhecendo em Portugal e no mundo. Dos cinco golos nacionais nos 5-3 contra a
Coreia, quatro foram seus (o último foi do seu companheiro José Augusto). Esses
golos ficaram lendários porque, aos 25 minutos de jogo, a Coreia já ganhava a
Portugal por 3-0: foi uma “reviravolta épica”.
De cada vez que Eusébio metia um golo, agarrava na bola e trazia-a
rapidamente ao meio do campo, porque o jogo não estava acabado. Declararia anos mais tarde: «Eu acho que o
melhor golo foi o terceiro, o golo do empate. E quando fiz o terceiro, respirei
fundo.» Poucos dias depois o mesmo Eusébio, o que se sagrou o melhor marcador
desse campeonato, com um total de 9 golos, chorava depois de perder com a
Inglaterra por 2-1 (golo português de Eusébio, de penálti, quase no final, amenizando a derrota): os
ingleses tinham sido os melhores em campo, ou pelo menos tinham marcado mais
golos que é o que conta para a decisão desportiva. Mas ganhar ou perder, tudo é
desporto. No jogo para o terceiro lugar contra a Rússia, Portugal ganhou por
2-1: Eusébio executou, perto do início, um penálti contra um dos melhores guarda-redes
de sempre em todo o mundo, Lev Yashin. O jogador nacional, que cumprimentou cordialmente
o guarda-redes depois de marcar golo, afirmou no fim do jogo, bastante feliz,
mas humilde: «Disse-lhe que ia marcar para a esquerda e marquei mesmo. Não
engano os amigos.»
Pode Eusébio ter ganho 11 campeonatos pelo Benfica, ter sido o melhor
marcador em três Taças dos Campeões Europeus e ter sido, em 1965, o melhor
jogador europeu (“Bota de Ouro”), mas a sua maior virtude na vida foi a humildade.
Essa foi, de resto, a sua marca mais lembrada quando faleceu em 2014, um evento
que causou grande consternação nacional.
O segundo exemplo diz respeito ao ciclismo de estrada. No Verão de 1973 eu tinha
acabado o sétimo ano dos liceus e preparava-me para entrar na Universidade de
Coimbra. Passei férias, num parque de campismo, na Figueira da Foz. Foi assim
que pude assistir ao vivo à chegada de Joaquim
Agostinho numa etapa memorável da volta a Portugal que se desenrolou entre Abrantes e Figueira
da Foz, por vias que na época não estavam no melhor dos estados. O atleta do
Sporting chegou com 12 (doze!) minutos de avanço sobre o seu mais directo rival,
o benfiquista Fernando Mendes. O que se passou? Pois o sucedido soube-se depois.
Agostinho tinha parado para urinar e, quando voltou ao pelotão, deu pela falta
de Mendes. Logo arrancou atrás dele, apanhou-o num ápice (quando passou por ele
terá dito: «Acompanha-me agora se és capaz…») e continuou a aumentar o seu avanço
até à meta (Tovar 2017). Não atendeu aos pedidos de Artur Agostinho, o
jornalista ligado à organização da Volta (sem qualquer relação familiar com o
atleta), para abrandar um pouco, pois estava a “matar” a competição. As
palavras atribuídas a Joaquim Agostinho não significam que o ciclista era arrogante,
bem pelo contrário. Nascido de origem humilde numa aldeia de Torres Vedras, continuou
humilde depois de entrar, só aos 25 anos, no mundo do ciclismo (tinha aprendido
a pedalar só aos 23), onde logo revelou os seus dotes: ele era uma verdadeira
“força da Natureza”. Foi o seu espírito
humilde que ajudou a ganhar não só três Voltas a Portugal como a obter um
segundo lugar na Volta a Espanha e dois terceiros lugares na Volta a França,
onde teve 13 participações com um total de oito classificações nos dez
primeiros lugares. Teve um lendário triunfo em 1979 numa etapa de montanha nos
Alpes Ocidentais que terminou no Alpe d’Huez, ao fim de um percurso de uma luta
intensa contra o desnível que revela os grandes campeões (foi erigido um busto
de Agostinho numa das curvas desse itinerário). Lembro-me de ouvir, na rádio, o
relato dessa prova.
Agostinho morreu a 19 de Maio de 1984, dez dias depois de ter caído da sua bicicleta
quando liderava a Volta ao Algarve. Essa queda foi devida à travessia da
estrada por um cão, muito perto da linha de chegada à meta na Quarteira. Ainda
terminou a etapa, ajudado por colegas de equipa, mas foi-lhe diagnosticado um grave
traumatismo craniano. De pouco lhe valeram os melhores cuidados médicos que lhe
foram prestados nos Hospitais de Faro e da CUF, em Lisboa. Eu já era professor auxiliar
na Universidade de Coimbra, pouco mais de um ano volvido sobre o meu
doutoramento na Alemanha, quando tudo isso se passou e fiquei, como todo o
país, desgostoso com o trágico fim, aos 43 anos, de um campeão, ocorrido em plena prova.
Por último, um exemplo da canoagem, uma modalidade que tem tido grande
expansão em Portugal nos últimos tempos. Tive a oportunidade de conhecer o
canoísta Fernando Pimenta, num jantar promovido em 2019 pelo Ginásio Clube
Figueirense para entrega dos Prémios Nacionais Bento Pessoa (José Bento Pessoa
foi um ciclista figueirense pioneiro da modalidade entre nós na passagem do
século XIX para o XX), que incluíram um
prémio a uma cientista figueirense a trabalhar nos Estados Unidos, Sílvia
Curado, que tive a honra de representar. Impressionou-me a humildade do atleta,
natural de Ponte de Lima, que eu admirava pelas suas extraordinárias prestações
desportivas. No jantar, permaneceu sempre atento ao que podia comer e depois
dele não demorou a recolher-se, uma vez que, no dia seguinte, de manhã cedo, o
esperava mais um treino na vizinha pista de Montemor-o-Velho. Ele pertence ao
areópago de cinco portugueses que conquistaram duas medalhas olímpicas: ganhou
a medalha de prata de K3 1000 m nos Jogos Olímpicos de Londres, juntamente com o
seu colega Emanuel Silva e ganhou a medalha de bronze na categoria de 2012 de
K1 1000 m nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, realizados em 2021. Além disso,
foi campeão do mundo em Racice, na República Checa, em K1 5000 m, depois de, no
dia anterior, ter obtido a medalha de prata em K1 1000 metros. Em vários campeonatos
do mundo de canoagem, conquistou um total de três medalhas de ouro, três de prata
e quatro de bronze. E, em campeonatos europeus da modalidade, obteve 5 medalhas
de ouro, 6 de prata e 7 de bronze. Num dia se ganha e noutro dia quase se ganha,
porque há outros igualmente talentosos e preparados. Há que saber ganhar e saber perder.
Não era preciso Fernando Pimenta declarar-se humilde para reconhecer a sua
humildade. Mas, à partida para os Jogos de Tóquio, o atleta, com 32 anos, proferiu
estas palavras: «Vou
dar tudo por tudo para conseguir o melhor resultado possível. Já o fiz durante
este tempo todo de preparação, com inúmeros sacrifícios, e agora vou desfrutar
do processo da competição. Os portugueses podem contar com o Fernando Pimenta
de sempre: lutador, sonhador, ambicioso, humilde e com muita vontade de
representar Portugal e de conquistar um grande resultado» (O Minho 2021).
Não foi preciso dizer que ia ter uma nova medalha para a conseguir. À chegada a
Lisboa, declarou que já tinha na sua mente os Jogos Olímpicos de Paris, a
realizar em 2024.
Carlos Fiolhais
Referências
-
Aquino, Santo Tomás de. 2017. Suma
Contra os Gentios. Campinas: Ecclesiae, livro IV, Cap LV.
- Comte-Sponville,
André. 1995. Pequeno Tratado das
Grandes Virtudes. Lisboa: Presença.
- Dickens,
Charles. 2011. David Copperfield. Lisboa: Relógio d’Água.
- Djerassi,
Carl. 2012. Cálculo. Peça em dois actos. Coimbra: Imprensa da Universidade
de Coimbra, com prefácio de Carlos Fiolhais.
- Einstein,
Albert. 2018. Citações de Einstein. A Coletânea Definitiva. Col. e org.
por Alice Calaprice. Lisboa: Relógio d’Água.
- Fiolhais,
Carlos. 2005. «Einstein e a Religião», Estudos. Nova sér. n.º 4, 323-
329.
https://eg.uc.pt/bitstream/10316/12369/3/einstein_e_a_religiao.pdf
-
Fiolhais, Carlos, 2021, «Para uma ciência da complexidade: Um conceito-chave no
pensamento de Manuel Sérgio», in Franco, José Eduardo e Real, Miguel. 2021.
Pensar à Frente: Corporeidade, Desporto, Ética, Cultura e Cidadania - Estudos
sobre Manuel Sérgio, Porto: Afrontamento, pp. 13-24.
- Grenberg,
Janine. 2010. Kant and the Ethics of Humility. A Story of Dependence,
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- Lewis,
C. S. 2001, Mere Christianity,
Grand Rapids – Michigan : Zondervan.
- O Minho 19/7/2021
- Popper, Karl. 2018. Conjeturas e Refutações. Lisboa:
Edições 70.
- Rodrigues, César e Pinheiro, Jacinto. Mundial 66 Olhares.
Porto: Afrontamento.
- Sérgio, Manuel. 2005. Para um novo paradigma do saber e.… do ser. Coimbra: Ariadne, com prefácio
de Carlos Fiolhais.
- Sérgio, Manuel.
2009. Filosofia do Futebol. Lisboa: Prime Books.
- Sérgio, Manuel.
2012. Crítica da Razão Desportiva. Lisboa: Piaget .
- Sérgio, Manuel. 2018. Para uma
Epistemologia da Motricidade Humana. Lisboa: Nova Veja.
- Tovar. Rui. 2017. «A
Volta a Portugal. As 10 melhores histórias». Observador 4/08/2017.
https://observador.pt/especiais/volta-portugal-agostinho-chagas-venceslau-plaza/
- Warren,
Rick. 2012, The Purpose Driven Life: What on Earth am I here for? Grand
Rapids – Michigan : Zondervan.
No dia 14 de dezembro, no Centro Ciência Viva Rómulo (de Carvalho), foi feita uma conferência de Natal que tinha na primeira parte uma homenagem a António Manuel Baptista (1924-2015), com a presença da sua filha mais nova, Cristina Ovídio, e de um seu neto, onde foi passado um curioso filme em que Batista lia alguns dos seus poemas. Mais tarde, na segunda parte, Rui Vieira Nery deu uma conferência sobre música e ciência. Excelentes as duas coisas. Neste pequeno texto, apresento as reflexões que se me levantaram enquanto ouvia as palestras e por várias razões não referi na altura.
O número 27 do poema de Baptista também está associado ao número de anos de vida de vários personagens trágicas do rock (Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain, Amy Winehouse, e vários outros). Imagine-se, foram todos poetas antes dos 27 anos! Curiosamente, Ian Curtis foge ao padrão ao suicidar-se com 23 anos. Na verdade, os padrões estão na nossa cabeça, o que parecendo que não, é fantástico. Rui Vieira Nery falou também disso e de como, quanto mais as músicas seguem padrões científicos (das medievais às dodecafónicas e serialistas, de que ouvimos exemplos) mais se dirigem a especialistas e se afastam do público.
A ciência busca padrões, mas esses padrões quase nunca são óbvios. Outro que encontrei, e tenho-o encontrado muitas vezes, foi com a vida de António Manuel Baptista. Muitas vezes, as pessoas que acabam por ser notáveis ou que revelam ser geniais não seguem um percurso linear. Baptista, num dado momento da sua juventude, quis ir para a marinha, mas chumbou devido a uns problemas nos pulmões (teve mesmo tuberculose uns anos mais tarde, tendo estado três anos no sanatório do Caramulo). Devido a isso tornou-se físico (não sem antes se interessar pela química). Curiosamente, aconteceu algo parecido com Jorge de Sena. Chumbou como oficial de marinha e foi para o Instituto Superior Técnico para ser engenheiro. E quando saiu de Portugal, tornou-se professor de literatura, escritor e crítico. As contrariedades ou os caminhos alternativos permitem percorrer, muitas vezes, percursos mais interessantes e ricos. Baptista tinha alguma relutância em dizer os seus poemas, mas no contacto pessoal e nas prestações audiovisuais era genial. Foi, referindo o que disse Carlos Fiolhais, um personagem da imagem e do som, muito à frente do seu tempo, que pelos seus programas de rádio e televisão cativou muitas pessoas para as ciência e as tecnologias.
Quando uma conferência, conversa, leitura, ou outra coisa qualquer nos conduz a novas coisas, estimula e alimenta o nosso pensamento ou abre horizontes, vale bem o tempo.
V ISÃO - Como explica a fé dos portugueses na Ciência (são menos de 200 mil os que, estando elegíveis para serem vacinados contra a Covid-19, não o foram. e a maioria é mais por medo do que por negacionismo)? Será mesmo fé na Ciência ou simplesmente os portugueses fazem o que lhes mandam?
CF- Os portugueses estão entre os povos europeus que mais acham que a ciência tem um impacto positivo na sociedade e, por isso, tendem a confiar nela. Há um inquérito da União Europeia, divulgado este ano, o Eurobarómetro sobre os conhecimentos e atitudes perante a ciência e os resultados revelam uma adesão à ciência mais do que em países mais desenvolvidos como a Alemanha e a França.
Além disso, diria eu, há em Portugal uma longa tradição de aceitação do que as autoridades (médicas, administrativas, políticas, etc.) indicam. Devem somar-se as duas coisas para se compreender o alto grau de aceitação da vacinação em Portugal, que está a acontecer no caso da pandemia de COVID-19 e que já antes era conhecido para outras vacinas. Estamos - felizmente - à frente de países a Alemanha e a França na cobertura vacinal da COVID-19. os portugueses fazem orelhas moucas aos negacionistas das vacinas.
Mas há um facto paradoxal. Se olharmos para os resultados dos inquéritos PISA da OCDE sobre os conhecimentos e capacidades em ciências dos jovens de 15 anos, vemos que a nossa escola está longe dos lugares cimeiros. O mesmo se passava com o Eurobarómetro nos tempos em que ele recolhia respostas a questões de ciência, para averiguar os conhecimentos da população. A nossa confiança na ciência é, portanto, um tanto «cega», já que não temos suficientes conhecimentos de ciência nem conhecemos bem o método científico. Além disso, os governos portugueses não têm valorizado a ciência, pois investimos em ciência e tecnologia muito abaixo da média europeia: o valor português de 2020 é 1,6% do PIB e a média europeia é 2,3%. Estamos muito longe dos lugares cimeiros (a Alemanha investe 3,1% e a França 2,4% do PIB). Neste quadro, a cultura científica só pode ser incipiente e superficial.
Em resumo: aceitamos bem algo que não conhecemos bem, algo que devíamos conhecer melhor, pois a ciência não é dos cientistas mas de todos.
VISÃO: Receia o crescimento de movimentos negacionistas em Portugal?
CF- Se é verdade que não é muito sonora a voz dos negacionistas das vacinas entre nós, não é menos certo que a pseudociência está omnipresente no nosso país em actividades relacionadas com a saúde como a homeopatia, a acupunctura, etc. Essas sectores desconfiam da ciência em geral. Chegámos ao ponto de o governo português ter regulado o ensino dessas «tretas», permitindo que sejam outorgados portadores de diplomas com bases absurdas.
Sim, receio que cresçam quer os negacionistas das vacinas quer os negacionistas da ciência de um modo mais em geral, entre os quais se contam os praticantes dessas «medicinas alternativas». É bem possível que o nosso maior desenvolvimento seja acompanhado por movimentos anti-científicos, como hoje acontece em países mais desenvolvidos.
Este problema da colisão entre saber e ignorância
não tem solução fácil. Para o obviar, é preciso que o espírito
crítico cresça, é preciso que os cidadãos estejam familiarizados
com a ciência, o que deve começar desde logo na escola: o espírito
crítico, que está no coração do método científico, tem de ser
transmitido desde a mais tenra idade. É necessário que tenhamos
mais espírito crítico. A ciência não é algo para aceitar
passivamente, mas sim um meio que tem sido muito bem-sucedido para
resolver muitas, embora não todas, as questões que o mundo nos
coloca.
O inglês Kenneth Clark
(1903-1983) foi o mais conhecido dos críticos de arte do século XX graças aos
seus programas de televisão, cujo ápice foi a série Civilização,
transmitida pela BBC em 1969 e retransmitida, desde então, em televisões de todo
o mundo (os 13 episódios podem ser vistos no Youtube e a série em Blu-ray
pode encomendar-se na Amazon).
O livro agora editado pela
Gradiva com o subtítulo O Contributo da Europa para a Civilização Universal,
em vez do original Uma Visão Pessoal, foi escrito a partir do guião da
série televisiva. É impressionante o êxito alcançado tanto pelo programa como pelo
livro. Como o autor reconhece no prólogo: «Escrever para televisão é fundamentalmente
diferente de escrever um livro, não apenas no estilo e apresentação, mas no
conjunto da abordagem ao tema. As pessoas que se instalam no sofá para um
programa de serão esperam ser entretidas. Se se aborrecerem, desligam. E são
entretidas tanto pelo que veem como pelo que ouvem.» O livro não tem nem vídeo
nem som: mas tem ideias, que nos convidam à reflexão, e tem belas imagens, que
nos seduzem. A televisão não tem de ser inimiga do livro.
Clark procura, servindo-se de
muitos exemplos artísticos, num modo muito seu, transmitir o essencial da civilização
ocidental desde o fim do Império Romano do Ocidente até ao alvor do século XX.
Para ele o suprassumo situa-se no Renascimento italiano: Miguel Ângelo,
Leonardo da Vinci e Rafael. Sobre o pintor da Capela Sistina: «O poder
visionário de Miguel Ângelo dá-nos a sensação de que ele pertence a todas as
épocas, e talvez, acima de todas, à época dos grandes românticos, dos quais
somos ainda os herdeiros quase falidos.»
Civilização é uma óptima
prenda de Natal: está muito bem traduzido pelo historiador de arte e jornalista
José Cabrita Saraiva, que assina uma apresentação prévia e está muito bem
produzido por uma editora que sabe cuidar dos pormenores. Um sintoma do atraso
cultural português é a ausência, até hoje, deste livro entre nós: havia apenas uma
edição brasileira (Martins Fontes e Universidade de Brasília, 1979). Mas o
livro veio ainda a tempo, podendo ser contraponto numa época em que o
relativismo cultural se instalou.
De onde veio o lapidar título? O
autor conta: «Foi um acidente. A BBC queria uma série de filmes a cores sobre
arte, e achou que talvez eu pudesse dar alguns conselhos. Mas quando David
Attenborough [o autor de O Planeta Vivo, que está vivo!], então
responsável pela BBC2, me pediu para o fazer, usou a palavra Civilização, e
foi esta palavra, e só esta palavra, que me convenceu a aceitar o trabalho.
Não tinha uma ideia clara do que ela queria dizer, mas pensei que era
preferível ao barbarismo, e imaginei que era o momento certo para explicar
porquê.»
Explicado o título, mais difícil será
explicar o que é a civilização. O autor, que na sua juventude foi seduzido pela
obra do artista e crítico de arte oitocentista John Ruskin, fá-lo deste modo,
ainda no prólogo: «O que é a civilização? Não sei. Não consigo defini-la em
termos abstractos – por enquanto. Mas penso conseguir reconhecê-la quando a
vejo; e neste momento estou a olhar para ela. Ruskin disse: «As grandes nações
escrevem as suas autobiografias em três manuscritos, o livro dos seus feitos, o
livro das suas palavras e o livro da sua arte. Nenhum destes livros pode ser
compreendido se não lermos os outros dois, mas dos três o único fidedigno é o
último”. Penso que isto é verdadeiro.»
Quem foi Kenneth Clark, ou melhor
Lord Clark? Nascido em Londres, numa família abastada, estudou primeiro no
Winchester College, uma escola privada masculina com mais de seis séculos, e
depois na ainda mais antiga Universidade de Oxford. Aos 27 anos foi nomeado
diretor do Museu Ashmolean de Arte e Arqueologia em Oxford e, três anos volvidos,
já estava à frente da National Gallery, o famoso museu londrino na Trafalgar
Square. Durante a Segunda Guerra Mundial, Clark viu-se forçado a esconder as preciosas
obras de arte numa mina no País de Gales, enquanto atraía o público ao museu
com numerosos concertos, que serviram para levantar o moral dos civis,
atormentados com a queda das bombas. Houve quase dois mil concertos que foram
ouvidos por mais de 550 000 espectadores. Nem todas as obras foram escondidas:
Clark inaugurou a exibição do «quadro do mês», uma iniciativa que ainda hoje se
mantém. Depois da guerra, tornou-se professor de Belas Artes em Oxford. Numa
reviravolta surpreendente aceitou dirigir em 1954 a Independent Television
Authority, a agência criada para supervisionar a televisão comercial, então
aparecida para concorrer com a BBC. Já fora da agência, Clarke fez alguns
programas sobre arte, a preto e branco, o primeiro dos quais, em 1958, Is
Art Necessary?, num canal privado. Em 1966 fez a série The Royal
Palaces, uma parceria público-privada, sobre o património da coroa
britânica. Civilização, o seu primeiro programa a cores, foi, porém, a
sua coroa de glória. Ficou mundialmente famoso pela sua autoria e apresentação,
acima de tudo pelo seu carisma que levou a arte a todos os tipo de público. Os produtores
Michael Gill e Peter Montagnon asseguraram as filmagens ao longo de três anos,
em 117 sítios de 13 países. Attenborough conseguiu encaixar o custo total,
exorbitante para a época, de 500 000 libras. Mas o resultado foi
compensador: a série foi vista na estreia por mais de 2,5 milhões de
espectadores britânicos e mais de 5 milhões de espectadores nos Estados Unidos,
o que era muito bom para um programa cultural. Estava estabelecido um padrão
para os grandes documentários televisivos.
Clark cometeu os seus erros, por
exemplo na atribuição de obras de arte que a National Gallery adquiriu, mas isso
não diminui em nada o extraordinário papel que teve na divulgação da arte. Ele
foi para a arte o que Sagan representou, em 1982, para a ciência, com a série
televisiva e o livro Cosmos. O livro Civilização em língua inglesa
nunca deixou de estar presente nas livrarias desde que saiu a primeira edição em
1969. Clark conseguiu fazer um programa televisivo e um livro intemporais! Tão
intemporais que a Tate organizou em 2014 uma exposição intitulada: «Kenneth
Clark: Looking for Civilization». E, em 2018, a BBC produziu uma nova série com
o título de Civilizações, da autoria dos críticos de arte Simon Schama,
Mary Beard e David Olusoga.
Apesar dos seus gostos estéticos,
algo conservadores, Clark era progressista na política: votava nos trabalhistas.
Do ponto de vista religioso, manifestou-se por diversas vezes contrário ao
ateísmo: achando a Igreja de Inglaterra demasiado secular, converteu-se ao catolicismo
pouco antes de morrer.
Entre os seus livros merecem destaque, a.C. (antes de
Civilização): Leonardo da Vinci: an Account of his Development as an
Artist (1939), Landscape Into Art (1949) e The Nude: A Study in Ideal
Form (1956). E d.C.: Animals and Men (1977), What is Masterpiece? (1979) e Feminine Beauty
(1980). Comprei
este último quando saiu e, passados mais de 40 anos, ainda o possuo. Em português, só havia duas traduções: O Nu. Um Estudo
sobre o Ideal da Arte (Ulisseia, 1967), com tradução de Ernesto de Sousa, e
Paisagem na Arte (idem, 1961).
Civilização centra-se nas artes plásticas.
Fala pouco sobre literatura, ciência e filosofia. Não fala de Cervantes e quase
não fala nem de Galileu nem de Kant. Nenhum português é mencionado, mas o
tradutor conta as relações próximas entre Kenneth Clark e Calouste Gulbenkian.
A colecção do arménio esteve quase a ficar em Londres…
O segundo: «Também continuo
apegado a uma ou duas convicções mais difíceis de sintetizar. Acredito, por
exemplo, na cortesia, o ritual pelo qual evitamos ferir os sentimentos dos
outros para satisfazermos os nossos próprios egos. E penso que devemos lembrar-nos
sempre de que somos parte de um grande todo, a que por comodidade chamamos
natureza. Todos os seres vivos são nossos irmãos e irmãs. Acima de tudo,
acredito que certos indivíduos receberam de Deus o dom do génio, e valorizo uma
sociedade que torna isso possível.»
Clark acrescenta: «A civilização
ocidental foi uma série de renascimentos. Isto tem de dar-nos confiança em nós
próprios». Mas previne: «Disse no início que é a falta de confiança, mais do
que qualquer outra coisa, que mata uma civilização. O cinismo e a desilusão
podem ser tão eficientes a destruir-nos como as bombas.»
O final não é muito optimista. O autor cita o poeta irlandês W. B. Yeats («Aos melhores falta‑lhes convicção, enquanto os piores/ Ardem de paixão intensa»). No filme, arruma a seguir o
livro na sua biblioteca, olha para uma escultura do seu amigo Henry Moore e sai
de cena. Dá que pensar: passado mais de meio século, estaremos mais confiantes?
A relação entre a floresta e a
cultura é inequívoca, apesar de nem sempre ser reconhecida. O astrofísico Carl
Sagan escreveu no seu livro Cosmos, saído em 1982: «O livro é feito de
uma árvore. É um conjunto de partes lisas e flexíveis (ainda chamadas folhas)
impressas em caracteres de pigmentação escura. Dá-se uma vista de olhos e
ouve-se a voz de outra pessoa, talvez alguém que já tenha morrido há milhares
de anos. Através dos milénios, o autor está a falar, clara e silenciosamente,
dentro da nossa cabeça, directamente para nós. A escrita foi talvez a maior das
invenções humanas, ligando as pessoas, cidadãos de épocas distantes que nunca
se conheceram. Os livros quebram as cadeias do tempo.»
De facto, quando leio Sagan estou
a ligar-me a um físico já falecido, recebendo a sua mensagem. Quando penso em
árvores, penso na possibilidade de delas surgirem livros e na capacidade
prodigiosa que esse meio tem de ligar seres humanos de todos os tempos históricos.
Uma árvore dá cerca de cem
livros. Dez árvores dão uma edição de mil exemplares e mil árvores dão uma
edição de dez mil exemplares: um best-seller raro entre nós, nos tempos
que correm. Poder-se-ia pensar que os livros – e o papel em geral, porque
também há as revistas e os jornais, além dos cadernos onde escrevemos – são
inimigos das florestas e da Natureza. Nada de mais falso: em primeiro lugar, o
papel não se faz a partir da Natureza selvagem, mas a partir de árvores que são
plantadas precisamente com esse fim. O tempo médio de uma árvore antes de se
converter em livro varia entre dez e vinte anos e essas plantações são constantemente
renovadas. Colhe-se e semeia-se logo a seguir. Além disso, esses valores pecam
por excesso uma vez que não incluem a reciclagem, que pode ser feita uma meia
dúzia de vezes. A reciclagem, que tem obviamente custos, é mais viável nas
revistas, nos jornais e no papel de escrita do que nos livros, que são
normalmente guardados.
Há quem pense que os livros
electrónicos vieram para substituir os livros em papel, com vantagens
ecológicas. Apesar do rápido avanço desses livros quando eles começaram, ele
cessou nos últimos anos: o Kindle da Amazon, surgido em 2007, prometia
uma revolução, mas ela não aconteceu na medida do que se previa: os ebooks
só constituem 20% das vendas no mundo.
Os jovens estão sempre a usar o
telemóvel não só para chamadas mas também para participarem em redes sociais e
para jogarem, e não para lerem livros. Os que os lêem, por exemplo o Harry
Potter, ainda o fazem em papel. Estou em crer que esse formato nunca será
substituído, uma vez que um livro tem o design perfeito para as funções
que cumpre. Falta também provar que a renovação dos aparelhos electrónicos assegura
aos ebooks a mesma duração que tem tido o livro em papel (vários
séculos!) e ainda que a substituição do material electrónico não origina
problemas ambientais.
Portugal tem uma grande mancha
florestal com conhecidos problemas, que vão desde a ameaça pelos incêndios, que
as alterações climáticas favorecem, até às dificuldades de gestão associadas à
repartição por inúmeros proprietários privados, muitos deles absentistas. As
florestas de produção, apenas em parte para o fabrico de papel, têm entre nós um
problema de imagem, porque muita gente, a maior parte nos centros urbanos, não
conhece bem a realidade florestal, e também porque alguns não se apercebem da
relação estreita entre as árvores e os livros.
Cultivar florestas é ajudar a
fazer cultura. A palavra “cultura”, do latim culturae, tem a ver com
“tratar”, “cuidar”. Originalmente o conceito era tratar das plantas. Mas depois
ele passou a incluir o cuidado com as pessoas: desenvolver capacidades nos
seres humanos desde a mais tenra idade. Não só as duas acepções são
compatíveis, como também estão bem próximas. Não há cultura sem livros, não há
livros sem papel e não há papel sem árvores. A cultura e a silvicultura podem e
devem caminhar a par, fazendo silvicultura sustentável. A chave será sempre
plantar e cuidar.
Volto a Sagan: “Os livros
permitem-nos viajar através do tempo, beber na própria fonte o saber dos nossos
antepassados. A biblioteca põe-nos em contacto com as concepções e o saber, a
custo extraídos da natureza, das maiores mentes até agora existentes, com os
melhores professores, provindos de todo o planeta e de toda a nossa história,
para nos instruírem sem nos fatigarem e para nos inspirarem a dar nossa
contribuição ao saber colectivo da espécie humana.” Eu não saberia dizer melhor.
Poema recebido de Eugénio Lisboa:
PORTAL DA QUEIXA
LAMENTOS DE UM POETA MENOR
EM DIA DE GRANDE DEPRESSÃO
1
A TODOS OS MEUS AMIGOS,
A QUEM COSTUMO FALAR,
E MESMO AOS INIMIGOS
QUE NUNCA HÃO-DE FALTAR,
2
AQUI, QUEIXOSO, ME QUEIXO
DOS LIMITES QUE ME TOLHEM
E A TODOS ELES DEIXO
QUEIXAS QUE NÃO ENCOLHEM.
3
AS MINHAS QUEIXAS SÃO VÁRIAS,
DESDE NUNCA PERCEBER
OBRAS EXTRAORDINÁRIAS
DE TANTOS GÉNIOS A HAVER!
4
DESDE A GRANDE AGUSTINA,
POR TANTOS TÃO CELEBRADA,
MAS COM A QUAL NÃO ATINA
MINHA MENTE TÃO MINGUADA,
5
EU BEM TENTO, PORQUE QUERO,
A TODO O CUSTO ENTENDER
O TALENTO VASTO e FERO
QUE NELA ANDAVA A FERVER!
6
MERGULHO NA OBRA DELA,
DECIDIDO A SORVER
TODO O GÉNIO QUE HÁ NELA,
PARA DAR E PRA VENDER
7
ELA ESCREVE, ESCREVE, ESCREVE,
ESCREVE SEMPRE SEM PARAR;
NELA NUNCA NADA É BREVE,
ANTES GOSTA DE ABUNDAR.
8
NUNCA PENSA NO QUE FAZ,
QUE O PENSAR É SÓ PRÓS POBRES.
DE PARAR É INCAPAZ,
SEM TRAVÕES NOS SEUS ALFOBRES.
9
SE O GÉNIO É BEM DIFERENTE
E MAIS FORTE QUE O PENSAR
E SE ESTE NÃO METE O DENTE
NAQUELE ABUNDANTE MAR,
10
QUE É A OBRA DA AGUSTINA,
COMO HEI DE EU LÁ CHEGAR,
SE A MINHA PEQUENINA
FERRAMENTA DE SONDAR
11
É SOMENTE A RAZÃO
QUE O GÉNIO DELA DESPREZA,
PORQUE SONDA À PAI ADÃO
QUEM A RAZÃO MUITO PREZA!
12
MAS A AGUSTINA É SÓ UMA,
DE TANTOS GÉNIOS QUE ABUNDAM,
NESTE PAÍS, ONDE, EM SUMA,
TANTOS GÉNIOS VAGABUNDAM.
13
HÁ GONÇALOS E LOURENÇOS,
HÁ TAMBÉM VELHOS DA COSTA,
TUDO GÉNIOS TÃO IMENSOS,
FICA A GENTE INDISPOSTA!
14
ALGUNS LANÇAM A LLANSOL,
BÓLIDO EXTRA-TERRESTRE,
QUE, VINDO DE AO PÉ DO SOL,
PROCURA VIDA SILVESTRE!
15
ESCREVEM POR HIERÓGLIFOS,
QUE TÊM POR DESLUMBRANTES,
TANTO COMO OS GEÓGLIFOS,
OS EDUARDOS FLAMEJANTES!
16
O GONÇALO, TÃO FECUNDO,
ENCHE LONGAS PRATELEIRAS,
COM SEU GÉNIO, TÃO PROFUNDO,
DE PALAVRAS VAREJEIRAS.
17
A MARIA VELHO DA COSTA
GOSTA MUITO DA LINGUAGEM,
SE ESTA SÓ SE ENCOSTA
AO SOM QUE NÃO TEM MENSAGEM.
18
SÃO TANTOS, APÓS CAMÕES,
NESTA PÁTRIA BEM AMADA,
QUE SE ESGOTAM EMOÇÕES
NESTA TERRA BEM LAVRADA.
19
JUNTO DELES, FICO HUMILDE,
DIMINUÍDO, PEQUENO:
RIMO HUMILDE COM CLOTILDE
E PEQUENO COM COSSENO
Eugénio Lisboa, que ficou
um pouco mais aliviado,
depois deste desabafo,
mas não completamente!
“De repente as portas abrem-se e vemos um homem patético, simples, pequeno, igual a qualquer um, não tinha chifres, nada. E este homem tinha...