quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

TEMPO E RELÓGIOS

 


Minhas respostas ao jornalista Fernando Correia de Oliveira, director do Anuário dos Relógios (AR) que acaba de publicar num número especial comemorativo dos 25 anos:

AR – O que é o tempo? 

CF- Não é fácil definir. Já Santo Agostinho dizia que sabia o que era se não lhe perguntassem, mas já não sabia se lhe perguntassem. O tempo é uma grandeza física, portanto mensurável com instrumentos a que chamamos relógios. Os primeiros relógios derivavam do movimento do Sol, mas também do fluxo de queda de água ou de areia sujeito à gravidade. Mas hoje dispomos de relógios atómicos extraordinariamente precisos, sendo previsíveis que surjam relógios nucleares, ainda mais precisos. Apesar da definição do segundo – a unidade básica de tempo - assentar hoje em experiências atómicas, a sua origem está nos céus: o ano de 365,25 dias é o tempo que a Terra demora a dar uma volta ao Sol, cada dia tem 24 horas, cada hora 60 minutos e cada minuto 60 segundos (se o número de dias é dado pela astronomia, o número de horas, de minutos e de segundos são convenções humanas, enraizadas na história).

AR – Usa relógio? Herdou algum de família? 

CF- Já usei, mas não uso há algum tempo. Para mim é mais prático ver o tempo no telemóvel. Tive e tenho vários relógios, o primeiro dado pelos meus pais (um Cauny, quando fiz a 4.ª classe). Herdei com os meus irmãos relógios de pulso dos meus pais, todos eles pouco sofisticados. Na minha casa de criança não havia um relógio de parede, mas hoje tenho na cozinha um relógio de parede, dos que se compram no Ikea, que dá muito jeito. E uso um radiodespertador barato na mesa de cabeceira, que me acorda com as notícias. 

AR– Há algum relógio que gostasse de ter? 

CF- Não. Em vez de gastar dinheiro em relógios, prefiro gastar em livros que apresentem cronologias ou que falem sobre os mistérios do tempo. Claro que admiro a engenharia e a arte de alguns relógios, que vejo na publicidade. Fico pasmado com o preço que custam certos relógios, como os Patek Philippe, que segundo os anúncios servem de elo material entre as gerações. 4

AR– Como gere o seu tempo? 

CF- Uso, como muita gente neste tempo tecnológico, a agenda do Google. Quando tinha uma vida mais agitada, tinha alguém que me ajudava a gerir, mas hoje sou eu. Costumo olhar para a agenda com cuidado, mas já me aconteceu enganar-me. Fiquei muito arreliado comigo próprio. 

AR – Fale-nos da relação entre Ciência, Tempo e Relógios 

CF- Os físicos usam a variável tempo, que eles medem com os relógios, nas suas equações. Uma das suas dificuldades é que, nas equações que descrevem o movimento de partículas, o tempo é reversível: tanto faz andar para a frente ou para trás. Sabendo nós que há uma “seta do tempo”: o Universo vai do passado para o futuro (este é o teor da Segunda lei da Termodinâmica) e não ao contrário , a questão – de modo nenhum não resolvida ¬– é como se passa do tempo reversível à escala microscópica para o tempo irreversível à escala macroscópica. Este é um dos grandes mistérios do tempo. Mas há outros: serão o tempo e o espaço contínuos, como parecem ser, ou haverá na última escala um “quantum” de tempo, que seria então uma unidade natural? 

AR-  – Portugal, como sociedade, que relação tem com o Tempo? 

CF- Fiz o meu doutoramento na Alemanha e lá o tempo é levado a sério: no dia-a-dia universitário seja na vida em geral, incluindo os transporte públicos. Horas são horas. Por exemplo, se chegar, ainda que por escassos segundos, atrasado a um seminário, todos reparam. Os portugueses têm uma relação muito mais relaxada com o tempo do que os alemães e outros povos do Centro e Norte da Europa. Nas universidades há um atraso estabelecido de um quarto de hora. Marca-se um encontro com alguém muitas vezes sem precisar com exactidão a hora (“lá para a tardinha”). Os transportes chegam quando chegam. Eu gosto de ser pontual, porque a vida colectiva funciona muito melhor dessa maneira. Só podemos ser desenvolvidos – e ricos – se respeitarmos o tempo. O meu pai não me deixou relógios caros, mas deixou-me um conselho que me é muito caro: “o tempo ganha-se em casa.” Quer dizer: numa viagem não se deve acelerar desalmadamente se se partiu tarde, mas sim da próxima vez partir mais cedo. O meu pai aprendeu isso à sua própria custa, pois um dia, a guiar um carro, teve um acidente que prejudicou a sua carreira profissional só porque ia com demasiada pressa. Hoje, se me atrasar, comunico que vou atrasado, pedindo desculpa, não tentando nunca “milagres” para chegar a tempo.

EM LOUVOR DA HUMILDADE


Meu capítulo do livro "Breve Tratado das Virtudes Desportivas" que saiu do prelo da Universidade Católica, coordenado por Alexandre Palma e João Eleutério:

Introdução

 Na tradição cristã o maior dos sete pecados mortais, uma lista atribuída ao papa Gregório I no século VI, é o orgulho (do frâncico urguli, que significa excelência), a que por vezes se chama soberba (em latim, superbia). Contra elas são elencadas sete virtudes capitais: contra o orgulho ou soberba é necessária humildade (humilitas). O étimo latino de humildade significa “baixo”, “com pouca elevação”. O adjectivo humilis designa o que está no solo ou perto dele, quer dizer.  Essa palavra está na base de húmus ou humo, a matéria orgânica depositada no solo pela deterioração de animais e vegetais. É muito curioso que a palavra “homem” (do latim homo, hominis) pertence à mesma família etimológica. A associação terá a ver com o facto de os seres humanos ocuparem a Terra, em claro contraste com os deuses, cuja morada é celestial. E talvez também com o facto de, após a morte, regressarem, em geral, à terra.

 Por que razão o orgulho é, na perspectiva da religião cristã, considerado tão negativo? Precisamente porque o que está em baixo contrasta com o que está no alto. Constitui um grave pecado que um ser humano, inconsciente das suas limitações, pretenda alcandorar-se ao lugar dos deuses, na cultura greco-latina, ou de Deus, na cultura que lhe sucedeu no Ocidente. Na Antiguidade os deuses eram tão poderosos como caprichosos. Deus é, no quadro da religião cristã, o único ser omnisciente e omnipotente.

Já os antigos gregos criticavam a húbris (em grego “hybris”), que significa orgulho desmedido, presunção extrema, arrogância contra os deuses, e que foi o tema de várias histórias mitológicas, que continham ensinamentos morais. A prática da húbris significa ir além dos limites considerados naturais, exceder aquilo que, ainda que de forma apenas implícita, está estabelecido. O castigo dos deuses para a húbris era a némesis, isto é, a vingança que consiste no retorno aos limites que foram indevidamente transpostos.

O Cristianismo recebeu de herança esse sentimento maléfico de excesso de limites, considerando grave pecado grave o orgulho e uma notável virtude a humildade. No Livro dos Provérbios do Antigo Testamento, encontramos sentenças como «Ele [Deus] zomba dos zombadores, mas concede graça aos humildes» (3:34), «Quando vem o orgulho, chega a desgraça, mas a sabedoria está com os humildes» (11.2), ou «O orgulho vem antes da destruição» (16:18). No Novo Testamento encontramos frases do mesmo teor como «Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança» (Mateus 5:5), «Pois todo aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado, e todo aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado» (Mateus 23:12) e «Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a vocês mesmos» (Filipenses 2:3).

Para Tomás de Aquino, o filósofo medieval italiano que conseguiu a “quadratura do círculo” ao fundir uma parte da visão antiga com a cristã, a humildade consistia em «conservar-se dentro dos seus próprios limites, não tentando alcançar coisas acima de si, mas submetendo-se ao que lhe é superior» (Summa Contra Gentiles, Aquino 2017, livro IV, cap. LV). Na teologia do século XX, o escritor norte-irlandês C. S. Lewis, o bem conhecido autor das Crónicas de Nárnia, escreveu: «Foi através do orgulho que o demónio se tornou demónio: o orgulho leva a todos os outros vícios: é o estado de espírito completamente anti-Deus» (Lewis 2001). É-lhe também atribuída a frase: «humildade não é pensar menos de si mesmo, mas pensar menos em si mesmo.»  Apesar de a inspiração poder provir de Lewis, a frase deve antes ser creditada ao pastor protestante e escritor norte-americano Rick Warren, autor do best-seller The Purpose Driven of Life (Warren 2012).

O sentido religioso – etimologicamente religião significa ligação – obriga a humildade, pois na aderência a uma religião expressa-se a necessidade de estar com os outros, partilhando com eles crenças e expectativas. A humildade é a virtude que consiste no reconhecimento das limitações tanto do género humano como do próprio  indivíduo e na prática conduzida por essa consciência. Uma pessoa humilde respeita os outros: não se exibe nem se vangloria, considerando-se superior aos demais.

 Humildade na filosofia e na ciência

 A virtude da humildade excede hoje largamente o quadro da religião cristã. Basta notar que várias religiões orientais, como o budismo e o hinduísmo, incorporam conceitos bastante semelhantes. E excede o quadro de qualquer religião. Há uma ética que defende a virtude da humildade, independentemente de qualquer concepção religiosa. Basta  notar que o filósofo materialista e ateu francês André Comte-Sponville incluiu a humildade na sua lista de 15 virtudes do seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes (Comte-Sponville 1995). No quadro da filosofia, fala-se de humildade intelectual como uma virtude epistémica: consiste na assumpção da nossa capacidade de errar. Mesmo o maior dos sábios deve ter a humildade de reconhecer  que pode, a respeito de um ou de outro assunto, numa ou noutra ocasião,  estar enganado. Segundo a epistemologia popperiana, aprende-se e há progresso sempre que se reconhece o erro (Popper 2018).

 Mas a humildade intelectual é muito anterior ao filósofo inglês de origem austríaca Karl Popper.  O filósofo alemão Immanuel Kant, uma pessoa humilde que fez toda a sua vida de uma forma rotineira na mesma cidade, achava conciliável a ousadia iluminista de querer saber mais com a humildade, que para ele era, nas palavras da professora de Filosofia norte-americana Jeanine Grenberg, «a meta-atitude que constitui a perspectiva adequada do agente moral sobre si mesmo como um agente racional dependente e corrupto, mas capaz e digno» (Grenberg 2010). Já no século XX, o físico suíço e norte-americano, nascido na Alemanha, Albert Einstein, leitor de Kant na sua juventude e também ele uma pessoa humilde apesar de todo o reconhecimento que recebeu em vida, ao escrever sobre a inteligência, acentuou a necessidade de humildade que ela deve ter perante o mundo (Einstein 2018: 332):

 «Fomos dotados de inteligência apenas suficiente para conseguirmos ver claramente como essa inteligência é completamente desadequada quando somos confrontados com tudo o que existe. Se esta humildade pudesse ser conferida a toda a gente, o mundo das iniciativas humanas tornar-se-ia mais apelativo.»

 Na mundividência de Einstein, o mundo não está completamente libertado de Deus, pois, num certo sentido, o próprio mundo é Deus. A nossa inteligência sente-se pequena perante ele, o que nos obriga a ser humildes. Podemos, no caso de Einstein, falar de reverência perante o mistério do mundo (Fiolhais 2005).

Uma cientista que Einstein muito admirava, a físico-química francesa Marie Curie ou Madame Curie, nascida Sklodowska na Polónia, único prémio Nobel em duas disciplinas científicas diferentes, era também uma figura humilde, completamente dedicada ao seu trabalho e à sua família. Ficou proverbial o seu continuado espírito de missão à ciência e o seu alheamento relativamente às glórias do mundo. Sobre ela disse Einstein que «de todos os seres celebrados, foi o único a quem a fama não corrompeu.» Embora a maioria dos cientistas tenham sido, como Einstein e Madame Curie, pessoas humildes, a verdade manda dizer, dizer que a história da ciência revela a existência de sábios arrogantes ou com laivos de arrogância, como foi o caso do físico inglês  Isaac Newton, que tentou, por vários meios, denegrir a obra dos outros para enaltecimento da sua. A peça Cálculo, do bioquímico e dramaturgo norte-americano Carl Djerassi (Djerassi 2012), transmite de um modo literário o seu desencontro com o filósofo alemão Gottfried Leibniz, mas ele esteve longe de ser caso isolado.

 No mundo económica e socialmente competitivo em que vivemos  hoje pululam os livros de auto-ajuda em que a humildade é nomeada e louvada. Tornou-se um elemento de marketing, apesar de raramente a vermos praticada de forma genuína.  A verdadeira humildade, que é inequivocamente uma virtude por nos permitir viver tranquilamente respeitando os outros, não pode ser confundida com a falsa humildade, personalizada na literatura pela figura de Uriah Heep no romance David Copperfield do inglês Charles Dickens (Dickens 2011), que tem comportamentos fraudulentos enquanto se apresenta como uma pessoa humilde. Heep diminui-se apenas para receber a apreciação dos outros e ganhar a confiança deles.

 A humildade no desporto

 Nos Jogos Olímpicos da Antiguidade, que começaram, na Grécia em 776 a.C., tendo durado até 80 a.C., os atletas eram recompensados não só com  a imposição de láureos na fronte, mas também como a sua representação em estátuas e como tema dos poetas. Assemelhavam-se, portanto, pelo menos temporariamente, aos deuses. Mas, sendo humanos, não podiam deixar de se lembrar da sua modesta posição.

 O desporto é, muitas vezes, considerado uma “escola de virtudes”. Uma delas é decerto a humildade. O filósofo do desporto Manuel Sérgio, ele próprio um sábio humilde (que gosta, quando fala de desporto, de pedir desculpa por saber tão pouco),  é um autor que tem repetidamente salientado o valor da humildade no desportista ou noutras pessoas que intervêm no fenómeno desportivo.  Conheci-o pessoalmente em 2005 quando ele me solicitou um prefácio para o seu livro Para uma Epistemologia do Desporto (Sérgio 2005 e Fiolhais 2021). Pude testemunhar, a par da sua viva inquietação filosófica, o sentimento de humildade que é apanágio dos verdadeiros filósofos.

No quadro do pensamento sergiano (de Manuel Sérgio, António Sérgio que me desculpe), um jogador ou um treinador ou um dirigente desportivo podem mostrar a sua qualidade sem necessitar de se auto-proclamar como “o melhor”, depreciando os outros. Um jogador pode ser muito talentoso, mas deve reconhecer os limites das suas capacidades, respeitando com isso as capacidades dos outros. O reconhecimento é sempre mais justo e, portanto, mais verdadeiro e mais duradouro, quando é feito pelos outros. Além do mais, uma vitória ou um bom resultado podem ser seguidos por uma derrota ou por um mau resultado, a um dia de glória pode seguir-se um dia de frustração. Só um conjunto bem arreigado de valores – no qual se incluem a vontade de ganhar, mas também a humildade nas vitórias ou nos bons resultados – pode sustentar uma carreira prolongada. Como diz uma  frase que é vox populi “ganhar ou perder, tudo é desporto.” Manuel Sérgio, o autor, entre vários outros, dos livros Filosofia do Futebol (Sérgio 2009),  Crítica da Razão Desportiva (Sérgio 2012), e Para uma Epistemologia da Motricidade humana (Sérgio 2018),  disse-o de uma outra maneira: «O desporto não pode ser uma guerra. O desporto tem de ser encontro, tem de ser abraçar os outros. Eu costumo dizer que não há jogos, há pessoas que jogam.»

 Muitos desportistas, em modalidades individuais ou colectivas, que pensaram orgulhosamente que iam ganhar, acabaram por ter amargas desilusões precisamente porque os outros foram mais humildes. Ser humilde não significa não ter auto-estima e confiança: significa antes reconhecer que os outros também têm auto-estima e confiança. Há, em cada circunstância, que ter a humildade de reconhecer que o talento, individual ou colectivo, por muita singularidade que tenha ou pareça ter, está bastante bem distribuído no mundo. É precisamente esta uma das características que tornam o desporto tão interessante. Conforme disse sabiamente o futebolista João Pinto, antigo defesa do Futebol Clube do Porto e da selecção nacional, quando lhe perguntaram quem ia ganhar uma partida: “Prognósticos só no fim do jogo.”

 Três exemplos desportivos

 São vários os exemplos que podia escolher de grandes atletas portuguesas que são exemplos de grande humildade, uma atitude que nunca lhes prejudicou a carreira desportiva, bem pelo contrário, projectando-a para patamares elevados. Escolho – esperando que os outros me desculpem – três grandes nomes, conhecidos de todos, ligados a três modalidades, uma colectiva, uma individual e outra que tanto pode ser individual como colectiva: o futebol, o ciclismo e a canoagem. Falarei aqui brevemente dos feitos e das atitudes de Eusébio Ferreira, Joaquim Agostinho e Fernando Pimenta, não deixando de dar conta da minha relação de proximidade emocional com eles.

Já contei noutro lado (Rodrigues e Pinheiro 2016) o que foi a entrada na minha segunda década, aos dez anos, a ver na televisão o que fez Eusébio, de seu nome completo Eusébio da Silva Ferreira, no memorável jogo de Portugal contra a Coreia do Norte no Campeonato Mundial de Futebol de 1966, realizado em Inglaterra. Ninguém ganha jogos de futebol sozinhos, mas esse jogo foi ganho quase só por Eusébio, um atleta verdadeiramente excepcional, que, tendo tido uma origem humilde em Lourenço Marques (hoje Maputo), em Moçambique, permaneceu fiel a essa sua origem, nunca se deslumbrando com os grandes sucessos que foi conhecendo em Portugal e no mundo. Dos cinco golos nacionais nos 5-3 contra a Coreia, quatro foram seus (o último foi do seu companheiro José Augusto). Esses golos ficaram lendários porque, aos 25 minutos de jogo, a Coreia já ganhava a Portugal por 3-0: foi uma “reviravolta épica”.  De cada vez que Eusébio metia um golo, agarrava na bola e trazia-a rapidamente ao meio do campo, porque o jogo não estava acabado.  Declararia anos mais tarde: «Eu acho que o melhor golo foi o terceiro, o golo do empate. E quando fiz o terceiro, respirei fundo.» Poucos dias depois o mesmo Eusébio, o que se sagrou o melhor marcador desse campeonato, com um total de 9 golos, chorava depois de perder com a Inglaterra por 2-1 (golo português de Eusébio, de penálti,  quase no final, amenizando a derrota): os ingleses tinham sido os melhores em campo, ou pelo menos tinham marcado mais golos que é o que conta para a decisão desportiva. Mas ganhar ou perder, tudo é desporto. No jogo para o terceiro lugar contra a Rússia, Portugal ganhou por 2-1: Eusébio executou, perto do início, um penálti contra um dos melhores guarda-redes de sempre em todo o mundo, Lev Yashin. O jogador nacional, que cumprimentou cordialmente o guarda-redes depois de marcar golo, afirmou no fim do jogo, bastante feliz, mas humilde: «Disse-lhe que ia marcar para a esquerda e marquei mesmo. Não engano os amigos.»

Pode Eusébio ter ganho 11 campeonatos pelo Benfica, ter sido o melhor marcador em três Taças dos Campeões Europeus e ter sido, em 1965, o melhor jogador europeu (“Bota de Ouro”), mas a sua maior virtude na vida foi a humildade. Essa foi, de resto, a sua marca mais lembrada quando faleceu em 2014, um evento que causou grande consternação nacional.

O segundo exemplo diz respeito ao ciclismo de estrada. No Verão de 1973 eu tinha acabado o sétimo ano dos liceus e preparava-me para entrar na Universidade de Coimbra. Passei férias, num parque de campismo, na Figueira da Foz. Foi assim que pude assistir ao vivo à chegada de Joaquim  Agostinho numa etapa memorável da volta a Portugal  que se desenrolou entre Abrantes e Figueira da Foz, por vias que na época não estavam no melhor dos estados. O atleta do Sporting chegou com 12 (doze!) minutos de avanço sobre o seu mais directo rival, o benfiquista Fernando Mendes. O que se passou? Pois o sucedido soube-se depois. Agostinho tinha parado para urinar e, quando voltou ao pelotão, deu pela falta de Mendes. Logo arrancou atrás dele, apanhou-o num ápice (quando passou por ele terá dito: «Acompanha-me agora se és capaz…») e continuou a aumentar o seu avanço até à meta (Tovar 2017). Não atendeu aos pedidos de Artur Agostinho, o jornalista ligado à organização da Volta (sem qualquer relação familiar com o atleta), para abrandar um pouco, pois estava a “matar” a competição. As palavras atribuídas a Joaquim Agostinho não significam que o ciclista era arrogante, bem pelo contrário. Nascido de origem humilde numa aldeia de Torres Vedras, continuou humilde depois de entrar, só aos 25 anos, no mundo do ciclismo (tinha aprendido a pedalar só aos 23), onde logo revelou os seus dotes: ele era uma verdadeira “força da Natureza”.  Foi o seu espírito humilde que ajudou a ganhar não só três Voltas a Portugal como a obter um segundo lugar na Volta a Espanha e dois terceiros lugares na Volta a França, onde teve 13 participações com um total de oito classificações nos dez primeiros lugares. Teve um lendário triunfo em 1979 numa etapa de montanha nos Alpes Ocidentais que terminou no Alpe d’Huez, ao fim de um percurso de uma luta intensa contra o desnível que revela os grandes campeões (foi erigido um busto de Agostinho numa das curvas desse itinerário). Lembro-me de ouvir, na rádio, o relato dessa prova.

Agostinho morreu a 19 de Maio de 1984, dez dias depois de ter caído da sua bicicleta quando liderava a Volta ao Algarve. Essa queda foi devida à travessia da estrada por um cão, muito perto da linha de chegada à meta na Quarteira. Ainda terminou a etapa, ajudado por colegas de equipa, mas foi-lhe diagnosticado um grave traumatismo craniano. De pouco lhe valeram os melhores cuidados médicos que lhe foram prestados nos Hospitais de Faro e da CUF, em Lisboa. Eu já era professor auxiliar na Universidade de Coimbra, pouco mais de um ano volvido sobre o meu doutoramento na Alemanha, quando tudo isso se passou e fiquei, como todo o país, desgostoso com o trágico fim, aos 43 anos, de  um campeão, ocorrido em plena prova.

Por último, um exemplo da canoagem, uma modalidade que tem tido grande expansão em Portugal nos últimos tempos. Tive a oportunidade de conhecer o canoísta Fernando Pimenta, num jantar promovido em 2019 pelo Ginásio Clube Figueirense para entrega dos Prémios Nacionais Bento Pessoa (José Bento Pessoa foi um ciclista figueirense pioneiro da modalidade entre nós na passagem do século XIX para o XX), que incluíram  um prémio a uma cientista figueirense a trabalhar nos Estados Unidos, Sílvia Curado, que tive a honra de representar. Impressionou-me a humildade do atleta, natural de Ponte de Lima, que eu admirava pelas suas extraordinárias prestações desportivas. No jantar, permaneceu sempre atento ao que podia comer e depois dele não demorou a recolher-se, uma vez que, no dia seguinte, de manhã cedo, o esperava mais um treino na vizinha pista de Montemor-o-Velho. Ele pertence ao areópago de cinco portugueses que conquistaram duas medalhas olímpicas: ganhou a medalha de prata de K3 1000 m nos Jogos Olímpicos de Londres, juntamente com o seu colega Emanuel Silva e ganhou a medalha de bronze na categoria de 2012 de K1 1000 m nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, realizados em 2021. Além disso, foi campeão do mundo em Racice, na República Checa, em K1 5000 m, depois de, no dia anterior, ter obtido a medalha de prata em K1 1000 metros. Em vários campeonatos do mundo de canoagem, conquistou um total de três medalhas de ouro, três de prata e quatro de bronze. E, em campeonatos europeus da modalidade, obteve 5 medalhas de ouro, 6 de prata e 7 de bronze. Num dia se ganha e noutro dia quase se ganha, porque há outros igualmente talentosos e preparados.  Há que saber ganhar e saber perder.

Não era preciso Fernando Pimenta declarar-se humilde para reconhecer a sua humildade. Mas, à partida para os Jogos de Tóquio, o atleta, com 32 anos, proferiu estas palavras: «Vou dar tudo por tudo para conseguir o melhor resultado possível. Já o fiz durante este tempo todo de preparação, com inúmeros sacrifícios, e agora vou desfrutar do processo da competição. Os portugueses podem contar com o Fernando Pimenta de sempre: lutador, sonhador, ambicioso, humilde e com muita vontade de representar Portugal e de conquistar um grande resultado» (O Minho 2021). Não foi preciso dizer que ia ter uma nova medalha para a conseguir. À chegada a Lisboa, declarou que já tinha na sua mente os Jogos Olímpicos de Paris, a realizar em 2024.

 Conclusão

 A humildade é uma virtude desde tempos antigos. É reconhecido o seu valor na filosofia, na ciência e na vida. E também no desporto, essa área da vida na qual tanto a filosofia como a ciência importam, como tem vindo a defender Manuel Sérgio. Eusébio Ferreira, Joaquim Agostinho e Fernando Pimenta, este último ainda em actividade, são exemplos de atletas portugueses que chegaram aos píncaros da glória desportiva, sem nunca terem perdido o sentido de humildade. Atrevo-me a dizer que chegaram aos píncaros porque, tendo talento, trabalho e auto-confiança, souberam ser humildes.

Carlos Fiolhais

 

Referências

 

- Aquino, Santo Tomás de. 2017.  Suma Contra os Gentios. Campinas: Ecclesiae, livro  IV, Cap LV.

- Comte-Sponville, André. 1995.  Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. Lisboa: Presença.

- Dickens, Charles. 2011. David Copperfield. Lisboa: Relógio d’Água.

- Djerassi, Carl. 2012. Cálculo. Peça em dois actos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, com prefácio de Carlos Fiolhais.

- Einstein, Albert. 2018. Citações de Einstein. A Coletânea Definitiva. Col. e org. por Alice Calaprice. Lisboa: Relógio d’Água.

- Fiolhais, Carlos. 2005. «Einstein e a Religião», Estudos. Nova sér. n.º 4, 323- 329.

https://eg.uc.pt/bitstream/10316/12369/3/einstein_e_a_religiao.pdf

- Fiolhais, Carlos, 2021, «Para uma ciência da complexidade: Um conceito-chave no pensamento de Manuel Sérgio», in Franco, José Eduardo e Real, Miguel. 2021. Pensar à Frente: Corporeidade, Desporto, Ética, Cultura e Cidadania - Estudos sobre Manuel Sérgio, Porto: Afrontamento, pp. 13-24.

- Grenberg, Janine. 2010. Kant and the Ethics of Humility. A Story of Dependence, Corruption, and Virtue. Cambridge: Cambridge University Press.

- Lewis, C. S.  2001, Mere Christianity, Grand Rapids – Michigan : Zondervan.

- O Minho 19/7/2021

https://ominho.pt/podem-contar-com-o-fernando-pimenta-de-sempre-lutador-sonhador-ambicioso-e-humilde/

- Popper, Karl. 2018. Conjeturas e Refutações. Lisboa: Edições 70.

- Rodrigues, César e Pinheiro, Jacinto. Mundial 66 Olhares. Porto: Afrontamento.

- Sérgio, Manuel. 2005. Para um novo paradigma do saber e.… do ser.  Coimbra: Ariadne, com prefácio de Carlos Fiolhais.

- Sérgio, Manuel. 2009. Filosofia do Futebol. Lisboa: Prime Books.

- Sérgio, Manuel. 2012. Crítica da Razão Desportiva. Lisboa: Piaget .

 - Sérgio, Manuel. 2018. Para uma Epistemologia da Motricidade Humana. Lisboa: Nova Veja.

- Tovar. Rui. 2017. «A Volta a Portugal. As 10 melhores histórias». Observador 4/08/2017.

https://observador.pt/especiais/volta-portugal-agostinho-chagas-venceslau-plaza/

- Warren, Rick. 2012, The Purpose Driven Life: What on Earth am I here for? Grand Rapids – Michigan :  Zondervan.

 

 


segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

AVISO POR CAUSA DAS COISAS OU: OS HOMENS SEM CABEÇA

Novo texto de Eugénio Lisboa:

Se me cortassem a cabeça, a minha capacidade de pensar ficaria francamente diminuída. 
Bertrand Russell 

 Da epígrafe roubada a esse gamin que dava pelo nome de Bertrand Russell, o qual, em co-autoria com Alfred North Whitehead, publicou o famoso PRINCIPIA MATHEMATICA, pode concluir-se que há toda a vantagem em conservarmos, pela vida fora, a cabeça com que nascemos. Uma sociedade de decapitados teria uma probabilidade diminuta de dar uma contribuição séria ao avanço da Filosofia e da Ciência. 

Embora alguns chefes de regimes que se propuseram instalar o céu na Terra tenham preferido fazê-lo, cortando as cabeças a um aflitivo número de cidadãos recalcitrantes – logo, perigosos – também não é líquido que regimes de maior liberdade tenham sistematicamente produzido cidadãos que conservam intactas as suas cabeças. A verdade é que, como dizia Huxley, o acto de pensar é a excepção à regra de não pensar. Pensar pela sua própria cabeça, embora apoiado no esforço de pensadores antecedentes, exige trabalho e coragem. Dá muito mais fáceis dividendos ir com a corrente dominante e não causar ondas de inquietação. Em termos de carreira e de glória, chega-se lá mais facilmente, aceitando os dogmas em vigor, do que contrariando-os, quase sempre com sofrimento. Os frutos da terra caem mais provavelmente no colo dos conformistas. Ser Galileu não ajuda. Uma carreira universitária bem oleada não se faz, preferencialmente, com ideias originais, antes investigando afanosamente quais os evangelhos em vigor e seguindo-os com mansidão. O vigor de uma ideia que desarruma o statu quo incomoda os proprietários do saber, preferindo estes a devoção canina dos que seguem os caminhos já muito percorridos e confortavelmente acarinhados. 

 A surpresa desagradável é que esta glória conformista é fluentemente conseguida mas dura, de modo geral, muito pouco. Ao chato do Galileu chegaram quase a cortar-lhe a cabeça, mas, tendo ele insistido em conservá-la, com grande astúcia e engenho, a sua glória ficou para sempre e a dos seus perseguidores desapareceu. De Galileu, ficou o eternamente cintilante “E, contudo, move-se”, mais um punhado de leis que não esquecem, ao passo que, dos seus perseguidores, restou apenas o emblema infame: “Quot non fecerunt barbari fecerunt Barberini” (“O que não fizeram os bárbaros fizeram os Barberini”). 

As nossas faculdades de letras estão cheias de dogmas inamovíveis, guardados religiosamente por guardiões determinados e rigorosamente sem cabeça, ansiosos, por sua vez, por cortar as cabeças dos refilões com o abominável hábito de pensarem por si e de declararem singelamente o que encontraram. Aqueles que gostam de encontrar o já encontrado e muito venerado têm uma glória rápida mas de curta duração. O parvo de cabeça teimosamente em cima dos ombros demora a saborear os frutos da glória, mas tem-na melhor assegurada e de muito maior duração.

 Ninguém gosta tanto de cortar cabeças como aqueles que já há muito perderam a sua. Os decapitados odeiam ver as cabeças que lhes recordam as que já tiveram e de que abdicaram, a favor de um triunfo efémero. Porém, quando consentimos em que nos cortem a cabeça, é muito improvável que no-la devolvam. Ficarmos sem cabeça é um processo irreversível. Restará só uma glória aparente e um esquecimento garantido. A cabeça era, afinal, uma parte indispensável do equipamento e não o ter percebido a tempo foi um erro irreparável.

Aqui fica o aviso, por causa das coisas.

 Eugénio Lisboa

sábado, 25 de dezembro de 2021

Algumas reflexões sobre a conferência de Natal 2021 no Rómulo

 

No dia 14 de dezembro, no Centro Ciência Viva Rómulo (de Carvalho), foi feita uma conferência de Natal que tinha na primeira parte uma homenagem a António Manuel Baptista (1924-2015), com a presença da sua filha mais nova, Cristina Ovídio, e de um seu neto, onde foi passado um curioso filme em que Batista lia alguns dos seus poemas. Mais tarde, na segunda parte, Rui Vieira Nery deu uma conferência sobre música e ciência. Excelentes as duas coisas. Neste pequeno texto, apresento as reflexões que se me levantaram enquanto ouvia as palestras e por várias razões não referi na altura. 

O número 27 do poema de Baptista também está associado ao número de anos de vida de vários personagens trágicas do rock (Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain, Amy Winehouse, e vários outros). Imagine-se, foram todos poetas antes dos 27 anos! Curiosamente, Ian Curtis foge ao padrão ao suicidar-se com 23 anos. Na verdade, os padrões estão na nossa cabeça, o que parecendo que não, é fantástico. Rui Vieira Nery falou também disso e de como, quanto mais as músicas seguem padrões científicos (das medievais às dodecafónicas e serialistas, de que ouvimos exemplos) mais se dirigem a especialistas e se afastam do público.

A ciência busca padrões, mas esses padrões quase nunca são óbvios. Outro que encontrei, e tenho-o encontrado muitas vezes, foi com a vida de António Manuel Baptista. Muitas vezes, as pessoas que acabam por ser notáveis ou que revelam ser geniais não seguem um percurso linear. Baptista, num dado momento da sua juventude, quis ir para a marinha, mas chumbou devido a uns problemas nos pulmões (teve mesmo tuberculose uns anos mais tarde, tendo estado três anos no sanatório do Caramulo). Devido a isso tornou-se físico (não sem antes se interessar pela química). Curiosamente, aconteceu algo parecido com Jorge de Sena. Chumbou como oficial de marinha e foi para o Instituto Superior Técnico para ser engenheiro. E quando saiu de Portugal, tornou-se professor de literatura, escritor e crítico. As contrariedades ou os caminhos alternativos permitem percorrer, muitas vezes, percursos mais interessantes e ricos. Baptista tinha alguma relutância em dizer os seus poemas, mas no contacto pessoal e nas prestações audiovisuais era genial. Foi, referindo o que disse Carlos Fiolhais, um personagem da imagem e do som, muito à frente do seu tempo, que pelos seus programas de rádio e televisão cativou muitas pessoas para as ciência e as tecnologias.

Quando uma conferência, conversa, leitura, ou outra coisa qualquer nos conduz a novas coisas, estimula e alimenta o nosso pensamento ou abre horizontes, vale bem o tempo.    

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

MINHAS RESPOSTAS À VISAO SOBRE A ACEITAÇÃO DAS VACINAS EM PORTUGAL


Eis a minha posição sobre o assunto, recolhidas pela jornalista Alexandra Correia da Visão. Para conhecer outras posições sobre este assunto ver o belo número da revista que saiu hoje:

V ISÃO - Como explica a fé dos portugueses na Ciência (são menos de 200 mil os que, estando elegíveis para serem vacinados contra a Covid-19, não o foram. e a maioria é mais por medo do que por negacionismo)? Será mesmo fé na Ciência ou simplesmente os portugueses fazem o que lhes mandam?

CF- Os portugueses estão entre os povos europeus que mais acham que a ciência tem um impacto positivo na sociedade e, por isso, tendem a confiar nela. Há um inquérito da União Europeia, divulgado este ano, o Eurobarómetro sobre os conhecimentos e atitudes perante a ciência e os resultados revelam uma adesão à ciência mais do que em países mais desenvolvidos como a Alemanha e a França.

 Além disso, diria eu, há em Portugal uma longa tradição de aceitação do que as autoridades (médicas, administrativas, políticas, etc.) indicam. Devem somar-se as duas coisas para se compreender o alto grau de aceitação da vacinação em Portugal, que está a acontecer no caso da pandemia de COVID-19 e que já antes era conhecido para outras vacinas. Estamos - felizmente - à frente de países a Alemanha e a França na cobertura vacinal da COVID-19. os portugueses fazem orelhas moucas aos negacionistas das vacinas.

Mas há um facto paradoxal. Se olharmos para os resultados dos inquéritos PISA da OCDE sobre os conhecimentos e capacidades em ciências dos jovens de 15 anos, vemos que a nossa escola está longe dos lugares cimeiros. O mesmo se passava com o Eurobarómetro nos tempos em que ele recolhia respostas a questões de ciência, para averiguar os conhecimentos da população. A nossa confiança na ciência é, portanto, um tanto «cega», já que não temos suficientes conhecimentos de ciência nem conhecemos bem o método científico. Além disso, os governos portugueses não têm valorizado a ciência, pois investimos em ciência e tecnologia muito abaixo da média europeia: o valor português de 2020 é 1,6% do PIB e a média europeia é 2,3%. Estamos muito longe dos lugares cimeiros (a Alemanha investe 3,1% e a França 2,4% do PIB). Neste quadro, a cultura científica só pode ser incipiente e superficial.

Em resumo: aceitamos bem algo que não conhecemos bem, algo que devíamos conhecer melhor, pois a ciência não é dos cientistas mas de todos.

VISÃO: Receia o crescimento de movimentos negacionistas em Portugal?

CF- Se é verdade que não é muito sonora a voz dos negacionistas das vacinas entre nós, não é menos certo que a  pseudociência está omnipresente no nosso país em actividades relacionadas com a saúde como a homeopatia, a acupunctura, etc.  Essas sectores desconfiam da ciência em geral. Chegámos ao ponto de o governo português ter regulado o ensino dessas «tretas», permitindo que sejam outorgados portadores de diplomas com  bases absurdas. 

Sim, receio que cresçam quer os negacionistas das vacinas quer os negacionistas da ciência de um modo mais em geral, entre os quais se contam os praticantes dessas «medicinas alternativas». É bem possível que o nosso maior desenvolvimento  seja acompanhado por movimentos anti-científicos,  como hoje acontece em países mais desenvolvidos. 

Este problema da colisão entre saber e ignorância não tem solução fácil. Para o obviar, é preciso que o espírito crítico cresça, é preciso que os cidadãos estejam familiarizados com a ciência, o que deve começar desde logo na escola: o espírito crítico, que está no coração do método científico, tem de ser transmitido desde a mais tenra idade. É necessário que tenhamos mais espírito crítico. A ciência não é algo para aceitar passivamente, mas sim um meio que tem sido muito bem-sucedido para resolver muitas, embora não todas, as questões que o mundo nos coloca.


KENNETH CLARK E A CIVILIZAÇÃO

 


Meu artigo no I de hoje:

O inglês Kenneth Clark (1903-1983) foi o mais conhecido dos críticos de arte do século XX graças aos seus programas de televisão, cujo ápice foi a série Civilização, transmitida pela BBC em 1969 e retransmitida, desde então, em televisões de todo o mundo (os 13 episódios podem ser vistos no Youtube e a série em Blu-ray pode encomendar-se na Amazon).

O livro agora editado pela Gradiva com o subtítulo O Contributo da Europa para a Civilização Universal, em vez do original Uma Visão Pessoal, foi escrito a partir do guião da série televisiva. É impressionante o êxito alcançado tanto pelo programa como pelo livro. Como o autor reconhece no prólogo: «Escrever para televisão é fundamentalmente diferente de escrever um livro, não apenas no estilo e apresentação, mas no conjunto da abordagem ao tema. As pessoas que se instalam no sofá para um programa de serão esperam ser entretidas. Se se aborrecerem, desligam. E são entretidas tanto pelo que veem como pelo que ouvem.» O livro não tem nem vídeo nem som: mas tem ideias, que nos convidam à reflexão, e tem belas imagens, que nos seduzem. A televisão não tem de ser inimiga do livro.

Clark procura, servindo-se de muitos exemplos artísticos, num modo muito seu, transmitir o essencial da civilização ocidental desde o fim do Império Romano do Ocidente até ao alvor do século XX. Para ele o suprassumo situa-se no Renascimento italiano: Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci e Rafael. Sobre o pintor da Capela Sistina: «O poder visionário de Miguel Ângelo dá-nos a sensação de que ele pertence a todas as épocas, e talvez, acima de todas, à época dos grandes românticos, dos quais somos ainda os herdeiros quase falidos.»

Civilização é uma óptima prenda de Natal: está muito bem traduzido pelo historiador de arte e jornalista José Cabrita Saraiva, que assina uma apresentação prévia e está muito bem produzido por uma editora que sabe cuidar dos pormenores. Um sintoma do atraso cultural português é a ausência, até hoje, deste livro entre nós: havia apenas uma edição brasileira (Martins Fontes e Universidade de Brasília, 1979). Mas o livro veio ainda a tempo, podendo ser contraponto numa época em que o relativismo cultural se instalou.

De onde veio o lapidar título? O autor conta: «Foi um acidente. A BBC queria uma série de filmes a cores sobre arte, e achou que talvez eu pudesse dar alguns conselhos. Mas quando David Attenborough [o autor de O Planeta Vivo, que está vivo!], então responsável pela BBC2, me pediu para o fazer, usou a palavra Civilização, e foi esta palavra, e só esta palavra, que me convenceu a aceitar o trabalho. Não tinha uma ideia clara do que ela queria dizer, mas pensei que era preferível ao barbarismo, e imaginei que era o momento certo para explicar porquê.»

Explicado o título, mais difícil será explicar o que é a civilização. O autor, que na sua juventude foi seduzido pela obra do artista e crítico de arte oitocentista John Ruskin, fá-lo deste modo, ainda no prólogo: «O que é a civilização? Não sei. Não consigo defini-la em termos abstractos – por enquanto. Mas penso conseguir reconhecê-la quando a vejo; e neste momento estou a olhar para ela. Ruskin disse: «As grandes nações escrevem as suas autobiografias em três manuscritos, o livro dos seus feitos, o livro das suas palavras e o livro da sua arte. Nenhum destes livros pode ser compreendido se não lermos os outros dois, mas dos três o único fidedigno é o último”. Penso que isto é verdadeiro.»

Quem foi Kenneth Clark, ou melhor Lord Clark? Nascido em Londres, numa família abastada, estudou primeiro no Winchester College, uma escola privada masculina com mais de seis séculos, e depois na ainda mais antiga Universidade de Oxford. Aos 27 anos foi nomeado diretor do Museu Ashmolean de Arte e Arqueologia em Oxford e, três anos volvidos, já estava à frente da National Gallery, o famoso museu londrino na Trafalgar Square. Durante a Segunda Guerra Mundial, Clark viu-se forçado a esconder as preciosas obras de arte numa mina no País de Gales, enquanto atraía o público ao museu com numerosos concertos, que serviram para levantar o moral dos civis, atormentados com a queda das bombas. Houve quase dois mil concertos que foram ouvidos por mais de 550 000 espectadores. Nem todas as obras foram escondidas: Clark inaugurou a exibição do «quadro do mês», uma iniciativa que ainda hoje se mantém. Depois da guerra, tornou-se professor de Belas Artes em Oxford. Numa reviravolta surpreendente aceitou dirigir em 1954 a Independent Television Authority, a agência criada para supervisionar a televisão comercial, então aparecida para concorrer com a BBC. Já fora da agência, Clarke fez alguns programas sobre arte, a preto e branco, o primeiro dos quais, em 1958, Is Art Necessary?, num canal privado. Em 1966 fez a série The Royal Palaces, uma parceria público-privada, sobre o património da coroa britânica. Civilização, o seu primeiro programa a cores, foi, porém, a sua coroa de glória. Ficou mundialmente famoso pela sua autoria e apresentação, acima de tudo pelo seu carisma que levou a arte a todos os tipo de público. Os produtores Michael Gill e Peter Montagnon asseguraram as filmagens ao longo de três anos, em 117 sítios de 13 países. Attenborough conseguiu encaixar o custo total, exorbitante para a época, de 500 000 libras. Mas o resultado foi compensador: a série foi vista na estreia por mais de 2,5 milhões de espectadores britânicos e mais de 5 milhões de espectadores nos Estados Unidos, o que era muito bom para um programa cultural. Estava estabelecido um padrão para os grandes documentários televisivos.

Clark cometeu os seus erros, por exemplo na atribuição de obras de arte que a National Gallery adquiriu, mas isso não diminui em nada o extraordinário papel que teve na divulgação da arte. Ele foi para a arte o que Sagan representou, em 1982, para a ciência, com a série televisiva e o livro Cosmos. O livro Civilização em língua inglesa nunca deixou de estar presente nas livrarias desde que saiu a primeira edição em 1969. Clark conseguiu fazer um programa televisivo e um livro intemporais! Tão intemporais que a Tate organizou em 2014 uma exposição intitulada: «Kenneth Clark: Looking for Civilization». E, em 2018, a BBC produziu uma nova série com o título de Civilizações, da autoria dos críticos de arte Simon Schama, Mary Beard e David Olusoga.

Apesar dos seus gostos estéticos, algo conservadores, Clark era progressista na política: votava nos trabalhistas. Do ponto de vista religioso, manifestou-se por diversas vezes contrário ao ateísmo: achando a Igreja de Inglaterra demasiado secular, converteu-se ao catolicismo pouco antes de morrer.

Entre os seus livros merecem destaque, a.C. (antes de Civilização): Leonardo da Vinci: an Account of his Development as an Artist (1939), Landscape Into Art (1949) e The Nude: A Study in Ideal Form (1956). E d.C.: Animals and Men (1977), What is Masterpiece? (1979) e Feminine Beauty (1980). Comprei este último quando saiu e, passados mais de 40 anos, ainda o possuo. Em português, só havia duas traduções: O Nu. Um Estudo sobre o Ideal da Arte (Ulisseia, 1967), com tradução de Ernesto de Sousa, e Paisagem na Arte (idem, 1961).

Civilização centra-se nas artes plásticas. Fala pouco sobre literatura, ciência e filosofia. Não fala de Cervantes e quase não fala nem de Galileu nem de Kant. Nenhum português é mencionado, mas o tradutor conta as relações próximas entre Kenneth Clark e Calouste Gulbenkian. A colecção do arménio esteve quase a ficar em Londres…

 Para dar voz ao autor, escolho dois parágrafos do último dos 13 capítulos. O primeiro: «Aqui chegados devo revelar a minha verdadeira natureza – sou um bota de elástico. Continuo apegado a um conjunto de convicções que foram repudiadas pelas mentes mais brilhantes do nosso tempo. Acredito que a ordem é melhor que o caos, a criação melhor que a destruição. Prefiro a delicadeza à violência e o perdão à vingança. De modo geral penso que o conhecimento é melhor do que a ignorância, e tenho a certeza de que a empatia humana é melhor do que a ideologia. Acredito que, apesar dos triunfos recentes da ciência, os homens não mudaram assim tanto nos últimos dois mil anos; e por conseguinte devemos tentar continuar a aprender com a História. A História somos nós próprios.»

O segundo: «Também continuo apegado a uma ou duas convicções mais difíceis de sintetizar. Acredito, por exemplo, na cortesia, o ritual pelo qual evitamos ferir os sentimentos dos outros para satisfazermos os nossos próprios egos. E penso que devemos lembrar-nos sempre de que somos parte de um grande todo, a que por comodidade chamamos natureza. Todos os seres vivos são nossos irmãos e irmãs. Acima de tudo, acredito que certos indivíduos receberam de Deus o dom do génio, e valorizo uma sociedade que torna isso possível.»

Clark acrescenta: «A civilização ocidental foi uma série de renascimentos. Isto tem de dar-nos confiança em nós próprios». Mas previne: «Disse no início que é a falta de confiança, mais do que qualquer outra coisa, que mata uma civilização. O cinismo e a desilusão podem ser tão eficientes a destruir-nos como as bombas.» O final não é muito optimista. O autor cita o poeta irlandês W. B. Yeats («Aos melhores falta‑lhes convicção, enquanto os piores/ Ardem de paixão intensa»). No filme, arruma a seguir o livro na sua biblioteca, olha para uma escultura do seu amigo Henry Moore e sai de cena. Dá que pensar: passado mais de meio século, estaremos mais confiantes?

A floresta e a cultura


Meu artigo no Jornal de Negócios de hoje:

A relação entre a floresta e a cultura é inequívoca, apesar de nem sempre ser reconhecida. O astrofísico Carl Sagan escreveu no seu livro Cosmos, saído em 1982: «O livro é feito de uma árvore. É um conjunto de partes lisas e flexíveis (ainda chamadas folhas) impressas em caracteres de pigmentação escura. Dá-se uma vista de olhos e ouve-se a voz de outra pessoa, talvez alguém que já tenha morrido há milhares de anos. Através dos milénios, o autor está a falar, clara e silenciosamente, dentro da nossa cabeça, directamente para nós. A escrita foi talvez a maior das invenções humanas, ligando as pessoas, cidadãos de épocas distantes que nunca se conheceram. Os livros quebram as cadeias do tempo.»

De facto, quando leio Sagan estou a ligar-me a um físico já falecido, recebendo a sua mensagem. Quando penso em árvores, penso na possibilidade de delas surgirem livros e na capacidade prodigiosa que esse meio tem de ligar seres humanos de todos os tempos históricos.

Uma árvore dá cerca de cem livros. Dez árvores dão uma edição de mil exemplares e mil árvores dão uma edição de dez mil exemplares: um best-seller raro entre nós, nos tempos que correm. Poder-se-ia pensar que os livros – e o papel em geral, porque também há as revistas e os jornais, além dos cadernos onde escrevemos – são inimigos das florestas e da Natureza. Nada de mais falso: em primeiro lugar, o papel não se faz a partir da Natureza selvagem, mas a partir de árvores que são plantadas precisamente com esse fim. O tempo médio de uma árvore antes de se converter em livro varia entre dez e vinte anos e essas plantações são constantemente renovadas. Colhe-se e semeia-se logo a seguir. Além disso, esses valores pecam por excesso uma vez que não incluem a reciclagem, que pode ser feita uma meia dúzia de vezes. A reciclagem, que tem obviamente custos, é mais viável nas revistas, nos jornais e no papel de escrita do que nos livros, que são normalmente guardados.

Há quem pense que os livros electrónicos vieram para substituir os livros em papel, com vantagens ecológicas. Apesar do rápido avanço desses livros quando eles começaram, ele cessou nos últimos anos: o Kindle da Amazon, surgido em 2007, prometia uma revolução, mas ela não aconteceu na medida do que se previa: os ebooks só constituem 20% das vendas no mundo.

Os jovens estão sempre a usar o telemóvel não só para chamadas mas também para participarem em redes sociais e para jogarem, e não para lerem livros. Os que os lêem, por exemplo o Harry Potter, ainda o fazem em papel. Estou em crer que esse formato nunca será substituído, uma vez que um livro tem o design perfeito para as funções que cumpre. Falta também provar que a renovação dos aparelhos electrónicos assegura aos ebooks a mesma duração que tem tido o livro em papel (vários séculos!) e ainda que a substituição do material electrónico não origina problemas ambientais.

Portugal tem uma grande mancha florestal com conhecidos problemas, que vão desde a ameaça pelos incêndios, que as alterações climáticas favorecem, até às dificuldades de gestão associadas à repartição por inúmeros proprietários privados, muitos deles absentistas. As florestas de produção, apenas em parte para o fabrico de papel, têm entre nós um problema de imagem, porque muita gente, a maior parte nos centros urbanos, não conhece bem a realidade florestal, e também porque alguns não se apercebem da relação estreita entre as árvores e os livros.

Cultivar florestas é ajudar a fazer cultura. A palavra “cultura”, do latim culturae, tem a ver com “tratar”, “cuidar”. Originalmente o conceito era tratar das plantas. Mas depois ele passou a incluir o cuidado com as pessoas: desenvolver capacidades nos seres humanos desde a mais tenra idade. Não só as duas acepções são compatíveis, como também estão bem próximas. Não há cultura sem livros, não há livros sem papel e não há papel sem árvores. A cultura e a silvicultura podem e devem caminhar a par, fazendo silvicultura sustentável. A chave será sempre plantar e cuidar.

Volto a Sagan: “Os livros permitem-nos viajar através do tempo, beber na própria fonte o saber dos nossos antepassados. A biblioteca põe-nos em contacto com as concepções e o saber, a custo extraídos da natureza, das maiores mentes até agora existentes, com os melhores professores, provindos de todo o planeta e de toda a nossa história, para nos instruírem sem nos fatigarem e para nos inspirarem a dar nossa contribuição ao saber colectivo da espécie humana.” Eu não saberia dizer melhor.

 

PORTAL DA QUEIXA

 Poema recebido de Eugénio Lisboa:

PORTAL DA QUEIXA

LAMENTOS DE UM POETA MENOR

EM DIA DE GRANDE DEPRESSÃO

1

A TODOS OS MEUS AMIGOS,

A QUEM COSTUMO FALAR,

E MESMO AOS INIMIGOS

QUE NUNCA HÃO-DE FALTAR,

2

AQUI, QUEIXOSO, ME QUEIXO

DOS LIMITES QUE ME TOLHEM

E A TODOS ELES DEIXO

QUEIXAS QUE NÃO ENCOLHEM.

3

AS MINHAS QUEIXAS SÃO VÁRIAS,

DESDE NUNCA PERCEBER

OBRAS EXTRAORDINÁRIAS

DE TANTOS GÉNIOS A HAVER!

4

DESDE A GRANDE AGUSTINA,

POR TANTOS TÃO CELEBRADA,

MAS COM A QUAL NÃO ATINA

MINHA MENTE TÃO MINGUADA,

5

EU BEM TENTO, PORQUE QUERO,

A TODO O CUSTO ENTENDER

O TALENTO VASTO e FERO

QUE NELA ANDAVA A FERVER!

6

MERGULHO NA OBRA DELA,

DECIDIDO A SORVER

TODO O GÉNIO QUE HÁ NELA,

PARA DAR E PRA VENDER

7

ELA ESCREVE, ESCREVE, ESCREVE,

ESCREVE SEMPRE SEM PARAR;

NELA NUNCA NADA É BREVE,

ANTES GOSTA DE ABUNDAR.

8

NUNCA PENSA NO QUE FAZ,

QUE O PENSAR É SÓ PRÓS POBRES.

DE PARAR É INCAPAZ,

SEM TRAVÕES NOS SEUS ALFOBRES.

9

SE O GÉNIO É BEM DIFERENTE

E MAIS FORTE QUE O PENSAR

E SE ESTE NÃO METE O DENTE

NAQUELE ABUNDANTE MAR,

10

QUE É A OBRA DA AGUSTINA,

COMO HEI DE EU LÁ CHEGAR,

SE A MINHA PEQUENINA

FERRAMENTA DE SONDAR

11

É SOMENTE A RAZÃO

QUE O GÉNIO DELA DESPREZA,

PORQUE SONDA À PAI ADÃO

QUEM A RAZÃO MUITO PREZA!

12

MAS A AGUSTINA É SÓ UMA,

DE TANTOS GÉNIOS QUE ABUNDAM,

NESTE PAÍS, ONDE, EM SUMA,

TANTOS GÉNIOS VAGABUNDAM.

13

HÁ GONÇALOS E LOURENÇOS,

HÁ TAMBÉM VELHOS DA COSTA,

TUDO GÉNIOS TÃO IMENSOS,

FICA A GENTE INDISPOSTA!

14

ALGUNS LANÇAM A LLANSOL,

BÓLIDO EXTRA-TERRESTRE,

QUE, VINDO DE AO PÉ DO SOL,

PROCURA VIDA SILVESTRE!

15

ESCREVEM POR HIERÓGLIFOS,

QUE TÊM POR DESLUMBRANTES,

TANTO COMO OS GEÓGLIFOS,

OS EDUARDOS FLAMEJANTES!

16

O GONÇALO, TÃO FECUNDO,

ENCHE LONGAS PRATELEIRAS,

COM SEU GÉNIO, TÃO PROFUNDO,

DE PALAVRAS VAREJEIRAS.

17

A MARIA VELHO DA COSTA

GOSTA MUITO DA LINGUAGEM,

SE ESTA SÓ SE ENCOSTA

AO SOM QUE NÃO TEM MENSAGEM.

18

SÃO TANTOS, APÓS CAMÕES,

NESTA PÁTRIA BEM AMADA,

QUE SE ESGOTAM EMOÇÕES

NESTA TERRA BEM LAVRADA.

19

JUNTO DELES, FICO HUMILDE,

DIMINUÍDO, PEQUENO:

RIMO HUMILDE COM CLOTILDE

E PEQUENO COM COSSENO



Eugénio Lisboa, que ficou

um pouco mais aliviado,

depois deste desabafo,

mas não completamente!

 

 

"UM INDIVÍDUO VULGAR"

“De repente as portas abrem-se e vemos um homem patético, simples, pequeno, igual a qualquer um, não tinha chifres, nada. E este homem tinha...