segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

CARLOS FORTUNA FALA SOBRE CIDADES NO RÓMULO A 5 DE JANEIRO


ADIAMENTO

Por motivos de força maior esta atividade foi cancelada. Oportunamente será divulgada nova data. Pedimos desculpa pelo incómodo.

No novo ano que se inicia retomamos as actividades do Rómulo já na próxima terça-feira, dia 5 de Janeiro, às 18h via plataforma Zoom, com a palestra intitulada Sociologia das outras cidades com Carlos Fortuna, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigador do CES - Centro de Estudos Sociais. A palestra será moderada por Carlos Fiolhais, director do Rómulo.

 

Sessão inserida no ciclo Ciência às Seis, iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, com a coordenação de Carlos Fiolhais e colaboração de António Piedade, neste semestre em formato Digital 💻📱 Destinada ao público em geral, a sessão é de participação livre e não necessita de inscrição.

 

Aceda à sessão no Zoom através do link: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/83744901810
ID da reunião:
837 4490 1810 

No  dia 5 de Janeiro de 2021 pels 18h, realiza-se via Plataforma Zoom, a palestra inserida no ciclo "Ciência às Seis" intitulada "Sociologia das outras cidades" com Carlos Fortuna, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigador do CES - Centro de Estudos Sociais.

Sessão inserida no ciclo Ciência às Seis online, iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, coordenado por Carlos Fiolhais e António Piedade.

Destinada ao público em geral, a sessão é de participação livre e não necessita de inscrição. No fim da apresentação do orador, os participantes poderão colocar questões e fazer comentários.

Acesso à sessão no Zoom: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/83744901810
ID da reunião: 837 4490 1810

Resumo da Palestra:

As outras cidades são os territórios diferentes que a sociologia e as outras ciências sociais ignoram ou são incapazes de entender. São as cidades que escapam ao figurino urbano não-ocidental e que crescem às avessas do que a disciplina tomou como padrão. São também as cidades do sensível, do imaterial e de tudo que a cegueira epistémica da sociologia "não deixa ler". São ainda os lugares que a pandemia devassou e que tantos ensaiam reabilitar. A sociologia também. O sucesso desses desígnios será tanto maior quanto mais nos facilitar viver urbanidades diferentes, mais consentâneas com as de outras cidades.

Biografia:

Carlos Fortuna fez o doutoramento em Sociologia (na State University of New York - Binghamton - 1989), é Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Investigador Permanente do Centro de Estudos Sociais. Tem sido coordenador científico dos Programas de Doutoramento em "Sociologia" e em "Sociologia: Cidades e Culturas Urbanas". As suas áreas de interesse são: Culturas Urbanas; Turismo, Patrimónios e Memórias; Identidades e Imagens das Cidades; A Cidade dos Sentidos. É autor de vários livros, sendo as suas publicações mais recentes são: “Cidades e Urbanidades” (Lisboa, Instituto de Ciências Sociais, 2020),  "Simmel: A Estética e a Cidade" (Coimbra, Imprensa da Universidade,2010) (Org.); Diálogos Urbanos (Coimbra, Almedina, 2013) (Org.), Cultura, Formação e Cidadania (Lisboa, GEPAC; 2015) (vários autores).


domingo, 27 de dezembro de 2020

THE MIDNIGHT SKY starring George Clooney | Official Trailer | Netflix

POSTAL DE BOAS-FESTAS

Tendo sido chamada a GNR para pôr cobro  a um casamento cigano que, pelo número de convidados, fazia perigar a Saúde Pública,  inicialmente foi acatada a ordem, para pouco depois continuar a festividade  que, salvo erro, durava há três dias com ameaças  à mistura.

Idêntico desrespeito pelas  forças policiais se tem passado em algumas zonas suburbanas de Lisboa.  Paulatinamente, ou nem isso, a civilização de um país milenar,  vai sendo desnacionalizada por músicas africanas que passam na nossa televisão sem que, pelo que eu saiba, a música portuguesa passe, ainda que com muito menor aceitação, em  países do continente africano.

É bom não esquecer que Portugal, quase do Minho ao  Algarve, nas suas fronteiras de séculos atrás, esteve sob o domínio mouro existindo essa prova material no Bairro da Mouraria, em Lisboa, que serviu de mote ao belíssimo fado internacional de Amália: “Ai Mouraria”!

Há um velho ditado que nos lembra uma exigência a ser cumprida: “Em Roma sê romano”. "Ipso facto",  sem qualquer espécie de crítica subjacente, recordar que os países africanos  têm o cuidado de só autorizarem viverem em suas fronteiras europeus devidamente autorizados e credenciados que se identifiquem com os seus usos e costumes e com a sua   necessidade de gente qualificada.

Eu que nasci em Luanda, filho de pais portugueses de gema, tenho Moçambique como minha segunda e saudosa pátria de eleição não admitindo, como tal, ser taxado de racista por verdadeiros racistas que pretendem ver “o argueiro no olho alheio recusando-se em ver a trave no seu próprio olho”.

Nesta época natalícia, de paz entre os homens e mulheres de boa-vontade,  desejo aos meus irmãos moçambicanos um ano de prosperidade e de retorno à paz dentro das sua fronteiras.



O Princípio da Incerteza : Eduardo Lourenço sobre Portugal e a Europa

O Princípio da Incerteza: Viriato Soromenho Marques, Helena Matos e Daniel Deusdado são os protagonistas do programa. Um programa que a partir do passado tenta projetar o futuro-

EDUARDO LOURENÇO, UM MESTRE DO PENSAMENTO


Meu texto no mais recente "As letras entre as Artes", dedicado a Eduardo Lourenço:

Eduardo Lourenço (São Pedro de Rio Seco, Almeida, Guarda, 1923 – Lisboa, 2020) é um dos nomes maiores do ensaísmo português do século XX. A sua longevidade permitiu-lhe deixar uma obra volumosa: na colecção “Obras de Eduardo Lourenço” na Gradiva, contam-se 25 volumes (um deles de entrevistas, da autoria de Ana Nascimento Piedade). A Fundação Calouste Gulbenkian está também a editar as “Obras Completas” de Eduardo Lourenço, organizadas de modo distinto, estando publicados sete volumes e aguardando-se outros. Basta pegar num deles para se verificar tanto a profundidade do seu pensamento sobre a literatura, arte, história, filosofia e, em geral, a cultura portuguesa e universal como a esmerada estética da sua escrita.  Ele foi, para todos nós, um “maître à penser”, para usar uma expressão muito adequada para quem, entre 1965 e 1988, foi professor na Universidade de Nice, em França.

Tendo conhecido através das suas obras, algumas das quais fui lendo logo após a sua saída (por exemplo O Labirinto da Saudade Psicanálise mítica do destino português, Dom Quixote, 1978), só em raras circunstâncias me encontrei com ele. Lembro-me de uma sessão de autógrafos na Feira do Livro, uma vez que éramos os dois autores da Gradiva (é um privilégio partilhar o editor com o grande mestre!). Quando soube que eu tinha estudado na Alemanha, comentou que tinha estado dois anos nas Universidades de Hamburgo e de Heidelberga, mas que tal estada não tinha sido suficiente para ficar a dominar a língua de Goethe. Encontrei-o também algumas vezes na sede da Fundação Gulbenkian, onde ele tinha sido administrador e desfrutava de um gabinete.

Fui em 2013 membro do júri do prémio com o nome dele atribuído pelo Centro de Estudos Ibéricos, na Guarda, uma coorganização da Universidade de Coimbra e da Universidade de Salamanca (a Guarda, o distrito natal de Lourenço, fica a meio caminho entre as duas antigas cidades universitárias). Demos o prémio ao tradutor e crítico colombiano Jerónimo Pizarro, um grande estudioso de Fernando Pessoa, um escritor por quem Eduardo Lourenço tanto se interessou (veja-se por exemplo, o livro Fernando, rei da nossa Baviera, Imprensa Nacional, 1986). O prémio, que merecia ser mais conhecido, já distinguiu personalidades como Maria Helena Rocha Pereira, Maria João Pires, César Antonio Molina, Mia Couto, Agustina Bessa-Luís e Luís Sepúlveda.

Não pude estar na atribuição do doutoramento honoris causa com que a Universidade de Coimbra o honrou (e se honrou) em 2006: essa distinção reconheceu um dos filhos mais bem-sucedidos da alma mater conimbricensis, pois Lourenço se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas em 1946 naquela universidade, tendo sido aí assistente na Faculdade de Letras entre 1947 e 1953, um tempo em que trabalhou com o professor de Filosofia Joaquim de Carvalho (1892-1958). Foi em Coimbra que Lourenço publicou o seu primeiro livro (Heterodoxia, 1949), que contém parte da sua tese de licenciatura, e foi aí que escreveu no Diário de Coimbra as suas “Crónicas Heterodoxas”. Daí haveria de rumar à Alemanha, donde transitou para a França, não sem antes ter passado um ano no Brasil.

Visitei já a Biblioteca Eduardo Lourenço na Guarda da responsabilidade da Câmara Municipal daquela cidade, que guarda uma parte da biblioteca de Eduardo Lourenço. Uma outra parte foi doada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e outra ainda à “Casa da Escrita”,  uma instituição gerida pela Câmara Municipal de Coimbra que funciona na moradia do poeta neorrealista João José Cochofel (1919-1982) com quem Lourenço conviveu.

Eduardo Lourença não era uma pessoa próxima da ciência, como foram Joaquim de Carvalho, muito interessado pela história das ciências, e António Sérgio (1883-1969), um racionalista que foi amigo de Paul Langevin, o físico francês que contribuiu para a teoria da relatividade. Mas um leitor preferencialmente das ciências como eu sou  tem a sensação de que ganha quando lê um texto da pena de Lourenço. Dou um exemplo que expõe o paralelismo entre ciência e arte, extraído do livro Crónicas Quase Marcianas (Gradiva, 2016), colecção das suas crónicas no JL: “Quando Einstein intuiu – imaginou, como ele dizia – a sua famosa ‘teoria´, ninguém se podia prevalecer de um conhecimento superior a esse. Mas também na sua ordem, quando Picasso pintava as Demoiselles d’Avignon, nada havia que fosse mais original, analogicamente mais verdadeiro, do que essa imagem, ícone do Homem, num certo tempo e para sempre”. Fiquei, porém, com a sensação de que o autor privilegiava a forma ao conteúdo, ficando este por vezes oculto sob o manto nem sempre diáfano da escrita. Este mesmo reparo foi feito no artigo “Somos o passado de amanhã”, pelo poeta e crítico literário Eugénio Lisboa (cujas iniciais, EL, curiosamente coincidem com as de Eduardo Lourenço) no JL de 16 de Dezembro passado, todo ele dedicado a Eduardo Lourenço (um número muito rico que inclui colaborações de José Carlos Vasconcelos, Miguel Real, Onésimo Teotónio Almeida, Jerónimo Pizarro, Lídia Jorge e Gonçalo M. Tavares, entre outros nomes notáveis). Lisboa, rompendo com uma certa unanimidade reinante, escreve que “Lourenço foi um homem muito inteligente, mas com óbvios limites, como toda a gente. Para começar, como já algures observei, o seu estilo de escrita não era nem de longe o mais adequado a um bom prosador de ideias”.  Na mesma linha, a socióloga e ensaísta Maria Filomena Mónica, numa entrevista ao Diário de Notícias publicada em 13 de Dezembro, estranhou a unanimidade em volta de Lourenço, lançando sobre ele o labéu da ambiguidade.

Percebo o que Eugénio Lisboa e Maria Filomena Mónica, dois autores por quem tenho grande apreço pela clareza da sua escrita, querem dizer. Mas julgo que Lourenço cultivou o seu estilo, muito próprio, que é bem diferente dos deles. A prosa lourenciana pode não ter a transparência que eles desejariam, mas é brilhante, literariamente muito rica: tem o grande mérito de nos enlear e de nos pôr a pensar o que antes ainda não tinha sido pensado.

Além da sedução do seu pensamento, há um outro tipo de sedução que apreciei em Eduardo Lourenço nos breves encontros que tive com ele: o seu calor humano, entrecortado por finíssimo humor. O humor é uma das maiores manifestações de inteligência humana. Só um grande espírito pode ser espirituoso como ele era. Repare-se na ironia que está patente em títulos como título Fernando, rei da nossa Baviera ou Crónicas Quase Marcianas…

JOSÉ ESTEVES, O HOMEM, A OBRA E O AMIGO


 “Esta é uma carta aberta a José Esteves, dirigida por um seu amigo, Rui Baptista, de Coimbra, professor de Educação Física, que no segundo Congresso de Educação Física apresentou uma moção (aprovada) para que fosse concedida a José Esteves o doutoramento “honoris causa”(Jornal “A BOLA", 12/02/1992).

No que se reporta à integração universitária do Instituto Nacional de Educação Física (INEF) na universidade, escrevi anteontem neste blogue o “post”, intitulado, “Antes de 25 de Abril, o ensino superior inter e extra muros universitários”. E porque “a memória é a consciência inserida no tempo”, no dizer de Pessoa, mencionei o nome de professores de Educação Física que lutaram por esta causa, esquecendo-me, falta de que me penitencio, de António da Fonseca, director da FNAT, tendo  como “primus inter pares” José Esteves, de seu nome completo José de Sousa Esteves.

Fundamentei a minha opinião em traços da sua riquíssima personalidade de homem probo e corajoso para que o tempo não pudesse fazer cair no olvido pessoas que tiveram a honra de merecerem a sua amizade generosa ou das  gerações mais novas que tem os velhos como “cotas”, em gíria depreciativa.

Navegámos ambos em águas políticas diferenciadas mas respeitando a nossas inclinações políticas, enviando-me os seus dois livros com dedicatórias muito amigas e cartões de boas-festas no Natal, efeméride que lhe merecia  grande respeito com católico praticante que era. Eu, por meu lado, enviei-lhe os meus livros: "Sem comTEMPOrizar", "Os pesos e halteres,  a função cardiopulmonar e o doutor Cooper", "Educação Física, Ciência ao Serviço da Saúde Pública" e "Do Caos à Ordem dos Professores".

Em aleivosia sem nome, num curso de férias do INEF, sendo na altura José Esteves seu subdirector  e prelector,  houve um “bufo” discente desse curso que fez chegar aos ouvidos  do ministro da tutela de que ele tecia críticas políticas desabonatórias ao  Estado Novo. Era fácil fazer acreditar nesta maldosa mentira por ele ter sido um dos participantes na chamada “Vigília do Rato” (30/12/1972), em que um grupo de católicos realizaram uma reunião de natureza política tendo alguns deles sido presos e enviados para a Cadeia de Caxias e uns tantos funcionários públicos alvos de processos de demissão.

Tendo-lhe o então director do INEF, simultaneamente, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, Anderson Leitão, aconselhado a pedir a demissão, para evitar a sua demissão compulsiva, respondeu-lhe que o não faria enquanto não fosse levado a efeito um processo disciplinar para apuramento da sua responsabilidade efectiva. Efectuado ele, foi provado tratar-se de uma miserável aleivosia.

O Professor Anderson Leitão, que lhe tinha grande  estima e consideração, apressou-se em dar-lhe  conhecimento do desfecho que lhe permitia a continuação do seu cargo directivo e docente.  A sua resposta foi breve e seca de um homem digno que não permitia que a sua dignidade tivesse sido posta em causa: “Agora, sim, demito-me!” E demitiu-se!

Atitude bem diferente tiveram trafulhas que, ao serem questionados sobre o facto de terem desempenhado elevados cargos antes de 25 de Abril, responderam, sem que lhes corasse a cara de vergonha, que os tinham aceitado para minarem as estruturas fascistas. Espero que os não tenham aceitado para minarem as estruturas comunistas porque, como nos ensina o ditado popular: “Cesteiro que faz um cesto faz um cento desde que tenha verga e tempo!”

Por considerar, a exemplo de Perre-Joseph Proudon,  que “em todas as decadências o primeiro sintoma é o da decadência da amizade” e, em “roubo” a uma citação do meu amigo Eugénio Lisboa, de Hugo Belfi, “as memórias são como as palavras: o tempo e a distância corroem-nas como ácido”, ao longo do tempo, escrevi vários textos evocativos de José Esteves, alguns deles neste blogue,  sobre esta personalidade ímpar da sociologia desportiva, autor do livro,  intitulado: “O Desporto e as Estruturas Sociais, que tem sido matéria de estudo de faculdades de Educação Física nacionais. Posteriormente, escreveu outro livro emblemático, hoje, mais do que nunca, pleno de acualidade: “Desporto e Racismo”.

Ambos, notáveis teses, em palavras de António Paula Brito, professor de Educação Física e psicólogo, mais tarde professor catedrático de Psicologia Desportiva da Faculdade de Motricidade Humana,   por abordarem temas de um deplorável “status”: “Quando, a propósito de Educação Física e Desporto se fala de Cultura, de Ciência, de Sociedade, de Política, etc., é frequente enfrentar-se um sorriso descrente ou ouvir gritar a Heresia” Mais prosaicamente tenho escrito que ainda há pseudo-intelectuais que pretendem ver na Educação Física e Desporto uma fábrica de hercúleos mentecaptos! Isto apesar de Almeida-Negreiros ter pontificado: “É preciso criar a adoração dos músculos”!

José Esteves suportou, com o estoicismo dos mártires e a paciência de Job, a heresia e fê-lo em hora em que falar de Sociedade (de uma certa sociedade) ou de Política (de uma certa política) era bem mais perigoso e arriscado sob o ponto de vista político do que enfrentar a ironia dos néscios ou sofrer a dúvida de uma certa intelectualidade ciosa da sua condição.

No seu livro, sobre a Sociologia do Desporto, estudo académico emergente em Portugal, José Esteves assume em acto de coragem uma posição crítica em luta constante com os seus detractores. Poucas vezes, a consagrada expressão de Séneca que, “viver significa lutar” teve aplicação tão nobre como quando aplicada a José Esteves.

Conta a lenda que Pigmalião se perdeu de amores por Galeteia, estátua de rara beleza por si esculpida, em tão grande e sofrida paixão que Afrodite condoída lhe deu o sopro da vida. Émulo seu, José Esteves cinzelou com o bater do coração e o escopo da alma a grande paixão da sua vida – a Educação Física e o Desporto. Chega, finalmente, o 25 de Abril, por ele tão desejado e ansiado.

José Esteves vive a hora, quase numa atitude de recolhida religiosidade: Não bate palmas! Não se cola ao pelotão da frente! Não aceita elevados cargos para que é convidado, inclusivamente,  pelo Partido Comunista.

Tem as mãos calejadas do trabalho. Tem os pés sofridos em longa e dura caminhada. Tem o corpo alquebrado por uma luta política intensa.

Não!, para mim, José Esteves não foi um falso ídolo com pés de barro por ter os pés solidamente assentes no solo que pisa. Um semideus, porque não pertence à mitologia grega. Um super-homem porque não é, de forma alguma, personagem de Nietzche," lutando contra o homem moral, um fraco, um degenerado".

Numa época planetária de exacerbado nacionalismo nas pugnas desportivas, em nome de uma bandeira ou de uma ideologia política, que formosíssima utopia a sua: “Não troco a promoção desportiva duma centena de crianças das nossas escolas primárias por uma medalha de ouro olímpica”.

A um simples mortal, os deuses do Olimpo jamais, poderão perdoar tanta e tamanha afronta. E não nos diz o adágio que “a vingança é o prazer dos deuses”?

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

ANTES DE 25 DE ABRIL, O ENSINO SUPERIOR INTER E EXTRA MUROS UNIVERSITÁRIOS

                         (Instalações do Instituto Nacional de Educação Física/FMH)

 “Não sendo um blogger tento acompanhar alguns dos mais interessantes - o De Rerum Natura é um dos que vou visitando. (...) No seio da direção da Sociedade Portuguesa de Educação Física, já comentámos a importância da sua participação neste blog para o mundo da Educação Física e do Desporto” (texto que me foi enviado por Nuno Ferro, presidente da Sociedade Portuguesa de Educação Física).

O vídeo aqui publicado, no passado dia 22 deste mês, com o título “A Junta de Educação Nacional”, da autoria do professor reformado da Universidade de Évora, Augusto Fitas, debruça-se sobre o ensino universitário e a investigação científica nacional. Por vir a propósito,  referencio aqui  o 2.º lugar do prestigiado  “Prémio Pfizer” (1963), promovido por esta farmacêutica norte-americana, em parceria com a Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa e com o  apoio do semanário “Expresso”, atribuído   a investigadores do Instituto Nacional de Educação Física (INEF).

Esta matéria relacionada com o ensino superior mereceu-me um estudo, publicado em Lourenço Marques em 1972,  no livro da minha autoria, “Sem Contemporizar”,  portanto, em época anterior à existência da “internet (1980), em que esta espécie de trabalhos exigia exaustivas consultas a bibliotecas públicas e privadas, a revistas, a “Diários do Governo” e outras fonte de informação, inclusivamente, orais. Transcrevo, o que sobre esta temática escrevi no livro supracitado:

“Nos últimos anos da Monarquia, em Portugal, existiam no ensino superior, apenas, a Universidade de Coimbra e diversas escolas superiores espalhadas por Lisboa e Porto.

Com o advento da República, é criada, em 1911, a Universidade Clássica de Lisboa, agregando uma tantas escolas superiores que ministravam o ensino das disciplinas clássicas: Medicina, Letras, Ciências, Farmácia e Direito.

Por decreto de 1930, é estabelecida a Universidade Técnica de Lisboa com os cursos de Ciências Económicas e Financeiras, Engenharia na Faculdade de Engenharia e Instituto Superior Técnico e Veterinária. Em 1961, é-lhe agregado o  Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina por influência de Adriano Moreira, então Ministro do Ultramar.

Segundo o Decreto n.º 36 507, de 17 de Setembro de 1947, existem em Portugal os seguintes cursos superiores:

Integrados na universidade : Filologia Clássica, Filologia Românica, Filologia Germânica, Ciências Geográficas, Ciências Histórico-Filosóficas (posteriormente desdobradas  em Ciências Históricas e  Ciências Filosóficas), Direito, Medicina, Ciências Matemáticas, Físico- Químicas, Geofísicas, Geológicas, Biológicas, Curso de Engenheiro Geógrafo, Faculdade de Ciências, Faculdade de Engenharia, Instituto  Superior Técnico, Agronomia, Veterinária, Faculdades e Escolas de Farmácia, Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras e ISEU (integrado na Universidade Técnica de Lisboa em 1961, com o nome Instituto Superior de  Ciências Sociais e Política Ultramarina).

Fora da Universidade: Arquitectura, INEF, Escola Naval e Academia Militar” (fim de citação).

Verifica-se pelo exposto, que, ainda em datas relativamente recentes, coexistiram em Portugal, médicos licenciados por universidades de Coimbra, Lisboa e Porto e diplomados pela escolas médicas de Lisboa e do Porto.

Antes de 1930, os médicos veterinários eram  diplomados por uma escola  superior não universitária, verificando-se a respectiva integração universitária nessa data. O INEF, viria a ser integrado na Universidade Técnica de Lisboa (1975), Arquitectura (1979),  tendo sido anunciada no último boletim do INEF , inclusivamente, a respectiva integração na Universidade Nova de Lisboa, criada em 1973.

Foi numa perspectiva, “honoris causa”, perante as dúvidas levantadas sobre o estatuto académico que adjectivava o INEF de nacional, aliás adjectivo que serve de identificação para os institutos universitários de educação física espanhóis,  que me debrucei nesse meu livro sobre o passado do INEF, até porque, segundo Paul Ricoeur,  “a historia é uma mediação  entre o passado e o futuro”. Isto mesmo foi reconhecido  por Roberto Carneiro, então ministro da Educação, quando numa cerimónia solene comemorativa da criação da Faculdade de Motricidade Humana, afirmou, em citação “verbo pro verbo”: “O INEF subiu a pulso o caminho que o havia de levar à Universidade”

No ano de 1992, cumprindo um desejo de há anos demonstrado pela própria Universidade de Coimbra, com o parecer unânime do seu Senado, é criada a sua oitava e última faculdade: a Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física de que pertenci ao respectivo corpo docente inicial  na condição de convidado.

Nesta ocorrência é da maior justiça referir o papel do então Reitor, Professor Rui de Alarcão, do  Professor de Medicina Poiares Baptista, do Professor de Farmácia Pinho Brojo e do Professor de Psicologia e Ciências da Educação Manuel Viegas  Abreu. Seria lapso de memória imperdoável omitir o nome do professor catedrático Jorge Bento, director da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade do Porto

Quanto à integração universitária do INEF houve nomes de professores de educação física que por ela pugnaram com denodo. Cito como “primus inter pares”, José Esteves. .E porque, como sentenciou Goethe, “só os mesquinhos são humildes”, seja-me permitido associar o meu nome ao dele mas em que ele foi gigante e eu simples pigmeu numa actividade epistolar com ele mantida em sua vida para que a integração da Educação Física em meio universitário se tornasse numa realidade que viria a verificar-se, passados trinta e cinco anos,  com a integração universitária do INEF (1940-1975).

Empenhei-me nesta causa com respaldo em leituras de Ramalho Ortigão, escritor que no século XIX  muita atenção prestou à formação integral dos jovens: “Em Portugal país de magricelas de derreados da espinhela, nada mais importante do que a Educação Física; e a ginástica não é uma questão de circo ou barraca de feira, é uma alta e grave questão de educação nacional”.

De igual modo, Sílvio Lima, falecido em 1993, professor de Filosofia da Universidade de Coimbra, com um extenso acervo de artigos (97)  publicados no jornal portuense “O Primeiro de Janeiro”, entre os anos de 39 a 43 do século passado, cuja riqueza envolve matérias  de frondosa árvore de que colho títulos como “Reflexões Críticas Sobre Desporto”; Desporto e Sociedade”, “Desporto e Ciência”, “Medicina Desportiva”, “Desporto e  Economia”, etc.

Aliás, o licenciado em Filosofia, Pedro Falcão, defendeu a tese de mestrado na Universidade de Coimbra tendo como temática a obra de Sílvio Lima que, em crítica demolidora para com os seus detractores,de entre eles seus pares académicos, teve o Desporto “como uma questão grave (grave porque etimologicamente pesada) que só parece leve aos de  leve aos de cabeça leve como o sabugo ou o algodão”.

Pobre país o nosso que tem o atrevimento de se julgar na vanguarda dos melhores métodos  de formar integralmente os seu jovens, futuros timoneiros  de uma nau a meter água por rombos do casco indo de encontro a rochedos escutando, ao longe,  cantos de sereias do Mar Tirreno que lhe prometiam saber dando-lhe  apenas ignorância.

Em crítica de Sedas Nunes, professor universitário e político português (1928-1991): “As Universidades são formadas por mero somatório de faculdades entre as quais não se encontra instituída nem se verifica qualquer colaboração relevante para fins de ensino ou de pesquisa. Em Lisboa e no Porto, a dispersão espacial dos edifícios universitários consagra, materialmente, esta separação”. Hoje nem tanto, por ter diminuído o culto de capelinhas em que as universidades viviam numa espécie de casulo, separadas umas das outras ciosas das suas identidades e individualidades.

Contraditando esta situação, defendeu George Gusdorf: “A atitude do especialista, quer seja matemático ou botânico, filólogo ou historiador, que se debruce ciumentamente sobre o estrito compartimento da sua própria competência deve ser considerada uma demissão. Qualquer dissociação do conhecimento é uma negação do conhecimento. O dever presente é trabalhar para verificar, para dar corpo àquilo que um século de análise desmembrou. O pressuposto da especialização deve dar lugar ao pressuposto da convergência. Ciências e Letras, Ciências da Natureza e Ciências do Homem, que parecem votadas a caminhos distintos, devem tomar consciência, cada uma por seu lado, que são como paralelas que se afastarem da sua própria direcção encontrando-se no infinito”. 

Judiciosas palavas estas que encontram eco na Faculdade de Ciências do Desporto da Universidade de Coimbra que, para além de docentes com formação em Educação Física e Desporto, tem docentes de outras áreas científicas como, por exemplo, Medicina, Hematologia Ciências Biomédicas, Ciências da Educação. Isto porque a Educação Física e o Desporto sendo ciências moles, não pertencem ao núcleo das ciências duras que se bastam a si próprias como, por exemplo,  a Matemática.

“Post scriptum”: É natural que o leitor se interrogue sobre o facto de eu me ter ocupado somente do ensino superior antes de 25 Abril. A razão é simples: vivia-se uma época em que chamar Anabela a uma mulher feia dizia-se ser um paradoxo.  Hoje, quando se fala do curso superior de Miguel Relvas, e de tantos outros compinchas seus, como José Sócrates, que fez exames ao Domingo, corre-se o risco da risada ou mesmo da gargalhada!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

MINHA ENTREVISTA À "LETRAS COM VIDA"

http://e-lcv.online/index.php/revista/article/view/124/94

EFEMÉRIDE: PRIMEIRO TRANSÍSTOR


 23 de dezembro de 1947 – 1ª demonstração do transistor nos Laboratórios Bell. Revolucionou o campo da eletrónica e abriu caminho para rádios, calculadoras e computadores mais pequenos e mais baratos, recebendo o Prémio Nobel da Física em 1956.

NOVA "HUMANITAS"

A “Humanitas” acaba de publicar o seu último número (em acesso aberto). Convidamos a navegar pelo sumário da revista para aceder à informação.

Imprensa da Universidade de Coimbra

Humanitas

v. 76 (2020)

Sumário

https://impactum-journals.uc.pt/humanitas

Artigos

·         Sucessão e Descontinuidade na Constituição do Aparecimento segundo o Filebo de Platão

Samuel José Oliveira

·         Heliodoro de Alejandría y el Comentario Anónimo al Tetrabiblos de Tolomeo

Raúl Caballero Sánchez

·         O estilo de vida dos Brâmanes na Refutatio omnium haeresium

Chiara Di Serio

·         Cicero’s corpus and Petrarch’s ankle. The theory of imitation and its practices

Rita Maria Marnoto

·         Humanismo renascentista e Hagiografia

Carlota Miranda Urbano

·         Trasmundo, sueño y profecía en los Cantos de la batalla ausonia de Pedro de Acosta Perestrello

Juan Carlos Jiménez del Castillo

·         Note sulla struttura metrico-ritmica della traduzione della prima Pitica pindarica di P. Baffi

Nikola D. Bellucci

·         Aristotle and Ricœur on Practical Reason

Gonçalo Marcelo  

 

Recensões Críticas

·         Recensão a BERGUA CAVERO, Jorge, Pronunciación y prosodia del griego antiguo. Guía práctica para la lectura de sus textos, Madrid, Ediciones Clásicas, Supplementa Mediterranea, 15, 2015, 122 pp., ISBN 978-84-7882-744-2

Míriam Carrillo Rodríguez

·         Recensão a CARDANO, Girolamo, De Consolatione, cura di Marialuisa Baldi, revisione filologica a cura di Elisabetta Tonello, Firenze, Leo Olschki, 2019, pp. 295, ISBN 978 88 222 6623 1

Ana Isabel Correia Martins

·         Recensão a CHRYSTAL, Paul, In bed with the Ancient Greeks, Amberley, UK, Amberley Publishing, 2018, 288 pp. ISBN: 978 1 4456 7717 0

Rui Miguel Ventura do Couto Tavares de Faria

·         Recensão a FIGUEIRA, Thomas (ed.), Myth, Text, and History at Sparta. Gorgias studies in classical and late antiquity, 18. Piscataway, NJ: Gorgias Press, 2016, 330 pp. ISBN 9781463205959.

Martinho Soares

·         Recensão a JACOBS, Susan G., Plutarch’s Pragmatic Biographies: Lessons for Statesmen and Generals in the Parallel Lives, Leiden & Boston, Brill Academic, 2018, 471 pp. ISBN: 978-90-04-27660-4

Joaquim Pinheiro

·         Recensão a MARINCOLA, John, On Writing History: from Herodotus to Herodian, London, Penguin Classics (Penguin Books), 2017, 600 pp. ISBN: 978-0-141-39357-5

Martinho Soares

·         Recensão a MIRANDA, Margarida, Miguel Venegas and the Earliest Jesuit Theater: Choruses for Tragedies in Sixteenth-Century, Leiden – Boston, Brill, 2019 (Jesuit Studies: Modernity through the prism of Jesuit History, volume 23), XVI + 240 pp.

Manuel José de Sousa Barbosa 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Augusto Fitas - A Junta de Educação Nacional

SERÁ OU NÃO MAU DEMAIS?


Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha tudo”  (Albert Camus).

Pelo interesse de que reveste, por “a verdade ser a  essência da moralidade” (T. Huxley), obrigo-me   a transcrever o comentário que foi feito ao meu artigo aqui publicado, no dia 17 deste mês,  titulado “Ainda o  ministro Eduardo Cabrita”.

Escreve o autor desse comentário, assistente graduado sénior em Medicina Interna, que o endereçou, igualmente,   o respectivo texto ao presidente do Sindicato da Carreira de Investigação do SEF, que trancrevo “verbo pro verbo”:

Fui médico hospitalar e, em contexto de Serviço de Urgência, fui muitas vezes chamado a resolver problemas associados a grande agitação de doentes que se encontravam naquele espaço e também nas enfermarias onde tinham sido internados pelas mais diversas doenças.

Frequentemente a agitação deveu-se a abstinência alcoólica, o que acarretava grande dificuldade em resolver, pois implicava não só conseguir acesso ao doente para lhe poder dar medicação, como também o uso de doses elevadas de sedativos, com risco de lhe provocar sedação excessiva e necessidade de suporte ventilatório. A actividade alucinatória é um componente que impede uma comunicação minimamente eficiente.

Pela descrição que ouvi sobre o que se passou no SEF em Março de 2020, tudo me leva a supor que Ihor Homenyuk, ao segundo dia de estar retido nas instalações do aeroporto, desenvolveu um quadro de Abstinência Alcoólica. A crise epiléptica descrita pertence ao quadro. A gíria chama-lhe “rum fit” e é frequente no início da síndrome. Ihor Homenyuk esteve num Serviço de Urgência e teve alta sem lhe terem diagnosticado Abstinência. Essas “crises epilépticas não se tratam com antiepilépticos, mas com sedativos para a abstinência. Uma abstinência alcoólica não tratada pode, só por si, levar à morte, mas a contenção "sem mais nada", agrava a evolução, porque a agitação associada ao grande esforço muscular para se libertar, é equivalente ao que aconteceu aos recrutas Dylan da Silva e Hugo Abreu em 2016 - um grande esforço associado a desidratação, leva a alterações metabólicas graves com falência multi-orgânica.

Eu não quero crer que o pessoal do SEF o tenha agredido. Acredito que não soube lidar com um indivíduo agitado e que o manteve imobilizado "demasiado tempo" na esperança infundada de "ele acalmar”.

Os médicos chamados a dar opinião, não o fizeram dentro da ‘melhor arte’, talvez por não terem acesso a informação suficiente.
1: quem o observou no SU, não diagnosticou Abstinência Alcoólica e deu-lhe alta.
2: o médico do INEM, encontrou-o em "paragem cardio-respiratória", isto é - morto. Não é dito o que escreveu na Certidão de Óbito.
3: o médico de Medicina Legal escreveu que as lesões que causaram a morte foram causadas por “agressão”, não especificando se desencadeadas por “auto-agressão” ou por manobras de contenção demasiado prolongadas.

Ihor Homenyuk pode ter caído, ter batido com a cabeça em qualquer lado com sequentes lesões cerebrais, pode ter fracturado costelas ou outros ossos nessas quedas, pode apresentar múltiplas equimoses sem que elas signifiquem violência intencional, mas decorrentes das quedas ou das manobras de contenção, e pode ter falecido em consequência dessas lesões ou das alterações metabólicas que referi.

Parece-me imprudente que o Presidente da República, Ministros e Líderes Partidários (da Esquerda à Direita), venham a terreiro falar em “HOMICÍDIO”, antes das alegações da Defesa e de um Juiz se pronunciar, como que a arranjar um “bode expiatório” para acalmar a população”.

Eu não isento de culpas os elementos do SEF presentes nos dias dos factos. Era sua obrigação ter assumido que aquele nível de contenção não se devia prolongar e ter tido o discernimento de contactar uma chefia mais esclarecida ou referenciá-lo a um hospital. Recuso a teoria do “mataram-no à pancada!” Era mau demais!”
(fim de citação)

Em resposta minha a esse comentário com a chancela de um profissional da arte de Esculápio, começo por me penalizar  do mau uso que, porventura, eu possa  ter feito de uma  opinião, embora não  meramente pessoal, porque,  fundamentada numa certidão de óbito,  ergo certificada oficialmente.

Isto é, em face do ocorrido, em direito meu de cidadania de um país livre e responsável, entendi que um  caso com as proporções deste, não podia, nem devia, permanecer na penumbra da dúvida para que o nosso país não fosse  havido como uma espécie de território  sem lei que virou as costas ao direito dos inspectores do SEF em não serem acusados de “crimes” que não cometeram.

Deve ser exigido, face ao exposto,  que o SEF não seja tido , "a priori", como uma segunda PIDE, ou ainda mais criminosa, que vigorou  durante o Estado Novo.

Deve ser exigida, também,  a readmissão de três dos seus inspectores, a ser confirmada a justeza da defesa feita pelo supracitado médico, por eles não deverem  continuar a calcorrear o caminho que os leve a uma espécie de monte de Golgotá para serem crucificados antes de  uma culpa devidamente confirmada.

Deve ser exigida, em nome da mulher e da filha de Homenguk, ainda,  uma justiça justa  (ressalve-se a redundância!) e célere por haver, para Victor Hugo, “um ponto em que até a justiça é injusta”, para ser mitigada a dor por elas sofrida de uma possível morte do seu familiar  “à pancada”.                                                                       

Deve ser exigida, finalmente, depois dos tribunais que têm o caso entre mãos se pronunciarem, o pedido de desculpas por uma possível precipitação que possa ter levado à demissão injusta e desatempada de três inspectores desta instituição estatal.

Eu próprio exijo de mim, se for caso disso,  o dever de me retractar por ter ido atrás da onda de acusações para que não possa haver entre o que se diz e o que se passou na realidade,  parafraseando Miguel Torga, “um fosso da largura da verdade”.

“Alea jacta est”! Em possível função deste documento subscrito por um médico que se pronunciou pondo em dúvida o ocorrido no SEF, compete às entidades devidamente credenciadas  em julgar este controverso caso, com a isenção de não se tornarem defensores ou acusadores levados por nobres sentimentos de repulsa, deixando para os tribunais, o apuramento, que está em curso,   da verdade dos factos para que, em judiciosas palavras de Camilo Castelo Branco,  “as acções de cada pessoa não sejam boas ou más consoante a maneira  como as outras as comentam”! Aguardemos, pois, pela decisão dos tribunais!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

BREVE NOTA SOBRE A IDOLATRIA


"Um ensaio crítico de Eugénio Lisboa sobre a idolatria “num mundo em que há mais ídolos do que realidades”, segundo Nietzche. É essa paróquia nacional dissecada com mestria por ele,   neste  seu texto sobre excessos cometidos ao erigirem-se "ídolos de pés de barro": 

"A idolatria foi condenada por três religiões diferentes – e nem sempre convergentes – como um dos piores pecados que um ser humano pode cometer. A Bíblia, a Tora e o Alcorão convergem nisso sem a mais pequena reserva. O homem que idolatra não admira com fundamento: adora com fanatismo e vê, nos que ponham reservas a tão aquecida paixão, um inimigo arrogante, um desmancha-prazeres e um convencido. Quiçá um herético ou um infiel a abater. A idolatria renega o equilíbrio, a saúde mental e o sentido crítico.

Sobre a idolatria, o grande dramaturgo irlandês, George Bernard Shaw, disse várias coisas saborosas, entre elas, esta: “O selvagem dobra-se diante ídolos de madeira e de pedra, o homem civilizado, diante de ídolos de carne e osso.”

A nossa vida intelectual, depois de quarenta e seis anos de democracia e de muitas décadas de saudável pedagogia libertadora de um António Sérgio, vive ainda no comprimento de onda da mais provinciana e infecunda idolatria, como se torna evidente com a histeria obituária que por aí se despenha, de cada vez que se assinala o passamento de um vulto de algum modo mais destacado, no nosso meio cultural. A falta de perspectiva e de aconselhável comedimento que então nos assola é simplesmente assustadora. Uma avaliação honesta, modesta, comedida, e fora das ejaculações mais intemperadas é considerada inveja, mau feitio e desmancha-prazeres.

O cronista A, o romancista B, o poeta C, o filósofo D são, no mínimo, verdadeiros gigantes, só que ninguém dá por eles, nos verdadeiros areópagos. Há nesta loucura não tão mansa como isso algo de muito doentio: uma espécie de sobrecompensação para a nossa pequenez e relativa pouca relevância internacional. Debita-se para aí uma ladainha de Bandarra, com promessas férvidas de triunfos que nos compensem de infortúnios pretéritos.

Escrevemos então o melhor romance dos últimos cem anos, um poema tão grande como os Lusíadas  e temos, entre nós, o melhor filósofo dos últimos três séculos  ou mesmo de sempre. E fazemos uma festa com grande espalhafato, que só não nos torna mais ridículos porque ninguém, lá fora, dá por isso.

Na África do Sul, na língua Afikander, há uma palavra capitosa que significa um peixe considerado grande porque habita num lago pequeno. Se eu fosse linguista, inventava, em português, um vocábulo que se ajustasse a este conceito. Teríamos bom uso para ele.

O pior das idolatrias é que são um terrível entrave ao progresso do conhecimento. Este sempre se fez de um necessário acolhimento à contradição e ao encontrar sucessivo de melhores respostas para as nossas perplexidades. A admiração não faz mal, mas o embevecimento é de mau aviso. Além do mais, o idólatra tende a reduzir o diâmetro do foco da sua atenção: só vê o idolatrado e nada mais à sua volta ou para trás, numa espécie de “criacionismo”  que a ciência de há muito rejeita.

Para terminar, direi que o Portugal de Bento Caraça, de Aniceto Monteiro, de Aurélio Quintanilha, de Tiago Oliveira, de António Sérgio, de Sílvio Lima, de Jaime Cortesão, de Raul Proença, de José Régio, de Rui Luís Gomes, de Abel Salazar, de Jorge de Sena e de tantos bons argonautas da Seara Nova não merece que lhe suceda um Portugalinho idólatra, provinciano, unânime e contente.

Alguém dizia que um Professor é um cavalheiro de opinião diferente. Um verdadeiro pensador, um verdadeiro investigador, um verdadeiro artista criador é também isso mesmo: um cavalheiro de opinião diferente. A idolatria não acolhe a opinião diferente e é sempre um triste sinal de atraso.

Por mim, enquanto o vigor me não abandonar, terei sempre muito orgulho em pertencer à tribo dos cavalheiros de opinião diferente. Até porque, mesmo com a minha provecta idade, não quero ficar parado".

domingo, 20 de dezembro de 2020

SOMOS O PASSADO DE AMANHÃ


Com o prazer habitual e proveito de sempre, transcrevo esta desassombrada, belíssima e profunda análise que o meu estimado amigo Eugénio Lisboa, académico, ensaísta e crítico literário publicou no “Jornal de Letras”, com o subtítulo: "Algumas observações cândidas sobre Eduardo Lourenço": 

We are tomorrow’s past
Mary Webb 
 
O texto que vem a seguir não visa de modo nenhum ser antipático com a figura do autor de Pessoa Revisitado. Que fique desde já claro: seria estulto e ingrato não reconhecer a forte marca que a sua intervenção cultural teve no nosso meio intelectual. Mas vou falar sobretudo – e parece-me fundamental fazê-lo – no modo um pouco inquietante, unanimista e incontinente da homenagem que se tem andado a fazer e que deixa muito a desejar, quando se vise um escrutínio sereno, objectivo e inteligente, que a obra de Lourenço requer e merece. 

Isto, de resto, não se tem passado só com Eduardo Lourenço: algumas figuras de algum porte, recentemente desaparecidas, foram também alvo de intemperadas ejaculatórias fora de qualquer equilibrado senso crítico. Não é, a meu ver, a melhor maneira de se homenagear um morto que deixou marca entre os vivos.

António Sérgio e José Régio passaram a vida a fazer a pedagogia de uma metodologia feita de cautela, de bom senso, de obstinação fecunda, de aprofundamento gradativo e sereno, evitando o excesso ditirâmbico e, afinal, pouco fundamentado e pouco crítico.

O grande físico, Albert Einstein, incomodado com o verdadeiro culto a que votaram a sua figura de grande intérprete do universo, declarou que “o culto da pessoa humana [lhe pareceu] sempre injustificado”. Eu diria mais: perigoso e pouco fecundo.

Andar a descobrir, dia sim, dia não, um novo génio de serviço que vem e arrasa tudo quanto antes se fez é puro provincianismo, o qual, ao contrário do pensamento vigente, não habita preferencialmente na província.

Lourenço foi um homem muito inteligente, mas com óbvios limites, como toda a gente. Para começar, como já algures observei, o seu estilo de escrita nem de longe era o mais adequado a um bom prosador de ideias. Os grandes modelos de veiculadores de ideias, de Antero a Orlando Ribeiro, passando por António Sérgio, José Régio ou Sílvio Lima, entre outros, ou por alguns dos maiores filósofos de qualquer nacionalidade, oferecem-nos uma prosa límpida, intrepidamente descascada, alheia a “fioretti” e a maneirismos gongorizantes, que só servem para atravancar o fluir asseado das ideias.

São inúmeras as pessoas – sobretudo, mas não só, pessoas que vivem fora de Portugal e estão habituadas a outras leituras mais arejadas – a queixarem-se da obscuridade das prestações ensaísticas de Eduardo Lourenço. E têm alguma razão. As boas ideias não devem esconder-se por detrás de vestes complicadas e apinocadas, que as tornem de doloroso acesso.

O filósofo Vauvenargues, que Voltaire tanto estimava, deixou-nos um aforismo célebre, que não me canso de recomendar a académicos fascinados pelo valor da opacidade: “A clareza é a boa fé dos filósofos.” E o filósofo Wittgenstein, mais citado do que realmente lido, ia mais longe, quando dizia que um pensamento que se não consegue exprimir com simplicidade e clareza é indício de que ainda não está maduro para ser expresso. Mas estar na posse de um pensamento amadurecido e torná-lo deliberadamente obscuro, pela vestimenta que se lhe acrescenta, é propriamente inaceitável. E impróprio de um filósofo.

Lourenço gostava, obviamente, de aprimorar e apinocar o veículo das suas ideias (o estilo), o que talvez agradasse aos amantes de algum gongórico, mas servia mal os verdadeiros amantes de ideias. Esconder, com berloques, a nudez de uma ideia pode levantar a suspeita de que se quer ocultar a fragilidade dessa ideia. Eis por que me revejo mais, em termos de veículos de ideias e de sólidos argumentos de avaliação literária, nos textos de ensaístas como Sérgio, Régio, Sílvio Lima, David Mourão-Ferreira, Jacinto do Prado Coelho, Álvaro Lins, Alceu Amoroso Lima e, noutra área, na admirável e clarificante prosa de um Bertrand Russell ou de um Bergson. 

Mas as reservas que aqui quero trazer são mais dirigidas aos admiradores e aduladores de Lourenço, aos emissores de epitáfios incontinentes, do que ao próprio ensaísta. Quando querem fazer dele o argonauta que “desvendou” Portugal e Pessoa aos portugueses, estão a assassinar os factos eruditos e a cometer uma clamorosa injustiça. Aqui, repito, o pecador não é o autor de O Labirinto da Saudade, mas sim os seus aduladores pouco informados ou muito esquecidos. 

Todo o excesso de admiração é sempre suspeito e revela, em geral, pouco senso crítico e péssimo conhecimento da obra idolatrada. André Gide, que era, além de notável ficcionista e diarista, um finíssimo crítico e ensaísta, raramente dado a desmedidos ditirambos, observava, judiciosamente, que, quando se tem pouca coisa a dizer de alguém ou de uma obra, até não calha mal berrar, e que o excesso é frequentemente uma marca de penúria, pois que a verdadeira abundância arrasta consigo uma espécie de ponderação. O excesso, além de normalmente implicar um défice de conhecimento, é, repito, perigoso. O poeta William Blake dizia que o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria. 

Pode ser que sim: depende de que excesso se trata, porque o excesso de admiração pode levar ao palácio do erro e da injustiça. Pessoa não precisou de Lourenço para ser descoberto, lido, estudado, promovido e traduzido. Dizer que Lourenço, por mais admirável que seja a sua sondagem pessoana, “desvendou” Pessoa aos lusíadas, esquecendo o admirável trabalho de quem, de muito longe, o precedeu é cometer os pecados capitais de ou esquecimento, ou desatenção, ou ignorância ou leviandade.

Já em 1925 – ainda Lourenço gatinhava – José Régio arriscava a sua licenciatura, apresentando à conservadora Universidade de Coimbra, uma dissertação sobre as modernas tendências da poesia portuguesa, na qual dava palco generoso aos três argonautas do Orpheu. E aí coroava Pessoa com o estatuto de Mestre. Esta dissertação seria depois publicada, com o título de Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa, em 1941. Nesta altura, Lourenço já não andava de bibe, mas tinha apenas 18 anos e, entretanto vigorara a revista presença, de 1927 a 1940, a qual deu larguíssima atenção e palco a Pessoa e aos seus principais heterónimos. E ignorar Jacinto do Prado Coelho que, com a sua tese seminal – Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa – deve ter feito solevar mais do que uma perturbada sobrancelha na Universidade de Lisboa, é mais ou menos tão grave como ignorar personalidades como Jorge de Sena, João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Teresa Rita Lopes, David Mourão-Ferreira e tantos outros (perdoem-me se os não cito) a quem a aura pessoana tanto deve.

Do mesmo modo, dar ao autor de Labirinto da Saudade os créditos de pioneiro solitário no desvendar de Portugal aos portugueses é cometer outra injustiça de truz: então o Antero das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, o Eça, que tão bem sondou as misérias, os tics e as cómicas megalomanias da sociedade portuguesa, com uma arte inigualável, o Oliveira Martins do Portugal Contemporâneo, o Miguel Torga, do belíssimo livro Portugal, dos vibrantes e inesquecíveis dezasseis volumes do Diário e dos contos admiráveis dos Novos Contos da Montanha ou o António Sérgio, dos oito límpidos e clarividentes Ensaios, além de muitas outras notáveis e corajosas intervenções, não colaboraram nada para desvendar Portugal aos portugueses? Nada disto conta? Lourenço veio pisar terra virgem? (Não foi ele quem o disse, foram os seus intemperados aduladores).

Olhem que a injustiça é feio pecado e o autor do admirável Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista não precisa de favores espúrios. Outro aspecto que gostaria de aqui sublinhar é este: Eduardo Lourenço aceitou sempre muito mal e de muito mau humor os raríssimos reparos que, em vida, confrontou. Visou sempre, com prodigioso trabalho de formiga, uma saboreada unanimidade, sem vestígios de contraditório. E conseguiu-o, o que não fica bem a um meio cultural adulto.

Nisto, não seguiu a fecunda pista de Karl Popper, que descreveu a lógica do progredir científico, por via da aceitação da “falsificação” (acto de mostrar que é falsa uma hipótese de trabalho), a qual permite passar o mais rapidamente possível, de uma hipótese revelada frágil, para outra mais competente. Entrincheirar-se o “clerc” na “sua” hipótese, como se fosse um ganho definitivo não é muito próprio de quem quer avançar no conhecimento.

O sábio Samuel Johnson, biógrafo de poetas e o autor do primeiro verdadeiro dicionário da língua inglesa, além de ser o protagonista da mais elogiada biografia de sempre (Life of Johnson, de James Boswell) foi um dia abordado por uma senhora meticulosa, a qual encontrara no Dicionário de Johnson um erro: atribuição de um sentido errado a um certo vocábulo. Intrigada, perguntou-lhe por que tinha ele cometido tal erro. O sábio respondeu com suave candura: “Ignorância, minha Senhora. Pura ignorância!” Assim falam os sábios que se não importam de errar e gostam de progredir. 

Para terminar, gostaria de voltar a sublinhar que esquecer a contribuição dos que nos antecederam e contribuíram para o nosso conhecimento é abrir um mau precedente. Como diz a epígrafe de Mary Webb, que antepus a este texto, “somos o passado de amanhã”. O que fizermos aos que nos antecederam será provavelmente o que nos farão os que nos sucederem.

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...