segunda-feira, 29 de setembro de 2014

OS MAIAS: MAIS DE 40.000 ESPECTADORES



No filme "Os Maias", de João Botelho, em exibição há já algum tempo (já com mais de 40.000 espectadores), há uma referência a Darwin, pela boca de Ega, embriagado:

"— Se vocês soubessem que corpo de mulher! — gritou ele de repente. — Oh! meninos, que corpo de mulher... Imaginem vocês um peito...

— Não queremos saber — disse Carlos. — Cala-te, tu estás bêbedo, miserável!

Ega ergueu-se, retesando a perna, arrimado de lado à mesa.

Bêbedo! Ele? Ora essa!... Era coisa que não podia, era empiteirar-se. Tinha feito o possível, bebido tudo, até aguarrás. Nunca! Não podia...

— Olha, vou pôr aquela garrafa à boca, tu verás... E fico frio, fico impassível. A discutir filosofia... Queres que te diga o que penso de Darwin? É uma besta... Ora aí tens. Dá cá a garrafa."

domingo, 28 de setembro de 2014

POSIÇÃO DA ABIC ACERCA DA CONVERSÃO DO MONTANTE DAS BOLSAS EM SALÁRIO BRUTO

Transcrevo um comunicado da direcção da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC) acerca da transformação das actuais bolsas em contratos de trabalho. 

Vínculo laboral dos investigadores

A ABIC, como outras entidades, reconhece a urgente necessidade de abordar a questão do vínculo laboral dos investigadores, transformando as actuais bolsas de investigação em contratos de trabalho.

É importante, no entanto, discutir de que maneira é que a conversão do subsídio mensal em um salário teria lugar. Para a ABIC, que desde a sua fundação tem defendido o reconhecimento e a dignificação destes profissionais, é inadmissível uma simples conversão do atual montante da bolsa num salário bruto.

Inadmissível porque:

- tal representaria um violentíssimo decréscimo dos rendimentos dos bolseiros em virtude dos descontos para o IRS e Segurança Social;

- porque um futuro salário tem que ter em conta a reposição do poder de compra perdido pela não actualização do montante das bolsas desde 2001;

- porque um contrato de trabalho compreende 14 meses de salário. Os recentes cortes nos subsídios de férias e Natal foram cortes impostos por entidades internacionais, por governos com políticas altamente lesivas para a ciência e para todos os trabalhadores e não podem ser dados como definitivos ou perdidos.

A ABIC reitera a sua posição de que um investigador, seja em que fase for da sua carreira, realiza trabalho científico e que por isso deve ser considerado um trabalhador com todos os deveres e direitos inerentes a essa condição.

A ABIC não concorda de todo com soluções que, ainda que possam ter a intenção de conceder um vínculo laboral a estes profissionais, agravem e precarizem ainda mais a sua situação profissional.

Tal como é afirmado na Carta Aberta promovida pela ABIC “é crucial reconhecer a importância da qualificação e estabilização dos recursos humanos na investigação científica e dignificar as suas condições de trabalho, tal como é preconizado pela Carta Europeia do Investigador. Neste sentido, é imprescindível melhorar as condições laborais e sociais daqueles que fazem ciência. Cumpre, por isso, que todos os investigadores, qualquer que seja o seu grau ou posição, sejam reconhecidos efetivamente como trabalhadores e que lhes seja garantida liberdade de ação e discussão, pelo que defendemos uma outra política para a ciência.”

A Direção da ABIC
27 de Setembro de 2014

RTP: Centros de referência admitem parar projetos de investigação já em janeiro


A crise está a afastar Portugal dos lugares cimeiros da investigação. Alguns laboratórios portugueses de referência já perderam metade dos investigadores e bolseiros. Os cortes na ordem dos 50% põem em causa projetos vitais e os ordenados dos investigadores. Comentários de Cláudio Sunkel, Diretor do Instituto de Biologia Molecular e Celular; André Janeco, Pres. Ass. Bolseiros Investigação Científica; Deolinda Lima, Dir. Apoio Investigação Fac. de Medicina do Porto; Jorge Seabra, Pres. Instituto Engenharia Mecânica e Gestão Industrial.

http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=769659&tm=8&layout=122&visual=61

"CIENTISTAS UNIDOS CONTRA CORTES CEGOS"

Ler aqui minhas declarações à Lusa a propósito da Noite dos Investigadores.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O COLÓQUIO DE JORGE JESUS NA FACULDADE DE MOTRICIDADE HUMANA

“Presunção e água benta cada um toma a que quer” (provérbio).

Nota introdutória: Reporto-me ao comentário do Engenheiro Ildefonso Dias, insito no meu post, publicado neste blogue, intitulado “A basófia de Jorge Jesus tida como profunda ironia” (13/09/2014). Abordo pela rama possíveis  comparações entre os egos de José Mourinho e Jorge Jesus por merecerem, por si só, um post sobre uma temática do foro psicológico para o qual me falta preparação académica ou mero “engenho e arte”. No caso de José Mourinho, dado o seu estatuto profissional, que deu volta ao mundo e fazendo fé em Mário Quintana, uma possível modéstia da sua parte não poderia ser tomada como “vaidade escondida atrás da porta”? Em consequência, atenho-me, apenas, a algumas reflexões pessoais sobre o treinador Jorge Jesus, segundo ele próprio, um “cientista do Futebol.”

Em frutuoso acervo de artigos comentados, em louvável labor académico de tese de mestrado, do licenciado em Filosofia  Pedro Falcão, foi publicado,  em Abril/2010, um livro intitulado “Sílvio Lima e o Desporto”. Silvio Lima, professor universitário  de Filosofia e Ciências da Educação de Coimbra, falecido há 21 anos, com um extenso acervo de artigos sobre desporto (97), publicados  no jornal portuense “O Primeiro de Janeiro”, entre 1939/43, cuja riqueza envolve títulos de frondosa árvore de que colho este ramo: “Desporto e Ciência”.

A publicação desta tese ficou-se a dever aos bons ofícios do professor catedrático de Letras e director da Imprensa da Universidade Coimbra, João Gouveia Monteiro, que deu um testemunho público do interesse da “Velha Torre” em libertar um corpo aprisionado, durante séculos, nas grades do res cogitans. Aliás, como o acontecido, anos antes, quando esta prestigiada academia das margens do Mondego  enriqueceu os seus vetustos claustros com a criação da sua última e oitava  faculdade, a Faculdade de Desporto e Educação Física, que encontrou no seu então reitor, professor catedrático da Faculdade de Direito, Rui de Alarcão, apoio entusiástico quem sabe pelo reconhecimento de que o desporto, segundo Sílvio Lima, “é uma questão grave (grave, quer dizer etimologicamente pesada) que só parece leve aos  de cabeça leve como o sabugo e o algodão”
.
Para se compreender o “fenómeno Jorge Jesus” e o lugar cimeiro em que o colocou Manuel Sérgio, através da sua encomiástica apresentação no Colóquio “Teoria e Prática no Futebol”, destinado a alunos universitários candidatos à carreira de treinadores de futebol, tendo por pano de fundo o Salão Nobre da Faculdade de Motricidade Humana, da  Universidade Técnica de Lisboa, há que dar ênfase às palavras de Manuel Sérgio quando assevera o facto  do apresentado ser “um homem de estudo que sabe hoje que é um especialista numa ciência humana” . E acrescentou, ainda, Manuel Sérgio: “Assistir a um treino  de Jorge Jesus é como assistir a uma aula universitária”.  Por seu lado, Jorge Jesus, em incontinência verbal, embalado em berço  de “ledo e doce engano” de elogios,  dixit: “Eu criei uma ciência para ter uma ideia, um modelo de jogador, um modelo de treino”(sic.).

Mas para que o absurdo não faça tábua rasa do passado (Camus), justifica-se que eu ressuscite  um meu artigo de opinião, intitulado “Futebol, uma ciência sem cientistas?” Do artigo, extraio alguns excertos:

“No mundo das actividades corporais da Grécia Antiga chega-nos a polémica entre práticos e teóricos. Segundo Galeno (célebre médico grego, tido como pai da Medicina Desportiva Moderna), os treinadores troçavam das teorias dos professores de ginástica e dos médicos sob o pretexto de que quando se não tem a prática do ofício não se tem o direito de discutir sobre coisas desconhecidas!

Na década de 60, Severiano Correia, treinador e antigo jogador de futebol (já falecido), fez-se prosélito desta teoria ao transcrever, e subscrever,  parte da entrevista de Balmanya, então treinador do Bétis de Sevilha, no jornal “A Bola, e em que este ‘se mostrava sumamente surpreendido com o facto do Sporting, além de ter um treinador, também utilizar um preparador físico, sistema que não compreendia, uma vez que o técnico  deve ser o único responsável por toda a orientação da equipa’” (“Tribuna”, Lourenço Marques, 05/03/1964).

Em toda a sua ancestralidade, reacendia-se, mais uma vez,  uma polémica protagonizada por treinadores de futebol e professores de Educação Física. Assim, numa reunião do Sindicato Nacional de Treinadores foi levantada a questão da legalidade dos técnicos de Educação orientarem a preparação  técnico-táctica das equipas de futebol, embora a preparação física a seu cargo me parecesse já matéria de consenso” (“Jornal Novo”, 15/01/77).

É natural que numa época em que as pessoas temem ser confrontadas com aquilo que escreveram antes e depois de 25 de Abril, o leitor estranhe a excepção destas transcrições suportadas por uma tese que sempre perfilhei, muito antes mesmo do endeusamento de Carlos Queirós e seus adjuntos [reportava-me eu aos campeonatos mundiais e europeus ganhos por jovens futebolistas portugueses].E que tese é essa? Ao contrário  dos que pretendem para este desporto uma  situação  em que os antigos jogadores de futebol – agora treinadores – sejam  os seus teorizadores,  seguindo o Futebol a evolução dos outros domínios do conhecimento/ciência, muito naturalmente, deverá passar a ser-lhes exigida, uma sólida formação teórica.

Consequentemente, subscrevo a categorizada opinião de Joseph Blatter, secretário –geral da FIFA, quando diz que ‘Carlos Queiroz e os seus jogadores praticam o verdadeiro…futebol do futuro’ (título da sua  entrevista em ‘A Bola’, 23/06/1991). Em minha opinião, reforçando o que escrevi no parágrafo anterior, essa prática tem que caminhar a par com a formação dos treinadores  com  licenciaturas em Educação Física (na opção de futebol) pela Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa ou  outras faculdades” (“Jornal de Coimbra”, 28/08/1991).

Posto isto, volto a falar de Jorge Jesus e José Mourinho, ambos "ungidos" por uma máxima de Manuel Sérgio em que ele, parafraseando o cientista e homem de vasta e prolixa cultura,  Abel Salazar, escreve : “Quem só sabe de futebol nada sabe de futebol”.

Tempos atrás, Manuel Sérgio aplicou esta máxima a José Mourinho, evocando orgulhosamente, urbi et orbi, o facto dele ter sido seu aluno no então ISEF da Universidade Técnica de Lisboa. Hoje, Manuel Sérgio aplica essa mesma máxima ao treinador Jorge Jesus, numa espécie de fato prêt-à porter capaz de servir impecavelmente a ambos.

Qual Pigmalião de tempos modernos, Manuel Sérgio, adjunto e mentor de Jorge Jesus no Sport Lisboa e Benfica, “para honra e proveitos seus”, conforme ele próprio confessa,  inspirado na peça teatral de Bernard Shaw, adaptada ao cinema no filme “My fair Lady”, numa infeliz e apressada jogada de antecipação, talvez por pensar que Jorge Jesus já tinha adquirido a dicção e o à-vontade social da respectiva personagem feminina, Audrey Hepburn, resolveu apresentar a sua obra prima de carne e osso  no Salão Nobre da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa.

Por vezes, a realidade supera a própria fantasia em desrespeito pelos usos e costumes tradicionais, facto criticado, já no século XIX, por Eça quando este romancista, glória da literatura portuguesa, fez correr a pena sobre o papel em que escreveu: “Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência”. Aliás, como diziam os romanos, nihil novi sub sole!

Os Portugueses descobriram a Austrália?


O autor deste livro vai estar às 21h15 à conversa com David Marçal e Sérgio Rodrigues no Rómulo - Centro Ciência Viva (rés do chão do Departamento de Física da Universidade de Coimbra), pelas 21h15m. É a Noite dos Investigadores e o tema é "Ciência e Mistério". Todos são benvindos!

Manifesto por um país

Transcrevo um Manifesto pblicado no Público de hoje, que integra entre os subscritores vários cientistas entre muitas pessoas da cultura:

Quem assina este Manifesto expressa a sua indignação, seguramente partilhada por tanta mais gente, perante o aviltamento de Portugal e o empobrecimento da esmagadora maioria dos portugueses ao longo dos três anos da troika, e de então para cá. Esse aviltamento traduz-se no ousado enriquecimento de alguns, à custa da dignidade, dos direitos e do valor do trabalho, e consequente fragilidade e miséria na exploração de tantos.

Quem na(s) última(s) legislatura(s) governou e impôs as medidas de austeridade, na Europa e em Portugal, desfrutando de um aumento exponencial da dívida pelos altos juros lucrativos com que foi negociada, levou os povos a uma austeridade e precariedade sem precedentes que atingiu a maioria, permitindo um abuso sem controlo por parte das elites financeiras nacionais e internacionais, bem como das instâncias financiadoras.

São evidentes as consequências: desrespeito pelas regras constitucionais, enfraquecimento da democracia nas suas responsabilidades sociais (justiça tributária, Segurança Social, escola pública, Serviço Nacional de Saúde, etc.) e ameaças ao próprio exercício dos direitos democráticos.

Depois destes três anos angustiantes para a maioria dos portugueses, há que recuperar o país. Há que descartar as dissensões de Esquerda desnecessárias, de modo a ser viabilizada uma convergência quanto ao rumo de Portugal e ao seu lugar na União Europeia. Há que combater todo o conformismo e subserviência para, em vez disso, serem desenhadas alternativas concretizáveis que respondam aos múltiplos problemas do país, que são alarmantes.

Da parte de todos os homens e mulheres, cidadãos e cidadãs conscientes do que significa a dignidade humana, impõe-se, pois, um levantamento de carácter ético e cultural, que afirme antes de mais em Portugal e na Europa uma democracia de alta intensidade: criticamente participada, socialmente mais justa, culturalmente mais criativa e aberta ao pluralismo, politicamente democrática no sentido próprio da palavra, ou seja, em que a cidadania seja efectivamente exercida. Tudo isto a substituir a fictícia União actual, que é, afinal, União a mando de um só país, e os interesses de empresas e bancos nacionais, com o poder de impor aos países mais frágeis um tratado orçamental que mantém nessas sociedades uma austeridade sem fim à vista.

Ora com um milhão de desempregadas e desempregados, com a finança a cobrar a Portugal um resgate galopante, com o enfraquecimento da contratação colectiva, e ainda com um novo risco, já anunciado, o da imposição de círculos uninominais (que por via administrativa perpetuarão o bloco central), não é possível ficarmos apáticos numa irresponsabilidade fácil perante o presente e o futuro de tanta gente. Urge mudar a vida. E, porque mudar a vida significa mudar o rumo, urge efectuar uma ruptura em relação às actuais orientações e práticas políticas europeias e nacionais.

Em Portugal, esta ruptura só poderá ser iniciada com um pólo do vontades que mostre uma alternativa concreta, um leque de governantes capazes de cumprir um compromisso para refundar a política em termos do bem comum, com uma governação plural na sua composição, partidária e também independente, com pessoas livres de interesses pessoais e de grupo, mas convergindo nesse compromisso.

De forma a poder pôr fim a esta forma de austeridade que atinge os mais frágeis e simultaneamente permite a poucos beneficiarem da crise (enriquecendo ainda mais), sugere-se que sejam tomadas medidas neste sentido:

- reestruturar a dívida em termos dos seus juros, prazos ou montantes, para alcançar o resultado útil de uma redução drástica da dívida externa de modo a que a actual situação de protectorado termine;

- definir como propósito governamental central a qualidade de vida e a resposta às necessidades básicas de todos, para isso implementando as medidas necessárias (na saúde, na habitação, na educação, no emprego, na recuperação do valor real dos salários e pensões de reforma, no acesso de todos à cultura, etc.);

- dar prioridade a programas para a eliminação da pobreza e da marginalização étnica;

- tributar os fluxos financeiros e, pelo menos nos próximos 10 anos, tributar os lucros que não sejam reinvestidos em áreas do bem comum e criação de emprego, sancionando por isso a fuga de capitais e o enriquecimento ilícito;

- punir todo o crime financeiro de forma efectiva e com resultados visíveis para o bem da comunidade nacional;

- imaginar e modelar outras formas de vida em sociedade que tomem em conta o desgaste do eco-sistema, a exaustão dos recursos não-renováveis, reduzindo drasticamente a produção de bens supérfluos e o desperdício;

- identificar o rumo e a rota para Portugal dentro da UE, recusando o Tratado Orçamental e discutindo se Portugal deve ou não manter-se no euro;

- fazer do bem comum o critério maior: conciliando a abertura e o investimento nas ciências e nas tecnologias de ponta (energias renováveis, robótica com aplicação na saúde, na investigação, no bem-estar e cultura de todos) com uma crescente frugalidade de vida;

- proporcionar um quotidiano em que

- satisfeitas as necessidades básicas de todos - haja espaço para a elevação do sentido estético, da dimensão cultural, do pensamento, da sensibilidade e da alegria de todos.

Algo novo requer uma política nova. É exactamente isto que exigimos: uma refundação da política para responder aos problemas do país. Sem perdas de tempo, sem divisões, sem demagogia. Queremos soluções e contribuiremos activamente para o seu debate.

Queremos que a próxima governação seja uma frente plural de esquerda com um programa contratual (com o país) para a recuperação nacional. Veremos quem poderá dar sinais nesse sentido, de modo a merecer a confiança da maioria de aqueles e aquelas que aqui habitam.

Teresa Vasconcelos. Teresa Toldy. Teresa Sousa de Almeida. Teresa Sá e Melo. Teresa Cadete. Rui Vieira Nery. Rui Namorado Rosa. Rodrigo Meireles. Rita Bastos. Richard Zimler. Patrícia Fernandes. Paulo Cruz. Padre João Rodrigues. Olímpia Fonseca. Norberta Pinho. Marta Lima Basto. Mário Brochado Coelho. Maria Vitória Vaz Pato. Maria Velho da Costa. Maria Teresa Castro Laranjeiro. Maria José Magalhães. Maria Irene Ramalho. Maria Isabel Barreno. Maria Helena Mira Mateus. Maria Florinda Gouveia da Costa. Maria Fernanda Rodrigues. Maria do Rosário Pericão. Maria do Carmo Vieira. Maria do Carmo Mourão Lito. Maria da Graça Marques Pinto. Maria da Conceição Moita. Maria Benedicta Pereira Bastos Monteiro. Maria Andresen. Maria Alzira Seixo. Margarida Martins. Margarida Gil. Manuela Silva. Manuela Franco. Manuel Silva Carvalho. Manuel Carvalho da Silva. Manuel Brandão Alves. Luís Quintais. Luís Moita. Luís Lucas. Luís Filipe Rocha. Lucy Wainewright. Lídia Martins. Lídia Jorge. Lísia Costa. José Ricardo Nunes. José Reis. José Mattoso. José João Abrantes. José Gabriel Pereira Bastos. José Castro Caldas. Jorge Bateira. Joaquim Osório. Joaquim Louro. João Sedas Nunes. João Maria André. João Fernandes. João Duarte Rodrigues. João Cutileiro. João Barrento. Joana Rigato. Isabel Sousa Pinto. Isabel Solari Allegro. Isabel Matos Dias. Isabel Keating. Isabel Hub Faria. Isabel do Carmo. Isabel Allegro de Magalhães. Irene Flunser Pimentel. Hermano Carmo. Helena Neves. Guilherme Fonseca. Graciosa Veloso. Graça Morais. Gastão Cruz. Frei Bento Domingues O.P. Filomena Cravo. Filomena Barros. Fernando Pereira Bastos. Fernando Martinho. Fernando Gomes da Silva. Fernanda Henriques. Fernanda Rodrigues. Fernanda Branco. Fátima Proença. Fátima Grácio. Eugénia Vasques. D. Januário Torgal Ferreira. Cristina Loureiro. Constança Providência. Conceição Amaral. Cláudio Torres. Cláudio Teixeira. Clara Keating. Celso Araújo. Celeste Lameira. Carmo Bica. Carlos Albino. Assunção Folque. Armando Silva Carvalho. António Vieira. António Pereira Bica. António Neto Brandão. António Machado Lopes. Ana Vidigal. Ana Maria Pereirinha. Ana Maria Almeida Serôdio. Ana Luísa Amaral. Ana Henriques. Ana Drago. Almerinda Teixeira. Alice Caldeira Cabral. Alfreda Ferreira da Fonseca. Alexandre Quintanilha. Alda Maria Sucena Couceiro. Alberto Melo. Alan Stoleroff. Adelino Gomes. Adel Sidarus. Abdool Magid Vakil.  

Público 2014-09-26

A DESTRUIÇÃO EM CURSO DA CIÊNCIA EM PORTUGAL


Legenda: Produção científica por FTE (Full Time Equivalent, em português ETI,  números emendados pela FCT no fim da 1.ª fase do processo) das diferentes unidades de investigação versus o impacto da mesma, medida através do FWC (Field Weighted Citations; mais do que um significa acima da média internacional). As unidades que não passam à segunda fase (chumbadas, portanto) estão indicadas a vermelho, enquanto as outras estão a azul. Demonstra-se assim que a avaliação da FCT não é capaz de reconhecer a excelência: Existem numerosas unidades reprovadas em que o impacto da investigação é muito alto e em que o número de publicações por investigador também é muito alto. Ou seja, foram reprovadas muitas unidades com os melhores investigadores de Portugal: os que mais publicam e com maior impacto!

O último gráfico que aqui publiquei mostra que a "avaliação" da FCT é má para o país, diminui a produtividade do país e faz Portugal descer nos rankings internacionais de ciência e tecnologia. Agora mostro, se prova fosse precisa, que essa avaliação é má para a ciência nacional e internacional, isto é, não consegue reconhecer a excelência. A avaliação é injusta. O problema não é tanto os erros dos "avaliadores", que também os houve em grande quantidade. O problema é o quadro de incompetência da FCT, estranhamente permitido pelo ministro Nuno Crato. Convido Nuno Crato a examinar o seguinte gráfico e a dizer-me se uma roleta de casino não faria o mesmo ou algo parecido. Não temos uma agência para promover a ciência, temos uma agência para destruir a ciência. E temos um ministro que, contra tudo aquilo que eu e a maior parte dos cientistas julgariam possível, o permite.

Hoje é o Dia Europeu dos Investigadores. Os investigadores vão mostrar que estão unidos contra a incompetência e a arbitrariedade que neste momento estão instalados na gestão da ciência em Portugal. 


ANTÓNIO VICENTE AO CORREIO DA MANHÃ SOBRE A "AVALIAÇÃO" DA FCT

Transcrevemos com a devida vénia mini-entrevista com o Prof. António Vicente:


ANTÓNIO VICENTE Presidente do Sindicato do Ensino Superior sobre queixa contra a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT)

"Equipas de cientistas estão a deixar o País" 

Correio da Manhã - Quais os motivos para a queixa contra a FCT?

António Vicente - A avaliação das unidades de investigação decorreu de uma forma pouco clara. Detetámos inúmeras ilegalidades, que apresentámos ao ministro Nuno Crato. Além de não nos responder, disse nos jornais que estava tudo bem.

CM- O que espera desta queixa no Ministério Público?

AV - Que avance com uma ação judicial de forma a anular todo o processo de avaliação.

CM- Quais são as consequências dos erros detetados?

AV- Têm um impacto muito significativo na produção da ciência em Portugal. Isto significa que metade das unidades de investigação deixam de funcionar até 2020.

CM- Portugal vai regredir na sua produção científica?

AV- Inevitavelmente. Temos universidades muito bem posicionadas nos rankings internacionais que vão baixar abruptamente as suas posições.

CM- Portugal está a perder cientistas e investigadores?

AV- Há casos de equipas inteiras que estão a deixar o País para continuarem os projetos no estrangeiro. É cada vez mais fácil levar o investigador sénior, os doutorandos e os pós-graduados.

A fuga de cérebros vai aumentar significativamente. É uma perda enorme para o País.


Correio da Manhã 2014.09.25

CIÊNCIA E MISTÉRIO HOJE NO RÓMULO EM COIMBRA: VENHA À NOITE DOS INVESTIGADORES!


Transcrevemos das Notícias UC notícia do debate de hoje à noite sobre "Ciência e Mistério":

Está a chegar mais uma Noite dos Investigadores, e o Rómulo – Centro de Ciência Viva da Universidade de Coimbra (UC) junta-se à iniciativa, abrindo as portas a todos os que queiram desvendar alguns mistérios da ciência.

 David Marçal é um bioquímico que fala da pseudociência, Paulo Sousa Pinto é um historiador que desvenda os Descobrimentos e Sérgio Rodrigues é um químico que conta com a literatura como veículo para a ciência.

No dia 26 de setembro, tal como acontece noutros locais de Coimbra e da Europa, a ciência acontece no Departamento de Física. Às 21h15 tem início o debate “Ciência e Mistério”. “Mistério é o desconhecido mas há uma parte desse território que tem como fronteira a ciência”, afirma Carlos Fiolhais, físico e diretor do Centro Ciência Viva da UC que vai moderar o debate no dia 26.

“Porque este é um sítio de livros, fomos buscar autores, numa espécie de ante estreia literária”, "Pseudociência” (Fundação Francisco Manuel dos Santos) vai ser apresentado pela primeira vez pelo autor. David Marçal vai mostrar “a ciência versus o que se faz passar por ciência”, desvenda Carlos Fiolhais.

Já Paulo Sousa Pinto, historiador, leva à Noite dos Investigadores “Os Portugueses descobriram a Austrália? – 100 perguntas sobre factos e curiosidades dos Descobrimentos” (A Esfera dos Livros). “Esta é uma ciência que não é como a matemática mas que também se quer rigorosa”, afirma o diretor do Centro Ciência Viva, “o autor pretende distinguir o que temos como verdadeiro ou falso” sobre os Descobrimentos.

Finalmente, Sérgio Rodrigues, químico da Universidade de Coimbra, é o autor de “Moléculas por todo o lado: Química e Literatura” (Gradiva) e que “vai mostrar a omnipresença da química”. “Nunca abri nenhum livro onde não aparecesse a química, desde o veneno de Romeu e Julieta à tinta invisível de um policial, descobrimos que ela está em todo o lado”, brinca Fiolhais. “A literatura é também uma forma de falar de mistério: quando não sabemos as coisas pela ciência, normalmente refugiamo-nos na ficção”, adianta.

 O público é convidado a “gerar diálogo, por isso é ciência e cidadania”, explica Carlos Fiolhais. De acordo com o diretor do centro “os três convidados são cientistas (nas suas áreas) e as pessoas devem pôr as coisas em causa e fazer perguntas”. “Queremos que seja uma noite de dúvidas e de surpresas”, porque isso é a ciência, remata Carlos Fiolhais.

 Já não é a primeira vez que o Rómulo – Centro de Ciência Viva da UC se junta à Noite dos Investigadores. Também aqui os cientistas estão de “portas abertas a mostrar quem são e o que fazem”, sublinha Carlos Fiolhais. “Aqui é um sítio de cultura científica”, mas não é o único: “Há muitas atividades no menu para escolher”. Porque “26 de setembro é um dia de ciência”, conclui o físico."

“MAIS LUZ!”: 2015, ANO INTERNACIONAL DA LUZ


Meu artigo no último As Artes entre as Letras (na imagem Goethe):

 A 25 de Novembro de 2013, a Assembleia Geral das Nações Unidas, no decurso da sua 68.ª sessão, proclamou 2015 como o Ano Internacional da Luz  (AIL2015). O Ano Internacional da Luz é uma iniciativa à escala global que pretende destacar aos cidadãos de todos os países a relevância da luz, em particular das tecnologias baseadas na luz, nas suas vidas e no seu futuro, que é como quem diz, no desenvolvimento humano e social. Trata-se de uma oportunidade única para inspirar, educar e ligar pessoas de um modo global em torno de um tema unificador.

De facto, a luz tem aspectos científicos descritos pela matemática, pela física, pela química, pela biologia, pela geologia e por várias engenharias. Mas a luz está presente nas nossas vidas graças a óculos e aparelhos que usam raios infravermelhos, microondas, raios X, etc. (estas formas de radiação não são mais do que diferentes formas de luz, que usamos no quotidiano, em tudo semelhantes à luz visível excepto no diferente comprimento de onda). Por outro lado, a luz encontra também acolhimento em muitas áreas da cultura, como as artes visuais, a fotografia e o cinema (as duas últimas artes estão inteiramente baseadas em tecnologias da luz).

Porquê 2015? Normalmente os anos internacionais, como foi em 2005 o Ano Internacional da Física, assinalando os cem anos da publicação dos principais trabalhos de Einstein)  coincidem com alguns aniversários muito significativos na história da ciência e das técnicas. As Nações Unidas destacaram cinco datas históricas com particular pertinência para o estudo da luz, que deverão ser celebradas no próximo ano:
§                   1015 – Ano em que o árabe Ibn Al Haytham (conhecido também pela forma latina Alhazen) escreveu o primeiro “Livro de Óptica”.
§                   1815 – Ano em que o francês Augustin-Jean Fresnel apresentou a sua teoria sobre a natureza ondulatória da luz, que desfez na altura uma controvérsia a respeito da luz.
§                   1865 – Ano em que o britânico James Clerk Maxwell publicou a sua teoria de electromagnetismo, afirmando que a luz eram ondas electromagnéticas (essas celabradas equações de Maxwell explicam todos os fenómenos eléctricos, magnéticos e ópticos).
§                   1915 – Ano em que o suíço nascido na Alemanha Albert Einstein publicou a teoria da Relatividade Geral, apresentando a luz no espaço e no tempo: a luz era encurvada nas proximidades de um corpo com massa rlevada, que deformava o espaço-tempo á sua volta.
§                   1965 – Ano em que os norte-americanos Arno Penzias e Robert Wilson descobriram a chamada radiação cósmica de fundo, a luz mais antiga do cosmos que corresponde ao nascimento dos átomos, quando o Universo tinha cerca de 380.000 anos; e também o ano em que o norte-americano Charles Kao apresentou a tecnologia da fibra óptica, que hoje está generalizada para a difusão dos sinais de televisão e Internet.

Para além das referências históricas, a escolha do tema da luz justifica-se em diversas dimensões. A ciência da luz deu origem a aplicações com impacto directo na qualidade de vida em todo o mundo. Essas aplicações são dos maiores motores económicos da actualidade: basta pensar nos telemóveis, na televisão, na Internet, nos lasers, etc.  São usadas nas comunicações, na saúde, no ambiente e no sociedade. O tema da luz, ao ligar várias ciências e ao ligar as ciências à vida, oferece um potencial pedagógico extraordinário: não se trata de celebrar o ano de uma disciplina isolada, como a física, ou a astronomia, mas sim, de uma faceta transversal de várias delas, de praticamente todas elas.

O ano de 2015 constitui uma oportunidade extraordinária para a coordenação internacional de actividades educativas e para a promoção de novas iniciativas que demonstrem o nosso conhecimento da luz e as tecnologias revolucionárias que nele assentam, que ajudam ao desenvolvimento sustentável. Perspectiva-se uma fértil colaboração entre instituições científicas, entidades educativas, organizações sem fins lucrativos, empresas privadas, organizações culturais, etc.

Ao contrário do que aconteceu no Ano Internacional da Física em 2005, Portugal não esteve entre os países que apresentaram e defenderam a proposta junto das Nações Unidas. Mas Portugal, que tão boa figura na cena internacional tem feito noutros anos internacionais, terá um programa nacional de actividades à volta da luz e das suas aplicações. Uma comissão nacional está já constituída, que integra representantes da Sociedade Portuguesa de Física (a Sociedade Europeia de Física cujo Presidente esteve há pouco entre nós, foi o grande promotor mundial da iniciativa), da Ciência Viva – Agência Nacional para Cultura Científica e Tecnológica, da representação nacional da UNESCO,  da Sociedade Portuguesa de Química, da Sociedade Portuguesa de Óptica, etc. A Comissão, que já abriu uma página na Internet    ( http://ail2015.org/ ), esboçou um programa nacional em quinze pontos, para cuja concretização busca apoios públicos e privados, e enquadrará quaisquer iniciativas à volta do tema da luz que mostrem suficiente qualidade. A Comissão assegurará as ligações internacionais (ver http://www.light2015.org/Home.html~ )

As últimas palavras do poeta, romancista e dramaturgo alemão Johann Wolfgang von Goethe foram “Mehr Licht!”, em português “Mais Luz!”. No mundo e em Portugal este pode bem ser um lema a usar para 2015 – Ano Internacional da Luz.



quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Num país disfuncional...

Destacamos o comentário do leitor que se assina por Dervich ao texto do Professor Galopim de Carvalho. A situação que relata está perfeitamente identificada, toda a gente está consciente dela mas... não se vê jeito de mudar. Pois, como escreveu, estamos num país disfuncional... 

"Todos os anos (desde há mais de 20) se fala dos inconvenientes de haver uma demasiada diversidade de manuais escolares e do seu preço desproporcional, face ao nível económico do país.

Imagem retirada daqui
Todos os anos (desde há mais de 20), se fala no absurdo de miúdos de 13, 14 ou 15 anos transportarem diariamente mochilas de 13, 14 ou 15 kg, quando não deviam exceder 5,6 ou 7 kg. Transportam, todos os dias, uma média de 2 livros por disciplina, dos quais muitos raramente são usados, alguns são usados 2 ou 3 vezes, no ano inteiro!...

Mas depois temos as escolas especiais, vocacionais e outras que tais, onde os meninos levam apenas uma esferográfica, um bloco de notas no bolso de trás das calças (além do tlm e do boné com pala para trás)...e tá-se bem!

E tudo isto é normal, num país disfuncional, onde toda a gente protesta e tem opinião sobre tudo mas não é capaz de dar um passo para confrontar um professor, um conselho diretivo, um ministério, ou todo o status quo de uma sociedade que não pensa o que quer de si própria nem do seu futuro."

A AVALIAÇÃO DA FCT DESTRÓI ALGUMAS DAS MELHORES UNIDADES DE INVESTIGAÇÃO DO PAÍS


Produção científica das diferentes unidades versus impacto da mesma. As unidades que não passam à segunda fase (chumbadas, portanto) estão indicadas a vermelho. É extremamente prejudicial para o país o não financiamento de unidades com elevado níveis de produção científica e elevado impacto internacional. O corrente processo de avaliação é um tiro que a FCT está dar no pé! Nota: Só algumas unidades estão identificadas para clareza da figura. 

O processo de avaliação de unidades de investigação é por inerência um processo muito complexo. Essas unidades apresentam especificidades que as tornam únicas, realizam investigação numa grande diversidade de temas, colaboram com o ensino avançado e com a indústria, têm um impacto determinante no desenvolvimento regional e nacional e efectuam trabalho cultural, realizando por exemplo acções de divulgação científica. Um processo de avaliação que tenha por objectivo indicar quais as unidades que devam ser extintas, retirando-lhes o seu financiamento na totalidade ou dando-lhes um financiamento residual que as tornam não competitivas no panorama nacional e internacional, deve por isso ser cuidadosamente desenhado para não danificar o tecido científico, pedagógico, social, económico e cultural português. Deve ser feito com tempo por equipas numerosas, integrando especialistas independentes de várias especialidades que tenham experiências de trabalhos semelhantes. Deve ser feito com transparência e com respeito por regras anunciadas e acordadas.E deve ser feito com o máximo de atenção e rigor.

No entanto, o presente exercício de avaliação, que teve como primeira finalidade a extinção de metade das unidades de investigação, não foi nem cuidadosamente desenhado nem cuidadosamente executado. Já são conhecidas da comunidade científica e do público em geral várias irregularidades, a saber:

· - quotas escondidas de passagem à segunda fase (i.e., o número de unidades classificadas com “fair”, “good” e “poor” já estava determinado antes do concurso começar);

· - regras alteradas durante o concurso (designadamente a redução do número de avaliadores e a retirada de um avaliador sugerido pelos centros de investigação);

· - presença de conflitos de interesse entre membros dos painéis de avaliação e  membros dos centros que avaliam (é o caso do chair do painel de Ciências Exactas, que tem numerosos trabalhos publicados com um dos centros que avaliou);

· - avaliação baseada em dados bibliométricos incorrectos: algumas incorrecções só foram corrigidas após terem sido conhecidos os resultado da primeira fase do processo de avaliação;
·        
- - desconhecimento por parte dos avaliadores das unidades de investigação que tinham de avaliar, o que é revelado por uma elevada quantidade de erros factuais nos comentários tanto iniciais como finais da avaliação.

Dadas estas irregularidades, fruto da precipitação, da inexperiência e do desconhecimento da investigação realizada em Portugal por parte da actual direcção da FCT, não é de espantar que o resultado tenha sido desastroso.

Após a primeira fase da avaliação aproximadamente metade das unidades ficaram sem financiamento para continuar a sua investigação. E, destas unidades, várias são unidades essenciais para a investigação científica portuguesa.

Vejamos em pormenor. Um dos parâmetros bibliométricos utilizado pelo ORCID para a classificação das unidades é o índice de “Field Weighted Citation” (FWC). Este índice dá uma indicação do impacto da investigação realizada de uma forma transversal a todas as áreas, permitindo uma comparação entre as várias unidades. O FWC corresponde ao quociente entre o número de citações recebidas e o número médio de citações recebidas para publicações internacionais da mesma área. Um FWC igual a 1 indica que o conjunto de publicações representa uma performance em citações que corresponde à da média internacional na disciplina.

Sempre que uma unidade de investigação com FWC maior que 1 não é financiada retira-se-lhe a possibilidade de competir internacionalmente, apesar de ele ter demonstrado o seu valor. Ora, a taxa de centros com FWC > 1 que não passaram à segunda fase é de 34,8%. Mais de um terço dos centros que melhor publica em Portugal não será financiado.

Mas a situação é muito pior. No grupo de centros que têm FWC > 1 existem alguns que publicam em muita quantidade. São centros grandes e cuja investigação tem mais impacto do que a média internacional da disciplina. A destruição de somente um desses centros provoca necessariamente um enorme rombo na produção científica nacional.

Esta avaliação fez isso de uma forma leviana. Houve 20 centros que têm FWC > 1 e com um número de publicações maior do que a média nacional que ficaram sem financiamento suficiente para conduzir a sua investigação. Este número corresponde a 23,5% dos centros nestas circunstâncias. Praticamente um quarto!

Esta avaliação resulta assim numa rápida destruição dos nossos melhores cientistas em várias áreas de investigação. Poderá a FCT dizer que ainda há protestos (numerosos protestos) a ser analisados. Mas desta direcção da FCT e desta avaliação ninguém espera nada:  protestos justos relativamente a apreciações incompetentes de referees externos foram completamente ignorados. As queixas relativas a irregularidades processuais (a lista de cima não esgota os atropelos às leis portuguesas e às melhores práticas internacionais) foram ignoradas. E nada indica que as reapreciações tenham sido entregues a outros júris com outra idoneidade e outra capacidade de análise. Dos mesmos só há a esperar o mesmo.

O ministro Nuno Crato já uma vez pediu desculpas por erros grosseiros na gestão da educação. Está na hora de pedir desculpas por erros ainda mais grosseiros na gestão da ciência.


EINSTEIN TINHA RAZÃO: O TEMPO PASSA MAIS DEVAGAR NUM RELÓGIO EM MOVIMENTO

Artigo primeiramente publicado na imprensa regional.



Em 1905, Einstein publicou a sua Teoria da Relatividade Restrita. Quase cem anos depois, resultados experimentais continuam a comprovar as suas previsões e a mostrar que tinha razão.

Físicos alemães verificaram experimentalmente, e com uma precisão sem precedentes, uma das mais espantosas previsões da Teoria da Relatividade Restrita: a da dilatação do tempo, que diz, em termos muito simples, que o tempo avança mais devagar num relógio em movimento em relação ao que acontece num relógio em repouso.


Esta propriedade do tempo foi muito popularizada através do paradoxo dos gémeos, exemplo sugerido pelo próprio Einstein: se um dos gémeos fosse enviado numa nave espacial a uma velocidade próxima da velocidade da luz, quando regressasse à Terra encontraria o seu irmão muito mais velho do que ele. Seria como se o tempo não passasse mais lentamente para quem viaja a velocidades muito grandes.

A experiência que agora confirma esta previsão de Einstein está descrita num artigo publicado recentemente na revista Physical Review Letters, e é o resultado de 15 anos de investigação de um grupo internacional de cientistas que inclui o Prémio Nobel Theodor Hänsch, director do Instituto Max Planck de Optica Quântica, em Garching, na Alemanha. 

Para verificar o efeito da dilatação do tempo, os físicos precisaram de comparar como o tempo avança em dois relógios: um parado e outro em movimento. Para este efeito, os investigadores usaram um acelerador de partículas no Centro Helmholtz GSI, em Darmstadt, Alemanha, onde se estudam iões pesados.

Na experiência, os físicos usaram iões de lítio acelerados a um terço da velocidade da luz como relógio em movimento. Tecnologia de última geração, extremamente precisa, permitiu aos investigadores medir as transições de electrões entre diferentes níveis de energia dentro dos iões de lítio em movimento. Essas transições funcionaram como o tic-tac de um relógio em movimento. Para o relógio em repouso, os cientistas fizeram as mesmas medições mas em iões lítio parados, o que permitiu comparar a velocidade nas transições electrónicas em cada um dos casos. Resultado: as transições electrónicas ocorriam mais lentamente nos iões em movimento.

Estas experiências sobre o efeito da dilatação do tempo não servem só para confirmar as previsões da melhor teoria de que dispomos para descrever a gravidade e o tempo no Universo. Compreender a dilatação do tempo também tem implicações práticas no nosso dia-a-dia.

É que o Sistema de Posicionamento Global, vulgo GPS, funciona com o recurso a medições efectuadas por satélites em órbita da Terra, e o software que calcula em diminutas frações de segundo, por exemplo, o posicionamento de um carro em movimento na Terra tem de ter em conta o efeito da dilatação do tempo. Se não o fizesse, o resultado que nos seria apresentado pelo nosso equipamento de GPS estaria errado em centenas de metros, o que o tornaria inútil. Este é um exemplo da aplicação da Teoria da Relatividade de Einstein no nosso dia-a-dia.


António Piedade

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A "BREVE HISTÓRIA" DE HAWKING


Aqui apresentada por mim num vídeo de dois minutos.


A "AVALIAÇÃO" DA FCT: APRESENTADA DENÚNCIA AO MINISTÉRIO PÚBLICO

Ver aqui.

Mensagem do SNESUP:

"Como se soube, o processo de avaliação das Unidades de I&D realizado pela FCT teve um amplo conjunto de irregularidades. Durante os últimos meses, o SNESup trabalhou com vista a compilar as várias informações que vieram a público e, através do nosso apoio jurídico, foi desenvolvida uma denúncia que agora apresentamos ao Ministério Público. Esta denúncia, cujo texto pode ser consultado aqui permite desenvolver as necessárias diligências para averiguação das irregularidades deste processo e apuramento de responsabilidades. Ela é também uma oportunidade para que as instituições possam fazer valer os seus direitos, defendendo as suas¨unidades de investigação.

Não elaboramos esta denúncia de ânimo leve. Com o apoio de várias unidades de investigação e investigadores tentamos, anteriormente, apelar ao bom senso do Ministério da Educação e Ciência e, particularmente, do seu responsável máximo, Nuno Crato, através da necessária suspensão e reavaliação de todo este processo. A negação taxativa desta reapreciação, numa atitude que revelou prepotência, condiz com uma postura que se tem vindo a desenvolver, de contornos menos felizes.

Dentro das irregularidades denunciadas pelo SNESup ao Ministério Público, incluímos a não divulgação dos avaliadores com o aviso de abertura, a não realização de visitas presenciais pelos avaliadores na primeira fase da avaliação, a violação dos princípios da publicidade e da transparência, sendo também incluído a definição a priori de que apenas 50% das U I &D passariam à segunda fase, entre outras.

Parece-nos também importante ressalvar a necessidade de responsabilização dos detentores de cargos de decisão públicos e das matérias relativas às suas determinações e procedimentos, bem como à aplicação das normas vigentes.

Verificamos que, para além do objetivo claro do atual Ministério em reduzir a Ciência em Portugal à execução por parte de alguns (algo que cruzou os vários concursos de investigadores, bolseiros e unidades) temos também o tripudiar, ignorando princípios fundamentais do estado de direito. No afã de seguir acriticamente os outros numa matéria mal assimilada, alguém está a atropelar um país.

Saudações Académicas e Sindicais,

A Direção do SNESup"

A CIÊNCIA NO DIA-A-DIA



Neste Outono, o espaço Rómulo de Carvalho Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra vai apresentar um ciclo de meia dúzia de palestras organizadas por António Piedade, bioquímico e comunicador de ciência, sob o título "A ciência no dia-a-dia". 

Neste ciclo (ver programa na imagem junta) irão ser abordados vários aspectos ligados à ciência que encontramos diariamente na nossa vida, muitas vezes sem disso termos consciência. É assim um conjunto de palestras que visa aproximar a ciência dos cidadãos, através de investigadores que são excelentes comunicadores de ciência.

A entrada é livre e estão todos convidados. 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

ONDE SE FALA DE IRONIA, MENTIRAS E DE UM EMPREGADO DE CAFÉ


“Não há meias verdades” (George Bernanos, 1888-1948).

À laia de introdução: Não querendo prezar mais o comentário deste anónimo a que respondi  ontem no meu post - “A basófia de Jorge Jesus tido como profunda ironia” (22/09/2014), relativamente a outro, ínsito no meu post – “O Futebolês” (13/09/2014) -,   obrigo-me, em nome da equidade de tratamento, e por respeito ao labor do seu autor, a responder-lhe, novamente, sob a forma de post. Segue a minha resposta:


Numa decisão estamos ambos plenamente de acordo (valha-nos isso!). Passo a citá-lo: “Não vou continuar esta conversa claramente inútil”. Isto porque serrar serradura não faz o meu tipo de discussão em que, para além, disso, gosto (em idiossincrasia minha?) de discutir os assuntos cara-a-cara. Serei breve, portanto, sem repisar sempre os mesmos argumentos que a prolixidade e insistência em repeti-los, nos pontos por si abordados nos comentários em que, em vez de discutir o essencial, se esgueira qual enguia escorregadia para o acessório. Um processo que torna exaustivo enumerá-los e discuti-los, ponto por ponto. Assim, atenho-me, apenas, a quatro questões que tenho como mais substanciais ou sumarentas:


1. A minha “inumeracia” (como escreve, reescreve e torna a escrever), isto é enganar-me na transcrição de um número, como se tratasse do produto final de um complicado cálculo ou problema matemático porque, em  conclusão sua, “é tão grave como dar pontapés na gramática”. Uma opinião que submeto à consideração do leitor, e de que já me penitenciei anteriormente. Mas será necessário escrever no quadro preto, cem vezes, “3 milhões de euros”?


2. Escreve na parte final deste seu  último comentário: “Uma suposta citação literal minha – com aspas e tudo- sobre ‘diferenças de classe’ que nunca fiz”. Vejamos se assim é! Escreveu no 1.º § do seu comentário em “O Futebolês” (02/09): “Achei o seu artigo feio e indigno de um membro da elite social, de que indubitavelmente faz parte (…) sempre ligeiro para vincar as “diferenças de classe”. Porque ninguém deve ser juiz em causa própria, peço ao leitor que coteje estas suas duas frases: permitem elas que se diga nunca se ter ele referido a “diferenças de classe”?
 
3. Escreve o mesmo comentador neste seu novo comentário: “Entretanto, neste novo post resolveu insinuar que sou mentiroso, mas apressando-se a negá-lo. A sua intenção é clara já que, se pensa realmente que não sou mentiroso, não teria prosseguido com tal comentário inconsequente. Mas esse comentário é bem sintomático da incapacidade do articulista de uma leitura não literal do que lê, o que poderá explicar as suas dificuldades em detectar ironias”. Dialogar com quem, como eu, tem “dificuldades em detectar ironias” (de Jorge Jesus e/ou suas?) seria por si ultrapassável (e que grato eu ficava se o fizesse) se cada vez que escrevesse uma ironia pusesse à frente entre parêntesis curvos (IRONIA:gargalhada alarve, gargalhada, simples risada ou riso amarelo!). 
 
4. Por último, uma derradeira transcrição de texto seu: “Farto-me de esbarrar com eles em pessoas que discutem os assuntos de má fé. Lembra aqueles empregados de café que se acham engraçados que respondem a um ‘queria um café sff’’ com ‘queria não, quer’...". Minha falecida mãe, senhora de uma cultura académica apreciável e de uma cultura geral vastíssima, falava e escrevia, além da língua pátria, correctamente quatro línguas estrangeiras, sendo muito dada a ler obras dos nossos maiores escritores, Eça, Camilo, etc. - nada que o meio familiar não justificasse: foi meu avô, seu pai, presidente da Câmara Municipal do Porto e pessoa, de igual modo, extremamente culta -, ao contrário do empregado de café, por si lembrado, quando eu dizia quero, emendava-me para queria. E fazia essa correcção sem a intenção em "se querer fazer passar por engraçada",  apenas como uma forma de demonstrar a imposição que subjaz à palavra quero, ademais na boca de uma criança mais ou menos birrenta. 
  
Sobre simples opiniões,lançadas ao vento em sementeira de "Manifestações esféricas de raciocínio quadrado" (título de um artigo de opinião meu, corria o ano de 1961), como elas se identificam com o arrevesado e complexo “FUTEBOLÊS”.  
Em nome da liberdade de expressão e, ipso facto, do direito em emitir opiniões contraditórias (é atribuído a Voltaire: "Não concordo com o que diz, mas defenderei atá `morte o direito que tem em o dizer" ),transcrevo estes versos de António Gedeâo: “Onde Sancho vê moinhos / D. Quixote vê gigantes / Vê moinhos? São moinhos / Vê gigantes? São gigantes”.
 
Sans rancune,

Rui Baptista

Ensino superior versus casa dos segredos



Com a devida vénia publicamos artigo de Miguel Copetto saído no Diário Económico de ontem:

Neste início de Setembro, foram divulgados dois números que, conjugados, merecem alguma reflexão. Por um lado, os 42.408 alunos que se candidataram à 1ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior, enquanto, por outro lado, se candidatavam mais de 100.000 jovens à quinta edição do programa televisivo “Casa dos Segredos”.

Ainda que a utilidade do objecto de cada uma das candidaturas não seja comparável, não deixa de transparecer, nesta confrontação, o maior interesse por parte dos jovens em aderir a um reality show de “duvidosa” exposição mediática, onde a boçalidade é sinónimo de fama imediata.  

É certo que o nível de desemprego de jovens licenciados atinge valores inusitados, que o mercado de trabalho é incerto e que as formações deixaram de ser para a vida para passarem a ter de ser alimentadas ao longo da vida. É certo, também, que os muitos casos mediáticos de corrupção e enriquecimento ilícito por parte de políticos, e CEO’s de grandes empresas, ajudaram a esbater a ideia da nobreza de certas carreiras, formações, deontologia profissional e que o trabalho árduo (mas honesto) é o (único) caminho para o sucesso e reconhecimento. Porém, o valor intrínseco da educação, do conhecimento e das aprendizagens formais não pode ser posto em causa.

Esta geração que tudo parece obter à distância de um click e que foi “educada” numa certa cultura de facilitismo, com poucas regras e numa lógica de consumo imediato, acaba por ter dificuldade em discernir modelos de vida: entre o momento, o curto prazo e a vida como um jogo, onde aparentemente nada se sacrifica e se tem sucesso sem trabalho… e o longo prazo, que é um amanhã longínquo, incerto, trabalhoso e sem garantia de êxito.

Nesta era digital, a escola e a universidade têm vindo a sofrer uma desvalorização do seu papel social, não só resultante, em parte, do anteriormente exposto, como devido à perda do monopólio no acesso ao saber, à sua massificação sem ganhos de qualidade e a políticas educativas casuísticas, sem visão nem alcance. 

Na dicotomia entre aqueles dois números iniciais a pergunta que fica é: no caminho que cada um escolher, quem vão ser, como pessoas, daqui a 10 ou 20 anos?  
                                                                          Miguel Copetto
                                               In Diário Económico de 22.09.2014

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...