segunda-feira, 15 de maio de 2017

PORTUGAL CATÓLICO: A BELEZA NA DIVERSIDADE

Informação recebida dos editores de uma obra (publicada pelo Círculo de Leitores) na qual colaborei com um capítulo intitulado "A Igreja e a Ciência:"


Portugal Católico. A Beleza na Diversidade. Uma obra sonhada, uma obra realizada!

Com o mecenato especial e pessoal do Senhor Alexandre Soares dos Santos e o apoio da Conferência Episcopal Portuguesa, da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal, da Fundação Calouste Gulbenkian, da União das Misericórdias Portuguesas e da Santa Casa da Misericórdia do Porto, esta é a réplica da obra elaborada de forma intensa e em tempo recorde – sensivelmente em sete meses. Reúne 204 textos-síntese, de 190 autores, intercalados com uma forte componente imagética, constituída por fotos (aéreas e terrestres), gravuras que acompanham os conteúdos escritos e um conjunto de poemas de diversos grandes autores portugueses que se distribuem em 14 capítulos. Simbolicamente, o número 14 dos capítulos representa quer as 14 estações da Via Sacra, quer as 14 Obras de Misericórdia.

Esta obra de dimensão monumental é inaugurada com textos do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do Cardeal Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Manuel Clemente, e conta com a participação das mais diversas figuras da cultura, da ciência e da sociedade portuguesas, entre as quais, Eduardo Lourenço, Guilherme d’Oliveira Martins, Pedro Mexia, Adriano Moreira, José Manuel Pureza, José Mattoso, Artur Santos Silva, Carlos Fiolhais, João César das Neves, Rui Vieira Nery, Manuel Barbosa, José Pedro Paiva, José Leite Abreu, Henrique Manuel Pereira, José Cordeiro, José Carlos Miranda, Daniel Serrão, Henrique Leitão, Francisco Senra Coelho, Vasco Pinto Magalhães, Manuel Braga da Cruz, José Carlos Seabra Pereira, Gonçalo Portocarrero, Leonor Xavier, Jaime Nogueira Pinto, Jorge Wemans, João Seabra, Manuela Silva, entre outras.

O projeto inicial teve por referência uma recente obra francesa intitulada La France Catholique (Paris, Éditions Michel Lafon, 2015), de Jean Sévilla. Ao longo de sete meses, a obra portuguesa, sob a direção de José Eduardo Franco e José Carlos Seabra Pereira, ganhou uma identidade própria, afirmando um âmbito muito mais amplo e profundo em relação à obra francesa, apostando mais no conteúdo e diversidade de temas e incluindo, ainda, uma publicação infanto-juvenil e um spot de divulgação da obra. O resultado de cerca de 800 páginas acaba por apresentar uma radiografia abrangente da Igreja Católica e constituir-se numa espécie de dicionário enciclopédico do catolicismo contemporâneo português.
Não estamos perante uma obra que pretenda ser a voz oficial da instituição eclesial na linha da clássica expressão apologética. Esta obra traduz-se, isso sim, num fundamentado e aliciante quadro da condição do catolicismo em Portugal, pondo em evidência as múltiplas óticas, facetas e as dinâmicas várias da comunidade católica e da sua Igreja. 

Optou-se, neste projeto, pela leitura da diversidade que encontramos no quadro do catolicismo português, perpassando a história e, sempre que foi possível, evidenciando o contexto atual de cada uma das temáticas abordadas. Abordam-se temas do âmbito da teologia, da pastoral, do eclesial, da medicina, da política, da justiça, da sociedade, do ambiente, da música, da arte, da comunicação social, do turismo, da educação, da solidariedade, do desporto, etc. Salientamos ainda um aspeto de particular significado: a participação da comunidade judaica e da comunidade do Islão. Na tela de fundo sempre esteve presente a opção pela evidência da Beleza na Diversidade que sustenta todas estas temáticas.

A beleza na diversidade, para além de estar presente nas múltiplas temáticas abordadas, está patente também na diversidade de pensamento dos autores que colaboram nesta obra. Nesta unidade na diversidade emerge a beleza que se funda nas três frases que estão patentes na capa e fita suporte da obra: “Que sejam um, como Nós somos Um. Eu neles e Tu em mim.” (Jo 17, 22-23); “É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei.” (Jo 15, 12); “Luz terna suave no meio da noite leva-me mais longe.” (Da Liturgia das Horas)

Desde a sua origem, este projeto sempre privilegiou dois públicos em especial: Sua Santidade, o Papa Francisco, que receberá um exemplar único, no marco importante da sua vinda a Portugal, e o grande público dos mais vários quadrantes socioculturais, crentes e não crentes. Para o público em geral a obra será lançada, primeiro numa edição especial do Círculo de Leitores em novembro de 2017, e depois numa edição corrente em abril de 2018.

Este projeto é promovido por instituições universitárias: a CIDH (Universidade Aberta), o CLEPUL (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), a FLUL (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) e o IECCPMA (Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes), em cooperação com o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura da CEP.


Os diretores da obra Portugal Católico. A Beleza na Diversidade.

José Carlos Seabra Pereira               José Eduardo Franco


Plano detalhado da Obra

PORTUGAL CATÓLICO.
A beleza na diversidade
[dir. por José Eduardo Franco e José Seabra Pereira]



1.      Prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa (Presidente da República)
2.      Prelúdio de D. Manuel Clemente (Cardeal Patriarca de Lisboa e Presidente da CEP)
3.      Limiar de António Guterres (Secretário Geral da ONU)
4.      Poema de Fernando Echevarria

INTRODUÇÃO

I. A FORÇA DOS FUNDAMENTOS
Preâmbulo

1.      A beleza do Espírito, Eduardo Lourenço
2.      O poder da palavra e a palavra do poder, Adriano Moreira
3.      Louvor e simplificação do cristianismo no quotidiano, Daniel Serrão
4.      Modelações cristãs do “projeto Portugal”, José Eduardo Franco
5.      Religiosidade popular e inculturação bíblica, Ricardo Tavares
6.      Humanismo e catolicismo, Sebastião Tavares de Pinho
7.      Receção do Magistério Pontifício, João Seabra
8.      Dizer e agir dos bispos, Manuel Morujão
9.      Perspetiva cristã e estimativa moral, Jorge Teixeira da Cunha
10.    Fundamentos da justiça e políticas públicas, Mário Pinto
11.    Raízes cristãs dos Direitos Humanos, Susana Mourato Alves-Jesus
12.    Pensar aberto, Anselmo Borges
13.    Conciliação na separação: concordatas, Bruno Cardoso Reis
14.    Tempus Colligendi: valorização e difusão do património cultural da Igreja, José António Falcão 
15.    Sentido deiforme na religiosidade tradicional, João Tiago Pinheiro Teixeira
16.    Sacralidade e espiritualidade das expressões musicais, Rui Vieira Nery

II. A BELEZA DA DIVERSIDADE
Preâmbulo
1.      Unidade e diversidade do catolicismo português, Vítor Gonçalves
2.      O dom da fortaleza em tempos da homologação, Margarida Miranda
3.      Dinâmicas diocesanas e papel do episcopado, José Pedro Paiva e Paulo Rocha
4.      Da paróquia territorial à comunidade transterritorial, Alfredo Teixeira
5.      Perfil do clero e a exigência da formação, José Paulo Leite Abreu
6.      Ordens e congregações: entre a contemplação e a ação, David Sampaio
7.      Diaconado permanente, Fernando Magalhães
8.      Ordens militares: do esforço de guerra ao esforço da solidariedade, Paula Carreira
9.      Institutos seculares e sociedades de vida apostólica, Pedro Gil
10.    Condição apostólica dos leigos, Alexandra Viana Lopes
11.    Padres em dispensa do ministério, Alípio Afonso
12.    Os antigos alunos dos seminários na Igreja e na sociedade, António Agostinho  
13.    Realidades de fronteira e o Evangelho do quotidiano, Leonor Xavier
14.    Pastoral do anticlericalismo, Luís Machado de Abreu
15.    Para uma pastoral dos afetos e da relação, Fernando Ventura
16.    Uma Igreja que ri, José Eduardo Franco e Cristiana Silva

III. ESTAR NO MUNDO
Preâmbulo
1.      Do germinar ao florescer da democracia..., Guilherme d’Oliveira Martins
2.      Uma perceção contemporânea de país religioso num estado laico, Luís Salgado de Matos
3.      Participação no processo de constituição europeia, Manuel Lopes Porto
4.      Vida diplomática, Marcello Duarte Mathias
5.      Matriz cristã das fundações: o caso da Fundação Calouste Gulbenkian, Artur Santos Silva
6.      Lei de Deus e Rule of Law, José Miguel Júdice  
7.      Igreja e constituição, Paulo Ferreira da Cunha 
8.      Pensar o direito e fundar a justiça, Pedro Barbas Homem
9.      Atualizar os Direitos Humanos, Pedro Caridade Freitas
10.    Fé em Deus, lealdada à pátria, luta pela justiça, Jaime Nogueira Pinto
11.    Ação política, João Relvão Caetano
12.    Movimento monárquico, Mendo Castro Henriques
13.    Relação com a maçonaria, Octávio Carmo  
14.    Valor e proteção do trabalho, Margarida Seixas
15.    Sindicalismo, Fernando Abreu
16.    Escutar a cidade, Jorge Wemans
17.    Pensamento ecológico, Luísa Schmidt
18.    Igreja e o ambiente: doutrina e testemunhos, Viriato Soromenho-Marques
19.    Medicina e cristianismo, José Manuel Silva
20.   Fé e sentido na prática e competição desportivas: o caso do Futebol, Joaquim Franco

IV. O ESPLENDOR DO SILÊNCIO
Preâmbulo
1.      Espiritualidade e Mística: a inevitável paixão Deus-humano, Eugénia Magalhães
2.      Inteligência espiritual, Luís Gonzaga
3.      As Ordens do silêncio, João Inglês Fontes
4.      Jovens e Retiros espirituais, Vasco Pinto Magalhães
5.      As novas vocações religiosas, Filipe Avillez 
6.      Experiência da parábola da comunidade de Taizé, António Marujo
7.      Comunidades orantes e as novas tecnologias, António Valério
8.      Os calados que falam: o silêncio que cria luz, Eugénia Magalhães
9.      Deus do silêncio que fala música, Rão Kyão

V. REZAR, CELEBRAR E PEREGRINAR
Preâmbulo
1.      O poder da santidade: a intercessão dos santos, José Saraiva Martins e Maria José Figueiredo
2.      Um experiência de conversão, Catarina Belo
3.      O cuidado da liturgia e da prática dos sacramentos, João Cambado
4.      Música litúrgica, José Carlos Lopes Miranda
5.      Itinerância e espiritualidade, Delmar Barreiros
6.      Santo António: universal e peregrino, Luís Machado de Abreu 
7.      Santuários de referência, Maria José Figueiredo
8.      Ressurgimento dos caminhos de peregrinação, Lourenço de Almeida
9.      A centralidade de Fátima, Joaquim Franco
10.    Fátima no mundo, Manuel Arouca
11.    A mensagem de Fátima na Rússia, José Milhazes
12.    Romagens, romarias e outras tradições populares, Alberto Júlio Silva  
13.    Turismo religioso e pastoral do turismo, Carlos Alberto da Graça Godinho
14.    Para uma nova pastoral dos cultos tradicionais, Ricardo Tavares
15.    Alma orante no fado,  José Campos e Sousa

VI. SOLIDARIEDADE INTEGRAL
Preâmbulo
1.      Uma prática médica assente em valores, Levi Guerra
2.      Pastoral da saúde, Vítor Feytor Pinto e José Manuel Pereira de Almeida
3.      Médicos e medicina, Amadeu Pardo de Lacerda
4.      Pastoral para a pessoa com deficiência, Alice Cabral
5.      Saúde Mental, Aires Gameiro 
6.      O valor social, cultural e pastoral da velhice, Matilde Sousa Franco
7.      O cuidado da fragilidade, Isabel Galriça Neto
8.      O combate à pobreza e a batalha do desenvolvimento, Eugénio Fonseca
9.      Confrarias: a sobrevivência de uma rede antiga de assistência, António Rebelo
10.    Misericórdias: um património de marca portuguesa, Joel Araújo
11.    O papel das IPSS e dos Centros Sociais e Paroquiais para uma solidariedade integral, José Maia
12.    Caritas em Portugal, Márcia Carvalho
13.    Grupos e redes de assistência, Acácio F. Catarino
14.    Cooperação com as autarquias, Fausto Oliveira
15.    Da solidariedade internacional à responsabilidade partilhada, Susana Réfega

VII. ABRAÇAR AS MARGENS E AS MINORIAS
Preâmbulo
1.      A comunidade cigana, Manuela Mendonça
2.      Pastoral dos migrantes, Maria Beatriz Rocha-Trindade
3.      Obra da Rua, Henrique Manuel Pereira
4.      Cuidar das pessoas em situação de Sem-Abrigo, Henrique Joaquim
5.      Vinha de Raquel, Maria José Vilaça
6.      Espaços de fronteira, José Maria da Silva Rosa
7.      Pastoral penitenciária, Inês Leitão
8.      O Mundo das drogas, Manuel Matias  
9.      Humanizar as prostitutas, Maria de Fátima Magalhães
10.    A perseguição religiosa no mundo e a relevância do tema, Catarina Martins Bettencourt

VIII. A FECUNDIDADE DO PENSAMENTO E DA COMUNICAÇÃO
Preâmbulo
1.      Pastoral da Cultura, José Carlos Seabra Pereira
2.      Intelectuais e escritores, Pedro Mexia
3.      Teologia e teólogos, Porfírio Pinto
4.      Filosofia e pensamento católico, Luís Machado de Abreu
5.      A filosofia portuguesa e o catolicismo, Joaquim Domingues
6.      Igreja e Ciência, Carlos Fiolhais
7.      Amor e cuidado: fundamentos das Ciências Médicas, Walter Osswald
8.      Ciências da Vida e Bioética, João Carlos Loureiro
9.      Catolicismo na historiografia, António Leite da Costa
10.    Arquivos de cultura e ciência: as bibliotecas das ordens religiosas, Luana Giurgevich e Henrique Leitão
11.    Imprensa e editoras católicas, Luís Filipe Santos
12.    Informação católica e comunicação social: Agencia Ecclesia e outros meios, Paulo Rocha
13.    Teologia em fragmentos: opinião religiosa na imprensa, António Marujo
14.    Rádios católicas, Nelson Ribeiro
15.    Igreja na televisão, António Rego
16.    Fátima: a reconstrução de um fenómeno religioso no deslumbramento mediático, Joaquim Franco
17.    Aventuras da Bíblia em português, António Marujo
18.    É preciso levantar o céu, José Mattoso


IX. INSPIRAR A ARTE E FABRICAR PATRIMÓNIO
Preâmbulo

1.      Igreja, madre e mecenas das artes, Vítor Serrão
2.      Património e ação cultural das misericórdias, Francisco Ribeiro da Silva
3.      Herança arquitetónica católica: Monumentos e património edificado, Joana Balsa de Pinho
4.      O Legado de bens culturais, Fátima Eusébio
5.      Iconografia, Marco Daniel Duarte
6.      Espiritualidade e arte contemporânea, Paulo Pires do Vale
7.      Música erudita, José Carlos Lopes de Miranda
8.      Tradição e atualidade da “Serenata a Nossa Senhora”, Carlos Noronha Lopes
9.      A cena inspirada: valores cristãos no teatro, Júlio Martín da Fonseca
10.    Projeção inspirada: marcas cristãs no cinema, Inês Gil
11.    As marcas cristãs na arquitetura dos jardins: o caso da Arrábida, Cristina Castel-Branco
12.    Sabores da Fé, Luís Lavrador  
13.    Arte e espiritualidade na religiosidade popular, José Silva Lima
14.    A questão cristã na poesia e na narrativa, José Seabra Pereira e Annabela Rita
15.    A arte e o património vivos de uma Igreja global, João Paulo Oliveira e Costa
 
X. MOVIMENTOS NA HISTÓRIA
Preâmbulo
1.      As estatísticas e os católicos que se dizem, Paulo Rocha
2.      Catolicismo e mudança social, Eduardo Duque
3.      Ver, julgar e agir: o movimento e ação na História, António Moniz
4.      Ação Católica: um tempo, uma resposta, um destino, João Gomes
5.      Projetos e trajetos desde os anos 60: o caso do CADC, José Carlos Seabra Pereira
6.      Lideranças portuguesas no catolicismo mundial, Octávio Carmo
7.      Prelaturas e atualização da orgânica eclesial: o caso da Opus Dei, Pedro Gil
8.      Renovação dos carismas laicais e novos movimentos, Octávio Carmo
9.      Nascidos da diáspora: o caso do Metanóia, Jorge Wemans
10.    Movimento por um Mundo Melhor e renovação pastoral, António Marujo
11.    Dinâmicas de associativismo dos médicos católicos, António Sarmento
12.    Pela defesa da vida e da família, Isilda Pegado
13.    Os movimentos da pastoral da Família, Maria Leonor Cabral Antunes
14.    Equipar humana e espiritualmente a visa conjugal, Bernardo Mira Delgado
15.    Divorciados, recasados, uniões de facto, Vítor Neto e Marília Monteiro
16.    Pastoral Castrense, Manuel Linda
17.    Pastoral do mar, Eugénia Costa Quaresma
18.    Movimento ecuménico: unir os cristãos, Timóteo Cavaco
19.    Diálogo inter-religioso, Cristina Milagre
20.   Relações com a comunidade judaica, Isaac Assor
21.    Relações com a comunidade islâmica, Abdool Magide Vakil
22.   Diálogo com os não-crentes, João Duque

XI. EMPREENDER, CRIAR E DISTRIBUIR RIQUEZA
Preâmbulo
1.      Atualizar a Doutrina Social da Igreja, António Bagão Félix
2.      A gestão dos bens da criação, José Manuel Pureza
3.      Catolicismo empreendedor, José Porfírio
4.      Empresários católicos e a multiplicação da riqueza ao serviço das pessoas, A. Pinto Leite
5.      Uma economia com futuro com lugar para uma economia social e solidária, Manuela Silva
6.      Ideários e prática de uma economia de comunhão, Pedro Vaz Patto e José Maria Raposo
7.      Capitalismo vs comunismo, João César das Neves
8.      Ética cristã para a empresa, João Evangelista Ribeiro
9.      Trajeto e alcance atual da Comissão Nacional Justiça e Paz, Pedro Vaz Patto

XII. UNIVERSALIZAR A BOA NOVA
Preâmbulo

1.      Universalização do cristianismo e globalização da língua portuguesa, Fernando Cristóvão
2.      Catolicismo na insularidade atlântica e na diáspora americana, João Lavrador
3.      Igreja em Portugal fora de portas, Manuel Joaquim Gomes Barbosa
4.      Institutos, grupos e dinamismos missionários, Tony Neves
5.      Missões de alto risco, Tony Neves
6.      Missões populares, Francisco Senra Coelho
7.      Nova evangelização na cidade, Henrique Matos
8.      Voluntariado missionário, Ana Patrícia Fonseca
9.      Átrio dos Gentios, Rui Rego
10.    Os NEC’s – Núcleo de estudantes católicos e Missão País, Miguel Câmara Machado e Pedro Cunha Matos
11.    Exemplo dos papas viandantes, Octávio Carmo  


XIII. EDUCAR AS NOVAS E AS VELHAS GERAÇÕES,
Preâmbulo
1.      Formação para os valores no sistema educativo, Roberto Carneiro
2.      A Educação Moral e Religiosa Católica nas escolas, Luís Manuel Pereira da Silva
3.      Projetos educativos católicos: pedagogos, atividades e presença, Jacinto Jardim e Rita Balsa Pinho
4.      As escolas católicas, Jorge Cotovio
5.      Formação e difusão bíblica, Herculano Alves
6.      Ensino da Teologia, Porfírio Pinto
7.      A Universidade Católica Portuguesa, Arnaldo de Pinho
8.      Ensino da música, Maria Helena Vieira
9.      A pastoral dos jovens, Rui Alberto
10.    Ética para um desporto ao serviço da humanidade, José Carlos Lima
11.    Preparar para a vida em liberdade: o caso singular do Escutismo católico, João Marques Costa
12.    Campos de férias Miguel Câmara Machado e Pedro Cunha Matos


XIV. SEMENTES DO FUTURO
Preâmbulo
1.      Vaticano II e as novas gerações, Diogo Freitas do Amaral
2.      A Igreja e a liberdade de ensino, Manuel Braga da Cruz
3.      Crianças e educação para a Fé, Maria Isabel Azevedo de Oliveira Catarina Martins Bettencourt 
4.      Vozes e ecos cristãos na literatura infanto-juvenil, José António Gomes 
5.      Dinâmicas universitárias, Eduardo Duque
6.      Grupos de jovens: procura de experiências com sentido, Jacinto Jardim
7.      Igreja digital, Luís Miguel Figueiredo Rodrigues
8.      Novas linguagens da música cristã, Jorge Castela
9.      Confissão e direção espiritual, Gonçalo Portocarrero de Almada
10.    Seminários, José Manuel Cordeiro
11.    Chamados pelo Senhor, Afonso Sousa e Pedro Sousa
12.    Dinâmicas da Pastoral da Cultura, Rui Jorge Martins
13.    A força da fé – escola de campeões, Fernando Santos


CONCLUSÃO

Poema de Fecho de Ramos Rosa

BIBLIOGRAFIA

ABREVIATURAS

SIGLÁRIO

TÁBUA DE AUTORES E INSTITUIÇÕES

ÍNDICE GERAL

O MILAGRE DO SOL NUNCA ME INTERESSOU

Entrevista que dei ao EXPRESSO. Ler aqui:

http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-05-14-O-milagre-do-sol-nunca-me-interessou.-Nao-conheco-nenhum-artigo-cientifico-sobre-ele-diz-Carlos-Fiolhais

domingo, 14 de maio de 2017

CAMINHOS DO CONHECIMENTO: DÉFICES E PARADOXOS



Meu texto no livro "Caminhos do Conhecimento", publicado pelo Ciência Viva em homenagem a José Mariano Gago. Comento as intervenções do inglês Martin Bauer e do norueguês  Svein Sjoberg, realizadas a 16 de Maio de 2016 no Teatro Thalia passagem de aniversário de Mariano Gago:

José Mariano Gago apontou-nos os “caminhos do conhecimento” e, embora sem o estímulo da sua companhia, cabe-nos agora a nós trilhá-los. Acima de tudo, cabe-nos a nós mostrar que os caminhos do conhecimento são os únicos que nos permitem entrar, de uma forma cabal, no futuro.

As contribuições, apresentadas em Lisboa  a 16 de Maio de 2016, no dia que seria do  68.º aniversário de José Mariano Gago (curiosamente, esse dia será em breve, por determinação da UNESCO, “Dia Internacional da Luz”, por ser o aniversário da primeira utilização do laser, em 1960), por Svein Sjoberg, professor de Educação Científica da  Universidade de Oslo, na Noruega,  sobre Science education for culture  e por Martin Bauer, da London School of Economics and Political Science,  Reino Unido, sobre Modern Portugal and its science culture são muito estimulantes para tentarmos perceber melhor de que modo a educação e a ciência – essas duas irmãs gémeas, que não podem viver uma sem a outra  -  são o chão desses caminhos. Mariano Gago teria gostado da discussão que elas suscitaram.

Sjoberg, depois de reconhecer o papel singular em todo o mundo da Ciência Viva  - Agência Nacional para a Promoção da Cultura Científica e Tecnológica e da rede de Centros Ciência Viva espalhados pelo país a ela associada, deixou-nos uma reflexão sobre o estado actual da educação científica no mundo, em particular  a visão que dela é fornecida pelo programa PISA - Programme for International Student Assessment (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) que tem efectuado um reconhecimento periódico dos conhecimentos e atitudes em relação à ciência (inccluindo nesta a matemática) e  à leitura por jovens de 15 anos.  De facto, o PISA tem-se revelado um bom instrumento para comparar os resultados dos sistemas educativos de vários países, embora evidentemente não esteja isento de críticas, como aquelas de que Sjoberg foi porta-voz. O programa iniciou-se em 2000 sob a égide da OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, de que Portugal faz parte, tendo-se realizado de três em três anos, com ênfase em cada ano numa disciplina diferente (Matemática, Ciências, Língua). 

Qual é a posição de Portugal nesse ranking internacional, talvez o mais famoso dos rankings educativos à escala global (existem outros como o TIMMS - Trends in International Mathematics and Science Study)? Pois o nosso país, cujas debilidades na educação são conhecidas  (e que se devem, em grande medida, a um atraso estrutural com raízes históricas), obteve de início más classificações no PISA, ficando mesmo perto da cauda, tendo no ano de 2009  dado um salto significativo para o meio da tabela, um salto que no ano 2012 se revelou sustentável apesar de não terem ocorrido progressos adicionais (aguardam-se os resultados dos testes de 2015, a anunciar em Dezembro de 2016). No ano de 2012, no qual houve a participação de 65 países, Portugal ficou no lugar 36 em Ciências, 31 em Matemática e 32 em Leitura [1]. Evidentemente que os resultados ainda não são satisfatórios, em particular em Ciências, mas pelo menos já não temos que nos envergonhar de uma situação miserável. Há ainda muito espaço para superação do défice, para a qual pode contribuir seguramente  análises do estado da educação portuguesa no final do ensino básico e início do secundário revelado pelo PISA, procurando saber quais são os factores que estão associados a maus e a bons resultados. Um estudo nesse sentido é o que está a ser realizado sob o título de aQueduto - Avaliação, Qualidade e Equidade da Educação, da responsabilidade do Conselho Nacional de Educação e da Fundação Francisco Manuel dos Santos [2].

Sjoberg chamou a atenção para um interessante paradoxo: o facto de os estudantes que desempenham melhor no PISA por vezes não gostarem do assunto. Por exemplo, no PISA de 2006, a Finlândia apareceu à frente do ranking de Ciências, ao passo que Portugal ficou  relegado para a segunda metade da tabela. Mas, no mesmo teste, na pergunta aos alunos se se interessam por ciências Portugal já ficou num honroso 12.º lugar, na companhia de outros países da “segunda liga” do PISA, ao passo que a Finlândia ficou em último lugar, muito distanciada, acompanhada pela Holanda e pela Suécia.

Os resultados do PISA revelaram-se um catalisador de discussão de política educativa nalguns países (como a Alemanha e os Estados Unidos, claramente insatisfeitos com os resultados) que procuraram empreender reformas do sistema educativo. O debate público nesses países despoletado pelas comparações internacionais foi muito intenso. O facto de os países ganhadores do PISA serem tomados como modelo nas reformas foi questionada pelo norueguês Sjoberg. É curioso que a Noruega, que é o país mais desenvolvido do mundo nalguns rankings  internacionais,  está apenas um pouco acima de Portugal no PISA de 2006 e também está bastante próxima de Portugal na falta de interesse dos alunos pelas ciências no mesmo PISA. O certo é que o PISA se impôs, em geral, como um padrão de medida internacional dos sistemas educativos favorecendo o que podemos chamar “globalização” da educação. Os países no topo do PISA são mais competitivos economicamente no actual sistema económico marcado pela competitividade à escala mundial: facto que é apoiado pela presença no cimo de países do Sudeste Asiático como algumas regiões da China (Xangai, Hong Kong e Macau), Singapura, Taiwan, Japão e Coreia do Sul e Singapura. Alguns  países,  como a Austrália, colocaram mesmo como meta da política educativa nacional a subida na escala do PISA.

Até que ponto existe essa associação entre os resultados do PISA, ou do TIMMS, com o sucesso económico é uma questão debatida pelos economistas da educação. Sjoberg, ao criticar a omnipresença e omnipotência do PISA nos actuais debates educativos, não deixa de ter alguma razão. Elas terão decerto um pressuposto ideológico, segundo o qual tudo se poderá sustentar em análises quantitativas, um pressuposto incorrecto pois sabemos que a educação é íntima da cultura e a cultura, o domínio por excelência da complexidade, não pode ser totalmente encapsulada por números . Os resultados do PISA serão indicadores úteis, mas não devem ser endeusados. Einstein nunca disse que “tudo o que pode ser contado não conta e tudo o que conta não pode ser contado”, como por vezes lhe é atribuído.  O autor dessa asserção foi o escritor americano William Bruce Cameron, numa obra de 1963 intitulada Informal Sociology: A Casual Introduction to Sociological Thinking [3], mas não é por não ser de Einstein que o aforismo faz menos sentido.

Na sua intervenção sobre a cultura da ciência, Martin Bauer começou por chamar a atenção para o facto de  a ciência ser um processo global, com objectivos e metodologias partilhadas à escala do planeta, mas a cultura continuar a ser local. Talvez por isso aquilo que chamei, num artigo com Guilherme Valente, o editor da Gradiva que é um combatente de há muito pela cultura científica (recebeu em 2012 o primeiro Grande Prémio Ciência Viva) chama  “velha cultura portuguesa” [4], seja  uma barreira a uma maior penetração da ciência entre nós. Portugal não tem nem tradição de ciência nem, por isso, uma cultura muito receptiva à ciência. Mas, embora nem tudo o que conte possa ser contado, os psicólogos e os sociólogos dispõem de modelos de medida da cultura, em particular da cultura científica, a cultura que inclui a ciência.  O psicólogo social Martin Bauer realizou um estudo, para a Ciência Viva, em conjunto com Susan Howard, sobre Modern Portugal and Science Culture – Regional and Generational Comparisons [5], que se baseou nas respostas a inquéritos à escala europeia sobre cultura cientifica, que se realizaram em 1989, 1992, 2001, 2005 e 2010 (note-se a não periodicidade: os intervalos entre essas datas são de 3, 11, 4 e 5 anos). 

Portugal, que participou nesses inquéritos, é bem conhecido por ter tido a partir de 1986, ano da entrada do país na União Europeia, então chamada Comunidade Europeia,  um crescimento que se pode dizer explosivo do seu sistema científico, um movimento que foi acompanhado pela busca de uma maior disseminação da cultura científica. O crescimento da ciência em Portugal passou a beneficiar de um maior suporte institucional após José Mariano Gago ter tomado posse do lugar de ministro da Ciência e Tecnologia, em 2015,  no primeiro governo de António Guterres (é pena que Gago não tenha podido saber da recente eleição de Guterres para secretário-geral da Organização das Nações Unidas!) e ter fundado, logo no ano seguinte, a FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia e a Ciência Viva - Agência Nacional para a Promoção da Cultura Científica e Tecnológica) [6]. O aumento do interesse do público pela ciência pode ser comprovado pelo crescimento da cobertura pelos jornais de referência, como o Diário de Notícias  e o Público (embora um jornal popular como Correio da Manhã tenha mostrado uma quebra dessa tendência por volta de 1988, a crer nos dados de uma tese de doutoramento em comunicação de ciência, citada por Bauer, que analisou a presença da ciência na imprensa portuguesa entre 1976 e 2005 [67]). São claramente necessários mais estudos sobre a presença da ciência nos média.

O Eurobarómetro sobre ciência foi realizado em 12 países europeus, incluindo Portugal. Trata-se de uma inquérito da União Europeia destinada a a conhecer o panorama europeu e a evolução da opinião pública. Integrando os dados das respostas a esse inquérito em todos os anos em que foi efectuado (e em Portugal houve cerca de mil respondentes) pode-se concluir, a partir de um conjunto de 13 perguntas simples reveladoras de um conjunto de conhecimentos de conteúdos e métodos da ciência, que os conhecimentos de ciência dos portugueses estão abaixo da média europeia.  Subiu de 4,3 pontos em 1989 para 6,1 pontos em 2010, mas na Europa a subida foi de 6,6 para 8,3, numa escala em que o máximo é 13. Embora Portugal tenha feito alguns processos na aquisição de conhecimentos científicos, o facto é que o gap entre o nosso país e  o resto da Europa aumentou ao longo dos últimos anos. 

Melhorámos, mas os outros países melhoraram mais, persistindo a assimetria. Conclui-se que o nosso relativo défice pedagógico, evidenciado pelos dados PISA dos alunos de 15 anos, vai em paralelo com um défice científico, patente nos inquéritos à cultura científica da população. Esse resultado não suscita admiração, uma vez que se sabe que a escola é um  esteio essencial da cultura científica. O trabalho conjunto da Ciência Viva com as escolas, bem patente numa fase inicial com os concursos de projectos lançados a escolas e, mais recentemente, com o estabelecimento de uma Escola Ciência Viva direccionada para a ciência do 1.º ciclo  no Pavilhão do Conhecimento em Lisboa, revela-se necessário.

Por outro lado, os referidos dados do Eurobarómetro permitem saber se os portugueses dão atenção à ciência, isto é, permitem saber, para além dos seus conhecimentos, quais são as suas atitudes perante a ciência. O interesse pela ciência também é, em geral, mais baixo do que nos outros países da União. E, o que é pior, decresceu de 1989 para 2010, facto que não pode deixar de preocupar entidades como a Ciência Viva. Como seria natural supor, esse interesse é maior nos grandes meios urbanos do que em meios rurais e é maior nos estratos etários mais jovens do que nos mais velhos (que tendem a ter uma escolaridade mais reduzida, dado o défice escolar na história portuguesa). Os portugueses também se sentem menos informados do que os seus co-cidadãos europeus a respeito das descobertas científicas, incluindo as descobertas no campo da medicina, que tendem a ser mais mediáticas por dizerem respeito à saúde humana, um tema que interessa a todos.

O défice de cultura científica é parte de um défice mais geral de cultura. Os portugueses, em média, reportam  menos visitas a museus, espaços de exposição de arte e bibliotecas que os europeus em geral. Não admira, por isso, que as pessoas mais receptivas à cultura em geral sejam também as mais receptivas à ciência. Não se pode esperar que quem não frequenta museus em geral visite museus de ciência. A ciência é parte da cultura e a falta de ciência é parte da falta de cultura.

Em contraste com esta apatia generalizada relativamente à ciência, é interessante averiguar o que a população espera da ciência. O Eurobarómetro perguntou se os portugueses esperam que a ciência melhore as suas vidas, se favorece um trabalho mais agradável  e se proporciona mais oportunidades para o futuro. No fundo, perguntou se a ciência tem interesse nas nossas vidas.  E, de facto, aí os portugueses responderam generalizadamente que sim. Existe um consenso nessa matéria que, de resto, é partilhado à escala europeia. Então fica o paradoxo: Se a ciência é importante para as vidas dos portugueses,  por que razão é que eles não sabem mais sobre ela e não manifestam maior interesse por ela? Este paradoxo lembra-nos o do PISA atrás referido: os alunos portugueses mostram comparativamente grande interesse pela ciência mas não obtêm grandes resultados quando lhes são solicitados  conhecimentos de ciência.

Um aspecto interessante revelado pelo Eurobarómetro é o facto de, em Portugal, ter aumentado nos últimos tempos o cepticismo a respeito da ideia de que a ciência permite melhorar a nossa saúde e aumentar o  conforto das nossas vidas. Esse cepticismo é comum à Europa, mas há três indicadores que revelam um particularidade portuguesa, que deve estar relacionada com o nosso défice científico: em 2010 mais portugueses concordavam do que em anos anteriores que “os investigadores científicos detêm um poder que os torna perigosos”, em contramão com  a tendência europeia (65% concordam em Portugal, em contraste com 53% na Europa); além disso, manteve-se o número alto de portugueses que concordaram que “a ciência e tecnologia não desempenham um papel real na protecção do ambiente e na sua reparação” ao passo que esse número diminui na Europa (29% concordavam em 2010 contra 22% na Europa); por último, cada vez mais portugueses defendiam que “dependemos demais da ciência e da tecnologia e não suficientemente da fé”, em contraste com o resto da Europa (49% em Portugal concordavam em 2010, ao passo que na Europa apenas 35%). É bom ser céptico a respeito do poder da ciência, embora evidentemente dentro de limites razoáveis. 

A persistência, ainda que localizada e difusa,  de uma visão mitológica da ciência que a hipervaloriza (isto é, a ideia de que a ciência pode resolver todos os tipos de problemas, podendo nós depositar uma esperança cega e ilimitada  nela) é preocupante, pois a ciência, apesar da ser indispensável na resolução de um bom número de problemas do mundo, não pode ser considerada uma chave mágica que abre todas as portas. Mas não menos preocupante é o facto de uma larga fatia dos cidadãos ignorarem que a ciência resolve, ou pelo menos ajuda a resolver, um grande número de problemas da sociedade. Há, portanto,  razões para, em Portugal, se intensificar o trabalho em prol da cultura científica. Tanto mais que os últimos anos, não considerados no relatório de Bauer e  Howard, não podem ser considerados favoráveis ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia no nosso país.

Por outro lado, dois aspectos positivos da cultura científica em Portugal revelados pelos inquéritos do Eurobarómetro são o facto de as astrologia e a homeopatia serem consideradas menos científicas do que no resto da Europa e também o facto de em Portugal existir uma opinião mais favorável do que no resto da Europa à experimentação com animais como parte importante da investigação científica na área da biomedicina.

Não há dúvida de que as análises de Bauer e Howard fornecem muita matéria para pensar, podendo as correlações encontradas por esses autores, que agregaram alguns indicadores para procurarem um melhor retrato da atitude dos portugueses perante a ciência, ser completadas por outros estudos. Os números não são tudo, mas ajudam-nos a reflectir. Um olhar crítico sobre eles servirá para nos conhecermos melhor e ultrapassarmos os nossos défices. Uma coisa é certa: os défices de natureza cultural não se ultrapassam rapidamente, exigindo uma atenção e um esforço continuados. Os paradoxos constituem desafios para a nossa análise.

Referências:

[1] Programme for International Student Assessment,  https/en.wikipedia.prg/wiki/Programme_for_International_Student_Assessment (consultado em 12 de Outubro de 2016).
[2] aQueduto, Avaliação, Qualidade e Equidade da Educação, http://www.aqeduto.pt (consultado em 12 de Outubro de 2016).
[3] William Bruce Cameron, Informal Sociology: A Casual Introduction to Sociological Thinking, New York: Random House, 1963.
[4] Guilherme Valente e Carlos Fiolhais, “A secretária de Estado que não quer ser avaliada”, Público, 24/01/2001. https:/www.publico.pt/espaco-publico/a-secretaria-de-estado-que-nao-quer-ser-avaliada-154006 (consultado em 12 de Otubro de 2016).
[5] Martin Bauer and Susan Howard, Modern Portugal and Science Culture – Regional and Generational Comparisons,  report prepared for Ciência Viva, Lisboa, DOI: 10.13140/RG.2.17410.7684, http://eprints.lse.ac.uk/66577/ (consultado em 12 de Outubro de 2016).
[6] Carlos Fiolhais, A Ciência em Portugal, Lisboa: Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.
[7] Rui Brito Fonseca: A Ciência e a Tecnologia na Imprensa Portuguesa: 1976-2005, Tese de doutoramento em Sociologia no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, 2012. 

sábado, 13 de maio de 2017

Sobre as colecções biológicas

Imagem do Museu de História atural de Berlin, obtida no site pictures and words


As colecções biológicas são a fundação de um museu de história natural. Estas contam histórias de expedições e trabalhos científicos passados, sendo locais privilegiados para comunicação da ciência, mas também servem como repositórios de informação. No março passado, o museu de História Natural da Universidade de Louisiana recebeu a notificação do quadro da universidade que teriam 48 horas para realocar as suas colecções biológicas - uma “mera” colecção de 6 milhões de espécimes de peixes  e 500.000 plantas para ceder o espaço à equipa de atletismo da universidade*. Esta semana, plantas do tipo nomenclatural (type specimen) com cerca de 200 anos foram destruídas após uma falha de comunicação entre o Museu de História Natural de Paris e autoridades alfandegárias Australianas**. Isto reacendeu um dos grandes debates na biologia: Qual é o valor das colecções biológicas e dos museus de história natural?

O estudo das colecções biológicas tem ganho popularidade nos últimos anos. Por um lado, os espécimes guardados servem como coordenada temporal, geográfica ou exemplar físico, assim permitindo caracterizar mudanças geográficas ao longo do tempo, alterações num órgão ou tecido específico, ou estudar o impacto de lesões e doenças - informação preciosa considerando as ameaças e perdas de biodiversidade e as mudanças geográficas das espécies causadas pelas alterações climáticas. Por outro lado, os avanços na área de ADN antigo (Ancient DNA) têm permitido o estudo da informação genética destes repositórios (museomics) onde a extração de DNA de plantas de herbário com centenas de anos e de exemplares embalsamados de espécies já extintas tem sido conduzida com sucesso***. Por exemplo, o estudo de lesões em exemplares de herbário de plantas da batata causadas pelo infame requeima-do-tomateiro (Phytophthora infestans), o agente responsável pelo período da grande fome Irlandesa (1845-49), permitiu a determinação das estirpes genéticas ligadas a este evento. Ademais, o estudo da presença do DDT em cascas de museus colectadas em diferentes locais, durante diferentes anos permitiu a determinação do período de vida do DDT nos ecossistemas (o DTT, outrora tomado como inócuo, é um químico altamente tóxico utilizado como pesticida. No passado foi utilizado directamente na comida e em pessoas****).

As colecções também assumem um papel prominente na comunicação de ciência. Muitos exemplares foram colectados em expedições onde a visão humana do mundo era radicalmente diferente da visão actual. Outras, contam aventuras daqueles que ansiavam fama ou apenas desmistificar lendas e rumores. Outros, contam histórias do impacto dos humanos - como o famoso Pombo-Passageiro cujos bandos de milhões de indivíduos, por ventura da sua passagem, eclipsavam a luz solar por horas ou dias.


Apesar disto, as colecções biológicas não recebem o devido valor, sendo frequentemente o primeiro alvo de cortes financeiros nas instituições superiores. Casos como a colecção do Museu de Louisiana ou de Paris estão longe de serem casos isolados. O desinvestimento geral na taxonomia (a ciência que caracteriza e agrupa os seres vivos) e o desinteresse na manutenção destas colecções constituem sérias ameaças aos repositórios. As colecções têm valor, não haja dúvida, o problema é que este valor nem sempre é instantâneo ou óbvio.

* http://gizmodo.com/university-threatens-destruction-of-millions-of-specime-1793745389 
** https://www.nytimes.com/2017/05/12/world/australia/rare-plants-destroyed.html?smid=fb-nytimes&smtyp=cur
*** http://www.molecularecologist.com/2017/04/unusual-sources-of-ancient-dna/ 
**** https://www.youtube.com/watch?v=gtcXXbuR244 ; https://www.youtube.com/watch?v=v2EtxYxEKww 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Máquinas cognitivas

T

TEDtalk com o meu primeiro doutorando, Armando Vieira, agora empresário, que já tem participado neste blogue, a partir do minuto 11, 20.

O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA


Post recebido de Galopim de Carvalho:


;É já no próximo 1 de Junho, dia da abertura da Feira do Livro de Lisboa, 2017, o lançamento deste meu  último livro, da Âncora Editora.

 Embora o título sugira uma obra destinada a juvenis, “O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA”, escrito em estilo de diálogo, foi concebido a pensar nos Professores que ensinam Geologia nas nossas Escolas, nos seus alunos e, ainda, na generalidade dos leitores interessados em descobrir a maravilhosa história do nosso Planeta. Esta realização nasceu da experiência que mantive e continuo a manter, proferindo lições por todo o país e em todos os níveis, do Básico ao Secundário e, até, nos Jardins-Escolas. Sem perda de rigor científico, criei e aprendi a usar o discurso pedagógico mais adequado a cada um destes níveis. E é esse discurso que coloco aqui à disposição dos leitores.

 ÍNDICE
 Introdução Agradecimentos É preciso descodificar as palavras. O nascimento do Astro-rei. A estrela que nos deu e nos assegura a vida. O nascimento da Terra. Lua, a nossa companheira. Pedras caídas do céu. “Planeta azul”, a nossa casa. À semelhança de uma cereja. Viagem ao centro da Terra. A pele da Terra. Para baixo todos os santos ajudam. Pesamos mais na praia do que na montanha. Pesamos mais nos Açores e na Madeira do que no Continente Como na banheira de Arquimedes. Coisas que é preciso saber para falar de minerais. Outras coisas importantes para falar de minerais. E tudo o mais que se aprende ao falarmos de minerais. Rochas ou pedras? As rochas que nasceram de um magma. Dos sedimentos às rochas sedimentares. O que são e com nascem os calcários. Quando as rochas se afundam na crosta. Um sobe e desce de centenas de milhões de anos. As bocas do Inferno. Há vulcões e vulcões. E o que mais se pode dizer sobre vulcões. Aproveitar o calor da Terra. Quando a Terra treme. Duas maneiras de classificar os sismos. Quando as vidas se transformam em pedra. O tempo em geologia. Dinossáurios no Centro Ciência Viva de Estremoz. Dinossáurios na estrada. Inalar o ar que os dinossáurios respiraram. Jangadas de pedra. Porque é que se diz “tectónica de placas”? O motor da tectónica de placas. Um íman do tamanho da Terra. O chão que nos dá o pão. Se não houvesse solos, nós não estávamos aqui a falar. 


 INTRODUÇÃO

 Naquele Verão, era quase sempre com o Sol a descer para lá do Oceano, que o avô falava das muitas coisas que haviam preenchido o seu mundo como geólogo e professor de geologia. Sob o alpendre coberto de hera, no pequeno terraço anexo à casa, uma grande mesa com tampo de ardósia, onde se podia escrever com giz, e algumas cadeiras eram o centro preferido para estas conversas com os três netos. Liberta a mesa de tudo o que servira o jantar, o Domingos e os gémeos Francisca e Mateus, rodeando o avô, tinham nos olhos o brilho da curiosidade. Mais velho, o Domingos, terminara o 7º ano de escolaridade. O Mateus e a Francisca tinham concluído o 6º. O tempo de férias era agora todo deles, com praia pela manhã, jogos e leituras, dentro de casa, nas horas mais quentes da tarde e aquele apetecido convívio ao fim do dia, que os conduzia a maravilhosas viagens e aventuras. 

 Embalados nas palavras do avô, “caminhavam” sobre rochedos em altas montanhas, “corriam” no solo fofo das estepes e pradarias, “pisavam” o chão áspero e duro dos vales secos e gélidos da Antárctida, “respiravam” a humidade quente e perfumada da floresta amazónica, “mergulhavam” nas profundezas do oceano e “nadavam” nas águas tropicais, límpidas e mornas, por entre corais e peixinhos de todas as cores. Ouvindo as histórias que o avô contava, “subiam” ao topo de vulcões jorrando lavas incandescentes ou projectando nuvens imensas de cinza, “escorregavam” nas dunas escaldantes no deserto do Sahara ou “percorriam” grutas repletas de cristais e imaginavam-se entre dinossáurios e muitos outros animais desaparecidos.

 Encorajado pelo interesse e pela atenção dos netos, o avô não parava de falar. Paisagens que percorrera, profundas minas a que descera, museus que visitara, grandes figuras que conhecera e episódios que vivera ou presenciara eram condimentados com ensinamentos nos domínios em que trabalhara e que, ao mesmo tempo, estivessem entre as matérias constantes dos programas escolares destes três elementos do seu pequeno e interessado auditório. 

 E era tudo tão agradável e entusiasmante. Ouvir o avô era como ver um filme ao lado de alguém que explicava e tornava fácil o que parecia difícil de entender. A cada passo, as novas palavras necessárias ao discurso iam sendo descodificadas, “traduzidas por miúdos”, como dizia o avô, ganhando significado. 

Eis o primeiro dos 33 capítulos 

 É PRECISO DESCODIFICAR AS PALAVRAS 

A tarde estivera particularmente quente e foi ainda no final do jantar, servido na mesa do terraço, enquanto saboreava o gelado trazido do supermercado, que a Francisca perguntou ao avô qual seria o assunto da primeira das conversas prometidas, a terem lugar ali, à semelhança do que acontecera nas férias de verão do ano anterior. Seriam, certamente, mais uma daquelas lições, dadas num jeito de contar histórias, que dava gosto ouvir. 

 - Nas conversas que vamos ter este ano, - começou o avô - acho que vou começar com algumas reflexões sobre as palavras que irão ouvir, muitas delas novas e sem significado, se não forem convenientemente explicadas. Mas antes gostava que ouvissem o que me parece importante dizer sobre a palavra. 

- Diga avô. Adiantou-se o Mateus. 

- Chegada a nós através do latim parabola, que significa discurso ou fala, a palavra é uma característica exclusivamente humana, que nos distingue dos restantes animais a que, de um modo demasiado simplista, adjectivamos de irracionais. Sabemos hoje que este nosso dom reside nos escassos pontos percentuais que nos distanciam do código genético do chimpanzé. Vamos, pois, aproveitar esta capacidade e fruir os bens que o saber nos oferece.

 - Quem fala assim não é gago! – exclamou a neta, olhando o avô com um lindo sorriso. 

 - Enquanto falada, a palavra é um conjunto de sons que define um ou mais objectos ou ideias. Os estudiosos destas matérias admitem que o andar de pé, ou seja, a postura erecta dos primitivos humanos, a libertação das mãos (especialmente adaptadas à vida nas árvores pelos seus antepassados primatas) e a utilização destas no talhe e no uso de instrumentos conduziram ao aumento de volume do cérebro e ao seu desenvolvimento em termos de complexidade.

 Já ouvi falar em primatas, - interrompeu o Mateus – mas não sei bem o que são. 

- Primatas, meu neto, são os animais de um grupo de mamíferos que tu conheces muito bem. São, entre outros, os macacos, os chipanzés, os gorilas, os orangotangos e os seres humanos.

 - Obrigado, avô.

- A possibilidade física de emitir mensagens sonoras, aceites como rudimentos de palavras. - Acrescentou a avó, aproximando-se. – Isso pressupõe a aquisição de uma capacidade intelectual e de uma outra, física, ao nível do aparelho fonador, ou seja, da boca, da garganta e do nariz, susceptíveis de expressar ideias através de emissões de voz.

 - Essa possibilidade – retomou o avô – pode ter surgido quando os nosso primitivos antepassados começaram cooperar entre si, adaptando formas de comunicação baseadas, não só em expressões da cara e em gestos, mas também nas citadas emissões vocais.

- Impossíveis de confirmar. - Acrescentou o pai das crianças, atento a uma conversa do seu particular interesse. - As opiniões sobre o início desta etapa da evolução dos nossos antepassados, isto é, da hominização, variam entre as que a aceitam associada ao aparecimento do género humano mais antigo, há cerca de 2.500.000 anos, às que a apontam como uma conquista do homem moderno, há menos de 100.000 anos.

- Usada com marco divisório entre a Pré-história e a História, - continuou o avô - a palavra escrita é um conjunto de símbolos gráficos ou grafemas susceptíveis de exprimir uma e, por vezes mais, ideias, registados num suporte material como foi o barro e a pedra, na Antiguidade, e o papel e o electrónico, etc., no presente. Na nossa cultura, em que a grafia é alfabética, podemos converter a palavra escrita em sons ou grupos de sons que reproduzem a palavra falada.

- Deixe-me só acrescentar – pediu o pai das crianças – que a palavra escrita surgiu há cerca de 5000 anos, na Mesopotâmia, acredita-se que por engenho dos sumérios, desenvolvendo-se como uma outra via de comunicação.

 - Que, embora de uso muitíssimo mais restrito, - acrescentou o avô - possibilitou ao homem divulgar os seus conhecimentos muito para além do seu espaço geográfico e do seu tempo.

- São múltiplos os factores envolvidos na criação deste passo importante na civilização e, com isto termino, - disse o pai - um deles foi o surgimento das cidades, como exigência do progresso da economia e da sociedade.

 - Vamos, então, começar pelo significado das palavras. Todos se acordo?

 - Sim, avô. – Disseram, quase ao mesmo tempo, a Francisca e o Mateus.

-- E eu também. – Disse, logo a seguir, o Domingos.

 - Uma grande verdade que eu aprendi em quarenta anos de professor e muitos mais como divulgador de ciência a todos os níveis, é que «o discurso do professor tem de ser simples, sem perda de rigor, apelativo e, sempre que possível, agradável». Só assim o aluno ou quem o escuta ou lê tem gosto em aprender e aprende.

 - É como faz o avô. A gente aprende logo. Quase que não precisa estudar. – Disse este neto.

 - Todas as actividades, sejam elas quais forem, das mais simples às mais complicadas, precisam de palavras para dar nomes a todas as ferramentas ou utensílios de que se servem e a tudo o que nelas se faz ou produz. Por exemplo, os cozinheiros servem-se de facas, tachos e panelas, fritam, cozem e assam. Os alfaiates e as costureiras mexem em tesouras, agulhas, linhas e botões, fazem casacos e vestidos e falam de lã, algodão, seda e linho. Todos eles usam palavras que toda a gente conhece, mas também usam outras que nós nem pensamos que existem. Passa-se o mesmo com os médicos, os economistas, os juristas e todos os cientistas e técnicos dos mais variados ramos. Também eles falam de nomes do dia-a-dia de toda a gente, mas atiram-nos à cara muitos outros que só eles e muito poucos entendem. Em suma e simplificando, tudo o que se pensa ou faz e tudo em que se mexe tem um nome. Com a geologia é a mesma coisa. Além das palavras vulgares esta ciência que estuda a Terra criou as suas próprias palavras.

 - É mesmo isso. – Interrompeu o neto mais velho. - Quando o avô ou a minha professora falam de coisas da geologia, aparecem sempre palavras novas.

 - Os cientistas estão sempre a descobrir coisas novas e, assim têm de criar neologismos. Aqui têm os meus netos, uma palavra que vem mesmo a calhar. Neologismo é o nome que se dá a uma palavra criada de novo e que foi feita a partir dos elementos gregos, neo, que quer dizer novo, e logos, que significa estudo, conhecimento.

 - Então, temos de aprender grego? – Perguntou o Mateus com ar de alguma preocupação.

 - Não. Basta que saibam o significado dos termos que entram na composição dos vocábulos próprios das disciplinas que têm de estudar. Uns vêm do grego, outros do latim.

 - Vocábulos, Avô? – Interrompeu, de novo, o Mateus.

 - Aí tens tu uma palavra tirada do latim vocabulu que quer dizer nome de uma coisa. Mesa, copo, lápis, areia, piscina, mar e todos os nomes que conheces e não conheces são vocábulos. Entre os vocábulos usados em geologia, por exemplo, há palavras que toda a gente conhece, como montanha, rocha, areia, erosão, mina, vulcão, e palavras só usadas pelos profissionais, como turbitito, gliptogénese, anatexia, piroclasto, orógeno, hialoclastito e muitíssimas outras, em número de centenas. São nomes que, de momento, nada vos dizem e que, a seu tempo, poderão vir a conhecer.

 - E são essas que vamos aprender? – Perguntou o Domingos.

 - Por agora nem todas, mas, mais tarde, certamente que sim. - Continuou o avô. - Eu costumo dizer que são palavras “caras” que é preciso “trocar por miúdos”. No século XVIII, quando as ciências começaram a ganhar importância, estudar e criar conhecimento era uma actividade, praticamente, só exercida no seio do clero, por padres e monges, e também por alguns representantes da nobreza. O latim e o grego faziam parte das disciplinas habituais no ensino a que, nesse tempo, só estas classes tinham acesso. O povo, dizia-se, não precisava estudar. Bastava-lhe a força dos braços e a habilidade das mãos. Estava-se muito longe de o ensino ser obrigatório para toda a gente.

 - A cabeça do povo era só para pôr o chapéu ou o barrete. - Entrou na conversa a avó, atenta à conversa.– O clero e a nobreza sabiam muito bem que os seus privilégios assentavam na ignorância do povo.

 - E fiquem a saber - acrescentou a mãe das crianças, atenta a esta conversa - que, mesmo depois e por muito tempo, estudar era uma actividade só acessível aos homens. As mulheres não tinham essa possibilidade. Serviam para tudo menos para estudar. Estavam destinadas a serem boas esposas, boas mães e boas donas de casa. Ainda pouco na geração da avó, mas depois, felizmente, na minha, as raparigas já puderam estudar lado a lado com os rapazes.

 - Era como ainda hoje em algumas sociedades dominadas por fundamentalistas religiosos, em que as raparigas estão proibidas de ir à escola.– Lembrou a avó.

 - Hoje, nas nossas escolas, - continuou a mãe das crianças - praticamente, ninguém estuda latim ou grego. Só na Universidade e, mesmo assim, são poucos os alunos que frequentam estas disciplinas. O latim que os romanos falavam já não se fala em parte nenhuma, nem em Itália. E o grego que se fala na Grécia já sofreu grandes alterações.

 - Bom, mas continuemos. - Interrompeu o avô. - Os cientistas têm de dar nomes às coisas que vão descobrindo ou, por outras palavras, como já dissemos, têm de criar neologismos. E, respeitando a tradição, fazem-no a partir de nomes que vão buscar a essas duas línguas da Antiguidade. São palavras que, praticamente, só eles e os seus pares entendem.

 - E geologia é outra dessas palavras, não é, avô?

 – Disse o Mateus. - Aí temos nós mais um bom exemplo para começar. – Continuou o avô. - A palavra geologia foi feita juntando dois elementos também de origem grega, geo, que significa Terra, e logos, que quer dizer estudo, conhecimento. Geologia é hoje uma palavra conhecida de muita gente mas, no século XVIII, quando foi introduzida com o significado que lhe damos, só os mais eruditos a conheciam.

- Eruditos, Avô? Isso é outra palavra cara?

– Perguntou o Mateus, a rir. - É uma palavra que fomos buscar ao latim eruditu e que se aplicava a uma pessoa que sabia muito. E quem diz geologia diz muitas outras. Por exemplo, a palavra cassiterite, nome que foi dado ao mineral de estanho que podem ver aí na colecção que o Domingos começou a fazer, teve origem no grego, kassiteros, que significa estanho, e a que se acrescentou o elemento ite com que terminam os nomes da maioria dos minerais. - A minha professora também explica as palavras mais esquisitas. - Disse o Domingos.

 - À medida que formos falando de geologia – continuou o avô - iremos sempre explicando como nasceram as novas palavras que forem aparecendo, o que torna fácil tudo aquilo que parece difícil. Se souberem o significado dos elementos de que são feitos os nomes que forem aprendendo, eles passam a fazer uma parte sólida do vosso conhecimento.

 - Diga mais palavras dessas. Avô - Pediu a Francisca.

 - Digo só mais uma que iremos usar muitas vezes,

 - Diga, avô. – Entusiasmou-se a neta.

 - Litosfera, que é o nome que se dá à camada exterior da Terra, toda ela formada por rochas. Analisando esta palavra verificamos que, também ela, foi feita juntando dois nomes gregos: lithós que significa pedra ou rocha, e sphaira que, está-se mesmo a ver, quer dizer esfera.

 - Assim, fica tudo mais fácil. Obrigado, avô.

 - Por hoje já chega. Para terminar, vamos meter bem na cabeça que todos os vocábulos que ouvirmos ou lermos, à medida que formos avançando no nosso estudo, têm de ser explicados. Se não tivermos este cuidado, não passam de palavrões sem significado que decoramos para podermos responder no exame e que, depois, se esquecem para sempre. E agora vão brincar um bocadinho, antes de irem para a cama.

António Galopim de Carvalho

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A "FOICE" NO CÉU DE PORTUGAL OU OS PERIGOS DA FICÇÃO TEOLÓGICA.


Texto recebido de Joaquim Fernandes:

Motivo permanente de atenção e das expectativas dos crentes a terceira parte do chamado “Segredo de Fátima” seria relativa a Portugal, de acordo com a tese do padre José Geraldes Freire, docente da Universidade de Coimbra e notório investigador da problemática de Fátima. Essa pretensa profecia seria alvo de uma curiosa interpretação deste primeiro responsável pela publicação da Documentação Crítica de Fátima, elaborada com base num estranho sinal observado no céu na noite de 21 de Janeiro de 1976, maioritariamente em território português, mas também espanhol, e que causou comoção e perplexidade nas populações crentes e descrentes.

No jornal Mensagem de Fátima, de Março-Abril de 1976, o padre José Geraldes Freire questionava “se esta parte da mensagem de Fátima não for atendida a única alternativa é o império dos erros geradores de guerras e perseguições”. Pretendia assim o diligente investigador católico que este sinal representado sobre o céu de Portugal poderia ser uma advertência críptica de que “o perigo do domínio comunista em Portugal ainda não havia passado”. No epicentro desta suposição estão as dimensões proféticas do “Segredo de Fátima”, fecundado pelas “Memórias” tardias (1935) da Irmã Lúcia, que revelam as orientações dos seus confessores jesuítas, os padres Gonçalves e Aparício. Será de lembrar, desde logo, que estas “revelações” tardias do ambiente conventual de Tuy e Pontevedra não raro constituem sedutoras vias de inspiração para alguns exegetas católicos de Fátima que correm o risco de produzir, deste modo, exercícios de ficção teológica, por via destas dissonâncias cognitivas... O caso em preço é um exemplo convincente.

Ora, curiosamente no sul alentejano, a leitura deste “prodígio celeste” de 21 de Janeiro de 1976 traduziu-se por manifestações de… alegria (!), com que o povo de Monte do Trigo, concelho de Portel, leu o referido fenómeno celeste: a de que o comunismo iria vencer em Portugal! É que o bizarro “sinal” foi evoluindo na sua formatação até sugerir um aparente S ou um 5, mas também evocativo de uma foice, de tonalidade avermelhada! A frase retirada do texto da segunda parte do discutido como temido “Segredo” falava de uma “noite alumiada por uma luz desconhecida e que constituiria O GRANDE SINAL para a punição de Deus”. Afinal, para os crentes, todos os fenómenos, naturais ou desconhecidos, podem ser usados por Deus para assinalar os seus esconsos desígnios…

Só que o fenómeno da “foice” havia sido também observado sobre Espanha. E, em breve, teríamos a resposta científica, certificada, para a natureza e origem de tão profetizada “foice”: tão só o singular efeito do lançamento de quatro foguetes Petrel, de rastreio de nuvens de vapor de lítio, nesse mesmo dia 21 de Janeiro de 1976, a cargo da agência espacial e aeronáutica do país vizinho (INTA), a partir de Huelva. Quis o “pintor do acaso” que as correntes da estratosfera, além dos 30 quilómetros de altitude, propiciassem um incrível desenho de uma aparente “foice” no imenso quadro noturno. Afinal e apenas um mero capricho da dispersão de um gás bem natural – o lítio…

Dispersava-se também assim a temida profecia do padre José Geraldes Freire, reduzida a uma piedosa especulação. O maravilhoso transcendente do céu que nos castiga acabou assim por diluir-se na frieza tecnológica do céu que experimentamos.


Joaquim Fernandes, Doutor em História, membro da Direção do
CTEC – Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência,

Universidade Fernando Pessoa

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Dois cientistas, um continente: Antárctida! Esta terça às 11h no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa

Como notícia o PÚBLICO de hoje, amanhã serão contadas no Pavilhão do Conhecimento "As aventuras de dois cientistas portugueses num continente longínquo". Lá estarão o Ricardo Almeida, um investigador que conhecemos através da rede Global Portuguese Scientists, e o José Queirós. 

Entrada livre, com inscrições e mais informações aqui:


Ricardo Almeida
José Queirós

GENIUS

T
 Trailer da série A passar no National Geographic.

COMENTÁRIOS

O DRN tem uma política de moderação de comentários muito liberal. Todas as opiniões são permitidas, concordantes ou discordantes. Mas não, obviamente, insultos ou linguagem imprópria. Assim como publicidade. Por lapso meia dúzia de comentários recebidos esta fim de semana foram apagados. Pedimos aos autores o favor de os repetir, pedindo desculpa do lapso.

sábado, 6 de maio de 2017

A minha participação no programa do Comendador Marques Correia, na Rádio Renascença

A falar da piada do bosão de Higgs, da solução simples e horrível para o problema da recusa das vacinas, de conspirações dos afectados do clima e de previsões (das mais difíceis, que são as acerca do futuro):

Revolução silenciosa? O potencial do sequenciamento de nova geração





No dia que Watson e Crick compuseram um modelo com estrutura da molécula de DNA, o entusiasmo de Crick não lhe permitiu sossego. Nesse mesmo dia, à hora de almoço, no Eagle pub, Francis Crick anuncia que ele e James Watson haviam descoberto o “segredo da vida”. Esta descoberta, que lhes valeu um prémio nobel da medicina e fisiologia*, mudou a biologia abrindo portas, até então inimagináveis, na medicina, genética, evolução, biogeografia, delineação de espécies, antropologia, ciências forenses ...

Nas primeiras décadas, os ditos RFLP e os AFLPs popularizaram-se e estabeleceram-se enquanto práticas comuns. Estas técnicas permitiram a comparação de fragmentos de DNA, onde se correlacionavam variações de tamanho destes fragmentos com fenómenos biológicos. A possibilidade de “leitura” do DNA veio mais tarde com a reação em cadeia da polimerase (PCR; Mullis e Smith nobel da química em 1993). Através da reacção de PCR, um troço de DNA (escolhido pelo utilizador e por volta de 1000 pares de bases) é amplificado milhões de vezes e depois “lido” através de uma reacção de fluorescência, onde cada par de base (A; C; G; T) origina uma cor diferente e assim permitindo o registo da sequência do DNA (Método de Sanger). Até aqui tenho utilizado a denominação “leitura” do DNA – substituo agora pelo termo correcto: sequenciação. Portanto, o sequenciamento de porções modestas (1000 pares de bases) é bastante limitado tendo em conta o potencial tamanho do genoma de um organismo (o DNA completo de um organismo). Por exemplo, o genoma de um humano tem cerca de 3.234.830.000 pares de base (3 biliões de bases). Ora, considerando o genoma de um humano, necessitamos de cerca de 3234830 PCRs e sucessivas sequenciações para obtermos um genoma completo – assim começa o projecto do genoma humano que custou entre 2.7  biliões de dólares, durando 13 anos entre 1990 e 2013.

Se 2.7 biliões de dólares saltam à vista de qualquer orçamento, nos últimos anos temos assistido a uma revolução: a queda abismal no preço de sequenciamento (ver imagem acima) porventura das técnicas de sequenciamento de nova geração, as ditas cujas NGS (next-generation sequencing**). Estas técnicas abriram portas ao sequenciamento massivo do genoma, diminuindo de forma abrupta o preço de sequenciação. A meio 2015 a sequenciação de um genoma humano estava pouco acima de 4000 $, em 2016 os preços rondavam os 1500 $. Hoje fala-se (anuncia-se/compete-se) no genoma de 100$.

Coloquemos a história em nossa perspectiva: 1953 – descoberta do DNA; 1985 – Primeiro PCR (datas referentes às publicações); 2003 – sequenciamento do genoma humano por PCR; 2016 – sequenciamento de um genoma humano por 1500$ (num par de dias). A quantidade (e qualidade) de dados proporcionados por estas técnicas tem aberto portas onde até à 10 anos não se achavam possíveis. Hoje procuram-se e contractam-se bioinformáticos para análise computacional de dados e as teses de doutoramento em biologia já possuem, de forma vulgar, um “mero” capítulo de sequenciação de um genoma. Se até então grande uma considerável parte das descobertas da biologia visavam o estudo de um, dois, um grupo limitado de genes, a possibilidade de sequenciar cromossomas e genomas por inteiro está a abrir uma nova era na biologia – na detecção de variantes genéticas que geram doenças; na precisão de ancestria de espécies; a estudar processos evolutivos como seleção natural; a estudar a história evolutiva de populações e espécies...


 Mas isto é hoje, e daqui a 10 anos?


* A história da descoberta do DNA (e respectiva atribuição do nobel) é bastante controversa. Existem fontes que sugerem a apropriação de dados, sexismo, misoginia, entre outros eventos.
** Sem ser muito técnico o NGS refere-se a uma família de técnicas cuja finalidade é a sequenciação de partes consideráveis do genoma. As companhias mais populares são a Illumina e a PacBio. Cada método possui diferentes especificidades, taxas de erro e tamanho de fragmento sequenciado, sendo úteis em diferentes ocasiões. Aqui fica um vídeo explicativo da química por detrás da PacBio: https://www.youtube.com/watch?v=NHCJ8PtYCFc ; e da illumina https://www.youtube.com/watch?v=fCd6B5HRaZ8 .


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Para que servem as Humanidades?



Luís Umbelino, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra responde à pergunta que (estranhamente) insistimos em fazer: para que serve o conhecimento que categorizamos nas humanidades.

Isaltina Martins e Maria Helena Damião

Um Minuto de Ciência por dia não sabes o bem que te fazia

Um programa de ciência para crianças, que tenho o prazer de escrever e que é interpretado pelo Leonel Alegre, numa parceria entre a Ciência Viva e a Rádio Zig Zag, da RTP. Ide ouvir e mostrai aos vossos petizes!


quarta-feira, 3 de maio de 2017

EINSTEIN E A ARTE


"SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA E ESTUDOS SOCIAIS DA CIÊNCIA: DUAS PERSPETIVAS SOBRE UM OBJETO?"



No próximo dia 9 de Maio, terça-feira, pelas 18h00, realiza-se no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada "Sociologia da ciência e estudos sociais da ciência: duas perspetivas sobre um objeto?"

A palestrante será a socióloga Ana Delicado, Professora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Resumo da palestra:
"Nenhuma actividade humana é estranha às ciências sociais e a ciência disso não é exceção. A ciência pode pois ser um objeto de estudo para as ciências sociais e em particular a sociologia. Mas há diferentes formas de estudar a ciência. A mais tradicional/clássica olha para a ciência enquanto profissão, com as suas formas de formação, regulação e promoção. Ou enquanto campo social, com o seu capital próprio e hierarquia de posições diferenciada. Ou enquanto sistema, composto por instituições, sujeito à influência de políticas públicas.  
Mas há outras formas de estudar a ciência, que se centram em como o conhecimento científico é manufaturado, que tentam “abrir a caixa negra” dos processos de investigação e compreender a produção de ciência como uma construção social. Se a primeira é relativamente consensual e pouco discutida fora do meio académico da sociologia, a segunda “saltou a barreira” entre as ciências “duras” e “fofas” e tem suscitado algumas controvérsias e acusações de “relativismo”, ao equiparar a ciência a outros tipos de conhecimento. Serão então os estudos sociais de ciência “anti-ciência”? Ajudarão eles a minar a confiança do público na ciência? Ou poderão ter um papel na melhoria da compreensão mútua entre ciência e sociedade?"

Esta palestra insere-se no ciclo "Ciência às Seis" coordenado por António Piedade.

ENTRADA LIVRE
Público-alvo: Público em Geral 

COIMBRA E O FUTURO


Minha crónica no Público de hoje:

Como a 1 de Outubro se vão realizar eleições autárquicas, é oportuno um balanço das quatro décadas de poder local em Coimbra, cidade que reflecte no plano político algumas tendências globais do país. Assistimos em Coimbra desde 1976 à alternância no poder entre o PS e o PSD, este por vezes aliado ao CDS, ao PPM e a outros grupos de menor expressão. A série de resultados foi: PS, PSD, PS,PSD, PS, PS, PS (três vezes Manuel Machado), PSD, PSD, PSD (três vezes Carlos Encarnação) e PS (de novo Manuel Machado). Das 11 eleições já realizadas, seis foram ganhas pelo PS e cinco pelo PSD e seus aliados. Mais à esquerda, a CDU caiu de 22% em 1979 para metade em 2013. O BE começou com 2% em 2001 para chegar aos 9% em 2011, embora dissolvido num movimento que se diz independente (“Cidadãos por Coimbra”). Nas autárquicas coimbrãs o eleitorado mostrou uma descrença crescente: a abstenção passou de 39% em 1976 para 51% em 2013. Tal fez com que o actual presidente, Manuel Machado, tenha sido eleito com os votos de apenas 18% dos eleitores, o mais baixo resultado de sempre.

É inegável que a cidade não é hoje a mesma que em 1976. Desenvolveu-se na educação e na saúde, onde já era forte: a Universidade cresceu, ganhando visibilidade internacional (é Património Mundial da Humanidade), e o Centro Hospitalar Universitário (CHUC) continua a ter alguns serviços de ponta. Surgiram também novos negócios, como na área do software. Mas o balanço não é brilhante. Coimbra perdeu indústria tradicional, mas também serviços, já que muitos deles foram sendo centralizados em Lisboa. A cidade deixou de ser atractiva para os jovens: por falta de empregos, aqueles que nela se formam vêem-se obrigados a demandar outras paragens. E a cidade degradou-se, com a destruição do centro histórico para dar lugar ao metro-que-ia-haver-e-afinal-não-houve, com a falta de afirmação nacional em áreas como a cultura e o desporto (Coimbra Capital da Cultural 2003 correu mal e a equipa de futebol da Académica caiu na 2.ª divisão, onde vai continuar), com o atraso no digital (Coimbra está num lugar miserável no ranking da transparência municipal), com a desertificação da Baixa, cujo comércio foi sugado pelo centros comerciais da periferia, e com a deterioração da Estação Velha, onde os passageiros têm de atravessar as linhas. Serviços essenciais a qualquer cidade (Palácio da Justiça, Biblioteca, Rodoviária, etc.) estão em Coimbra anquilosados. Jardins e parques estão ao abandono: o último investimento em zonas verdes, o Parque Verde do Mondego, foi inundado pelo rio. É certo que houve obras recentes como o Estádio, o iParque e o Convento de S. Francisco, mas são elefantes brancos, onde nada de relevante se passa.

É óbvia a responsabilidade no estado da urbe dos dois maiores partidos que estiveram à frente do município. Esses partidos estão, aliás, muito partidos: o PS de Coimbra tem tido casos nos tribunais e o PSD tentou um truque pouco democrático, quando Carlos Encarnação se demitiu a meio do mandato para colocar um seu protegido. Hoje o PS não tem mais ninguém para apresentar do que o “dinossauro” que já lá esteve 16 penosos anos e quer estar mais quatro. A Câmara está cega, surda e, não estando muda, seria melhor que o estivesse: a sua última fala foi para protestar pela construção pelo CHUC de um silo automóvel há muito reclamado. Quanto ao PSD, não tem mais ninguém para apresentar do que outro “dinossauro”, Jaime Ramos, que já foi quatro vezes Presidente da Câmara de Miranda do Corvo. Na esquerda radical, na CDU nada muda. E BE significa em Coimbra Bloco Escondido, pois concorre sob o nome de “Cidadãos por Coimbra”, que, subavaliando as suas forças e sobreavaliando as alheias, foi buscar o seu cabeça de lista à CDU, preocupado não tanto com a cidade mas mais com as lutas das esquerdas.

Em democracia há sempre soluções. Dado o menosprezo com que PS e PSD têm tratado Coimbra, cidadãos de vários partidos e muitos, como eu, independentes, criaram um movimento, “Somos Coimbra”, que visa dar um futuro a Coimbra. Tal como o Porto foi capaz de eleger um independente, que colocou a cidade acima do resto, Coimbra também o deveria fazer. Coimbra é conhecida por ter passado. Agora precisa é de futuro.

A MÚSICA NO ESPAÇO E NO TEMPO



Vou apresentar a Quinta Sinfonia de Schubert pela Orquestra Metropolitano de Lisboa. Em baixio o resumo:

http://www.metropolitana.pt/Default.aspx?ID=4354&CalendarEventID=3623


Viena, 1816: O espaço e o tempo da "Quinta Sinfonia" de Franz Schubert

A cidade de Viena é especial no que diz respeito à música. Entre  1750 e 1727 trabalharam em Viena quatro dos grandes nomes da  música: Franz Joseph Haydn (1732-1809), Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), Ludwig van Beethoven (1770-1827) e Franz Schubert (1797-1828). Dos três austríacos (Beethoven era alemão mas viveu muitos anos e  morreu em Viena) Schubert é o único que nasceu em Viena, onde viveu durante toda a sua curta vida.   Schubert tem em comum com Mozart uma vida curta (a de Schubert ainda foi mais curta!) mas as suas vidas não se sobrepuseram. Mas é clara a influência de Mozart em Schubert ainda maior do que a de Haydn. Schubert tinha só 12 anos quando Haydn morreu, pelo que não o pôde ter conhecido. Mas foi contemporâneo de Beethoven, a quem muito admirava e que decerto o influenciou. A admiração é recíproca pois Beethoven achou "faísca" em Schubert. Devem-se ter encontrado, mas não é claro em que circunstâncias: Schubert visitou
com amigos o famosíssimo Beethoven no seu leito de morte e foi portador de tocha no funeral dele. Não podia imaginar que morreria um ano depois e que acabariam por ficar ao lado um do outro num cemitério vienense.

1816, quando o jovem de 19 anos escreve a sua Quinta Sinfonia, é um ano de transição do iluminismo (na música, classicismo) para o romantismo. É nesse ano sem verão (tinha no ano anterior explodido um grande vulcão na Indonésia, que trouxe alterações climáticas globais) que a jovem Mary Shelley escreve o "Frankenstein", que haveria de ser publicado dois anos depois. Esta obra é um símbolo da reacção romântica contra a ciência, que tinha dominado sem oposição até então. A Quinta Sinfonia é uma obra de juventude, que exibe o classicismo no seu esplendor (há  semelhanças com a Sinfonia n.º 40 de Mozart, escrita em 1788, uma obra-prima da arte sinfónica). Mas o segundo andamento da Quinta de Schubert, mais lento como era uso, transmite o tom do romantismo, do qual Schubert com as suas "lieder" haveria de ser expoente.  A Quinta Sinfonia é uma obra de transição, mas não deixa de ser por isso uma obra genial. Quem a ouvir sem conhecer o autor poderá pensar que é de Mozart e isso não pode deixar de ser um grande elogia. Schubert desenvolveu, porém, um estilo musical próprio, afirmando-se como um dos maiores melodistas de todos os tempos (ouça-se o quinteto "A Truta",  ou a canção "Ave Maria", que até Sinatra cantou).

A Quinta Sinfonia mostra o incomparável talento de Schubert. Um crítico do "New York Times", tentando comparar o incomparável, escolheu  em 2011 o "top 10" dos maiores compositores de sempre: dos quatro grandes de Viena,  excluiu Haydn. Mas depois de Bach, classificado em primeiro lugar, escolheu os três grandes de Viena: por esta ordem, Beethoven, Mozart e  Schubert.  Escutemos Schubert, que é, como os outros desta lista, universal e intemporal.

LITERATURA EM VIAGEM EM MATOSINHOS

Informação recebida do Festival LeV de Matosinhos:

Carlos Fiolhais abrirá a 11.ª edição do LeV — Literatura em Viagem, que regressa já na próxima semana, entre os dias 12 e 14. «Einstein, viagens e literatura» é o mote da conferência inaugural proferida por um dos maiores divulgadores da ciência em Portugal.
Numa das edições mais premiadas e internacionais de sempre, o LeV traz a Matosinhos Hélia Correia (Prémio Camões 2015) e Frederico Lourenço (Prémio Pessoa 2016), para tentar perceber se a Europa em desagregação aguarda a chegada de um novo Ulisses. O inglês David Mitchell, a canadiana Rachel Cusk, o cabo-verdiano Abraão Vicente e o espanhol Jesús Carrasco são algumas das presenças internacionais na edição 2017 do LeV.

Na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, o arquiteto Álvaro Siza Vieira e o jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho darão duas entrevistas de vida que se preveem empolgantes. E teremos ainda tempo para confirmar se as notícias da morte da Europa (e da literatura) são exageradas. Quantas mais nações cabem neste continente com várias expressões literárias?


A programação da 11.ª edição LeV está completa e disponível para consulta aqui.
Para mais informações, contacte comunicacao@booktailors.com.

PASSAPORTE DE CIDADANIA PARA IR ONDE? FAZER O QUÊ?

Há poucos anos integrei na minha colecção de "produtos pedagógicos estranhos" uma folha que me chegou às mãos cujo título é "...