quarta-feira, 6 de julho de 2016

ARMANDO SILVA CARVALHO, A SOMBRA DO MAR

    
Em A Sombra do Mar, livro publicado no ano anterior, o ritmo e a música de cada poema nutrem-se sobretudo de metáforas, como esta em Os Amigos:

            …E aos pés oculto de todos corre um rio

de aliterações, por exemplo em O Poema Que Foi Curto:

             Num poema curto a corrente do sangue corria

e de assonâncias, leiamos o poema Ou:

              Pudesse a minha boca desbocada,

              feita rainha santa, milagrar palavras por sardinhas

              e a graça voadora da gaivota fosse cair…

No que toca ao conteúdo do livro, é um grito lancinante de um homem idoso que está mergulhado neste mundo deprimente, onde impera a barbárie tecnológica e a vida é entulho, onde a idade é uma senhora meio amarrotada e a água de que somos feitos a pobreza do corpo, onde o tempo é efémero e o homem de ontem já não conhece o de hoje, onde o prazer e a desilusão andam de mãos dadas e os sonhos são perversos, onde os loucos são os matemáticos e os astrofísicos e andamos todos de joelhos, onde as mãos maturas sorvem todo o sol e os media só nos falam de petróleo e de bancos e de contas divinas e de palácios inúteis, onde parece não haver lugar para os sons da natureza e para as árvores, onde o desporto está maculado pelo doping e as peregrinações são baixos delírios, onde os amigos se separam cada vez mais e as terras de pesca já não cheiram a pescado, onde vivemos entre o mel e o chumbo e a natureza natural não nos comove, nem à mesa…

Armando Silva Carvalho pinta tudo a cinzento, como a sombra do mar ou o homem ou os fantasmas das noites de luar sobre as ondas, e, quando o lemos, parece que estamos apertados entre O Caderno Gris de Josep Pla e The Waste Land de T.S.Eliot. Ao contrário dos Cantos de Ezra Pound, o poeta canta, palmilhando a história.


LEITURA DE JORNAL

Enrolado pelas nuvens duma eternidade,
debruado pelas franjas de catástrofes cósmicas,
soletrado numa lentidão de milénios pela voz sintetizada e virtual 
de Stephen Hawking,
podes tu alguma vez imaginar todo o espectro poético
da explosão do campo de Higgs?

100 000 milhões de gigaelectrões-volts não são bastantes
para tornar metastável
o campo desse senhor dos buracos negros,
e fazer dele
uma bolha de vácuo.


Tudo à velocidade da luz, é claro, que a partícula de deus
não é um caracol que vá deslizar
a sua vegetal e mansa paciência pelas folhas
do universo.


Mas a criatura irónica, imobilizada,
esse génio oráculo que fala através dos músculos da face,
esse cérebro de engenhos que desdenham deus,
concentra no seu sorriso um fulgor natural,
talvez o único,
e pretende, diz ele, seduzir as enfermeiras
com o sotaque do texas que lhe sai da máquina falante.


É um riso de fichas virtuais, e as meninges tremem
entre placas, galáxias, anjos megalómanos, funcionários divinos,
engenheiros do eterno e promotores da vida futura
na imensidão devoluta dos planetas.


Abençoado profeta, só eu não sei por que deuses,
fruto absurdo das matemáticas dos tempos,
és o trânsfuga da história
a imagem ambulatória do belo, próxima verdade de nós,
futuro reprodutor do universo.

Prognósticos só depois do jogo


Minha crónica no Público de hoje:

 Em política é muito difícil fazer boas previsões, mesmo dispondo de boa informação. Quem diria no dia do referendo britânico, quando havia sondagens à boca das urnas, que o “brexit” acabaria por ganhar? E quem consegue agora prever quando ele vai ocorrer? E quem diria, no dia das mais recentes eleições espanholas, que a coligação “Unidos Podemos” não conseguiria ultrapassar o PSOE, ficando logo atrás do PP? Fui a um dos mais populares sítios de apostas britânico para obter um prognóstico sobre a data de saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Para os apostadores não será nada rápido, se é que vai acontecer: o mais provável é que a activação do artigo 50 do Tratado de Lisboa só ocorra em 2018, ou mais tarde, ou mesmo nunca. Ninguém consegue sequer prever, com razoável precisão, quem será o próximo líder dos conservadores e, por isso, o próximo primeiro-ministro britânico após a surpreendente desistência do campeão do “leave”, o ex-mayor de Londres Boris Johnson. Nesse sítio de apostas verifiquei que a ministra do Interior do derrotado David Cameron, Theresa May, adepta do “remain”, vai bastante à frente de Michael Gove, ministro da Justiça, adepto do “brexit” e, para muitos, um traidor de Johnson (trata-se de um verdadeiro drama shakespeareano). Por outro lado, parece ser mais fácil de prever que o PP espanhol constitua um governo com o Ciudadanos e outros, tolerado pelo PSOE, mas, no país de Cervantes, também há larga margem para incerteza.

A política é um clássico domínio de imprevisibilidade, mas há outros. Mesmo aqueles profetas que ganham fama mundial falham por vezes miseravelmente. O futurólogo norte-americano Alvin Toffler, falecido há poucos dias, previu em 1970, no seu livro O Choque do Futuro (Livros do Brasil, 1972), o surgimento da sociedade do conhecimento (“os analfabetos do século XXI não serão aqueles que não sabem ler e escrever, mas sim aqueles que não sabem aprender, desaprender e reaprender”), com a Internet, o YouTube, a clonagem, etc., e mudanças sociais, como o adiamento da maternidade e o casamento homossexual, mas falhou noutras previsões como a continuação no Ocidente da prosperidade dos anos 60 ou a proliferação de viagens espaciais. O futuro é uma caixinha de surpresas. Toffler não foi aliás o único a falhar. As pessoas que vão na crista da onda também se podem enganar redondamente. Thomas Watson, fundador da IBM, disse em 1943 que “em todo o mundo haverá lugar para talvez cinco computadores." O almirante William Leahy declarou em 1945 sobre a bomba atómica: “Essa bomba não vai explodir. Falo como especialista em explosivos.” Ken Olsen, fundador da DEC, afirmou em 1977 que “não há qualquer razão para uma pessoa ter um computador em sua casa.”

 Existem maneiras de minimizar os erros de previsão. O canadiano Philip Tetlock, professor de Psicologia na Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, publicou no ano passado o livro “Superprevisores” (a sair, em tradução portuguesa, em Novembro, aproveitando a vinda do autor a Lisboa – previsão que espero não falhe!) onde apresenta os resultados da sua prolongada investigação para averiguar os melhores métodos de fazer previsões. O seu Good Judgement Project tem ganho sucessivos torneios de previsões organizados pela Intelligence Advanced Research Projects Activity (IARPA), uma agência federal norte-americana, apesar de os participantes do projecto serem pessoas normalíssimas que se voluntariam. Depois de escolhidos em testes psicológicos e de serem sujeitos a treino, os melhores deles, mais de 250, conseguem superar as previsões dos analistas profissionais das agências de segurança, que têm acesso a informação privilegiada. Quer dizer, os supostos peritos podem ser batidos por pessoas comuns que apenas dispõem de informação comum. Qual é o segredo desse sucesso? É uma mistura de qualidades psicológicas, bom uso da estatística, o que assenta em treino para evitar os enviesamentos mais usuais (o nosso cérebro engana-nos), e a interacção entre os previsores (dois acertam mais do que um).

 Numa parte do projecto aberto ao público em geral (Good Judgement Open) os interessados podem fazer previsões sobre as consequências do referendo na Grã-Bretanha ou sobre o próximo governo espanhol. Não, não está lá nada sobre sanções a Portugal pela União Europeia, um assunto assaz incerto mas desinteressante do outro lado do Atlântico, mas está a probabilidade de 72% de o próximo secretário-geral das Nações Unidas ser uma mulher. Também não está nada sobre o vencedor do Euro 2016. Mas, para esse caso, voltei ao sítio de apostas britânicos e encontrei que a França e a Alemanha estão praticamente empatados surgindo só depois Portugal e o País de Gales, por esta ordem. Toffler e Tetlock teriam dificuldades na previsão. Como dizia João Pinto, o grande guru português, prognósticos só no fim do jogo.

terça-feira, 5 de julho de 2016

SALAZAR, A HISTÓRIA E SIMPLES OPINIÕES

“É preciso dizer a verdade apenas a quem está disposto a ouvi-la”.
Séneca

Embora faltando-lhe a funda e as pedras lisas, mas  querendo, apesar disso, assumir a personagem bíblica de David em luta com o gigante Golias, emitindo meras opiniões  pessoais  em desagravo  pessoal contra António José Saraiva - havido pelo historiador  José Mattoso,  “como um dos espíritos mais fascinantes da cultura portuguesa contemporânea” - ,  teceu ele o comentário anónimo, escrito passadas 48 horas, ao meu post “Salazar: não bate a bota com a perdigota” (02/07/2016), com a seguinte argumentação que transcrevo (parcialmente) ipsis verbis:

“O facto de António José Saraiva ‘admirar’ Salazar nada diz do Salazarismo e do Estado Novo, pior, diz tudo, diz muito sobre o culto à personalidade, assente em ideias muito concretas e repetidas vezes e vezes durante o ensino - a dignidade (a ideia do ditador bonzinho que pacificou o país) aliás própria do camponês (não há, portanto, camponeses indignos), tentativa de resolver o problema português, da identidade nacional (como se o liberalismo não tivesse também fabricado os seus heróis... daí a ideia do Estado "Novo"), progresso económico notável (não, houve uma mudança de sistema económico, do sector primário para o secundário, daí a questão da fábrica, do take-off), grandes obras públicas (grandes obras públicas sempre houve desde o liberalismo), vontade portuguesa de ser (não sei o que isso significa...), ‘ter dívidas da mesma forma que um homem pobre não o pode fazer. Só os ricos podem ter dívidas’ (pois, os pobres não podem endividar-se a comprar uma banheira ou uma lâmpada, também não precisam disso para nada... que tomem banho no Mondego e já estão com sorte).

Será que não se mantém o modo de pensar salazarista, a ideia do ‘corte’?

É que, vejamos, caciques e gente indigna, corrupta, sempre existiram, ligados à política explodiram com o liberalismo.

A ideia ridícula que durante meio século tudo foi ‘novo’, ‘um mundo digno’ sem muita ambição pessoal, ‘pacífico’, ‘mole’, ‘notável crescimento económico’, ‘só os ricos se podem endividar’, não passa de uma construção mental, o controle das massas, ser ‘pobre mas honrado’, imitando no fundo o ditador.

Salazar então era como devia ser o povo português: vigilante dos comportamentos sociais, auto-censório, pacífico mas punitivo em qualquer caso de desvios (politicamente, financeiramente, socialmente), honrado mesmo pobre porque trabalha e não se endivida, recebe o suficiente para manter uma família nuclear, etc.

‘Caindo’ a novidade, a democracia ‘trouxe’ de geração espontânea, a ‘porcaria’ toda... como se ela já não estivesse viva. Foi magia, lá canta o outro.

Engraçado que hoje em dia começa a ruir devagarinho um certo sistema corporativista, ainda muito presente, de grandes famílias ‘donas disto tudo’, muito ligadas ao poder político... se calhar o ‘novo’ criou um ‘antigo’ que não nos deixa crescer”.


Como toda a moeda tem anverso e reverso,  trago uma nova achega (que se não baseia em opiniões pessoais escritas, como diria Eça, “de pena ao vento”) sobre um época da nossa história  contemporânea envolvendo a controversa personagem  de  António de Oliveira Salazar.

Reporto-me, para o efeito, de uma entrevista ao “Diário de Notícias” da autoria do historiador Filipe Ribeiro de Meneses (que elaborou  em 7 anos de labor uma biografia intitulada: “Salazar”) , intitulada “O regime salazarista não era monolítico”.  A páginas tantas, declara este doutorado pelo “Trinity College Dublin” que lecciona no Departamento de História da “University of Ireland”:

“Salazar é também o único líder de direita do seu tempo que não é cabo de guerra, como Hitler, Franco, ou Mussolini. Ele não vem do campo de batalha, vem da universidade.

Ele é chamado para vir resolver as finanças da Nação, não tem nada a ver com Hitler nem com Mussolini. E, ao mesmo tempo, está a examinar a situação política e a trabalhar para ser o último a ficar em pé - embora isso não tenha sucedido logo desde o início. Todos os políticos do pós-I República acabam por desaparecer e Salazar fica sozinho no poder: "Eu faço isto, mas, se me for embora e tudo voltar ao estado em que estava, então o esforço não valeu a pena." O medo do regresso ao caos da I República ajuda Salazar a legitimar o que sucede depois, e isso é consolidado pela propaganda do regime. E não esqueçamos que uma das grandes correntes de apoio a Salazar são os republicanos conservadores, que estão dispostos a esperar, que sabem que, apesar de Salazar ser monárquico, não vai voltar atrás em termos de regime. Salazar procura manter estes grupos todos razoavelmente satisfeitos, nunca lhes quebrando a ilusão de que não irá na direcção que eles não querem, e vai assim fazendo o seu caminho. E ele sabia também manipular muito bem os sentimentos dos monárquicos e falar-lhes ao seu patriotismo, alimentando-lhes até a vaga esperança de que um dia a Restauração pode dar-se”.

Alea jacta est sobre a polémica personagem de António de Oliveira  Salazar.  Compete, agora, ao leitor, parafraseando Mestre Aquilino,  despojado da mochila de simples opiniões pessoais, tirar as ilações pertinentes tendo presente que a “história é uma mediação entre e o passado e o presente num círculo hermenêutico” (Paul Ricoeur).


Motivação para o estudo

Novo texto do médico psiquiatra  Nuno Pereira:

    Há uma relação recíproca entre a motivação e a aprendizagem. O aluno motivado quer e pode atingir objetivos que satisfazem as suas necessidades pessoais.

    O objetivo principal de longo prazo, traduzido em competências amplas no fim da formação, deve ser desdobrado em objetivos operacionais de curto prazo, formulados em termos de desempenho observáveis, mensuráveis e desafiantes com resposta imediata. Os objetivos são considerados motivadores desde que os resultados sejam rápidos e revelem o progresso. Atente-se no poder da retroação dos jogos de vídeo.

    O estudo deve ser agradável e útil. Primeiro, porque o aluno gosta da própria atividade, ou seja, é motivado intrinsecamente; segundo, porque o que faz é recompensado, obrigatório, importante e com sentido, ou seja, motivado por fatores exteriores à própria tarefa. As ações motivadas extrinsecamente (obter notas altas, valorização social, ingresso no curso desejado, diploma, bom emprego) podem ser internalizadas, passando o aluno a adotá-las como próprias. Há assim motivação intrínseca e internalizada. Muitas vezes a matéria não é interessante, mas está ligada a consequências que satisfazem necessidades de existência, de relacionamento e de realização.

    O estudo torna-se uma experiência gratificante, quando a dificuldade da tarefa corresponde à capacidade do aluno. Se a dificuldade ultrapassar a competência pessoal, surge a frustração, mas, quando a tarefa não representa um desafio, instala-se o tédio.

    Se o aluno atribui o seu insucesso a uma causa interna e estável como a falta de capacidade, a sua crença de autoeficácia á significativamente afetada. Estimular a confiança na capacidade fomenta a motivação, pelo que proporcionar experiências de êxito faculta informação valiosa para prosseguir com sucesso. O domínio duma atividade desafiadora cria expetativas positivas, que por sua vez melhoram os níveis de desempenho.

   Para despertar o interesse e o esforço intenso e persistente não basta estabelecer objetivos desafiadores, oferecer pronto feedback e tornar a matéria interessante e com benefício presente e futuro. É necessário demonstrar ao aluno de que é capaz de cumprir os objetivos propostos. Em particular, nos 2º e 3º Ciclos, o professor pode proceder a experiências impressivas. Por exemplo, convida o melhor aluno – visto, em geral, como mais inteligente e de superior memória – a prestar um teste de memória, perante a turma. Passa a ler-lhe espaçadamente uma lista de quinze objetos, que ele, após ouvir, vai procurar repetir, primeiro, pela ordem, e, depois, ao contrário. Certamente, não irá conseguir concluir com exatidão a tarefa por esquecer vários itens e não respeitar a sequência. De seguida, chama o pior aluno e ensina uma técnica mnemónica (afamada na antiguidade) que consiste em visualizar e localizar os objetos, isto é, em associar cada imagem a um lugar dum itinerário previamente fixado. Lê-lhe então de modo lento uma nova lista de igual número e ele irá, muito provavelmente, executar uma prova ótima. Trata-se duma simples e convincente demonstração de que de modo adequado se pode potenciar a capacidade da memória para níveis extraordinários.

    Sem estudo eficiente, não há consolidação da matéria da aula. Daí que o professor deva transmitir o conteúdo disciplinar junto com o método que permita ao aluno assimilar e consolidar a matéria e plasmar o produto do estudo no caderno diário a apresentar na aula seguinte e que o professor monitorizará aleatoriamente. O estudante aprende progressivamente como rever apontamentos, compreender textos informativos, organizar informações, memorizar e aplicar conhecimentos. Esse estudo metódico e  autónomo no próprio dia difere claramente  dos habituais trabalhos para casa, tantas vezes desfasados do assunto acabado de ministrar ou focados em partes do mesmo. A missão de transmitir o conteúdo disciplinar associado ao método de estudo pertence ao próprio professor e não a qualquer explicador ou tutor estranho, que não pode controlar todo o processo. Será tão difícil formar os professores coordenadores de grupo para que estes preparem os colegas da disciplina no sentido de utilizarem essa metodologia integrada, fator de êxito que influenciará fortemente a motivação para o estudo?


                                                                      Nuno Pereira  (psiquiatra)

Novo número da revista Atantis

A "Atlantís" acaba de publicar o seu último número. Convidamos a navegar
pelo sumário da revista para aceder à informação facultada.


Atlantís - review
v. 10 (2016)
Sumário
http://impactum-journals.uc.pt/index.php/atlantis/issue/view/152


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[Recensão a] BRITO, Rodrigo, HUGUENIN Rafael: Sexto Empírico: Contra os
Retóricos. Introdução, Tradução e notas. Marília: UNESP, 2013.
 Aldo Dinucci

[Recensão a] STEEL, C. (ed.): Aristotle’s Metaphysics Alpha: Symposium
Aristotelicum. Oxford: Oxford University Press, 2012.
 André Laks

[Recensão a] LAUDANI, Carmela (a cura di): Nazario. Panegirico in onore di
Costantino. Bari: Cacucci Editore, 2014.
 Nuno S. Rodrigues

[Recensão a] LEÃO, Delfim, CORNELLI, Gabriele, PEIXOTO, Miriam C.
(Coord.): Dos Homens e suas Ideias: Estudos sobre as Vidas de Diógenes
Laércio, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013.
 Joaquim Pinheiro

[Recensão a] NOGALES BASARRATE, Trinidad, PÉREZ DEL CASTILLO, María José
(Eds.): Ciudades Romanas de Extremadura. Studia Lusitana, 8, Mérida: Museo
Nacional de Arte Romano, 2014.
 Vasco Gil Mantas

[Recensão a] LESTRINGANT, F., MOREAU, P. F., TARRÊTE, A. (eds.): L’unité
du genre humaine. Race et Histoire à la Renaissance. Paris: PUPS, 2014.
 Belmiro Fernandes Pereira

[Recensão a] PRISCIEN. GRAMMAIRE. LIVRES XIV, XV, XVI – LES INVARIABLES.
TEXTE LATIN, TRADUCTION INTRODUITE ET ANNOTÉE PAR LE GROUPE ARS
GRAMMATICA. PARIS: J. VRIN, 2013.
 Marcos Martinho

[Recensão a] FRACASSO E MÍSTICA – A PROPÓSITO DE CIORAN (CIORAN, E. M.
Lacrimi și sfinți . Bucareste: Editura Humanitas, 1992.
 Roberto Câmara Zarco

[Recensão a] BICCA, Luiz Eduardo de Oliveira: Ceticismo e relativismo. Rio
de Janeiro: 7 Letras, 2012.
 Rodrigo Brito

[Recensão a] LIMA, Alexandre Carneiro Cerqueira (Org.): Imagem, gênero e
espaço: representações da Antiguidade. Niterói: Alternativa, 2014.
 Juliana Magalhães dos Santos

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Atlantís
http://impactum-journals.uc.pt/atlantis

segunda-feira, 4 de julho de 2016

A ex-licenciatura do ex-ministro Miguel Relvas


“Depois de 25 de Abril tenho-me sentido tentada a escrever
uma peça que se chamaria ‘O Auto dos Oportunistas’, mas
que é impossível de escrever porque há sempre mais um acto”.
Sophia de Mello Breyner

Dias atrás, li a seguinte notícia no Público ( 30/06/2016):
“O Tribunal Administrativo de Círculo (TAC) de Lisboa considerou nula a licenciatura atribuída ao ex-ministro Miguel Relvas pela Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologias (ULHT), confirmou ao PÚBLICO o juiz presidente daquele tribunal, Benjamim Barbosa. Tal significa que as irregularidades existentes naquele processo eram tão graves que, em termos jurídicos, a licenciatura nunca chegou a produzir efeito. Em termos práticos, quer dizer que Miguel Relvas perde o grau de licenciado”.
Ou seja, termina, assim, um caso que tanta tinta fez correr, saindo da minha pena alguns desses pingos. Assim, transcrevo, parcialmente, de um meu post, aqui publicado no DRN, com o título: “O caso Miguel Relvas ainda mexe”:
“Hoje dia 7 de Dezembro de 2013, acabo de ter conhecimento, através do semanário “EXPRESSO”, de uma petição do Ministério Público para que seja anulado o 'título académico’ de Miguel Relvas pelo facto de estar em causa a equivalência de disciplinas inexistentes no ano da respectiva inscrição. 
Um breve reparo: título académico ou grau académico? Ou seja, ao título profissional de engenheiro é exigido o grau académico de licenciado (hoje de mestre) em Engenharia. Da pena de Victor Hugo: “O direito é a justiça e a verdade”! 
Num país em que prescrevem crimes pelo atraso da Justiça em os resolver, é sempre um bálsamo para a alma ver o Ministério Público tirar a venda que tolhe a visão da Justiça na procura da verdade dos factos. Embora eu não aprecie gastar cera com ruins defuntos não posso de deixar de o fazer, como vacina, para evitar novos Miguéis Relvas ou José Sócrates que, ao contrário do filósofo da Antiguidade, não sabem que nada sabem! Mas são capazes de saber que Paris é a Cidade das Luzes, uma espécie de elixir cultural! 
Como é consabido, há gatos com sete foles. Não antecipemos, portanto, o final do folhetim do caso Miguel Relvas que já fez correr tanta tinta negra. 
Mas uma coisa é clara, como água a jorrar de fonte límpida: dos andrajos da vergonha a necessitar de serem substituídos por um traje moral não se livra ele, desde já!” 
Ou seja, Miguel Relvas, não se contentando em ser ministro e empresário de rendosos negócios, empenhou-se em ser licenciado, como se ser licenciado, hoje em dia, em que as licenciaturas nascem como tortulhos em terreno húmido de ignorância, fosse sinal de tempos passados de noites insones de estudo reconhecido pela sociedade. 
Nada disso, numa altura em que antigos professores do ensino primário, de posse de um curso médio, com alguns meses de frequência numa “escola superior” privada se licenciaram, como se costuma dizer, enquanto o diabo esfrega um olho. Aliás, espécie de empenho que mereceu de Eça, em correspondência a Oliveira Martins, a corrosiva crítica: 
“O empenho, tão caluniado pelos austeros, é, por fim, a salvação do País. O empenho é o correctivo do bom senso público Aplicado ao disparate oficial. Sempre que um Regulamento, saído de um antro burocrático, impõe ao público uma prática tola – o público coliga-se por meio do empenho, para lhe anular os efeitos funestos. O Estado, imbecil, exige que meu filho ou sobrinho, que quer ser engenheiro, saiba de cor a Lógica do João Dória e a Retórica do Cardoso?... Pois bem, eu o lograrei, na sua imbecilidade! E vou direito ao examinador, e, por meio do empenho, consigo que o rapaz venha a ser engenheiro, sem nada saber dos impossíveis físicos e metafísicos e da teoria do silogismo. Tal é o grande, nobre papel do empenho na sociedade portuguesa: ele é a conjuração do bom senso positivo contra o idealismo obsoleto e tolo das instituições”. 
Não consegue, porventura, o leitor encontrar semelhança com o que se continua a passar, em nossos dias, nesta “ocidental praia lusitana”, pela facilidade despudorada com que se atribuem diplomas de empenho, a exemplo dos derradeiros anos da nossa Monarquia?
Desse facto dei eu notícia, num jornal regionalista, com a citação de um dito jocoso de Almeida Garrett (que, paradoxalmente, se empenhou pelo título de visconde, que lhe viria a ser atribuído): “Foge cão que te fazem barão! / Mas para onde se me fazem visconde?” ("Diário de Coimbra”, 27/10/2004). 
Perante a transmutação alquímica de diplomas de cursos médios em licenciaturas e mestrados em escolas “superiores privadas”, não posso deixar de parafrasear: Foge gato que te dão o bacharelato. / Mas para onde se me fazem licenciado? 
E, perante a renovada insistência do ensino politécnico em poder, para além de licenciaturas e mestrados, atribuir doutoramentos , é caso para dizer: Depois do mestrado foge camelo / Mas para onde se me fazem doutor de borla e capelo? 
Embora, “a profecia seja algo muito difícil, especialmente em relação ao futuro” (Mark Twain), não posso deixar de me inquietar: o que nos reserva um próximo futuro futuro perante um presente dependente de empenhos institucionais, sindicais ou simplesmente pessoais de gente ilustre (!) pouco ilustrada?

O ATRACTOR CONVIDA

O Atractor, em parceria com a NOS Audiovisuais, vai ter 10 BILHETES DUPLOS para oferecer para a antestreia do filme "O Homem que Viu o Infinito” --- um filme inspirado na vida do matemático indiano Srinivasa Ramanujan (1887--1920). Pode ver um “trailer” do filme em: https://nos-audiovisuais.box.com/s/0qreuuoczd0uyuypkvbs1kq05v9an2ef e uma recensão em http://www.ams.org/journals/notices/201602/rnoti-p178.pdf .

A antestreia será no dia 13 de julho, pelas 21h30, nos cinemas NOS Vasco da Gama (Lisboa) e NOS Parque Nascente (Porto).

De 5 a 9 deste mês (terça a sábado), o Atractor irá oferecer, através da sua página de Facebook, 2 bilhetes duplos por dia através de um concurso-passatempo que será iniciado às 21h00 de cada dia (terminando 23 horas depois).

O conteúdo e as regras de cada um dos 5 passatempos serão explicitados em cada um dos 5 dias do concurso. No entanto, adianta-se desde já que os passatempos terão a ver com as páginas do Atractor sobre o Pi, nomeadamente http://www.atractor.pt/mat/fromPI/PIsearch.html e http://www.atractor.pt/mat/fromPI/PIalphasearch.html, no que pretende ser uma homenagem às fabulosas contribuições que Ramanujan deu para o cálculo desse curioso número.

Em particular, Ramanujan publicou em 1914 um trabalho que incluía vários métodos para obter excelentes aproximações de Pi, entre os quais se destaca a surpreendente série (limite de uma sucessão de somas) abaixo reproduzida, que codifica um modo de obter rapidamente (cada termo fornece, em média, 8 novos algarismos da dízima de Pi) aproximações tão boas quanto se queira (dentro dos limites de cálculo e memória do computador usado para fazer os cálculos).

O HOMEM QUE VIU O INFINITO

E

Em breve nos cinemas portugueses a história do extraordinário sábio indiano.

 Sinopse:

 Srinivasa Ramanujan (Dev Patel) é um génio autodidata de 25 anos de idade, que não conseguiu entrar na universidade devido ao seu estudo quase obsessivo e solitário da matemática. Determinado a prosseguir a sua paixão, Ramanujan escreve uma carta a um eminente professor do Trinity College, em Cambridge. O Professor Hardy (Jeremy Irons), reconhece a originalidade e o génio do talento puro de Ramanujan e, apesar do ceticismo dos seus colegas, empenha-se em trazê-lo para Cambridge para que as suas teorias possam ser exploradas. Ramanujan deixa a família e a sua jovem noiva, e cruza o mundo até Inglaterra para, sob a orientação de Hardy, trabalharem nas suas teorias. Juntos, vão lutar para que o seu trabalho seja finalmente visto e reconhecido por um meio matemático que não está preparado para os seus métodos não convencionais.

Questões de privacidade no facebook

Apesar de já não ser recente, vale a pena ler o texto O que precisa de saber sobre a privacidade no Facebook da autoria de Diogo Queiroz e no qual se tratam os seguintes tópicos:
- Qual é a mais nova polémica do facebook ?
- Porque é que o facebook fez este estudo?
- Mas há problemas éticos e legais? Mas isto não viola a política de privacidade do facebook ?
- Em que se baseia o modelo de negócio do facebook ?
- O que acontece às coisas que publicamos?
- Depois disto tudo, vale a pena continuar no facebook ?
- Como manter a privacidade no facebook ?
- Como apagar o histórico do facebook ?
- Como sair de vez do facebook ?

A dissonância nas "educações para..."

"O comportamento abusivo dos jovens perante as bebidas ,
alcoólicas em geral, é um assunto que preocupa a APCV 
[Associação Portuguesa de Produtores de Cerveja], pois
esse consumo irresponsável não só é prejudicial para o
indivíduo como também para a sociedade". 

No nosso sistema educativo, tal como em muitos outros, a ingerência de empresas, associações e outras entidades sociais no currículo tem vindo a ganhar terreno, acontecendo isso, entre nós, sobretudo nas "educações para...", incluídas na "Educação para a cidadania".

As decisões respeitantes à aprendizagem dos alunos, em vez de serem tomadas pelo Ministério da Educação, são tomadas por quem não tem mandato para tanto; o Ministério da Educação acolhe-as e legitima-as.

Ora, acontece que estamos num campo que exige a maior isenção, sob pena de a "educação" resvalar, deliberadamente ou não, para o doutrinamento e para a manipulação.

Um dos casos mais curiosos é o "patrocínio" de certas "educações para..." por entidades que, dada a sua natureza, têm interesses contrários aos que se propõem "combater". Exemplifico, na educação para a saúde, na promoção de uma "alimentação saudável", encontramos envolvidas marcas de bolachas e chocolates, de fast food ou de refrigerantes.

Detenho-me num outro exemplo desta "educação para...": a "prevenção do consumo nocivo de bebidas alcoólicas por parte dos jovens", que tem a generosa contribuição da... Associação Portuguesa dos Produtores de Cerveja!

Eu já conhecia esta contribuição, materializada num projecto (há sempre um projecto) com abrangência nacional, mas a leitura do artigo "Falar claro sobre consumo de bebidas alcoólicas", de Sara Oliveira, permitiu-me actualizar a informação.

Então, fiquei a saber que:
- se pretende incluir 900 mil alunos nesse projecto;
- foi assinado um protocolo de cooperação entre a Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), a Associação Nacional de Professores (ANP) e o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ);
- foi lançado um manual - Falar Claro: Conversas sobre o Álcool entre Pais e Filhos - da autoria de um pedopsiquiatra cujos conteúdos "foram validados e certificados pela Direção-Geral de Educação e Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, no âmbito do Fórum Nacional de Álcool e Saúde";
- a Associação Nacional de Professores tem "uma ação de formação destinada a professores do 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico e do Secundário com o objetivo de fornecer aos docentes informações e ferramentas para a integração do projeto nas suas atividades curriculares", que "está em curso e já foi concretizada em quatro agrupamentos de escolas, no Norte e Sul do país".
Quero acreditar que as pessoas envolvidas neste mega-projecto tenham as melhores intenções quanto à educação dos jovens, mas, sinceramente, tenho dificuldade em perceber que lhes escape a dissonância óbvia em que o próprio projecto assenta.

domingo, 3 de julho de 2016

CULTURA GEOLÓGICA E ENSINO DA GEOLOGIA

Texto de Galopim de Carvalho lido na recente cerimónia de homenagem com que a Câmara de Lisboa o distinguiu:

Para a intervenção que fui convidado a fazer nesta ocasião, ocorreu-me aproveitar a oportunidade de, uma vez mais, chamar a atenção para o panorama da geologia na cultura científica dos portugueses, em geral, o do ensino desta disciplina nas nossas escolas, em particular. 

Imenso e tido por inabarcável, ao tempo dos descobrimentos marítimos, o nosso Planeta é hoje assustadoramente pequeno face ao crescimento exponencial da população, além de que começa a dar preocupantes sinais de agressão já evidentes na poluição do ar que respiramos, na da água que bebemos e na dos solos onde, é bom não esquecer, radica a maior parte da cadeia alimentar que nos sustenta. 

 Apesar de ínfima no contexto da biodiversidade, esta criatura, que somos nós, a última de uma linhagem evolutiva de milhares de milhões de anos, a que foi dado o nome de Homo sapiens, só por si, nos últimos dois séculos, com a chamada Revolução Industrial, tem vindo a atentar, a ritmo crescente, contra o meio físico que a todos rodeia, atingindo, no presente, níveis alarmantes que justificaram, entre outras reuniões internacionais, a COP 21, que teve lugar no passado ano em Paris. 

 Na sociedade de desenvolvimento, tantas vezes descurando os bem conhecidos preceitos de sustentabilidade, privatizam-se os benefícios da produção e distribui-se pelos cidadãos a subsequente poluição. 

 À desenfreada procura de lucro por parte do desumano mundo dos cifrões que nos domina e explora, tem de opor-se a necessária cultura científica por parte dos cidadãos. E a Escola tem, forçosamente, que fornecer essa cultura em articulação harmoniosa e inteligente com os saberes de outras disciplinas. Não o “molho” de definições que (salvo honrosas excepções) tem sido a sua praxis no ensino da geologia. Sendo certo que a capacidade de intervenção de cada indivíduo, como elemento consciente da Sociedade, está na razão directa das suas convenientes informação e formação científicas, importa, pois, incrementá-las. E incrementá-las é facultar-lhe correctamente o acesso aos conhecimentos que, constantemente, a ciência nos revela. E esta acção começa na Escola. 

Para além do seu interesse utilitário na procura, exploração e gestão racional de matérias-primas minerais metálicas e não metálicas indispensáveis no mundo actual, a geologia ensina-nos, ainda, a encontrar águas subterrâneas e recursos energéticos, como são, entre outros, o carvão, o petróleo, o gás natural e os campos geotérmicos. 

Essencial no estudo da natureza dos terrenos sobre os quais temos de implantar grandes obras de engenharia (pontes, barragens, aeroportos), a geologia dispõe também dos conhecimentos necessários à conveniente utilização do solo, à defesa do ambiente natural, numa política de desenvolvimento sustentado, e à preservação do nosso património mais antigo.

Esta mesma disciplina faculta-nos, ainda, os conhecimentos indispensáveis à convivência com catástrofes naturais como são as associadas ao vulcanismo e à sismicidade. Por enquanto, a geologia não sabe prever a ocorrência de sismos, mas permite-nos conhecer a sismicidade do local onde vivemos e, assim, podermos tomar as medidas mais adequadas, nomeadamente, na construção dos edifícios. 

Para além destas potencialidades, a geologia dá resposta a muitas preocupações de carácter filosófico, como seja, por exemplo, a da origem de vida. Na história do pensamento científico, da Antiguidade aos dias de hoje, são muitos os exemplos de filósofos, alquimistas, naturalistas e geólogos que se destacaram nas referidas preocupações: Aristóteles, Tomás de Aquino, Galileu, Descartes, Sagan, Reeves, Allegre,  Gould. 

É pois fulcral que, ao nível da Escola, seja dada à geologia a importância que, realmente, tem. Quem, a nível político nacional, tem decidido sobre o maior ou menor interesse das matérias curriculares referentes à disciplina de Geologia mostrou desconhecer a real importância deste domínio do conhecimento como pilar e motor de desenvolvimento e bem-estar, mas também como componente da formação cultural dos portugueses. Não se compreende, pois, a relativamente pouca importância desta disciplina nos nossos curricula de ensino. Exceptuando aqueles que, por formação académica e profissional, possuem os indispensáveis conhecimentos deste interessante e útil ramo da ciência, a generalidade dos nossos concidadãos não conhece nem a natureza, nem a história do chão que pisa e no qual assentam as fundações da casa onde vive.

Por exemplo, a maioria dos habitantes da cidade que me acolheu há mais de seis décadas, desconhece que o lioz (a pedra calcária, repleta de história, usada na cantaria e na estatuária de Lisboa e arredores) nasceu há cerca de 92 a 96 milhões de anos, num mar muito pouco profundo e de águas mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias no pino do verão. Desconhece que o basalto das velhas calçadas da cidade brotou, como lava incandescente, de vulcões que aqui existiram há uns 70 milhões de anos, nem imagina que o Tejo já desaguou mais a Sul, por uma série de canais entrançados, numa larga planura entre a Caparica e a Aldeia do Meco. Uns mais, outros menos, sabem algo do que aqui se passou, nesta nossa cidade, desde o tempo em que o pobre Martim Moniz morreu entalado (dizem alguns que foi empurrado) no portão do castelo de São Jorge, mas muitíssimo pouco ou nada sabem do que aqui aconteceu há milhões e milhões de anos. Os portugueses sabem dizer granito, basalto, mármore, calcário, xisto, barro, petróleo, gás natural, quartzo, feldspato e mica, mas ignoram a origem, a natureza e o significado destes materiais como documentos da longa história da Terra.

A vida profissional permitiu-me, ao longo de décadas, conviver, algumas vezes de muito perto, com as mais altas figuras nacionais, dos chefes de estado aos dos governos central e local, com ministros da educação e outros, com parlamentares e figuras gradas dos partidos políticos, com os mais prestigiados jornalistas e comentadores dos jornais, da rádio e da televisão (quase tudo tudo gente do direito, da economia e finanças e das humanidades), e pude, salvo uma ou outra excepção, constatar a falta de cultura geológica desta elite que, neste domínio, não difere do comum dos cidadãos. 

Como é público, insisto em afirmar que, no panorama das nossas escolas, e com as sempre necessárias e honrosas excepções, esta disciplina limita-se a um conjunto de matérias desarticuladas e desinseridas de um contexto unificador, tidas por desinteressantes e, até, fastidiosas. São muitos os professores mal habilitados que as debitam sem entusiasmo, por dever de ofício. São muitos os que, sem capacidade crítica, seguem o estereotipado e igualmente acrítico manual adoptado, que o aluno decora por obrigação de um programa de mérito discutível, e que lança no caixote do esquecimento, passado que foi o exame final. Tem sido este o quadro nas nossas escolas, onde a Geologia sempre foi subalternizada. Foi este o quadro em que cresceram e se formaram a imensa maioria das mulheres e dos homens que hoje temos na política, na administração, nas empresas, na cultura, na comunicação social, no cidadão comum. 

É preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino. É preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si meia dúzia de professores desta disciplina capazes de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino desta área curricular, a começar nos programas, passando pelos livros e outros manuais adoptados, pela formulação dos questionários nos chamados pontos de exame sem esquecer a necessária e conveniente formação dos respectivos professores. Sempre disse e insisto em dizer que o professor, deve saber muitíssimo mais do que os alunos a quem se dirige. Não pode, de maneira nenhuma, ser um mero transmissor das noções, tantas vezes, torno a dizer, estereotipadas e acríticas dos manuais de ensino. 

Se há matérias que têm características passíveis de serem ministradas numa política de regionalização do ensino e que muito conviria considerar, a maioria das incluídas na disciplina de Geologia satisfaz esta condição. Se há disciplinas científicas onde a regionalização faz sentido, a Geologia é, certamente, uma delas. Neste panorama estou cansado de propor aos responsáveis, directamente ou através do que digo e escrevo (infelizmente sem sucesso), uma reformulação dos programas de Geologia visando uma adequada informação sobre a geologia regional, a definir pelas escolas, em complemento de um bem pensado programa de base comum a todas elas.  

Deveria dar-se às escolas e aos professores desta disciplina liberdade e tempo curricular para, em cada local e em cada oportunidade, escolherem a melhor via formativa, o que não exclui a obrigatoriedade de cumprir um programa mínimo, criteriosamente escolhido, por quem tenha realmente competência, não só pedagógica, mas também científica e cultural, para o fazer. Assim e a título de exemplo, as escolas das regiões autónomas, aproveitando as condições especiais que a natureza lhes oferece, deveriam privilegiar o ensino da geologia própria do vulcanismo, incluindo a geomorfologia, a petrografia, a mineralogia, a geotermia e a sismologia (nos Açores). 

Do mesmo modo, o citado vulcanismo extinto, entre Lisboa e Mafra, o maciço subvulcânico de Sintra, o mar tropical pouco profundo que aqui existiu, durante uma parte do período Cretácico, deveriam ser objecto de estudo dos alunos destas regiões. 

Para além dos exemplos apontados, a orla mesocenozóica algarvia e a serra de Monchique, as pegadas de dinossáurios da Serra d’Aire, de Carenque (Sintra) de Vale de Meios (Alcanede) e do Cabo Espichel, o termalismo em Chaves, São Pedro do Sul e em muitas outras localidades, os vestígios de glaciações deixados nas serras da Estrela e do Gerês, o complexo metamórfico e os granitos da foz do Douro, os “grés de Silves”, os quartzitos das Portas do Ródão e da Livraria do Mondego (Penacova), o Pulo do Lobo, no Guadiana, e a discordância angular da Praia do Telheiro (em Vila do Bispo e hoje mundialmente conhecida), os mármores em Estremoz, as areias brancas de Coina e Rio Maior, as pirites de Neves Corvo e de Aljustrel, o volfrâmio da Panasqueira e o caulino da Senhora da Hora (Porto), os estuários do Tejo e do Sado, a restinga de Troia e as Rias de Aveiro e de Faro-Olhão deveriam constar dos programas das escolas das redondezas. 

A Geologia, já o tenho afirmado e não é de mais repetir, não pode deixar de ter uma dimensão cultural ao dispor do cidadão comum. Os professores devem ter consciência desta realidade quando se dirigem aos seus alunos. Não estão só a fornecer bases para eventuais licenciados em Geologia (sempre raros ou inexistentes numa qualquer turma escolar), estão, sobretudo e na maioria dos casos, a formar cidadãos para quem essas bases são fundamentais em termos de preparação global. Assim, o ensino deveria ser tornado atraente com elementos culturais ligados ao quotidiano dos alunos. As amarras do programa oficial e o obediente e acrítico manual escolar contrariam qualquer acção dos bons professores, no que toca o ensino vivo da disciplina. E, para terminar, porque não ligar estes conhecimentos às nossas origens, onde e em especial o sílex e o barro foram alvo de procura e utilização na Pré-história, e à sucessiva ocupação do território por outros povos e civilizações (fenícios, gregos, cartagineses, romanos e árabes), em busca do ouro, do cobre e do estanho?

Galopim de Carvalho

O tempo e o silêncio

O grande pensador contemporâneo George Steiner, com os seus 88 anos, deu uma entrevista ao jornal espanhol El País (aqui), da qual destaco quatro ideias que nos fazem reflectir:
"A poesia ajuda-me a concentrar-me, porque ajuda a aprender de memória e eu sempre, como professor, reivindiquei a aprendizagem de memória." 
"a educação escolar de hoje é uma fábrica de incultos e não respeita a memória." 
"há algo que me preocupa: os jovens já não têm tempo ... de ter tempo." 
"O medo que as crianças têm do silêncio causa-me medo. Só o silêncio ensina a encontrar em nós mesmos o essencial."

sábado, 2 de julho de 2016

SALAZAR: "NÃO BATE A BOTA COM A PERDIGOTA"

“Tudo seus avessos tem”.
Sá de Miranda

Acabo de ler o artigo “Fala o pobre”, da autoria da escritora Helia Correia, em que se debruça sobre o período da história do Estado Novo e do respectivo Ministro da Presidência: António de Oliveira Salazar.
Desse artigo, respigo::

“Antes de 25 de Abril de 1974 nem sequer nos achávamos na cauda da Europa: estávamos sim, nos subterrâneos sem a ver. De vez em quando, alguém a alcançava, fugindo à variadas instâncias de Polícia que iam mudando o nome mas não a crueldade. Assim, fugiram os judeus, fugiram sábios, académicos médicos, cientistas que, entre, entre os altos espíritos  da Europa,  tomaram com justiça os seus lugares. Escritores respiraram o ar fresco das grandes literaturas românticas, realistas, e trouxeram de volta requintes e ideias. Em Paris onde tudo sucedia, poetas e pintores pousavam as malas. A Europa era o ‘lá fora’ e era tudo.
Veio o salazarismo e esmagou com os pés, durante 50 anos, todas as nucas que tentassem levantar-se. Não eram pés calçados em botas cujo estrondo levava o horror aos próprios buracos das toupeiras. O inquisidor usava sapatinhos de padre ou de funcionário das finanças que eram discretos na aproximação. Pensava tanto no agrado da Igreja como na salvação do seu regime. Não tinha suficiente teoria mas também não sentia a falta dela. Ao longo desse tempo prosseguiu a viagem clandestina para a Europa” (Público, 01/07/2016).

De entre as personalidades que “fugiram às variadas instâncias da polícia” (Helia Correia), vivendo um longo período de exílio no estrangeiro em oposição ao Estado Novo, destaca-se, sem dúvida, um antigo militante do Partido Comunistas Português, António José Saraiva, segundo Eduardo Lourenço, “uma referência-chave da cultura portuguesa", que numa  entrevista, referindo-se a Salazar, declarou:

“Desde sempre senti uma certa admiração por Salazar. Ela vinha, primeiramente, dos seus escritos, que têm grande categoria e que são a melhor exposição doutrinal (que eu conheço) da chamada direita. E vinha também da sua atitude de dignidade, muito própria de camponês. No fundo, admirava-lhe isso. Mas não concordava com a ditadura que ele impunha, com a censura, com a repressão. Foi isto que me levou à incompatibilidade, a partir dos 22 anos”. E prosseguia o entrevistado: “O Salazarismo é uma tentativa empírica de resolver o problema português, o problema da identidade nacional e da continuidade histórica. Mas não podia sobreviver, Reconheço, porém, que o progresso económico nesse período foi notável: quando dizem que Salazar era exclusivamente um financeiro, isso é errado. As grandes obras públicas que então se fizeram em Portugal – o país está cheia delas, desde o Parque de Monsanto ao Hospital de Santa Maria e à ponte sobre o Tejo. E o mesmo em relação às infra-estruturas: foi sob o salazarismo, de acordo com o Plano de 1936, que se fez a electrificação sistemática do país. E quando o Salazar fez consagrar na Constituição de 1933 o princípio do equilíbrio orçamental, estava simplesmente a defender algo que hoje vemos ser elementar: que o país não pode endividar-se, da mesma forma que um homem pobre não o pode fazer. Só os ricos podem ter dívidas!”

Questionado se ao lerem as suas declarações não dirão "o António José Saraiva converteu-se ao salazarismo”, respondeu:

“Não, não! De forma alguma. Tenho de resistir a essa tentação! Apenas reconheço que, quando se fizer uma História de Portugal e nela forem destacadas cinco ou seis homens representativos de ‘uma vontade portuguesa de ser’ um deles será Salazar. E será também um exemplo dos exemplos de dignidade, Repare no ‘pessoal’ de agora!” (O País, 11/02/1982).

Toda a tese tem antítese, caberá ao leitor, despido de preconceitos, fazer a respectiva síntese. Sei que é difícil, a fazer fé em versos de António Gedeão: “Onde Sancho vê moinhos / D. Quixote vê gigantes. / Vê moinhos? São moinhos. / Vê gigantes? São gigantes. (António Gedeão).

sexta-feira, 1 de julho de 2016

EUROPA



OPINIÃO
Fala o pobre
HELIA CORREIA 01/07/2016 - 08:00
Dizem que fomos nós, os preguiçosos, os gulosos do Sul, quem fez gorar o projecto da coisa. Por mim, pequena portuguesa, dou o exemplo: vou buscar o esfregão e a vassoura, antes que algum refugiado mos cobice.

Um belo texto de Hélia Correia, no Público de hoje (aqui)

Existem discos voadores?


A jornalista Vanessa Fidalgo entrevistou-me há cerca de dois anos no trabalho de preparação do livro que acaba de publicar "Avistamentos de OVNIS em Portugal" (Esfera dos Livros). Transcrevo aqui a nossa conversa:

P- Na sua opinião, crê que os desenvolvimentos científicos das últimas décadas vieram pôr cobro ao burburinho causado pelos alegados avistamentos de OVNI, que tiveram o seu auge a partir dos anos 40 e até à década de 70? Ou seja, já não acreditamos em tudo o que vemos tão facilmente?

R- Sim, pode-se dizer que especulações pseudocientíficas sobre os OVNI que se iniciaram nos anos 40 e 50  chegaram até este século mais rarefeitas e amortecidas. Basta ir à Wikipedia e consultar UFO ou Ufologia para se perceber que o tempo maior das "aparições" de objectos estranhos já lá vai.  Não associo isso directamente a avanços da ciência (novas teorias, novas tecnologias), mas sim Ao facto de que o que era novidade na altura deixou de o ser e o que parecia  misterioso revelou-se, após alguma investigação, banal. Os OVNI despertaram as atenções, animaram paixões e suscitaram controvérsia, mas hoje já quase não aparecem na imprensa (a verdade é que nas revistas científicas nunca ou quase nunca apareceram).

A esmagadora maioria dos casos reportados acabou por se dissipar por haver uma causa atribuível ao fenómeno. Há, como sugere, um escrutínio maior hoje em dia, no sentido em que já temos um catálogo de avistamentos e de causas prováveis para esses  avistamentos. O que fica de misterioso é tão pouco, isto é, os indícios de OVNI, são tão escassos, que não chega para concitar as atenções da comunidade científica. Os OVNI já interessaram mais cientistas do que hoje. Actualmente só muito poucos se interessam por esse tipo de coisas por não haver suficiente evidência acumulada para suscitar interesse pelo fenómeno. Alguns cientistas interessaram-se por fenómenos atribuídos a OVNI, mas os resultados foram desencorajadores: não havia nada por trás, não havia por exemplo naves com extraterrestres que nos tivessem vindo visitar. Há ainda quem se dedique com denodo a pesquisas nessa área, mas são muito mais amadores do que profissionais. Não admira por isso que a ovnilogia seja considerada hoje uma pseudociência, isto é, uma imitação da ciência (com o "macaqueamento" do método científico), sem que haja alguma conclusão verdadeiramente interessante do ponto de vista científico. Andar à procura de discos voadores é assim como uma caça aos gambozinos: tanto uns como outros não existem.

No entanto, não se pode pensar que a ciência tenha varrido a pseudociência ou que possa varrer a pseudociência. Haverá sempre gente que acredita em coisas estranhas. Julgo que faz parte da natureza humana, onde o racional e o irracional coabitam, por vezes em proporções favoráveis a este último. Um dos fenómenos mais paradoxais do nosso tempo é a alegre coexistência da ciência e da pseudociência: nas estantes das livrarias, por exemplo, a astronomia convive com a astrologia, por vezes até, por distracção dos lojistas, de uma forma demasiado íntima. Também nos jornais a indicação precisa das luas e das marés coexiste com os horóscopos ou as cartas do tarot. Haverá sempre gente a acreditar em visitantes do espaço, em mensageiros do além, por muitos progressos que a ciência permitindo verificar que as visões não passam ou de trivialidades (por exemplo, um balão meteorológico ou um meteoróide) ou simplesmente de ilusões.

P- Como cientista, as explicações lógicas que não raras vezes são encontradas para os alegados avistamentos satisfazem-no? Refiro-me às chuvas de meteoros, aos balões, à passagem de cometas, aos reflexos de satélite, que muitas vezes são referidos para justificar as tais contemplações...
R- Sim, satisfazem a mim e satisfazem a esmagadora maioria dos cientistas. Não têm que satisfazer toda a gente, claro. A ciência não funciona por unanimidade, mas sim por um amplo consenso. Pode haver discussão, mas a seguir faz-se alguma luz. Um doutoramento em física não é aliás um nenhuma certidão de sanidade mental e pode até aparecer um seu detentor que faça afirmações desprovidas de sentido. Em ciência não interessa muito o que um cientista diz, ou o que dois ou três dizem, mas sim o consenso que se forma na comunidade científica. Esse consendo pode demorar, mas costuma, cedo ou tarde, chegar. O método da ciência para chegar a  um resultado, que assenta na acumulação de provas e na revisão pelos pares, é muito robusto. Tem sido comprovadamente eficaz. As pessoas por vezes não têm uma ideia como funciona a ciência e pensam que ela se baseia em autoridades: alguém diz uma coisa e os outros aceitam. Não é assim. A ciência baseia-se, em contraste com a pseudociência, no reconhecimento do erro. Não alcançamos a verdade, até porque esta é uma quimera, mas somos capazes de reconhecer um erro. Aliás alguns  filósofos até dizem que a capacidade de reconhecimento de erros é uma das marcas distintivas da ciência. Não é tanto o objecto que interessa - a ciência pode estudar avistamento de objectos misteriosos - mas sim o método que se utiliza para lidar com o objecto.

O físico norte-americano Richard Feynman, Prémio Nobel, em "O que é uma lei física" (Gradiva, 1989) diz que sabe tudo sobre discos voadores: não existem! Vale a pena citá-lo:

"Não é anticientífico efectuar uma previsão embora muita gente que não faz ciência pense que o seja., Há alguns anos tive uma conversa com um leigo sobre discos voadores - a minha condição de cientista faz com que saiba tudo sobre discos voadores! Disse-lhe: "Penso que não existem discos voadores". E o meu antagonista respondeu: Acha impossível a existência de discos voadores? Consegue provar que é impossível?" "Não!" disse-lhe, "não consigo provar que é impossível. É apenas bastante improvável." Então ele replicou: "Isso é muito anticientífico. Se não consegue provar que é impossível, por que me diz que é improvável?" Mas essa é que é a maneira de se ser científico. Só é científico afirmar o que é mais e o que é menos provável e não estar sempre a provar o que é possível e impossível. Para concretizar melhor o meu pensamento, poder-lhe-ia ter dito: "Repare, a partir do meu conhecimento do mundo à minha volta, penso que é muito mais provável que os relatos de discos voadores sejam o resultado de características irracionais própria da inteligência terrestre do que de esforços racionais desconhecidos de inteligências extraterrestres. " É apenas mais provável e é tudo. Trata-se de uma boa previsão. Tentamos sempre avançar com a previsão mais provável, conservando no subconsciente o facto de que, se não resultar, temos de discutir as outras possibilidades" (p. 212, a tradução é minha).
Concordo  com Feynman. Um dia fui a um encontro de ovnilogistas no Porto porque me convidaram (no tempo em que os OVNIs estavam mais na moda do que hoje). E foi isto mesmo que eu disse. Tal como Feynman, sei tudo sobre discos voadores: não existem! Isto não é arrogância, é apenas uma maneira curta de expressar uma boa previsão. Se quiser uma maneira mais longa direi: muito provavelmente não existem. A ciência, como disse outro grande físico norte-americano, Carl Sagan, consiste no máximo de abertura possível, mas também no maior dos cepticismos. É preciso combinar as duas coisas de um modo sábio e o treino científico habilita-nos a isso, a  fazer escolhas de modo a falhar menos. Diz-nos sempre quem não sabe como funciona a ciência: "não recuse uma ciência que desconhece". Ora, os cientistas não recusam o que não conhecem, bem pelo contrário. a sua profissão consiste precisamente em perscrutar o desconhecido. Mas, simplesmente, alguma experiência adquirida habilita-nos a conhecer rapidamente algo que nos aparece como novo e a não nos deixarmos enganar. A ciência é, de certo modo, a capacidade de não nos deixarmos enganar.

No encontro que referi estava um general da Força Aérea que tinha visto um OVNI. Ele foi incapaz de me convencer. Mas confesso que ainda me lembro da autoridade dele, como quem diz: “eu piloto aviões, visto uma farda com divisas, sei mais disso do que o senhor; eu vi umas luzes e o senhor não viu nada". Não contesto que ele tenha visto umas luzes, mas o mais provável ou que tenha sido algo relativamente trivial ou apenas um engano. É muito fácil sermos iludidos, mesmo vestindo uma farda. Os cientistas, alguns dos quais vestem batas brancas, também se iludem.

P- Há alguns casos que são curiosos (mais ainda do que o “normal”)... refiro-me aqueles casos em que se associam ovnis a locais/acontecimentos igualmente marcados pela espiritualidade/mitologia (como as aparições de Fátima, por exemplo, que os ovnilogistas acreditam ter sido a passagem de um OVNI, por exemplo). Como se explica que se derrube um mito com outro mito?

R- Eu  percebo pouco de mitos e menos ainda de substituição de mitos. É normal quando se tem um mistério, tentar atribuir-lhe uma explicação. Os antigos viam figuras no céu: dantes eram deuses, hoje talvez pudessem ser estrelas de música rock. Nos casos que fala, em vez de milagres, teriam sido, segundo alguns autores, visitas de extraterestres. Não gosto nada desse tipo de "explicações" pois não adiantam nada. Passa-se de um mistério para outro, sem acrescentar praticamente nada. Nos dois casos fala-se de "aparições". Acho que a Igreja tem modernamente uma noção mais prudente, e diria até mais modesta, de "milagres". E essa visão é muito diferente do que me ensinaram na catequese: os milagres antigamente eram  - e para muita gente ainda são - interrupções temporárias das leis da Natureza. Hoje nenhum teólogo dirá isso, falará antes de "visões interiores", de "experiência de fé individuais", portanto, de fenómenos de espiritualidade. E todos sabemos como a mente humana é fértil em criar todo o tipo de fenómenos (já  Feynman o dizia). Milagres no sentido de suspensão de leis físicas não existem. Se uma lei física não funcionasse, modificar-se-ia essa lei e deixaria de haver o milagre... Mas as leis físicas que conhecemos funcionam bem. Qualquer modificação que se venha a conhecer (e a ciência não está de maneira nenhuma acabada) não irá mudar o essencial de muitas coisas que conhecemos hoje. Einstein mudou a mecânica de Galileu e Newton, mas só no limite das grandes velocidades ou das grandes massas. No limite das pequenas velocidades, comparadas com a da luz,  ficou tudo como estava. E é por isso que ainda hoje ensinamos às crianças Galileu e Newton.

P- Há certas fontes que, pela sua experiência e conhecimentos técnicos, se tornam mais credíveis do que outras. Há pouco tempo, houve até um astronauta da NASA (Leroy Chiao) que afirmou ter visto um OVNI... Estamos aqui a falar de homens treinados em circunstâncias especiais.

R- Isso não significa nada. Essa história dos "cientista da NASA" não passa de um mito recorrente. Muitos pseudocientistas invocam esses “cientistas da NASA”, mas a mim parece-me que é como a menina de bata branca que vem vender num anúncio televisivo um iogurte com um omega três qualquer (ver o meu livro, com David Marçal, Pipocas com Telemóvel, publicado pela Gradiva). Com certeza que há um ou outro cientista, com uma carreira científica sólida, que se interessa por coisas estranhas. Alguns até (o que é muito humano) acreditam em coisas estranhas (o que só mostra que os cientistas são humanos). Mas tal não significa que exista uma prova científica. É preciso haver consenso na comunidade científica e esse consenso não existe. Pode vir a existir mas não existe.

P- Neste meu livro tenho dois capítulos em que as fontes primordiais foram pilotos, militares, radaristas, sendo alguns dos casos relatados passados na guerra do Ultramar... O que acha que pode acontecer nestes casos? Tecnologia inimiga (desconhecida)? Stress emocional? Sugestão?

R- Eu não fui à guerra do Ultramar, mas é natural que tenha havido nesse caso tecnologias desconhecidas do inimigo. O escritor António Lobo Antunes, que esteve na guerra, conta que o seu grupo punha altifalantes com o som alto na selva a transmitir jogos do Benfica e que o inimigo então não atacava. Ele deduz que o inimigo era também do Benfica, mas eu atrevo-me a pensar que podia soar bastante estranho ao inimigo ouvir  um relato de futebol no meio da selva. Bem, falando mais a sério, o stress emocional parece-me provável. Em situações de grande tensão, os psicólogos sabem que se podem "ver" ou "ouvir" ou "sentir" coisas que outras pessoas não vêem nem ouvem nem sentem.  Não sou psicólogo, mas a psicologia é uma ciência.

P- Agora um desafio... Na sua opinião e pela sua experiência de vida, como cientista, professor, homem interessado pelo mundo que o rodeia, o que são (ou o que podem ser...) os alegados avistamentos de objectos voadores não identificados?

R - Nesse colóquio onde fui mostraram um filme de um objecto que apareceu perto de Valongo. A mim pareceu-me um balão. Se fosse hoje podia ser um drone, um objecto bem mais esquisito Imagine o que seja aparecer um drone nos céus de uma montanha do  Afeganistão: o que pensará um indígena incauto? De início poderá até dizer que é um objecto voador não identificado, mas irá fugir, quando perceber que o drone é perigoso. Foi o escritor britânico Arthur Clarke que disse que "a tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia".

P- Perante a imensidade do universo, até que pode é legítimo negar a possibilidade de vida noutros planetas (mesmo que seja em formas não inteligentes)?
R- Isso é outro assunto e bem mais científico do que o dos OVNI. Eis o que penso e pensa a comunidade científica: A astrobiologia é um dos ramos mais excitantes da ciência contemporânea.  Procura ver no espaço ou, na Terra, indícios de vida vinda do espaço. O seu objectivo principal  é a busca de vida, inteligente ou não, fora da Terra, o que se pode fazer quer com sondas, como as que neste momento exploram o solo de Marte (os robôs Curiosity e Opportunity da NASA) ou aquelas que poderão ser enviadas para as luas de Júpiter (como o Juice da ESA, a lançar em 2022), quer com telescópios na superfície terrestre, como os grandes radiotelescópios em cujos registos se procuram  sinais de inteligibilidade, quer ainda em telescópios espaciais como o Kepler da NASA destinado a detectar exoplanetas.
A missão realizada pelo Kepler foi uma das mais produtivas na “caça” a exoplanetas, emparticular aqueles com tamanhos e massas semelhantes ao da Terra. Permitiu recentemente encontrar 977 exoplanetas  em mais de 400 sistemas estelares, alargando enormemente a lista de planetas desse tipo que, a 4 de Julho de 2014, incluía 1807 planetas em 1123 sistemas planetários (dos quais 465 têm comprovadamente mais do que um planeta). Em Abril de 2014 foi anunciada, com base nos dados dessa missão, a descoberta do Kepler 186f, o primeiro planeta extrassolar com um tamanho semelhante ao da Terra (tem 1,1 vezes o raio da Terra) situado numa zona habitável à volta de uma anã vermelha a 500 anos-luz da Terra. E em Junho dese mesmo ano foi divulgada, com base em telescópios fixos na Terra, a descoberta do Gliese 832c, uma “super-Terra” (tem cerca de cinco vezes a massa da Terra), que também  orbita uma anã vermelha, mas agora a apenas 16 anos-luz da Terra, e também numa zona favorável ao desenvolvimento de vida. Só com telescópios da próxima geração, com o telescópio espacial James Webb, que sucederá ao Hubble em 2018, será possível conhecer a atmosfera de planetas desse tipo, progredindo no estudo da hipótese de eles albergarem alguma forma, ainda que rudimentar, de vida.

Vivemos nas ciências do espaço tempos muito interessantes, pois pode acontecer que, com o aprofundamento da ligação da astronomia à biologia, estando a física bem no meio das duas, possamos avançar na resposta a uma das questões que mais tem atormentado os cientistas: “Estamos sós no cosmos?” O físico italiano Enrico Fermi, nos anos 50, quando abundavam as notícias sobre discos voadores, falou do paradoxo que é o contraste entre a grande probabilidade de haver outros mundos habitados no Universo (fez um cálculo rápido nas costas de um envelope) e a inexistência até essa data de qualquer manifestação, por mínima que seja, de vida extraterrestre. Esse vazio de notícias do cosmos – o silentium universalis - prossegue nos dias de hoje. Se os extraterrestres existem, permanecem calados. O astrofísico norte-americano Frank Drake, tentou, em 1961, quantificar a nossa ignorância a respeito da vida inteligente fora da Terra ao escrever uma equação, hoje com o seu nome, que fornece o número de civilizações na nossa Galáxia que poderão estabelecer contacto via rádio connosco. Mas as incertezas nas parcelas dessa equação são tão grandes que o número dessas civilizações poderá ser zero ou cem milhões. As observações prosseguem, assim como a discussão.  A nossa solidão aflige-nos: Tanto universo para tão pouca inteligência!

Carl Sagan, que é o autor  do livro de divulgação Cosmos e do romance Contacto (escreveu em ficção o que não pôde escrever como ciência), foi quem mais se interessou por vida inteligente fora da Terra no final do século passado. Convenceu a NASA a colocar uma placa com uma mensagem dos terrestres nas naves Voyager que neste momento estão a sair do sistema solar depois de terem vistado os planetas exteriores do nosso sistema solar. Ele foi a congresso de OVNI, numa altura em que poucos cientistas iam (hoje vão ainda menos). Sagan estudou os discos voadores, participando em comissões que queriam, por exemplo, averiguar se havia perigo para a segurança dos Estados Unidos. A resposta é negativa! Nem os Estados Unidos nem o resto do mundo estão ameaçados por extraterrestres...

Não conhecemos extraterrestres nem eles devem existir no espaço mais perto de nós. E à distância em que podem existir sem terem até hoje dado sinais de vida não há tecnologias, com base na física que conhecemos, que permitam uma comunicação rápida. De modo que, por enquanto e nos tempos mais próximos, a menos que haja uma surpresa (e os cientistas adoram surpresas!), nós somos a única forma de vida inteligente no Universo. Como escreveu o escritor norte-americano Ray Bradbury: "Os marcianos somos nós. mas só quando chegarmos a Marte"

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...