domingo, 1 de novembro de 2026

PASSAPORTE DE CIDADANIA PARA IR ONDE? FAZER O QUÊ?

Há poucos anos integrei na minha colecção de "produtos pedagógicos estranhos" uma folha que me chegou às mãos cujo título é "Passaporte de Cidadania e Desenvolvimento". As colunas, que se podem ver abaixo, permitem o registo de "boas acções" desde a educação de infância até ao final do ensino secundário. Tudo muito objectivo, com avaliação, classificação e evidências.

 

 

Produto inédito, pensei. Não era: logo de seguida encontrei outro de igual teor mas mais sofisticado, com efectivo ar de passaporte. O seu objectivo é (ver aqui): "incentivar os alunos a serem melhores cidadãos e a serem reconhecidas as suas ações cívicas. Criada para Cidadãos do Século XXI esta ferramenta tem carimbadas e registadas as ações, os projetos, as campanhas e as atitudes de valor, de cada aluno, ao longo de todo o ensino secundário."

Perguntas que o significado da palavra "passaporte" não pode deixar de suscitar: um aluno que mostre um "desempenho" cidadão exemplar (o que será isso?) pode ir para onde? Tem licença para fazer o quê? Pode aceder a quê? E o que acontece a um aluno que demonstre um "desempenho" contrário? Fica retido, impedido daquilo ao que o outro é permitido?

 Estas perguntas não parecem, no entanto, ter a menor pertinência, nem mesmo em terreno universitário. Digo isto porque uma universidade pública nacional recuperou a ideia do "passaporte" a fim de promover o "espírito empreendedor" dos alunos. A ela juntaram-se mais quatro. 

No vídeo promocional, os alunos são desafiados a participar em workshops, networking, bootcamps, concursos de ideias, sessões com mentores. Assim, vão colecionando carimbos e quando completarem 50 horas de "capacitação", podem obter Certificado de Aluno Empreendedor, que atesta as suas "competências" e o "envolvimento em iniciativas de empreendedorismo e inovação. (ver aqui).

O ensino superior em Portugal demorou um pouco mais do que outros níveis de escolaridade e outros países a chegar à literacia empreendedora (bem como à sua cara-metade, literacia financeira), mas já lá chegou. Os entusiastas desta (indevidamente designada) educação para a cidadania têm razões para se alegrar.

1 comentário:

Anónimo disse...

É caso para dizer:
– O ensino e a melhoria das aprendizagens estão doentes, em Portugal!
Não está provado que o regime militar, mesmo quando disfarçado de escutismo, é o mais adequado para formar cidadãos livres e responsáveis

PASSAPORTE DE CIDADANIA PARA IR ONDE? FAZER O QUÊ?

Há poucos anos integrei na minha colecção de "produtos pedagógicos estranhos" uma folha que me chegou às mãos cujo título é "...