São muito semelhantes as estratégias usadas por entidades privadas (pseudo-ONG, empresas, fundações empresariais) para entrarem nos sistemas educativos públicos a fim de os porem ao seu serviço e, também, os modos como os sistemas educativos públicos as acolhem e se dispõem a servi-las.
A mais recente entidade de que tive conhecimento a operar em Portugal não é excepção. Trata-se de uma fundação bancária, que se propõe levar a cabo um projecto cujo propósito é (adivinhe-se!), em nome da inovação que o futuro reclama, transformar a educação.
Nada de inovador, portanto!
O déjà vu é bem visível na designação – Horizontes da Educação. Chamada para o Futuro (aqui) –, sendo confirmado nos textos de apresentação do projecto, onde se misturam, numa linguagem absolutamente rococó, elementos discursivos usados reiteradamente pela OCDE (sobretudo os mais recentes relativos aos cenários para a educação e para o futuro – ver, por exemplo, aqui) e pela UNESCO (sobretudo do seu último relatório Reimaginar os nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação).
Na verdade, esta entidade financeira usa a mesma lógica dos dois referidos organismos para "abrir caminho à construção de novos futuros", a qual passa, nomeadamente, pela "reflexão conjunta e participada" de todos os agentes da sociedade, pela apresentação de "cenários", em concreto, de quatro cenários para a educação em Portugal, pelo estabelecimento de um horizonte temporal, que é de 2050.
(Noto que o horizonte temporal para transformar a educação foi fixado depois de publicada a Agenda da ONU em 2015, pela OCDE e pela UNESCO em 2030, com o aproximar da data passou para 2040 e agora é fixado por esta entidade em 2050. Quererá ela igualar-se ou, até, antecipar-se a estes dois organismos?)
Diz a presidente da fundação, que apresentou o projecto ao Ministério da Educação, Ciência e Inovação e que lhe agradece a abertura e a disponibilidade. E diz também que conta com a colaboração de escolas e universidades. Não duvido que assim seja, o que me deixa ainda mais preocupada (ver aqui e aqui).
De resto, quem não fica preocupado com declarações como as que se seguem relativamente ao ensino e aos professores.
"Professores como centro de gravidade humano do sistema. Nenhuma transformação educativa é possível sem professores. Eles serão o “centro de gravidade humano” do sistema, o elo que ligará a visão estratégica às práticas diárias e que tornará real qualquer reforma curricular, tecnológica ou organizacional. O professor do futuro será menos transmissor de conteúdos e mais designer de experiências, orientador de projetos e facilitador de aprendizagens personalizadas. Trabalhará em co-docência com sistemas de IA — na planificação, no feedback e na diferenciação pedagógica — mas manterá uma dimensão insubstituível: a empatia, a inspiração, a escuta e a qualidade da relação com os alunos. A docência tende, assim, a afirmar-se como um ofício de alta complexidade humana.
Esta transformação, contudo, depende de condições estruturais: tempo, reconhecimento, formação contínua e bem-estar emocional. A sobrecarga administrativa, a intensificação do trabalho e a escassez de profissionais constituem obstáculos críticos que o sistema precisa de enfrentar com urgência. Frente ao envelhecimento do corpo docente, a renovação tenderá a exigir políticas consistentes de rejuvenescimento e valorização, carreiras mais flexíveis e modulares, e horizontes de especialização (mentor, designer curricular, mediador ético de IA, coordenador de projetos, tutor socioemocional). Percursos híbridos entre escola, comunidade, empresas, ensino superior e edtech poderão reforçar a atratividade da carreira e abrir novas possibilidades de desenvolvimento profissional.
Até 2050, cada professor deverá trabalhar apoiado por suportes de IA para análise de dados, acompanhamento de trajectórias, feedback em tempo quase real e desenho de experiências de aprendizagem mais ricas e inclusivas. Isso tenderá a exigir formação contínua credenciada, comunidades de prática robustas, tempos protegidos para aprender, experimentar e refletir, bem como um novo contrato profissional que reconheça a complexidade do papel docente. Sem esta política de rejuvenescimento e valorização, o sistema corre o risco de se tornar tecnologicamente avançado, mas humanamente vazio.
A profissão docente do futuro, assim, tenderá a combinar alta densidade humana com alta integração tecnológica. O desafio estratégico será garantir que a IA amplifica o julgamento profissional, a criatividade pedagógica e a relação educativa — em vez de os substituir — e que os professores dispõem de condições reais para exercer o seu papel como coração vivo do sistema educativo."
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