Sobre a mensagem de Natal do Primeiro-Ministro, escreveu um professor, Agostinho Silveira:
O senhor primeiro ministro acabou de dizer aquilo que eu ouço todos os dias aos meus alunos, em todas as turmas na escola. Não estudem, não sejam estúpidos, não precisam de estudar para nada. Estudar para quê se vocês podem ser todos Cristianos Ronaldos? Os alunos conhecem esta música e gostam de a cantar e dançar.
Matemática? Oh stora, isso não serve para nada. Oh stor, estudar História para quê? O que é que isso interessa? Ciências? Ler livros? Para quê, stor? Oh stor, o Cristiano Ronaldo também não estudou e agora é muito mais rico que o stor.
O senhor primeiro ministro não falou em Luís de Camões, ou Eça de Queirós, ou Camilo Castelo Branco ou Saramago, o único prémio Nobel da literatura em língua portuguesa. Não falou no grande cientista António Damásio ou outros mais antigos, como Garcia da Orta ou Pedro Nunes. Nada. Não falou em grandes cirurgiões portugueses, médicos, economistas, engenheiros e arquitetos. Nada. Não falou em professores, investigadores, historiadores, e de todos aqueles que sofreram e morreram para podermos viver hoje, todos em liberdade. Nada. Cristiano Ronaldo.
É uma mensagem-retrato do mundo, pautado pela bitola económico-financeira ultraliberal, da produção, da eficácia, da competição, do empreendedirismo, da resiliência, do bem-estar, da agenda transformadora... É uma mensagem-retrato do país que segue essa direcção do mundo sem a interrogar, ainda mais quando se considera validado por uma revista de economia e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).
Mais, é uma mensagem-retrato da educação escolar pública, como diz o professor citado, da sua captura pelos desígnios dos mercados de capitais e da sua exigência de "indiferenciados"; é uma mensagem-retrato da estupidificação que já entrou no espírito humano e lá se acondicionou sem sobressaltos de maior. Os mais jovens conhecerão outra?
Ainda assim, é uma triste mensagem-retrato sobretudo por ter sido dita, com tanto entusiasmo, na ocasião em que se celebra o nascimento de Cristo, o tal que expulsou os vendilhões do Templo e que não deu grandes esperanças aos ricos de entrar no Reino dos Céus.
1 comentário:
Francamente. " bitola económico-financeira ultraliberal " ? Bolas, que chavão mal amanhado. "... da resiliência, do bem-estar... " mas quem é contra a resiliência, quem é contra o bem estar ? A educação não é um entre muitos factores, um entre muitos vectores dirigidos ao bem estar? Resiliência não é uma qualidade superior, como por exemplo a resiliência do povo ucraniano? São todos ultra-liberais, os ucranianos? A Drª Helena desilude-me muito. Cada vez mais me parece que defende aquilo que eu combato: a incompetência e a mediocridade. A sua alternativa anti-liberal não passa do velho paradigma ideológico saudosista dos tempos em que tínhamos de ser ascetas, abnegados e despojados à força. Poetas na miséria. Eu prefiro gente lúcida e racional que esteja bem na vida.
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