quarta-feira, 6 de junho de 2018

"A sério que acreditam que os professores são seres menores no sistema educativo?"

Num artigo do jornal Público de hoje, Paulo Guinote faz uma pergunta que não pode ser adiada: "há educação [escolar] sem professores?"

Forças de pressões, tanto a nível internacional como nacional, querem fazer crer que sim, que isso é possível: que podem ser as crianças e os jovens a determinarem o currículo, desde a sua concepção à sua concretização, e que podem aprender sozinhos e/ou uns com os outros com o método milagroso da aprendizagem baseada (e sublinho "baseada") em projecto, sobretudo se apoiados nas super novas tecnologias ditas da informação e da comunicação.

Deixo de lado, a tónica posta pelo autor do artigo na actualização salarial, não por falta de importância mas porque, na continuação de textos anteriores, interessa-me destacar o que se segue:
... o que questiono é se a Educação seria possível sem professores e se há quem leve mesmo a sério aquelas teorias neo-construtivistas que estão na origem de algumas das reformas promovidas pelo secretário de Estado João Costa e alguns micro-feudos associativos e académicos e que afirmam que o conhecimento é algo que pode ser construído pelos alunos ab nihilo, apenas com uma espécie de orientação que não carece de especial qualificação académica. 
A sério que acreditam que os professores são seres menores no sistema educativo (...)? 
(...) sem eles não há Educação, por muito que seja o deslumbramento com as novas tecnologias.

3 comentários:

  1. Entre afirmar que os professores não são necessários no sistema de ensino, e afirmar que são necessários tantos professores como há atualmente em Portugal, situa-se o bom senso de dizer que metade dos docentes liceais chegariam e sobrariam para transmitir aos alunos o pequeno conjunto de noções triviais que as autoridades ministeriais consideram essenciais para dar um mínimo de significado aos diplomas emitidos pelas escolas.

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  2. Concordo com Arendt quando afirma que o sistema educativo não deveria andar a reboque das decisões políticas. Cada partido político pensa a sociedade de determinada forma, tentando institucionalizar esse pensamento para que seja cumprido o ideal que preconiza. Para que serve a política com o seu mapeamento de ação governativa? Também instrumentalizar mentalidades de forma a que os detentores de poder se perpetuem no tempo. Que lugar melhor do que a Escola para o fazer?
    A democracia, com o seu princípio de rotatividade e equidade, por bem e por mal, permite a desconstrução permanente, impondo o novo pelo novo, talvez não tanto pela qualidade. Assim, temos um sistema educativo desarticulado, compacto, remendado e cansado. Os alunos não gostam e não querem estar na escola e este não querer dificulta a ação educativa. O que querem os alunos? Qual o fim? Que parte deve ser dada a esse querer? De que forma se integra a concretização desse querer no âmbito social? Tem dimensão institucional? Prepara-os exatamente para quê? O professor está ao serviço de que ideais (políticos, infantis, juvenis, diretivos, não diretivos)? O professor tem escolha como o aluno ou apenas cumpre o que lhe mandam fazer?
    Passando pela História, verificamos que a Educação sempre foi exaustivamente pensada e repensada. Exemplos disso são os factos e as reflexões que se leem em qualquer livro de História da Educação sobre a antiguidade oriental, Grécia, Roma, Cristianismo (período apostólico, patrístico, Idade Média), Idade Moderna, Escola Nova, tipos de pedagogia, influência da psicologia na educação, reformas educativas no mundo e em Portugal e por aí fora até chegarmos a este ponto isento de singularidade... Parece que já tudo foi tentado. A esmagadora maioria das escolas alternativas independentes que pululam em vários países servem apenas o interesse de algumas comunidades (principalmente espirituais e religiosas), as quais pagam taxas elevadíssimas ao Estado tornando essas escolas elitistas e pouco viáveis para todos.
    Em termos globais, o que se pretende exatamente que a Escola seja? Na minha humilde opinião, deve assentar em duas fortes vertentes: a académica e a prática. Há um legado humano, histórico e científico que deve ser transmitido às gerações vindouras para conhecimento do passado, compreensão do presente e, consequentemente, dotação de uma capacidade de ação prospetiva que possibilite a planificação da melhoria do futuro. A vertente prática deveria incidir no desenvolvimento de capacidades técnicas/tecnológicas, de acordo com as aptidões ou interesses dos alunos que os dotassem de destrezas passíveis de aplicabilidade numa profissão desse teor. A escola não tem de formar apenas doutores e intelectuais.
    O atual espaço concedido à voz das crianças/adolescentes deve ser auscultador do seu sentir, mas filtrado por um olhar científico de exequibilidade, pertinência, adequabilidade, congruência com o que se pretende num quadro educativo mais amplo que, não sendo os políticos a defini-lo, quem o definirá? Comissões de ética, a nível europeu e/ou nacional, formada por intelectuais, artistas, ecologistas, desportistas, economistas, médicos, políticos e outros fazendo programas curriculares/projetos educativos que garantam o cumprimento do Homem em todas as dimensões e direitos universais?
    Defendo uma Escola de memória que não esquece o percurso humano, plataforma sustentada do saber; uma Escola de criatividade que leve à criação e à inovação; uma Escola de aprender o respeito, que saiba construir um espaço físico e mental onde valha a pena viver.

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  3. Das inúmeras variáveis que é necessário sopesar e ponderar para um conhecimento do sistema de ensino/educação, que existe, mormente com alunos e professores no centro das pressões, a aguentar forças centrípetas e centrífugas, assim muito esquematicamente, refiro os decisores políticos, que se assumem, inquestionavelmente, como os senhores disto tudo. E nada há de mais errado no sistema de ensino/educação.
    Este tem condições para estar, e deveria estar, emancipado, há muito, dessa tutela tão perniciosa quão perversa.

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