quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS
Como nota prévia desta 4ª conversa em torno dos solos, convém lembrar que os textos que, neste e noutros propósitos pedagógicos, de há muito venho divulgando, têm como destinatários preferenciais os professores que nas nossas escolas básicas e secundárias se debatem com falta de elementos que complementem os tradicionais livros adoptados. Visam, ainda, o cidadão comum, interessado em conhecer o chão que pisa e lhe dá o pão. Não pretendem, longe disso, ensinar algo de novo aos meus pares, alguns deles bem mais entendidos do que eu nestas matérias. A esses o que se lhes pede é que, com o mesmo empenho o mesmo espírito de missão e a mesma humildade com que os produzo, corrijam o que eventualmente tiver de ser corrigido, acrescentem o que deva ser acrescentado e melhorem o que precisar de ser melhorado, tudo isto no real interesse de fornecer ao leitor a melhor informação possível.
FALANDO DOS SOLOS (3)
Fala-se muito (e ainda bem) de aquecimento global, de poluição do ar e das águas, mas pouco se ouve acerca da degradação ou da destruição dos solos, cada vez mais exauridos e retraídos em consequência do crescimento da população e da expansão dos espaços urbanos e das múltiplas estruturas da sociedade do presente (aeroportos, auto-estradas e outras)
Em termos muito gerais, esta entidade natural que nos assegura o sustento pode ser descrita como uma capa superficial das terras emersas (de escassos centímetros a vários metros de espessura) de material não consolidado (incoerente), a um tempo, mineral e orgânico, formado no contacto do substrato geológico com o ar e a água (da chuva ou da neve), constituindo um suporte propício ao crescimento das plantas. Como material não consolidado deve aqui entender-se um qualquer tipo de rocha desagregada por efeito da meteorização e, ainda, os sedimentos, a todo o momento remobilizáveis, depositados nas planícies aluviais e deltas deste nosso mundo.
Sempre que a vegetação, seja ela herbácea, arbustiva ou arbórea (e com ela todo um cortejo de seres vivos e de matéria orgânica associada) invade a dita capa superficial, gera-se um solo, através de um processo a que os especialistas (pedólogos) chamam pedogénese. Trata-se de um processo geodinâmico, dito supergénico porque, à semelhança da biogénese, da gliptogénese (erosão) e da sedimentogénese, tem lugar à superfície da Terra e é, como eles, eles assegurado pela energia radiante recebida do Sol.
Na “Declaração de Princípios sobre o Solo Português”, apresentada pela Sociedade Portuguesa da Ciência do Solo, em 1975, o solo é um corpo natural, complexo e dinâmico, constituído por elementos minerais e orgânicos, caracterizado por uma vida vegetal e animal própria, sujeito à circulação do ar e da água e que funciona como receptor e redistribuidor de energia solar.
Para o agricultor, o solo é a terra arável e fértil ou fertilizável. É a terra que se cava e estruma. No seu modo local de referir o solo, os açorianos falam de leiva, um termo radicado no latim glaeba (terra arável), o mesmo étimo de onde deriva a nossa palavra gleba.
Dos solos mais incipientes e pobres aos mais evoluídos e ricos de matéria orgânica, todos existem porque sempre existiu e existe meteorização das rochas. É comum distinguir solos eluviais ou autóctones, isto é, não deslocados, permanecendo sobre a rocha-mãe, e solos aluviais ou autóctones, formados sobre materiais igualmente resultantes de meteorização mas que sofreram transporte.
Do ponto de vista termodinâmico, o solo é um sistema aberto, que permite trocas de matéria e de energia com os sistemas adjacentes, nomeadamente, a litosfera, a biosfera, a atmosfera e a hidrosfera (aqui representada pelas águas pluviais e de infiltração). Absorve e armazena energia solar, é sede de fenómenos físicos, químicos e biológicos e tende, naturalmente, para um estado de equilíbrio estacionário enquanto se mantiverem as condições sob as quais evoluiu. Localizado na interface destes quatro sistemas, o solo faz a ponte entre a vida subaérea e o esqueleto mineral, abiótico, do substrato geológico, sendo considerado um dos mais importantes ecossistemas do planeta.
Funcionando como fronteira e zona de interacção entre o orgânico e o inorgânico, o autotrófico e o heterotrófico, o solo representa, simultaneamente, uma consequência da alteração meteórica das rochas e um agente activo dessa mesma alteração. Com efeito, a evolução do solo sobrepõe-se à meteorização, utiliza-a e, por seu turno, fornece-lhe condições para que prossiga e, até, se intensifique. Tal dinâmica ficou bem clara na afirmação, segundo a qual “à meteorização geoquímica, envolvendo apenas a alteração das rochas, segue-se a meteorização pedoquímica”, avançada, em 1953, pelos pedólogos norte-americanos Marion Jackson (1914-2002) & George Sherman (1904-1973).
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Convite - Cépticos com Vox: Liberdade de Expressão
A COMCEPT - Comunidade Céptica Portuguesa convida-vos a participar na nossa próxima tertúlia, Cépticos com Vox, dedicada à Liberdade de Expressão.
A propósito do atentado contra o jornal Charlie Hebdo, produziram-se copiosamente declarações de estrutura duvidosa a respeito da liberdade de expressão.
Por “declaração de estrutura duvidosa” entende-se uma afirmação seguida de um “mas” e de uma segunda afirmação que imediatamente desdiz a primeira, sendo um dos mais famosos exemplos disto, em território português, a declaração “Não sou fascista mas o que era preciso era outro Salazar”.
Desde gente universalmente conhecida (ex.: Papa Francisco) até gurus de café com a visibilidade de gurus de café (ex.: gurus de café) todos contribuíram para o debate com os seus 500 escudos, tendo-se concluído frequente e liminarmente que a liberdade de expressão acaba onde começa a sátira. E que a sátira, por sua vez, também acaba onde começa a sátira. Porque é sátira. Se a sátira não satirizasse podia satirizar. Mas satiriza. Temos pena. Assim não pode ser.
Serão nossos convidados especiais o historiador e ex-deputado no Parlamento Europeu Rui Tavares e a jornalista e blogger Fernanda Câncio. Ambos têm dedicado muita atenção à problemática dos direitos, liberdades e garantias, quer através da sua profissão quer como ativistas.
A tertúlia terá lugar no próximo sábado, dia 21 de fevereiro, pelas 16h00, no Vox Café n'A Voz do Operário (Lisboa).
Contamos convosco!
A equipa da COMCEPT
KANT VERSUS SÓFOCLES
Meu artigo no Público de hoje:
Yannis Varoufakis, o académico que saltou
para a ribalta mundial após ter sido nomeado ministro das Finanças da Grécia, muito
crítico da corrente de economistas que teorizam políticas de austeridade, acha
que os modelos económicos hoje prevalecentes têm pouco poder explicativo.
Declarou numa entrevista: “Esta minha profissão [de economista] não é de maneira
nenhuma parecida com a astronomia. É muito mais próxima de uma superstição
matematizada, uma superstição organizada, que tem de continuar a ter os seus
sacerdotes escolhidos de entre aqueles que conseguem aprender bem os rituais.”
Os magos da economia, no seu entender, constroem modelos da realidade, com base
em estatísticas escolhidas a dedo, mas não conseguem fazer nenhuma previsão
decente. Nem sequer conseguem prever o passado, ironiza.
O seu ramo de especialização é a teoria dos jogos, a
descrição matemática de situações de competição ou cooperação, onde são
relevantes factores psicológicos como a leitura antecipada das intenções do
parceiro e a tentativa de o iludir a respeito das intenções próprias. Essa
teoria analisa ambientes como o do jogo de poker,
onde o bluff é parte essencial da
estratégia. E foi talvez devido a essa sua fama de perito em jogos que ele se
sentiu obrigado a publicar no New York
Times no mesmo dia em que reunia em Bruxelas o Eurogrupo para discutir a
situação da Grécia, um artigo de opinião intitulado “Não é tempo para jogos na
Europa”, onde declara que não está a fazer
bluff ao recusar a política de austeridade imposta até agora pela troika. Pergunta e responde: “E se a única forma de garantir o financiamento for passar as
linhas vermelhas e aceitar medidas que considero serem parte do problema e não
da solução? Fiel ao princípio de que não tenho o direito de fazer bluff, a minha resposta é: As linhas que
digo serem vermelhas não serão passadas. Senão, não seriam realmente vermelhas,
mas apenas bluff.” E atira para cima
dos alemães com o imperativo categórico de Kant: “A maior influência aqui é Emanuel
Kant, o filósofo alemão que nos ensinou que um ser racional e livre deve
evadir-se do império das conveniências, fazendo o que é certo.” O que é certo? “Vamos
abandonar, quaisquer que sejam as consequências, acordos que são maus para a
Grécia e maus para a Europa. Vai acabar o jogo do ‘adia e finge’ iniciado em
2010 quando a dívida pública da Grécia começou a ficar impraticável.
A proposta de Varoufakis e de outros economistas consiste num new deal, um programa geral de investimento na União Europeia no actual quadro institucional. Os gregos honrariam o serviço da dívida na medida em que a sua economia crescesse. Esta proposta é, porém, recusada pelo mastermind do jogo do “adia e finge”, o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble. Para Schäuble, jurista de formação, o fundamental é o cumprimento das regras que estabeleceu: “As regras são muito claras”. A haver tragédia, para o ministro alemão ela seria apenas grega. Uma tragédia ao estilo de Sófocles mas local.
A colisão parece iminente: é provável a interrupção do financiamento da troika já que o lado alemão, que tem presidido sem oposição à Europa, deseja a saída da Grécia da Eurozona. As consequências dessa saída serão terríveis para este país, mas serão também muito más para a Europa. Dando de barato que o actual governo grego sobrevive, os helénicos regressariam ao dracma e tentariam obter apoios fora da Europa, com toda a instabilidade que tal traria à geoestratégia mundial. Por seu lado, os bancos, alemães e outros, teriam de reescrever, em baixa, os seus livros de contas. Mas, pior que tudo, a União Europeia, já tão débil, ficaria mais fraca. Portugal, Espanha e Itália poderiam ser as próximas peças de dominó a cair. O que vai acontecer? Julgo que mais do que um problema financeiro estamos perante um sério problema político. Espero que haja um acordo político de última hora, embora o intervalo temporal seja cada vez mais estreito. O discurso escalou para níveis que fazem temer prejuízos para todos. Se Varoufakis não ajudou nada ao comparar a troika a torcionários, Schäuble também não quando afirmou sentir pena do povo grego por ter elegido um governo irresponsável. Mas previsões só no fim do jogo…
E Portugal? Se a Grécia obtiver qualquer
benefício, ele terá obviamente de ser extensível ao nosso país, pelo que
só poderemos lucrar com as reivindicações gregas. Pedro Passos Coelho foi bastante
infeliz quando afirmou que as ideias do Syriza eram um “conto de crianças”. Fez
lembrar aqueles rapazes mais espigadotes, mas ainda de calções, que chamam crianças
aos seus colegas para se darem ares de adulto. Temos
um primeiro-ministro que defende à
outrance a austeridade, toda
e qualquer austeridade que venha de Berlim. Ele já disse que não quer saber das
eleições. O eleitorado não quererá decerto saber dele.
A proposta de Varoufakis e de outros economistas consiste num new deal, um programa geral de investimento na União Europeia no actual quadro institucional. Os gregos honrariam o serviço da dívida na medida em que a sua economia crescesse. Esta proposta é, porém, recusada pelo mastermind do jogo do “adia e finge”, o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble. Para Schäuble, jurista de formação, o fundamental é o cumprimento das regras que estabeleceu: “As regras são muito claras”. A haver tragédia, para o ministro alemão ela seria apenas grega. Uma tragédia ao estilo de Sófocles mas local.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
ABRIU O FAMELAB 2015
Estão abertas até
dia 12 de Março as inscrições e a submissão de vídeos para o concurso de
comunicação científica FameLab 2015.
Em 2014, a física portuguesa Marta Santos subiu ao
palco do
Cheltenham Science Festival, em Inglaterra, na final internacional do FameLab
2014, para falar sobre o papel do cérebro na criação e gestão das nossas
amizades. E este ano? Quem irá representar Portugal na final internacional do
FameLab 2015? Poderá ser o leitor. Para isso, saiba que estão abertas, até dia
12 de Março, as inscrições para a edição deste ano.
O FameLab é um concurso internacional de Comunicação de
Ciência ao qual podem concorrer estudantes, professores, investigadores e
outros profissionais da ciência e da tecnologia, mas também todos os cidadãos
que tenham paixão pela comunicação de ciência. Os concorrentes têm de mostrar
os seus talentos numa performance de três minutos num palco, frente a uma
audiência ao vivo.
Para Filipa Oliveira, vencedora na edição de 2012, “é importante
divulgar conceitos científicos para que a sociedade compreenda o verdadeiro
valor e a importância da ciência. Além disso, este concurso obriga a conjugar
em três minutos várias características de uma boa comunicação, e conseguir
equilibrar tudo em tão pouco tempo, é de facto interessante e estimulante.”
Para se candidatarem, os concorrentes têm de enviar até
dia 12 de Março um vídeo caseiro (pode ser feito com a câmara do telemóvel) com
uma apresentação de três minutos sobre um tópico de ciência ou tecnologia. Os candidatos que forem pré-seleccionados participam
numa semi-final pública (que terá lugar na Fundação Calouste Gulbenkian no dia
11 de Abril), onde um júri seleccionará os dez melhores, que concorrerão em
seguida numa final nacional (no Pavilhão do Conhecimento, a 9 de Maio). Desta
competição sairá o representante nacional que deverá participar na final
internacional, no Cheltenham Science Festival, no Reino Unido, de 2 a 7 de
Junho deste ano.
Antes da final, os dez finalistas têm a oportunidade de
frequentar uma Masterclass nos dias 25 e 26 de Abril. Esta formação intensiva
será conduzida por Malcolm Love, ex-produtor da BBC, formador e consultor do
FameLab Internacional, que os ajudará a aperfeiçoar os seus talentos
performativos. Vários testemunhos de participantes de edições anteriores
sublinham a gratificante experiência vivida e adquirida nas Masterclass do
FameLab. São uma oportunidade única de “melhorar as competências de comunicação” num
“ambiente divertido, enérgico e informal”.
As candidaturas com envio dos vídeos devem ser feitas
através do site do concurso FameLab,
onde os concorrentes podem encontrar todas as informações relevantes sobre a
sua participação e ver as apresentações finalistas na edição do ano passado.
“Se estão a hesitar por medo ou insegurança”, diz Leonor Medeiros,
vencedora da edição de 2011, que se confessa “aterrada” quando foi à primeira
eliminatória, “esse motivo não é nada válido para deixar passar uma experiência
que vai alterar o modo como olham e transmitem a vossa ciência, seja ela qual
for. Se o motivo for falta de tempo, só posso dizer que, se chegarem à final,
qualquer tempo que tenham gasto a participar será recompensado com uma
experiência única e muito enriquecedora. Avancem, arrisquem, divirtam-se!
Fica aqui o desafio. Escolha um assunto de ciência ou
tecnologia que queira contar aos outros, pegue numa câmara, faça um vídeo de
três minutos e participe.
Em Portugal, o FameLab é organizado pela sexta vez pela
Ciência Viva - Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, pelo
British Council e pela Fundação Calouste Gulbenkian. O concurso FameLab foi
lançado em 2005 no Reino Unido pelo Cheltenham Science Festival e conta
actualmente com mais de vinte países participantes, entre os quais muitos
países europeus mas também Hong Kong, Egipto, África do Sul, EUA e Austrália.
António
Piedade
KAKU EM PORTUGAL
Infomação recebida da Bizâncio:
Vimos pelo presente informar que o físico Michio Kaku, autor dos livros O Futuro da Mente, A Física do Futuro, A Física do Impossível e Mundos Paralelos irá ser o orador principal no congresso a realizar, a 12 de Março na Exponor em Matosinhos.
O MÉDICO E MÚSICO BARROS VELOSO FALA SOBRE O ASTRÓNOMO TYCHO BRAHE
Na próxima 5ª feira, 19 de Fevereiro de 2015 às 18h no RÓMULO CCVUC,
realiza-se mais uma sessão do "Café, Livros e Ciência" com a
apresentação do livro "Tycho Brahe: Um Astrónomo Fabuloso no Reino da
Dinamarca", de António José de Barros Veloso. A apresentação será feita
pelo Professor Carlos Fiolhais.
Público-alvo: Público em geral
Entrada Livre
Evento - https://www.facebook.com/events/1566261626964965/?pnref=story
RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra
Departamento de Física - Piso 0
Rua Larga
3004-516 Coimbra
PORTUGAL
Telefone: 239 410 699
Site: http://nautilus.fis.uc.pt/rc/
Facebook: http://www.facebook.com/pages/Centro-Ci%C3%AAncia-Viva-R%C3%B3mulo-de-Carvalho/163288910424208
Público-alvo: Público em geral
Entrada Livre
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Minha apresentação ao livro "A Educação dos Príncipes" de António Mouzinho
Texto da badana do livro que saiu há pouco na Gradiva: "A Educação dos Príncipes" de António Mouzinho:
"A educação nacional tem sido motivo da nossa insatisfação. Não há nada a fazer a não ser lamentarmo-nos? Claro que há. Aqui está - já não era sem tempo - uma proposta coerente, muito bem pensada e extraordinariamente bem escrita, para o nosso ensino público. Da autoria de um professor com enorme experiência, eis para nossa reflexão e acção (oxalá!) um breve programa para mudar as nossas escolas.
Apoio o que ele diz: "Vai, evidentemente, valer a pena começar já, não perdendo mais tempo com asneiras". "
"A educação nacional tem sido motivo da nossa insatisfação. Não há nada a fazer a não ser lamentarmo-nos? Claro que há. Aqui está - já não era sem tempo - uma proposta coerente, muito bem pensada e extraordinariamente bem escrita, para o nosso ensino público. Da autoria de um professor com enorme experiência, eis para nossa reflexão e acção (oxalá!) um breve programa para mudar as nossas escolas.
Apoio o que ele diz: "Vai, evidentemente, valer a pena começar já, não perdendo mais tempo com asneiras". "
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Novos livros da Gradiva
Alguns dos livros a publicar pela Gradiva durante o mês de Fevereiro.
Matthew Hancock
Os Portugueses
(O Guia do Xenófobo)
Recorrendo
ao humor e a uma escrita inteligente, o livro apresenta uma análise
simultaneamente crítica e afectuosa dos hábitos e peculiaridades de uma
nação que se encontra a ocidente da Europa e à beira do oceano. O que
faz dos Portugueses PORTUGUESES? Para abrir caminho à resposta, sigamos
de automóvel com Matthew Hancock: «Viajar nas estradas portuguesas é
conhecer a crua combinação de perigo e excitação sentida pelos antigos
navegadores, e estar atrás do volante de um carro é o maior de todos os
desafios aos nervos.» Para
ler, para rir, para descobrir como este autor britânico olha os
Portugueses. O facto de não se importar que a selecção portuguesa bata
Inglaterra no futebol deixa‑o preocupado.
Terá o seu carinho por Portugal ido longe demais?
«Guias do Xenófobo», n.º 1, 104 pp., € 8,80
Nick Yapp e Michel Syrett
Os Franceses
(O Guia do Xenófobo)
Este é um guia para compreender os Franceses, cheio de humor e estilo. O que faz dos Franceses FRANCESES? Aqui entra fromage e parfum, mas
muito mais existe numa nação sobre a qual os autores concluem não haver
tempo nem lugar para o meio‑termo. «Os serviços ou são maus (dando
origem a queixas, discussões e até uma possível revolução) ou são
excelentes (originando odes de enaltecimento).»
Nick
Yapp ama os Franceses pela sua música, vinho e 15 espécies de cebolas. E
Michel Syrett, francês pelo lado da mãe, valoriza a comida enquanto
experiência espiritual. A perspectiva apresentada não será imparcial.
Divertida é, garantidamente.
«Guias do Xenófobo», n.º 2, 104 pp., € 8,80
Rui Araújo
A Tentação do Abismo:
Sanz Blues
Com
este livro a Gradiva abre a porta a «Entre Crimes», uma nova colecção
dedicada à ficção policial. Para entrada, a dose certa de realidade que a
ficção deve ter. Mais do que uma simples história onde entram polícias,
amor e morte, é uma viagem ao mundo real, que não poupa nada nem
ninguém. Décio David foi assassinado. A
descoberta da autoria do tiro mortal que pôs fim à vida do comerciante
cabe ao inspector Miguel Neves, um trabalho manifestamente difícil pois
depara‑se com uma apreciável lista de potenciais homicidas e...
mandantes. O thriller de Rui Araújo serve‑se acompanhado com adrenalina.
«Entre Crimes», n.º 1, 196 pp., € 12,50
Tiago Patrício
O Princípio da Noite
Um
romance com sete adolescentes, cujo mundo está na iminência de desabar.
E, num mundo assim, nem tudo perdura. Nem mesmo as amizades que
pareciam inquebráveis. As acções das personagens Artur, Vera, Sara,
Fran, Cátia, Mónica e Teo são condicionadas pelos pensamentos, palavras,
actos e omissões umas das outras. Este é sobretudo um romance sobre a
beleza que pode iluminar o mundo e que atrai o perigo como um precipício
na noite. O autor desenvolve o enredo com a mestria de quem sabe criar páginas que são uma revelação.
«Gradiva», n.º 154, 288 pp., € 14,50
António José Saraiva
Filhos de Saturno
Escritos sobre o tempo que passa
Este
livro da colecção «Obras de António José Saraiva», com introdução de
Ernesto Rodrigues, reúne 54 textos de opinião do autor. Incide sobre o
período de 1974 a 1979 e, por isso, sobre um tempo de mudança, marcado
pelo fim de um regime. Sendo essa uma razão suficiente para despertar a
leitura, certo é que outra se acrescenta, pois esse registo de tempo em
nada retira actualidade ao que agora se publica.
Um exemplo? Considere‑se o que António José Saraiva refere sobre a sociedade de consumo, um dos temas abordados:
«Quanto ao homem, está sendo cada vez mais explorado como factor de consumo.»
«Obras de António José Saraiva», n.º 23, 356 pp., € 19,00
Uma Revolução Chamada Telemóvel
"Os nossos mais importantes tipos de negociação cultural, a partilha e a comunicação estão mesmo a ser alterados."
"Os aparelhos móveis são, provavelmente, a maior ameaça à privacidade com que hoje nos confrontamos, sobretudo no que diz respeito à localização das pessoas, o local físico onde estão."Vi ontem na TVI 24, no programa Observatório do Mundo, um documentário com o título Uma Revolução Chamada Telemóvel, que todos aqueles que têm responsabilidades educativas deveriam analisar com muita atenção.
Esse documentário, com argumento e realização de Magnus Sjöström, pode ser visto aqui.
A canibalização da educação escolar
"Ter educação financeira é importante porque com ela eu vou poder ter um maior controlo sobre a minha vida financeira; com um maior controlo sobre a minha vida financeira eu vou poder escolher, consumir, adquirir, sonhar, realizar tudo aquilo que é importante para mim e para a minha família."À medida que a autarquização - esta é a designação que tem, de momento, em Portugal, noutros países tem outras - é propagandeada e legitimada, dando a entender às comunidades que têm poder para decidir o currículo escolar dos seus educandos, ou, uma parte substancial dele, bem como os meios de o operacionalizar, crescem, subtil mas eficazmente, as imposições de quem tem o poder efectivo para tal.
E, perguntará o leitor, quem tem este poder?
A resposta é fácil: naturalmente, quem tem o poder económico. O poder que não se limita a um país mas que ultrapassa e submete qualquer país, estendendo-se a grandes regiões do globo.
Conheço, com alguma precisão, o que se passa, em termos de educação escolar, na Europa e na América - do Norte e de alguns países do Sul - e posso afirmar que esse poder ganha força e terreno a cada dia que passa. Afasta e/ou minimiza disciplinas fundamentais, manipula as vertentes dessas disciplinas que se desviam dos seus propósitos. Mas isso não lhe basta, tem reclamado uma parte substancial do currículo e tem-na conseguido; parte que, estando alicerçada, não pára de crescer.
Mistificado que se apresenta, toda a gente, ou quase, se submete a esse poder, considera-o positivo, o dever máximo da escola. Dispensemos a Filosofia, a Literatura, a História, até a Física e a Matemática, mas, em circunstância alguma podemos dispensar a educação para a saúde, a educação sexual, a educação para o empreendedorismo, a educação financeira...
A educação financeira é um dos últimos e mais refinados exemplos. Comparo o discurso usado em Portugal e no Brasil... igual, não surpreendentemente igual, mas assustadoramente igual.
Se ao leitor interessar conhecer esse discurso poderá ver este filme, de onde tirei a passagem que acima reproduzi.
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Legitimização da autarquização da educação escolar - 1
A Presidência de Conselho de Ministros aprovou o Decreto-Lei n.º 30/2015, que foi publicado no passado dia 12 de Fevereiro Na sequência da Lei n.º 75/2013, de 12 de Setembro, esse diploma estabelece o regime de delegação
de competências do Estado nos municípios e entidades intermunicipais
no domínio de funções sociais.
No artigo 8.º sistematizam-se as competências que os municípios
e as entidades intermunicipais passam a ter em matéria de Educação escolar - ensino básico e secundário:
a) No âmbito da gestão escolar e das práticas educativas:
i) Definição do plano estratégico educativo municipal ou intermunicipal, da rede escolar e da oferta educativa e formativa;
ii) Gestão do calendário escolar;
iii) Gestão dos processos de matrículas e de colocação dos alunos;
iv) Gestão da orientação escolar;
v) Decisão sobre recursos apresentados na sequência de instauração de processo disciplinar a alunos e de aplicação de sanção de transferência de estabelecimento de ensino;
vi) Gestão dos processos de ação social escolar;
b) No âmbito da gestão curricular e pedagógica:
i) Definição de normas e critérios para o estabelecimento das ofertas educativas e formativas, e respetiva distribuição, e para os protocolos a estabelecer na formação em contexto de trabalho;
ii) Definição de componentes curriculares de base local, em articulação com as escolas;
iii) Definição de dispositivos de promoção do sucesso escolar e de estratégias de apoio aos alunos, em colaboração com as escolas;
c) No âmbito da gestão dos recursos humanos:
i) Recrutamento, gestão, alocação, formação e avaliação do desempenho do pessoal não docente;
ii) Recrutamento de pessoal para projetos específicos de base local;
d) A gestão orçamental e de recursos financeiros;
e) No âmbito da gestão de equipamentos e infraestruturas do ensino básico e secundário:
i) Construção, requalificação, manutenção e conservação das infraestruturas escolares;
ii) Seleção, aquisição e gestão de equipamentos escolares, mobiliário, economato e material de pedagógico.
Este texto continua.
No artigo 8.º sistematizam-se as competências que os municípios
e as entidades intermunicipais passam a ter em matéria de Educação escolar - ensino básico e secundário:a) No âmbito da gestão escolar e das práticas educativas:
i) Definição do plano estratégico educativo municipal ou intermunicipal, da rede escolar e da oferta educativa e formativa;
ii) Gestão do calendário escolar;
iii) Gestão dos processos de matrículas e de colocação dos alunos;
iv) Gestão da orientação escolar;
v) Decisão sobre recursos apresentados na sequência de instauração de processo disciplinar a alunos e de aplicação de sanção de transferência de estabelecimento de ensino;
vi) Gestão dos processos de ação social escolar;
b) No âmbito da gestão curricular e pedagógica:
i) Definição de normas e critérios para o estabelecimento das ofertas educativas e formativas, e respetiva distribuição, e para os protocolos a estabelecer na formação em contexto de trabalho;
ii) Definição de componentes curriculares de base local, em articulação com as escolas;
iii) Definição de dispositivos de promoção do sucesso escolar e de estratégias de apoio aos alunos, em colaboração com as escolas;
c) No âmbito da gestão dos recursos humanos:
i) Recrutamento, gestão, alocação, formação e avaliação do desempenho do pessoal não docente;
ii) Recrutamento de pessoal para projetos específicos de base local;
d) A gestão orçamental e de recursos financeiros;
e) No âmbito da gestão de equipamentos e infraestruturas do ensino básico e secundário:
i) Construção, requalificação, manutenção e conservação das infraestruturas escolares;
ii) Seleção, aquisição e gestão de equipamentos escolares, mobiliário, economato e material de pedagógico.
Este texto continua.
Problemas «matematicamente estúpidos»
O modo como pensamos - como seleccionamos a nova informação, a organizamos e a ligamos a conhecimentos prévios - para dar resposta a problemas, mesmo que sejam problemas simples, revela-se, se lhe dermos a devida atenção, muitas vezes desconcertante.
A Psicologia tem procurado perceber como respondemos, por exemplo, a itens de avaliação académica, nomeadamente de Matemática. Uma das conclusões mais interessantes é a seguinte: as regras básicas de lógica, que temos por adquiridas, tendem a subordinar-se a elementos casuais.
Eis um bom exemplo:
A Psicologia tem procurado perceber como respondemos, por exemplo, a itens de avaliação académica, nomeadamente de Matemática. Uma das conclusões mais interessantes é a seguinte: as regras básicas de lógica, que temos por adquiridas, tendem a subordinar-se a elementos casuais.
Eis um bom exemplo:
“Em 1980, no Instituto de Investigação do Ensino da Matemática em Grenoble, um grupo de professores foi sujeito a uma série de experiências tão maquiavélicas como edificantes.
Numa quinzena de turmas dos cursos elementar e médio puseram problemas do género: «Num barco, há 12 ovelhas e 19 cabras. Qual é a idade do capitão?»
Ou, então,
«Numa turma há 12 raparigas e 13 rapazes, qual é a idade da professora»
Esperavam que a maior parte dos alunos notassem imediatamente o absurdo das questões. Esta prova deixou-os estupefactos.
No curso elementar apenas 10% dos alunos responderam que o problema era impossível; todos os outros combinaram os dois dados procurando uma solução.
No curso médio o panorama melhorou, mas muitos alunos ainda insistiram na procura duma solução.
Discutindo estes resultados preocupantes no decurso dum estágio de pedagogia, os professores decidiram ir mais longe: propõem a outros professores de matemática, em estágio numa sala próxima, um questionário composto por 15 problemas, de entre os quais 13 são «matematicamente estúpidos» - qualquer resposta só pode ser absurda ou inexacta. E a maioria dos professores caíram em todos as armadilhas!”
Lentin, J. P. (1994). Je pense donc je me tromp. Les erreurs de la science de Pythagore au Big Bang. Paris: Albin Michel, p. 209.
Ano Internacional da Luz
Ouvir aqui minha entrevista à Antena 2 sobre o Ano Internacional da Luz: aqui.
PORTILLO VAI DE LA CORUNA A LISBOA PASSANDO POR COIMBRA
P
Passou na BBC2. Coimbra, onde apareço, está a partir do minuto 43.
Passou na BBC2. Coimbra, onde apareço, está a partir do minuto 43.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
SYRIZA — a raiz de um nome
É a língua grega na origem da língua portuguesa, e de muitas
outras línguas europeias.
Por isso, e não só, se estuda o grego clássico: para conhecer
melhor a nossa língua, para compreender a nossa cultura, para perceber as
nossas RAIZES… para conhecer as raízes da filosofia, da matemática, da
escultura, da arquitectura, da… da…
etc.
Quem continuará a compreender tudo isto, num país onde os
estudos da cultura e da língua grega foram afastados das escolas? Um pequeno grupo de elite…
Isaltina Martins, 12 de Fevereiro de 2015
Ciência – contragolpe absoluto
Gonçalo Velho escreveu um artigo de opinião no Público, que com a devida vénia transcrevo. Eu não sei se Nuno Crato quando engendrou ou permitiu que alguém engendrasse este enviesado sistema de "avaliação" da ciência, imaginou que ele iria fazer correr tantos rios de tinta. Mas é tão mau, tão mau que durante muito tempo se irá falar dele como um exemplo de más práticas de gestão da ciência. Este blogue deixa aqui o registo destes tempos sombrios, para que amanhã haja memória do que deve ser evitado.
O conceito de contragolpe absoluto de Hegel pode bem ser aplicado aos últimos quatro anos de políticas de ciência. A apologia da excelência, que como significante-mestre albergava a clássica fórmula de “expurgar” os “maus” para acarinhar os “bons” (leia-se “excelentes”), é uma demonstração clara do entranhado da ideologia, entendida na nossa relação espontânea com o mundo.
Não é por isso de estranhar as erupções do discurso sobre os premiados, os medalhados, os reconhecidos, aqueles que conseguiam financiamentos volumosos, para depois vermos o apanágio maniqueísta: velhos vs. novos, acomodados vs. ativos, improdutivos vs. produtivos. Subjacente estava a inscrição da ideia de que a ciência não é para todos, mas apenas para os melhores, os que conseguem, invertendo-se aqui também a lógica da responsabilidade, que agora passa a residir apenas no próprio, independentemente das circunstâncias.
A excelência é o involucro vazio que suportou todo este edifício. Entretanto elidiam-se as contradições óbvias entre esta ideia e as ações da FCT: a quantidade de erros dos sucessivos processos de avaliação, a lógica “computer says no”, a discrepância entre avaliação e financiamento, ou a alteração da avaliação de algumas unidades contestatárias na 2.ª fase, dando sinal de que mesmo a reposição da dignidade e da justiça vem com um preço. Ultimamente, multiplicam-se os relatos de que o Governo pressiona os reitores e, consecutivamente, as unidades de investigação, com o envolvimento direto da sua figura de mais alto nível, na tentativa de que não avancem para ações judiciais. Para tal, acena-se com os seis milhões de euros ainda disponíveis. Sendo esta pressão verdade, a “excelência” encontrou um novo patamar. Nesse quadro, contestar judicialmente torna-se uma matéria que não é apenas da defesa da posição do próprio, mas a da dignidade e legitimidade do comum (a res publica). Talvez Heidegger tivesse razão quando disse que “só um deus nos pode ainda salvar”. Se ele existe, surge na ação da direção da unidade de I&D que primeiro conteste este processo em tribunal.
A excelência significou tudo e ao mesmo tempo nada, sendo aberta a todos os significados possíveis, uma profundidade que em si tem apenas um vazio. Para perceber o contragolpe, temos de atentar no exercício da negatividade desta política, tornado evidente pela produção contínua de um resto excluído. Veja-se os números de excluídos nos sucessivos concursos, que se articulam também com uma diminuição em dois terços do número de bolsas atribuídas. Muitos foram os que saíram do sistema, incluindo bolseiros, investigadores, ou mesmo unidades de investigação como um todo. Queremos acreditar que este não-todo será absorvido, mas a verdade é que muitos, cada vez mais, não terão lugar no sistema científico português. A razão é óbvia e advém de um erro de base na sua construção. A forma como cada um pensa este erro demonstra também o seu lugar na ideologia.
Vejamos três comportamentos que resultam deste cenário: o pragmático, a passagem ao ato e o retorno. O pragmático aceita jogar uma vez indicadas as regras do jogo e possui duas variantes: a identificação (cega e inocente) com a “excelência”, numa procura obstinada de um posicionamento em “rankings” e métricas, ou a sua variante cínica, que observa as regras embora discorde delas, assumindo uma sabedoria básica feita de expressões como “inocente mas não... (tolo, etc.)”. A desigualdade inscrita no sistema, a sua tendência para Um, fará com que a produção da exclusão se mantenha, para desencanto de muitos pragmáticos excluídos. Nem a lógica do capitalismo cognitivo, ou da tecnociência, consegue superar essas contradições, produzindo um contínuo resto, impossível de assimilar.
A passagem ao ato é sobretudo visível com a contestação, nomeadamente com as manifestações a que assistimos há cerca de um ano. A falta de resposta a esta passagem ao ato dá lugar a uma saída, que podemos atestar em dois movimentos: a emigração (maciça e resposta dominante), ou a busca de um sistema científico alternativo. Essa procura contém em si algum dos elementos sublimados do sistema presente, que importa seguir com atenção.
Por fim, o retorno, mais visível na secreta esperança de que o futuro governo reverta todas as medidas tomadas até aqui. Parece aguardar-se que tudo volte ao que era. Ora esta visão do retorno possui uma falácia evidente: a sua nostalgia. O futuro não é um passado primordial passível de ser reconstituído, nem esse passado estava isento de contradições.
A nossa incapacidade de pensar para além deste limite demonstra-nos a tensão vigente que nos prende entre o anterior e a negatividade presente. A resolução não surgirá no processo de síntese entre um e outro momento. Ela será sobretudo acentuada pelo retorno do que era já reprimido e excluído no primeiro momento. E é aqui que importa criar espaço, sendo fundamental recuperar o trabalho na organização e na representação.
Veja-se a questão da precariedade, exemplo basilar do reprimido e excluído, apresentando-se como problema que é fundamental ser superado. Temos também as barreiras entre carreira docente e carreira de investigação, que constrangem e colocam falsas dicotomias.
Como é óbvio, a resolução destes problemas exige um espaço. A própria repressão da ideia de sindicato é o pronúncio do seu retorno (muitas vezes numa pretensa forma “descafeinada”). A política do futuro determina-se agora. É fundamental que saibamos abrir o espaço que ultrapassa a aporia da ciência no presente. Como é óbvio, ela exige uma inscrição. Esse é um ato que se torna premente.
Gonçalo Velho
Vice-presidente da direcção do SNESup
PASSOS COELHO, CAVACO SILVA E A GRÉCIA
Tivemos definitivamente azar com os nossos mais recentes governantes. A propósito da Grécia, o primeiro-ministro tomou uma atitude radical defendendo à outrance a austeridade: ele não quer saber das eleições e o eleitorado nas eleições não quererá saber dele. Um grupo de cidadãos de todos os partidos já pediu para ele reconsiderar, mas dele nada já se espera. Por seu lado, o Presidente, em vez de tomar uma atitude moderada e conciliadora, apercebendo-se da relevância do momento negocial que se vive na Europa, veio lembrar, de forma infeliz, o dinheiro que os gregos nos devem. Não mostrou sensibilidade nenhuma para a necessidade de coesão europeia, algo que deveríamos reclamar.
CORTES NA CIÊNCIA EUROPEIA?
O Comissário Carlos Moedas tinha uma relação muito ténue com a ciência e desde que está no poder como Comissário Europeu para a Ciência ainda não mostrou uma relação forte. Poderemos dizer que está a aprender, se quisermos ser generosos. Mas facto é que se receiam cortes na ciência na Europa tal como em Portugal, o país onde Carlos Moeda foi secretário de Estado: ver aqui.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
A OPACIDADE DA FCT
A FCT e Ministério da Educação e Ciência são opacos em relação ao financiamento das unidades de investigação. Afinal, parece que a "avaliação" da ESF-FCT pouco interessava para o financiamento mas apenas para avaliar a subtracção que a FCT fazia em relação ao pedido por cada centro. Alguns centros queriam mais? Pois podiam ter pedido mais! Esta "explicação" da FCT não faz, porém, sentido nenhum porque houve centros, chumbados na famigerada 1.ª fase, a quem foi recusado qualquer financiamento por, imagine-se, terem pedido pouco! A propósito: quando é que há resposta à mais de uma centena de protestos da primeira fase?
Não devia ter sido antes da 2.ª fase? E quando haverá resposta aos numerosos protestos da segunda fase? Quantos são? Também não há prazo? E por que é que a FCT não anuncia de uma vez por todas qual foi a parte de financiamento de base e qual foi a parte "estratégica"? A FCT, que é tão lesta a lembrar as obrigações dos outros, esquece-se de cumprir as suas próprias obrigações. Esta FCT pura e simplesmente não é fiável. E o ministro continua a ver a sua base de confiança sumir-se ao continuar a deixar a ciência ao abandono.
Transcrevo notícia de Samuel Silva do Público on-line de hoje:
"Os reitores das universidades pediram ao Ministério da Educação e Ciência (MEC) uma explicação para os critérios que determinaram as verbas atribuídos aos diferentes centros de investigação no âmbito da segunda fase da avaliação dos laboratórios científicos promovida pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). “Estamos a tentar dialogar com o Governo no sentido de pode haver uma minimização dos problemas que esta avaliação tem”, informa o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), António Cunha.
A avaliação da FCT foi um dos temas em discussão no plenário do CRUP, que decorreu esta terça-feira. O presidente daquele órgão não esconde a “preocupação” existente em torno desta matéria, em particular a questão das dotações financeiras definidas na segunda fase de avaliação. O regulamento previa a distinção entre financiamento de base (para despesas correntes) e financiamento estratégico para cada unidade, mas a lista divulgada não permite perceber como se chegou à verba atribuída a cada laboratório.
As regras para atribuição do financiamento que foram divulgadas pela FCT em Janeiro – já depois de conhecidos os resultados da avaliação – mostram que, de facto, o principal critério usado para a atribuição das verbas anuais para o funcionamento dos laboratórios para despesas correntes e estratégicas foram os orçamentos apresentados pelas próprias unidades de investigação. “A base para o cálculo do financiamento para o período 2015-2020 foi o financiamento solicitado por cada unidade para cumprir o programa estratégico proposto”, lê-se no documento da FCT. Ao valor pedido por cada laboratório, era retirada uma determinada percentagem (entre 20 e 64%) em função de um conjunto de critérios “considerando os resultados da avaliação e a disponibilidade orçamental”.
O facto de o financiamento anual ter tido em conta, sobretudo, o orçamento pedido por cada laboratório levou às discrepâncias encontradas pelo PÚBLICO, quando ordenou as 178 unidades de investigação avaliadas na segunda fase tendo em conta o rácio entre o financiamento atribuído e o número de cientistas integrados em cada centro. O resultado é uma lista totalmente diferente da que se obtém tendo em conta apenas a nota atribuída pela FCT. Só três dos 11 laboratórios aos quais foi dada classificação de “excepcional”, a mais elevada, estão entre os dez com financiamento “per capita” mais elevado.
É “muito importante” que este assunto possa ser resolvido “de forma coerente”, sublinha António Cunha. De resto, o CRUP não mudou a posição “que já é conhecida” desde Outubro sobre este processo. Nessa altura, numa carta enviada ao ministro Nuno Crato, os reitores arrasaram a avaliação da FCT, classificando-a de “falhanço pleno” e acusando-a de não ter “a necessária qualidade”."
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