Isaltina Martins e Maria Helena Damião
Num texto ainda recente com o título O 'Você' (ver aqui), Jorge Mangorrinha, pós-doutorado em Turismo, disserta sobre uma "epidemia silenciosa" que vê espalhar-se pelos hotéis portugueses: a “vocêite aguda”. E diz que os sintomas são fáceis de identificar.
"O cliente entra no hotel e, antes de pousar a mala, já ouve:
— Você tem reserva?”
Ainda não recuperou do impacto e já lhe perguntam:
— Você quer ajuda com as bagagens?
Chega ao quarto e toca o telefone:
— Você está satisfeito com o alojamento?
Desce para jantar:
— Você prefere água com ou sem gás?
E, na manhã seguinte, quando tenta escapar discretamente para a receção:
— Você já fez o check-out online?"
Estranha epidemia sobretudo porque nunca houve tantos cursos de Turismo. Talvez o problema venha mais detrás, da família:
"Durante décadas, ensinou-se às crianças que tratar alguém por “você” era a forma mais educada possível. O problema é que se esqueceu de explicar que a palavra, em Portugal, pode soar tão delicada como uma colher de sopa a raspar um quadro de ardósia. Cresceram gerações convencidas de que estavam a distribuir elegância verbal (...). A escola também colaborou. Ensinou análise sintática, orações subordinadas e a diferença entre predicativo do sujeito e complemento oblíquo. Mas raramente explicou o subtil ecossistema das formas de tratamento portuguesas. O aluno de Turismo ouve falar de números e métodos quantitativos, mas sai incapaz de perceber porque motivo um hóspede de oitenta anos franze o sobrolho quando lhe perguntam:
— Você deseja mais café?
Depois aparecem os diretores hoteleiros. Frequentam congressos internacionais, assistem a palestras sobre excelência, liderança transformacional, benchmarking, upselling, storytelling, networking e outras palavras terminadas em ing.
Porém, quando chega o momento de formar equipas na arte do acolhimento, resolvem tudo com uma frase inspiradora. — Tratem os clientes com simpatia.
E a simpatia, sem orientação, transforma-se num festival linguístico.
Na receção, o funcionário esforça-se por ser cordial.
— Você pode assinar aqui?
No restaurante, o empregado procura ser prestável.
— Você gostou do bacalhau?
No bar, o barman tenta criar proximidade.
— Você quer mais um gin? (...)
Ao fim de dois dias, o hóspede sente-se menos cliente e mais arguido num interrogatório particularmente educado. O mais extraordinário é que muitos profissionais desconhecem alternativas. Ignoram a elegância simples do verbo na terceira pessoa sem pronome:
— Deseja ajuda com as malas?
— Tem reserva?
— Gostou da refeição?
— Precisa de alguma coisa?
Frases que circulam suavemente, sem atritos, sem embaraços, sem aquele ruído social que faz o interlocutor perguntar-se se acabou de ser tratado por amigo íntimo, vizinho distante ou suspeito habitual.
E porque é que trouxemos este texto para aqui se nada temos a ver com turismo?
Porque, ao lê-lo, percebemos que a epidemia não se restringe a esse reduto, encontramo-la na universidade, em diversas formas:
Mais delicadas: — Professora, olhe lá, você...
Mais directas: — Depois você avisa-nos?
Mais investidas: — O que é que você achou do meu trabalho?
E a nossa impressão é que se alastra e agrava. Há uns anos, uma de nós ouvia o tal você de tempos a tempos, seguia-se a explicação: enfim, você... há outras formas de tratamento pessoal, no caso, na academia... Tendo passado a ouvi-lo quotidianamente, desistiu da explicação individual e tentou a explicação colectiva, com a devida integração nas "matérias". O insucesso é óbvio: os estudantes parecem entender, mas logo a seguir voltam, candidamente, ao rotineiro você.
Um destes dias, uma estudante, simpática e de boa-vontade, foi confiada à outra de nós para realizar uma certa tarefa. Nas suas primeiras palavras constava o bendito você. Teve uma explicação individualizadíssima e completíssima. Resultou? Não! A estudante continua, sorridente, atenciosa, delicada, a usar o você.
Claro, a culpa é também de muitos de nós, que vamos objectando:
— os tratamentos em português são muito complicados...
— os ingleses não têm esse problema, é tudo "TU"... claro, o you serve para tudo...
— são as manias das doutorices... das diferenças sociais... agora é tudo mais igual...
E assim mostramos desconhecer ou não querer conhecer, a riqueza da nossa língua e as diferentes formas de tratamento que dependem da familiaridade, da intimidade, da confiança, do estatuto do nosso interlocutor, da relação com ele.
Não tratamos do mesmo modo o nosso amigo e a pessoa desconhecida que encontramos na rua (seja essa pessoa quem for); um jovem ou uma pessoa mais idosa; os nossos amigos ou um professor, um empregado do bar, etc.
Nesse tratamento, a maior parte das vezes, o você, ou qualquer uso pronominal, é perfeitamente desnecessário, o você não está ali a fazer nada... só a mostrar falta de cortesia, de educação linguística...
Deixar o você de parte não é "mania de superioridade", "complexo de inferioridade", ou tentativa de esbater diferenças sociais ou outras, trata-se de educação, de respeito, pelo mais velho, pelo superior hierárquico, pelo desconhecido...
Vivemos em Portugal, numa sociedade que tem normas, regras, às vezes subtis, para nos tratarmos uns aos outros, sendo que é na língua que encontramos a sua expressão. Falemos, então, português ou, pelo menos, tentemos...
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