Como é sabido, nesta legislatura, o Ministério da Educação mudou mais uma vez de nome. Chama-se Ministério da Educação, Ciência e (como não poderia deixar de ser) da Inovação. É o MECI.
O MECI, com redobrada febre de inovar, declarou que faria mudanças substanciais em várias frentes ou, talvez, em todas.
A mudança mais estrutural terá sido a fusão de sectores em que o sistema se repartia. Como (ainda) não a estudei não me pronuncio sobre ela. Sei, no entanto, que daí resultou o EduQa. Estranha designação, estranho logótipo; modernos, é certo, mas destituídos de sobriedade e sonoridade institucional.
Sendo responsável pelo currículo (melhor, pela inovação curricular), decretou a revisão dos standards disciplinares designados por "Aprendizagens Essenciais", os quais se encontram em consulta pública (quando serão apresentadas as novas versões?). Também reestruturou a componente de cidadania: atribuiu-lhe um novo cerne (educação financeira e empreendedorismo), produziu standards gerais e acolheu standards específicos para áreas que ainda os não tinham.
Sendo responsável pela avaliação (melhor, pela inovação avaliativa), apostou na digitalização, em que se vinha a insistir. Se as mexidas curriculares causam tumultos (e isso tem acontecido), as suas consequências não são visíveis no imediato e, portanto, entre retóricas mais ou menos retorcidas, lá vão avançando, mas o mesmo não acontece com os exames nacionais de final de ciclo, com destaque para os do ensino secundário.
Neste ano, com esses exames, parece confirmar-se a Lei de Murphy: "se alguma coisa puder correr mal, correrá mal".
Deixemos de lado aspectos incompreensíveis que vêm de trás, como o exame de Português integrar um número significativo de perguntas de escolha múltiplas, e foquemo-nos em incidentes de que se tem dado ampla conta na comunicação social (podemos inferir que muitos outros haverá):
No exame dessa mesma disciplina constou uma pergunta muitíssimo aproximada de outra que constava num manual de preparação para os exames, publicado por certa editora que labora na área dos recursos educativos.
Chamado a explicar-se pelo próprio Ministro, o Conselho Científico do EduQa apresentou, na pessoa da sua presidente, um parecer sobre esse exame, supostamente redigido à revelia dos conselheiros deste órgão (ver aqui). Face à estranheza que tal causou, ressurgiu como "Parecer da Comissão Especializada da área de Português do Conselho Científico do EduQa sobre o item do Exame Final Nacional de Português" (ver aqui). Ora, essa comissão será inexistente (ver aqui).
No respeitante ao exame de Matemática, a Sociedade Portuguesa de Matemática elaborou um parecer de grande pormenor. O registo, que apresenta fundamento sólido, nada tem de abonatório. Relembra a falta de atenção por parte do Ministério a recomendações que havia feito para a avaliação em causa (ver aqui).
Entretanto, a entrega dos exames aos professores classificadores não aconteceu conforme o estabelecido no calendário oficial, está atrasada não umas horas, mas alguns dias. O Ministério pede-lhes que "aguardem com serenidade" ainda que mantenha a data limite (ver aqui).
Entretanto, a entrega dos exames aos professores classificadores não aconteceu conforme o estabelecido no calendário oficial, está atrasada não umas horas, mas alguns dias. O Ministério pede-lhes que "aguardem com serenidade" ainda que mantenha a data limite (ver aqui).
É a primeira vez que a classificação da generalidade dos exames se faz, não em papel, mas numa plataforma informática (Plataforma de Classificação e
Supervisão - PCS). Tendo a maior parte dos exames sido realizados em papel, foi preciso digitalizar uma imensidão inimaginável de folhas (cada enunciado é composto por muitas folhas). Ao que parece o trabalho foi confiado a uma empresa (cuja identidade não é revelada).
Dizem muitos desses professores que a plataforma de suporte à classificação não funciona devidamente: "vai abaixo". Acontece muito com as plataformas...
Mas, já tem disponíveis respostas para classificar, só que algumas por falha da digitalização, não terminam; a sua continuação estaria na página seguinte, que não existe. Também chegam itens a professores de uma disciplina que são de outra disciplina. Acresce que a nitidez proporcionada pela digitalização parece não ser a melhor (ver aqui).
Não é de menor importância que professores aposentados, entre os quais está um falecido, tivessem sido convocados como classificadores (ver aqui). Estes erros atribui-os o Ministério a informação que lhes foi enviada pelas escolas (ver aqui).
Também o exame de Matemática do 9.º ano esteve longe de correr bem. Concebido para ser usado, com fins comparativos, ao longo de vários anos, no final do dia em que foi passado, o seu enunciado circulava nas redes sociais. A segurança revelou-se nula.
Entretanto, sobe o tom de múltiplas vozes críticas, sobretudo de professores com protagonismo na comunicação social.
O que diz o EduQA "organismo público responsável pela qualidade"?
Reconhece a "existência de algumas dificuldades técnicas" mas assegura, que estão a ser solucionadas" (ver aqui) e "reitera que, não obstante os constrangimentos
naturais de um processo inovador — implementado pela primeira vez no
sistema educativo e de elevada complexidade logística e tecnológica —,
dará cumprimento à sua missão fundamental: assegurar a realização das
provas de avaliação externa e a divulgação dos respetivos resultados nos
prazos definidos, com rigor, qualidade e serenidade” (ver aqui).
Temo, em particular, a manifestação de um dos corolários da irónica Lei de Murphy: "Toda a
solução gera novos problemas".
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