domingo, 24 de junho de 2018

"A civilização requer energia, mas o uso de energia não deve destruir a civilização!"

No início deste mês, o Papa Francisco recebeu no Vaticano representantes de multinacionais de energia e pediu-lhes que olhassem para a "nossa casa comum": o planeta. E para quem não tem, nessa casa, as condições de vida digna. O mundo e as pessoas têm de ser pensados em conjunto, se queremos salvar a civilização.

O registo escrito é de uma grande lucidez e sensibilidade. Considerado na sua globalidade, percebe-se que poderia ser assinado por um cientista, um filósofo ou um educador. Isto significa que não é a religião, a formação, a nacionalidade ou outro qualquer elemento distintivo que deve afastar quem tem boa-vontade para encarar um problema tão sério como o que está em causa.

Faço um extensa transcrição desse registo (que pode ser encontrado aqui) porque as palavras são, na verdade, necessárias.
Hoje, mais do que nunca, vastas áreas da nossa vida dependem de energia. Lamentavelmente, é um facto que grande número de pessoas no nosso mundo - segundo algumas estimativas, mais de um bilião - não tem acesso à eletricidade.  
Claramente, somos desafiados a encontrar maneiras de assegurar o imenso suprimento de energia necessário para atender às necessidades de todos, ao mesmo tempo que desenvolvemos meios de usar recursos naturais que evitem a criação de desequilíbrios ambientais que resultam em deterioração e poluição gravemente prejudiciais à nossa família humana, agora e no futuro. 
A qualidade do ar, o nível do mar, as reservas adequadas de água doce, o controlo climático e o equilíbrio de ecossistemas delicados, todos são necessariamente afetados pela maneira como os seres humanos satisfazem a sua “sede” de energia, muitas vezes, é triste dizê-lo, com graves disparidades. 
Não está certo saciar essa “sede” aumentando a sede física de outras pessoas por água, a sua pobreza ou a sua exclusão social. A maior necessidade de fornecimento de energia e mais prontamente disponível para operar máquinas não pode ser satisfeita com o preço de poluir o ar que respiramos. 
A necessidade de expandir espaços para as atividades humanas não pode ser satisfeita de maneira a comprometer seriamente a nossa própria existência ou a de outras espécies vivas na Terra. 
É uma «falsa noção pensar que uma quantidade infinita de energia e recursos está disponível, que é possível renová-la rapidamente, e que os efeitos negativos da exploração da ordem natural podem ser facilmente absorvidos» 
A questão da energia tornou-se um dos principais desafios, na teoria e na prática, diante da comunidade internacional. A forma como enfrentamos esse desafio determinará a nossa qualidade de vida em geral e a real possibilidade de resolver conflitos em diferentes áreas do mundo ou, devido a graves desequilíbrios ambientais e falta de acesso a energia, fornecendo-lhes novo combustível para destruir a estabilidade social e vidas humanas. 
Daí a necessidade de elaborar uma estratégia global de longo prazo capaz de proporcionar segurança energética e, ao estabelecer compromissos precisos para enfrentar o problema das mudanças climáticas, estimular a estabilidade económica, a saúde pública, a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento humano integral. É urgente mudar as fontes de energia. 
Na minha Encíclica "Laudato si'" apelei a todas as pessoas de boa vontade para o cuidado da nossa casa comum, e especificamente para uma «transição energética» que visasse evitar mudanças climáticas desastrosas que poderiam comprometer o bem-estar e o futuro da família humana e a nossa cada comum. 
A este respeito, é importante que sejam envidados sérios esforços para a transição para uma maior utilização de fontes de energia que sejam altamente eficientes, ao mesmo tempo que produzem baixos níveis de poluição. Este é um desafio de proporções epocais. 
Ao mesmo tempo, é uma oportunidade imensa para encorajar esforços que assegurar maior acesso à energia por parte dos países menos desenvolvidos, especialmente em áreas periféricas, bem como para diversificar as fontes de energia e promover o desenvolvimento sustentável de formas renováveis de energia. Emissões poluentes continuam altas, o que é «perturbador» 
Sabemos que os desafios que enfrentamos estão interligados. Se quisermos eliminar a pobreza e a fome, como exigem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, os mais de um bilião de pessoas que hoje não têm eletricidade precisam de ter acesso a ela. Mas essa energia também deve ser limpa, através de uma redução no uso sistemático de combustíveis fósseis. O nosso desejo de assegurar energia para todos não pode levar ao efeito indesejado de uma espiral de mudanças climáticas extremas devido a um aumento catastrófico das temperaturas globais, ambientes mais hostis e aumento dos níveis de pobreza. 
Como sabeis, em dezembro de 2015, 196 nações negociaram e adotaram o Acordo de Paris, com uma firme determinação de limitar o crescimento do aquecimento global a menos de 2° centígrados, com base nos níveis pré-industriais e, se possível, abaixo de 1,5° centígrados. Cerca de dois anos e meio depois, as emissões de dióxido de carbono e as concentrações atmosféricas de gases de efeito de estufa permanecem muito altas. Isso é perturbador e causa de preocupação real. 
Ainda mais preocupante é a busca continuada de novas reservas de combustível fóssil, quando o Acordo de Paris insistia claramente em manter a maioria dos combustíveis fósseis no subsolo. 
É por isso que precisamos de conversar juntos - indústria, investidores, investigadores e consumidores - sobre a transição e a busca de alternativas. 
A civilização requer energia, mas o uso de energia não deve destruir a civilização! 
A criação de um “mix” energético adequado é essencial para combater a poluição, eliminar a pobreza e promover a igualdade social. Esses aspetos reforçam-se muitas vezes mutuamente, uma vez que a cooperação no campo da energia influencia o alívio da pobreza, a promoção da inclusão social e a proteção do meio ambiente. 
Estes são objetivos que, para serem alcançados, exigem respeito pelos direitos dos povos e das culturas. Medidas fiscais e económicas, a transferência de capacidades tecnológicas e, mais genericamente, a cooperação regional e internacional em áreas como o acesso à informação, devem ser consistentes com esses objetivos. Estes não devem ser vistos como o produto de uma ideologia particular, mas como objetivos de uma sociedade civilizada que contribui para o crescimento económico e a ordem social. 
Qualquer exploração do meio ambiente que se recusasse a considerar essas questões de longo prazo poderia apenas tentar estimular um crescimento económico de curto prazo, mas a longo prazo teria certamente um impacto negativo, afetando a igualdade intergeracional e o processo de desenvolvimento. Uma avaliação crítica do impacto ambiental das decisões económicas será sempre necessária, a fim de levar em conta os seus custos humanos e ambientais de longo prazo. 
Na medida do possível, tal avaliação deve envolver instituições e comunidades locais nos processos de tomada de decisão.
Como resultado dos vossos esforços, houve progresso. As empresas de petróleo e gás estão a desenvolver abordagens mais cuidadosas para a avaliação do risco climático e a ajustar em concordância as suas práticas comerciais. Isso é louvável. Os investidores globais estão a apurar as suas estratégias de investimento para levar em conta questões ambientais e de sustentabilidade. 
Novas abordagens para “finanças verdes” estão a começar a surgir. O progresso foi de facto feito. Mas é suficiente? Vamos conseguir virar a página a tempo? Ninguém pode responder com certeza, mas a cada mês que passa o desafio da transição energética torna-se mais premente. Decisões políticas, responsabilidade social por parte da comunidade empresarial e critérios de investimento - tudo isso deve ser orientado pela busca do bem comum a longo prazo e pela solidariedade concreta entre as gerações. 
Não deve haver espaço para esforços oportunistas e cínicos para obter pequenos resultados parciais no curto prazo, enquanto se transferem custos e danos igualmente significativos para as gerações futuras. 
Há também razões éticas para avançar na transição energética global com um sentido de urgência. Como sabemos, todos são afetados pela crise climática. No entanto, os efeitos da mudança climática não são distribuídos uniformemente. São os pobres que mais sofrem com os estragos do aquecimento global, com a crescente perturbação no setor agrícola, a insegurança da água e a exposição a eventos climáticos severos. 
Muitos dos que menos podem pagar já estão a ser forçados a deixar as suas casas e a migrar para outros lugares que podem ou não ser bem acolhidos. Muitos mais precisarão de o fazer no futuro. 
A transição para a energia limpa e acessível é um dever que devemos a milhões dos nossos irmãos e irmãs em todo o mundo, países mais pobres e gerações ainda por vir. 
O progresso decisivo nesse caminho não pode ser feito sem uma consciência crescente de que todos nós fazemos parte de uma única família humana, unidos por laços de fraternidade e solidariedade. Só pensando e agindo com preocupação constante por essa unidade subjacente que supera todas as diferenças, só cultivando um sentido de solidariedade intergeracional universal, podemos posicionar-nos realmente e com determinação no caminho a seguir. 
Um mundo interdependente está a chamar-nos para conceber e implementar um projeto comum de longo prazo que invista hoje para construir para o futuro. 
O ar e a água não obedecem a leis diferentes consoante os países que atravessam; os poluentes não agem de forma diferente dependendo da localização geográfica: seguem as mesmas regras em todos os lugares. 
Os problemas ambientais e energéticos têm agora impacto e extensão global. Consequentemente, exigem respostas globais, a serem buscadas com paciência e diálogo e a serem perseguidas racional e perseverantemente. 
A confiança ilimitada nos mercados e na tecnologia levou muitas pessoas a acreditar que as mudanças nos sistemas económicos ou tecnológicos seriam suficientes para remediar os atuais desequilíbrios ecológicos e sociais. 
No entanto, devemos reconhecer que a procura pelo crescimento económico contínuo levou a graves consequências ecológicas e sociais, já que o nosso atual sistema económico prospera com a crescente extração, consumo e desperdício (...). 
Refletir sobre essas questões culturais subjacentes mais profundas leva-nos a pensar de novo sobre o próprio propósito da vida. «Não pode haver renovação de nossa relação com a natureza sem uma renovação da própria humanidade» ("Laudato si’", 118). 
Tal renovação exige uma nova forma de liderança, e esses líderes devem ter uma perceção clara e profunda de que a Terra é um sistema único e que a humanidade, da mesma forma, é um todo único (...). 
Os deveres que temos para com o ambiente estão ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em relação com os outros; não se podem exigir uns e espezinhar os outros. 
Esta é uma grave antinomia da mentalidade e do costume actual, que avilta a pessoa, transtorna o ambiente e prejudica a sociedade» ("Caritas in veritate", 51). 
Queridos irmãos e irmãs, apelo de forma particular a vós, como homens e mulheres tão grandemente abençoados em termos de talento e experiência. É minha esperança que, tendo demonstrado a vossa aptidão para a inovação e para melhorar a vida de muitas pessoas pela sua criatividade e experiência profissional, usareis essas habilidades ao serviço de duas grandes necessidades no mundo de hoje: o cuidado dos pobres e do meio ambiente. 
Convido-vos a serdes o núcleo de um grupo de líderes que visualize a transição energética global de uma maneira que leve em consideração todos os povos da Terra, bem como as futuras gerações e todas as espécies e ecossistemas. 
Que isso seja visto como a maior oportunidade de liderança de todos, que possa fazer uma diferença duradoura para a família humana e que possa apelar aos sonhos e ideias mais ousados. Isso não é algo que pode ser realizado por vós como indivíduos ou apenas pelas vossas empresas. Ainda assim, pelo menos trabalhando juntos, pode haver uma oportunidade para uma nova abordagem que não tenha sido evidenciada até agora (...).

Sem comentários:

Enviar um comentário

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.