domingo, 20 de novembro de 2016

Três coisas que se calhar não sabia sobre a fuga de cérebros


A minha crónica, publicada hoje na Visão:

Conheço muitos cientistas, de várias áreas e nacionalidades. Cruzei-me com bastantes ao longo da minha vida como investigador. Outros, encontrei-os na pele de divulgador de ciência. Boa parte deles trabalham no estrangeiro. No último ano, enquanto coordenador da rede GPS - Global Portuguese Scientists, que estávamos a preparar, conheci ainda mais investigadores portugueses que residem noutros países. Fui pela segunda vez ao Luso, o encontro de investigadores e estudantes portugueses no Reino Unido, organizado pela sua associação, a PARSUK. Participei também no encontro anual da PAPS, organizado pela associação de pós-graduados portugueses na América do Norte. Conheci investigadores das associações congéneres na Alemanha (a ASPPA) e em França (a AGRAFr), assim como da Native Scientists. Falei também com muitos que estão em países (como a Arabia Saudita ou a Austrália) que não têm associações de investigadores portugueses. Dessa experiência retiro algumas impressões.

A primeira é que os investigadores portugueses residentes no estrangeiro, em geral, querem ter um pé em Portugal. Gostariam de aprofundar os contactos com o nosso país, independentemente de quererem ou não regressar. De terem mais reconhecimento e visibilidade em Portugal e de uma voz no debate público.

A segunda é que, obviamente, há um grande potencial de competência e conhecimento na diáspora científica. Não apenas o que levaram daqui, mas o que desenvolveram nos países de acolhimento. Muitos emigraram em início de carreira evoluíram como investigadores em sistemas científicos mais maduros do que o nosso. Que, apesar da grande e negável evolução nas últimas décadas, ainda não se encontra no mesmo patamar de alguns dos países que são polos de atracção para os investigadores portugueses (Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e França, por exemplo). O potencial que levaram daqui, na maior parte dos casos, evoluiu bastante.

Em terceiro lugar, os cientistas portugueses residentes no estrangeiro não estão necessariamente perdidos para o nosso país. Alguns poderão regressar e trazer com eles conhecimento, tecnologia e contactos. Cada vez que um investigador muda de sítio, isso é uma transferência de conhecimento e de tecnologia. Mas mesmo os que não regressam podem ter um papel no desenvolvimento da ciência em Portugal, se estabelecerem contactos e colaborações com grupos de investigação no nosso país. Com benefício para ambas as partes. Há muitos colaborações internacionais entre cientistas portugueses e investigadores estrangeiros que estão noutros países, que são frutíferas para todos os envolvidos. O mesmo pode, natural e mais facilmente, acontecer quando os investigadores no estrangeiro são portugueses.

Portugal tem de ter obviamente condições atractivas para os investigadores e para o desenvolvimento da ciência, sob pena de se auto-condenar ao subdesenvolvimento e à subalternidade no quadro europeu e internacional. Mas, face à mobilidade que é habitual nas carreira científica, e tendo em conta que há países que continuarão a ser polos de atracção para os investigadores, é plausível que muitos portugueses continuem a desenvolver pelo menos parte das suas carreiras lá fora. Por isso é vital que consigamos criar uma relação simbiótica de maior proximidade com a diáspora científica. E nisso a rede GPS - Global Portuguese Scientists - quer e pode ajudar. O GPS é uma rede que coloca os investigadores portugueses no mapa, que facilita contactos entre eles e com a sociedade portuguesa. Parte (mas não se esgota) de uma plataforma on-line, que foi aberta a registos do dia 7 de Novembro. Nos primeiros dias foram ultrapassadas as 1000 inscrições, e todos os dias aumentam. A especular adesão dos investigadores portugueses no estrangeiro mostra que estes querem manter o contacto com Portugal. E isso é bom para todos.

David Marçal
Coordenador da rede GPS

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