quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O PAPEL DE MEMÓRIA NAS APRENDIZAGENS ESCOLARES

Meu artigo de opinião publicado hoje (in  “ Diário As Beiras”), com substituição do  último parágrafo do texto:

 “- V. Ex.ª tem boa memória, sr. Maia?
- Tenho uma razoável memória.
- Inapreciável bem de que goza!”
Eça de Queirós (“Os Maias”)

Segundo Vitorino Magalhães Godinho, “dispensou-se a memorização da tabuada ou das regras da gramática, como das datas mais importantes da história de Portugal. E de modo geral receia-se que recorrer à memória afecte os frágeis cérebros infantis ou juvenis” ("Problemas da Institucionalização das Ciências Sociais e Humanas em Portugal", Revista da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Lisboa, 1989).

O cérebro e a memória são matérias para mim particularmente gratas. Existe uma má memória dos alunos (na gíria académica, os chamados marrões) que, sem perceberem patavina da matéria estudada, papagueavam nos exames orais, ou
escarrapachavam ipsis verbis, no papel das provas, os livros e sebentas. Quiçá por esse facto generalizou-se o princípio de que a memória pode andar arredada da inteligência, um conceito abstracto que abarca uma panóplia imensa de formas de aptidão para as ciências, para as humanidades, para as belas-letras e artes, para a prática desportiva, etc. E isto sem falar na inteligência emocional, estudada por António Damásio, neurocientista português de prestígio internacional e autor do bestseller :“O erro de Descartes” (1994).

Quinze anos antes, David
Krech, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, escreveu em “Cérebro e Comportamento” (Salvat do Brasil, Rio de Janeiro, 1979, p. 84):

“Acreditava-se que havia uma distinção radical entre o comportamento racional e e o comportamento emocional No entanto, os modernos estudos sobre o cérebro demonstram que esta dicotomia carece completamente de significado. Quando falamos de cérebro temos de especificar se se trata de todo o cérebro ou apenas do córtex cerebral, pois há toda outra parte do cérebro, a parte mais antiga (sob o ponto de vista de desenvolvimento das espécies) que é a parte mais intimamente ligada com as emoções".

À pergunta
“em que situação se encontram actualmente as pesquisas no campo da neurofisiologia?”, respondeu de forma sugestiva: “A neurofisiologia encontra-se num sótão escuro procurando um gato escuro, sem ter a certeza que ele ali está. Seu único indício são leves ruídos que parecem miados” (ibid., pp. 87 e 88).

Apesar das surpreendentes descobertas sobre o cérebro que a tomografia por emissão de
positrões (TEP) tem proporcionado, receio que as indagações do filósofo, matemático e físico Blaise Pascal tardem em encontrar uma resposta científica: “Que quimera é o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que prodígio? Juiz de todas as coisas, verme imbecil, cloaca de incerteza e de erro, glória e nojo do Universo. Quem deslindará esta embrulhada?”

Todas as formas de inteligência, ou aptidões atrás elencadas, fazem parte do nosso código genético, em localizações corticais com funções específicas e respectivas associações na dependência da acção das substâncias químicas (os neurotransmissores), enfim de todo o corpo, numa condição sintetizada pelo psiquiatra alemão Ernest Krestchemer: “O homem pensa com o corpo todo”.

Devido à sua plasticidade, o cérebro, interagindo com o meio ambiente e se exercitado através de uma “ginástica” apropriada, pode melhorar, até um determinado limiar, o seu desempenho. Em condições patológicas, como, por exemplo, nos acidentes vasculares cerebrais (AVC), fica-se a dever à acção vicariante das zonas corticais não atingidas, e à força de vontade do paciente, o maior ou menor êxito da reabilitação funcional.

Para melhor se compreender a complexidade anatómica e funcional do cérebro, nada melhor do que ouvir o
neurocientista Richard Thompson, da Universidade de Carolina do Sul: “O cérebro humano consta aproximadamente de 12 biliões de neurónios e o número de interconexões entre eles é superior ao das partículas atómicas que constituem o universo inteiro”. São números impressionantes que escapam ao entendimento comum. Para a fisiologia, “o fundamento da memória reside nas mudanças eléctricas que se produzem no cérebro quando se recorda alguma coisa".

Nos fenómenos cerebrais entra em jogo a memória, que é indispensável à
aprendizagem. Para compreender o papel da memória na aprendizagem os neurofisiologistas prevêem ser necessária a colaboração de professores, psicólogos, neurologistas e bioquímicos. A memória vai sendo perdida com a idade (daí o interesse em exercitá-la em idades avançadas), assumindo-se como uma verdadeira patologia na doença de Alzheimer.

A memória, no nosso dia-a-dia, é uma verdadeira biblioteca para a
inteligência e para as suas funcionalidades: o pensamento e o raciocínio. A inteligência depende de uma associação de ideias, pois como nos diz M. L. Abercrombie, que se dedicou ao estudo dos processos de percepção e raciocínio, “nunca nos encontramos perante um acto de percepção com a mente inteiramente em branco, pois estamos sempre em estado de preparação ou de expectativa, devido a experiências passadas.” Ficamos a dever aos “sulcos” que a memória vai deixando no cérebro (os chamados engramas) a capacidade de nos lembrarmos dos acontecimentos da nossa vida e, obviamente, das aprendizagens que durante ela foram sendo feitas.

Lamentavelmente, o nosso ensino tem subalternizado o papel importantíssimo da memória na
aprendizagem do aluno, como ocorria na recitação de poesias, na aquisição e perservação de conhecimentos de história, de geografia, da tabuada, etc. A resolução das velhas contas de somar feitas de cabeça  tem sido substituída por maquinetas de calcular compradas nas lojas chinesas.  Quanto à história, pelo andar da carruagem, temo que se chegue ao exagero de qualquer dia quando se perguntar aos jovens quem foi o 1.º Rei de Portugal se obtenha como  resposta: “Um momento vou consultar o “Google”. A propósito, não resisto em transcrever   de Steve Ballmer, presidente da Microsoft: “Eu testo, mas não uso no dia-a-dia. Mais importante, meus filhos não usam. Eles são bons garotos”.

Estas pequenas achegas, de um apaixonante e complexo estudo da neurofisiologia, mais não pretendem  que chamar a atenção dos educadores para o importante papel da memória , numa perspectiva pessoana, “ a consciência inserida no tempo”!


2 comentários:

  1. Professor Rui Baptista, obrigado por mais este post. Mas "a consciência inserida no Tempo" o que será senão a cultura que todo o cidadão deve receber! Cabem aqui bem a propósito as palavras do Professor Abel Salazar “ Se a cultura lhe não servir para se fazer mais reflectido, mais tolerante, mais compreensivo e mais humano, para nada lhe servirá então a cultura".
    Assiste-se hoje nas empresas a esta coisa sórdida de serem os engenheiros e outros profissionais qualificados, os principais fazedores de dor e sofrimento aos operários, explorando-os, como noutros tempos, repare-se, pessoas portadoras de cursos superiores, exploradoras e também exploradas, em nome de quem? do bem-estar comum, da felicidade, do progresso do país...
    É de cultura que precisamos fundamentalmente.


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  2. Engenheiro Ildefonso Dias:

    Em finais do século XIX, primórdios do século XX (período de tempo que medeia entre o seu nascimento e a sua morte sua morte), escrevia Gustav Le Bon: "Grande número de políticos ou de universitários, carregados de diplomas, possuem uma mentalidade de bárbaros e não podem, portanto, ter como guia da vida, senão uma alma de bárbaros".

    Revivem, em nosso tempo, esses bárbaros porque instrução é diferente de educação. Esta, segundo John Dewey, "deve ser humana".

    E aqui chegamos a duas palavras com ambiguidade semântica a que poderemos acrescentar uma terceira: Cultura. Cultura que me parece ser a simbiose de ambas, perspectivada, como cita, por Abel Salazar: "Se a cultura lhe não servir para se fazer mais reflectido, mais tolerante, mais compreensivo e mais humano, para nada lhe servirá então a cultura". Ou seja, vivemos numa sociedade cada vez mais desumanizada, este, me parece, o nó górdio da questão que levanta sobre engenheiros (ou outros profissionais com diplomas superiores) explorando os operários e, simultaneamente sendo explorados quando recebem o ordenado mínimo motivado pelo desemprego entre licenciados e "ipso facto" a exercer funções para as quais a antiga 4.ªclasse do ensino primário capacitava.

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