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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Peter Mitchell da Teoria Quimiosmótica? Sim e também de algumas excentricidades...


Post convidado de Alexandra Nobre:

“A mente humana é como um jardim onde são plantados factos e ideias e que passamos o tempo a rearranjar...
” Peter Mitchell

Andando para trás no tempo duas décadas e uns pozinhos, vejo-me sentada num anfiteatro a estrear mas já padecendo de alguns problemas genéticos, num edifício com C baptizado e hoje a precisar de cuidados geriátricos, ali para os lados do Campo Grande de uma grande cidade. Coordenadas - Curso de Biologia, ramo de Investigação, cadeira de Bioenergética, Professor Daniel Arrabaça, pessoa que se por um lado me intimidava com o seu modo ríspido de (inter)agir, por outro me encantava com estórias e histórias tão fluidas quanto as membranas ao longo das quais electrões saltitam os degraus de uma escada energética, permitindo, deste modo, que protões, atravessando-as num único sentido, se acumulem de um só lado e, sendo muitos, unam forças e energia e, com elas, fazem “luz”, que neste caso é como quem diz, ATP. Grandes exemplos estas membranas! Adiante. E quando já o tinha colocado no topo de um altar com velinhas acesas tal era a minha adoração por tais momentos, eis que um dia tem a ousadia de contar que trabalhara com o Prémio Nobel Peter Mitchell, pai da Teoria Quimiosmótica, aquela teoria fascinante dos saltinhos e atravessamentos de que falei ali em cima. Pronto! Não se faz! Uma coisa é privarmos com alguém que olhamos de baixo porque o colocamos num plano onde a terra acaba, outra, muito diferente, será termos que distender o pescoço porque ascendeu ao nível onde começa o céu. Ora vamos lá mudar de assunto que desse dia em que me vejo não quero falar.

Peter Mitchell nasceu em 1920 em Surrey, Inglaterra e sempre estudou em colégios como convém a famílias endinheiradas. Em Queens College caiu na graça do Director C. J. Wiseman, (há nomes premonitórios...) reconhecido professor de matemática e talentoso músico amador, cuja credibilidade muito lhe valeu mais tarde quando quis entrar na universidade em Cambridge e o resultado do seu exame de admissão se revelou um episódio para esquecer. Enquanto a guerra acontece por essa Europa fora, fecha-se no local de estudo e trabalho, onde chega todos os dias extravagante no seu Rolls Royce, com o cabelo pelos ombros, jaqueta roxa e camisa aberta até ao umbigo. Depois de ver a sua primeira dissertação rejeitada por “demasiada originalidade”, em 1951 termina o doutoramento com J. F. Danielli (aquele senhor do modelo da membrana com as proteínas espalmadas entre duas paredes de lípidos), no qual estudou os mecanismos de acção da penicilina descoberta vinte anos antes, uns 100 km a sul. Transita, por convite, de monitor no Department of Biochemistry em Cambridge para director da Chemical Biology Unit na Universidade de Edinburgh onde continua o seu percurso académico.

Pessoa de visão abrangente, tem para além da ciência muitos interesses que vão desde a família à arquitectura e restauro, à música, à filosofia e à história do pensamento. É natural que. por isto mesmo, Mitchell esteja interessado não só na ciência em si, mas em todo o mecanismo da descoberta científica como um processo criativo e de triagem de informação. Nas suas próprias palavras “o problema da maioria dos cientistas não é tanto a falta de boas memórias, mas sim o não terem bons esquecimentos”.
Em 1961, num fabuloso exercício de abstracção e mudança do paradigma, que defendia com unhas e dentes a existência de um composto intermédio altamente energético não fosforilado, põe a hipótese do acoplamento energético (o fluxo de electrões através de uma cadeia transportadora de moléculas localizada numa membrana, bombeia, de modo unidireccional, protões através da mesma gerando um potencial electroquímico -força protomotriz- e é o desfazer deste gradiente que permite a síntese de ATP) alicerçada numa série de postulados a validar. Esta abordagem holística da Biologia é controversa, envolve conceitos teóricos muito à frente das evidências experimentais possíveis na altura e abala o modo de pensar instituído em relação a tópicos como: conservação de energia, transporte de metabolitos, estrutura e função das membranas, homeostasia, evolução da célula eucariota, entre outros, bem como todos os aspectos da vida em que estes processos têm lugar. Segundo o seu antigo colega em Cambridge, Leslie Orgel, “...desde Darwin e Wallace que a Biologia não apresentava uma ideia tão contra-intuitiva como as de Einstein, Heisenberg e Schroedinger.” E é por isso natural que a sua visão tenha sido completamente negligenciada pelos seus pares durante anos, o que o levou a alimentar as suas convicções com bastante angústia, recursos financeiros pessoais, noitadas frequentes e uns copos para além da conta. Consta, de fonte fidedigna que eu cá sei, que entre as tarefas dos seus colaboradores mais jovens, estava incluída uma ronda aos pubs da área sempre que o seu atraso passava o limiar estipulado. Mas não há almoços grátis, e entre 1963 e 1965 problemas gástricos agudos afastam-no por completo da investigação. Quis o destino que, quando por conselho médico procurava uma casa a sul onde pudesse recuperar, tivesse tropeçado em Cornwell numa mansão em ruínas pela qual fez uma oferta ridícula. E é assim que, quase sem saber como, se vê mestre das obras de recuperação e nasce a Glynn House, onde adapta a ala oeste para investigação juntamente com a antiga colega Jennifer Moyle, com quem cria um grupo muito restrito de quatro elementos, já a contar com a secretária. E é também assim que é fundado o Glynn Research Institute dedicado à investigação fundamental em Biologia, o famoso local de concepção da Teoria Quimiosmótica que lhe valeu o prémio Nobel da Química em 1978 pela “contribuição para o esclarecimento da transferência de energia biológica”, para muitos a segunda maior descoberta da Biologia do século XX, logo após da estrutura do DNA.

Após a sua morte em 1992, Helen Mitchell, sua segunda mulher, inspirada na entrevista que deu à BBC e que denominou “Gardens of the Mind”, criou um jardim em Glynn em sua homenagem onde se pode ler “Remembering Peter Mitchell in whose gardens of the mind we wonder in joy and gratitude“ .

Quando, nas minhas aulas, conto esta história aos alunos e digo que o meu professor de Bioenergética trabalhou com o laureado Nobel Peter Mitchell também tenho o meu impacto. É certo que não me olham de baixo nem começam a hiper-ventilar, mas fixam-me de olhinhos mais abertos e quer-me cá parecer que até esboçam um sorriso. Se calhar para a próxima sou capaz que completar o ramalhete com “e consegui 19 a Bioenergética que tive que defender numa oral”. É. Vou pensar nisso...

Alexandra Nobre

segunda-feira, 23 de julho de 2007

MAIS LEITURAS DE VERÃO


Houve quem reclamasse porque eu só tinha indicado para as férias livros de não ficção. Poderia dizer que a fronteira entre ficção e não ficção é, por vezes, muito ténue e outras vezes inexistente (por exemplo, Teilhard de Chardin afirmou que “à escala do cósmico, só o fantástico pode ser verdadeiro”). Mas acho que, apesar de tudo, há uma distinção entre realidade e imaginação. Confesso que, em geral, leio mais livros de não ficção do que de ficção. Mas, nas férias, sou um devorador de literatura. Nessa altura deixo que a imaginação ganhe por muitos à realidade. Eis aqui, por ordem alfabética do autor, dez títulos literários recentes que proponho à superior consideração dos estimados leitores:

- Cristóvão de Aguiar, “A Tabuada do Tempo - A lenta narrativa dos dias”, Almedina. O escritor açoriano (da pequena povoação, Pico da Pedra, em São Miguel, de onde também é natural o escritor e crítico Onésimo Teotónio Almeida) volta ao estilo dos seus “Diários de Bordo”, que é do melhor que de escrita diarística se publica entre nós (o autor ganhou já, por um dos “Diários", o Grande Prémio de Literatura Biográfica da Associação Portuguesa de Escritores, e esta “Tabuada do Tempo” valeu-lhe, pela segunda vez, o Prémio Miguel Torga da cidade de Coimbra). Curiosamente, depois de ter andado por outras editoras como a Caminho e a Dom Quixote, o autor regressa ao editor que lhe publicou nos anos 60 o seu primeiro livro, antes de ele embarcar para a guerra colonial. Cristóvão de Aguiar está agora reformado, mas durante muitos anos foi professor de inglês na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Fui seu aluno e com ele aprendi muitas expressões idiomáticas de língua inglesa, tendo-me até preparado para a minha primeira viagem a Inglaterra. E corrigiu os primeiros textos que publiquei em jornais. Como sou amigo dele (esta nota serve para confirmar a regra de que os críticos tendem a falar dos livros dos amigos), já me fez aparecer numa das suas páginas diarísticas!

- John Darnton, “O Pecado de Darwin”, Casa das Letras. Esta é uma história bem contada que está entre a ficção e a não ficção. Trata-se de um romance histórico-científico se quisermos, muito apropriado nesta altura em que se aproxima o ano de Darwin (2009) e as ideias de Darwin, apesar de todas as controvérsias, vão triunfando. O autor foi durante muitos anos jornalista do “The New York Times”, tendo chegado a ganhar o prestigiado prémio Pulitzer. Em Portugal, tinha já publicado “Neandertal”, na Presença, outro romance histórico-científico sobre o eventual cruzamento do homem de Neandertal com o Homo sapiens. Em “O Pecado de Darwin” expõe o modo como o historiador natural inglês chegou à teoria da evolução.

- Olga Grushin, “A Vida de Sonho de Sukhanov”, Bizâncio. Um grande primeiro romance de uma escritora russa que vive nos Estados Unidos, considerado pela revista “Granta” uma das obras mais originais da ficção actual e pelo "Washigton Post" como elemento do “top ten” dos livros de 2006. O tema, tratado de uma forma tão irónica como subtil, é a queda da “vida de sonho” de um quadro soviético, um apparatchik, que tinha renunciado aos seus ideais de juventude, para afinal se ver confrontado com eles... Bem haja à editora Bizâncio que nos traz este esplêndido romance pouco depois de ter aparecido lá fora!

- Ha Jin, “Destroços de guerra”, Gradiva. De um autor chinês-americano, dissidente do regime chinês, que já nos tinha dado “Os Alienados”, “O Noivo” e “À Espera”, é um romance de guerra que mistura verdade e fantasia, com forte predomínio da primeira. O autor, da minha idade, é filho de um militar, que viveu o tempo da cruel guerra da Coreia, tão bem retratada neste livro (vencedor do prémio PEN/Faulkner e finalista do Pulitzer).

- Ian McEwan, “Na Praia de Chesil”, Gradiva. Pois se o leitor quer só um romance, breve, que não só entretenha na praia como faça pensar agarre neste. Vai ficar agarrado à história de uma noite de núpcias completamente falhada numa fria praia inglesa, nos anos 60, na qual a noiva deixa o noivo passadas uma horas do feliz casamento. Parece irreal, mas a realidade pode ultrapassar a mais imaginativa ficção. O próprio McEwan conhece desde há pouco um romance na sua vida real cuja trama é bem mais curiosa do que as dos seus romances (reunidos desde há pouco numa colecção da Gradiva): soube da existência, completamente insuspeitada, de um irmão, hoje operário da construção civil, que os pais, no tempo da Segunda Guerra Mundial e na altura ainda não casados, tinham dado para adopção...

- Joseph Mitchell, “Do Fundo da Baía”, Âmbar. Depois de “O Segredo de Joe Gould” (Dom Quixote, com prefácio laudatório de António Lobo Antunes, que me fez comprar o livro) e de “Sou todo ouvidos” (Âmbar), esta é a terceira obra em português do lendário jornalista e escritor norte-americano, falecido em 1996 com 88 anos, que trabalhou durante dezenas de anos para a revista “The New Yorker”. Conheceu como mais ninguém os vagabundos da "Big Apple", transformando anónimos personagens reais em autênticos heróis literários. No outro dia, o melhor repórter português, o jornalista do “Público” Adelino Gomes, recomendou-me "Sou todo Ouvidos" do Mitchell, descobrindo então que um dos seus autores favoritos afinal não era um segredo bem guardado!

- Flannery O’Connor, “Um Bom Homem é Difícil de Encontrar”, Cavalo de Ferro. Um bom título como este é difícil de encontrar. A tradutora, a bióloga, historiadora de ciência e escritora Clara Pinto Correia, comenta na contracapa: “Li as histórias todas, uma por uma, noite dentro, sempre a sentir-me quase na margem de um rio ppor onde se navega para outra dimensão qualquer. Era incrível. Era hipnótico. Era impossível interromper antes de se chegar ao fim e depois eu apagava a luz e ficava a dar voltas na cama”. Que mais pode uma tradutora querer de um livro? Ah, esquecia-me de dizer: a contista norte-americana morreu em 1966 com apenas 39 anos, de lupus, uma doença do sistema imunológico que na sua família era hereditária. Perdeu-se precocemente um grande talento.

- Miguel Ramalho Santos, “Auto”, Palimage. Para quem anda à procura de uma obra inovadora, tente esta escrita nova, irreverente e torrencial (elogiada por Maria Velho da Costa e por Lídia Jorge) um investigador em biomedicina, na Universidade da Califórnia, São Francisco, nos Estados Unidos, onde reside. A cidade de Coimbra, onde o autor cresceu, aparece aqui retratada como nunca o foi. Miguel Ramalho Santos tem um irmão, João Ramalho Santos, que é também investigador científico e também autor de ficção recente (“Portland, Portugal, Um Voo Doméstico”, Afrontamento).

- Manuel da Silva Ramos, “O Sol da Meia Noite seguido de Contos para a Juventude”, Dom Quixote. O autor de "Viagem com Branco no Bolso” (resultado de uma viagem de investigação a Moçambique), "Jesus, The Last Adventure of Franz Kafka” (resultado de uma bolsa de criação literária em Praga) e "Café Montalto" (uma mescla de ficção e não ficção sobre a indústria têxtil na sua cidade natal da Covilhã) é uma espécie de Henry Miller português. Neste “O Sol da Meia Noite” o cenário é Lisboa, onde o autor agora reside, mas a sua escrita continua criativa e arrasadora. É, segundo o autor, “uma viagem ao fim da noite lisboeta cheia de sexo, nervos, álcool e loucura e que termina, não por um desastre, mas por uma ressurreição". Por seu lado, os contos seguintes são "contos da solidão, onde o sexo é rei e súbdito o amor". Claro que só pode escrever assim quem viveu assim... Última hora: O autor terminou um novo livro, “A Ponte Submersa”, sobre o “serial-killer” de Santa Comba Dão. Mais uma vez a realidade vai tornar-se ficção.

- Philip Roth, “Todo-o-Mundo”, Dom Quixote. Roth é um dos melhores escritores norte-americanos vivos, tendo vários títulos em português (ainda outro dia apanhei numa Feira do Livro “O Complexo de Portnoy”, da Bertrand, praticamente grátis). Em 2002 o maior galardão da Academia Americana de Artes e Letras, a Medalha de Ouro da Ficção, atribuída antes a John dos Passos, William Faulkner e Saul Bellow. Em 2005, tornou-se também o terceiro escritor americano vivo a ter a sua obra publicada numa colecção completa e definitiva pela Library of America. Este seu novo livro não fica nada atrás dos anteriores, vários dos quais existem em português. O tema é o corpo, a degradação física e a morte: “A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre”. A religião é de pouco consolo para este autor: “A religião era uma mentira que tinha reconhecido cedo na vida, e achava ofensivas todas as religiões, considerava sem sentido e pueris as suas patetices supersticiosas, não suportava a sua completa imaturidade.”

Concedo: a realidade e a ficção estão, por vezes, tão bem misturadas que não é possível destrinçá-las...

quinta-feira, 14 de maio de 2015

E Tudo O Vento Levará



 O primeiro-ministro queria que as eleições se lixassem, mas já começou a lixá-las. À falta de pensamento político, usa a astúcia. Como as sondagens não o colocavam no poleiro, resolveu coligar-se ao CDS para as próximas legislativas. Antes já enchera os bolsos, graças à emissão desenfreada de dívida pública, para que, na expiração do seu mandato, reduza em algumas migalhas a dívida. Por outro lado, a sua política de privatizações não pára, como não param os casos de tuberculose nas escolas, a atomização caótica do SNS e o aumento de desempregados. Ao elogiar Dias Loureiro, não me apanhou de surpresa (nem ao residente de Belém), porque ainda me lembro das declarações que Passos Coelho fizera a respeito da licenciatura do seu amigo Miguel Relvas. Quando chegarem as eleições, a porta vai estar polida e os portugueses vão levar o lixo nos passos.
Não sei se Passos Coelho leu o romance de Margaret Mitchell (E Tudo O Vento Levou) e se se inspirou na governação do estado da Geórgia, por Rufus Bullock, após a guerra civil americana. Eu só espero que o fascismo ou o neoliberalismo (os fascistas passaram a adorar o dinheiro e a espezinhar a moral!) não se solidifique e que a noite escureça a porta. Também Scarlett O’Hara regressa sozinha a Tara, após três casamentos.
Este excerto do romance é histórico: 
«O Estado sufocava sob o peso das contribuições, pagas de má vontade, pois os cidadãos sabiam que, na maior parte, as somas destinadas ao interesse geral eram embolsadas por certos números de indivíduos.
Em torno do parlamento estadual apertava-se um círculo de oportunistas, de especuladores, de criaturas sem moral e vindas na esperança de tirar proveito da orgia louca das despesas, que a muitos enriquecia. Não tinham dificuldade em obter subvenções do Estado para construir, para comparar carruagens e locomotivas que jamais seriam compradas, para construir edifícios públicos que só se construíam na imaginação desses aventureiros.

Emitiam-se títulos de dívida pública, aos milhões, sempre de modo ilegal e fraudulento. O funcionário responsável do Tesouro, homem sério embora republicano, protestava contra essas emissões e negava-lhes a assinatura; mas, como acontecia a todos que procuravam opor-se àquela onda de abusos, os seus esforços eram inúteis.
A rede de caminho-de-ferro, que outrora proporcionara recursos permanentes ao Estado, vivia em regime deficitário, e a dívida atingia a linda soma de um milhão de dólares. Já não era uma rede de caminho-de-ferro, mas uma enorme cavalariça de Augias, onde os parasitas chafurdavam à vontade. Havia inúmeros funcionários nomeados por motivos de ordem política, sem que ninguém quisesse saber da sua competência.
(…)
O sistema que reinava na administração do caminho-de-ferro exasperava deveras os contribuintes, tanto mais que, em princípio, os lucros da exploração deviam ser aplicados no estabelecimento de escolas gratuitas. Mas, como só havia dívidas e nenhuns lucros, nenhuma escola se abria. Eram poucas as pessoas ricas que pudessem mandar os filhos às instituições pagas, de modo que essa geração em idade escolar crescia na ignorância, preparando um futuro de homens e mulheres sem qualquer instrução.

Mais ainda que a desordem nas finanças públicas, enfureciam os georgianos contra as autoridades do Norte o desperdício e a corrupção de que dava provas o governador.»

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Livros

Li o primeiro romance durante a passagem pela Escola Secundária, em Cantanhede. Um colega de turma emprestou-me, nessa altura, um romance de Milan Kundera, A Imortalidade. Li e gostei. Depois, em Coimbra, a paixão pelo livro cresceu até aos dias de hoje. Deixo aqui  alguns dos livros que mais me marcaram:

John Steinbeck - As vinhas da Ira

William Faulkner - O Som e a Fúria

                             - Na minha Morte

Isaac Bashevis Singer - Shosha

Ernest Hemingway- O Adeus às Armas

Leon Tolstói- Guerra e Paz

                     - A Morte de Ivan Ilitch

Fiódor Dostoiévski - Crime e Castigo

Chinghiz Aitmatov - Djamila

F. S. Fitzgerald - Terna é a Noite

L. F. Céline – Morte a Crédito

Bruno Schulz – As lojas de Canela

Stephen Crane - Sob a Bandeira da Coragem

James Joyce - Gente de Dublin

Dylan Thomas- Retrato do Artista quando Jovem Cão

Vítor Hugo – Os Homens do Mar

Sándor Márai- As Velas Ardem até ao Fim

Manuel Scorza – Rufam Tambores por Rancas

Tibor Déry - Niki, a História de um Cão

Panait Istrati – Os Cardos de Baragan

Paul Celan- Poemas

Raul Brandão- Húmus

Ferreira de Castro – A Selva

Fernando Assis Pacheco - A Musa Irregular

Dino Buzzati – O Deserto dos Tártaros

Luigi Pirandello – Ele foi Mattia Pascal

Ignazio Silone – A Semente sob a Neve

Alejandra Pizarnik - Poemas

Joseph Roth – Fuga sem Fim

Juan Carlos Onetti – Os Adeuses

                               -  A Vida Breve

G. G. Márquez - Cem Anos de Solidão

Miguel Torga – Poemas

Eugénio de Andrade – Poemas

Boris Pasternak- Doutor Jivago

Thomas Mann – A Montanha Mágica

Heinrich Boll – A Honra Perdida de Katharina Blum

Camilo José Cela- A Colmeia

Anton Tchekhov -  A Gaivota

                            - As Três Irmãs

George Orwell – O Caminho para Wigan Pier

Stendhal – A Cartuxa de Parma

Gustave Flaubert – Madame Bovary

Vergílio Ferreira – Para Sempre

Nabokov – Ada ou Ardor

Knut Hamsun- A Fome

Alain Fournier - O Grande Meaulnes

Cesare Pavese – Poemas

Robert Musil – O Homem sem Qualidades

Fel – José Duro

D.H.Lawrence - O Amante de Lady Chatterley

Virginia Woolf – Mrs. Dalloway

Pablo Neruda – Poemas

Cervantes- Dom Quixote

Henry Miller – Trópico de Câncer

Miklós Radnótti – Poemas

Walt Whitman – As Folhas da Relva

Fernando Pessoa – Poemas

Mikhail Bulgakov- Memórias de um Jovem Médico

Juan Rámon Jiménez- Poemas

Margaret Mitchell – E Tudo o Vento Levou

Áttila Josef  - Poemas

Italo Svevo – Uma Vida

Bohumil Hrabal – Eu que Servi o Rei da Inglaterra

Marcel Proust- Em Busca do Tempo Perdido

Carlos de Oliveira – Finisterra

Yukio Mishima – O Templo Doirado

Joseph Conrad – Lord Jim

Albert Cohen- O Livro de minha Mãe

Samuel Beckett - Teatro

                           – Molloy

André Gide - Os Moedeiros Falsos

Ivo Andríc - A Ponte sobre o Drina

Franz Kafka- O Castelo

Louis Aragon – O Camponês de Paris

Saint Exupéry – Voo Nocturno

René Char- Poemas

François Mauriac- Thérèse Desqueyroux

Alphonse Daudet- Cartas do Meu Moinho

Charlotte Bronte – Jane Eyre

Elias Canetti- Língua Exilada

Émile Cioran- Breviário de Decomposição

Albert Camus – A Peste

Henry James – Daisy Miller

Roger Martin du Gard- Os Thibauht

Jonathan Swift – As Viagens de Gulliver

Lewis Carroll – Alice no País das Maravilhas

António Nobre - Só

terça-feira, 16 de junho de 2009

HIPÁTIA NO COSMOS


A reedição recente e muito cuidada de "Cosmos" de Carl Sagan em português, na Gradiva, levou-me a reabrir o livro, que já tantas vezes abri. E reabri nesta passagem (p. 433):
"O último cientista a trabalhar na biblioteca [de Alexandria] foi... uma mulher! Distinguiu-se na matemática, na astronomia, na física e foi ainda responsável pela escola de filosofia neoplatónica - uma extraordinária diversificação de actividades para qualquer pessoa daquela época. O seu nome, Hipátia. Nasceu em Alexandria em 370. Numa época em que as mulheres tinham poucas oportunidades e eram tratadas como objectos, Hipátia moveu-se livremente e sem problemas nos domínios que pertenciam tradicionalmente aos homens. Segundo todos os testemunhos, era de grande beleza. Tinha muitos pretendentes mas rejeitou todas as propostas de casamento. A Alexandria do tempo de Hipátia - então desde há muito sob o domínio romano - era uma cidade onde se vivia sob grande pressão. A escravidão tinha retirado à civilização clássica a sua vitalidade, a Igreja Cristã consolidava-se e tentava eliminar a influência e a cultura pagãs.

Hipátia encontrava-se no meio dessas poderosas forças sociais. Cirilo, o arcebispo de Alexandria, desprezava-a por causa da sua estreita relação com o imperador romano, e porque ela era um símbolo da sabedoria e da ciência, que a Igreja nascente identificava com o paganismo. Apesar do grande perigo que corria, continuou a ensinar e a publicar até que, no ano de 415, a caminho do seu trabalho, foi atacada por um grupo de fanáticos partidários do arcebispo Cirilo. Arrastaram-na para fora do carro, arrancaram-lhe as roupas e, com conchas de abalone, separaram-lhe a carne dos ossos. Os seus restos foram queimados, os seus trabalhos destruídos, o seu nome esquecido. Cirilo foi santificado."
Imagem: "Hypatia", 1885, de Charles William Mitchell (1854 – 1903), um pintor inglês pré-rafaelita. Esta obra foi inspirada pelo romance de Charles Kingsley "Hypatia or New Foes with an Old Face".

quarta-feira, 3 de maio de 2017

LITERATURA EM VIAGEM EM MATOSINHOS

Informação recebida do Festival LeV de Matosinhos:

Carlos Fiolhais abrirá a 11.ª edição do LeV — Literatura em Viagem, que regressa já na próxima semana, entre os dias 12 e 14. «Einstein, viagens e literatura» é o mote da conferência inaugural proferida por um dos maiores divulgadores da ciência em Portugal.
Numa das edições mais premiadas e internacionais de sempre, o LeV traz a Matosinhos Hélia Correia (Prémio Camões 2015) e Frederico Lourenço (Prémio Pessoa 2016), para tentar perceber se a Europa em desagregação aguarda a chegada de um novo Ulisses. O inglês David Mitchell, a canadiana Rachel Cusk, o cabo-verdiano Abraão Vicente e o espanhol Jesús Carrasco são algumas das presenças internacionais na edição 2017 do LeV.

Na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, o arquiteto Álvaro Siza Vieira e o jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho darão duas entrevistas de vida que se preveem empolgantes. E teremos ainda tempo para confirmar se as notícias da morte da Europa (e da literatura) são exageradas. Quantas mais nações cabem neste continente com várias expressões literárias?


A programação da 11.ª edição LeV está completa e disponível para consulta aqui.
Para mais informações, contacte comunicacao@booktailors.com.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

TOP TENS


Os mandamentos são dez. Os "top-tens" são muito populares para livros, discos, filmes, etc. O matemático John Allen Paulos, no seu livro "As Notícias e a Matemática" (Europa-América, 1997) dá dez razões para gostarmos de "top tens". A primeira é que dez é "um número comum e familiar, a base do nosso sistema numérico". Acaba de sair um livro de listas de dez, intitulado "Deciclopédia". A editora é a Tinta da China, o seu autor é Gideon Haigh e o seu tradutor e adaptador é Vladimiro Nunes, tal e qual como a "Inciclopédia" da qual já aqui falei.

Transcrevo aqui a lista de dez listas escolhida para a badana (com um cheirinho do conteúdo que acrescento entre parêntesis):

1- Dez ditos em mirandês (um deles é "Mulhieres i bino fáien ls homes perder l tino", nem precisa de tradução).
2- Dez dedicatórias em obras literárias (uma delas é "Para Vera e Alex e, é evidente, para o gato Benevides, que me deu tremendas lições de dignidade", Mário-Henrique Leiria, "Novos Contos do Gin", 1974).
3- Dez coloquialismos dos mercados financeiros (um deles, de significado óbvio, é "Tudo ou Nada", mas há outros mais esotéricos como "alavancagem").
4- Dez chefes do governo mais corruptos (ganha Suharto, seguido por Ferdinand Marcos e por Mobutu Sese Seko).
5- Dez lugares de Portugal com nomes mórbidos (Campa - Paredes, Campa do Preto - Maia, Enforca-Cães - Abrantes, Fonte do Judeu Morto - Castro Marim, Matança - Fornos de Algodres, Mina da Caveira - Grândola, Monte da Forca - Avis e Braga e Serva Morta - Amares).
6- Dez momentos de soberba militar ("A esta distância, eles nem num elefante acertavam" foram as últimas palavras do general John Segdwick, do exército da União, antes de levar um tiro na cara numa batalha na Virgínia, em 1864, na Guerra Civil americana).
7- Dez métodos contraceptivos e sua eficácia (o mais eficaz é a esterilização e o menos eficaz a abstinência periódica).
8- Dez tratados (vêm o de Roma e o de Maastricht mas não o de Lisboa!)
9- Dez pragas do Egipto (a primeira é que o rio Nilo e toda a água do Egipto se transformam em sangue...).
10- Dez grandes economistas (estão, além de Karl Marx e J. M. Keynes, nomes menos conhecidos como Leon Walras, Carl Menger, Alfred Marshall, Vilfredo Pareto, Eugen von Bohm-Bawerk, Frank Taussig, Irving Fisher e Wesley Mitchell; a lista foi tirada do livro "Dez grandes economistas", de Joseph Sumpeter, 1951).

A leitura, seguida ou ao acaso, destas e doutras listas de dez é bem divertida!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A DECIFRAÇÃO DA REALIDADE 2


Segunda parte do texto do post anterior, extraído do "Universo, Computadores e Tudo o Resto" (na imagem, Immanuel Kant, c. 1775):

Vou analisar, num breve bosquejo, dois personagens que caracterizaram os anos seguintes aos de Newton: trata-se de excelentes exemplos de pensamento autónomo, um na esteira das ideias newtonianas e o outro decididamente avesso a elas.

Refiro-me aos alemães Kant e Goethe, que influenciaram o pensamento europeu no século das luzes. Immanuel Kant, apesar de admirador de Newton, veio a interessar-se mais pelo "nomenal" do que pelo "fenomenal". Johann Wolfgang Goethe, crítico feroz de Newton, chegou a trocar a óptica oficial por uma duvidosa "doutrina das cores" que relevava mais o psicológico do que o físico. A Kant se deve, em larga medida, o afastamento da Física e da Filosofia. A Goethe se deve, em boa parte, a separação da ciência e da poesia. No século XVIII, a Física divorcia-se dos outros saberes humanos e foge, apressadamente, para a frente.

Kant estudou a mecânica newtoniana e ficou desde logo marcado por um autor que, para ele, "personificava" a própria ciência. Aceitou, tal como Newton, de bom-grado o primado da Matemática, tendo chegado a afirmar que "em toda a teoria particular da natureza, só há ciência propriamente dita na medida que houver Matemática". Se se atentar nas suas biografias, Kant e Newton têm, de resto, bastante em comum: ambos morreram velhos, prestigiados e solteirões...

Em 1755, quando a terra treme em Lisboa (diga-se de passagem que Kant ficou tão impressionado com essa catástrofe que escreveu duas obras sobre terramotos) Kant entrava como "Privatdozent" da sua Universidade de Koenigsberg e publicava uma das suas obras pré-críticas mais importantes: "Allgemeine Naturgeschischte und Theorie des Himmels" ("História Natural Geral e Teoria do Céu"). Esse livro é singular por razões que se prendem com a percepção pelo autor da complexidade e historicidade cósmicas. Aí se apresenta, pela primeira vez, uma causa natural e coerente para a origem do mundo.

O mundo teria evoluído de uma situação caótica (a palavra caos, hoje tão em voga, aparece repetidamente em Kant). Kant chama "universos-ilha" às galáxias que então se começavam a observar e apercebe-se da imensidão do cosmo no espaço e no tempo. Desenvolve uma teoria de formação do sistema solar que, no essencial e depois dos refinamentos do francês Pierre Simon de Laplace e outros, ainda hoje se mantém. Afirma Kant, peremptório: "Dêem-me matéria e eu dar-vos-ei um mundo". Deus só é necessário como mero fornecedor de matéria-prima, tudo o resto aparecendo em resultado de auto-organização. A visão retrospectiva do universo kantiano contrasta com a visão prospectiva de Newton: Kant diz que o mundo é assim porque outrora foi de outra maneira. Newton diz que o mundo será amanhã de outra maneira porque hoje é assim. Mas os dois concordam na capacidade de previsão, baseada em leis.

Depois, Kant afasta-se do edifício da Física, para alicerçar a metafísica. Deixa o mundo observado para se dedicar ao mundo do observador. Discute nas duas "Críticas da Razão" as condições e possibilidades de observação e compreensão. Não é o objecto que está no centro e o observador à volta, mas o observador que está no centro e os objectos à volta. Conclui a sua discussão com uma sentença que ficou famosa: "Duas coisas enchem a alma de admiração e respeito sempre novos e crescentes(...): o céu estrelado por cima de mim e a lei moral dentro de mim". A doutrina kantiana teve uma influência decisiva em muitos físicos, como Einstein, para quem Kant foi o "único filósofo que teve alguma coisa a dizer a um cientista". Mas representa decisivamente o ponto de rotura da Física com a metafísica. A partir de então, a decifração da realidade física passa a ser especializada e assunto de especialistas.

Goethe, quase uma geração mais novo que Kant, leu a obra do filósofo de Koenigsberg (já o inverso não é verdade uma vez que Kant ignorou praticamente Goethe, para grande consternação deste). Não é preciso conhecer em profundidade a biografia de Goethe para se saber que a sua vida amorosa foi diametralmente oposta às de Newton e de Kant. Uma das suas inúmeras amadas foi Frau Charlotte von Stein, uma senhora casada a quem, num belo dia de 1781, enviou os seguintes versos:

PENSAMENTOS NOCTURNOS

"Lastimo-vos ó estrelas infelizes,
Que sois belas e brilhais tão radiosas,
Guiando de bom agrado o marinheiro aflito
Sem recompensas dos deuses ou dos homens:
Pois não amais, nunca conheceste o amor!
Continuando horas eternas levam
As vossas rondas pelo vasto céu.
Que viagens levaste já a cabo!
Enquanto eu, entre os braços da amada,
De vós me esqueço e da meia-noite."

Repare-se na aversão à astronomia, no desdém pelas estrelas que tinham sido o motivo central da obra de Newton ("não presteis a mínima atenção aos newtonianos", advertia Goethe). É também conhecida a sua aversão à matemática ("matematizar é matar", escreveu). À análise experimental preferia a síntese poética. Admirava a natureza de uma maneira diferente, a maneira dos poetas.

Menos conhecido que a polémica da "doutrina das cores" é o interesse de Goethe pela classificação das plantas em tipos e pelos variados processos de "metamorfose" a partir de uma "Urpflanze", a planta primordial. O tipo corresponderia à unidade, enquanto a metamorfose corresponderia à evolução. As suas qualidades de observador judicioso do mundo botânico nem sempre têm sido devidamente ponderadas e divulgadas. Mais do que a majestade e a rigidez dos astros interessava-lhe a maravilha da Biologia, que não obedece à lei da gravitação (as plantas crescem para cima!) nem a uma qualquer outra lei matemática simples. É esta desobediência, este capricho e variabilidade permanentes, que enchem a alma do poeta.

Porém, tanto Immanuel Kant como Johann Wolfgang Goethe tinham algo em comum com Isaac Newton e alguns físicos modernos, os físicos, digamos, mais optimistas. Cito aqui o físico Henry Margenau, que escreveu no livrinho "Os Elementos Metafísicos da Física":

"Permitam-nos que preste homenagem a uma construção, na qual, apesar do seu carácter nitidamente ultra-perceptível, ainda acreditam quase religiosamente muitos dos mais eminentes físicos vivos. Referimo-nos ao pressuposto da existência de uma realidade última, para a qual a realidade dinâmica tende lentamente. Isso não passa no entanto de uma simples aspiração, de uma esperança, de uma profissão de fé, a que aliás se ligam os nomes geniais de um Platão, de Kant e de um Goethe."

É pois claro que tanto Newton como Kant e Goethe permanecem actuais. Como eles, os físicos modernos confiam na existência de um "plano das coisas", confiam em que a realidade é de todo decifrável. Mas como se decifra hoje a realidade natural?

Queria chamar a atenção para um novo aspecto metodológico que marca não só a forma como o conteúdo da ciência moderna. Para nos auxiliar na compreensão da complexidade dos factos avulsos dispomos actualmente de um instrumento desconhecido de Newton, Kant e Goethe, que está a permitir uma terceira via entre teoria e experiência. Quando a escolha parece limitada a dois caminhos, há sempre vantagem em procurar um terceiro. Esse instrumento é o computador e a terceira via consiste na simulação computacional da Natureza.

O papel do observador em astronomia é limitado e passivo, porque as luas, os planetas, as estrelas e as galáxias permanecem, felizmente, fora do alcance das nossas possibilidades de manipulação. É tecnicamente impossível parar a Lua e medir quanto tempo ela demoraria a cair sobre as nossas sapientes cabeças. Não podemos subtrair as luas a Júpiter ou Neptuno, nem pôr a Via Láctea a girar em sentido contrário. Por muita perícia e astúcia que tenha o experimentador, os céus estão ao abrigo dos seus actos mais malvados. O poder da ciência de Newton não significa posse material, absoluta, porque a Terra é a Terra e o Céu, lá no alto, é o Céu.

Com o computador é, no entanto, possível uma certa "posse", ainda que lúdica e inofensiva, das coisas da Terra e do Céu. Podem lançar-se luas no écrã de um computador, se introduzirmos neste um programa que contenha, codificadas, as leis do movimento na mecânica newtoniana. Com esse programa, "mutatis mutandis", pode brincar-se com uma, duas, muitas estrelas, ou com uma, duas, muitas galáxias. O código da Física (software) é universal e o grande computador analógico (hardware) que é afinal o universo pode ser recriado num computador digital. O computador permite uma cópia do universo ou de parte dele.

Numa experiência computacional, observa-se com grande pormenor uma parte do mundo. Uma simulação computacional, embora seja mais suave (soft) do que uma experiência tradicional, apresenta muitas afinidades com esta, podendo até substituí-la em muitas circunstâncias. Para um habitante inteligente de uma galáxia distante, uma experiência tradicional e uma experiência computacional realizadas por terrestres são praticamente indistinguíveis. Na primeira, manipula-se e interroga-se um bocado de matéria qualquer, ao passo que na segunda se inquire um bocado de matéria - o computador - cujas partes se reuniram com um dado propósito. Na primeira, age-se sobre uma Natureza em princípio desconhecida e vê-se como ela responde, ao passo que na segunda se introduz um código num dispositivo em princípio conhecido e se analisam os resultados para compreender todas as implicações do código, isto é, conhecer melhor o que está codificado. Se houver ciência e paciência, pode voltar-se atrás quantas vezes se quiser, reescrever o código e corrê-lo de novo. Cria-se assim no computador um universo de "faz-de-conta", que nos permite, se formos hábeis e bem sucedidos, novas decifrações de uma realidade multifacetada.

Compreender é neste caso imitar a natureza, recriar a complexidade dos factos na simplicidade de um algoritmo (o código deve ser, evidentemente, mais breve do que o respectivo resultado). As leis - chamemos-lhes leis por conveniência de linguagem embora se trate de procedimentos computacionais - devem ser mais simples do que o floreado de todas as suas consequências.

O físico, diante de uma máquina, pode assim assistir ao grande espectáculo colorido e tridimensional tanto do mundo real como, eventualmente, de mundos que apenas existem na sua imaginação. Pode simular em Abril a aproximação da nave "Voyager" de Neptuno, que só vai ter lugar em Agosto. Pode simular a formação do sistema solar, apesar de ninguém lá ter estado ao vivo. Pode fazer colidir numa fracção de segundo galáxias que, de facto, colidem ao longo de milhões de anos. Pode ainda, por exemplo, deleitar-se com o movimento de meia dúzia de estrelas no écrã que, como alguém sugestivamente descreveu, entram em cena para um bailado cósmico e saem no fim de terminada a actuação.

Com o auxílio do computador, pode o físico fazer crescer plantas em câmara rápida, compreender a divisão morfológica das plantas e pesquisar se existe ou não um tipo primordial de planta. Pode criar begónias com a mesma facilidade com que cria espécies fantásticas inexistentes (ou talvez existentes apenas num recanto perdido da Amazónia). Pode criar paisagens luxuriantes e assistir à espantosa alquimia das plantas. Pode até engendrar frondosas macieiras, de onde caem maçãs, em obediência estreita às leis de Newton.

Nem Kant nem Goethe teriam desdenhado um auxiliar tão precioso. Assim, alguns dos actuais manipuladores de instrumentos computacionais não se esquecem de os invocar. É curioso referir que o físico norte-americano Mitchell Feigenbaum, um dos criadores da moderna teoria do caos, foi encontrar numa estante universitária a "Teoria das Cores" de Goethe, que já todos julgavam perdida para a ciência. Convém acrescentar que o químico alemão Manfred Eigen, Prémio Nobel da Química, quando fala dos jogos computacionais da criação da vida, não se esquece de citar Goethe e referir a obsessão deste pela metamorfose dos seres vivos. Importa, finalmente, notar como a classificação das catástrofes do matemático francês René Thom e os seus ensaios sobre ciência qualitativa se aproximam da classificação dos tipos proposta por Goethe.

O trabalho criativo dos físicos é pois hoje recriação de (e recreação com) uma Natureza complexa. As leis, em vez de regulamentos rígidos e limitativos, são antes vistas como regras ou algoritmos, maleáveis e generalizáveis, que dão lugar a sucessos ou a insucessos, à sobrevivência ou à não sobrevivência, tanto de estrelas e planetas como de animais e plantas. A Biologia, onde pareciam não vigorar quaisquer leis além da regra darwinista do "triunfo do mais apto", e a Física estão a aproximar-se. A Biologia apresenta-se como o futuro da Física. Por paradoxal que seja invocar um adversário de Newton para enaltecer a arquitectura do Universo, fiquem algumas palavras, optimistas, de Goethe sobre a perenidade da Física. O poeta escreveu sob o título "Testamento":

"Confia alegre e feliz sempre no ser!
Que o ser é eterno: existem leis
para conservar vivos os tesouros
dos quais o Universo se adornou"
.

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...