“(…) Há muito que a investigação em educação chama a atenção para um aspeto essencial: (…) aprender implica estabelecer relações, construir coerência, desenvolver formas de pensamento e de argumentação. É precisamente por isso que a avaliação escolar nunca pode ser reduzida a um mero exercício técnico de medição. Ela envolve sempre uma determinada conceção do que significa conhecer, compreender e pensar.
A questão decisiva, portanto, não é a digitalização dos exames. É a conceção de avaliação que a digitalização tornou possível.
Até há poucos anos, a logística da correção impunha limites relativamente claros. Em regra, um professor lia integralmente a prova de um aluno, acompanhava o seu raciocínio e formulava um juízo global sobre o desempenho demonstrado. Hoje, a tecnologia permite outra realidade: a fragmentação da prova em múltiplos itens, distribuídos por diferentes classificadores. Um professor corrige apenas uma questão; outro, uma resposta de desenvolvimento; outro ainda, um conjunto específico de itens. Nenhum lê o exame na sua totalidade.
Esta transformação remete-nos para um conceito clássico da sociologia do trabalho: o taylorismo. No início do século XX, Frederick Taylor defendeu que qualquer processo complexo poderia tornar-se mais eficiente através da divisão do trabalho em tarefas simples, repetitivas e rigorosamente normalizadas. A produtividade aumentava, a variabilidade diminuía, mas o trabalhador deixava de dominar o processo global. Tornava-se especialista numa pequena parcela da produção. Algo semelhante parece estar a acontecer na avaliação escolar.
Os defensores deste modelo invocam frequentemente a docimologia, a ciência dos exames, e fazem-no com fundamento. Desde os trabalhos pioneiros de Henri Piéron, sabemos que diferentes professores podem atribuir classificações distintas à mesma prova. A avaliação não é um ato puramente mecânico e está sujeita a variações de julgamento. A docimologia (…) [chamou] a atenção para a necessidade de critérios claros, formação dos classificadores e procedimentos que reduzam a arbitrariedade.
Mas a lição da docimologia é mais complexa (…). [Há que distinguir] entre dois conceitos fundamentais: fiabilidade e validade. A fiabilidade refere-se à consistência dos resultados: diferentes classificadores atribuem classificações semelhantes à mesma prova? A validade coloca uma questão mais exigente: estamos efetivamente a avaliar aquilo que pretendemos avaliar?
Ora, as medidas destinadas a aumentar a fiabilidade podem, paradoxalmente, enfraquecer a validade.
A correção fragmentada por itens tende, em princípio, a produzir maior uniformidade classificativa. Mas pode fazê-lo à custa da compreensão global do pensamento do aluno. O conhecimento não se apresenta sob a forma de respostas isoladas. Manifesta-se através da coerência de um raciocínio, da capacidade de estabelecer relações entre conceitos, de construir uma argumentação consistente ou de ultrapassar um erro inicial no desenvolvimento subsequente.
Um professor que lê integralmente uma prova consegue, pelo menos potencialmente, apreender essa dinâmica. Pode distinguir uma formulação infeliz de uma incompreensão profunda, perceber a lógica interna de um argumento ou reconhecer formas de pensamento que escapam a uma leitura fragmentária.
Quem corrige apenas um item não dispõe dessa possibilidade. Avalia uma resposta, mas dificilmente avalia um pensamento.
O paradoxo torna-se então evidente. Em nome da objetividade e da precisão técnica, corre-se o risco de perder precisamente aquilo que a escola deveria procurar reconhecer: a qualidade do raciocínio, a integração dos conhecimentos e a capacidade de pensar.
Esta questão remete-nos para um problema mais amplo: a transformação da própria profissão docente. Durante muito tempo, o professor foi concebido como um profissional dotado de capacidade de julgamento. O seu trabalho implicava interpretação, deliberação e responsabilidade. Esse julgamento não era sinónimo de arbitrariedade; assentava em conhecimento especializado, experiência profissional e critérios partilhados. Nas últimas décadas, porém, tem-se afirmado um paradigma diferente. Inspiradas pelas orientações da chamada Nova Gestão Pública, numerosas políticas educativas têm procurado substituir a confiança nos profissionais por sistemas de controlo baseados em indicadores, protocolos e procedimentos padronizados. A promessa é conhecida: reduzir a subjetividade, aumentar a transparência e tornar os processos mais eficientes.
Mas permanece uma questão fundamental: será toda a subjetividade um defeito? Ou existirá uma forma de julgamento profissional — fundamentada, escrutinável e responsável — que nenhuma grelha de classificação consegue substituir?
A obsessão contemporânea pela medição tende a esquecer uma evidência simples: nem tudo o que é importante pode ser decomposto em unidades independentes sem perda de significado. Uma sinfonia não é apenas a soma das notas que a compõem. Um romance não se reduz à soma das suas frases. Também um exame não é apenas a soma dos seus itens.
A digitalização dos exames não é, portanto, o verdadeiro tema deste debate. Ela constitui apenas o instrumento que tornou tecnicamente possível aplicar à avaliação escolar uma lógica de organização do trabalho baseada na fragmentação, na especialização e na estandardização dos procedimentos.
A questão que importa colocar é outra: quando nenhum professor lê integralmente uma prova, quem avalia verdadeiramente o pensamento do aluno? A resposta é, no mínimo, inquietante.
Porque o que está em causa é mais do que uma inovação tecnológica ou um problema organizativo. Está em discussão uma escolha política e pedagógica sobre o significado da avaliação e sobre o próprio lugar dos professores na escola. Queremos docentes capazes de exercer um julgamento profissional sobre o conhecimento dos alunos ou especialistas na aplicação uniforme de grelhas de classificação?
A resposta a esta pergunta ajudará a definir não apenas o futuro dos exames, mas também o futuro da profissão docente. E da própria escola, enquanto espaço de formação do pensamento, de construção do conhecimento e de reconhecimento da complexidade humana que nenhum algoritmo ou grelha de classificação consegue inteiramente capturar."
13 comentários:
Ó dra. Damião, mas não lhe parece que o dr. Teodoro está a passar por cima da histórica fragmentação do conhecimento dito científico? Aquele que já tinha levado um professor de filosofia a não poder avaliar um teste de matemática ou de biologia por exemplo, e vices versas?
Ou perguntado de outra forma: acha que um professor de matemática por exemplo já tinha competência para perguntar sobre tudo o que matematicamente pode perguntar-se, e para avaliar adequadamente as respostas dadas a essas perguntas?
Estimado Leitor Anónimo, não sei se entendi bem o seu primeiro comentário, por isso, detenho-me no segundo. Um professor de Matemática (ou de outra disciplina) do Ensino Secundário terá competência para classificar um exame nacional de Matemática (ou de disciplina que leccionar) porque: 1) está habilitado para tal, tanto em termos científicos como pedagógicos; 2) conhece e rege-se pelos documentos curriculares vigentes que se constituem como referencial de ensino e de avaliação; 3) é designado pela escola e reconhecido pelo ministério; 4) pode ter tido formação para classificar tais exames e terá suporte por parte de um supervisor; 5) recebe orientações (grelha de correcção e folha de registo) para tanto.
Cordialmente, MHDamião
A premissa essencial é sempre a mesma: um professor para poder ensinar tem de saber aquilo que ensina. Vamos que num processo de classificação de um exame nacional não o possam chamar `pedra, porque o único índice que professor tem de corrigir e avaliar é sobre uma matéria que não domina, mas devia dominar. Ele vai avaliar muito mal, atribuindo uma nota muito alta para que as autoridades competentes não o possam chamar à pedra.Mas aqui esbarramos com o maior fator paradoxal na avaliação dos exames: as autoridades impõem aos professores exames fáceis para que toda a malta passe com notas altas; por outro lado desconfiam dos professores classificadores, cuja tendência geral é beneficiar os alunos provocando uma grande inflação das notas, desencadeando um processo muito confuso que nem os próprios jornalistas entendem, mas que é imediatamente aproveitado por alunos e encarregados de educação a quem o que ineresssa é queos aluno sentrem no curso que querem em primeira escolha e com classificações próximas ou iguais a vinte. Depois o esquema das classificações em universidades e politécnicos continua a estar debaixo do princípio de que o aluno, por ser mais pequenino, tem sempre razão!
Cara prof. Helena Damião, agradeço o seu comentário. Eu não domino o formalismo da profissão. Fui 20 anos professor mas no dito "ensino superior". O que me preocupa é ver pessoas como o prof. Teodoro, entre outros que por aí opinam sobre "educação", que parecem ignorar a história do ensino da ciência e da prática científica, em particular a "transição" ocorrida no último século. Parece-me que antes de falar de educação e de "ciência da educação" havia que entender o que aconteceu à ciência que os professores ensinam (ou crêem ensinar). É só isso. Boa noite e felicidades.
Ah e desculpe o anonimato. O meu nome completo é Valdemar José Correia Barbosa Rodrigues.
Muito bom dia Helena Damião - espera-se, pela minha parte, a honradez de assumirem uma assinatura (a minha) e proporcionar, assim, o legítimo debate que ela implica. CSBBF (anónima, também)
Cara Helena Damião, "anónima" (Eu) embora muito exposta em termos críticos; mas estou certa que a UC, em face de todos os recursos que possui e tem divulgado, vai disponibilizar a solução adequada que lhe permita defender quem desejou (Eu) coincidir com uma trama interdisciplinar e apresentar na UC uma visão (que se mostra cada vez útil) lapidar que confronta as horas (estas mesmo) da contemporaneidade. CSBBF
Prezado Professor Valdemar Rodrigues, as minhas desculpas pela demora da resposta, derivada de tarefas de final de ano escolar. Depreendo do seu comentário a preocupação com o "conteúdo" do que se ensina. Ou seja, do conhecimento inscrito nas disciplinas. Isto em favor de um formalismo (pseudo)científico afecto às ditas ciências da educação. Se bem interpretei o que diz, a minha concordância é total (e não me parece que António Teodoro vá em sentido contrário). MAS, devo dizer-lhe que dentro das ditas ciências da educação há quem considere (e, no meu entender, bem) que, em termos pedagógico-didácticos, a primeira condição para se poder ensinar é ter um profundo conhecimento do que se ensina. Uma das pessoas que mais tem destacado essa ideia é Lee Shuman precisamente por ver, desde há muito, desaparecido da formação de professores, esse requisito essencial. Cumprimentos, MHDamião
Obrigado professora. Continuação de bom trabalho.
Estimada Professora, dei-lhe aqui uma "grande provocação" que há pouco tempo fiz sobre o assunto: https://valdemar-rodrigues.blogspot.com/2026/07/sugestoes-hiper-mega-positivas-ii.html
O IAVE define oficialmente os critérios de classificação e correção de cada prova. Estes documentos estipulam a cotação exata de cada item, as chaves de correção (respostas esperadas) e os níveis de desempenho exigidos em cada questão. Muito facilitador para quem corrige, papinha toda feita. Até os EE podem pedir a prova e verificar se as correções estão bem feitas tendo como suporte esses docs fornecidos pelo IAVE. E pronto!
Com os critérios de classificação e correção, soluções das provas e mais não sei que coisa que o IAVE fornece, qualquer um pode corrigir a prova. O EE até pode conferir se a correção foi bem feita. Ah, ah.
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