Por regra, naquilo que escrevo, não recorro a acontecimentos ou apontamentos pessoais sobretudo se envolvem terceiros, mas neste caso julgo que se justifica.
M., futura professora, apresentava-me uma versão ainda provisória do seu trabalho de final de semestre. Li: "a pessoa docente"... Na dúvida, perguntei-lhe: "quer referir-se ao professor-pessoa para o distinguir do professor-máquina? Estas categorias são-me (intoleravelmente) familiares, não concebo designar um mecanismo por professor. Mas não, não era por isso; era por uma questão de "linguagem inclusiva".
Poucos dias passados, ouvi uma colega (professora de Latim, Grego e Português) levantar a voz na conversa que estava a ter com um estudante, que também será professor: "pessoa aluno"?! Porquê? Porque faz parte da "linguagem inclusiva". Seguiu-se a explicação gramatical, claro...
No mesmo dia ou no dia seguinte, recebemos, na nossa caixa de correio oficial, um email no qual surgia duas vezes a expressão "pessoas estudantes" e três vezes a expressão "pessoas docentes".
Gostando eu da palavras professor e professora, no singular, de professores e professoras, no plural, e achando que não vem mal ao mundo quando se usa professores para designar o conjunto de homens e mulheres, fui saber se elas passaram a ser "desincentivadas". Perdi-me em recomendações, orientações, pareceres da UNESCO, do Conselho da Europa, do Conselho de Ministros, da Administração Pública, de Universidades, de Centros de Investigação, de Autarquias...
Vi, por exemplo, que a minha universidade está alinhada com o Conselho Económico e Social (aqui e aqui) (e, por certo, com outras entidades) no afastamento dessas palavras:
"Para neutralizar o colectivo, em vez de professores deve usar-se docentes; corpo docente.
E em vez de alunos, deve usar-se discentes."
Mas, elas são aceites num manual de linguagem inclusiva, editado por entidades oficiais (ver aqui):
"Para evitar o uso do masculino genérico, podemos utilizar as seguintes estratégias:
- Usar a forma feminina e masculina de forma alternada: “Os professores e as professoras devem estar preparados e preparadas para responder a todas as perguntas”;
- Usar a forma dupla: “Os/as professores/as devem estar preparados/as para responder a todas as perguntas”;
- Usar expressões inclusivas: “Todas as pessoas que ensinam devem estar preparadas para responder a todas as perguntas”.
Certo é que em nenhum documento que consultei (e consultei muitos) vi a expressão pessoa docente, ainda que neste último que citei seja admitida a expressão pessoa que ensina.
Aqui tenho de deixar duas notas sobre a última sugestão, as quais pendem para outras discussões, que omito:
- A palavra ensino,tem desaparecido do vocabulário pedagógico; o professor orienta, guia, inspira... Dizer-se que o professor ensina será quase uma heresia;
- Ninguém, absolutamente ninguém, seja designado por professor/a, professor e professora, docente, pessoa que ensina, pessoa docente, ou o que se entender, "está preparado para responder a todas as perguntas”. Acontece que essa impreparação é uma das belezas de se ser professor.
E uma terceira nota, percebi que a discussão sobre o uso de barras ou de parêntesis para escrever palavras que remetem, em simultâneo, para o masculino e para o feminino não é de somenos relevância (ver aqui).
Enfim, o que quero dizer é o seguinte: afinal, as propostas de linguagem inclusiva, e refiro-me apenas e só à designação do professor, de consensual pouco têm. Não é que estivesse a pensar mudar o modo de designar a minha profissão, mas este é um argumento poderoso para poder defender esse modo.
E, nesta efabulação, lembrei-me de Jorge Larrosa e do seu belo livro [P] de PROFESSOR. Diz ele em entrevistas:
"Estou lendo alguns professores universitários que discutem o que quer dizer ser professor hoje em dia e que experimentam, como eu, certo mal estar com os novos rumos da universidade" (ver aqui):
O "ofício do professor, portanto, consiste em ser um verdadeiro professor, um professor de 'verdade', alguém que merece ser chamado de professor, isso que o constitui e o institui como professor, isso que faz um professor no exercício mesmo de ser professor. Deste ponto de vista, o ofício supõe uma inseparabilidade entre o que se faz e o que se é (...) às vezes, para ser um verdadeiro professor não resta outra saída que não cumprir as normas que se sobrepõem ao ofício e que, nesta nossa época, que nos toca viver, falsificam-no. O que está acontecendo é que cada vez há menos gente que seja capaz de perceber a diferença, de distinguir, entre um verdadeiro professor e um professor de mentira (ver aqui).
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