domingo, 1 de fevereiro de 2026

QUE SORTE A DE PLATÃO: OBJECTO DE DUPLA CENSURA COM SENTIDO CONTRÁRIO

A censura (oficial ou oficiosa) que toca a educação, tem sido justificada de variadas maneiras, tem colocado diversos objectos na sua mira, tem escolhido muitos mandatários, executantes e vítimas... Ainda assim, consegue reinventar-se. 

Deixando as censuras "tradicionais" de lado, concentro-me em duas tipologias mais recentes: uma derivada do safetyism, que tem sido designado por "positiva" ou "beneficenta", opõe-se agora uma outra tipologia – tanto quanto sei, ainda sem designação – que recai essencialmente sobre a “ideologia de género e de raça” (seja isso o que for), que a primeira é acusada de potenciar (ver aqui aqui). As consequências da primeira têm sido bem reais em escolas e universidades (primeiro nos Estados Unidos da América e em Inglaterra e, depois, noutros países da Europa); as consequências da segunda estão a começar a sê-lo.

A ironia é que, afigurando-se contrárias: 

1) visam o mesmo fim, que é chamar os alunos a princípios morais (sempre particulares), religiosos (ou anti-religiosos, o que vai dar ao mesmo), político-partidários (com as esquerdas e direitas a reboque),
2) podem incidir nos mesmos conteúdos, sobretudo os que se situam na literatura, na filosofia e nas artes, tornando-os objecto de dupla censura.

Um exemplo admirável disto mesmo é Platão: visado pela primeira tipologia de censura (ver aqui e aqui), não escapou à segunda. Foi esta que, nos meses mais recentes, desencadeou um problema que complicado numa universidade norte-americana e que anda pela comunicação social.

Trata-se da Texas A&M University, que, além de prestigiada, tem por cartão de visita as palavras "Juntos pelo Bem" (ver aqui). 

Na sua mais recente revisão curricular, sinalizou ou cancelou vários cursos e cerca de duas centenas de disciplinas (confirmei: o número é este!) alegando que veiculam "ideologia racial e de género". A decisão é para levar a sério: o reitor, à altura, foi forçado a renunciar ao cargo porque se recusou demitir um professor que, por sua vez, se recusou acatar a regra: "obras literárias que toquem o interdito" não podem constar no ciclo básico.

Esta regra tem desencadeado diversos incidentes, estando entre os mais visíveis o que é protagonizado por um professor de filosofia – na imagem ao lado – que lecciona "Problemas morais contemporâneos". 
 
Tendo-lhe sido comunicado que teria de suprimir passagens  d´ O banquete, de Platão, nas quais se vislumbra essa "ideologia" (ver aqui), ele propôs a substituição pelo tema "liberdade de expressão e liberdade académica", explorado a partir de textos jornalísticos sobre... a dita supressão (ver aqui). Sobre o assunto, disse:

"Silenciar ideias com 2500 anos de um dos pensadores mais influentes do mundo trai a missão do ensino superior e nega aos estudantes a oportunidade de se envolverem criticamente com os fundamentos do pensamento ocidental. Uma universidade de investigação que censura Platão abandona a sua obrigação para com a verdade, a investigação e a confiança pública — e não deve ser considerada uma instituição séria de ensino superior."

QUE SORTE A DE PLATÃO: OBJECTO DE DUPLA CENSURA COM SENTIDO CONTRÁRIO

A censura (oficial ou oficiosa) que toca a educação, tem sido justificada de variadas maneiras, tem colocado diversos objectos na sua mira, ...