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domingo, 9 de setembro de 2012

Camilo Pessanha


Para me acalmar, para não ouvir disparates e o que não queria ouvir, fui na sexta-feira a uma sessão de poesia de Camilo Pessanha (um poeta genial que descobri verdadeiramente nesta sessão de poesia) na Casa de Chá do Jardim da Sofia em Coimbra: estive lá desde as 18:00 até às 20:00, sem telemóveis e sem televisão.

Por isso fiquei a ouvir. Eu fico sempre calado quando vejo ou ouço coisas que me intrigam.
Ontem ouvi sobre uma pessoa que jogava com as palavras por prazer, por isso nem as escrevia, dizia-as, jogava com os sons… e isso nunca está acabado.

É, como bem dizia a Regina, uma das minhas parceiras de sessão, como cozinhar… é sempre para os outros, nunca é para nós.


Deixo-vos o poema "Na cadeia":

"na cadeia os bandidos presos!
o seu ar de contemplativos!
q
ue é das feras de olhos acesos?!
pobres dos seus olhos cativos

passeiam mudos entre as grades,
parecem peixes num aquário.
- campo florido das saudades,
porque rebentas tumultuário?

serenos... serenos... serenos...
trouxe-os algemados a escolta.
- estranha taça de venenos
meu coração sempre em revolta.

coração, quietinho... quietinho...
porque te insurges e blasfemas?
pschiu... não batas... devagarinho...
olha os soldados, as algemas!"

Camilo Pessanha

Talvez Coimbra, onde Pessanha nasceu em 1867, devesse organizar um Prémio de Poesia com o nome deste grande poeta. Vou estar atento e ajudar a tornar isso realidade.

:-)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Leitura: do cinzentismo à cor.

Não deixe de ver este fabuloso vídeo. Mostre aos seus filhos e outras crianças. É uma muito inteligente forma de promover os livros e o gosto pela leitura.


Publicado originalmente no http://www.re-visto.com

domingo, 29 de janeiro de 2012

Ler devia ser proibido

Eis uma campanha de incentivo à leitura com a assinatura daUniversidade de Salvador, Brasil. Agradeço a Conceição Rolo, a mão amiga que no-la enviou.

"Pensando a respeito, eu acho que ler devia ser proibido.
Nada contra quem lê, mas de certas coisas não se duvida e ler nãoé nada bom.
A leitura nos torna incapazes de suportar a realidade, a leitura tira o homem de sua vida pacata e o transporta a lugares nada convencionais.
Para uma criança o perigo é ainda maior porque ela pode crescer inconformada com os problemas do mundo e querer até mudá-lo. Dá para imaginar?
E outra coisa: ler pode estimular acriatividade e você não vê uma criancinha bancando geniozinho por aí. É?
Além disso, a leitura pode tornar ohomem mais consciente e ia ser uma confusão se todo o mundo resolvesse exigir oque merece.
Nada devagar pelos caminhos da imaginação, simplesmente porque leu um bom livro.
Há quem diga que ler engrandece, mas eu não conheço um caso sequer.
Quer um conselho? Silêncio.
Ler só serve aos sonhadores e sua vida não é uma brincadeira.
Cuidado, ler pode tornar as pessoas perigosamente mais humanas."

quinta-feira, 3 de março de 2011

Uma ideia para LER

A revista LER, que completa este mês cem edições, pediu-me a partilha de uma «ideia concreta» para o futuro: Literatura, política, e ciência. Eis a minha resposta:

Todos os livros portugueses sem direitos de autor acessíveis na Net. As obras estão nas bibliotecas, a tecnologia é fácil, falta só a vontade política para congregar esforços. Seria a maneira de juntar literatura, ciência e política, que por vezes tão separadas andam ou, quando se juntam, é só aos pares. Seria um triângulo perfeito.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Humor: Eexrícico de lteiura

De aorcdo com uma peqsiusa
de uma uinrvesriddae ignlsea,
não ipomtra em qaul odrem as
Lteras de uma plravaa etãso,
a úncia csioa iprotmatne é que
a piremria e útmlia Lteras etejasm
no lgaur crteo. O rseto pdoe ser
uma bçguana ttaol, que vcoê
anida pdoe ler sem pobrlmea.
Itso é poqrue nós não lmeos
cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa
cmoo um tdoo

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Como se aprende a ler?

Informação recebida pelo De Rerum Natura

Conferência com Roger Beard, Linda Siegel e Isabel Leite.

Dia 6 de Dezembro, em Coimbra, às 17 horas, no Auditório da Reitoria da Universidade.
Dia 7 de Dezembro, em Lisboa, às 17 horas, no Auditório da Torre do Tombo.

ENTRADA LIVRE MEDIANTE INSCRIÇÃO PRÉVIA

É consensualmente aceite que a leitura é imprescindível para o desenvolvimento da criança, sendo-lhe reconhecida grande importância no contexto escolar e extra-escolar. Por tudo isto, é decisivo melhorar as capacidades de leitura dos alunos portugueses.

Nesta conferência pretende-se esclarecer, a partir de estudos da Psicologia Cognitiva, como aprendem as crianças a ler e que estratégias podem ser utilizadas para fomentar as capacidades de leitura.

Recorrendo a experiências nacionais e internacionais – nomeadamente a inglesa e a americana – analisar-se-ão as estratégias que se têm destacado como mais eficazes e discutir-se-ão os fundamentos psicopedagógicos que lhes estão subjacentes.

Por último, serão apresentados alguns resultados de um estudo sobre os exercícios e conteúdos dos livros escolares para o ensino da Língua Portuguesa em níveis iniciais, com o objectivo de identificar os conhecimentos e capacidades promovidos na aprendizagem da leitura e da escrita.

Mais informações aqui.

sábado, 13 de novembro de 2010

"Nunca é tarde"

José Morais, professor jubilado de Psicologia da Universidade Livre de Bruxelas (na imagem ao lado), Paulo Ventura, professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, integram uma equipa internacional, liderada por Stanislas Dehaene do Instituto Nacional da Saúde e da Investigação Médica francês, que desenvolveu o primeiro estudo cujo objectivo era comparar o funcionamento cerebral de analfabetos, ex-analfabetos e letrados. Isto ao abrigo da teoria da reciclagem neuronal, defendida por Stanislas Dehaene.

O artigo - How Learning to Read Changes the Cortical Networks for Vision and Language - em que se dá conta desse estudo foi publicado na versão online da revista Science há dois dias e dá conta do impacto da aprendizagem da leitura no córtex cerebral.

Ao jornal Público José Morais explicou que "o cérebro dos ex-analfabetos só em poucas coisas difere do dos alfabetizados, está muito mais próximo destes (...). Ensinar alguém a ler na idade adulta tem os mesmos efeitos do que ensinar uma criança. É uma boa notícia, não há razão para desistir dos iletrados". As diferenças entre o cérebro leitor e aquele dos que nunca aprenderam a ler é que são todo um rol.

terça-feira, 20 de julho de 2010

1500 palavras

Destaco o último programa Um certo olhar, da Antena 2 da rádio, onde se discutia a queda de venda de jornais impressos no nosso país. A intervenção de Miguel Real, um dos comentadores, infelizmente não surpreende, mas esclarece: sem afirmar que a única causa dessa queda é a qualidade do nosso ensino, não deixou de a invocar como muito importante. O essencial da sua intervenção pode ler-se de seguida:
Estudos recentes de linguistas indicam que os jovens entre os 12 e 18 anos usam a Língua Portuguesa de forma pragmática e recorrem apenas a cerca de 1500 palavras para se expressarem. Um aluno no final do Ensino Secundário, a entrar para a Universidade trabalha no seu dia-a-dia com este vocabulário reduzido. Ora, para ler os livros de Eça de Queiroz, é necessário dominar 20.000 a 30.000 palavras e, para ler José Saramago e Lobo Antunes, é necessário dominar mais. Estamos perante um enorme desfasamento de vocabulário, que traduz um problema não apenas de ordem quantitativa mas também de estrutura mental (…). Isto significa que quem se torna leitor de jornais aos 20 anos não consegue entender a maior parte dos textos.
A leitura de obras obrigatórias na escola, apesar do carácter aparentemente sacrificador, têm um efeito altamente disciplinador da memória, do conhecimento, da história, da estrutura das narrativas...
O descuido deste exercício prejudica a compreensão, fundamental em todas as áreas, nomeadamente na Matemática. O facto de a educação se ter, desde há 15 ou 20 anos, aligeirado, infantilizado, tornando-se cada vez mais simples, tem implicações no nível lexical, semântico e conceptual dos portugueses.

terça-feira, 30 de março de 2010

Resumir e morrer a seguir

Texto de João Boavida, antes publicado no Diário As Beiras, na sequência de um outro sobre o mesmo tema.

Já sabíamos da sua existência em livrinhos, em cadernos que andam por aí há anos. As grandes obras, que os alunos do secundário são obrigados a ler, há muito que são resumidos e transformados em esquemas e perguntas para que aprendam umas respostas e tenham boas notas nos exames. Mas agora fia mais fino. Há resumos das obras que se podem meter nos telemóveis, de modo que já nem é preciso lê-los, basta levar os telemóveis para o exame. Os alunos andam satisfeitos, muitos pais, que, como se sabe, só querem o bem dos filhos, não vão contra e os editores da novidade descobriram nova fonte de rendimento. A tecnologia é uma maravilha!

Mas, claro, é mais uma ratoeira que se aplica à juventude. Porque os grandes livros não se resumem, lêem-se. E os melhores, várias vezes ao longo da vida. Só depois se resumem. Só na leitura está o seu valor educativo, a sua fonte de conhecimentos e prazer, a seu factor de humanização e maturidade.

O resumo sem leitura é um embuste e uma armadilha. É mais uma maneira de desenvolver e alimentar o faz de conta e a parlapatice dos que falam de tudo sem saber de nada, multiplicando os superficiais satisfeitos, incapazes para qualquer coisa de útil.

Mas a razão para ler as grandes obras, dos nossos autores e da literatura universal é ainda mais forte e funda. A literatura é um magnífico factor de maturidade, de prazer e de usufruição de beleza. E a beleza é redentora de misérias e estimulante de humanidade.

O acesso à beleza abre à nossa grandeza potencial, porque a beleza sublima e transcende; sublima o que há de pior em nós, o que não conseguimos resolver e nos angustia e degrada, e, por este meio, nos liberta, faz crescer e amadurecer. Os livros são simultaneamente refúgio e libertação, companheiros nas horas solitárias, multiplicadores infinitos de paisagens, ambientes, lugares e épocas. São os nossos educadores sentimentais.

Dão-nos a conhecer pessoas, afectos, aventuras, grandezas e misérias, situações infinitas e mundos sucessivos que nos ensinam, entusiasmam, alegram e entristecem, nos projectam, pela imaginação, para onde nunca estivemos nem estaremos, nos levam e conhecer pessoas em que nos revemos, com quem falamos, de que ficamos amigos, que nos entusiasmam ou comovem, mesmo quando mortas há séculos. Situações onde nos reconhecemos, nos reencontramos, compartilhando com outros sofrimentos e alegrias, como se fôssemos irmãos. Com os livros a nossa família cresce até ao infinito, mas sem conflitos, nem zangas por heranças mal repartidas.

João Boavida
Imagem: Meninas a ler, de Pablo Picasso

quarta-feira, 24 de março de 2010

"Também disponível em livro"

Felizmente há Luar, de Luís de Sttau Monteiro,
Memorial do Convento, de José Saramago,
Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett,
Os Maias, de Eça de Queirós,
Os Lusíadas, de Luís de Camões,
A mensagem, de Fernando Pessoa.

Sim, confirmei, todas estas obras, que o currículo preceitua como leitura obrigatória no Ensino Secundário, foram devidamente resumidas para uso em telemóvel.

A iniciativa é de um importante grupo editorial de livros escolares, que, como o leitor pode constatar se carregar aqui, nos informa que cada obra está "Também disponível em livro".

domingo, 31 de janeiro de 2010

A batalha interminável



Nos últimos tempos tenho lido muito, várias coisas ao mesmo tempo como é habitual. Muitas coisas de autores espanhóis (Henrique de Hériz, "Mentira"; J.J. Armas Marcelo, "Quase todas as mulheres"; Arturo Pérez-Reverte, entre outros), mas também um livro de um peruano (Alfredo Echenique, autor do excelente romance "O Horto da Minha Amada") e um outro de um chileno. Pelo meio Agualusa ("O vendedor de passados"), Philipe Claudel, etc.

Mas veio parar-me às mãos um livro de David Talbot, publicado em 2007, e intitulado "Brothers" ("Irmãos", na versão portuguesa da Casa das Letras). Os livros são assim, escolhem os leitores. Aliás, se tivermos tempo e os formos visitar com regularidade nos locais onde costumam estar (eu gosto da FNAC do Fórum de Coimbra e do Chiado de Lisboa, da Almedina e da Bertrand, as duas do Estádio de Coimbra, mas também as muitas feiras do livro e alfarrabistas), eles escolhem também o momento. Por isso vejo os livros também com as mãos. São objectos vivos que vêm ter connosco...



"Brothers" é um livro sobre a vida de duas pessoas que queriam mudar o mundo: os irmãos John (JFK) e Robert (RFK) F. Kennedy. Um livro que não consegui parar de ler e que me ocupou a mente durante muito tempo.



É um livro sobre dois homens que tinham o objectivo de mudar a América e, com isso, mudar o mundo. Acabar com a guerra fria, concentrar os esforços na paz, no desenvolvimento social, na igualdade de direitos independentemente de raça ou nacionalidade, no bem-estar dos povos.

O livro conta a história dos dois irmãos, vista pelo ângulo de RFK, baseado em documentos recentemente desclassificados e em mais de 150 entrevistas e depoimentos. Um relato impressionante sobre o ambiente que conduziu aos assassínios de JFK em Dallas, em 1963, e de RFK em Los Angeles, em 1968. O papel da CIA e da Máfia, a guerra fria, Cuba e Fidel Castro, a luta pelos direitos civis (a crise na Universidade do Alabama), etc., mas especialmente a procura de acordo com Kruschev, a Baía dos Porcos, a crise dos mísseis de Cuba e o combate à corrupção e à Máfia são as principais razões que conduziram à conspiração que matou os dois irmãos.

Crise dos mísseis - 1:


Crise dos mísseis - 2:


Discurso sobre sociedades secretas:


Anúncio ao país depois da crise na Universidade do Alabama:


Em Berlim:


A new world of law. Let us begin. Ask not what your country can do for you, ask what you can do for your country, Ask not what America can do for you, but what together we can do from the freedom of man.


A morte de JFK e o aparente desinteresse de RFK, nos anos seguintes, em relação à morte do irmão mostram um mundo negro de falta de lealdade, cumplicidades, traições e cobardias, o posicionamento dúbio dos órgãos de comunicação social (é impressionante o posicionamento do Washinghton Post, liderado por Bradlee, que Jackie Kennedy considerava, a ele e à esposa, "os nossos melhores amigos", sobre a conspiração que matou JFK), e da indústria do cinema com fortes ligações à Máfia. Dizia-se que a CIA tinha cerca de 400 jornalistas pagos para defenderem as posições da agência. Um lado negro e obscuro que se abateu sobre JFK, e que RFK imediatamente percebeu no dia do crime, vivendo os anos a seguir com a culpa de não ter sabido, podido ou conseguido proteger o irmão de tal ameaça. Uma culpa de que só se conseguiu libertar, em 1968, com a campanha presidencial que lhe deu a morte no próprio dia em que venceu as primárias da Califórnia.

RFK speeches:



Mas esta história e este livro mostram bem duas coisas:

1. A força da ligação entre JFK e RFK. Irmãos de verdade, cúmplices e parceiros. Determinados e focados na tarefa de mudar o mundo. A dimensão heróica da sua tarefa, num país cheio de cowboys e falcões, na forma como lidaram com a guerra e a evitaram, com Fidel e Cuba, na habilidade na diplomacia paralela, na grandeza e desinteresse, no desprezo pela sua própria sorte: viviam como pensavam, sem pensar como viveriam.

2. A força e determinação da equipa que reuniram. O valor da lealdade e amizade que os unia.

3. O sentido do dever e a força das suas convicções.

Em 1963 a América perdeu o seu último líder, num crime horrível que mostrou bem o lado negro da América. Ia recuperando em 1968, mas, mais uma vez, a morte pela força não o deixou. Como dizia Ruben "Rocky" Carbajal, amigo de infância de David Morales (o operacional da CIA envolvido na morte de JFK e RFK), "o presidente Kennedy fez merda, causou todas aquelas mortes na Baía dos Porcos, mandou retirar aviões, os homens foram apanhados em terra. Quer que tenha respeito por um presidente destes? Ou por um palerma como o irmão? E ainda por cima entregaram o raio do país aos negros!"

Sem liderança e sem esperança desde 1963, é um negro, justamente, que devolve a esperança, à América e ao mundo, num futuro melhor. Como JFK e RFK gostariam de ver este momento :-)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O que vale um livro?

Texto de João Boavida, na sequência de outro aqui recentemente publicado: Aparição, há cinquenta anos.

Um livro pode ser muita coisa. Alguns, os melhores, são aqueles que, pela sua força, pela profundidade com que nos atravessam nos obrigaram a profundas reformulações, nos despertaram para evidências antes ignoradas e nos formam a personalidade. Em certos casos transformam as nossas vidas. Às vezes é uma questão de oportunidade, de ocasião. Felizes os que encontram o livro necessário na hora certa.

Vem isto a propósito da Aparição, de Vergílio Ferreira, de que antes falei. Muitos jovens foram obrigados a lê-lo nos liceus e terão bocejado ou dito mal do autor; outros terão tido sentimentos muito diferentes. Para mim foi uma obra fundamental. Apanhou-me com quinze ou dezasseis anos e foi um livro com o qual andei em luta mas que me deixou um rasto fundo para o resto da vida.

A melhor homenagem será talvez dar conta da emoção daquela leitura primitiva, e dos sentimentos ambíguos e contraditórios que me provocou. Por um lado, a incompreensão ainda de muitas passagens do texto, e do sentido profundo que me parecia escapar e simultaneamente julgava intuir com alguma clareza; por outro a força profunda que o texto transmitiu e que me tocou fundo. A intensidade das ideias e dos sentimentos, mais intuídos que explicados ou descritos, por um lado, e por outro a espessura das palavras, a bela densidade que elas conseguiam e que arrebatava. Tudo isto foi para mim uma experiência inigualável. Devo a este livro o impacto profundo da descoberta do eu, essa condição indispensável para toda a vida intelectual e moral. Pela primeira vez senti a força da pessoa que eu era, e ao mesmo tempo percebi a sedução e o perigo que isso poderia representar. E, portanto, como a aventura da vida de cada um era simultaneamente espantosa e angustiante, e como quase tudo estava nas nossas mãos.

Para um jovem a sair da adolescência, que contributo maior se pode esperar de um livro? A descoberta do eu até à evidência mais frontal e quase insuportável de nós face a nós mesmos; a força das ideias e a sua profunda e insuperável relação com a pessoa que há em nós, com o que somos e podemos vir a ser. E ainda a qualidade estética que transforma a obra literária na realidade pura; qual dos contributos foi mais importante?

Lembro-me das longas sugestões provocadas pela capa de Sebastião Rodrigues, naquela segunda edição da Portugália: uma estilização pesada do templo de Diana e um sol alentejano soberano e dominante. E a incredulidade perante a frase da contra-capa em que Gaspar Simões dizia: “eis-nos sem dúvida perante um dos melhores romances escritos em língua portuguesa depois de Eça de Queirós”. Como podia Gaspar Simões dizer tal coisa? E, todavia, e minha emoção face à força do texto ali estava para o confirmar. A verdade é que, se em termos estéticos era diferente do que lera até então, o principal do livro não estava aí, embora, como se sabe, não se possa separar o conteúdo da forma. Mal do livro que não consegue harmonizar estas duas componentes. Mas este conseguiu-o estabelecendo connosco uma relação difícil mas profunda, uma espécie de sucção em que a evidência do eu, a “aparição” do eu ao autor e o que isso significava seduzia e perturbava, mas também projectava e estimulava de uma maneira como nunca antes tinha sentido.

Como disse, há momentos certos no crescimento e na vida para ler um livro, e há momentos errados, ou menos adequados. Tive a sorte de ler Aparição na altura certa. Ou talvez um pouco cedo, quem sabe? Mas aquilo a que me obrigou foi uma das razões da sua força e da sua profunda e duradoura influência. Naquela idade, foi um dínamo para a minha formação. Como esquecê-lo?
João Boavida
Imagem: Leitura, de Renoir

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Reconciliar as crianças com a leitura

Sabendo-se que a leitura de qualidade tem uma importância fundamental ao nível das aprendizagens escolares e da própria formação da pessoa, diversos sistemas de ensino têm, nos últimos anos, investido na sua promoção.

Os discursos em torno do que se entende por "leitura de qualidade" e do "modo como se deve promover a leitura" não são, porém, sempre convergentes.

Para se pensar neste assunto, deixamos ao leitor do De Rerum Natura algumas opiniões de intelectuais, investigadores e professores que se têm debruçado sobre o assunto.

Começamos com um extracto de uma entrevista de Anne Rapin a Daniel Pennac (na imagem) professor e escritor francês empenhado em, como ele próprio afirma, "reconciliar as crianças com a leitura".

"Na sua obra sobre a leitura Como um Romance, o senhor promulga os dez direitos imprescindíveis do leitor, um dos quais é não ler, como meio de reconciliar alguns jovens com os livros?

Regra número um: não envergonhar os iletrados. Durante toda a minha vida trabalhei em ritmo de urgência nessa área. Tive contacto constantemente com crianças que estavam não apenas aborrecidas com a escrita, mas também socialmente ameaçadas. A leitura, além disso, é para elas algumas vezes ameaçada pela maneira como a escola a apresenta, que é puramente "médico-legal" e que funciona muito bem com "os que sabem ler", mas não com as crianças em dificuldade escolar. É urgente portanto reconciliar essas crianças com a leitura. Eu, pessoalmente, faço isso nas aulas, lendo em voz alta, falando-lhes de literatura, "contando-lhes histórias". Como um Romance tinha a função de apresentar a minha prática nessa área, sem a pretensão de transformá-la em "método". O problema das crianças que vivem nos inumeráveis círculos da periferia não é mais o facto de serem iletrados, nem é o de perderem o gosto pela leitura, mas o facto de nem mesmo dominarem a linguagem oral, por não terem a quem falar. A oralidade é a primeira coisa que se perde na periferia, onde os garotos são “encerrados” em blocos, onde se organizam necessariamente em bandos, onde a linguagem está reduzida a códigos de reconhecimento próprios ao bando, portanto à sua mais simples expressão (…).

A escola preenche então o seu papel de promover uma abertura?

Antes de mais nada, ela é obrigada a fazer o papel de promotora da reinserção social. O professor que chega até essas crianças deve, antes de as ensinar a ler e escrever, ensinar-lhes primeiro a se comportar, em segundo lugar a falar, ou seja a se comunicar, a levar em conta a presença de um interlocutor... Esse já é, por si só, um trabalho enorme que precede a simples transmissão de um saber.

A seu ver, o que seria necessário modificar em matéria de pedagogia e educação?

Não tenho uma posição teórica sobre essas questões, porque estou bem situado para saber que, seja qual for a opinião que tenhamos, existe sempre um momento, no dia 6 ou 7 de Setembro, no reinício do ano escolar, em que nos vemos sós diante de 35 indivíduos que vão constituir uma entidade realmente particular, diferente da classe ao lado e de todas as que tivemos antes. E dentro dessa entidade existem 35 individualidades que eu preciso obrigatoriamente de levar em consideração individualmente se quiser fazê-las progredir seja em que área for. A ginástica intelectual do professor consiste em criar uma dinâmica no interior desse grupo sem jamais negar qualquer uma das individualidades que a compõem; o que não faz parte do que se ensina aos professores, mas é a realidade quotidiana do seu trabalho. Porque, se eu nego um aluno como indivíduo, ou se, ao contrário, dou atenção demais a ele, o ambiente da turma ir-se-á desestabilizar. O professor deve portanto administrar, como se diz hoje, e de maneira instintiva, esse tipo de problema que não é, para falar a verdade, problema de ordem pedagógica, mas comportamental e afectivo. Se essas dimensões não forem levadas em consideração, se não nos ocuparmos dos "bons" alunos, a pedagogia vai-se tornar uma espécie de mecânica cega que alcança apenas 10% das crianças escolarizadas. Nós, professores, deveríamos poder dar provas de atenção real, de paciência, e também de uma certa gratuitidade nas nossas relações com os alunos. Talvez seja isso que eles chamam respeito.

Mas a transmissão dos conhecimentos na escola é cada vez menos desinteressada.

É verdade. Nós, professores, temos tendência, para nosso próprio conforto metodológico e para atingir os objectivos "rentáveis" que nos são determinados, a comportar-nos como usurários: é preciso que haja rendimento, e o mais rápido possível! Eu ensino-lhe uma lição hoje à tarde e você tem de a recitar amanhã. Isto, evidentemente, é necessário para criar nas crianças o hábito da regularidade no trabalho, mas é perfeitamente insuficiente para me dar a garantia de que essa lição será assimilada e que restará alguma coisa dela em dez anos. Da mesma forma, para fabricar verdadeiros leitores é preciso de vez em quando recorrer à informalidade. Por exemplo: na minha turma de 1.º ano do 2.º grau, das seis horas de francês por semana, eu reservava sistematicamente duas horas para falar da literatura em si mesmo, para ler romances com o entusiasmo de leitor. Fora do programa e sem qualquer exigência de restituição. De tanto ler, de relatar romances, de propor livros aos alunos e de os fazer circular na classe, no final do ano os 35 alunos tinham necessariamente encontrado um romance, um autor e, consequentemente, outros romances do mesmo autor, outros autores da mesma família literária, etc. Se raciocinarmos em termos objectivos, como professor de letras o meu objectivo é duplo: preparar os alunos para o baccalauréat (...) e, se me conseguir organizar, dedicar o meu tempo a fabricar leitores a longo prazo. Esperando, com isso, fabricar ao mesmo tempo homens e mulheres capazes de uma boa conversa e que saibam aproveitar para pensar um pouco por si próprios. Mas esse ensino só pode passar através do exemplo e da valorização de uma certa gratuitidade."

Mais da entrevista pode ser lido aqui.

O FERRO

Por A. Galopim de Carvalho (in "Nós e as Pedras", em preparação) O ferro (Fe), do latim "ferrum", com o mesmo significa...