terça-feira, 24 de julho de 2007
Ideias perigosas
Sob a capa do respeito pelas diferenças, interiorizámos cada vez mais a ideia de que certas coisas não se podem dizer -- por exemplo, não se pode dizer claramente que a religião e a irracionalidade são males, mas pode-se dizer claramente que a ciência e a racionalidade são males. Repare-se que não estou a defender que é verdade que a religião é um mal. Estou é a dizer que hoje é politicamente incorrecto defender tal coisa. E isso é assustador. Não há pior censura do que a autocensura.
"EDUCAÇÃO REGIONAL"
Com o Regime de Autonomia das Escolas (Decreto-Lei n.° 115-A/98 de 4 de Maio) e a política de Gestão Flexível do Currículo do Ensino Básico (Despacho nº 9590/99 de 14 de Maio), desde que “respeitando os núcleos essenciais” do currículo, estabelecido a nível nacional, admite-se a possibilidade de cada escola incluir propostas educativas que incluam “componentes regionais e locais”, adequadas “às necessidades diferenciadas de cada contexto escolar”.
Esta ideia que constitui, no presente, um elemento central em diversos sistemas de ensino tem sido acolhida, desde há longa data, por governações de quadrantes vários, por ideólogos com filiações distintas e, naturalmente, por educadores. No nosso país, tem tido os seus momentos áureos e os seus defensores entusiastas, como o documenta o texto que a seguir reproduzo, no qual se destrinça um toque bem português.
Data, esse texto de 1945, e é apresentado num livro com o sugestivo título “Oiça, Senhora Professora: Ensaio Pedagógico”, publicado pela Coimbra Editora, sendo seu autor um professor da Escola do Magistério Primário chamado José Maria Gaspar.
“Educação Regional”
“As povoações, como os homens, têm uma vida um destino. Quem lembra hoje a pergaminhada cujos ínclitos varões talharam as raias à nossa Pátria pequenina, nos lances mais esforçados, nos lugares mais perigosos (…). E há, neste Portugal moço e velhinho, imensas dessas vilas que, olhadas à luz de uma história mais ou menos remota, se afiguram precitos em seus destinos e almas penadas em suas vidas Porque não aproveitar esses elementos reais para dar realização a um programa de educação nacional de ensino da ‘vida e para a vida’? Tal expressão que fez época e ainda hoje tem preconcebidos intérpretes, continua a ser o mais vasto e o melhor dos programas. Espera apenas um escol educativo capaz de compreender globalmente a vida e capaz, sobretudo, de ensiná-la integralmente, sem preconceitos nem atalhos, sem concepções fragmentárias ou utópicas generalizações.
Na vida actual de cada localidade, raramente deixa de encontrar-se compendiada a História da Nação. Por que não ensiná-la, em cada escola, a partir daí – do conhecido para o ignorado, o desconhecido do próximo para o remoto, o longínquo – como preconiza a mais realista (e a melhor pedagogia?). Um solar um pelourinho, uma ermida, um cruzeiro, um simples nicho ou velha estátua observados pelos alunos e explicados por hábil mestre, surgem na região como sínteses luminosas de uma época histórica nacional (…)
Nunca a geografia elementar devia ser aprendida de outra maneira. Rudimentos de botânica, zoologia, agricultura, agricultura ou mineralogia só podem aprender-se racionalmente (…) a partir dos dados regionais, fácil e prontamente analisáveis como base do abstracto indispensável (…). Uma escola activa havia de reincarnar essas idas realidades, dar-lhes alma e corpo e trazê-las à periferia das existências que buscam rumo.
As povoações, como os homens, têm vida e destino próprios. Foi a sua história que lhos imprimiu e fixou. Uma escola da vida e para a vida não pode, logicamente, alhear-se deles para continuá-los (…)” (páginas 117- 121).
A tia do "eduquês"
E o que é esta filosofia para pobres? Bom, é tudo menos compreensível para qualquer adolescente que traga carências culturais de casa. Vejamos: um adolescente destes não consegue, do ponto de vista dos asnos do nosso Ministério Pimba da Educação, compreender problemas filosóficos centrais — problemas como a questão de saber se existe Deus ou não, ou a questão de saber o que é a arte, ou a questão de saber se temos livre-arbítrio, ou a questão de saber se na acção moral só contam as intenções ou pelo contrário se contam as consequências. Mas consegue compreender o seguinte (e passo a citar):
— “a construção do conhecimento ou o fogo de Prometeu”, para o qual a leitura recomendada é O Sentimento de Si, de Damásio;
— a “problemática” da inteligência artificial, para o qual a leitura recomendada é O Erro de Descartes, também de Damásio;
— “todo o comportamento é comunicação (“ninguém pode não comunicar”, ou o destino social do homem)”;
— “compreender os códigos como sistemas em que os signos se organizam”; etc.
Estes são alguns dos tópicos dos maravilhosos temas-problema inventados pelo pobre de espírito que escreveu este programa. (Não é uma maravilha que no ministério sempre se fale com muitos hífens? Trata-se de temas ou de problemas? Não se sabe. E qual é exactamente a diferença? Também não se sabe. É assim a sandice nacional.) E o que se torna óbvio ao tresler esta aberração? Que esta gente pensa que conhecimento é conversa de tias à hora do chá, em que toda a gente fala de tudo sem saber realmente de nada, só para exibir a sua capacidade para fingir que compreende física quântica, o Damásio e as “problemáticas” sócio-culturais-ou-qualquer-outra-coisa-que-leve-hífen.
Poderá servir tal mosaico de idiotices para complementar a formação do desgraçado do estudante que pensa que vai aprender uma profissão na escola? Dará tal mosaico de idiotices alguns instrumentos críticos para que o estudante possa pensar por si? Não. Nem de perto. Tudo o que vai fazer é transmitir-lhe meia dúzia de ideias feitas: os preconceitos do nosso tempo. Na parte da religião, por exemplo, não há sombra de alusão a quaisquer instrumentos que permitam discutir se Deus existe ou não, ou se é epistemicamente legítimo crer em Deus na ausência de provas. Não se trata de dar instrumentos para avaliar criticamente a religião, mas antes de meter na cabeça dos estudantes que a religião é um fenómeno humano que devemos apreciar bovinamente — tal e qual uma tia de Cascais aprecia a Torre Eiffel quando vai a Paris comprar um perfume.
Mais delirante ainda é a parte da estética. Recorde-se que o Ministério Pimba da Educação priva não apenas os estudantes da via profissionalizante, mas também todos os outros, de qualquer acesso decente à cultura musical e às belas-artes (só os filhos dos ricos têm acesso a estes conteúdos em escolas privadas ou em actividades extra-escolares). Pois é este mesmo ministério que aprova um programa que declara triunfante que visa a seguinte competência: “Formação de uma sensibilidade estética em relação ao mundo natural e à arte, nas suas diversas expressões” (em termos técnicos, isto não é sequer uma competência — ter sensibilidade estética não é uma competência, é a condição de possibilidade para ter algumas competências em estética). E, claro, um autor aconselhado para esta parte, pelo ministério, é... Walter Benjamim — cujos escritos raiam o ininteligível até para os especialistas no seu pensamento, tornando-os inacessíveis à generalidade dos professores, quanto mais dos estudantes. Um bom livro introdutório de estética ou filosofia da arte, que qualquer adolescente ou professor possa verdadeiramente compreender, não se vê na bibliografia, claro, apesar de existirem alguns bons em português — afinal, não se trata de ensinar história da arte ou filosofia da arte ou arte ou qualquer coisa de minimamente preciso e genuinamente operativo, mas de exibir palavreados e referências bibliográficas eruditas para assustar papalvos.
É o completo delírio, do mais puro “eduquês”. E o resultado disto? Perante tanta vagueza, a generalidade dos professores e estudantes vão sentir-se perdidos. O índice de reprovações será muito alto, excepto se o professor fizer precisamente o que o ministério claramente visa: aceita-se tudo, desde que o estudante embrutecido diga mais ou menos as mesmas boçalidades que ouvimos todos os dias na televisão e que as tias de Cascais comentam à hora do chá. Ou seja: uma completa fraude cognitiva e educativa. Mais valia não massacrar os estudantes com tais disparates e deixá-los a namorar e a jogar jogos de computador em vez de os submeter a tão estapafúrdia disciplina.
A ideologia do “eduquês” comete sempre o mesmo erro: pensa que para os filhos dos pobres as matérias centrais das disciplinas centrais, matérias razoavelmente claras e directas, são mais difíceis. Não são. É muito mais fácil ensinar elementos básicos da geografia ou problemas centrais da filosofia ou noções matemáticas elementares a estudantes culturalmente desfavorecidos do que estas conversas vagas que só quem tem uma certa preparação cultural pode fingir que domina — fingir, pois não se pense que o autor desta idiotice disfarçada de programa alguma vez leu realmente Walter Benjamin ou o próprio Damásio e os compreendeu, pois se os tivesse lido e compreendido saberia que não se trata de obras que versem sobre conteúdos acessíveis a estudantes — estudantes que o ministério decidiu que são demasiado estúpidos para compreender os princípios elementares da ética de Kant.
E não é apenas uma questão de ser mais fácil ensinar tais coisas do que os dislates deste programa. Os ideólogos do “eduquês” também nunca conseguem perceber que o que melhor prepara os estudantes para participarem activamente no mundo contemporâneo é um conhecimento sólido, ainda que elementar, das disciplinas centrais do conhecimento humano, e não um ror de tolices vagas, que se limitam a reproduzir a cultura dos programas da manhã do Luís Goucha — que seria capaz de fazer um programa melhor do que este excremento; pelo menos, seria menos pretensioso e mais assumidamente ao estilo das tias de Cascais.
segunda-feira, 23 de julho de 2007
Qual o segredo por trás de O Segredo?
Entre os 24 professores há dois físicos quânticos, John Hagelin e Fred Alan Wolf. "Gostam de se apropriar das ideias da física para defender os seus disparates. Pensam que isso lhes dá credibilidade, mas só é enganado quem quer", diz Carlos Fiolhais, professor no Departamento de Física da Universidade de Coimbra. Tanto um como outro são representantes do movimento New Age, que já tem uns anos - "devia ser chamado Old Age".
Carlos Fiolhais lembra a citação que o físico Robert Park faz no livro Ciência Vudu (ed. Bizâncio) e que resume tudo: "Um doutoramento em Física não é uma vacina contra a insanidade." A física quântica pode parecer esotérica, mas como qualquer ciência experimental tem sido validada experimentalmente. A ideia da força da atracção descrita no livro é "um chorrilho de disparates": "Uma pessoa quer muito uma coisa e essa coisa vem ter com ela... Se não vier, é porque a pessoa não quis suficientemente essa coisa. Não funciona porque já tentei desejar intensamente a lotaria e nem por isso me saiu!"
TESTE DE CULTURA CIENTÍFICA

A última revista "Sábado" publicou um teste de cultura geral, que inclui uma secção sobre cultura científica que foi elaborada por mim com base em notícias recentes. Eis as questões. Darei em breve as respostas (que se encontram na revista)...
1. Em Abril passado, uma equipa de cientistas internacionais anunciou a descoberta do exoplaneta mais parecido com a Terra. O que são exoplanetas?
A- Planetas do sistema solar para lá de Plutão.
B- Planetas de outra galáxia.
C- Planetas extra-solares.
2. Em Junho passado, ocorreu uma viagem de um vaivém espacial da NASA.Como se chamava?
A- Challenger
B- Atlantis
C- Endeavor
3. O evento Live Earth, no dia 7 de Julho, chamou a atenção para o perigo do aquecimento global. No último século, em quanto aumentou a temperatura do ar na Terra, perto da superfície?
A- Aproximadamente um grau.
B- Aproximadamente dois graus.
C- Aproximadamente cinco graus.
4. Em que universidade trabalha actualmente o cientista português António Damásio?
A- Universidade de Harvard
B- Universidade da Califórnia do Sul.
C- Universidade de Lisboa.
5. Em Julho, numa conferência internacional em Bruxelas, Durão Barroso defendeu a aposta nos biocombustíveis como solução para a segurança energética e as alterações climáticas. Qual destas substâncias não é um biocombustível?
A- óleo vegetal
B- petróleo
C- biometanol.
6. Como se chama o actual sistema de computação de maior desempenho em universidades portuguesas?
A- Centopeia
B- Milipeia
C- Lusitânia
7. A nanotecnologia trata de objectos com a escala de um nanómetro. O que é o nanómetro?
A- A milionésima parte do metro
B- A milésima parte do milímetro
C- A milésima parte do micrómetro.
8. O Presidente norte-americano George W. Bush vetou, em Junho, uma lei aprovada no Congresso que alargava as possibilidades de investigação científica. De que assunto se tratava?
A- aquecimento global
B- nanotecnologia
C- células estaminais
9. Em 31 de Maio último comemorou-se o aniversário de um grande matemático português. Como se chamava?
A- Bento de Jesus Caraça
B- António Aniceto Monteiro
C- Ruy Luís Gomes
10. Quem ganhou este mês o Prémio Gulbenkian de Ciência?
A- Alexandre Quintanilha
B- Manuel Sobrinho Simões
C- Maria do Carmo Fonseca
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MAIS LEITURAS DE VERÃO

Houve quem reclamasse porque eu só tinha indicado para as férias livros de não ficção. Poderia dizer que a fronteira entre ficção e não ficção é, por vezes, muito ténue e outras vezes inexistente (por exemplo, Teilhard de Chardin afirmou que “à escala do cósmico, só o fantástico pode ser verdadeiro”). Mas acho que, apesar de tudo, há uma distinção entre realidade e imaginação. Confesso que, em geral, leio mais livros de não ficção do que de ficção. Mas, nas férias, sou um devorador de literatura. Nessa altura deixo que a imaginação ganhe por muitos à realidade. Eis aqui, por ordem alfabética do autor, dez títulos literários recentes que proponho à superior consideração dos estimados leitores:
- Cristóvão de Aguiar, “A Tabuada do Tempo - A lenta narrativa dos dias”, Almedina. O escritor açoriano (da pequena povoação, Pico da Pedra, em São Miguel, de onde também é natural o escritor e crítico Onésimo Teotónio Almeida) volta ao estilo dos seus “Diários de Bordo”, que é do melhor que de escrita diarística se publica entre nós (o autor ganhou já, por um dos “Diários", o Grande Prémio de Literatura Biográfica da Associação Portuguesa de Escritores, e esta “Tabuada do Tempo” valeu-lhe, pela segunda vez, o Prémio Miguel Torga da cidade de Coimbra). Curiosamente, depois de ter andado por outras editoras como a Caminho e a Dom Quixote, o autor regressa ao editor que lhe publicou nos anos 60 o seu primeiro livro, antes de ele embarcar para a guerra colonial. Cristóvão de Aguiar está agora reformado, mas durante muitos anos foi professor de inglês na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Fui seu aluno e com ele aprendi muitas expressões idiomáticas de língua inglesa, tendo-me até preparado para a minha primeira viagem a Inglaterra. E corrigiu os primeiros textos que publiquei em jornais. Como sou amigo dele (esta nota serve para confirmar a regra de que os críticos tendem a falar dos livros dos amigos), já me fez aparecer numa das suas páginas diarísticas!
- John Darnton, “O Pecado de Darwin”, Casa das Letras. Esta é uma história bem contada que está entre a ficção e a não ficção. Trata-se de um romance histórico-científico se quisermos, muito apropriado nesta altura em que se aproxima o ano de Darwin (2009) e as ideias de Darwin, apesar de todas as controvérsias, vão triunfando. O autor foi durante muitos anos jornalista do “The New York Times”, tendo chegado a ganhar o prestigiado prémio Pulitzer. Em Portugal, tinha já publicado “Neandertal”, na Presença, outro romance histórico-científico sobre o eventual cruzamento do homem de Neandertal com o Homo sapiens. Em “O Pecado de Darwin” expõe o modo como o historiador natural inglês chegou à teoria da evolução.
- Olga Grushin, “A Vida de Sonho de Sukhanov”, Bizâncio. Um grande primeiro romance de uma escritora russa que vive nos Estados Unidos, considerado pela revista “Granta” uma das obras mais originais da ficção actual e pelo "Washigton Post" como elemento do “top ten” dos livros de 2006. O tema, tratado de uma forma tão irónica como subtil, é a queda da “vida de sonho” de um quadro soviético, um apparatchik, que tinha renunciado aos seus ideais de juventude, para afinal se ver confrontado com eles... Bem haja à editora Bizâncio que nos traz este esplêndido romance pouco depois de ter aparecido lá fora!
- Ha Jin, “Destroços de guerra”, Gradiva. De um autor chinês-americano, dissidente do regime chinês, que já nos tinha dado “Os Alienados”, “O Noivo” e “À Espera”, é um romance de guerra que mistura verdade e fantasia, com forte predomínio da primeira. O autor, da minha idade, é filho de um militar, que viveu o tempo da cruel guerra da Coreia, tão bem retratada neste livro (vencedor do prémio PEN/Faulkner e finalista do Pulitzer).
- Ian McEwan, “Na Praia de Chesil”, Gradiva. Pois se o leitor quer só um romance, breve, que não só entretenha na praia como faça pensar agarre neste. Vai ficar agarrado à história de uma noite de núpcias completamente falhada numa fria praia inglesa, nos anos 60, na qual a noiva deixa o noivo passadas uma horas do feliz casamento. Parece irreal, mas a realidade pode ultrapassar a mais imaginativa ficção. O próprio McEwan conhece desde há pouco um romance na sua vida real cuja trama é bem mais curiosa do que as dos seus romances (reunidos desde há pouco numa colecção da Gradiva): soube da existência, completamente insuspeitada, de um irmão, hoje operário da construção civil, que os pais, no tempo da Segunda Guerra Mundial e na altura ainda não casados, tinham dado para adopção...
- Joseph Mitchell, “Do Fundo da Baía”, Âmbar. Depois de “O Segredo de Joe Gould” (Dom Quixote, com prefácio laudatório de António Lobo Antunes, que me fez comprar o livro) e de “Sou todo ouvidos” (Âmbar), esta é a terceira obra em português do lendário jornalista e escritor norte-americano, falecido em 1996 com 88 anos, que trabalhou durante dezenas de anos para a revista “The New Yorker”. Conheceu como mais ninguém os vagabundos da "Big Apple", transformando anónimos personagens reais em autênticos heróis literários. No outro dia, o melhor repórter português, o jornalista do “Público” Adelino Gomes, recomendou-me "Sou todo Ouvidos" do Mitchell, descobrindo então que um dos seus autores favoritos afinal não era um segredo bem guardado!
- Flannery O’Connor, “Um Bom Homem é Difícil de Encontrar”, Cavalo de Ferro. Um bom título como este é difícil de encontrar. A tradutora, a bióloga, historiadora de ciência e escritora Clara Pinto Correia, comenta na contracapa: “Li as histórias todas, uma por uma, noite dentro, sempre a sentir-me quase na margem de um rio ppor onde se navega para outra dimensão qualquer. Era incrível. Era hipnótico. Era impossível interromper antes de se chegar ao fim e depois eu apagava a luz e ficava a dar voltas na cama”. Que mais pode uma tradutora querer de um livro? Ah, esquecia-me de dizer: a contista norte-americana morreu em 1966 com apenas 39 anos, de lupus, uma doença do sistema imunológico que na sua família era hereditária. Perdeu-se precocemente um grande talento.
- Miguel Ramalho Santos, “Auto”, Palimage. Para quem anda à procura de uma obra inovadora, tente esta escrita nova, irreverente e torrencial (elogiada por Maria Velho da Costa e por Lídia Jorge) um investigador em biomedicina, na Universidade da Califórnia, São Francisco, nos Estados Unidos, onde reside. A cidade de Coimbra, onde o autor cresceu, aparece aqui retratada como nunca o foi. Miguel Ramalho Santos tem um irmão, João Ramalho Santos, que é também investigador científico e também autor de ficção recente (“Portland, Portugal, Um Voo Doméstico”, Afrontamento).
- Manuel da Silva Ramos, “O Sol da Meia Noite seguido de Contos para a Juventude”, Dom Quixote. O autor de "Viagem com Branco no Bolso” (resultado de uma viagem de investigação a Moçambique), "Jesus, The Last Adventure of Franz Kafka” (resultado de uma bolsa de criação literária em Praga) e "Café Montalto" (uma mescla de ficção e não ficção sobre a indústria têxtil na sua cidade natal da Covilhã) é uma espécie de Henry Miller português. Neste “O Sol da Meia Noite” o cenário é Lisboa, onde o autor agora reside, mas a sua escrita continua criativa e arrasadora. É, segundo o autor, “uma viagem ao fim da noite lisboeta cheia de sexo, nervos, álcool e loucura e que termina, não por um desastre, mas por uma ressurreição". Por seu lado, os contos seguintes são "contos da solidão, onde o sexo é rei e súbdito o amor". Claro que só pode escrever assim quem viveu assim... Última hora: O autor terminou um novo livro, “A Ponte Submersa”, sobre o “serial-killer” de Santa Comba Dão. Mais uma vez a realidade vai tornar-se ficção.
- Philip Roth, “Todo-o-Mundo”, Dom Quixote. Roth é um dos melhores escritores norte-americanos vivos, tendo vários títulos em português (ainda outro dia apanhei numa Feira do Livro “O Complexo de Portnoy”, da Bertrand, praticamente grátis). Em 2002 o maior galardão da Academia Americana de Artes e Letras, a Medalha de Ouro da Ficção, atribuída antes a John dos Passos, William Faulkner e Saul Bellow. Em 2005, tornou-se também o terceiro escritor americano vivo a ter a sua obra publicada numa colecção completa e definitiva pela Library of America. Este seu novo livro não fica nada atrás dos anteriores, vários dos quais existem em português. O tema é o corpo, a degradação física e a morte: “A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre”. A religião é de pouco consolo para este autor: “A religião era uma mentira que tinha reconhecido cedo na vida, e achava ofensivas todas as religiões, considerava sem sentido e pueris as suas patetices supersticiosas, não suportava a sua completa imaturidade.”
Concedo: a realidade e a ficção estão, por vezes, tão bem misturadas que não é possível destrinçá-las...
O exame nacional de filosofia
"O fascínio tecnicista e cientista é um sinal dos tempos, cujas repercussões se fazem sentir na organização, ou antes, na desorganização do sistema de ensino, a todos os níveis."
Georges Gusdorf
Abel Salazar foi professor universitário de Medicina, em inícios e meados do século passado, com um notável e eclético saber nos diversos domínios científicos e culturais: médico, escritor, pintor, escultor e filósofo, tendo-se doutorado, em 1915, com 20 valores com a tese Ensaio de Psicologia Filosófica. Com conhecimento de causa, sentenciou ele: “Um médico que só sabe de medicina nem isso sabe!”
Hoje, numa época em que os responsáveis pela tutela da Educação – em nome de uma deplorável facilidade no acesso ao ensino superior, ou (apenas) como tal plasmado na lei! – em boa hora arrepiaram caminho na decisão em acabar com o exame nacional de Literatura Portuguesa, mas persistem em manter essa decisão no que se reporta à Filosofia, uma questão se levanta. Deverá a Filosofia ser valorizada no âmbito dos cursos de humanidades e subalternizada no domínio das ciências naturais?
A questão nem sequer é nova! Segundo Georges Gusdorf, “na primavera de 1964, assistiu-se ao facto de “os decanos da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Ciências da Universidade de Paris, proclamarem que a Medicina é doravante uma ciência; ninguém poderá pretender ser iniciado se não for geómetra, se não possuir noções de base como as de função, logaritmo, derivadas. A formação médica pressupõe uma escolaridade secundária que passa pelas classes terminais de ciências e de matemática dos liceus”. (Da História das Ciências à História do Pensamento, Editores Livreiros, Ldª., Lisboa, 1988, p. 9).
Ainda segundo este autor, “os distintos decanos preveniam os interessados e as famílias contra a deplorável perda de tempo e de inteligência que representaria um estágio na classe de Filosofia. Um jornalista foi, então, perguntar a estudantes de Medicina, escolhidos ao acaso, o que pensavam desta declaração. Responderam-lhe que lhes parecia, pelo menos, impensada. O conhecimento dos logaritmos é talvez útil ao médico, mas o conhecimento do homem e da condição humana é primordial; é deplorável que não entre em linha de conta na aprendizagem médica. Os estudantes tinham cem vezes razão em denunciar esta forma particularmente nociva de obscurantismo contemporâneo, que existe entre os potentados universitários como no homem da rua” (id., ibid.).
Este descabido, ridículo e insolente ataque à matriz de todas as ciências é tanto mais insólito quando nomes grados da Ciência se distinguiram no frutuoso deambular pelos caminhos de um Conhecimento sem fronteiras. Três exemplos, de entre muitos: Max Planck, físico e Prémio Nobel da Física (1918), preocupado com a relação entre a ciência e religião ; Ernest Krestchemer, médico psiquiatra alemão, doutor honoris causa em Filosofia pelas Universidades de Wurzburgo e Católica do Chile; e Bertrand Russell, matemático e filósofo britânico, Prémio Nobel da Literatura em 1950. E isto para não falar já em Albert Einstein, presença obrigatória em diversos manuais de Filosofia!
Poder-se-á objectar que a disciplina de Filosofia continua a fazer parte do currículo do ensino secundário, mas... o facto de não ser avaliada em exames nacionais coloca-a numa posição, no mínimo, insólita. E não me venham com a teoria de que os exames nacionais são uma forma menos válida ou justa de avaliar os alunos. O mal não está nos exames, mas na forma que preside à respectiva elaboração!
A facilitação em deixar passar os alunos sem testar os conhecimentos adquiridos em exames nacionais nos diversos graus de ensino conduziu a população escolar portuguesa à crítica demolidora de Vasco Pulido Valente: “Um ensino, em particular ensino superior, ineficiente e caótico e, além disso, irreformável”!
Na verdade, chegou-se a níveis de ignorância que campeiam entre os próprios diplomados do ensino superior e que não são escamoteáveis por mais tempo, pese embora, como escreve Mario Perniola, professor de Estética da Universidade Tor Vergata de Roma, “haver sempre uma caterva de ingénuos prontos a escrever a história da última idiotice, a solenizar as tolices, a encontrar significados recônditos nas nulidades, a conceder entrada às imbecilidades no ensino de todas as ordens e graus, pensando que fazem obra democrática e progressista, que vão ao encontro dos jovens e do povo, que realizam a reunião da escola com a vida”.
Numa altura em que novas (e, ainda mais, facilitadoras!) formas de acesso a escolas de ensino superior se divisam no futuro prenunciando técnicos despojados de uma necessária formação cultural - a que a leitura constante de textos literários e a reflexão filosófica conduzem - e em que a quantidade de diplomados pelo ensino superior supera em muito a sua qualidade, os claustros universitários devem manter-se como guardiães esforçados da Cultura Humanística, do Conhecimento Científico e da Investigação Pura e Aplicada. Num contexto de elevada qualidade e numa tradição multissecular na formação de elites!
Rui Baptista
(Ex-docente da Universidade de Coimbra)
domingo, 22 de julho de 2007
Outro azul: Rafael
Ontem comprei um par de jeans, tingido com o indigo que desde os primórdios da História enche de azul o nosso quotidiano, e as calças Fornarina que escolhi lembraram-me outro azul da Antiguidade, mais concretamente as cores púrpura.De acordo com um artigo publicado em finais de 2002 na revista científica britânica «The Lancet» (link disponível para subscritores) o quadro de Rafael, «Retrato de uma jovem Mulher» mais conhecido pelo nome dos jeans, La Fornarina, constitui uma notável integração de ciência e arte, sendo a primeira representação gráfica de cancro de mama. De facto, embora Galeno tenha introduzido o termo cancro (carkynos) após observação de uma neoplasia mamária que morfologicamente lembrava um caranguejo e tenha sustentado que a menstruação, a «bilís negra», era a sua causa, não distinguiu o cancro de mama de outras patologias mamárias. A primeira descrição exaustiva e completa de cancro de mama foi feita em pleno século XVII, mais de 100 anos depois da Fornarina, pelo autor do primeiro tratado de anatomia comparada,«Zootomia Democritae», Marco Aurélio Severino, um contemporâneo de Harvey.
O quadro, encontrado no estúdio de Rafael após a sua morte - de acordo com o seu biógrafo Vasari, causada por um excesso de sexo - tem causado alguma polémica entre os peritos de arte. Cláudio Strinati, superintendente dos Museus de Roma, identifica a Fornarina com Francesca Ardeasca, a amante de longa data que Agostino Chigi, dono da Villa Farnesina onde Rafael trabalhou, acabaria por desposar com bênção papal em 1519. Mas o próprio nome do quadro, a padeirinha, revela que a identidade da misteriosa beleza morena é normalmente atribuída a Margherita Luti, filha do padeiro de Siena Francesco Senese e amante de Rafael - que após a sua morte se refugiou no convento di Sant'Apollonia. A Fornarina revela uma semelhança fisionómica inegável com La Donna Velata, a mulher de véu que já foi um dos retratos mais aclamados do mundo e que Vasari diz retratar a amada de Rafael.A fonte máxima sobre a vida de Rafael, Raffaello Sanzio, Raffaello Santi, Raffaello da Urbino ou Rafael Sanzio da Urbino é a monumental «Vite dei più eccelenti pittori, scultori e architetti», escrita por Giorgio Vasari e publicada em duas versões, em 1550 e em 1568. Vasari diz-nos que o pintor, dominado por uma «necessidade contínua de deleites carnais», quase abandonou os trabalhos que realizava na Villa Farnesina, só não o fazendo porque Agostino Chigi conseguiu que a mulher que inflamava Rafael viesse morar com ele. E assim a Villa Farnesina exibe nas paredes fantásticas cenas dos mitos de Psique e Galatea e graciosos «grotescos», realizados por Giulio Romano, Giovanni da Udine, Baldassare Peruzzi e outros discípulos de Rafael com base nos desenhos do mestre. O termo «grotesco», que aparece pela primeira vez nos tratados de arte do século XVI, refere os frescos feitos à semelhança das recém-descobertas pinturas no que se pensava serem grutas (daí grotesco) mas que escavações posteriores revelaram ser a Domus Aurea, o palácio construído por Nero depois do incêndio, posteriormente soterrado por Trajano para dar lugar às Termas.
Na casa que se pensa ser a de Rafael, situada ao fim da Via della Lungara, mesmo na entrada do Trastevere, um dos bairros mais emblemáticos de Roma, funciona um restaurante que é necessário reservar com alguma antecedência, Romolo nel Giardino della Fornarina (Via Porta Settimiana 8), e que vale a pena visitar não tanto pela comida mas pelo jardim que supostamente era o local favorito dos amantes.

As cores púrpura surgem nesta história porque se Rafael é aclamado com Ticiano como o expoente do retratismo renascentista, é certamente mais conhecido pelo seu trabalho no Vaticano, onde trabalhou desde 1508 até à morte em 1520, com apenas 37 anos. Nomeadamente foi um dos arquitectos da basílica de São Pedro quando em 1514 substituiu o arquitecto do Vaticano e seu amigo Donato di Angelo del Pasciuccio, mais conhecido como Bramante. Rafael assumiu as obras em curso na basílica e é o responsável pela substituição da planta de Bramante, em cruz grega, por um desenho mais simples, em cruz latina.
Fora por sugestão de Bramante, à data o arquitecto do Vaticano encarregue por Júlio II de desenhar a nova basílica, que Rafael foi chamado a Roma para se ocupar dos aposentos papais, quatro salas conhecidas como Stanze de Rafael, construídas por cima dos aposentos do anterior papa, Alexandre VI, o segundo papa Bórgia, falecido em 1503. Os frescos «Discussão do Sacramento», «Parnaso» e «Escola de Atenas» da Stanza della Segnatura são os mais conhecidos frescos de Rafael no Vaticano, embora o seu trabalho nas loggias (galerias) do Vaticano seja especialmente refrescante pela sua simplicidade grandiosa.
As Stanza de Rafael substituiram os aposentos do infame Roderigo Bórgia - pai dos igualmente infames Lucrécia e César, bispo de Valência aos 16 anos - decorados com frescos do mestre renascentista Pinturicchio (Bernardino de Betto). Há pouco mais de um ano o Vaticano desvendou parte dos mistérios dos aposentos papais de Alexandre VI com a abertura da Sala dei Misteri, antecâmara da Sala dei Santi.
De acordo com Vasari, Pinturicchio era um velho conhecido de Rafael e cumprira a encomenda de Pio II para a decoração da Biblioteca do Duomo de Siena com o auxílio de desenhos deste último. Mas aparentemente não foi apenas na Libreria Picolomini que Rafael e Pinturicchio colaboraram. De acordo com Ardelio Loppi no seu livro «Il sorriso di Giulia» um Rafael de dezanove anos, sob supervisão de Pinturicchio, seria o autor da Madonna delle Grazie de Vasanello, que por sua vez teria como modelo Giulia Farnese, uma das amantes do Papa Alexandre VI.
Embora Giulia tenha sido condenada pelo seu irmão Alessandro Farnese, o papa Paulo III, à damnatio memoriae, uma tentativa de apagar da memória pública as pessoas consideradas desonrosas, e não sobrevivam quaisquer representações «oficiais» de Giulia, alguns historiadores de arte indicam várias Madonnas pintadas por pintores sortidos, de Rafael a Miguel Ângelo passando por Pinturicchio, cujo modelo seria a bela Giulia. Nomeadamente, a Madonna con Bambino , que actualmente provoca ondas no Vaticano, pintada por Pinturicchio na Sala dei Santi dos apartamentos Bórgia e que Vasari diz ser «um retrato da senhora Giulia Farnese com a aparência de Nossa Senhora, e na mesma pintura a cabeça do papa Alexandre adorando a Madonna».No último quadro de Rafael, «A transfiguração», podemos ainda apreciar o perfil de uma mulher ajoelhada que muitos pensam ser Giulia. Outros historiadores indicam no entanto que apenas em alguns retratos da época representando mulheres com unicórnios - o animal mitológico era um dos símbolos heráldicos dos Farnese - nomeadamente um por Rafael e outro por Luca Longhi, podemos perceber porque Giulia era referida pelos seus contemporâneos como Giulia La Bella.

sábado, 21 de julho de 2007
Preservar a Floresta

Inaugurou hoje o Centro Ciência Viva da Floresta, em Proença-a-Nova, com a presença do Ministro Mariano Gago. A cerimónia contou ainda com a presença de muitas pessoas da região e de parte dos que contribuíram para a construção deste centro: o décimo quarto de uma importante rede, que tem contribuído para a difusão da cultura científica em Portugal.
Os visitantes do Centro Ciência Viva da Floresta podem explorar diversos aspectos da floresta e da nossa relação com ela. Hoje, preocupamo-nos com a floresta por causa dos frequentes incêndios que a assolam, em particular nos países mais secos, como o nosso. Preocupamo-nos porque ela pode constituir uma fonte de conversão de carbono, essencial para contrabalançar o excesso de libertação de CO2 de causa antropogénica. Preocupamo-nos porque as florestas, que são um reservatório de biodiversidade, estão em declínio.
O Centro procura levar o visitante a reflectir sobre a importância da floresta e dos seus produtos, através diversos módulos interactivos. Participar numa viagem de produção de alimento, observar os decompositores do leito de um rio que promovem a reutilização do material orgânico, viajar virtualmente por entre a manta-morta de uma floresta ou penetrar no seu sub-solo, conhecer a recessão das populações de carvalhos ao longo dos últimos séculos, experimentar as propriedades acústicas de várias madeiras, ou o seu atrito, procurar gerir um terreno agrícola e perceber o valor económico da floresta, num jogo multi-utilizador, ou perscrutar o horizonte em busca de possíveis focos de incêndio, com uma câmara instalada no topo do edifício, ou ainda realizar uma simulação de um incêndio sobre uma maqueta do Concelho, para avaliar os efeitos da intensidade do vento e do relevo, são algumas das experiências que esperam os visitantes.
Todas estas experiências foram concebidas, desenvolvidas, ajustadas e produzidas em Portugal. Concebidas e desenvolvidas por cientistas das universidades de Coimbra e de Aveiro – perto de uma dezena de equipas envolvidas. Produzidas por produtores nacionais. Todo o processo teve a coordenação do Instituto Pedro Nunes, de Coimbra.
Esta componente nacional, que não nacionalista, constitui um aspecto que importa sublinhar. Não é, naturalmente, a primeira vez que se desenvolvem módulos interactivos entre nós. Mas, este é mais um exemplo de que temos competências e capacidade para a o fazer com qualidade e cada vez em maior quantidade. Significa também que os nossos cientistas estão mais conscientes da importância de se envolverem em actividades de comunicação de ciência para toda a sociedade.
Uma vez que estive directamente envolvido, sou um avaliador enviesado. Apesar disso, arrisco a minha apreciação, francamente positiva: o centro tem um conjunto muito interessante de experiências que ajudam a perceber e a sentir a importância da floresta. O Centro Ciência Viva da Floresta constitui uma excelente razão para visitar aquela região do interior, bem no centro do país. Será certamente enriquecedora.
Mulheres em Ciência: Emmy Noether
Göttingen é o berço da química quântica, que nasceu com Robert Sanderson Mulliken (o Senhor Molécula, que ganharia em 1966 o Nobel da Química pelo seu trabalho pioneiro em espectroscopia molecular) e Friedrich Hund. Os dois cientistas desenvolveram em 1926 a teoria de orbitais moleculares que substituiu progressivamente a teoria do enlace de valência, conhecida então como teoria Pauling-Slater, a descrição da ligação química mais popular até meados dos anos 50. Até hoje, Göttingen, com a Universidade e os vários Institutos Max Planck que abriga, continua um nome de referência, especialmente para os químico-físicos.
Os químicos são quiçá parciais em referenciar Göttingen com a química quântica, na realidade a universidade desta cidade, um genuíno produto do Iluminismo fundado em 1734, que produziu um total de quarenta e dois prémio Nobel, está indelevelmente ligada ao nascimento da mecânica quântica. De facto, o Instituto de Física Teórica em Copenhaga e a Universidade de Göttingen na Alemanha são sem dúvida os dois locais de destaque na história da mecânica quântica.
Na Dinamarca, o nome que se destaca é o de Niels Bohr, o «pai» do átomo de Bohr, que em 1913 - depois de estadias em Cambridge no Laboratório Cavendish com J.J. Thomson e em Manchester no laboratório de Rutherford - escreveu um artigo revolucionário sobre o átomo de hidrogénio em que pela primeira vez a quântica foi aplicada ao átomo, que lhe valeu o prémio Nobel da Física em 1922. Em 1916, Bohr regressa à Dinamarca para assumir a cátedra de física teórica na Universidade de Copenhaga. Em 192o foi inaugurado o Instituto de Física Teórica - renomeado Niels Bohr após a morte do cientista em 18 de Novembro de 1962 -, que rapidamente atraiu promissores jovens cientistas de todo o mundo e se tornou uma das referências da mecânica quântica.
Em Göttingen, os principais actores na história da mecânica quântica são Max Born, Werner Heisenberg e Pascual Jordan. No final do Verão de 1925, os três tinham desenvolvido uma teoria quântica completa e consistente, a mecânica matricial, que ficou conhecida na história da física como «o trabalho dos três homens». As fundações da notoriedade da escola de Göttingen podem ser entendidas através de uma afirmação de Heisenberg sobre o seu percurso, «Eu aprendi optimismo com Sommerfeld, matemática em Göttingen e física com Bohr», referindo implicitamente David Hilbert, um dos mais importantes matemáticos da era moderna.
Conhecido do grande público especialmente pelo facto de ter sido o «culpado» que motivou o famoso teorema de Gödel mas também pelos 23 problemas que lançou em Agosto de 1900 no International Congress of Mathematicians em Paris, Hilbert, cujo trabalho no que é conhecido como espaço de Hilbert foi imprescíndivel ao desenvolvimento da mecânica quântica, foi professor na Universidade de Göttingen desde finais do século XIX. Ensinou matemática não só a Born, Heisenberg e Jordan como a um dos mais brilhante matemáticos de sempre, John von Neumann, um matemático húngaro de origem judaica naturalizado americano em 1937.
É de Hilbert a famosa frase «A Física é obviamente demasiado difícil para ser deixada aos físicos», proferida quando, devido em grande parte ao trabalho do seu ex-aluno Neumann, foi demonstrada matematicamente a equivalência entre a mecânica matricial e a mecânica ondulatória de Schrödinger.
Neumann - autor de contribuições preciosas praticamente em todas as áreas da matemática e um dos construtores do primeiro computador, o ENIAC (Electronical Numerical Integrator And Computer) - decidiu desenvolver a sua própria versão da mecânica quântica após ter assistido a uma conferência de Heisenberg sobre mecânica matricial. Em 1933 publicou o livro «The Mathematical Foundations of Quantum Mechanics» onde descreve a teoria de álgebra de operadores ou álgebra de Neumann, assente por sua vez no trabalho de outra ex-aluna (não oficial) de Hilbert, Emmy Noether.
Um facto histórico associado a Hilbert frequentemente ignorado tem a ver com a sua posição «feminista» absolutamente revolucionária numa época em que prevalecia uma discriminação institucionalizada muito grande em relação a mulheres na ciência.
Emmy Noether, que nasceu em 1882 em Erlangen, na Alemanha, em cuja universidade o seu pai leccionava matemática, foi um(a) dos maiores matemáticos do século XX, a «mãe» da álgebra moderna que se destacou ainda pelo seu trabalho na teoria dos invariantes, essencial a Einstein para formular a relatividade geral
Na Alemanha de finais do século XIX inícios do século XX, não era permitido a mulheres frequentarem a universidade já que poderiam «subverter a ordem académica», embora pudessem dirigir uma petição requerendo permissão para assistirem a aulas. Noether teve mais sorte que uns anos antes Sofia Kovalevskaya em Berlim e obteve permissão para frequentar aulas, primeiro em Erlangen e depois Göttingen. Nesta última, entre 1903 e 1904, estudou com Blumenthal, Hilbert, Klein e Minkowski, tendo conseguido em 1904 a permissão, absolutamente inédita, para se matricular em Erlangen. Orientada por Paul Gordan, com uma tese sobre teoria dos invariantes aplicada ao teorema de Hilbert, doutorou-se em 1907 nesta universidade, a segunda mulher a obter tal feito, depois de em 1874, após pressão do seu orientador Weiestrass - e outros - a Universidade de Göttingen ter reconhecido o trabalho de Kovalevskaya, que hoje se estuda em equações diferenciais como Teorema de Cauchy-Kovalevskaya.
Hilbert persuadiu Emmy a regressar a Göttingen em 1915 onde, embora leccionando matemática, os preconceitos da época impediam que o fizesse oficialmente e durante anos os cursos a cargo de Emmy eram anunciados com o nome de Hilbert. Por exemplo, no catálogo de inverno de 1916-1917 da Universidade podia ler-se «Mathematical Physics Seminar: Professor Hilbert, with the assistance of Dr E Noether, Mondays from 4-6, no tuition».
As insistentes solicitações de Hilbert para que Emmy fosse admitida nos quadros da Universidade como Privatdozent eram apoiadas pelo departamento de matemática. Edmund Landau, ao ser inquirido por um colega doutra área sobre se Noether era de facto uma grande matemática, ironizou «Eu posso testemunhar que ela é um grande matemático, mas se ela é uma mulher eu não posso garantir».
Na realidade, apesar do seu enorme prestígio científico, reconhecido internacionalmente, a sua condição feminina só lhe permitiu ingressar como docente nos quadros de Göttingen em 1919, depois de anos de pressão especialmente por parte de Hilbert, refutada com a argumentação de que jamais seria permitido a uma mulher assumir tal posto, pois poderia vir a progredir para professora e assim, horror dos horrores, integrar o conselho ou senado universitário.
A argumentação de Hilbert em prol de Emmy passou por outra frase de antologia, «Meus senhores, eu não vejo como o sexo de um candidato possa ser um argumento contra a sua admissão. Afinal, o conselho universitário não é uma casa de banho». Diria que este era um argumento irrefutável...
Filosofia debaixo do Sol

"Há mais coisas nos céus e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia", declara Hamlet na peça de Shakespeare. Contudo, quando se aproxima o Verão português, é mais justo dizer que há mais filosofia debaixo do Sol do que sonham os nossos veraneantes. É uma ironia subtil que a imprensa cultural portuguesa reaja ao Verão armada de policiais, quando a filosofia nasceu há 2500 anos num país cujo clima estival é muito semelhante ao nosso: a Grécia. "Filosofia" e "Verão" não rimam, dizem-nos. Contudo, parecem não apenas rimar como ser congéneres.
Provavelmente, o obstáculo de maior monta à filosofia foi o contacto que todos tivemos com esta disciplina no ensino secundário e universitário, onde surge como uma espécie de história de ideias estouvadas proferidas enigmaticamente por personagens de ares tresloucados mortos há séculos. E é por isso que a máxima de que há mais filosofia debaixo do Sol do que sonham os nossos veraneantes é justa. Pois nunca houve tantos filósofos como hoje, e o panorama internacional em filosofia nunca foi tão estimulante; mas o nosso sistema de ensino comprou em contrabando a ideia de que a filosofia morreu — e acabou por matá-la. Pois morre a filosofia sempre que lhe retiramos a capacidade crítica para avaliar a autenticidade dos problemas, a justeza das teorias e a solidez dos argumentos, substituindo-a por jogos de palavras e de citações, associações de ideias infantis e falsas profundidades de astrólogo. Como não preferir a isto ao imperial e ao tremoço, à toalha e ao bronzeador, ao chinelo e ao colchão?
O que vem então a ser a filosofia, que deu os primeiros passos num clima estival como o nosso? Não é senão o estudo de problemas que podemos caracterizar como "conceptuais". A filosofia não é sociologia de café, nem psicologia especulativa, nem poesia em prosa. A filosofia ocupa-se de problemas para os quais não há métodos formais ou científicos de solução. Problemas como a natureza da existência e da verdade, do bem moral e do conhecimento; e problemas mais concretos como a eutanásia ou o aborto, os direitos dos animais ou a natureza da arte.
A cega mentalidade positivista conduz ao falso pensamento segundo o qual se um problema não tem solução científica, não vale a pena pensar nele, ou pelo menos não podemos pensar nele com rigor e seriedade, subtileza e elevação. Esta é outra forma de enveredar pela ideia já denunciada da morte da filosofia. A ironia é que este pensamento é já ele filosófico e não científico, e quem o profere ver-se-á grego para o defender, precisamente por não ter qualquer formação filosófica. É esta a inteligência que Deus nos deu, diz o poeta.
O coração da filosofia é a argumentação, e por isso o conhecimento da lógica, formal e informal, é uma condição sem a qual não é possível estudar filosofia. Não basta proferir um pensamento filosófico para ele poder ser aceite como moeda legítima; é preciso que esse pensamento resista ao nosso melhor olhar crítico. Que razões há em seu favor? E que razões há contra ele?
Tomemos um exemplo: a ideia muito popular de que "tudo é relativo". A filosofia liberta-nos do dogmatismo que consiste em repetir sem pensar que tudo é relativo só porque está na moda pensar que tudo é relativo. A filosofia permite-nos dar um passo atrás e olhar criticamente para os nossos preconceitos culturais. Que razões temos para pensar que tudo é relativo? E são essas razões também elas relativas? Mas nesse caso, tanto podemos aceitá-las como não as aceitar e portanto a ideia de que tudo é relativo não consegue desalojar a ideia contrária — que é a ideia de que algumas coisas não são relativas, e não a ideia plausivelmente falsa de que nada é relativo. Argumento e contra-argumento, exemplo e contra-exemplo — é este o coração da filosofia, que nos devolve o gosto pelo pensamento sem peias, pela tentativa inelutável de resolver problemas, melhorar teorias, encontrar argumentos. O que se pode perfeitamente fazer à beira-mar, conversando com outro ser humano. Ao Sol.
LEITURAS DE VERÃO

Minha última crónica do "Público", ligeiramente editada:
Há quem pense que o sol do Verão amolece os miolos. Que, nesta época, todos nós ficamos cerebralmente limitados. E que as leituras de praia se devem, por isso, resumir ao jornal desportivo com as transferências de jogadores ou às revistas da cor do novo equipamento do Benfica. Ora é precisamente o contrário: sei de experiência feita que os dias longos das férias de Verão são perfeitos para o desenvolvimento do QI. Há muito tempo para pensar e há muitos livros que nos fazem pensar... Proponho por isso ao leitor que se disponha a confirmar esta minha experiência cerca de meia dúzia de títulos, todos em português, todos recentes, todos de não-ficção e todos recomendáveis para as horas ociosas do estio:
- Richard Dawkins, "O Relojoeiro Cego", Gradiva (havia uma edição antiga das Edições 70). O famoso biólogo da Universidade de Oxford e autor do recente livro “The God Delusion” defende de um modo brilhante o ponto de vista de que a evolução é cega, não sendo por isso necessário invocar um criador que tudo vê e tudo muda. Os criacionistas, que nos Estados Unidos se têm revelado um perigo não só para a ciência como para a democracia e que já começam a ameaçar a Europa, encontram aqui uma obra que os reduz à sua insignificância intelectual.
- Reviel Netz e William Noel, “O Codex Arquimedes”, Edições 70. Este livro, ainda por publicar nos Estados Unidos, conta a empolgante saga de um palimpsesto da autoria do famoso sábio grego que, segundo a lenda, correu nu pelas ruas da cidade a gritar “Eureka!”. É um ensaio histórico-científico, mas lê-se como um “thriller”: um manuscrito muito raro, que chegou até nós por milagre, é decifrado usando a mais moderna tecnologia...
- José Reis, “Ensaios de Economia Impura”, Almedina. Um economista especialista em planeamento territorial e urbano reflecte sobre a sua ciência, à qual ele chama “impura”. Mas não há ciência "pura". O autor quer dizer que é uma ciência incerta, uma ciência que, para usar a expressão do escritor Amoz Oz, abarca “situações de final em aberto”. A ciência, habituada a fazer previsões, tem, no caso da economia, de se limitar a indicar propensões. Mas nem por isso deixa de ser ciência.
- Maria Antónia Oliveira, “Alexandre O’Neill. Uma Biografia Literária”, Dom Quixote. Um estudo bem documentado sobre o grande poeta português, boémio e mestre das palavras, que ironicamente se auto-intitulou “o caixa dòclos todo satisfeito”. Foi ele quem se insurgiu contra o nosso "modo funcionário de viver". E foi ele quem escreveu: “Colega, passe-me o quebra-palavras:/ encontrei uma que deve ter qualquer coisa lá dentro“. Pois as palavras de O’Neill têm sempre qualquer coisa lá dentro!
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Em equipa que ganha, mexe-se!

Mais um post convidado de Norberto Pires:
Não há nada de mais errado do que este ditado popular que diz que “em equipa que ganha não se mexe”. Sempre achei esta ideia muito curiosa, porque penso que é muito perversa e excessivamente conservadora. No fundo o que este ditado diz é que se uma equipa ganha, ou seja, apresenta bons resultados, então é porque é uma boa equipa e não se deve mexer nela. Mas então quando é que se deve mexer? Se não se mexe enquanto ganha, então esperamos que perca para poder mexer. É por isso uma estratégia perdedora, a curto-médio prazo, e muito deficiente.
A pessoa que inventou este ditado não percebia nada de desenvolvimento sustentado, e tinha talvez como único objectivo proteger-se a si próprio. Na verdade, o que as organizações devem fazer é desenvolver uma estratégia que permita resultados continuados e sustentados pela actividade inovadora e empreendedora da organização, seja ela uma universidade ou uma empresa. E isso significa encontrar sempre as melhores opções, discutir as estratégias de forma fundamentada e decidir. Significa fazer ajustamentos, melhorar aspectos organizativos, introduzir elementos de diferenciação que permitam mecanismos saudáveis de competição interna. Mais do que empreendedorismo para o exterior, as organizações precisam de realizar mecanismos de empreendedorismo interno que permitam salientar os melhores: soluções, ideias, métodos, produtos e pessoas.
Nessa perspectiva, um determinado serviço ou produto só é bom quando se impõe por si próprio, isto é, quando demonstra ser uma mais-valia. E isso não é um valor absoluto, mas sim uma característica relativa que depende das circunstâncias do momento e de factores que gostaríamos de ter controlados. Mas não temos, a não ser que mantenhamos a nossa organização em permanente ebulição interna permitindo que as melhores soluções apareçam e vinguem, se tiverem de vingar.
Em equipa que ganha, mexe-se. Para que continue a ganhar. Não há nada mais estúpido que esperar o descalabro para mexer. É andar sempre a inventar a roda em ciclos mais ou menos regulares. Não é sustentado nem sustentável. Mas é assim que vivemos. E é assim que convivemos com as palavras inovação e empreendedorismo. Sem perceber que ambas detestam a estabilidade, o status-quo. São revolucionárias por natureza. Gostam de ebulição. Detestam hierarquias bacocas e ainda mais a palavra “não”. Quando a encontram no seu caminho arranjam sempre uma forma de lhe dar a volta. Não desistem, nunca. Sabem que ganham se não desistirem. Alimentam-se de ideias, sem pensar como viverão a seguir.
Várias pessoas e organizações perderam grandes oportunidades porque não souberam mudar quando era necessário. Tenho muito medo de um país que usa as palavras empreendedorismo, risco e inovação, como palavras ocas, «buzzwords» do momento. Lembro-me sempre da história de Jack Morton, um dos grandes líderes dos semicondutores, que liderou os Laboratórios Bell na época dourada dos transístores (de 1950 a 1970).Tomou a decisão (http://www.spectrum.ieee.org/dec06/4749) de não entrar na nova e não demonstrada tecnologia LSI, o que no curto prazo parecia uma boa decisão. Mas no médio/longo prazo foi desastrosa. Isso, em si, não tem nenhum problema. Más decisões têm consequências. O grave é que Jack Morton tinha uma atitude e postura de infalibilidade. Era um líder tão forte e agressivo que era capaz de tomar decisões incorrectas sem ser questionado pelos seus colegas. Os argumentos de autoridade abrandam os efeitos da inovação.
Cito a história de Jack Morton porque ele foi um dos engenheiros mais brilhantes do século XX. Um verdadeiro herói. Os transístores mudaram a nossa vida, e isso deve-se a ele em grande parte. No entanto, mesmo um herói comete erros. Isso deveria ser uma lição para todos. A nossa maior força é a capacidade de perguntar e de questionar. E isso significa ‘mexer’, experimentar. Nada é estável, pois mesmo uma vitória nunca é definitiva ou absoluta.
Inovar é mexer. Mexer em todos os sentidos. Testar sempre novas soluções. Vingam as melhores, até que aparece uma ainda melhor. Inovar é nunca estar satisfeito. Inovar é instabilizar, pôr a medalha e voltar a tirar porque outro a merece mais. É perceber porque mexer para o lado direito funciona, mas perguntar de imediato “e se for para o lado esquerdo?”, e “se for três vezes para a esquerda, duas para a direita?”, e “se abanar?”... “e se... humm!”. A nossa maior força é a capacidade de perguntar e de questionar. E isso significa “mexer”, experimentar. Nada é estável, mesmo quando se ganha. Porque a vitória nunca é definitiva ou absoluta. É só mais um passo nesta permanente caminhada que é viver.
Como dizia Albert Einstein: “It’s not that I am so smart, it’s just that I stay with problems longer.”
Dá que pensar, não é?
J. Norberto Pires
Nota: Este artigo foi publicado na revista Robótica (editorial, página 1), e uma versão mais curta no Expresso de 13 de Julho de 2007 (Caderno de Economia, página 29).
Novo Centro Ciência Viva dedicado à floresta
O novo Centro Ciência Viva de Proença-a-Nova reconhece a enorme contribuição que este município dá a Portugal como um dos que mais CO2 fixa. A Rede de Centros Ciência Viva admite isso mesmo e o seu centro, como não podia deixar de ser, tem como tema principal, precisamente, a floresta. Visite-nos.A cerimónia de inauguração, que terá lugar às 12 horas do próximo dia 21 de Julho, contará com a presença do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, José Mariano Gago.
O Centro está instalado num edifício construído, inspirado na secção de corte de uma árvore e nos veios concêntricos que a constituem. O visitante encontra aqui vários módulos interactivos que possibilitam a exploração de aspectos ambientais, humanos, biológicos e económicos, relacionados com o tema da Floresta.
Como funcionam os sistemas de controlo e vídeo-vigilância de incêndios florestais? Exactamente o que é uma árvore? E será que a madeira é toda igual? Como se faz um lápis? Estas são algumas questões que o visitante pode explorar nos três núcleos expositivos principais em que se aborda a Floresta como fonte de bem-estar, fonte de vida e ainda como fonte de riqueza.
Várias experiências estão à disposição do visitante e das escolas, num laboratório que permite explorar mais profundamente os temas das exposições através de actividades práticas.
Um espaço de acesso livre à Internet, e ainda uma cafetaria com acesso à Internet através de um sistema wireless, completam este Centro.
O Centro Ciência Viva de Proença-a-Nova é uma iniciativa da Ciência Viva, da Câmara Municipal de Proença-a-Nova e contou com a participação do Instituto Pedro Nunes de Coimbra.
Mais informações:
Centro Ciência Viva de Proença-a-Nova
Moitas 6150-345 Proença-a-Nova,
Telefone: 274 670 220
www.floresta.cienciaviva.pt
(disponível a partir do dia 21)
OITO ANOS DO PAVILHÃO DO CONHECIMENTO

Informação recebida da Ciência Viva:
No próximo dia 25 o Pavilhão do Conhecimento, no Parque das Nações em Lisboa, que muito recentemente recebeu o visitante dois milhões, celebra o seu oitavo aniversário com diversas iniciativas de carácter científico e lúdico que prometem fazer desta uma das melhores festas de aniversário de sempre. Celebre um dia inteiro de Ciência connosco e deixe a carteira em casa porque a entrada é por conta do Pavilhão.
Programa:
10h00 - 18h00: Durante todo o dia, a entrada no Pavilhão é gratuita.
No espaço "A Cozinha é um Laboratório" venha conhecer a física e a química dos bombons de chocolate e dos bolos de aniversário. e provar ambos!
18h00 - 18h30: Apresentação do novo módulo interactivo sobre a Rede de Centros Ciência Viva - Com cerca de dois metros de altura apresenta-nos um mapa de Portugal gigante e um ecrã táctil que se pode utilizar para conhecer melhor todos os 15 Centros da rede Ciência Viva.
18h30 - 19h00: O investigador Carlos Fiolhais fará a apresentação do livro Turismo Científico em Portugal, editado pela Assírio & Alvim em conjunto com a Ciência Viva, onde encontra os locais de ciência espalhados por Portugal em museus e centros de ciência, em jardins e parques naturais, em monumentos e edifícios.
19h00: Bolo de aniversário e espumante
São oito anos a divulgar ciência e tecnologia, para mais de dois milhões de visitantes que já exploraram 18 exposições temporárias e 4 permanentes, que assistiram a colóquios, participaram em ateliers, navegaram pela Internet, passaram as férias connosco, tentaram resolver crimes hipotéticos usando a ciência e aqui contactaram e dialogaram com investigadores, engenheiros, actores, médicos, professores, atletas, escritores, cozinheiros, políticos, cientistas, estudantes.
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Espelho meu...?

Agora que o Verão está aí e com ele a preocupação com a boa forma, e como não há duas sem três, publicamos mais um artigo da nutricionista Ana Carvalhas (saído no "Diário de Coimbra" de ontem).
Depois da morte, no último ano, de duas modelos brasileiras por anorexia mental, Madrid e Milão tomaram a louvável atitude de banir dos seus desfiles de moda modelos supermagras, isto é, modelos com índice de massa corporal abaixo de 18 kg/m2 (segundo a Organização Mundial de Saúde, são considerados de baixo peso indivíduos com índice inferior a esse valor).
Comer deixou definitivamente de ser um acto inocente. Nunca como agora houve tanta consciência dos efeitos que a alimentação tem na nossa saúde física e mental (no nosso corpo e na nossa imagem corporal). Hoje em dia, comemos não apenas para nos alimentarmos, mas também para sermos mais: mais atraentes, mais jovens, mais saudáveis, mais inteligentes, mais longevos, etc, etc.
A busca da silhueta ideal imposta pelos média tem conduzido aos maiores disparates alimentares. Com efeito, a anorexia, a bulimia e a obesidade são consequências de maus comportamentos alimentares. As anoréxicas e as bulímicas (uso o feminino plural porque são geralmente raparigas, as portadoras destes distúrbios - nove raparigas para um rapaz) são vítimas de medo excessivo de engordar. Os seus comportamentos vão da privação total de alimentos, forma adoptada pelas anoréxicas, até à restrição alimentar alternada com hiperfagia (ingestão excessiva de alimentos), forma adoptada pelas bulímicas. Mas estes dois tipos de comportamento ocorrem igualmente com os obesos que podem experimentar os efeitos nefastos do jejum, quando tentam perder peso, e de hiperfagia descontrolada, quando desistem da sua dieta. Em qualquer dos casos, tais comportamentos geram angústia e infelicidade, que abrem caminho a novas crises, entrando em ciclos viciosos.
A obrigação de ter de parecer uma ninfa pode também ser responsável por distorções psicológicas com graves consequências na auto-estima. Mulheres clinicamente normais, quer dizer, com peso adequado à sua altura, sentem-se muitas vezes, gordas e feias devido à pressão social. Baseada neste fundamento, a Dove, conhecida marca de cosmética, pôs em marcha um inquérito à escala global, em que foram entrevistadas 3200 mulheres de dez países. O estudo revelou que apenas dois por cento das mulheres se achavam bonitas e que cerca de metade se julgavam demasiado gordas. Na sequência, a Dove decidiu lançar no ano passado uma campanha pela beleza real cujo “slogan” era “mulheres reais têm curvas reais”. A ideia era ajudar as mulheres que não têm um corpo de “top-model” (obviamente a esmagadora maioria!) a realçar e a apreciar a sua própria beleza. Repare-se que cada cultura tem os seus padrões de beleza e cada um de nós herda dos progenitores ancas largas ou estreitas, pernas curtas ou longas, troncos curtos ou longilíneos, cinturas estreitas ou largas, enfim cada ser humano é único e irrepetível, com o seu encanto próprio, pelo que não devem gerar-se sentimentos de inferioridade. Cada mulher deve achar-se bonita tal como é!
Nem gordura é formosura nem magreza é beleza. No meio é que está a virtude. E é esse meio que temos todos, mulheres e homens, de procurar para nos olharmos, felizes, diante de um espelho: "Espelho meu...?"
MORSE VERSUS SMS
O INSTITUTO DE COIMBRA*
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O Instituto de Coimbra foi uma academia científica, literária e artística fundada em Coimbra em 1852 e inactiva após 1982. Os Estatutos de 1967 definiam o seu objecto e a sua acção como relacionados com a promoção e o «desenvolvimento das ciências, das letras e das artes» e, em geral, com a «valorização da cultura portuguesa».
O Instituto, que funcionou de início como um “Clube dos Lentes” da Universidade de Coimbra, mas que foi alargando a galeria dos seus membros, incorporando muitas figuras de prestígio nacional e internacional, deu um contributo único para o academismo em Portugal, uma vez que reuniu muitos intelectuais portugueses, desde os tempos da monarquia constitucional, passando pela I República e pelo Estado Novo, até à Revolução de 1974.
O Instituto foi criado num contexto histórico onde a política de regeneração de Fontes Pereira de Melo começava a apresentar resultados. O caminho-de-ferro e as estradas modificaram a face material do país e criaram novas condições, que, por seu turno, estimularam o desenvolvimento industrial e económico. Paralelamente, as políticas liberais foram concretizadas dando particular atenção à instrução pública. Os primeiros estatutos do Instituto foram aprovados e publicados num decreto, em 1859, pelo governo de Fontes Pereira de Melo. Antes disso, em 1853, o governo tinha publicado uma autorização que permitia ao Instituto a impressão, na imprensa da Universidade e paga pelo estado, do seu jornal científico e literário. Contudo, uma das condições era que metade do espaço fosse dedicado à publicação dos relatórios elaborados pelo “Conselho Superior de Instrução Pública” e das listas de professores apontados para os ensinos primário, secundário e superior em todo o país. Desta maneira, uma parte significativa da história das políticas de instrução pública em Portugal e do seu debate está descrita nas páginas dos primeiros 50 volumes de “O Instituto”. Por outro lado, instituições importantes, como a Associação Académica de Coimbra, tiveram a sua origem associada ao Instituto.
Do prestígio nacional desta academia fala, entre vários outros exemplos, o facto de Bernardino Machado (caricaturado em cima), professor de Antropologia na Universidade de Coimbra e mais tarde por duas vezes Presidente da República, ter sido antes Presidente do Instituto, tendo criado por sua própria iniciativa um museu, que mais tarde veio a dar origem ao Museu Nacional Machado de Castro. Também Sidónio Pais, professor de Matemática na Universidade e depois Presidente da República, foi sócio do Instituto. Mas muitos outros nomes das ciências, das letras e das artes foram sócios: Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Francisco Costa Lobo, Ricardo Jorge, Eugénio de Castro, Egas Moniz, Mário Silva, Reynaldo dos Santos, Sílvio Lima, Vitorino Nemésio, etc. Do prestígio internacional fala, entre outros, o facto de Miguel de Unamuno ter sido sócio correspondente.
A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra incorporou há alguns meses o rico património bibliográfico-documental do IC, constituído por uma magnífica biblioteca –que está, por manifesta falta de meios, para catalogar, mas cujo número total em monografias se estima em cerca de 15 000, para além de uma colecção de cerca de 15 000 volumes de revistas científicas e culturais – e por um arquivo de manuscritos também por inventariar. A biblioteca integra as próprias edições da instituição, com particular destaque para "O Instituto: Revista Científica e Literária" (1852-1981). Esta foi, até findar, a mais antiga revista científico-literária publicada em Portugal. Sobre ela só existe um volume de índices referente aos primeiros 100 números, editado em 1937, com um apêndice de 1947. A prática de permuta da revista ao longo de 130 anos permitiu obter revistas e publicações provenientes de academias de todo o mundo (19 países). Depois de anos de olvido, todo este acervo deu entrada na Universidade, com a qual o Instituto tinha uma ligação estreita, quando as instalações onde funcionou a sede do Instituto, na Rua da Ilha, ficaram para a Faculdade de Direito.
O conhecimento da história das academias científicas, literárias e artísticas em Portugal é ainda limitado. Com efeito, apesar de os séculos XIX e XX em Portugal terem sido objecto de numerosos trabalhos de pesquisa histórica, estão longe de se poderem considerar bem estudados, nomeadamente do ponto de vista da história institucional. No caso em consideração, seria importante precisar qual foi o papel das élites em relação à produção e transmissão do conhecimento em várias áreas da ciência. Em particular, saber como elas contribuíram para o progresso – ou, pelo contrário, para o atraso – da ciência em Portugal e para a organização de redes científicas, no país e no mundo, e, para além disso, a maneira como estas evoluíram, sujeitas às restrições que existiram tanto internas como externas.
*Agradeço a colaboração de Jorge Pais de Sousa, Décio Martins Ruivo e a António José Leonardo.
Provas de Aferição de Língua Portuguesa
“A barbárie está nas ideologias.”
Edgar Morin
Como preâmbulo para a necessidade dos exemplos apresentados neste artigo, tomamos de empréstimo as palavras de Eça de Queiroz: “Achais estas páginas cruéis? Pensais que não nos dói tanto escrevê-las com a vós lê-las? ”
Em resquícios de tempos logo a seguir ao 25 de Abril, em que foi palavra de ordem ser bastante decifrar a palavra que o aluno pretendia escrever, a questão de fundo reside também, agora, no facto de numa das partes das Provas de Aferição de Língua Portuguesa, do 4.º e 6.º anos do ensino básico, serem permitidos erros ortográficos e noutra não, medida defendida por hodiernos ideólogos do ensino que parecem conviver bem com a teoria, como lemos algures, “que os erros de português são uma questão de respeito pelas ‘diferenssas’”. Este “statu quo” quase obrigará o professor corrector a ter a seu lado uma espécie de dicionário que o ajude a deslindar o possível significado de certas palavras deixadas no papel “de pena ao vento”!
Com esta novidade, os professores formados pelas antigas Escolas do Magistério Primário, esforçados cabouqueiros de um ensino sem erros de ortografia, podem estar a contribuir para que as crianças a seu cargo, no que respeita à interpretação dos textos literários, sejam postas em plano de igualdade relativamente aquelas que dão erros de palmatória num verdadeiro atentado à Gramática, através de uma refinada forma do “eduquês” que toca as raias do cúmulo!
Por essas e por outras é que há professores, mesmo do ensino secundário, que se dirigem, por escrito, ao conselho executivo das suas escolas: “Senhor presidente do ‘Concelho’ Executivo”. Que importa: percebe-se, não se percebe? Outro caso verídico a cargo dum desses professores que escreveu estava a “chuver”, em vez de estava a chover. Até tem uma certa lógica: chuva escreve-se com “u”, porque não escrever chover com “u”? Um outro professor escrevia, por costume, “há-des”! E o que pensar de um aluno da Faculdade de Letras de Lisboa que ao lhe ser perguntado (“Jornal da TVI”, 29.Jan.2003) a grafia da palavra “assessoria” respondeu ser com dois esses e um cê cedilhado? Existem, até, textos emanados do próprio ministério da Educação que estão longe de primar por uma ortografia que devia honrar a sua origem. A (des)propósito, um aluno que faça uma determinada interpretação de um texto literário com um chorrilho de erros ortográficos e um outro que faça uma interpretação de igual valor sem nenhum erro, deverão ter ambos a mesma classificação?
Em nome de uma juventude sem a muleta de correctores de texto em prosa manuscrita, dizemos em parceria com Ramalho Ortigão: “Isto assim pode ser que seja útil, fácil, vantajoso; pode ser que assim se conquiste a opinião das maiorias boçais!” Bem sabemos, por outro lado, que a época é outra, mas nada justifica que em nome de uma discutível metodologia se atire para o cesto dos papéis a escrita correcta das palavras. Assim, fazer vista grossa ao facto dos alunos, cuja idade ronda os dez anos, cometerem erros ortográficos em Provas de Aferição de Língua Portuguesa, sem qualquer penalização, é ser-se conivente de uma situação que lhes poderá continuar a fazer companhia no estado adulto.
E se, para Fernando Pessoa, “a minha Pátria é a Língua Portuguesa”, o nosso orgulho nacional, numa extensa comunidade que no futuro se poderá estender do Atlântico aos Urais, deve encontrar acolhimento num português bem escrito e bem falado!
VALE A PENA LER
Título: Eduquemos mejor: guia para padres y profesoresAutor: J. M. Quintana Cabanas
Editora: Editorial CCS (Madrid)
Ano de publicação 2007
Ao ler o Prólogo do mais recente livro do pedagogo espanhol J. Maria Quintana Cabanas, onde se esclarece que “as suas bases são científicas, mas a linguagem… é de divulgação pedagógica”, lembrei-me dum texto publicado no Jornal Expresso de 8 de Junho, onde se apresentavam algumas dúvidas em relação às Provas de Aferição de Matemática para o Primeiro Ciclo do Ensino Básico.
No Editorial do sábado seguinte do mesmo jornal, referia-se que foi pedido um esclarecimento ao Ministério da Educação e que este enviou por escrito (condição que, ao que parece, impôs) uma declaração, onde se explica que: “Para se compreender a importância das provas de aferição, é necessário conhecer os rudimentos das técnicas de avaliação e dispor de noções básicas sobre os processos de aprendizagem”.
Face a esta resposta da tutela, o editorialista deixou uma apreensão no ar: “um mísero jornalista, um qualquer pai ou mãe que não for iluminado pelas Ciências da Educação e que, portanto, não tem os ‘rudimentos’ nem as ‘noções básicas’, jamais pode aspirar a compreender as razões e as pontuações das provas dos filhos. É pena! Porque temos o direito a um sistema de ensino compreensível e simples.”
Do que vou ouvindo e lendo por aí, parece-me bastante generalizada a ideia de que nas Ciências da Educação se usa uma linguagem hermética, transcendente para o comum dos mortais, uma espécie de dialecto que os especialistas criaram e que só eles entendem; o tal “eduquês”, na expressão irónica do Professor Marçal Grilo, a que Maria Filomena Mónica, Nuno Crato e Carlos Fiolhais, entre outros, deram um amplo destaque.
Mas, bem vistas as coisas, o Ministério da Educação, a avaliar pelos documentos que dele provêm, também parece apreciar e usar esse tal dialecto. E como não se sabe muito bem quem são os especialistas em Educação e os decisores da Educação, arrumam-se todos na mesma categoria.
Não vou agora deter-me nesse debate de “quem é quem”, pois o que, de momento, me interessa é afirmar o seguinte: os especialistas e os decisores da Educação devem comunicar para o exterior, respectivamente, o saber que possuem e as medidas que tomam. E essa comunicação deve ser clara, rigorosa, objectiva, para que as pessoas entendam o que está em causa e, se for caso disso, critiquem, sugiram, enfim, intervenham. A educação, como toda a ciência, não é um assunto que diga respeito só a alguns; diz respeito a todos. O jornalista tem razão: “temos o direito a um sistema de ensino compreensível e simples.”
Sinceramente, não me parece que explicar a “importância das provas de aferição” e os “rudimentos das técnicas de avaliação” seja algo transcendente, uma pessoa que esteja no Gabinete de Avaliação Educacional deve conseguir fazê-lo em meia-dúzia de frases. Por outro lado, as “noções básicas sobre os processos de aprendizagem” podiam ficar para outra altura, que não vinham propriamente ao caso.
Para demonstrar que o saber pedagógico é comunicável a leigos, aí está o livro “Eduquemos mejor: guia para padres y profesores”, que foi escrito, como acima referi, exactamente com esse propósito. A quem interesse, aqui deixo algumas temáticas nele constantes:
- Porque é que a educação é um problema difícil?
- A autoridade e a liberdade em educação;
- A educação nos valores e a educação moral;
- A educação e os valores transcendentes;
- A educação sexual;
- A educação intelectual;
- A orientação nos estudos e na profissão;
- A educação estética.
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