quinta-feira, 19 de março de 2026

PARA FECHAR O CÍRCULO DA LITERACIA FINANCEIRA: A FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES

Nos últimos anos, a literacia financeira 
ganhou um protagonismo crescente no espaço público, 
sendo muitas vezes apresentada como uma espécie de 'Santo Graal'
 
para responder a vários desafios económicos e sociais.
Cristiana Faria Moreira 18 de Março de 2026 

A literacia financeira, inscrita na componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento, foi ganhando terreno nas duas últimas décadas, sendo agora indubitavelmente central na escolaridade obrigatória. Em Portugal está presente em todos os anos de escolaridade (ver aquiaquiaqui, aqui, por exemplo). 

Recordo que, em 2012, esta componente passou a integrar o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), criado e realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Assim, os países que a integram, vinculados que estão às suas "orientações", tudo têm feito para não ficarem mal posicionados no ranking de resultados.

Recordo que esta entidade não tem

1) mandato democrático para estabelecer políticas educativas, mas estabelece-as indirectamente, recorrendo a diversos meios de convencimento e pressão; 
2) uma orientação educativa, de edificação da pessoa, a sua orientação é de economia de mercado, a qual molda a escolaridade obrigatória.

A ligação de governos stakeholders estratégicos para concretização da Literacia financeira tem sido progressivamente reforçada, ao ponto de, em tempos mais recentes, serem eles a ditar o que os alunos devem aprender, para quê e como, disponibilizam documentos curriculares e materiais, dinamizam actividades várias. E, como se isto não bastasse, substituem os professores em sala de aula. Também avançaram na formação contínua de professores, no seu apoio e acompanhamento. 

O que faltava? A formação inicial de professores. O seu intento mais recente é entrar, como formadores de pleno direito, nos Mestrados em Ensino. que têm lugar na Escolas Superiores de Educação e nas Universidades.

A jornalista Cristiana Faria Moreira explica este novo passo num artigo saído ontem no Público 18 (aqui):

O Banco de Portugal, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões apresentaram uma proposta ao Ministério da Educação para, em conjunto, trabalharem na elaboração de conteúdos de literacia financeira que sejam introduzidos nos planos de estudo dos mestrados de formação de professores. Querem ter docentes mais preparados para ensinarem conceitos financeiros aos alunos, como se gere o dinheiro, como se fazem orçamentos, como se poupa e como se investe. 

Não há ainda qualquer prazo para a implementação desta medida, mas, segundo a informação disponibilizada ao Público pelo ministério, a ideia é que a literacia financeira faça parte da formação inicial dos professores "criando as bases para uma disciplina/módulo de literacia financeira (...) promovendo a sua integração nos planos curriculares dessas instituições".

"A promoção da integração da nos planos curriculares dos futuros professores trará às escolas portuguesas uma nova geração de professores capacitados para leccionar conteúdos de literacia financeira", refere a tutela. 

O desenvolvimento desta iniciativa e a sua estratégia de implementação serão assegurados com os recursos do Plano Nacional de Formação Financeira em articulação com o ministério.

Noto que a formação inicial de professores tem sido despojada de disciplinas que são "a base da profissão docente", que permitem elevar os professores à categoria de profissionais intelectuais, estando neste momento, praticamente reduzida a componentes funcionais e técnicas. E este é mais um contributo para isto mesmo.

Que saber, que competência, que sensibilidade têm essas três entidades no campo da educação e da formação para entrarem no sistema de ensino público, nas escolas públicas, nos centros de formação de professores públicos e, agora, nas instituições de ensino superior públicas? E o pior é que todas estas instâncias as deixam entrar, fazem parceria com elas, legitimam a sua ação destrutiva da educação e da formação. 

Termino este apontamento com as palavras de um sociólogo que muito estimo, Michael Young, registadas em 2014 e relativas à realidade inglesa. 

Os professores [e os educadores/ formadores] já não estudam filosofia, história ou sociologia enquanto estão em formação. Eu acho isso muito sério, porque essas disciplinas eram uma base da profissão e hoje os estudantes são formados quase como tecnólogos da educação, são preparados para oferecer conjuntos de instruções.

Estamos face a "lógicas" poderosas, concertadas e alargadas. Prevejo que, neste caso, os referidos stakeholders (que dialogam com stakeholders mais globais) façam o que Young diz: imponham (substitui a palavra "oferecem" por esta) "conjuntos de instruções" que os professores veiculam aos seus alunos como "conjuntos de instruções". Evidentemente, em benefício dos stakeholders.

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