sábado, 23 de fevereiro de 2008

MOZART E A MATEMÁTICA


Minha crónica do "Sol" de hoje:

O que tem Mozart a ver com a matemática? Já houve quem dissesse que ouvir música de Mozart aumenta a capacidade de raciocínio espacio-temporal e, portanto, a aptidão para a matemática. Este é o chamado “efeito Mozart”, um termo inventado pelo médico francês Alfred Tomatis, que detectou um maior desenvolvimento cerebral de crianças pequenas depois de elas ouvirem Mozart. Acreditando nisso, um governador de um estado americano mandou distribuir discos de música de Mozart a todas as parturientes... De facto, o efeito Mozart não está provado. É um daqueles mitos que os média espalharam sem haver confirmação científica.

Mas Mozart tem mesmo a ver com a matemática. Na imensa obra do génio de Salzburg encontram-se bons exemplos de um importante conceito matemático – a simetria. Um espelho exibe uma simetria particular entre um objecto e a sua imagem, trocando a esquerda e a direita. Em certas peças mozartianas, há mesmo um espelho: é tocada a imagem de um excerto da pauta ao espelho. Encontra-se também um espelho do tempo: um excerto da pauta é repetido, mas tocado do fim para o princípio. É ainda frequente encontrarmos simples repetições. Mozart revela-se exímio em combinar de maneira harmónica todas estas simetrias. E o nosso ouvido fica tão entretido com a música que só olhando com atenção para a pauta é que conseguimos detectar esses truques matemáticos.

Pois a matemática e música Carlota Simões vai dar exemplos no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, no sábado, dia 23 de Fevereiro, pelas 15h30. A palestra é uma iniciativa da Agência Ciência Viva e da Sociedade Portuguesa de Matemática, integrando-se num ciclo intitulado “A matemática das coisas”. Nesse ciclo, a escritora Isabel Alçada já falou sobre a matemática das histórias infantis e, a seguir, um bancário irá falar sobre a matemática financeira, uma “croupier” sobre a matemática dos jogos de azar e uma jurista sobre a matemática do bem e do mal. Não é só na música. A matemática está, afinal, por todo o lado: nas bibliotecas, nos bancos, nos casinos e nos tribunais.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

CÍRCULO VICIOSO

Sou há muitos anos sócio do Círculo de Leitores, entre outras razões porque obtenho lá livros com melhor apresentação que no comércio a retalho. Mas nos últimos tempos é com mágoa que vejo a escassez de livros de ciência.

No último número da revista do Círculo, o 176, ao encontro uma secção intitulada "O Prazer de Conhecer" com o subtítulo "Ler para aprender, melhorar, transformar" pensei que os livros de ciência estavam de volta. Até porque a imagem mostrava uma pessoa com um ar um pouco pensativo com fórmulas como E=mc^2 no cenário. Mas enganei-me: logo a seguir vem o 1º volume de uma nova colecção intitulada "Mestres Espirituais", que é uma colecção de "livros de esperança, autoconhecimento e experiências espirituais". Esse volume, da autoria do Dalai Lama, intitula-se "O Coração da Sabedoria", estando na calha títulos como "O poder está dentro de si" e "A divina sabedoria dos mestres". Além desta série, há na secção livros como "Bento XVI. Pensamento Ético, Político e Religioso", de Dag Tessore" e, pasme-se, títulos tão interessantes como "Portugal. Terra de Mistérios" e "A alma secreta de Portugal", ambos de Paulo Alexandre Loução (estão errados logo no título, pois Portugal não é terra de mistérios nem tem uma alma secreta). Há ainda outros títulos espantosos como "Machos, há muitos, homens há poucos", "Terapia do Mexerico" e "O Prazer é meu", de autoras sortidas.

O prazer de conhecer? De ciência, não há praticamente nada. Assim vai a edição em Portugal... Não chega a compensar haver uma série "Clássicos da Política", dirigida por Diogo Pires Aurélio (o 1º volume é sobre Platão). Acho que desta vez não vou pedir nenhum livro do Círculo.

Biblioteca Joanina Virtual


Outro despacho recente da Lusa, desta vez sobre a Biblioteca Joanina:

Coimbra, 22 Fev (Lusa) - Uma visita virtual à Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra vai ser possível na Internet e num DVD que mostra o monumento do barroco português em três dimensões, desvendando até alguns aspectos normalmente inacessíveis. A visita em ambiente virtual permitirá apreciar pormenores do monumento não visíveis a olho nu - como os frescos dos tectos - e até penetrar em espaços não acessíveis ao público, nomeadamente os seus dois pisos subterrâneos.

Carlos Fiolhais, director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) - que integra a Biblioteca Joanina - disse à agência Lusa que o DVD deverá estar concluído em Março e será distribuído em seis línguas. Além de permitir a visualização do monumento nacional, incluirá também a digitalização integral de um conjunto de 21 obras, seleccionadas entre as mais raras e valiosas do "rico espólio bibliográfico e documental" da Biblioteca Geral.

Entre as primeiras edições que se poderão "folhear" no DVD e no sítio na Internet constam a "Peregrinação" (1614), de Fernão Mendes Pinto (o original foi recentemente mostrado ao Presidente da República na Biblioteca Joanina), "Só" (1892), de António Nobre, e a "Mensagem" (1934), de Fernando Pessoa. Edições da Bíblia datadas da Idade Média, a "Odisseia", de Homero, e "A Origem das Espécies", de Charles Darwin, são outros dos livros disponíveis. Segundo o director da BGUC, a digitalização vai continuar para além deste projecto.

"Queremos que a sensação de imersão no passado seja partilhada por mais gente, usando as novas tecnologias, que estão cada vez mais sofisticadas. Estes bens não são só da Universidade, são de todos", frisou o professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. De acordo com Carlos Fiolhais, este projecto constitui também uma forma de "enriquecer a candidatura" da Universidade de Coimbra a Património Mundial da Humanidade, "ao tornar acessível a um número alargado de pessoas este exemplar único da arquitectura e arte barrocas". Concebido pela empresa MediaPrimer, Tecnologia e Sistemas Multimédia, o projecto é apoiado pelo Programa Operacional da Cultura.

Construída de raiz no século XVIII sobre uma prisão medieval, mais tarde transformada em cárcere académico (hoje visitável), a Biblioteca Joanina é um monumento procurado anualmente por milhares de turistas de todo o mundo. O edifício mandado construir por D. João V para albergar a nova "Casa da Livraria" da Universidade guarda "um precioso acervo bibliográfico constituído por mais de 60.000 volumes de obras impressas nos séculos XVI a XIX que podem ser requisitadas e consultadas no edifício principal da Biblioteca Geral", lê-se no sítio da BGUC na Internet. Actualmente, decorre o programa "SOS Livro Antigo", que pretende restaurar livros com a ajuda de mecenas, cedendo o uso do espaço.

Paredes com mais de dois metros de espessura garantem uma boa climatização do monumento do barroco português, cujo arquitecto é desconhecido, e que impressiona pelo fausto do seu interior. "É como um templo, em que o rei substitui a divindade: há até quem se benza à entrada", refere Carlos Fiolhais.

Bibliotecas da Universidade de Coimbra



Transcrevemos despacho da Lusa sobre as bibliotecas da Universidade de Coimbra:

Coimbra, 22 Fev (Lusa) - Consultar na Internet um original de "Os Lusíadas", guardado num cofre da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, é possível no sítio da instituição, que está a usar as novas tecnologias para digitalizar alguns dos seus tesouros. Datada do século XVI, a edição original do poema épico de Luís de Camões encontra-se guardada, devido ao seu valor, num cofre da Biblioteca Geral, mas uma cópia digital desse exemplar da obra central da literatura portuguesa está disponível no sítio da instituição.

Navegar neste original de "Os Lusíadas" é possível porque, tirando partido das novas tecnologias, a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) tem em curso um projecto de digitalização dos seus títulos mais valiosos e antigos, incluindo documentos originais, impressos e manuscritos, que, pela sua natureza, impõem um acesso restrito e consulta reservada.

Carlos Fiolhais, director da BGUC, revelou à agência Lusa que, até ao final de 2008, deverão estar digitalizadas e acessíveis na Internet mais de quatro mil publicações, dos fundos da BGUC e de outras bibliotecas da Universidade, algumas das quais são marcos da "memória colectiva de Portugal".

Entre as 200 obras já digitalizadas por "scanners" de grandes dimensões a funcionar na Biblioteca figuram alguns dos tesouros da BGUC, como a referida edição original de "Os Lusíadas", e um manuscrito em pergaminho atribuído à escola de calígrafos de Lisboa, uma Bíblia de Abranavel, de que se conhecem apenas duas dezenas de exemplares em todo o mundo. Segundo Maia do Amaral, director-adjunto da BGUC, trata-se de "um exemplar raríssimo" dado que, na Península Ibérica, a maioria destas bíblias foram confiscadas e queimadas pela Inquisição.

Além de várias bíblias latinas do século XIII, manuscritas e com iluminuras, foi também digitalizada uma Bíblia de 48 linhas, que remonta aos primórdios da imprensa, tendo sido feita pela escola de Gutenberg, e vários outros manuscritos e livros relacionados com os Descobrimentos Portugueses (por exemplo, a "Paesi novamente retrovati", colectânea de viagens datada de 1507).

Entre as primeiras edições que os leitores podem visualizar na Internet no sítio da BGUC ( http://www.uc.pt/bguc ) figuram, nomeadamente, a "Peregrinação", de Fernão Mendes Pinto, a "Mensagem", de Fernando Pessoa, e "", de António Nobre.

"Queremos mostrar algumas riquezas da Biblioteca Geral, digitalizando as obras mais emblemáticas e representativas dos vários domínios do saber e da cultura", disse Carlos Fiolhais à agência Lusa, adiantando que nesta, como noutras áreas, a BGUC trabalha em conjunto com todas as bibliotecas da Universidade de Coimbra (UC). Outra preocupação do projecto Biblioteca Digital da UC - apoiado, numa primeira fase, pelo Programa Operacional da Cultura - é a de conservar as obras, muitas delas raridades ou exemplares únicos, facultando a consulta das cópias digitais em substituição dos originais.

A UC tem cerca de um milhão de títulos no catálogo gerido pelo Serviço Integrado das Bibliotecas da Universidade de Coimbra (SIBUC) e mais de um milhão e meio por incluir, o que a torna "na segunda maior biblioteca do país" - afirmou o docente universitário. O objectivo com o "projecto ambicioso" já iniciado é digitalizar "tudo o que não tem direitos de autor" e que representa cerca de 30 por cento do espólio da BGUC - adiantou.

O director da BGUC frisa que, actualmente, as teses científicas produzidas na UC já são apresentadas em formato digital, o que configura "uma biblioteca imaterial, sem livros", em que "o saber chega rapidamente a todo o mundo à velocidade da luz". Esse repositório digital de produção científica está também a ser organizado pelo SIBUC.

Ocupando um edifício na Alta universitária que completou meio século no ano passado, a BGUC "esgotou a sua capacidade de armazenamento" mas, através deste e de outros projectos e acções, está a modernizar-se e a disponibilizar o seu património a um número cada vez maior de utentes. Nos seus oito pisos, estantes compactas de livros, incluindo alguns importantes fundos doados à instituição, e inúmeras pilhas de periódicos estão armazenadas. Uma parte está ainda por colocar por falta de espaço, o que leva a que não possam ser usufruídos.

Ao sublinhar que o património guardado na BGUC constitui "uma riqueza nacional", o catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia de Coimbra apela ao Governo, ao município e aos mecenas no sentido de mobilizarem esforços para evitar a degradação de "uma riqueza que é de todos e que deve estar à disposição de todos".

A cultura da subjectividade


Com a devida vénia, transcrevemos a crónica do médico J. L. Pio de Abreu, que saiu hoje no jornal "Destak", e que fala do desprezo português pela matemática. O "cartoon" não pertence à crónica, é só uma ilustração humorística.

Não sei se foi por causa do psicologês ou do feminismo. O certo é que, de alguns anos a esta parte, se cultiva no nosso país a excelência da opinião subjectiva. “Eu vejo assim, tu vês assado, tudo bem”. Melhor ainda: “Eu sinto que é assim, por isso é verdade”. Sejamos claros: em Portugal, o metro padrão foi definitivamente substituído pelo sentimento de cada um.

Até podia aceitar que um artista expandisse tais opiniões. Mas cheguei a vê-las escritas, preto no branco, por professores do CEJ, a nossa escola de magistrados. Foi então que deixei de me admirar com certas coisas. Uma das coisas que não me admira, é a nossa incapacidade para a Matemática. Deslumbrada com a sabedoria espontânea dos meninos, que sentem que um sinal de multiplicar devia significar delete, qual é a professora que vai disciplinar a cabeça deles?

Que seja assim, pois somos um país de poetas. Às vezes as pessoas até falam umas com as outras, mas mais parece que cada uma espera a oportunidade para recitar o seu poema sem ouvir o poema da outra. Não se entendem, mas pensam que sim. No fim, ganha o debate quem falou melhor. Viva a oratória, abaixo a lógica.

Por isso, ninguém entra em Portugal para um curso com Matemática. E que mal tem? Acaba-se com esta disciplina e com o problema. Assim, seremos todos sobredotados, que é o que diz a subjectividade das nossas mãezinhas e também a nossa. Acabaremos de vez com tudo o que o possa aferir objectivamente.

J. L. Pio Abreu

Blasfémias

"O conceito de blasfémia sempre foi uma arma com que os ortodoxos procuraram silenciar os não ortodoxos. Os julgamentos de Galileu, Sócrates e de Jesus Cristo basearam-se em acusações de prática do crime de blasfémia, e todos os veredictos confirmaram as suas condenações. E, no entanto, foram essas «blasfémias» que lançaram os fundamentos da ciência, da filosofia e da religião europeias."

Salman Rushdie

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Por que não conhecemos a dimensão do universo?

Eis um post convidado do professor do ensino secundário Rolando Almeida, sobre a divulgação científica e o ensino.

O post do Desidério "A Nossa Dimensão", chamou-me a atenção para um aspecto relacionado com o ensino em geral e com as ciências em particular.

O que sei de ciência é muito pouco e, em grande parte, é saber proveniente dos livros de introdução às várias áreas da ciência — desde a química à física, biologia, etc. — que vou lendo. Sem esses livros o meu conhecimento seria muito menor e isto porque já no meu tempo de secundário a escola que tive não me forneceu uma base sólida em matéria de ciência.

Sou professor de filosofia do ensino secundário público há mais de uma década e todos os anos lido directamente com cerca de uma centena de jovens adolescentes. Muito me tem espantado a grave ausência de conhecimentos elementares de ciência nestes alunos. Quando, por exemplo, numa aula, refiro que um ponto brilhante que vemos no céu numa noite escura está a anos-luz de distância e poderá já não existir, os alunos, ao mesmo tempo que revelam uma curiosidade enorme, olham-me como se estivesse maluco e lhes pregasse uma partida, inventando uma fantasia qualquer.

Parece-me importante explorar algumas tentativas de explicar por que razão os alunos do ensino secundário manifestam este comportamento. Entre as explicações mais usuais e mais imediatas temos a ideia de que os alunos hoje em dia só se interessam por futebol e telenovelas, roupas da marca e telemóveis. Bem, se escrevo este texto é precisamente porque a minha experiência constitui um contra-exemplo a esta ideia feita. O que os alunos revelam não é falta de interesse mas desconhecimento dessas matérias. Sempre que falo destes assuntos, os alunos revelam muito interesse e entusiasmo.

Posso também referir o célebre argumento de que os alunos não sabem porque não estudam. Mas referimo-nos aqui a conhecimentos elementares, básicos, os quais, com uma formação sólida, os alunos dominariam ao chegar ao secundário, como dominam o saber respirar sem correr o risco de morte súbita.

Podemos pensar então que a responsabilidade é dos professores. Mas acontece que um aluno do secundário já teve dezenas de professores que lhe ensinaram física, química, «ciências da terra e da vida», etc. Significará isso que, por azar, só teve professores muito maus? Não parece.

Se a responsabilidade não é directamente dos alunos, nem dos professores, só nos resta uma alternativa. A responsabilidade desta ausência de conhecimento só pode dever-se ao método e aos programas de ensino, que não promovem um conhecimento sólido da ciência, da história, da música ou filosofia.

Acresce que os agentes da educação em Portugal actualmente pensam que no ensino técnico e profissional reside a sebastianina salvação. Ainda não compreendemos que um país com bons técnicos mas sem conhecimento tem de comprar no exterior a engenharia, para que os seus técnicos tenham assim trabalho. Mesmo do ponto de vista da economia este desprezo pelo ensino rigoroso das ciências não faz qualquer sentido. O nosso atraso deve-se, em grande medida, à falta de capacidade inventiva, que só se pode começar a cultivar com um ensino que promova o interesse pelas ciências e pelo saber em geral.

Retomo o exemplo dos meus alunos. Tenho por hábito levar livros de filosofia, a minha disciplina, mas também de introdução à ciência (muito devo à Ciência Aberta da Gradiva) para as minhas aulas. Todos os anos vendo indirectamente livros de introdução à ciência. Quer isto dizer que os alunos se interessam -- mas não se podem interessar pelo que não conhecem, pelo que não é estudado nas aulas porque está ausente dos programas.

Esta experiência também me diz que há um trabalho por fazer no sistema de ensino em Portugal: a divulgação da ciência e do conhecimento. Os filósofos, cientistas, músicos, têm de sair das academias e realizar esse trabalho cativando os mais novos para essas áreas de interesse.

Nas notícias recentes do encerramento de alguns cursos no ensino superior (como física, matemática e filosofia), justifica-se esse encerramento alegando que não garantem empregos. Mas isto só é parcialmente verdade, uma vez que os alunos, no ensino secundário, não foram incentivados para o estudo da física, matemática, filosofia, etc. E sabemos que os mercados se dinamizam na sua inventividade e adaptação aos tempos, isto é, sabemos que é possível criar dinâmicas de mercado para cursos como filosofia, matemática ou física. De um certo ponto de vista é mesmo o contrário que ocorre: sem a dinâmica destas áreas, como podemos ter mercados? Será que queremos para toda a vida um nível intermédio em que só temos técnicos profissionais de mecânica, mas não podemos ter os nossos engenheiros mecânicos?

Este trabalho está por ser realizado e os sucessivos ministérios da educação portugueses não se têm mostrado propriamente disponíveis para seguir esta via, pressionados que estão pelas estatísticas políticas. Somos nós, aqueles que estão directamente envolvidos no sistema educativo, quem tem de assumir essas responsabilidades. Precisamos de mais articulação entre os vários níveis de ensino, de actualização dos saberes e de reformas nos programas, que tão vazios andam de conteúdos precisos e rigorosos. Que mais pode fazer um Ministério se tiver um cientista de renome a denunciar publicamente os erros do programa X no ensino básico e secundário? Se esse cientista está ligado a uma universidade, o que ganha futuramente são mais alunos a procurar as áreas científicas, maior empreendedorismo na ciência.

E os alunos ficariam a saber a real dimensão no universo.

Rolando Almeida
Professor de Filosofia no ensino secundário público, no Funchal, Madeira

Engenharia invisível


Transcrevemos, ligeiramente editada, notícia publicada no sítio do "Sol" e noutros, baseada em despacho da Lusa:

«Engenharia invisível» explicada a alunos e professores da Figueira da Foz

A nanotecnologia enquanto engenharia invisível mas também um dos negócios mais rentáveis da Humanidade foi na segunda-feira explicada a cerca de uma centena de jovens alunos e professores, no Casino da Figueira da Foz, pelo físico Carlos Fiolhais.

Aludindo a um modelo de «homem molecular», uma molécula mostrada para simbolizar a conferência "Nanotecnologia: O futuro é já hoje", o catedrático da Universidade de Coimbra observou: «Não se vê a olho nu, é engenharia invisível».

A ideia do físico Richard Feynman (pai da nanotecnologia) que, em 1959, questionou se seria possível colocar os então 24 volumes da Enciclopédia Britânica numa cabeça de alfinete, logotipos só visíveis ao microscópio electrónico e a comparação entre a inteligência de um cão e a de um PDA foram alguns dos muitos exemplos que Carlos Fiolhais utilizou para explicar a nanotecnologia.

«A Enciclopédia Britânica ainda não existe [na cabeça do alfinete], mas lá que é possível é», garantiu, explicando que a nanotecnologia é uma área da ciência em que a unidade de medida (o nanómetro) é um milhão de vezes mais pequena do que o milímetro.

Aludindo, depois, ao feito de engenheiros do gigante informático IBM - que, na década de 80, conceberam um logótipo de empresa com cinco nanómetros de altura -, Carlos Fiolhais deixou desafio idêntico ao Casino da Figueira da Foz. «Sugiro que façam o logótipo mais pequeno do mundo. Ninguém o veria, mas seria famosíssimo», brincou.

No campo da electrónica, exemplificou com os actuais PDA ou telemóveis, aludindo ao tamanho cada vez mais diminuto dos transístores, uma área de aplicação prática da nanotecnologia. «Há oito anos não existia uma coisa destas - mostrou um PDA - onde cabe um autêntico computador. Hoje o meu cão é mais esperto do que o PDA, mas daqui a cinco anos não vai ser, em reflexo dos avanços na nanotecnologia», frisou.

Os piolhos da evolução do Homem


Raramente pensamos nos parasitas do Homem como nossos aliados, pelo menos os parasitas contemporâneos. Mas o estudo de parasitas mais antigos permite-nos lançar luz não só sobre a História como sobre a evolução humana.

Sendo a cabeça sede da distinção do ser do homem do ser dos restantes animais não é de espantar que os parasitas que a infestam tenham dado uma contribuição inestimável para o esclarecimento de algumas questões relacionadas com a evolução humana. De facto, pode recorrer-se aos parasitas para investigar a evolução dos seus hospedeiros. O piolho em particular está intimamente ligado ao seu hospedeiro, o Phthirus pubis mesmo muito intimamente.

Os piolhos são insectos da ordem Phthiraptera, que contém mais de 3000 espécies e a maioria dos que infestam os mamíferos (incluindo o homem e restantes primatas) pertencem à sub-ordem Anoplura , que designa piolhos sugadores de sangue. Uma vez que o sangue dos mamíferos é muito diferente de espécie para espécie, os piolhos sugadores podem ser muito específicos infestando apenas um hospedeiro. Esta especificidade pode ser reforçada por interacções com o sistema imunitário do hospedeiro e assim uma elevada especificidade pode ser devida a uma longa história de co-evolução e co-especiação entre hospedeiros e parasitas.

O homem é único também nos piolhos já que somos hospedeiros para dois géneros deste parasita, o género Pediculus e e o género Phthirus. O primeiro inclui as sub-espécies Pediculus humanus capitis (o piolho da cabeça) e Pediculus humanus humanus (o piolho corporal), que, embora diversas no habitat, são muito próximas geneticamente sendo igualmente muito próximas do piolho do chimpanzé. Já o género Phthirus infesta igualmente o gorila - embora no homem seja tão francamente mais maçador que normalmente o designamos por «chato».

Curiosamente, o mais recente ancestral comum entre os Pediculus está de acordo com a equivalente separação entre hospedeiros, isto é, situa-se há cerca de 6 milhões de anos quando se prevê que tenham divergido as árvores evolutivas que conduziram ao homem e ao chimpanzé. Mas as duas espécies de Pthirus (Pthirus gorillae e Pthirus pubis) partilharam um ancestral comum mais recentemente, há cerca de 3-4 milhões de anos, num passado muito mais próximo que a estimada separação entre as linhas humana e dos gorilas, há cerca de 7 milhões de anos, o que sugere que este parasita «saltou» entre espécies.

O Pediculus humanus ilustra a sua longa história evolutiva no ADN mitocondrial. Contrastando com a curta história que nos conta o equivalente humano (que coalesce num ancestral comum há cerca de 200 000 anos), apresenta três linhas divergentes de ADN mitocondrial que revelam um ancestral comum há cerca de 2 milhões de ano. O tipo A é cosmopolita. O B é mais comum na América do Norte e Europa e o C é o mais raro. A análise dos piolhos conta-nos assim histórias fascinantes não só sobre a evolução humana como, analisando os (muitos) piolhos encontrados em múmias, por exemplo, sobre as migrações humanas. Tão fascinantes que serão retomadas noutro post.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

500 000

Viva, passámos o meio milhão de visitantes. Muito obrigado pela vossa atenção!
De Rerum Natura

A excelência é rara

Na passada semana, ao ligar a televisão, ouvi a responsável máxima pela Pasta da Educação Pré-Escolar e Ensinos Básico e Secundário dizer uma coisa extraordinária em relação à qualidade do desempenho profissional, em geral, e do desempenho docente, em particular. Tão extraordinária se me afigurou, que pensei ter compreendido mal e resolvi ver a repetição do programa. Confirmei o que antes tinha escutado.

O que a senhora Ministra Maria de Lurdes Rodrigues disse foi mais ou menos o seguinte: a avaliação do desempenho docente enquadra-se na política de avaliação da função pública, e no ensino, tal como nas restantes profissões da função pública, a excelência, como todos sabemos, é rara. Não temos 70 % de pessoas excelentes e 30 % de pessoas normais. O que temos, infelizmente, é o contrário.

Interpretei tal afirmação do seguinte modo: antes de se realizar a avaliação do ensino e de se apurarem os resultados da mesma, a senhora Ministra da Educação já sabe, e lamenta, que tenhamos uma minoria de professores excelentes. Em números redondos: trinta por cento.

Se desse azo ao meu raciocínio perguntaria a mim própria, porque foi legislado um novo Regime de Avaliação do Desempenho do Pessoal Docente (Decreto Regulamentar n.º 2/2008, de 10 de Janeiro)? Porque se reconheceu a necessidade de constituição de um Conselho Científico para a Avaliação dos Professores (Decreto Regulamentar n.º 4/2008, de 5 de Fevereiro)? Porque foram emanados vários instrumentos de avaliação por esse mesmo Conselho? Porque se pede às escolas para se organizarem no sentido de aplicarem o dito Regime e construírem os seus próprios instrumentos? Etc.

Como, possivelmente, não encontraria resposta para estas perguntas, tentei o caminho da compreensão. Assim, se contextualizada, a afirmação em causa nada tem de extraordinário. Explico:

- O processo de avaliação do ensino está a ser implementado antes de se ter actualizado o documento que lhe deve servir de referencial – “Perfis gerais de competência para a docência”, permitindo orientá-lo e operacionalizá-lo. Dispomos do Decreto-Lei n.º 240/2001 de 30 de Agosto, que sendo anterior à publicação do actual Estatuto da Carreira Docente (Decreto-Lei n.º 15/2007 de 19 de Janeiro), mantém com ele incongruências não desprezíveis;

- Ainda que sem dispor de um referencial seguro de desempenho docente, que permitisse estabelecer parâmetros inequívocos, rigorosos e objectivos de avaliação, ao arrepio das regras mais elementares da metodologia científica de construção de instrumentos de observação/avaliação pedagógica, o Ministério da Educação divulgou pelo menos duas versões de fichas/grelhas de auto e hetero observação/avaliação, previstos no artigo 44.º do Estatuto da Carreira Docente. Paralelamente solicitou às escolas que se baseiem nelas, que as completem, que as adaptem?;

- Tudo isto foi feito, mesmo antes de se constituir o tão referido e distintamente designado Conselho Científico para a Avaliação dos Professores, que parece continuar reduzido à sua presidente;

- E, já agora, tudo isto foi feito sem se recorrer a conhecimentos científicos de carácter pedagógico-didáctico sobre o ensino e a avaliação do desempenho docente. Mas, aqui passamos para outra história! Uma velha história, aliás, essa da tutela tomar medidas de relevo negligenciando o que se sabe objectivamente sobre a educação. Não, não é por se usar uma linguagem com chavões próprios desta área que o discurso se torna mais credível.

Ironia à parte, e rematando num registo sério, sublinho que a avaliação do desempenho de professores ou de outros profissionais, ainda que necessária, é uma tarefa difícil, muito sujeita à interferência de factores aleatórios.

Nessa medida, requer, antes de mais, e resumidamente, decisões muito claras e precisas quanto ao que avaliar, baseadas no conhecimento do que é desempenho correcto e na especificidade das funções que, em concreto, os profissionais desempenham.

Requer, de seguida, uma metodologia cuidada, que implica, entre outros aspectos, o estabelecimento de fases bem delimitadas onde se inclui: a construção e validação de instrumentos adequados e a recolha e tratamento de dados.

É esta, e não outra a lógica, que se deve guiar um processo de avaliação do desempenho profissional.

Imagem retirada daqui.

Mamutes e alterações climáticas



Em Maio do ano passado, Yuri Khudi, um pastor de renas da cidade de Nenets, encontrou na península de Iamal, no norte da Rússia, o corpo congelado de uma bébé mamute em excelente estado de conservação. Alexei Tikhonov, vice-director do Instituto de Zoologia da Academia Russa de Ciências, que participou de uma delegação que foi examinar a descoberta, (considerada uma das dez mais importantes de 2007 pelo Instituto Arqueológico da America), declarou então que:

«Em termos do seu estado de preservação, é a descoberta mais importante deste género».

Com 1.2 m e 50 kg, a bébé Lyuba morreu há cerca de 10 000 anos, no final da última Idade do Gelo, quando os gigantescos animais foram extintos do planeta. Em finais de Dezembro, o mamute foi enviado para a Universidade de Jikei, em Tóquio, onde foi sujeito a um estudo detalhado, que, como explicou Naoki Suzuki, que dirigiu a primeira parte da investigação, se espera consiga lançar luz sobre a extinção dos mamutes. De facto, as opiniões dividem-se sobre as causas que levaram à extinção deste parente dos actuais elefantes, sendo apontadas como possibilidades alterações climáticas, caça excessiva, doença ou mesmo uma explosão de supernova.

Uma equipa do Instituto Max Planck para a Antropologia Evolucionária em Leipzig, que incluiu Svante Pääbo, o especialista em genética «arqueológica», sequenciou ADN mitocondrial do mamute peludo, Mammuthus primigenius. O artigo «Multiplex amplification of the mammoth mitochondrial genome and the evolution of elephantidae», publicado na Nature em 2005, permitiu uma visão mais clara da evolução da família Elephantidae. Nomeadamente, revelou que o mamute era mais próximo do elefante asiático do que do elefante africano. Os mamutes e os elefantes africanos partilharam um ancestral comum há cerca de seis milhões de anos mas o elefante asiático só se separou dos mamutes cerca de quinhentos mil anos depois. Os mamutes extinguiram-se e o elefante indiano sobrevive.

Na opinião de Bernard Buigues, vice presidente do International Mammoth Committee, aparentemente foram alterações climáticas as causas da extinção dos mamutes, já que considera que «A descoberta da Lyuba é um evento histórico» continuando «Pode explicar-nos porque razão esta espécie não sobreviveu ... e lançar luz sobre o destino dos seres humanos».

A mesma opinião parece ser partilhada por Akito Arima, director do Museu de Ciência de Tóquio onde Lyuba se encontra em exibição até final do mês, que considera ser o aquecimento global que permitiu a descoberta do mamute bébé. A tundra siberiana, cujo solo até há uns anos permanecia congelado todo o ano, começa a descongelar e a revelar os fósseis de uma série de animais pré-históricos, como mamutes, rinocerontes peludos e leões das cavernas. Está igualmente a revelar outro tipo de vestígios deixados pelos gigantescos animais que a percorriam há milhares de anos.

De facto, os excrementos dos mamutes e restantes animais começam igualmente a descongelar e o problema não afecta apenas as narinas dos que estão expostos à recém revelada fragrância da tundra siberiana: de acordo com Sergei Zimov, que dirige a estação de Cherskii da Academia Russa de Ciência, à medida que descongelam, os resíduos orgânicos retidos nos solos começaram a ser degradados por bactérias. A tundra siberiana contém cerca de 500 biliões de toneladas de carbono à espera de serem transformadas em CO2 e metano - um gás de efeito de estufa com um factor de aquecimento global (Global Warming Factor, GWF) de 21.

Na Iakútia, a região do nordeste da Sibéria onde se situa a estação, a faixa de permafrost com solo do tempo dos mamutes cobre uma área equivalente às da França e da Alemanha somadas. Há ainda mais permafrost em outras regiões siberianas. Diria que mais que lançar luz sobre o destino dos seres humanos, os restos dos mamutes selarão esse destino se estes solos se degradarem. Não me parece provável que seja a recente proibição dos aquecedores de pátio que o evitará...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Mais humor - Ainda as crianças e a Internet

Mais humor - As crianças e a Internet

Humor - Moisés e a Internet

Passatempo com prémio

A propósito dos posts «Ei, intelectuais! Deixem as crianças em paz!» e «Assim vamos erguendo o monumento da camalice», aqui publicados, o DE RERUM NATURA e o SORUMBÁTICO oferecem este par de livros ao autor do melhor comentário que, em qualquer dos dois posts, seja feito até às 20h do próximo dia 21, quinta-feira.
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Actualização: o passatempo foi ganho por 'Musicólogo' pelo seu comentário ao 2.º post. Pede-se-lhe, pois, que escreva para sorumbatico@iol.pt (até às 20h do próximo dia 25), indicando morada para envio do prémio.

NEWTON, MAXWELL E EINSTEIN


No túmulo do físico inglês Isaac Newton (1642-1727), na Abadia de Westminster, em Londres, estão gravados os versos panegíricos do poeta Alexander Pope contemporâneo de Newton:

Nature and Nature's law lay hid in night.
God said “Let Newton be“ and all was light.


Mas foi preciso Deus dizer "Let Maxwell be" para se fazer luz sobre a própria luz. Com efeito, foi o físico escocês James Clerk Maxwell (1831-1879), sepultado na mesma igreja que Newton perto deste (e também perto de Charles Darwin), quem, no ano da graça de 1861, descobriu que a luz resultava da união da electricidade com o magnetismo. Descobriu que a luz não é mais nem menos do que uma onda do campo electromagnético, isto é, a propagação no espaço, que pode ser vazio, dos campos eléctrico e magnético. A óptica é filha do electromagnetismo.

O electromagnetismo de Maxwell (e Faraday et al.) é um pouco mais complicado do que a mecânica de Newton (e Galileu et al.). Mas diz muito sobre a capacidade que a matemática tem de descrever o mundo o facto de as equações de Maxwell, que abarcam todo o electromagnetismo e conduzem às equações de onda de luz, caberem numa simples "t-shirt".

Newton e Maxwell eram os dois grandes heróis do físico suíço e norte-americano Albert Einstein (1879-1955), autor da teoria da relatividade. Einstein corrigiu o primeiro no limite das grandes velocidades (velocidades muito próximas das da luz), mas manteve integralmente o segundo. Não admira que, em 1921, logo depois de receber o Prémio Nobel, se tenha deslocado à abadia de Westminster para lhes prestar homenagem. Se viu mais longe, é porque estava aos ombros de gigantes. Não, Einstein não está em Westminster. Ou melhor, alguns átomos dele talvez estejam, pois Einstein, à excepção do cérebro, foi cremado e as suas cinzas espalhadas num sítio desconhecido...

“E assim vamos erguendo o monumento da camelice!”


Em comentário ao texto “Ei, intelectuais! Deixem as crianças em paz!”, publicado neste blogue, um leitor recordou uma reflexão de Eça de Queiroz, publicada no livro Cartas de Inglaterra, sobre a literatura para a infância e juventude. Agradecendo a intervenção, aqui reproduzimos uma parte significativa dessa reflexão, salientando, com as palavras do leitor, que passados 130 anos parece que, em certos aspectos, continuamos na mesma.

“Em Inglaterra existe uma verdadeira literatura para crianças, que tem os seus clássicos e os seus inovadores, um movimento e um mercado, editores e génios – em nada inferior à nossa literatura de homens sisudos. Aqui apenas o bebé começa a soletrar, possui logo os seus livros especiais: são obras adoráveis, que não contém mais de dez ou doze páginas, intercaladas de estampas, impressas em tipo enorme, e de um raro gosto de edição. Ordinariamente o assunto é um história, em seis ou sete frases, e decerto menos complicada e dramática que O Conde de Monte-Cristo ou Nana; mas enfim tem os seus personagens, o seu enredo, a sua moral, e a sua catástrofe.
Tal é, para dar exemplo, a lamentável tragédia dos Três velhos sábios de Chester: eram muito velhos e muito sábios; e para discutirem coisas da sua sabedoria, meteram-se dentro duma barrica, mas um pastor que vinha a correr atrás duma ovelha, deu um encontrão ao tonel, e ficaram de pernas para o ar os três velhos sábios de Chester!
Como esta, há milhares: a Cavalgada de João Gilpin é uma obra de génio.
Depois, quando o bebé chega aos seus oito ou nove anos, proporciona-se-lhes outra literatura. Os sábios, a barrica, os trambolhões, já não o interessariam; vêm então as histórias de viagens, de caçadas, de naufrágios, de destinos fortes, a salutar crónica do triunfo, do esforço humano sobre a resistência da natureza.
Tudo isto é contado numa linguagem simples, pura, clara – e provando sempre que na vida o êxito pertence àqueles que têm energia, disciplina, sangue-frio e bondade. Raras vezes se leva o espírito da criança para o país do maravilhoso: - não há nestas literaturas nem fantasmas, nem milagres, nem cavernas com dragões de escama de ouro: isso reserva-se para a gente grande. E quando se fala de anjos ou de fadas é de modo que a criança, naturalmente, venha a rir-se desse lindo sobrenatural, e a considerá-lo do género boneco, como os seus próprios carneirinhos de algodão.
O que se faz às vezes é animar de uma vida fictícia os companheiros inanimados da infância; as bonecas, os polichinelos, os soldados de chumbo (…). Esta literatura é profunda. As privações de soldados vivos não impressionariam talvez a criança – mas todo o seu coração se confrange quando lê que padecimentos e misérias atravessam aqueles seus amigos, os guerreiros de chumbo, cujas baionetas torcidas ela todos os dias endireita com os dedos: e assim pode ficar depositado num espírito de criança justo horror da guerra.
As lições morais, que se dão deste modo, são inumeráveis, e tanto mais fecundas quanto saem da acção e da existência de seres que ela melhor conhece – os seus bonecos.
Depois vêm ainda outros livros para os leitores de doze a quinze anos: popularizações de ciências, descrições dramáticas do universo; estudos cativantes do mundo das plantas, do mar, das aves; viagens e descobertas; a história; e, enfim, em livros de imaginação, a vida social apresentadas de modo que nem uma realidade muito crua ponha no espírito tenro securas de misantropia, nem uma falsa realização produza uma sentimentalidade mórbida (…)
Não sei se no Brasil existe isto. Em Portugal nem tal jamais se ouviu falar. Aparece uma ou outra dessas edições de luxo, de Paris (…) e que constituem ornatos na sala. A França possui também uma literatura infantil tão rica e útil como a de Inglaterra; mas essa Portugal não a importa: livros para completar a mobília, sim; para educar o espírito, não.
A Bélgica, a Holanda, a Alemanha, prodigalizam estes livros para crianças; na Dinamarca, na Suécia, eles são uma glória da literatura e uma das riquezas do mercado.
Em Portugal, nada.
Eu à vezes pergunto a mim mesmo o que é que em Portugal lêem as pobres crianças, Creio que se lhes dá Filinto Elísio, Garção, ou outro qualquer desses mazorros sensaborões, quando os infelizes mostram inclinação para a leitura.
Isto é tanto mais atroz quanto a criança portuguesa é excepcionalmente viva, inteligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os portugueses, só começamos a ser idiotas – quando chegamos à idade da razão. Em pequenos, temos todos uma pontinha de génio: e estou certo que se existisse uma literatura infantil como a da Suécia ou da Holanda, para citar só países tão pequenos como o nosso, erguer-se-ia consideravelmente entre nós o nível intelectual (…). E assim vamos erguendo até aos céus o monumento da camelice!”

Maria Helena Damião e Maria Regina Rocha

Referência bibliográfica:
Eça de Queiroz (1951). Literatura de Natal. In Cartas de Inglaterra. Porto: Lello & Irmão, páginas 49-54.

Imagem de Eça de Queiroz retirada de:
http://www.webboom.pt/mostra_fotografiaautor.asp?id=51092

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Pensamento Racional


Na véspera do lançamento na Amazon de mais uma série de Richard Dawkins, na realidade duas séries reunidas em «Rational Thought: The Richard Dawkins Collection», relembro a série «Break the Science Barrier», emitida originalmente no Channel 4 da BBC em 1996. Na série acompanhamos Dawkins em conversas com o astronómo que descobriu os pulsars, Douglas Adams ou David Attenborough. Mais apontamentos podem ser encontrados no Google Video.

Parte 1, Parte 2, Parte 3

domingo, 17 de fevereiro de 2008

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...