terça-feira, 12 de setembro de 2023
RI DE TI PRÓPRIO
segunda-feira, 11 de setembro de 2023
Enxaquecas de famosos
Excerto do livro "Enxaqueca" de Ana Carvalhas, saído há pouco na Gradiva:
"Nesta secção apresento alguns casos de pessoas famosas que provavelmente sofreram de enxaqueca. É difícil fazer, por vezes, uma «autópsia» a partir dos escritos ou obras feitas, designadamente para os personagens mais antigos, mas a probabilidade de se tratar de enxaquecas é em geral muito forte para os casos aqui indicados.
A história das enxaquecas é tão antiga quanto a humanidade. Sendo eu uma pessoa praticamente anónima, neste capítulo conto, em pinceladas rápidas, os casos de algumas figuras famosas que provavelmente sofreram da mesma doença que eu, ou pelo menos se presume que assim foi. Haverá mais, certamente. Os seus relatos ou as suas representações artísticas da doença são muito sugestivos, valendo a pena apresentá‑los aqui, por ordem cronológica de nascimento.
O famoso médico romano Cláudio Galeno (c. 129‑c. 217), natural de Pérgamo, na Grécia, é o autor do termo «hemicrania» (metade da cabeça), do qual emergiu o termo «migrânea» (lembro que, em inglês, enxaqueca se diz migraine), a que comummente se chama hoje «enxaqueca». Dizia‑se «hemicrania» porque, em muitos casos, as dores da enxaqueca só afetam metade da cabeça. Galeno foi um autor de referência na medicina da Idade Média e também do Renascimento.
O imperador romano Júlio César (100 a. C.‑44 a.C.), o poderoso chefe militar que conquistou a Gália, sofria de dores de cabeça intensas, perturbações da visão e fraquezas, em particular nos anos que precederam o seu assassínio pelo traidor Bruto. Muito provavelmente tinha enxaquecas com aura, em vez de ataques epiléticos ou mini AVC, que, apesar de terem algumas características semelhantes, lhe teriam prejudicado mais severamente as capacidades de escrita e de direção militar e política.
A abadessa alemã Hildegard von Bingen (c. 1098‑1179), ou Santa Hildegarda (é santa da Igreja Católica formalmente desde 2012, apesar de a sua veneração ser bastante mais antiga), foi uma freira beneditina que dirigiu o Mosteiro de Rupertsberg em Bingen am Rhein, na Alemanha. Polímata, foi não apenas escritora nas áreas da teologia e filosofia e compositora musical como também mística, cujas visões, iniciadas na infância, ficaram na história da religião. Além disso, pode ser considerada uma alquimista no sentido em que introduziu ervas medicinais, algumas das quais chegaram até nós: neste sentido é uma das primeiras mulheres da ciência. Pelas descrições que nos deixou, designadamente em dois códices manuscritos, uma parte da comunidade científica acredita hoje que ela sofria de enxaquecas. Outros místicos contaram visões semelhantes ao longo da história. Nas palavras que Hildegarda nos deixou:
"As visões que eu tive não recebi em sonhos, ou sono, ou delírio, ou pelos olhos do corpo, ou pelos ouvidos do eu exterior, ou em lugares escondidos; mas eu as recebi acordada e vendo com a mente pura e os olhos e os ouvidos do eu interior, em lugares abertos, como Deus quis. Como isso pode ser é difícil para a carne mortal entender."
Dando um grande salto no tempo, o escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547‑1616), o famoso autor do Dom Quixote, poderá ter sofrido de enxaquecas, a avaliar pelos seus escritos, designadamente nessa obra‑prima da literatura universal. O personagem do «cavaleiro da triste figura» fornece muita informação aos neurologistas de hoje, tendo alguns destes adiantado a hipótese de ser portador de uma demência. Para o neurologista espanhol laureado com o Nobel da Medicina Santiago Ramon y Cajal, Dom Quixote não era demente, mas tinha problemas de saúde, como muitos seres humanos, ficando por saber qual é a componente autobiográfica na construção do personagem. Cervantes tinha algum conhecimento das obras médicas da época. No Dom Quixote pode ler‑se: «Quando a cabeça sofre, todos os membros sofrem.»
Thomas Jefferson (1743‑1826), um dos pais fundadores dos Estados Unidos e o terceiro presidente dos Estados Unidos (era, além disso, amigo do diplomata e cientista português abade José Correia da Serra, para quem tinha reservado um quarto na sua mansão na Virgínia, perto de Washington), deixou na sua correspondência e nos seus diários descrições de ocorrência de dores de cabeça mais ou menos periódicas que podem ter sido enxaquecas. Algumas delas ocorreram no período crítico da história norte‑americana e mundial que foi a preparação da independência dos Estados Unidos.
Um outro presidente norte‑americano que sofria de crises de enxaquecas foi o 18.o presidente Ulysses Grant (1822‑1885), que foi comandante no final da guerra civil. Desde jovem que teve enxaquecas recorrentes que, aparentemente, eram desencadeadas ou intensificadas por sons musicais. Um terceiro presidente norte‑americano com um registo clínico em que é possível identificar enxaquecas foi, muito mais tarde, John F. Kennedy (1917‑1963), o 35.º presidente, que ficou célebre com a sua promessa no início dos anos de 1960 de uma viagem humana à Lua (concretizada pela primeira vez em 1969 com a missão Apollo 9). Não gostava de viajar em carros descapotáveis, porque a luz solar lhe causava enxaquecas. Morreu, como se sabe, num atentado, quando se deslocava, em Dallas, precisamente num carro descapotável...
Tendo sido como Júlio César um dos maiores comandantes militares da história, o imperador francês Napoleão Bonaparte (1769‑1821) sofreu, pelo menos durante algumas campanhas militares, de dores de cabeça que podem ter sido enxaquecas. Napoleão sofreu de outras doenças, entre as quais a sífilis, que ainda hoje são objeto de controvérsia por médicos interessados pela história.
O naturalista inglês Charles Darwin (1809‑1882), o famoso autor da Origem das Espécies, publicado pela primeira vez em Londres em 1859, tendo‑se logo tornado um best‑seller, não só no Reino Unido como em todo o mundo, foi um homem bastante doente durante uma boa parte da sua vida. Apesar de haver alguma incerteza, há um diagnóstico de enxaqueca feito por muitos médicos que estudaram a sua biografia. Havia decerto outra doença (ou doenças), agravada por situações de stresse. Devido ao seu estado de saúde débil, Darwin isolou‑se na sua casa de campo em Downe cultivando as suas orquídeas e evitando ao máximo encontros sociais. A defesa do darwinismo, que exigia energia e veemência, foi feita por outros.
A poeta norte‑americana Emily Dickinson (1830‑1886) sofria provavelmente de dores de cabeça intensas que deviam ser de enxaqueca. A sua situação de saúde reflete‑se na sua obra, feita de modo solitário. Dá a entender uma dor de cabeça intensa no seu poema «Senti um funeral no meu cérebro» (aqui na tradução de Augusto de Campos):
"Senti um funeral no meu Cérebro,
E Carpideiras indo e vindo
A pisar — a pisar — até eu sonhar
Meus sentidos fugindo —
E quando tudo se sentou,
O Tambor de um Ofício —
Bateu — bateu — até eu sentir
Inerte o meu Juízo
E eu os ouvi — erguida a Tampa —
Rangerem por minha Alma com
Todo o Chumbo dos pés, de novo,
E o Espaço — dobrou,
Como se os Céus fossem um Sino
E o Ser apenas um Ouvido,
E eu e o Silêncio estranha Raça
Só, naufragada, aqui —
Partiu‑se a Tábua em minha Mente
E eu fui cair de Chão em Chão —
E em cada Chão achei um Mundo
E Terminei sabendo — então —"´
O clérigo inglês Lewis Carroll (1832‑1898), célebre autor de Alice no País das Maravilhas (1865) e da sua sequela Alice do Outro Lado do Espelho, de várias obras de matemática e também praticante de fotografia (ficaram famosas as suas fotografias de meninas), sofria de uma forma rara de enxaqueca com aura. Com razoável probabilidade o livro Alice no País das Maravilhas emergiu dessas suas perturbações de saúde. Hoje na literatura médica usa‑se mesmo o termo «síndrome de Alice no País das Maravilhas» para designar certas alucinações associadas a enxaqueca.
Os exemplos de Dickinson e Carroll estiveram longe de ser casos isolados no que respeita à sublimação artística de crises de enxaqueca. Além da literatura, também há exemplos nas artes visuais, como indicarei a seguir.
Consta que o pintor impressionista francês Claude Monet (1840‑1926), o autor de obras como Impressão, Nascer do Sol, que está no Museu Marmottan Monet em Paris, sofria de enxaquecas. Apesar de ter tido não apenas essa doença como até crises depressivas, o artista deixou uma produção pictórica notável. Foi o mais célebre dos pintores impressionistas, um movimento do qual ele pode ser considerado pioneiro. O Jardim de Giverny que serviu de inspiração a muitas obras, anexo à casa onde viveu durante mais de quatro décadas, pode hoje ser visitado. O pintor francês teve de interromper o seu trabalho por causa das crises de dor e distorção visual.
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844‑1900), crítico de muitas atitudes e valores do seu tempo, foi um homem doente desde criança. Quando tinha vinte e tal anos teve de abandonar uma posição de professor na Universidade de Basileia, na Suíça, por sofrer de dores de cabeça insuportáveis. Sofria de enxaqueca sem aura, mas, mais grave do que isso, na parte final da sua vida padeceu de uma doença psiquiátrica progressiva que culminou numa demência profunda e na morte por pneumonia.
O pintor holandês Vincent van Gogh (1853‑1890), um pós‑impressionista que é considerado um dos nomes mais famosos da história da arte, padeceu de enxaqueca tal como Claude Monet. Como na altura esta enfermidade era associada a doença mental, chegou a estar internado no hospício de Saint Remy, em Arles, no Sul de França, durante uma crise. Foi aí, em 1889, que terminou o seu famoso quadro Noite estrelada (figura 3). Pode ser uma representação de uma enxaqueca com aura. Van Gogh apareceu morto com um tiro numa pensão, pensando‑se que cometeu suicídio.
Na transição do século xix para o xx, o médico austríaco Sigmund Freud (1856‑1939), distinguiu‑se como o fundador da psicanálise, a corrente da psiquiatria com um método peculiar de analisar a mente humana. Freud foi com grande probabilidade doente de enxaqueca. Escreveu sobre a natureza e origem das dores de cabeça que o atormentavam, que tentou contrariar tomando cocaína.
(...)"
Âna Carvalhas
O Mundo Infestado de Demónios ou a Actualidade de Carl Sagan
Meu capítulo no livro "Como dialogar com quem não quer ouvir: para lá da polarização e da desinformação.", publicado pela Academia das Ciências, com coordenação de Gonçalo Marcelo, Pedro Matos Pereira, Ana Sanchez e Maria de Sousa Freitas:
Resumo: Neste capítulo comenta-se o livro de Carl Sagan O Mundo Infestado de Demónios. A ciência como uma luz na escuridão, partindo de uma previsão aí feita de uma mistura explosiva de ignorância e poder. As presidências de Donald Trump e de Jair Bolsonaro, nos Estados Unidos e no Brasil, foram exemplos do acerto dessa previsão. Apresentando o descarte de erros como uma marca da ciência, discutem-se as dificuldades do diálogo com os negacionistas da ciência. Lembram-se as listas que Sagan forneceu para “detectar disparates”. Enfatizam-se as relações entre ciência e democracia e afirma-se a pertinência nos dias de hoje do espírito crítico advogado por Sagan.
A Profecia e a sua Concretização
O último livro publicado em vida pelo astrofísico e comunicador de ciência norte-americano Carl Sagan (1934-1996), O Mundo Infestado de Demónios. A ciência como uma luz na escuridão [9], publicado originalmente em 1995, pode ser visto como uma espécie de testamento intelectual. Num tempo em que estavam na moda os discos voadores (segundo um inquérito realizado nos Estados Unidos, dois por cento dos cidadãos daquele país tinham sido raptados por alienígenas), a obra defendia a imperiosa necessidade de espírito crítico, que é um dos pilares da ciência, e que se traduz no cepticismo. O livro é um longo argumento, desdobrado em artigos que podem ser lidos independentemente, a favor da dúvida. Os textos de Sagan, nalguns casos escritos em colaboração com a sua mulher, Ann Druyan (n. 1949), resultaram de um Seminário de Pensamento Crítico na Universidade de Cornell, em Ithaca (Nova Iorque), onde Sagan era professor. Muitos deles foram escritos e publicadas na Parade, um suplemento dominical de vários jornais norte-americanos, que no total alcançavam 80 milhões de leitores. O autor não desdenhava escrever para leitores de jornais de grande circulação, na altura ainda predominantemente em papel, que facilmente acreditavam nas coisas mais incríveis, por exemplo na existência de um “dragão na garagem” para usar uma sugestiva metáfora utilizada pelo próprio Sagan nesse seu livro.
No capítulo 2, “Ciência e esperança”, encontramos uma profecia que, infelizmente, se está a cumprir neste início de século [9, p. 47]:
"Criámos uma civilização global em que os elementos fundamentais – os transportes, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, as diversões, a protecção do meio ambiente e até a instituição democrática fundamental das eleições – dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também dispusemos as coisas de forma que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. Isto é uma receita para a catástrofe. Podemos continuar durante algum tempo, mas, mais cedo ou mais tarde, essa mistura combustível de ignorância e poder vai rebentar-nos nas mãos."
De facto, não foram mais do que manifestações dessa explosão os resultados das eleições para a presidência dos Estados Unidos de Donald Trump em 2016 e de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil em 2018. Ambos, cada um à sua maneira, mostraram o efeito devastador que pode ter a mistura entre ignorância e poder. O investimento público em ciência diminuiu tanto nos Estados Unidos como no Brasil. Mas, pior do que isso, os dois lideraram políticas públicas que ignoraram a ciência, prejudicando as respectivas populações. Exemplos foram: a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris de 2015 sobre alterações climáticas (para Trump as alterações climáticas não eram mais do que “um embuste criado pelos chineses para destruir a economia americana” [3]); e a continuada desflorestação da Amazónia, no Brasil. Tendo os seus mandatos coincidido com a pandemia de Covid-19 foi visível, num caso e noutro, a amplificação de desinformação sobre o vírus e a doença [4]: Trump disse que era “como uma gripe”, enquanto Bolsonaro lhe chamou uma “gripezinha ou resfriadinho”, à qual os brasileiros seriam imunes. Nas suas pitorescas palavras, “o brasileiro tem de ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele”. Trata-se, evidentemente, de fake news, que circularam largamente graças à visibilidade dos declarantes.
Mas mais: Trump sugeriu métodos perigosos para o tratamento da Covid-19, como injectar um desinfectante. E Bolsonaro insistiu, advogando a toma de cloroquina, um “remédio” comprovadamente ineficaz contra a Covid-19. Nenhum dos dois impulsionou de modo suficiente a vacinação em larga escala que a magnitude do problema exigia. Um executivo da Pfizer afirmou que o presidente brasileiro recusou reiteradamente a oferta de vacinas. Trump, antes de ser Presidente, tinha declarado a sua simpatia pela tese de um médico inglês, entretanto expulso da profissão, segundo a qual a vacina tríplice viral (contra o sarampo, papeira e rubéola) administrada às crianças provocava autismo. O caso da vacinação contra a Covid-19 no Brasil foi confrangedor, uma vez que não foram facultados lotes de vacinas existentes, não faltando quem fale em genocídio. Na prática, revelaram-se negacionistas dos perigos da Covid-19 e cépticos em relação à acção das vacinas, apesar de uns e outra terem sido cientificamente comprovados. O resultado foi a posição cimeira dos Estados Unidos em número total de mortes (quase 1,2 milhões de vítimas mortais, 0,4 por cento da população) e o segundo lugar do Brasil (mais de 700 mil vítimas mortais, 0,3 por cento da população).
Na sequência do citado excerto, Sagan explica a origem da metáfora da vela para referir o papel da ciência: foi retirada do livro de 1656, A Candle in the Dark, or a Treatise Concerning the Nature of Witches & Withcraft (“Uma Luz na Escuridão ou um Tratado sobre a natureza das Feiticeiras e da Feitiçaria”), do médico e humanista inglês Thomas Ady [1], escrito num tempo de caça às bruxas – o livro foi usado, sem sucesso, no famoso processo das bruxas de Salem, em Massachusetts, na América colonial, em 1692-93. E Sagan adverte para as fragilidades da ciência: “A luz da vela é trémula. A pequena mancha luminosa que projecta vacila. A escuridão adensa-se. Os demónios começam a agitar-se.” [9] A metáfora da vela invoca o poema “Uma pequenina luz” de Jorge de Sena (1919-1978):
"Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta. (…)
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha (…)" [10]
Foi, de facto, uma notável premonição. Hoje vivemos no tempo das notícias falsas e das verdades alternativas, convenientemente espalhadas por uma multidão de prosélitos da mentira através dos canais que a própria ciência criou. É como se o feitiço se tivesse virado contra o feiticeiro.
O que fazer?
O que fazer? Sagan aponta o caminho com clareza. Há que valorizar a ciência, reforçar a cultura científica. Mais do que colocar a ênfase, como tem sido feito predominantemente até agora, nos conhecimentos que a ciência produz, é preciso transmitir o espírito da ciência, consubstanciado no método científico. Este consiste numa cadeia que parte da hipótese, passando pela observação, experimentação (quando aplicável) e raciocínio lógico, e chega às conclusões, submetidas à crítica da comunidade científica. Sagan, adoptando a filosofia popperiana, chama a atenção para a faculdade que a ciência oferece de descartar erros: mais do que noutras actividades humanas, em ciência aprendemos com os nossos erros, eliminando-os progressivamente, embora sem nunca chegarmos a uma verdade absoluta ou definitiva. Escreveu Sagan:
"Os seres humanos podem ansiar por certezas absolutas e aspirar a elas; podem pretender, como os adeptos de certas religiões, tê-las atingido. Porém, a história da ciência – de longe a pretensão de conhecimento mais bem-sucedida acessível ao homem – ensina-nos que o máximo que podemos esperar são melhoramentos sucessivos da nossa compreensão, a aprendizagem com os nossos erros, uma abordagem assimptótica do universo, mas com a limitação de sabermos que a certeza absoluta nos escapará sempre." [9, p. 50]
A citação anterior está muito na linha do filósofo britânico de origem austríaca Karl Popper (1902 – 1994), que na sua obra Conjecturas e Refutações deixou escrito:
"A história da Ciência [em maiúscula no original], tal como a história de todas as ideias humanas, é uma história de sonhos irresponsáveis, de obstinação e de erro. Mas a Ciência é uma das muito poucas actividades humanas – talvez a única – em que os erros são sistematicamente criticados e frequentes vezes corrigidos com o tempo. É por isso que podemos dizer que, em Ciência, aprendemos frequentemente com os nossos erros, e é por isso que podemos falar, clara e judiciosamente, em fazer progressos nela. Na maioria dos outros âmbitos do esforço humano, existe mudança, mas raramente progresso (a menos que adoptemos uma visão muito estreita dos nossos possíveis objectivos na vida), na medida em que quase todos os ganhos são contrabalançados, ou mais do que contrabalançados, por perdas. E, na maioria das áreas, nós nem sequer sabemos como avaliar a mudança" [7, p. 295].
Sagan sustenta que a razão pela qual a ciência funciona tão bem é o seu mecanismo corrector de erros:
Para a ciência, não há questões interditas nem assuntos demasiado sensíveis ou delicados para serem experimentais, nem verdades sagradas. Essa abertura a novas ideias, associada ao exame mais rigoroso e céptico, separa o trigo do joio. Não interessa em que medida uma pessoa é inteligente, importante ou amada, tem de expor o seu caso a uma crítica fundamentada e determinada. As opiniões são encorajadas a divergir – substantivamente e em profundidade [9, p. 54].
Mas o peso da realidade, percepcionada pela observação e pela experimentação, tem muita força. Ela é o último juiz quando há qualquer discussão. As palavras de nada valem contra os factos. Como diz o lema da Royal Society de Londres, a mais antiga sociedade científica em funcionamento ininterrupto, fundada em 1660 por um pequeno grupo de livres-pensadores, Nullius in verba, “Não acredites na palavra”.
A pergunta coloca-se: fará sentido um defensor da ciência discutir com quem nega a ciência, com inimigos declarados da ciência? Esta questão foi recentemente colocada pelo filósofo norte-americano Lee Mcintyre (n. 1962) no seu ensaio Como Falar com um Negacionista. Conversas com quem recusa a ciência e a razão [6]. McIntyre explica que o fenómeno do negacionismo é uma questão de identidade, de ideologia, de coesão, quer dizer, uma afirmação de tribo. Ele defende a ideia de tentar o diálogo com negacionistas, alimentando a esperança de poder “converter” alguns deles. Não querendo fazer regra geral, a minha experiência pessoal indica que não vale a pena convencer quem já está convencido e não reconhece quaisquer erros. As “conversões” são muito raras: só se viu uma vez um Saulo transformar-se em Paulo. Nunca se viu um defensor da ideia de que as viagens à Lua foram uma encenação declarar-se convencido da realidade dessas viagens. E nunca se viu um defensor da terra plana declarar, após a apresentação de provas, facilmente disponíveis, que reconhece que o planeta, afinal, é redondo.
Sagan valoriza, sem qualquer dúvida, a discussão e o confronto de opiniões diversas, mas realça sobretudo o raciocínio lógico, uma capacidade humana que tem um papel central no método científico, mas cujo uso está longe de se restringir à ciência. Acontece que nem toda a gente está pronta a aceitar o primado desse raciocínio.
O kit para detectar disparates
Mais adiante no seu livro, nomeadamente no capítulo 12 “A arte de detectar disparates”, Sagan apresenta um “kit para detectar disparates”, que mais não é um do que um manual básico para evitar erros de raciocínio que são infelizmente comuns. Vale a pena transcrever aqui os itens desse repertório, aqui numerados por conveniência:
"1. Sempre que possível deve haver uma confirmação independente dos ‘factos.’
2. Encorajar o debate substantivo das provas por parte dos proponentes de todos os pontos de vista.
3. Os argumentos apresentados pelas autoridades na matéria têm pouco peso – as ‘autoridades’ já cometeram erros no passado e voltarão a cometê-los no futuro. Talvez uma maneira melhor de dizer isto seja afirmar que em ciência não há autoridades; quando muito há ‘especialistas’.
4. Pense em mais de uma hipótese. Se há qualquer coisa a explicar, pense em todas as maneiras diferentes de o fazer (…) Depois pense em testes através dos quais possa sistematicamente refutar cada uma destas alternativas (…)
5. Tente não ficar muito preso a uma hipótese só porque é a sua (…) pergunte a si próprio por que lhe agrada. (…)
6. Quantifique. Se o que está a explicar tem alguma medida, se envolve alguma grandeza numérica. Estará muito mais bem equipado para escolher entre as várias hipóteses possíveis. (…)
7. Se há uma cadeia de argumentos, todos os seus elos têm de funcionar (incluindo a premissa) – e não apenas a maior parte.
8. A navalha de Occam. Esta excelente regra prática incita-nos, quando confrontados com duas hipóteses que explicam os dados igualmente bem, a escolher a mais simples.
9. Pergunte sempre se a hipótese pode ser, pelo menos em princípio, refutada. As proposições impossíveis de refutar não valem grande coisa (…)." [9, pp. 267-268]
O segundo item parece inclinar para a abertura ao diálogo a negacionistas. De facto, a ciência deve estar, por princípio, aberta a todas as perspectivas, por estranhas que estas sejam ou pareçam: na história da ciência já vingaram muitas ideias abstrusas, como por exemplo a ideia de quantização da radiação que deu origem à teoria quântica em 1900. Mas não vale a pena voltar a considerar ideias – como, por exemplo, as que estão presentes na astrologia ou na homeopatia – que já foram sistematicamente eliminadas por vários testes. Como Sagan afirmou, numa frase que não é da sua autoria e cuja origem é incerta (é atribuída ao engenheiro e jornalista espacial James Oberg): “Devemos manter a mente aberta, mas não tão aberta a ponto de os miolos saírem da cabeça.”
O terceiro item é também digno de atenção: ao longo da história tem sido comummente invocado o peso das autoridades e esta prática continua a ser frequente. Até à alvorada da ciência moderna o pensamento de grandes nomes da Antiguidade clássica como Aristóteles era lido, sendo esperada a sua repetição acrítica. Mas Aristóteles cometeu erros evidentes, como por exemplo o erro de pensar que as mulheres tinham menos dentes do que os homens (bastava ter pedido à sua mulher para abrir a boca e dar-se ao trabalho de os contar, pedindo-lhe o gesto recíproco de contar os dele). Ainda hoje é frequente a invocação de autoridades por parte dos vendedores de qualquer coisa – por exemplo, invocar-se a autoridade de um cientista da NASA parece sempre convincente, parecendo não importar se ele é ou não mesmo da NASA [5].
O nono item volta à questão de Popper. Um exemplo é dizer-se, por exemplo, que, numa certa semana, “os nativos de Gémeos vão prosperar nas suas relações”. Este tipo de afirmações é demasiado vago. O que significa “prosperar nas suas relações”? O que é “prosperar” (seria aqui útil o uso do sexto item) e o que são “relações”? Como se poderá testar essa ideia? Perguntando aos nativos de Gémeos se prosperaram as suas relações?
Sagan também fornece, no mesmo capítulo 2, [9, pp. 270-271] algumas regras de lógica que são muito úteis para evitar falácias numa troca de argumentos. Ei-las na lista abaixo na qual algumas foram agrupadas pela sua relação próxima:
- Argumentar ad hominem: atacar quem diz e não aquilo que diz;
- O argumento de autoridade: não importa o que diz, mas quem o diz (já na lista anterior tinha havido uma advertência para os erros das “autoridades”);
- O argumento das consequências adversas: esgrimir cenários utópicos, que há que evitar a todo o custo;
- O apelo à ignorância: se não há prova de que é verdadeiro, então tem de ser falso, e vice-versa;
- A alegação especial: invocar excepções devidas a particularidades que supostamente escapam ao opositor;
- A petição de princípio: partir de uma suposição errada para chegar a uma resposta que se tem por certa;
- Observação selectiva ou selecção de circunstâncias favoráveis: um truque muito comum, que consiste, por exemplo, em escolher um dia excecionalmente frio em Los Angeles, para defender que não há alterações climáticas (como Trump chegou a fazer); pode nela incluir-se a estatística dos pequenos números: quando a amostra é pequena pouco ou nada se pode concluir;
- Compreensão errada da natureza da estatística: por exemplo, do conceito de média;
- Incoerência: dar uma explicação que funciona bem num lado, mas não funciona em todos os outros lados;
- Non sequitur ou “não se segue que”: ocorre quando há um erro lógico na passagem das premissas para a conclusão;
- Post hoc, ergo propter hoc ou “aconteceu a seguir, de modo que foi causado por”: pensar que qualquer coisa que está antes causou qualquer coisa que está depois.
- Perguntas absurdas: quando há contradição nos termos da própria pergunta.
- Meio excluído ou falsa dicotomia: quando só há duas possibilidades opostas e, portanto, na nenhuma intermédia; inclui, em particular, o “curto prazo versus longo prazo”, quando há uma perspetiva temporal nas escolhas, e o “declive escorregadio”, isto é, confundir uma situação intermédia com a extrema.
- Confusão entre correlação e causa: correlação não tem de significar causalidade, embora haja casos em que isso aconteça, por exemplo o aumento do dióxido de carbono da atmosfera causa aumento da temperatura do globo;
- O “homem de palha”: inventar uma figura que é uma caricatura facilmente atacável pelas suas evidentes debilidades;
- Provas suprimidas ou meia-verdades: de significado evidente, é muito comum na retórica política ou na publicidade;
- Palavras astutas (escolher eufemismos em vez de usar uma designação mais fiel e entendível, algo também muito comum na retórica política).
Há decerto mais falácias, e há livros de lógica sobre elas, mas aquelas que foram enunciadas acima chegam para verificar se uma discussão é bem feita ou se há erros de lógica. Os negacionistas da ciência incorrem frequentemente em falácias: ao fazê-lo estão a recusar uma parte essencial do método científico, que é o raciocínio lógico. Considerando este repertório torna-se mais fácil encontrar erros, como fazem os cientistas diariamente na sua profissão. O cepticismo dos cientistas pode e deve ser partilhado por todo o tipo de pessoas na sua vida comum. Escreve Carl Sagan:
Ao mesmo tempo, a ciência exige o mais vigoroso e radical cepticismo. Dado que a grande maioria das ideias está simplesmente errada e a única maneira de separar o trigo do joio é através da experimentação e da análise crítica, quem for aberto a ponto de ser crédulo e não tiver um micrograma de sentido céptico não conseguirá distinguir as ideias prometedora das ideias sem valor. Aceitar de forma acrítica qualquer noção, ideia ou hipótese é o mesmo que não saber nada. As ideias contradizem-se umas às outras; apenas através do exame céptico seremos capazes de as seleccionar. Alguma são de facto melhores do que outras [9, p. 38].
Sagan acrescenta, falando em nome da ciência e dos cientistas: “É melhor ser demasiado céptico do que demasiado crédulo” [9, p. 386]. É isto que os negacionistas da ciência não percebem: são demasiado crédulos e nunca poderão ser demasiado cépticos.
Ciência e democracia
Na obra aqui em análise, Sagan menciona a influência da ciência e tecnologia na instituição das eleições. Tanto nos Estados Unidos como no Brasil se usam processos de votação electrónica, que no último caso são globais e sem alternativa: estamos perante um exemplo de aplicação da informática na recolha dos votos. É difícil ou mesmo impossível manipular os resultados registados em máquinas devidamente certificadas. Já o uso de redes sociais para manipular eleitores através de campanhas dirigidas a certos sectores devidamente identificados, isso tem sido muito fácil. Ficou famoso o escândalo, que explodiu em 2014, da empresa britânica Cambridge Analytica, que teve de fechar operações em 2018, depois de se ter sabido que se tinham apoderado de dados do Facebook para campanhas políticas, incluindo a campanha eleitoral britânica que precedeu o referendo à saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) e a campanha da eleição nos Estados Unidos que deu, embora por pequena margem, a vitória a Trump. Mas esse caso pode ser apenas a ponta de um iceberg: empresas e hackers têm recorrido às redes sociais, muitas vezes com a conivência destas. Trump e Bolsonaro usaram abundantemente as redes sociais (aliás continuam a usar, embora apeados do poder). Estamos perante armas de desinformação maciça.
Actualmente, com o desenvolvimento e proliferação de programas de inteligência artificial, torna-se cada vez mais fácil o uso dessas técnicas de intoxicação. Com os chamados deep fakes, é possível manipular a imagem de um líder político, com imagem e som muito plausíveis, fazendo parecer que emite mensagens que na realidade são contrárias ao seu pensamento e vontade.
No entanto, apesar de todas as campanhas, umas por meios legais e outras usando outros meios, o resultado das eleições é sempre incerto, uma vez que na essência da democracia está a livre vontade dos cidadãos expressa nas urnas. Os maus governos podem ser descartados, tal como acontece com os erros científicos no quadro do funcionamento da ciência. Através do processo eleitoral, podem ser afastados os governantes que os cidadãos não querem, por, no seu entender, não terem defendido os interesses da comunidade: exemplos são as falhadas reeleições de Trump e Bolsonaro, respectivamente em 2020 e em 2022, resultados que não foram bem recebidos nem pelos candidatos nem por muitos dos seus apoiantes. Karl Popper chamou a atenção para esse paralelismo entre ciência e democracia, um paralelismo que foi também analisado pelo escritor de ciência Timothy Ferris (n. 1944), no seu livro Ciência e Liberdade. Democracia, Razão e Leis da Natureza [2]. Mas Sagan, conhecedor decerto das posições de Popper, também abordou, em O Mundo Infestado de Demónios, a relação entre ciência e democracia. Vale a pena lembrá-lo, até porque a sua mensagem não perdeu de modo nenhum actualidade. No capítulo “Ciência e Esperança”:
A ciência alimenta-se da livre troca de ideias e, a bem dizer, exige-a; os seus valores são a antítese do secretismo. A ciência não está ligada a posições vantajosas ou privilegiadas, e em conjunto com a democracia encoraja opiniões não convencionais e debates vigorosos: ambas requerem um raciocínio adequado, uma argumentação coerente, padrões de prova e honestidade rigorosas. A ciência é uma maneira de desmascarar aqueles que se limitam a simular o conhecimento [9, p. 63].
Apesar dos traços de semelhança entre ciência e democracia, enfatizados por Sagan, por haver, em ambas, expressão de opiniões, organização de debates e necessidade de honestidade intelectual, o facto é que os negacionistas da ciência Trump e Bolsonaro foram eleitos. O primeiro, paradoxalmente, no país mais desenvolvido do mundo e que o é justamente pela sua enorme capacidade científico-tecnológica, que necessita de um sistema de educação robusto. No capítulo 25, “Os verdadeiros patriotas fazem perguntas”, escrito em colaboração com Ann Druyan (que tem sabido manter viva a memória do marido), Sagan vai mais longe na análise da relação entre ciência e política:
"Os métodos da ciência – com todas as suas imperfeições – podem ser utilizados para melhorar os sistemas social, político e económico, e, isto, em minha opinião, aplica-se seja qual for o critério de melhoria adoptado. Como é isto possível se a ciência se baseia na experiência? Os seres humanos não são electrões nem ratos de laboratório. No entanto, qualquer lei do Congresso, qualquer decisão do Supremo Tribunal, qualquer directiva presidencial sobre segurança nacional, qualquer alteração da taxa de juro, é uma experiência" [9, p. 527].
De certo modo, a administração Trump foi também uma experiência, da qual, em 2021, o eleitorado tirou as suas conclusões. Paira ainda no ar a possibilidade da sua recandidatura em 2024. E nessa altura haverá novas conclusões.
Sagan fala com profunda admiração dos pais fundadores dos Estados Unidos, entre os quais se deve destacar o cientista e diplomata Benjamin Franklin (1806-1790), autor de estudos experimentais sobre a electricidade atmosférica. E fala também de Thomas Jefferson (1743-1826), o terceiro presidente dos Estados Unidos, não hesitando em chamar-lhe cientista. Detentor de propriedades agrícolas, fazia um registo sistemático do tempo. É um facto que, no dia da independência do seu país, 4 de julho de 1776, não deixou de fazer as suas regulares observações meteorológicas. Afirmou Jefferson: “A ciência é a minha paixão, a política o meu dever”. Sagan não o refere, mas um dos grandes amigos de Jefferson foi o cientista e diplomata português Abade José Correia da Serra, que foi sócio (fellow) da Royal Society e o secretário da Academia de Ciências de Lisboa no seu início em 1779. A mansão de Jefferson, na plantação Monticello, em Charlottesville, Virgínia, perto de Washington D. C., tinha um quarto permanentemente à disposição do amigo português, com quem ele gostava de discutir ideias. Os Estados Unidos nasceram, de facto, num momento alto do Iluminismo e essa “marca de água” não pôde deixar de impregnar a sua evolução posterior. Não deixa de ser irónico que, na actualidade, essa marca seja por muitos despercebida.
O autor do Mundo Infestado de Demónios conclui este seu livro de forma lapidar, com uma apologia da educação, o meio que a sociedade criou para preparar para a vida:
Se não formos capazes de pensar por nós próprios, se não estivermos dispostos a questionar a autoridade, ficamos nas mãos dos que detêm o poder. Mas se os cidadãos tiverem um bom nível educacional e souberem formar as suas próprias opiniões, os detentores do poder trabalham para nós. Em todos os países devíamos ensinar às crianças o método científico e o interesse de uma Declaração de Direitos. Isto trará alguma decência, alguma humildade e algum espírito comunitário. No mundo infestado de demónios em que vivemos pelo facto de sermos humanos, isto pode ser tudo o que nos separa da escuridão envolvente. [9]
Talvez Sagan tenha sido demasiado optimista quanto à confiança na educação, uma educação que transmita o método científico assim como os direitos humanos, que evidentemente transcendem o método científico. A educação por muito importante que seja – e é, de facto, absolutamente indispensável! – pode não chegar para garantir uma vida colectiva minimamente decente, pode não garantir a todos bem-estar num sistema democrático. A ciência é uma das dimensões do ser humano e a ética, o direito e a política são outras, sendo necessário que todas elas se harmonizem. Não é apenas a ciência que tem de constituir uma luz que dissipe as trevas, também a ética, o direito e a política têm a obrigação de iluminar o nosso caminho.
A actualida de de O Mundo Infestado de Demónios
Numa recensão publicada em 2012 no jornal The Guardian da autoria do jornalista britânico Tim Radford (n. 1963) [8], foi colocada a questão da actualidade de O Universo Infestado de Demónios. Até que ponto resistiu o livro a uma leitura passados mais de quinze anos após a sua publicação original? O recenseador faz notar com inteira razão que os tempos tinham mudado muito com a rápida transição digital: por exemplo, na época ainda existia larga circulação de jornais em papel, não havendo ainda smartphones e tablets com acesso à Internet por todo o lado. O Facebook nasceu em 2004 e o Instagram em 2010. O YouTube só surgiu em 2005, tendo sido adquirido pela Google no ano seguinte, ao passo que o Twitter surgiu em 2006. O iPhone da Apple só apareceu em 2010, tal como o iPad, da mesma empresa. É legítimo supor que todas essas inovações tecnológicas, que proporcionam uma extraordinária partilha de informação e de conhecimento entre os humanos, pudessem ter tornado as pessoas menos susceptíveis a crenças em coisas estranhas. Mas, como está bem evidente, não é isso que se tem passado. Todos esses meios, onde qualquer um pode verter qualquer conteúdo a seu bel-prazer, serviram para espalhar um enorme oceano de notícias falsas que nos vai inundando. E as mais variadas crenças, alimentadas por essa torrente, continuam muito entranhadas.
Radford termina a sua recensão debruçando-se sobre a questão da educação. Serve-se de uma citação de uma frase, então recente, de um legislador do estado do Texas, nos Estados Unidos, em que ele se pronuncia sobre a responsabilidade do seu estado pela educação dos cidadãos: “De onde é que veio esta ideia de que toda a gente tem direito a educação gratuita, a cuidados médicos gratuitos, a tudo gratuito? Veio de Moscovo, da Rússia. Veio directamente das entranhas do Inferno.” [8] E Radford remata com uma pergunta retórica: “Será que vivemos num mundo assim tão diferente [daquele em que vivia Sagan no século passado]?” [8].
O mundo é essencialmente o mesmo: o mundo somos nós, os seres humanos da espécie dita sapiens, só sendo diferentes os meios tecnológicos de que dispomos. O facto de as redes sociais terem passado a influenciar as nossas vidas apenas incrementou a visibilidade da irracionalidade humana. Nem sempre somos sapiens. Padecemos de medos irracionais, como o de sermos raptados por extraterrestres vindos do espaço ou de sermos atacados por dragões nas nossas garagens. Não existem, que se saiba, nem extraterrestres malvados que nos tenham invadido nem dragões furiosos escondidos nas nossas casas, mas, se é verdade que todos temos um lado racional, não é menos verdade que todos temos um lado irracional: alguns parecem gostar, mais do que outros, de exibir este lado, como está prodigamente à vista na Internet.
Hoje os leitores, predominantemente digitais, mais facilmente acreditam em qualquer coisa do que antes até porque, apesar de toda a liberdade de publicação, os livros e a imprensa exigem, em geral, alguma curadoria por empresas e instituições que prezam a sua credibilidade. Numa sociedade onde o relativismo é galopante (em parte, devido à influência de ideologias pós-modernas, para as quais “tudo vale”) e o erro está omnipresente (apesar do aparecimento de fact-checking, tornou-se impossível desmascarar as numerosas manifestações do erro, algumas das quais bastante subtis), é preciso, através não só da escola, mas também dos meios de comunicação social de todos os tipos, fazer brilhar a luz da ciência, por muito pequena que esta pareça. Parafraseando Jorge de Sena, curiosamente um poeta, romancista e ensaísta que tinha formação em engenharia civil: “Tudo é incerto ou falso ou violento”. Mas ela brilha!
Bibliografia
1. Ady, T., A Candle in the Dark, or a Treatise concerning the Nature of Witches & Witchcraft…, Printed for R.I., 1656.
2. Ferris, T., Ciência e Liberdade. Democracia, Razão e Leis da Natureza, Gradiva, 2013.
3. Fiolhais, C. & Marçal, D., A Ciência e os seus Inimigos, Gradiva. 2018 [1.ª ed., 2017].
4. Marçal, D. & Fiolhais, C., Apanhados pelo Vírus: Factos e mitos sobre a COVID-19, Gradiva, 2020.
5. Marçal, D., Pseudociência, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014.
6. McIntyre, L., Como Falar com um Negacionista. Conversas com quem recusa a ciência e a razão, Desassossego (Grupo Saída de Emergência), 2022.
7. Popper, K., Conjecturas e Refutações. O desenvolvimento do conhecimento científico, Almedina, 2018 [2003].
8. Radford, T., “The Demon-Haunted World by Carl Sagan – review” in The Guardian. 20 de Julho de 2012. Disponível em https://www.theguardian.com/science/2012/jul/20/demon-haunted-world-carl-sagan-review.
9. Sagan, C., O Mundo Infestado de Demónios. A ciência como uma luz na escuridão, Gradiva, 2012 [1.ª ed., 1997].
10. Sena, J., de Poesia II, Guimarães, 2015.
OS ALIMENTOS, PORTUGAL E O MUNDO
Meu artigo no último JL:
O historiador norte-americano Raymond Grew, professor emérito da
Universidade de Michigan e especialista em história social da Europa
Mediterrânica, escreveu na abertura do livro que coordenou Food and Global
History (Routledge, 1999): “A história da alimentação é um assunto da moda
e também o é a história global. Embora os dois se juntem naturalmente, a sua
combinação é explosiva. Intersectam-se tão facilmente já que cada um estende
tentáculos relevantes que ultrapassam as fronteiras convencionais de tempo,
regiões e especialização académica. (…) É notável que estes tópicos complexos,
eruditos e exigentes sejam apelativos para um vasto público. (…) Leitores que
normalmente fugiriam das abstracções da análise social e para quem os
pormenores da história constituiriam um fardo têm, no entanto, especial apetite
por ler sobre os alimentos e os hábitos alimentares de outras eras e culturas.”
Em Portugal, apesar de haver numerosos estudos parcelares, ainda não há uma
história da alimentação portuguesa. Mas uma obra muito recente avança decididamente
nessa direcção. Dirigido por José Eduardo Franco e coordenado por Isabel
Drumond Braga, o primeiro professor de História da Universidade Aberta e a
segunda professora de História na Faculdade de Letras da Universidade de
Lisboa, intitula-se História Global da Alimentação Portuguesa (Temas e
Debates). Com 608 páginas e 69 autores (59 nacionais e 10 estrangeiros) é um
painel de 101 artigos temáticos, de meia dúzia de páginas, apresentados numa sequência
cronológica (embora a data escolhida para cada artigo seja, por vezes, meramente
convencional). Trata-se de um bom aproveitamento da tal “combinação explosiva”
de que fala Grew entre alimentação e história do mundo. O livro, que pretende
chegar a um grande número de leitores sem abdicar do rigor científico, oferece
um menu muito variado, onde cada um poderá “deglutir” o que for mais do seu
agrado.
O modelo do livro é a História Global de Portugal, saída na mesma
editora (e também no saudoso Círculo de Leitores) em 2020 e que teve a direcção
de José Eduardo Franco, José Paiva (professor da Universidade de Coimbra) e de
mim próprio, que, por sua vez, se inspirou na Histoire Mondiale de la France
(Éditions du Seuil, 2017), da responsabilidade do historiador francês
Patrick Boucheron. A História Global é uma corrente recente da historiografia
que privilegia as circulações e os contactos, em vez de se ater às fronteiras
nacionais. A História Global de Portugal já continha artigos sobre
alimentação, entre os quais um da própria Drumond Braga sobre o arroz
português, que resulta de uma circulação global (há outros sobre: o açúcar da ilha
da Madeira; as especiarias da Índia em Garcia de Orta; o vinho do Porto, que
originou a primeira região demarcada do mundo; e o bacalhau, um peixe de águas
remotas que se tornou uma marca da cozinha nacional). Mas, no volume agora
vindo a lume, a coordenadora soube reunir-se de um conjunto de autores que nos
fazem, metaforicamente falando (pois é de «pão» para o intelecto que se trata),
“crescer a água na boca”. Merece encómio o trabalho dos responsáveis desta
edição pelo modo como prepararam este lauto repasto.
O livro começa no alvor da nacionalidade com alimentos muito antigos: o
pão, o mel e o queijo. Podia – foi uma opção editorial – ter começado antes,
como começou a História Global de Portugal, dizendo como se comia na
pré-história (há revelações recentes de restos de caranguejo comidos por
neandertais numa gruta de Sesimbra, há 90.000 anos) ou pela Antiguidade
Clássica (no ano passado foi em Braga recriado um banquete romano, com Gustatio,
Primae-Mensae e Secunda-Mensae). Mas, a História Global da
Alimentação Portuguesa contém vários outros alimentos: na linha
cronológica seguida, açúcar, leite, caça, especiarias, caldos, azeite, sal,
café, cacau, cerveja, água, vinho, chá, conservas, arroz, fruta, peixe, frango
e ovos (a edição beneficiou do mecenato da empresa Lusiaves), hambúrguer (sim,
do McDonald’s!), batata e cuscuz (estes dois vêm no fim só por causa dos
recentes Anos Internacionais da UNESCO sobre eles). Mas o livro também aborda a
cozinha e a mesa: o fumeiro; a mesa régia; os ofícios de cozinha; a matança de
animais; os conventos; a comida de rua; a comida em barcos e aviões; os cafés,
tabernas e restaurantes; o gelo e a refrigeração; as porcelanas e pratarias; a
etiqueta e os menus; os mercados; os electrodomésticos; o vegetarianismo e a comida
biológica; a comida no teatro, cinema e televisão; a higiene e regulação, a dieta
mediterrânica, etc. Encontram-se múltiplas ligações da comida à religião, não
só católica, mas também judaica e muçulmana. Enfatizam-se os cruzamentos
protagonizados pelos portugueses com povos de outros continentes, em especial da
América do Sul (Brasil), mas também de África e do Extremo Oriente: os
portugueses descobriram comidas alheias e proporcionaram a descoberta das suas.
O leitor interessado por livros de cozinha encontrará referências aos
clássicos: O Livro de Receitas da Infanta D. Maria (1565, manuscrito); a
Arte de Cozinha (1680, primeiro livro impresso), de Domingos Rodrigues; as
Receitas… (1715, manuscrito), de Francisco Borges Henriques; a Arte
do Cozinheiro e do Copeiro (1841), do 1.º Visconde de Vilarinho de
São Romão; a Arte da Cozinha (1876), de João da Matta; A Cozinheira
das Cozinheiras (1932), de Rosa Maria (pseudónimo do editor); O Livro de
Pantagruel (1945), de Bertha Rosa Limpo; os livros de Maria de Lurdes Modesto
e de Maria Odette Cortes Valente, desde os anos de 1960; e as revistas Banquete
e Teleculinária, nos anos de 1960 e de 1970.
Um artigo que me suscitou particular atenção, entre tantos e tão saborosos,
é o que aborda o restaurante português em Roma, aberto em 2010. Achei curiosa a
escolha, já que, embora a cozinha portuguesa nunca se tenha internacionalizado
como a italiana, existem vários restaurantes portugueses espalhados pelo globo.
Quando estudava na Alemanha ia de propósito a Mainz comer no restaurante “O Galo.”
E, um dia, de visita a Silicon Valley, comi, em São José da Califórnia, o
melhor bacalhau à Gomes de Sá da minha vida, num restaurante madeirense.
Esqueci-me do nome, mas não do sabor.
MAIS UM APONTAMENTO SOBRE A INSISTÊNCIA NO PAPEL DO PROFESSOR COMO REPLICADOR E APLICADOR
Desculpem-me os leitores voltar a uma questão que tenho por particularmente crítica: a atribuição ao professor do papel de replicador e aplicador seja do que for (ver aqui).
O professor é, na sua essência, um profissional intelectual, tem obrigação (ética) de dominar as diversas áreas de conhecimento que configuram o ensino e, em função disso, decidir a sua acção. Acção que, sublinhe-se, não pode ser uma qualquer, mas a que concorre para o BEM dos alunos, isto é, para a sua formação (humana).
Pôr-lhe nas mãos, pronto a usar, o que pensar e o que fazer é um acto iníquo de desqualificação profissional, de falta de respeito por cada professor, um atentado à dignidade do trabalho que exerce.
Confesso que é um acto que me incomoda, tanto mais que as suas proporções são crescentes, como crescente é a sua aceitação pelas tutelas e pelas escolas (e, em última instância, pelos próprios professores).
As suas proporções são crescentes quer pelo despudor dos múltiplos "agentes educativos" que têm entrado nos sistemas de ensino para, em nome do BEM dos alunos, concretizarem interesses particulares, quer pela tecnologia informática que potencia a divulgação no imediato de tudo o que "oferecem" aos professores; quer pela fragilidade da formação que é proporcionada aos docentes cujo resultado é a insegurança nas suas decisões; quer, ainda, pela quantidade de tarefas que lhes são imputadas, não lhes deixando tempo nem força anímica para organizarem devidamente a sua acção.
Volto a George Gusdorf, que, no segundo capítulo do seu livro "Professores para quê" (ver, por exemplo, aqui, aqui, aqui), publicado há sessenta anos, denunciava a prática emergente de tornar os manuais escolares como "substitutos do professor":
esses manuais escolares que editores judiciosos publicam em dupla edição: o livro do professor e o livro do aluno. O livro do professor é um bocado maior, fornece indicações complementares, dá a solução das dificuldades propostas, evitando ao corpo docente qualquer fadiga inútil. A fórmula é excelente e até permite a supressão pura e simples do professor. Basta que o aluno compre o livro do mestre e retome o monólogo por sua conta.
sábado, 9 de setembro de 2023
A MINHA CIDADE AFRICANA SONETO DE UM AMOR
S abias a mar por todos os lados.O sol era, ali, enorme e quente.N ossos corpos, nas águas, acampados,E ra um mundo de ardência exigente.T udo, ali, terra, mar e ar sobrava.O desejo punha-se a descobrirD omínio doce que saboreava.E havia tanto prazer a fruir!U ma cidade como tu não há.M uitas poderão até ser mais belas:A s de Itália, dizem, blablablá!M as há em ti esbeltezas de gazelas.O teu fascínio nada tem de igual.R evê-lo? Está em mim, tal e qual!Eugénio Lisboa
A EDUCAÇÃO QUE LIMITA É A QUE LIBERTA
Contaram-nos que numa aula do curso de Educação Social da nossa universidade, a professora elaborou no quadro um campo semântico da educação e pediu aos alunos para riscarem os termos que entendiam não a definir. O termo mais riscado foi regras. Outra professora, que dedicou o semestre a explicar as contribuições dos grandes pedagogos, contou-nos que a actividade final do curso de Pedagogia, que consistia na apresentação dos trabalhos elaborados pelos estudantes, tinha por tema “Educação sem limites”, o que foi anunciado num grande cartaz. Algo está a acontecer na pedagogia e na sociedade para que isto se passe numa Faculdade de Educação."
mostrar que a práticas a que estas últimas palavras estão associadas e até as práticas de limitação física são essenciais na escola porque estruturam a condição humana. A tese principal é que elas não ordenam ou regulam apenas a acção humana; estão na base da racionalidade dessa acção. Permitem criticar a herança recebida e, assim, chegar à emancipação, à autonomia, à liberdade.
Maria Helena Damião
sexta-feira, 8 de setembro de 2023
"PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE", DE HANS JONAS: PARA UMA LEITURA APROFUNDADA DAS PALAVRAS DO SECRETÁRIO-GERAL DA ONU
Na forma positiva: “age de tal maneira que os efeitos da tua acção sejam compatíveis com a preservação da vida humana genuína”; na forma negativa: “age de tal maneira que os efeitos da tua acção não sejam destruidores da futura possibilidade dessa vida”; ou numa forma mais simples: “não comprometas as condições de uma continuação indefinida da humanidade sobre a terra”; ou, ainda, numa forma mais geral: “nas tuas opções presentes, inclui a futura integridade do homem entre os objectos da tua vontade.”
- Heidegger, M. (1954/2002). A questão da técnica. Ensaios e conferências. Editorial Vozes.
- Jonas, H. (1979/1984). The imperative of responsibility: In search of ethics for the technological age. Chicago: University of Chicago Press.
- Jonas, H. (1995). El principio de la responsabilidad. Ensayo de una ética para la civilización tecnológica. Barcelona: Herder.
- Ricoeur, P. (1993). “A ética, o político, a ecologia”. Entrevista a Paul Ricoeur por Edith e Jean Paul Deléage]. Écologie politique, Sciences, Culture, Société, n.º 7.
- Ricoeur, P. (2003). Responsabilité et fragilité. Autres Temps. Cahiers d'éthique sociale et politique. n° 76-77, pp. 127-141. https://www.persee.fr/doc/chris_0753-2776_2003_num_76_1_2415
OS BÁRBAROS ESTÃO À PORTA
quinta-feira, 7 de setembro de 2023
"HOMEM AUMENTADO, NÃO MELHORADO"
"Atentem no imenso progresso da ciência e da técnica. Vão dar-nos a imortalidade ou, pelo menos, vai dá-la a uma elite que tem o poder e o dinheiro, vão dar-nos a possibilidade de estarmos sossegados porque a inteligência artificial vai ocupar-se de todos os problemas materiais e técnicos e nós podemos começar a preparar as nossas viagens à Lua, aos planetas (...).
É aquilo que se chama o transumanismo, isto é, uma visão do homem aumentada, aumentada quantitativamente, mas infelizmente diminuída qualitativamente porque esse homem que recupera o tema do domínio do mundo, esse homem que por razões puramente quantitativas esquece que aquilo de que precisamos agora não é de um homem aumentado mas de um homem melhorado pela solidariedade e pela fraternidade."
Disse Edgar Morin em Lisboa há dois dias (ver aqui).
quarta-feira, 6 de setembro de 2023
FANTASMAS NA CASA
POLÍTICAS (QUESTIONÁVEIS) GLOBAIS, PROBLEMAS GLOBAIS
INSISTÊNCIA NO PAPEL DO PROFESSOR COMO REPLICADOR E APLICADOR
É crescente a desconsideração do professor como profissional, ou seja, alguém capaz de fazer o seu trabalho, de modo autónomo e responsável, com base em conhecimento específico. Reduzido a replicador (da "narrativa" oficial e de "boas práticas") e a aplicador (de recursos produzidos por outrem), quer-se que pense e aja em função daquilo que, do exterior, se determina que pense a aja.
Um dos sinais mais evidentes desta desconsideração é a oferta despudorada do designado (por proposta behaviorista) "currículo-à-prova-de-professor". Argumentando-se ser preciso uniformizar desempenhos docentes, nem todos os professores estarem devidamente preparados, etc. "oferece-se-lhes", pronto-a-usar, tudo o que será preciso para leccionarem algo: planos, estratégias, materiais, avaliação.
Se nos anos cinquenta, sessenta, setenta do século passado essa "oferta" era feita por equipas académicas especializadas em currículo (isto sobretudo nos EUA), nas décadas mais recentes ela passou a ser feita por uma multiplicidade de organizações (supranacionais, nacionais, locais e escolares) e de actores (fundações, empresas, grupos de investigação, editoras escolares, etc.), que se têm infiltrado na educação escolar.
Essas organizações e actores encontram, em muitos casos, legitimação junto da tutela, nomeadamente através da divulgação do que fazem, do que produzem através de meios oficiais. Assim, é frequente encontrarem-se na página da Direcção-Geral da Educação informações como a que se segue (ver aqui).
Encontra-se disponível o curso “Direitos Humanos na Era da Inteligência Artificial”. Inserido na campanha UNESCO/UNITAR - Online Training | Human Rights in the Age of Artificial Intelligence, este curso online, gratuito, é constituído por 9 planos de aula (...) sobre temas como Liberdade de Expressão, Direito à Privacidade e Direito à Igualdade (ver aqui).
terça-feira, 5 de setembro de 2023
AMÉRICA, AMÉRICA!
domingo, 3 de setembro de 2023
CANTIGUINHA DE ESCÁRNIO E MALDIZER
Neste enorme asilo de lunáticos,que é este planeta onde vivo,onde se dá palco aos mediáticos,sem nunca serem passados ao crivo,onde as luzes são para os fanáticos,sempre enormemente assertivos,mesmo que sejam brutalmente asnáticos,aldrabões e muito rebarbativos,neste globo insano, irei morrer,eu e mais alguns, sem culpa nenhuma,a quem aconteceu aqui nascere aqui viver, como quem arrumadepressa a trouxa, para poder partirdesta bagunça que nem dá pra rir!Eugénio Lisboa
SEPARAÇÃO
Uma separação definitivaquer dizer que é mesmo sem regresso:
o coração fica para sempre opresso
e a vida sem qualquer alternativa.
A alma, de outra alma cativa,
fica de repente ao desavesso,sem ser possível qualquer recomeço
ou fluido que a vida reaviva.
O viver torna-se então um não viver,
uma ferida que se não apaga,
como fogo sempre a reacender.Tentar lembrar é deitar sal na plaga
e fazê-la ainda mais arder,tanto mais quanto mais ela se afaga!Eugénio Lisboa
MAIS UM PASSO NA REGULAMENTAÇÃO DO USO DE TELEMÓVEIS NAS ESCOLAS. A DECISÃO DE UMA AUTARQUIA
Na continuação de vários outros textos, por exemplo: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui
Quero pensar que começamos a tomar consciência da iniquidade de certas "transformações" que, como adultos, temos proposto, imposto, implementado ou consentido na educação escolar. Tal consciência dever-se-á sobretudo às consequências negativas que não podemos deixar de perceber na formação dos mais jovens, daqueles que nos sentimos obrigados a proteger.
Quero pensar que as "transformações" a que me refiro vingaram durante décadas não apenas por interesse económico-financeiro, ao qual se atrela o interesse político e académico, mas pela confiança que tendemos a colocar nos discursos de certas organizações que "orientam" a educação e de certos investigadores que lhe emprestam verniz "científico". Deveríamos estudar mais, interrogar mais, ponderar mais, mas, por várias razões - entre as quais se conta o sermos sistematicamente desviados desse caminho -, não o fazemos, deixando esfumar a ideia matricial de que temos em mãos nada menos do que a formação do ser humano.
Quero pensar, como disse, que estamos a começar a acordar e a discernir que o desvio dessa ideia será trágico, não só para os agora mais jovens, mas ainda para nós e, sobretudo, para as gerações vindouras.
O que acima mencionei não decorre de uma crença infundada, mas da observação, ainda que pouco controlada, que faço dos acontecimentos educativos. Pensemos apenas e só no uso dos telemóveis.
- professores, directores e outros profissionais escolares, bem como responsáveis pela educação estiveram atentos e reflectiram.
"A escola como plataforma do comércio"
Artigo de opinião do Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje, 12 de Maio de 20...
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