domingo, 20 de fevereiro de 2022

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

  NOVIDADES EDITORIAIS 

Série “Autores Gregos e Latinos” [textos]

Maria de Fátima Silva, Pausânias. Descrição da Grécia. Livro I. Introdução, tradução do grego e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2022). 303 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2213-2

[Pausânias é o nosso único testemunho de literatura periegética e o autor de um relato precioso sobre a Grécia da época de ocupação romana (séc. II d.C.). A sua descrição é a de alguém que viajou e sintetiza o que ‘viu’, com um olhar que não é só o de um turista curioso, mas de um intelectual que dispõe de uma sólida formação cultural e de uma informação ampla, em resultado de uma recolha criteriosa de todo o tipo de fontes, orais e escritas. Para com Pausânias mantemos em aberto uma enorme dívida: a de ter salvado um lastro de monumentos, de acontecimentos históricos, de figuras e de tradições que, sem ele, se teriam em definitivo apagado da memória dos homens.] 

Série “Mito e (Re)escrita” [estudos]

 - Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa, Júlia Batista Castilho de Avellar, Rafael Guimarães Tavares da Silva (org.), Ser Clássico no Brasil: Apropriações literárias no Modernismo e Pós (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2022). 346 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2191-3

[Este livro propõe reflexões sobre como os autores brasileiros releram e reescreveram a cultura clássica, mas de forma significativa para seu próprio contexto  cultural. Evitando as armadilhas de interpretações e comparações etnocêntricas, sugere-se aqui que a sobrevivência da tradição clássica na literatura brasileira ocorre por meio do diálogo entre a reiteração da identidade e a inauguração de diferenças fundamentais. Assim, este livro objetiva apresentar alguns importantes exemplos da riqueza da literatura brasileira: obras inovadoras  no uso dos elementos clássicos, a ponto de criar seu próprio universo. Sob esse aspecto, este volume também investiga como a recepção brasileira dos clássicos se diferencia e se particulariza em relação à recepção europeia.]

"O FIRMAMENTO" DE RUI LAGE: OLHAR PARA O CÉU COM OS OLHOS DA POESIA

 
Minha recensão do último livro de poesia de Rui Lage em "As Artes entre as Letras":

Se é antiga a relação entre o céu e a poesia, não são correntes as abordagens poéticas que têm por base as modernas cosmologia e astronomia. E, no entanto, estas fornecem abundantes motivos para os vates. Foi o astrofísico e comunicador de ciência Carl Sagan que disse: «O cosmos está dentro de nós. Somos feitos da matéria das estrelas. Somos um modo de o Universo se conhecer a si próprio.» E, muito apropriadamente, o editor português do também astrofísico e comunicador Hubert Reeves decidiu intitular um seu livro com um verso de Mário de Sá Carneiro: «Um Pouco Mais de Azul».

Acaba de sair um livro que, na boa tradição de António Gedeão e de Vitorino Nemésio, não só casa a ciência com a poesia como busca a inspiração nas últimas notícias do céu, isto é, em Sagan e em Reeves. O título é Firmamento, o autor é Rui Lage (n. Porto, 1975) e a chancela é da Assírio & Alvim. Fiquei pasmado a cada poema que ia lendo, ao aperceber-me não só da amplitude de conhecimentos científicos do autor como da sua capacidade de os metamorfosear para um registo poético. Confesso que não conhecia a poesia do autor, pois só tinha lido o seu romance de estreia O Invisível (Gradiva, 2019; Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís 2017), que descreve fantásticas aventuras de Fernando Pessoa na serra do Alvão. Verifiquei agora que ele é o autor de um livro de poesia premiado: Estrada Nacional (Imprensa Nacional, 2016; vencedor dos prémios Inês de Castro e Ruy Belo 2016). Além disso, escreveu um ensaio na Imprensa da Universidade de Coimbra sobre Manuel António Pina e foi co-autor com Jorge Reis-Sá da antologia Poemas portugueses. Antologia de poemas portugueses do séc. XIII ao séc. XXI (Porto Editora, 2010). E traduziu livros de poesia e as Conversas com Carl Sagan (de Tom Head, Quási, 2007).

Percebi logo que Rui Lage está bem informado sobre a física do Big Bang, das estrelas e galáxias, dos planetas e dos exoplanetas e ainda da astronáutica. «Canto aleatório», o primeiro poema de Firmamento (a primeira parte do livro dá o título ao livro, havendo mais duas, «Ciência futura da vida» e «Ode Lunar»), fala do Big Bang, vindo do nada ou vai-se lá saber de onde: «Eu canto as flutuações de densidade,/ no vazio inicial,/ a espuma quântica indecisiva, o espaço distendido,/ as partículas aleatórias que nos salvaram,/ do nó irreversível (…)”. De facto, pouco sabemos sobre o início de tudo, mas tudo pode ter vindo de flutuações casuais de um vácuo quântico primordial. Para os físicos o vazio não é vazio, mas sim um constante borbulhar de partículas. Este paradoxo do «vazio não vazio» tem uma ressonância poética que o poeta soube explorar. A estrofe final do poema repete dois versos do início: «(…) Sim, eu canto as flutuações de densidade/ no vazio inicial./ Sem elas não haveria firmamento,/ infância,/ o x do infinito para rebuscar. Sem elas/ não daria contigo a comer figos a eito/ num equilíbrio térmico perfeito,/ com a alegria/ de um pequeno animal aleatório.» O x do infinito está a itálico porque foi tirado de Gomes Leal («Fausto rebusca o x do infinito, / E Satã dorme em cima do Evangelho”). Sim, é verdade: resultámos do prodigioso processo de evolução cósmica.

Muito interessantes são os poemas sobre os astronautas (lembro que Gedeão escreveu um poema irónico sobre o homem novo na Lua). O poema «Apolo 11 (Namíbia, Erich Wendt)» termina assim: «(…) Mas hoje canto a nave que nos desceu/ no Mar da Tranquilidade, canto/ em tributo ao primeiro passo/ na rosácea do pó,/ canto em louvor de Neil,/ e celebro as grutas onde o signo/ primeiro se representou/ a cisão irreversível que aí principiou.// E porque a natureza humana é sair da natureza/ eu canto a nave que nos desnaturou.» Para se perceber melhor: o nome «gruta Apolo 11» foi dado pelo arqueólogo alemão Erich Wendt a uma gruta da Namíbia onde trabalhava quando soube que a Águia tinha alunado. O poema remete para o processo que da gruta levou até á Lua.

Um dos poemas que mais gosto é ainda astronáutico. Intitula-se «Elegia de Buzz Aldrin e Marion Moon». Esclareço o título: a mãe de Buzz Aldrin, o segundo homem a poisar a Lua (que ainda está vivo!), chamava-se Marion Moon. Aldrin é, portanto, literalmente um filho da Lua. A mãe não o pôde ver a pisar o astro com o seu nome, por ter morrido um ano antes. Deste poema não transcrevo nada, pois vale a pena comprar o livro só para ler as três páginas que ocupa. Também gostei da «Elegia quântica para Manuel António Pina», onde entra o gato de Schrödinger. Lembro que Pina, que gostava de gatos, era também seduzido pela física moderna. Na linha de poema de Aldrin, há um outro poema que me imptressionou: «Fallen Astronaut»  glosa uma pequena escultura de um artista belga deixada pelos astronautas da Apolo 15 na Lua em homenagem às vitimas do espaço. E, leitor que comprou o livro, não perca por nada a «Elegia da Voyager 2 à entrada do espaço interestelar». As Voyagers, recordo, são os dois artefactos que já arremessámos para fora do sistema solar. Deixo só os versos finais: «(…) Se houver notícias de algum deus, cala-as./ Fala-nos só da sua falta.»

Na segunda partem «Ciência futura da vida», o poeta fala do esconjuro que a medicina está a fazer à morte. No poema «Ode ao Pacemaker» glosa o pacemaker da avó desta maneira: «transístor acomodado na gaiola do tórax,/ com faísca dada por físico prodigioso». E, mais adiante: «(…) A minha avó fora portanto melhorada/ e o divino barro assim conspurcado/ por exíguo gerador/ e fios de cobre condutor/ que jamais carne humana gerou.(…)» Ainda no mesmo capitulo merece destaque o poema lapidar «O Demónio de Maxwell»: «Esquecer liberta energia sob a forma/ de calor// Recordar faz frio.» Esse demónio virtual foi inventado por Maxwell para diminuir a entropia num sistema isolado. Não existe, que se saiba.

O livro encerra, na «Ode lunar», com um poema sobre a morte: «(…) O Universo teve uma origem,/ vai para qualquer parte./ Expande-se. Arrefece./ Nem a morte é eterna. Também ela se expande/ com o resto. Move-se. Vai para qualquer parte./ E nós vamos com ela (…)»

Há muito tempo que um livro de poesia não me enchia tanto as medidas.

 


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

PENSAMENTO DO DIA: CONTRA O DOGMA

 

Novo texto de Eugénio Lisboa:

«Aquilo de que o mundo precisa não é de dogma, mas de uma atitude de investigação científica combinada com uma crença de que a tortura de milhões de pessoas não é desejável, seja ela infligida por Staline ou por uma divindade imaginada à semelhança dos que nela acreditam.»

 Bertrand Russell 

 Esta salutar reflexão de Bertrand Russell, que teve o privilégio insigne – verdadeira medalha de mérito – de ter por inimigos jurados todos os fanáticos de direita e de esquerda, deve andar connosco, como guião lúcido, que nos ampare no pedregoso caminho da vida, por entre falsas utopias, sempre apoiadas em sinistras ameaças para governo dos recalcitrantes. 

É curioso como, de cada vez que um regime totalitário ascende ao poder, elege logo, como seu principal inimigo, não o adversário da véspera (que pode rapidamente converter à “boa doutrina”), mas as personalidades independentes que, essas sim, são realmente “perigosas”. Assisti a isso, em Moçambique, quando a Frelimo ali subiu ao poder. Os jornais como o NOTÍCIAS, que, até aí, fora o promotor entusiasta do Estado Novo e da guerra colonial, não foram minimamente incomodados e a rapaziada fascista que os redigia, foi rapidamente reciclada, tornando-se entusiástica bajuladora do adversário da véspera (não hesitando, para mostrar serviço, em denunciar, como não suficientemente revolucionários, os corajosos resistentes à boa doutrina anterior…), Que eu saiba, o primeiro e talvez o único periódico que a Frelimo “fechou” foi A VOZ DE MOÇAMBIQUE, que tanto incomodara o Estado Novo. Considerou perigosa a sua independência – e, nisso, até tinha razão. Alguns dos mais antigos colaboradores desse periódico não se tornariam facilmente colaboracionistas, embora pudessem ser colaboradores críticos. Mas estes nunca interessam às ditaduras. 

 Nunca é demais reler mentes insubordinadas aos espartilhos ideológicos, os quais gostam de nos servir soluções fabricadas no conchego das cozinhas do Partido. Soluções que são para seguir obedientemente e não para serem escrutinadas. 

Nada há tão parecido com as religiões organizadas como as ditaduras (de direita ou de esquerda), com o seu pensamento único, com a censura bem estabelecida, com a sua inquisição laica ou sagrada, com a sua polícia do pensamento e com as suas câmaras de tortura (e até, sendo necessário, com os seus pistoleiros a soldo). 

Russell é uma lufada de ar fresco e, com o seu espírito lúcido e não hipotecado a utopias salvíficas, restitui-nos a uma fundamental decência humana. Vale sempre reeditá-lo e dá-lo a ler à juventude. É, além do mais, um admirável escritor, na linha da grande prosa de ouro inglesa: lúcida, transparente, destemida, não arrebicada. 

Eugénio Lisboa

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Sereno e recordo

Sereno e recordo o pai a partir de bicicleta para o moleiro do Zambujal, com um saco de arroba e meia de trigo, e a voltar de noite, com um sorriso, depois de atravessar as trevas adensadas pelos pinhais imponentes da Gândara, ao encontro das premonições sombrias da mãe. Recordo a mãe, com as hábeis mãos em concha e os braços frenéticos, a peneirar a fina farinha de trigo e a baldear para um balde o farelo trigueiro. Recordo a mãe, com os braços incansáveis e os joelhos fincados no chão, a amassar e estirar a massa para o pão, a pedir-me, arquejante, para arregaçar-lhe as mangas e entornar um gole de água quente no alguidar. Recordo o crepitar das vides e dos ramos secos de oliveira no interior do forno, o ruído do espeto de pau de espalhar as brasas rubras e do arrasto do rodo. Recordo a mãe, com as hábeis mãos em concha, a moldar o pão, a polvilhar a superfície da mesa de madeira e a pá com farinha. Recordo a mãe, com os braços incansáveis e os punhos nas manhãs azuis de domingo, a esfregar a roupa no tanque, com sabão azul e rosa, a mergulhá-la na água, num fragor, e a torcê-la com veemência e ardor. Recordo a mãe e o pai. O pai, dentro de uma oliveira, a serrar este e aquele ramo para se mover, a vibrar a vara de eucalipto e a azeitona a cair, na rede e nos panos, como chuva grossa no asfalto; debaixo de uma oliveira, a mãe, ajoelhada no pano de rede, a joeirar a azeitona com os dedos, depois a enfiar a boca do balde no monte, só com azeitonas e folhas, e a despejá-lo num saco. O pai, na serventia da casa, de terra batida, a limpar a azeitona: a jogar mancheias contra o vento, as folhas a caírem para trás e as azeitonas a baterem na elevação do pano de rede e a acumularem-se num monte. A mãe a salgar a azeitona, retirando o sal do saco com um prato, e, com a mangueira, a verter água para os poceiros. Recordo a mãe e o pai laborando como duas andorinhas na nidificação de um ninho e na proteção dos filhotes. 

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Ciência pop: Como funciona um painel solar?

 Explico em 10 minutos no podcast da  Rádio Observador 

https://observador.pt/programas/ciencia-pop/como-funciona-um-painel-solar/


O CHARLATÃO

 Hoje a minha crónica no «Correio da Manhã» é sobre o charlatão. Ler
aqui (só para assinantes):

https://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/detalhe/o-charlatao?ref=Opini%C3%A3o_DestaquesPrincipais

"Centenário da I Travessia Aérea do Atlântico Sul"

  

 Na próxima terça-feira, dia 15 de Fevereiro às 18h realiza-se via plataforma Zoom, a palestra intitulada "Centenário da I Travessia Aérea do Atlântico Sul" com o Professor Manuel Galvão de Melo e Mota do Departamento de Biologia da Universidade de Évora.

Sessão inserida no ciclo de divulgação científica "Ciência às Seis", iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, destinada ao público em geral interessado em cultura científica, de participação livre e gratuita, não sendo necessária inscrição.

Acesso à sessão no Zoom: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/89861768807

ou ID da reunião: 898 6176 8807

 

Resumo da Palestra: 

É comum escutarmos que a Ciência portuguesa apenas se desenvolveu em décadas recentes. Esquecemo-nos que ao longo dos séculos, Portugal deu grandes contributos científicos. Há exactamente 100 anos, dois portugueses, Sacadura Cabral e Gago Coutinho deram um notável contributo à navegação aérea, ao realizarem a I travessia aérea do Atlântico Sul, a primeira navegação aérea efectuada de forma científica, matemática, a nível mundial.

O voo de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, para além de constituir a I Travessia Aérea do Atlântico Sul, foi o primeiro voo do mundo  a ser efectuado de forma científica,  com cálculos rigorosos, utilizando um sextante especialmente adaptado por Gago Coutinho, com horizonte artificial, e um "corrector de rumos", para ajustar a trajectória. Nesse aspecto um voo mais importante que os dois voos efectuados uns anos antes de travessia do Atlântico Norte. Foi esta a primeira vez que se utilizou um sextante em navegação aérea o que permitiu que a etapa maior do voo, entre Cabo Verde e o Brasil, se realizasse com sucesso, chegando a aeronave com precisão, e no limite do combustível, aos minúsculos Penedos de S. Pedro e S. Paulo, junto à costa brasileira.

 Breve biografia do Orador:

 Manuel Galvão de Melo e Mota é Professor Associado com Agregação do Departamento de Biologia da Universidade de Évora, onde dirige o laboratório de Nematologia (ensino e investigação) do Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento (MED). Esteve no Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV). Licenciado em Biologia pela Universidade de Lisboa (FCUL), concluiu o seu PhD em Patologia Vegetal, em 1992, em Virginia Tech, USA. Agregou-se em 2002 em Nematologia na Universidade de Évora. Foi Professor (Catedrático) Visitante em 2012 na Universidade Estadual Norte Fluminense / Darcy Ribeiro, no Laboratório de Entomologia e Nematologia, com quem tem estabelecido uma cooperação científica e académica. . Foi Professor Associado Convidado da Universidade de Kyoto, Japão, em 2005.


DOIS PENSAMENTOS SOBRE TOLERÂNCIA E TIRANIA

 

Novo texto de Eugénio Lisboa:

 

Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes, caso contrário, corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria tolerância.

Karl Popper

 

Um déspota aceita facilmente que os seus súbditos o não amem, desde que se não amem uns aos outros.

Alexis de Tocqueville

 

Vale a pena ter sempre em mente estes dois pensamentos. O de Popper, talvez o maior estudioso da democracia, desde Platão, põe-nos de sobreaviso contra os “apaziguadores”, que permitiram que Hitler ascendesse ao poder absoluto, na Alemanha, não por via de um golpe de Estado, mas sim pela tolerância não qualificada, que sempre abre as portas aos tiranos. A mesma estafada conversa do artigo de António Barreto, no Público de sábado. 

Não quero nem nunca serei “tolerante” com o CHEGA, porque ele quer silenciar e destruir pessoas como eu e eu não estou disposto a consenti-lo. Se a democracia tem de ser ligeiramente imperfeita, para travar a ascensão do CHEGA, SO BE IT! Se a República de Weimar, depois de ter metido Hitler na cadeia, o tivesse deixado lá ficar, ter-se-ia evitado a morte de muitas dezenas de milhões de homens e mulheres e, também, a vergonha do Holocausto: eterna nódoa no percurso do ser humano por este planeta. Quando a tolerância tolera a intolerância, suicida-se. O artigo de António Barreto é um convite ao suicídio da democracia e da tolerância de viver.

Eugénio Lisboa


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

 

Eu recordo-me de, na última procissão a que fora de Nossa Senhora das Neves, antes da morte do pai, ter os olhos marejados de lágrimas, de imprecar o milagre das mãos níveas e de, no fim, volver para casa, pisando o odor do alecrim, a água da espadana e as chamas brancas da murta. Entretanto, as uvas tingiram-se de retinto e maturaram; as maçãs coraram e maturaram e o tempo revogou tudo, salvo o dia em que o corpo, frio e a sós, acordou um enfermeiro, calejado na morte, e uma maca rolante o levou, amortalhado num lençol branco, para a morgue. Imprescritível, esse dia de raiva, de resignação, de pensar que era um dia que viria e eu me levantaria, ao som da bicicleta a embater na escada e da voz timbrada e otimista: É menino, cortar cachos! Só tens sono! Faz-te homem, para te livrares do castigo, da servidão… Era realmente o dia, e eu, no dia anterior, tinha pedalado feito louco para as duas lágrimas e para o aperto de mão que ficou no coração. Não vale a pena pôr-me a chover no molhado. A mãe está exausta. A mãe, nas vésperas da festa, ajoelhada no parapeito marmóreo das janelas, a limpar, com um pano branco, os vidros e as frestas do estore, e, com as galochas enfiadas e a mangueira nas mãos, a lavar o chão da varanda, jorrando a água, como chuva copiosa, das alturas para o jardim. A mãe, nas vésperas da festa, a arredar o armário da cozinha e a esfregar, com uma solução de lixívia e as mãos nuas, o teto e as paredes fungosas, e sempre a queixar-se: Eu ando a cair! A mãe, logo pela alva, a escaldar os nacos de cabra, a colocá-los dentro de uma panela de aço coberta de farrusco, a acender o lume, ao borralho, com achas de oliveira e toros de carvalho, e a cobrir a carne com vinho tinto baga, azeite, banha de porco, sal, colorau, pimenta, salsa, cebola, alho e folhas de louro secas. A santa mãe está aí a romper. Sob o céu, opalino e luminoso, sibilam em surdina mulheres casadas. As crianças aladas miram os vestidos como se se mirassem a um espelho. Os adolescentes e os homens solteiros põem as forquilhas nas hastes do andor, ataviado de rosas, vermelhas e amarelas (eu que já o vira adornado de hortênsias, camélias brancas, cravos brancos e antúrios verdes), e param estafados dos ombros. A Nossa Senhora das Neves que, em criança e sentado num dos bancos da nave, eu via no altar-mor da capela, assoma, agora, ao morro; tem um longo cabelo castanho-escuro, uma auréola dourada na cabeça, um vestido cor de marfim caído até aos pés e apertado na cintura por uma fita, um manto azul cobalto bordado, a mão direita segurando um ramo e o braço esquerdo amparando o Menino, também com uma auréola de resplendor divino, e três querubins aos pés. Atrás, as mãos dos burgueses casados transladam o pálio e o prior e pintam um quadro medieval, onde rebentam as notas de uma banda filarmónica (este ano não veio a banda dos Covões, aqueles velhos apessoados com os contrabaixos dourados!, como dizia o pai). Todo o movimento ritual, todo o cortejo, pela ladeira acima, é lajeado por duas linhas de cabelos esmerados: uma, dobrando o muro do jardim, e a outra, os troncos tuberculosos, nodosos, das oliveiras. Ah, que miríficos eram os dias de festa na minha meninice! A flor vermelho-laranja das sardinheiras, nos varandins, e as colchas caídas do parapeito das janelas e das gelosias. As pétalas de rosa caindo, suavemente e em movimentos espiralados, no andor. A rua de Cima e a rua de Baixo, separadas pela capela, juncadas de murta e espadana, enfeitadas por uma correnteza de arcos de madeira, caiados e floridos, colocados ainda antes da aurora de cinco de agosto: dois paus de bandeira, ancorados por pedras em latões, com barras de pinho, de um lado e do outro, cruzadas ao alto e na diagonal, semeadas de flores (rosas, íris, dálias, margaridas, gerberas, crisântemos, copos de leite…) habilmente feitas à mão, com arames, paulitos, fitas, papel crepe, tesoura e cola; os arcos conectados uns aos outros por cordas de papel e por fios semeados de lâmpadas coloridas; a rua de Baixo, vista da rua de Cima, parecendo um túnel de flores, um longo caramanchão com uma cruz sagrada ao fundo, as crianças brincando com o espigão da espadana…Ah, que alegres e bem-dispostos eram os dias de festa na minha meninice! Os jogos e os risos a bandeiras despregadas: a gincana do pau de sebo, a escabrosidade da corrida de saco, o maneio do corpo das velhas na corrida de cântaros e a água e os cacos a desabarem no jogo dos púcaros e dos cântaros de barro.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Um jovem jesuíta flamengo em Coimbra | Ciência às Seis (on-line)

POESIA DO ANTROPOCENO


Meu prefácio ao livro de Daniel Gonçalves, «Elogio da Tristeza»  (Nona Poesia, Ponta Delgada). que acaba de sair. O poeta, que vive em Santa Maria, escreveu versos com base na maior erupção vulcânica que conhecemos:

A Terra tem ocasionalmente grandes fúrias. Uma das maiores, talvez a maior dos últimos dois mil anos, foi a explosão do Monte Tambora, numa ilha da Indonésia, ocorrida em Abril de 1815. O evento foi classificado no índex de explosividade vulcânica com o grau máximo (sete), um grau acima do da grande explosão de Krakatoa, em 1883, também na Indonésia, e muito acima da erupção da Urzelina, em 1808, na ilha de S. Jorge, nos Açores, que foi das maiores de sempre em Portugal. Morreram, directamente pelos efeitos da megaexplosão de Tambora ou indirectamente pela fome causada pelas subsequentes alterações climáticas, mais de 70 000 pessoas (sem contar com as vítimas de epidemias que advieram, de tifo, na Europa, e de cólera, na Ásia). O material vulcânico expelido, que excedeu os 175 quilómetros cúbicos de volume e ascendeu a mais de 40 quilómetros de altitude, dispersou-se rapidamente pelo globo, uma vez que a atmosfera não conhece fronteiras. Na Europa e na América do Norte, o ano seguinte, 1816, ficou conhecido como o “Ano sem Verão.”

O planeta sofreu grandes mudanças e a arte também. Na literatura, foi no “Ano vem Verão” que nasceu Frankenstein, da imaginação da inglesa Mary Shelley (que então só tinha 18 anos), confinada, numa villa à beira do Lago de Genebra, com o seu namorado e futuro marido, o escritor Percy Shelley, com Lorde Byron e com o médico John William Polidori (que na mesma altura escreveu a primeira história de vampiros, muito antes do Drácula). Em Yunan, na China, mais perto do vulcão, estava o poeta Li Yuyang, que pôde testemunhar as enormes perdas de colheitas,  a fome e o desespero dos camponeses. Nas artes visuais, as pinturas dos ingleses John William Turner e John Constable, e do alemão Caspar David Friedrich, modificaram-se com o aparecimento de nuvens escuras e de vermelhos no céu. O céu passou a estar coberto de nuvens escuras e os pores-do-sol passaram a ser dantescos. Em 2007, um grupo de meteorologistas investigou quantitativamente (analisando a razão vermelho/verde nas imagens digitais do céu) a relação entre as representações pictóricas em centenas de quadros pintados ao longo de quatro séculos e os eventos vulcânicos, tendo concluído que existe uma relação íntima entre geologia e artes: quando os vulcões  despejavam o seu material piroclástico para a atmosfera, logo mudavam as cores do céu nas telas. Disse Turner, aqui citado por Daniel Gonçalves: “A minha actividade é pintar aquilo que vejo, e não aquilo que sei que lá está”. Isto foi muito antes de Picasso ter dito: “Pinto as coisas como as imagino e não como as vejo.”

O poeta Daniel Gonçalves, natural de Zurique, que não fica muito longe do Lago de Genebra, e residente na ilha de Santa Maria, no mesmo arquipélago que viu as erupções das Urzelinas, escreve aquilo que imagina, pois não viu o “Ano sem Verão”. Os seus poemas em “Mil oitocentos e dezasseis” mostram que o vulcão Tambora continua hoje metaforicamente em actividade,  ao provocar  explosões na mente do poeta. Os seus versos são tensos e dramáticos, como se espera da escrita ditada pelas fúrias da Terra, mas, ao mesmo tempo, rendilhada e elegante como fios de lava que escorrem pela montanha. Gonçalves tem já um bom número de volumes e de prémios, e este livro, dentro de um livro maior, Elogio da Tristeza, vem confirmar a força da sua erupção literária. Talvez seja a geografia vulcânica dos Açores a ditar o vigor poético dessas ilhas, tão nítido em poetas como Antero de Quental, Vitorino Nemésio, Natália Coreia, Emanuel Félix, J. H. de Santos Barros e João de Melo.  A poesia geológica de Gonçalves, que reside na ilha com a história telúrica mais antiga, fez-me lembrar Vitorino Nemésio, que, em Limite de Idade, nos deixou notável poesia biológica.

Vejamos curtos excertos que são significativos dos quatro “andamentos” em que se divide o canto gonçalviano “Mil oitocentos e dezasseis”, esperando despertar o apetite para a leitura integral. No primeiro, sobre Tamboro: “um ano sem verão, uma vida sem sol, que me importa a grande sombra, se me faltas tu (…)”. No segundo, sobre a génese de monstros no lago suíço: “lago de Genebra”, como dar vida a um monstro, de que chão/ arrancar, um barro daninho, de que peito, uma/ costela falsa, de que água, de que vinho, as partes/ sólidas, que hão-de falar, de que espectro de// deus, de que tábua de poesia, de que margem de/ lama, como pôr de pé este monstro, à luz destes/ relâmpagos, desta névoa sibilante, lembrando os/ fantasmas, o arquipélago dos corvos, (…). “ No terceiro, sobre a pintura inglesa com alterações cromáticas: “eu, joseph mallord william turner, culpado de/ viver no céu, e esconder-me em terra, de lamber/as cores, antes de as entregar ao tempo, de pagar/ adiantado, pelo ilusionismo dos meus pincéis,// culpado de dar corda à poesia, e às tentações/ da carne (…).” E, por último, no quarto andamento, sobre a tragédia agrícola chinesa: “o poeta encarcerado no langoroso poema da/ ruína, cravando os dentes felinos da metáfora, no/ útero gelado do céu, o poeta a conduzir o dragão/ furioso, a ver se a poesia atordoa o pesadelo, e// quebra as pesadas pranchas da miséria, enquanto/ a caligrafia vacila (…).”

A explosão de Tambora foi uma das maiores do Holoceno. Mas hoje vivemos, para muitos cientistas, no Antropoceno, um tempo em que as alterações climáticas não resultam de fenómenos naturais, mas sim da acção humana. O ano de 1816 mostra-nos o que podem ser os anos daqui por duas ou três décadas. Embora a sua inspiração remonte ao Holoceno, Daniel Gonçalves é um poeta do Antropoceno. A sua poesia, enraizada no passado, é, sem dúvida, do presente, alertando-nos para um futuro funesto que ainda estamos a tempo de prevenir. Cito Ricardo Reis:  “Uns , com os olhos postos no passado,/ Vêem o que não vêem: outros, fitos/ Os mesmos olhos no futuro, vêem/ O que não pode ver-se (…).” A poesia tem o supremo dom de tornar o tempo transparente.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Alguns poemas

 Alguns poemas que escrevi na lezíria, longe da minha Bairrada. 

I.

O morro é uma ave

No píncaro de uma árvore.

Um corvo num pinheiro.

O morro é o vale inteiro

Onde a voz se perde,

E o velho choupo oriundo

Do espelho de água

E da terra escura e gretada.

O morro é um homem

Que regressa ao cume,

Depois de ao fundo descer.


II.

Amo a rua da minha infância.

As suas clareiras, as casas

E a cruz no poente.

Quando volto, voltam as asas

E gorjeio rente às paredes de pedra.

Cruzo-a, sem relutância,

E espreguiço-me nos seus cristais

Como o sol luzente.

Na rua da minha infância,

Há sempre alguém a passar

Com a cabeça

Enterrada numa gavela de erva,

A crista de um galo

A cacarejar da terra ao céu,

O sorriso de um velho

E o guincho de uma bicicleta.

Na rua da minha infância,

Há sempre a aliança

A brilhar no recanto,

Alguém a acordar,

Nos portões e nos umbrais,

E a esperar a sombra

Ou uma aberta.

Há sempre o esganiçado pranto

De uma criança

Que quer voltar pràs demais.

 

III.

O rumor da água

No tanque.

O morro

E o domingo

Que a luz doura.

Canto ou digo

A pele, a terra

E a lama

Que a roupa

Dos dias guarda.   

Os dedos da mãe

Sem sangue,

Sem lume,

Nas reentrâncias

De pedra.

O vaivém

Do peito

E o fio

Torcido

Que escorre.

Agora, alguém

Te chama,

Pai,

Do perfume

Do céu,

Do estendal dos dias

Ao sol.

Mas a tua voz

Já se perdeu,

E a água

Ainda corre.


IV.

O orvalho da manhã

Nas ervas.  

Na várzea,

O olival de nuvens negras.

O vermelho, o amarelo

E a flor

Dos medronhos.

As vespas a zumbir ao sol,

Vomitadas da terra.

O céu a ruir, em lágrimas

E folhas,

E da tarde o arrebol.  

Assim fossem

Os meus sonhos.


V.

Como posso cantar sozinho esta beleza,

O sol, como uma açucena rubra, 

A pairar nos pinhais do poente,

Se não sou todo este vasto céu

Estendido da varanda ao horizonte?!

Como posso cantar sozinho esta beleza,

O sol, como uma açucena…

Ah, cantá-la-ei com a pouca terra,

A minha terra, tão pobre e dura!

  

VI.

Não é o sono a fechar-me os olhos,

Nem o silêncio glacial da noite

Ao redor, em volta,

Nem os arrepios.

São as tuas mãos,

A voar ao sol com as gaivotas,

Rente aos meus braços caídos.


VII.

Dormes, mãe, como no ventre

E com a janela aberta.

Levantas sempre o estore.

O frio perdura e aperta.

Não há pele que escore,

Por isso te traí levianamente.

O alvor, mãe, clareia-te o rosto

E estremece o corpo.

Acordam os braços de repente

E voas, pela sílica transparente,

Ao encontro da terra.

O ocaso, mãe, e voltas pelo corgo.

Deténs-te antes da porta

E olhas o clarão ténue e fremente.

Do sol, voltas de rastros.

Dormes, mãe, como no ventre,

Com a janela aberta

E sempre a escutar-me

Os passos.

 

VIII.

Antes de voltar ao chão,

Volto a vê-lo de pé,

Com os dedos rachados pelo frio,

A segurar a tigela pela mão,

A beber e a soprar o leite.

Na pocilga, os animais

Poderiam perder a fé.

Tinham de arrostar o dia no cume.

O tempo era sempre escasso.

Ao lume da cozinha,

Do chão não regressou mais.

Agora, volto à infância

E beijo o homem na face crestada.

Arranco-o do que lhe custava,

O eterno e justo descanso.



 


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

POETA PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA

 


O título deste livro de poesia pode enganar, uma vez que o poeta não é professor de Educação Física. Chama-se Mauro Filipe da Silva Ponto. Fez licenciatura e mestrado em Engenharia Biomédica (por isso, sabe Física). está a fazer o doutoramento na Universidade de Coimbra em Engenharia Informática, na área da Inteligência em Artificial. Concretamente, analisa sinais neurológicos de modo a podere fazer diagnósticos de doenças. É locutor e técnico de som RUC- Rádio Universidade de Coimbra. Publicou em Novembro de 2021 o seu primeiro livro de poesia, precisamente com o título de cima, na chancela da Doudacorreria, de Lisboa. O mesmo mês foi fértil para ele uma vez que, mesmo no final, no dia 24 de Novembro, foi anunciado o Prémio Francisco Rodrigues Lobo, da Livraria Arquivo de Leiria com o apoio  da Caixa Agrícola, para a sua obra "Época da Laranja". O júri, presidido por Carlos André, integrava o saudoso João Paulo Cotrim, naquele que deve ter sido uma das suas últimas intervenções. 

O livro, com ilustrações espantosas de combates orientais da mão de Sofia Vargues, fala muito de desporto, em particular de futebol, mas sempre com uma veia poética muito original. E também fala de ciência, ou não fosse o seu autor investigador científico. Sempre com a palavra bem segura e a metáfora surpreendente.

Muitos parabéns Mauro! Escolhi três poemas que dão a ideia do registo do novo autor (ainda bem que estão sempre a aparecer novos autores):

12.

a primeira falta dura

o primeiro beijo de língua

o primeiro golo

a primeira festa

o primeiro dedo na tomada

a primeira negativa


a primeira superbock.

dá sempre choque.


27.

o tempo é a grandeza

física melhor definida

que temos


o sistema internacional 

de unidades conta o segundo

pelo número de vibrações

de um isótopo de césio


o tempo é a grandeza

física melhor definida

que existe


um segundo dão 9192631

vibrações de um isótopo

de césio


e o tempo por si só

nem existe, aceitamos

esta gelatina do espaço-tempo.


os físicos namoram

a relatividade geral


explicam aos invejosos

que o tempo pode correr

a diferentes ritmos nos

diversos lugares do mundo


eu cá acho que o tempo 

é a melhor definição 

de ignorância que existe


a ignorância passa sempre

 à mesma hora


se pessoa fosse

acertaríamos até o relógio

por ela


49.

as teorias da origem da vida

falam de formas primitivas que

chegaram na colisão de um asteróide.


é nelas que me baseio quando

vejo jogadores de futebol atrizes

e ouço que não são deste planeta.


arrisco-me a dizer

é esse o segredo do mundo,

ninguém é de cá. somos estrangeiros


num absurdo viemos

à inauguração de um planeta

cortaram a fita e aqui estamos


neste filme fazemos

as vezes de pobre,

sem mota mas à pendura






SONETO À MANEIRA DE NICOLAU TOLENTINO

 


SONETO

À MANEIRA DE NICOLAU TOLENTINO

 

Ó Tolentino, ó grande Nicolau,

não te peço emprestado o engenho,

mas tão só o teu sábio varapau,

que dê grande vigor ao meu empenho

 

de varrer, a valer, o meu quintal:

está sujo com o lixo de comentários

feitos por idiotas sem igual,

de tolices sem conta tributários!

 

A confusão nas cabeças é tal,

que lembra aquele aluno faceto,

que num exame, em hora fatal,

 

veio a descobrir que Hugo Capeto

subiu até ao trono da América,

só por acção da pressão atmosférica!


Dedico este desenfastiado soneto a alguns (só alguns!) dos meus assíduos comentaristas de um blog em que, honrosamente, colaboro. Eles têm escrito coisas verdadeiramente inesquecíveis! A mistura de componentes imiscíveis, que eles conseguem, requer, no mínimo, uma espécie desorbitada de génio atarantado. Agradeço-lhes com este modesto soneto, em que refiro o injustamente esquecido Hugo Capeto (desculpem a rima involuntária. Também Tolentino rima com cretino e isso é a culpa de quem? Ora bem!).

Eugénio Lisboa

BENTO DE JESUS CARAÇA - UMA FOTOBIOGRAFIA

 

Informação recebida da Associação Bento de Jesus Caraça:

Sinopse


Bento de Jesus Caraça nasceu a 18 de Abril de 1901, no seio de uma família de trabalhadores rurais, em Vila Viçosa, e faleceu em Lisboa, a 25 de Junho de 1948. Foi conferencista de renome, distinto professor de Matemática no Instituto Superior de Comércio de Lisboa, autor de importantes livros, artigos e ensaios, e figura maior da cultura científico-literária da primeira metade do século XX.
Os Conceitos Fundamentais da Matemática e A Cultura Integral do Indivíduo, são duas das suas obras de referência. Fez parte do chamado Movimento Matemático dos Anos 40, que reunia um escol de jovens talentos impulsionadores de um clarividente programa de revitalização e internacionalização da ciência em Portugal e grande dinamizador da Universidade Popular Portuguesa.
Exonerado da cátedra por Salazar em 1946 por motivos políticos, proibido de exercer a docência no ensino público e privado, a sua curta e admirável vida e o seu pensamento relançam questões sempre desafiantes.
ISBN 9789727624379
Edição Janeiro de 2022

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

AFORISMOS DE H. L. MENCKEN (1880 – 1956)


Novo texto de Eugénio Lisboa:

Henry Louis Mencken, literariamente conhecido como H. L. Mencken, foi provavelmente o mais influente crítico e ensaísta americano, nos anos vinte do século passado. Dotado de um sumptuoso e acutilante poder de manejo da língua inglesa e de um invulgar poder de ver as coisas muito por dentro, Mencken teve sempre a destemida vocação de se não render facilmente aos ventos que sopravam. Opondo-se, com óbvio risco, à religião organizada, à democracia representativa e à crença num deus qualquer, não se pode dizer que Mencken não sabia escolher bem os seus adversários.

 Tinha uma característica qualidade, que muito admiro: detestava glórias fraudulentas e batia-se como um bravo por impor escritores de real valor, como Theodore Dreiser e Sinclair Lewis. Mas tinha um ponto fraco: nem sempre viu a necessidade de pôr linhas vermelhas ao seu sarcasmo brilhante, e os americanos não acharam muita graça ao facto de ele fazer chacota com o New Deal de Roosevelt, depois de uma depressão assassina. Foi também muito mal visto que ele, inicialmente, se não desse conta do que significava a ascensão de Hitler na Alemanha. Mas deve notar-se que muita gente cometeu este erro. O brilhante George Bernard Shaw não deixou de ter o seu flirt com Mussolini. Acontece aos melhores. 

Da vasta bibliografia de Mencken, podem destacar-se os seguintes títulos: THE PHILOSOPHY OF FRIEDRICH NIETZSCHE (1907); IN DEFENSE OF WOMEN (1918); PREJUDICES, seis volumes de crítica (1919 – 1927); THE AMERICAN LANGUAGE (1919). 

Dou a seguir uma pequena mas significativa amostra do inquietante poder aforístico de Mencken. 

 Diga-se o que se disser dos Dez Mandamentos, devemos dar-nos por felizes por serem só dez. 

Não há assuntos chatos, há só escritores chatos. 

Ópera em inglês faz tanto sentido como beisebol em italiano. 

Quando se ouve um homem falar no seu amor pelo seu país, pode-se estar certo de que ele espera ser pago por isso. 

O pior governo é o mais moral. Um governo composto por cínicos é frequentemente mais tolerante e humano. Mas quando os fanáticos tomam o poder, não há limites para a opressão. 

A consciência é aquela voz interior que nos avisa que alguém pode estar a olhar. 

Nenhum homem merece uma confiança ilimitada – na melhor das hipóteses, a sua traição aguarda apenas uma tentação suficientemente forte. 

É relativamente fácil suportar a injustiça. É mais difícil suportar a justiça. 

Deus é um comediante a actuar para uma plateia demasiado assustada para poder rir. 

Os homens casados vivem mais tempo do que os solteiros – ou, pelo menos, queixam-se durante mais tempo-. 

Nada pode sair do artista que não esteja no homem. 

Nunca pus um charuto na boca, antes dos nove anos. 

É difícil acreditar que um homem está a dizer a verdade, quando sabemos que mentiríamos se estivéssemos no seu lugar. 

Imoralidade é a moralidade daqueles que se estão a divertir mais do que nós.

 Nunca deixe que um inferior lhe faça um favor. Pode custar-lhe caro. 

A fé pode ser definida, em resumo, como uma crença ilógica na ocorrência do improvável. 

Pode ser um pecado pensar mal dos outros. Mas raramente é um engano. 

Só há uma coisa na qual homens e mulheres estão de acordo: nenhum dos dois confia nas mulheres.

 (Hoje, fico-me por aqui. Se quiserem mais, é só pedirem: a verve de Mencken é inesgotável…) 

 Eugénio Lisboa

Camões (450 anos)

 


Camões (450 anos)

por Eugénio Lisboa

 

Grão poeta da condição humana,

exímio acrescentador da língua,

cultor da vida sagrada e profana,

soube viver e morrer sempre à míngua

 

de excesso, como fazem os poetas

enormes, contra ventos e marés,

indiferentes às normas obsoletas,

andando sempre com os próprios pés!

 

grão lírico, antigo e moderno,

a sua grandeza é a sua vanguarda

que nos visita em abraço fraterno,

 

vivamos em palácio ou mansarda.

meu irmão legítimo ou bastardo,

és para sempre nosso eterno bardo!

Ciência às Seis (on-line): "Um jovem jesuíta flamengo em Coimbra" por Carlota Simões


 Na próxima terça-feira, dia 8 de Fevereiro às 18h realiza-se via plataforma Zoom, a palestra intitulada "Um jovem jesuíta flamengo em Coimbra" com a Professora Carlota Simões do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra (DMUC). 

 Sessão inserida no ciclo de divulgação científica "Ciência às Seis", iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, destinada ao público em geral interessado em cultura científica, de participação livre e gratuita, não sendo necessária inscrição. 

 Acesso à sessão no Zoom: 

https://videoconf-colibri.zoom.us/j/82476820674 

ou ID da reunião: 824 7682 0674 14

Resumo:

 Resumo da Palestra: 

Na carta que se apresenta nesta sessão, um jovem padre jesuíta educado nos colégios da Companhia de Jesus de Brabante faz um relato detalhado da vida no Colégio de Jesus de Coimbra, onde permaneceu alguns meses no ano de 1655, numa escala imprevista durante a sua viagem entre a Europa e o Extremo Oriente. A descrição de Inácio Hartoghvelt oferece-nos uma visita guiada aos espaços da Companhia de Jesus de Coimbra (Colégio de Jesus, Colégio das Artes, Quinta de Vila Franca), permitindo-nos olhar para os edifícios pelo seu lado de dentro, dando-nos a oportunidade de vislumbrar as quase duas centenas de ocupantes nas suas atividades diárias. Inácio compara constantemente o colégio de Coimbra com os de Brabante, enfatizando a austeridade espartana em Coimbra. Alguns aspetos provocam o espanto do autor, revelando também a sua admiração e o seu respeito ao perceber que esta escala em Coimbra era a melhor preparação para as dificuldades que o aguardavam na sua missão na China. 

 Breve biografia da Oradora: 

 Carlota Simões é Doutora em Matemática pela Universidade de Twente, Países Baixos, é Professora Auxiliar no Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e membro do Centro de Física da UC. Fez parte da direção do Museu da Ciência da UC entre 2007 e 2019 (Vice-Diretora entre 2007 e 2015 e Diretora entre 2015 e 2019). É Membro Correspondente da Classe de Artes, Letras e Ciências da Academia de Marinha. Tem como principais interesses a história e a comunicação da ciência.

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...