sexta-feira, 26 de outubro de 2007

AJUDA À RÚSSIA


Minha crónica do Público de hoje:

Abriu ontem, com pompa e circunstância, no Palácio da Ajuda, uma exposição sobre os czares russos: “De Pedro, o Grande, a Nicolau II - Arte e Cultura do Império Russo nas Colecções do Hermitage”. A mostra insere-se num conjunto de três que visam a instalação em Lisboa de um pólo permanente do Museu Hermitage, de São Petersburgo, a cidade fundada em 1703 por Pedro, o Grande.

São bem conhecidas as dificuldades por que os russos passaram quando se tornaram “novos pobres”, dificuldades bem patentes nos seus museus, mas agora com a alta do petróleo estão bem melhor. Poderia pensar-se que a Federação Russa nos está a ajudar, enriquecendo-nos culturalmente ao facultar os seus excelentes tesouros. De facto, é ao contrário: é Lisboa que, armada em “nova rica”, ajuda Moscovo. A exposição, que custou 1,5 milhões de euros, é paga integralmente por nós, quer com dinheiros públicos através do Ministério da Cultura e do Turismo de Portugal quer com dinheiros privados através do Millennium BCP (é com o dinheiro dos clientes, que também foi dado ao filho do fundador) e da Portugal Telecom. Assim como vão ser pagas integralmente por nós as próximas exposições e, provavelmente, a sucursal lisboeta do Hermitage. Eu não sei se somos suficientemente ricos para pagar tudo isso. A Inglaterra, que é mais rica do que nós, acaba de anunciar, por falta de dinheiro, o fecho do pólo do Hermitage em Londres. A questão que se coloca é legítima: mesmo dando de barato que dispomos de meios abundantes (algo que levanta muitas dúvidas a utentes de hospitais, reformados, alunos e professores), o retorno proporcionado pela contemplação dos luxos dos czares justificará o enorme investimento?

A minha resposta é clara: não. Por uma razão muito simples. Temos excelentes tesouros descurados aos quais devíamos atender em primeira prioridade. Por exemplo, no tempo de Pedro, o Grande, o rei D. João V mandou construir a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra e o Palácio de Mafra, também contendo uma esplêndida biblioteca. O Estado português, se quisesse valorizar o nosso património cultural e levá-lo não só a todo o país como à Rússia e a outras partes do mundo, empreenderia um grande programa de conservação e digitalização dos fundos históricos das bibliotecas nacionais, com especial atenção para os nossos autores. Boa parte dos nossos livros antigos estão em estado lastimoso, roídos pela usura do tempo, e precisam de mãos carinhosas que os amparem. A digitalização é a moderna forma não só de levar a nossas casas os conteúdos do património escrito como também de preservar os originais. Os países mais avançados, como a Rússia, estão a avançar por aí.

E podia falar longamente das intervenções que urgem no nosso património físico. A porta da Biblioteca Joanina está em mau estado e boa parte do edifício não pode ser mostrada ao público. Tal como a Joanina, o Palácio de Mafra (que fecha às 17h) não tem condições para ser visitado por deficientes, para além de grande parte do seu espaço estar entregue aos militares. Há monumentos ao abandono: Em Agosto fui ao Santuário do Cabo Espichel e está uma ruína que mete dó. Podia também falar da gritante falta de meios dos nossos museus. No último domingo tive de sair do Museu Grão Vasco porque fechava à hora de almoço. E deixei de ir ao Museu Nacional da Ciência e da Técnica porque foi encerrado. Nem vou a Vila Nova de Foz Coa porque sei que não está lá o tão prometido museu. E podia ainda dizer que havia outras exposições para importar e que importam mais, como as de Washington e Berlim sobre os Descobrimentos.

«Quando os russos virem a exposição vão ficar muito satisfeitos com o carácter verdadeiramente espampanante que ela vai ter», disse ao «Expresso» Fernando Baptista Pereira, o comissário local. Eu irei ver, até porque estou curioso por saber como é mostrada a presença lusa na corte dos czares (Ribeiro Sanches foi médico de Catarina II em São Petersburgo), mas não sei se vou ficar satisfeito. Espampanante? O novo riquismo sempre foi saloio.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

“Vou-me licenciar por obra e graça do Espírito Santo”

Luís Infante de Lacerda Sttau Monteiro (1926-1993), o escritor português que também foi advogado e condutor de Fórmula 2, que viveu em Lisboa e em Londres, que conheceu as faces da ditadura e da democracia, tinha esse dom fantástico de olhar para o que se passava à sua volta com um humor perspicaz e corrosivo, o tal que ajuda, em muito, a ter consciência crítica. Entre 1969 e 1980, o país esteve sob a sua acutilante mira nas crónicas Redacções da Guidinha, que publicou, primeiro, no Diário de Lisboa e depois, no O Jornal.

O texto que, de seguida, se lerá é descarada transcrição duma dessas crónicas:

“Nestas coisas da vida uma pessoa ou tem sorte ou não tem eu cá por mim tenho de confessar que não sou das que tiveram mais sorte e tudo porque comecei a tirar a minha instruçãozita (sic) primária antes das reformas contra-reformas sugestões de reformas propostas de reformas discussões sobre reformas questões sobre reformas estudos sobre reformas esperas por reformas e o mais que há sobre reformas e o resultado deste meu azar de ter começado a ir à escola antes de tudo isto foi que tive de estudar uma data de coisas para fazer exame da primeira classe mais uma data de coisas para fazer exame da segunda classe mais uma data de coisas para fazer exame da terceira classe e nem digo mais quantas coisas para fazer o da quarta classe para verem como as coisas eram tenebrosas até tive de aprender a ler para tirar a quarta classe o que mostra como a gente era perseguida e torturada e mal-tratada nos tempos antigos se no meu tempo já andassem estas reformas todas no ar eu tinha-me safado muito melhor para começar não tinha tido aulas durante metade do ano por causa da reforma e tinha passado para a segunda classe sem saber fazer contas de multiplicar vai na segunda classe com uns sarilhitos tinha passado para a terceira sem saber fazer contas nem de multiplicar nem de dividir e para entrar no liceu sem eles darem por isso arranjava-se uma dispensazita de exame por não saber ao certo como é que ia ser a reforma é claro que no liceu avançava da mesma maneira (…) enfim o que eu quero dizer é que acabava por entrar na faculdade que é para onde eu quero ir sem ninguém perceber que eu não sabia ler nem fazer contas de multiplicar e de dividir com as coisas assim eu tenho a certeza de que chegava ao fim sem abrir um livro o que até facilitava a vida porque se me obrigassem a abrir um livro eu estava frita por não saber ler e isso de ir às aulas era coisa que eu não fazia porque havia de arranjar maneira de lá não pôr os pés umas vezes porque não ia porque não havia professores outras vezes porque estava à espera que fosse resolvido o problema de transportes (…) outras vezes não ia porque estava dispensada de ir enquanto não viesse a reforma e outras vezes não ia porque não ia e pronto ninguém tem nada com o que faço enfim chegava ao fim do curso e davam-me um canudo todo escrito em latim (…)” (In A Guidinha antes e depois, págs, 115-117).

Ora bem, trata-se de um texto datado de 22 de Junho de 1974. Tem, portanto, trinta e três anos, já feitos. Mas, podia ter sido escrito hoje, ou não?

Livros consultados:
– Luís de Sttau Monteiro (2002). Redacções da Guidinha, Areal Editores (compilação de crónicas publicadas no Diário de Lisboa, entre 1969 e 1970).
– Luís de Sttau Monteiro (2004). A Guidinha antes e depois, O Independente (compilação de crónicas publicadas no Diário de Lisboa e no O Jornal entre 1972 e 1977, com introdução de Helena Gubernatis).

Imagens retiradas de:
– http://www.cm-lisboa.pt/docs/imagens/LuisSttauMonteiro_s_0.jpg
– http://www.arealeditores.pt/CE/biblio/gifs/00701.gif

Tinta repelente de sujidade

Disco de Nebra, manufacturado há cerca de 5600 anos, durante a Idade do Bronze. Com 30 cm de diâmetro, o artefacto representa o Sol, a Lua e as estrelas.

A capacidade de alterar as propriedades dos compostos químicos acompanha a evolução do Homem pelo menos desde que este descobriu o fogo. A produção de novos materiais, como o bronze - uma liga de cobre e estanho - embora relativamente recente na história, é mais antiga que a idade que os criacionistas propõem para a Terra e o Universo.

Nenhum material produzido pelo homem é tão versátil como os polímeros, que actualmente encontram campos de aplicação insuspeitos até há muito pouco tempo, como seja, por exemplo, a área da electrónica (de plástico). Esta área assumiu especial importância a partir de 1990 com a utilização de polímeros na fabricação de diodos emissores de luz (PLEDs), importância que foi reconhecida com a atribuição em 2000 do Nobel da Química a Alan G. MacDiarmid (Departamento de Química da UPENN, EUA), Hideki Shirakawa (Instituto de Ciência de Materiais da Universidade de Tsukuba, Japão) e Alan J. Heeger (Departamento de Física da Universidade da California em Santa Barbara, EUA)

Uma área que tem conhecido desenvolvimentos muito rápidos nos últimos anos tem a ver com tintas e vernizes. Embora a primeira utilização de polímeros em tintas tenha sido registada em 1855 por Alexander Parkes e em 1872 Bayer tenha descoberto uma forma de produzir resinas fenólicas com grande aplicabilidade na produção de tintas, a produção de tintas plásticas, tal como todas as áreas relacionadas com polímeros, conheceu um grande desenvolvimento apenas a partir da década de 1930, data em que Hermann Staudinger - laureado com o Nobel da Química em 1953 - propôs que estes materiais seriam compostos por moléculas gigantes (macromoléculas).

Começou ontem em São Paulo a Abrafati 2007, a principal feira de tintas da América Latina que, em paralelo, hospeda o 10º Congresso Internacional de Tintas. A estrela do evento será a Dow Chemicals que apresentará o seu novo e revolucionário produto, uma tinta ainda sem nome que apresenta simultaneamente um elevado índice de elasticidade - mais de sete vezes maior que o produto mais elástico actualmente disponível - e uma capacidade inédita de «repelir» a sujidade.

A nova tinta pretende reproduzir o «efeito lótus», uma flor que se mantém sempre limpa, mesmo nos pântanos asiáticos. O polímero desenvolvido é muito hidrofóbico o que tem como consequência que as superfícies recobertas com esta tinta são auto-laváveis.

«Procuramos reproduzir quimicamente um fenómeno da natureza e obtivemos resultados surpreendentes. Este produto é a resposta para duas das principais tendências de mercado, que são a autolimpeza e a necessidade de maior elasticidade», explicou o líder de I&D em Látex da Dow para a América Latina, Hugo De Notta.

O novo látex será produzido a partir do início de 2008 em San Lorenzo, na Argentina, e, posteriormente, na China. A companhia prevê um mercado potencial para o produto de 4 milhões de litros apenas na América Latina, onde são comercializados 1,4 mil milhões de litros de tintas à base de água.

Afinal, o que é a vida? E como começou?

Mesmo a propósito de um dos últimos posts no De Rerum Natura, mais um post convidado de Luís Alcácer.

Parafraseando Schrödinger: ninguém espera que o cientista escreva sobre um tema que não seja da sua especialidade. É uma questão de "noblesse oblige". Relativamente a este(s) escrito(s) permitam-me que renuncie à "noblesse" e me liberte das obrigações que ela implica. Eis a minha desculpa.


Não havia espaço, nem tempo. Nem matéria, nem energia. Era o "vácuo" (o "nada"). Mas, o "vácuo" também não existia. Era apenas um estado quântico. Nos primeiros 10-43 segundos (0.0000000000000000000000000000000000000000001 segundos) os físicos não sabem bem o que aconteceu. Isso foi há cerca de 15 mil milhões de anos! Deram-lhe o nome de "Big Bang". A partir daí, a física tem uma teoria relativamente bem fundamentada, suportada por observações da radiação cósmica.

A Terra deve ter-se formado há cerca de 4.56 mil milhões de anos. A existência de fósseis coloca a origem da vida na Terra, a pelo menos 3,5 mil milhões de anos. Há mesmo vestígios fósseis de células primitivas em rochas da Groenlândia com pelo menos 3,8 mil milhões de anos. A vida poderia ter começado, ainda muito antes, noutro astro de um qualquer sistema, ou em mais do que um. Para o caso, isso é irrelevante.

De entre as moléculas que havia na Terra antes do aparecimento da vida (há 3 ou 4 mil milhões de anos) estavam provavelmente a água, o dióxido de carbono, o metano e a amónia. Os químicos têm tentado imitar essas condições, colocando essas substâncias num balão e aplicando-lhes uma fonte de energia (luz ultravioleta ou descarga eléctrica — simulação de relâmpagos). Passadas algumas semanas encontram no balão moléculas mais complexas do que as originais: aminoácidos (blocos da construção de proteínas), purinas e pirimidinas - blocos da construção do ADN (ácido desoxirribonucleico).

Em dado momento formou-se, por causas ainda obscuras, uma molécula capaz de criar cópias de si mesma: um "replicador", que actuava como modelo, no caldo rico nos blocos moleculares necessários à formação de cópias.

Surgiram entretanto vários replicadores que competiam entre si pelos tais blocos. As variedades menos favorecidas ter-se-ão extinguido. As que sobreviveram construíram "máquinas de sobrevivência" dentro das quais pudessem viver [1].

Actualmente os replicadores são os genes e as "máquinas de sobrevivência" somos nós!

O gene é uma "entidade molecular" de extraordinária estabilidade — só assim se justifica a sua sobrevivência. Essa estabilidade de moléculas e agregados só se pode explicar, pela ligação química e pelas interacções intermoleculares (e.g., ADN = 2 hélices enroladas uma sobre a outra!). A teoria que explica a ligação química e estabilidade das moléculas é a teoria QUÂNTICA.

A descoberta da síntese da ureia em 1828 por Friedrich Woehler, a partir do cianato de amónio (sal inorgânico) derrubou a teoria de que os compostos orgânicos só poderiam ser sintetizados pelos organismos vivos (teoria da força vital).

Em 1922 o cientista russo Oparin sugeriu que a vida da célula foi precedida de um período de evolução química.

Em 1953, Stanley Miller (na Universidade de Chicago), então com 23 anos, realizou uma experiência que ficou célebre [2]:

Colocou num reactor (balão), uma mistura de amónia, hidrogénio e vapor de água (a que se chamou depois, a sopa primitiva). Queria assim simular a atmosfera primitiva. Depois de selar o reactor, provocou sucessivas descargas eléctricas no seu interior. Duas semanas depois (e muitas descargas) o líquido começou a mudar de cor. Quando o analisou encontrou pelo menos dois aminoácidos: a alanina e a glicina. As interacções entre estas moléculas poderiam levar à formação de moléculas mais complexas. A formação de ácidos nucleicos poderia ser um indício de vida pré-celular. De facto, em experiências posteriores (com outros reagentes inorgânicos simples) foram detectados ácidos nucleicos. A adenina poderia ser obtida a partir da polimerização de cianeto (que se poderia facilmente formar numa atmosfera primitiva). A adenina e outras bases poderiam, na presença de ácidos nucleicos, auto-organizar-se e formar hélices. Eventualmente, estes elementos pré-celulares poderiam ser envolvidos por uma membrana (lípido-proteína) dando origem a células primitivas.

É possível criar um ser vivo artificial a partir de matéria inorgânica?

A experiência de Miller levou à ideia de criar vida artificial. Tem havido muitas tentativas. David W. Deamer, por exemplo, da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, lançou a ideia de criar uma "protocélula" (célula primitiva) há cerca de 30 anos.

Segundo ele, a protocélula deveria satisfazer 12 requisitos, nomeadamente, ter uma membrana que capta energia, manter gradientes de concentração de iões, confinar macromoléculas e dividir-se. As macromoléculas devem poder crescer por polimerização, evoluir, armazenar informação, ter a possibilidade de sofrer mutações, promover o crescimento de polímeros catalíticos. Vários laboratórios já conseguiram alguns destes requisitos, mas ainda faltam dois: i) a célula deve conter genes e enzimas que podem ser replicados e ii) esses genes devem ser partilhados entre as células filhas. David W. Deamer espera que, brevemente, seja possível atingir estes objectivos, talvez através de uma enzima que se duplique, e actue simultaneamente como material genético e catalisador.

Albert Libchaber, da Rockefeller University, sintetizou um plasmódio (célula com vários núcleos, formada através da divisão de um núcleo inicial) que gera proteínas e as coloca em sacos de membranas.Estas células (que funcionam) sobrevivem por 4 dias, mas não conseguiu que se reproduzissem.

Em Junho de 2007 apareceu nos media (e. g., BBC News) uma notícia que deixou muito boa gente estupefacta [3]: um grupo de cientistas submeteu um pedido de patente para um método de criar um "organismo sintético". O pedido de patente, do Instituto J. Craig Venter, reclama propriedade exclusiva de um conjunto de genes e de um organismo sintético vivo, que pode crescer e replicar-se, feito a partir desses genes.

O termo "BIOLOGIA SINTÉTICA" apareceu pela primeira vez no título de um artigo na revista NATURE em 1913, mas desapareceu até 1980, altura em que é aplicado no mesmo sentido que a tecnologia do ADN recombinante. Hoje em dia, o termo é usado para descrever a engenharia de circuitos genéticos, genomas e mesmo organismos.
A definição de biologia sintética é ilusiva, com o é a definição de "vida" diz Vincent Noireaux, professor de física da Universidade de Minnesota. Há ainda muitas questões fundamentais a resolver.

A vida parece ser comportamento ordenado da matéria, não baseado na tendência para passar da ordem à desordem (segundo princípio da termodinâmica), mas sim na ordem existente, que se perpetua, ou mesmo na passagem da desordem à ordem (por auto-organização ou "self-assembly"). Mas sobre isso dissertarei noutra altura.

Luís Alcácer



[1] Richard Dawkins, O Gene Egoísta, Gradiva, 3ª edição, 2003.
[2] Science 1953; 117: 528-529.
[3] «Patent sought on 'synthetic life'».

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Ecotopias


O novo livro de André Barreiros, ECOTOPIAS, apresentado recentemente no espaço Belém Terrace, em Lisboa, já está ao dispor do público. A editora Gradiva, que aceitou a distribuição desta obra, disponibilizou esta semana o seu stock às livrarias, hipermercados e lojas FNAC. As Ecotecas dos CTT também aderiram ao título, vendendo-o nas principais estações.

Para que ninguém ficasse privado do livro que pode ajudar a mudar mentalidades sem ser «preciso ser da Greenpeace, da Quercus ou dos Verdes, nem é necessário calçar chinelas de cabedal, nem usar colares de missangas», este pode ser encomendado no site pessoal do autor - «amante da natureza, principalmente do mar».

Esperam-se para breve novas iniciativas de apresentação do livro, com datas já marcadas para Angra do Heroísmo, Porto, Braga, Funchal e Albufeira.

Criacionismo da Terra Jovem: Universo fez 6010 anos ontem


Bill O'Reilly conversa com Ben Stein, o tal da desonestidade intelectual em forma de filme, sobre «desenho inteligente, isto é, uma divindade criou a vida».

James Ussher, arcebispo de Armagh, teve um papel importante nos violentos conflitos entre anglicanos e presbiterianos na Inglaterra do século dezassete, mas o que o torna conhecido até hoje é a sua obra «The Annals of the World», publicada em latim em 1650 e traduzida para inglês em 1658.

Nos Anais, um calhamaço de mais de 1600 páginas subintitulado «A Origem do Tempo, e a Continuação para o Início do Reino do Imperador Vespasiano e a Destruição e Abolição Total do Templo e da Comunidade dos Judeus», Ussher dedica-se à cronologia bíblica, «calculando» que a criação aconteceu no domingo 23 de Outubro 4004 a.C - e a expulsão do «paraíso» menos de um mês depois, a 10 de Novembro.

O «sistema» de cálculo de Ussher assentava na noção hebraica, adoptada por muitos cristãos, de que a criação anteciparia o nascimento do messias por 4 000 anos e numa interpretação do «calendário» que já na altura parecia completamente ultrapassada a muitos estudiosos.

Andrew Dickson White, historiador e presidente da Universidade de Cornell (uma das mais prestigiadas universidades do mundo, que incluiu Carl Sagan no seu corpo docente) , diz-nos na sua « História da Guerra da Ciência com a Teologia na Cristandade» que o trabalho de Ussher não era original. De facto, John Lightfoot, Vice-Chancellor da Universidade de Cambridge, declarou, após estudo exaustivo das escrituras, que «céu e terra, centro e circunferência, foram criados conjuntamente, no mesmo instante, e nuvens cheias de água» e que «este trabalho teve lugar e o Homem foi criado pela trindade no dia 23 de Outubro, 4004 b.C., às nove horas da manhã». Lightfoot publicou os seus cálculos em 1644, seis anos antes dos Anais verem a luz do prelo.

Há um artigo muito interessante sobre o tema, publicado em 1996 na revista Archaeology in Oceania. No artigo «From Ussher to Slusher, from Archbish to Gish: or, not in a million years...», Colin Graves disseca os disparates criacionistas - muitos deles já abordados no De Rerum Natura, nomeadamente a pedrada em Ellen Gould White que fez ricochete em Henry Morris e John C. Whitcomb, Jr. - , e termina com:

«A constituição pressupõe democracia, laicidade e pluralismo, os criacionistas exigem uma teocracia. O público em geral tende a não perceber porque tudo isto é errado; apesar da maioria dos fundamentalistas ser imune à racionalidade, os estudantes na sua maioria não o são, e nós esperamos dotá-los de conhecimento suficiente para evitar que caiam nas fantasias criacionistas. Os cientistas, mas especialmente arqueólogos, estão na linha da frente; nós, não os artistas ou políticos, temos as munições para parar a maré do lixo criacionista, e relegá-lo ao Monty Python's Flying Circus a que pertence».

O problema nos Estados Unidos põe-se exactamente no facto de que o homeschooling é adoptado por muitos fundamentalistas que não querem que os filhos entrem em contacto com a realidade. Através de PZ Myers, descobri que o livro de Ussher foi reeditado pela primeira vez e que é um favorito entre aqueles que decidiram não mandar os filhos à escola e preferem «ensiná-los» em casa.

A informação é dada no site conservador World Net Daily, que, num atentado à inteligência, descreve o livro como o maior livro de história (da carochinha) alguma vez escrito e por isso preferido pelos «que levam a História antiga a sério. É a história do Mundo desde o jardim do éden até à queda de Jerusalém».

Mas de quem publica regularmente artigos como o que assevera que o consumo de soja leva «a uma diminuição do tamanho do pénis, confusão sexual e homossexualidade» e é o grande responsável por comportamentos «desviantes», espera-se os maiores disparates...

BEIJO ARDENTE

Transcrevo, do livro de Luís Bernardo, "Histórias da Luz e das Cores", vol. 2, Editora da Universidade do Porto, que acaba de sair, um delicioso trecho da autoria de um jornalista francês, Henri de Parville, que em 1862 fez o relato da sua visita ao laboratório dos químicos alemães Robert Bunsen e Gustav Kirchhoff:

"Diante de nós abre-se uma grande sala cheia de instrumentos bizarros, de garrafas e de retortas. Lunetas e telescópios elevam-se nos seus tripés; espelhos deslumbrantes enviam de todas as partes a sua claridade fantástica; pequenos fogos vermelhos de fogo crepitante na sombra e de clarões estranhos correm ao longo dos muros. Um ruído surdo e lúgubre escapa-se, por instantes, da abóbada sombria e lança, sobre vós, como que o estertor de um moribundo. Esferas cheias de líquidos de diferentes cores exalam um odor penetrante que se agarra à garganta e que vos provoca deslumbramentos. Metais em fusão arrefecem sobre as lajes e, com um tão ardente beijo, a pedra contorce-se".

Na foto: o famoso beijo de Deborah Kerr e Burt Lancaster, de que falou a Helena.

A vida das árvores

Informação recebida do Centro Ciência Viva de Proença-a-Nova

A vida das árvores explicada aos meninos pelo Senhor Verde

É um conto de Nuno Garcia Lopes e vai ser o ponto de partida para uma sessão protagonizada pelo escritor e elemento do grupo O Contador de Histórias, domingo, dia 28 de Outubro, pelas 15 horas, no Centro de Ciência Viva da Floresta, em Proença-a-Nova , integrado na actividade Contos da Floresta.

"A História do Senhor Verde" fala de um Senhor Verde pequenino que habita na floresta, estimulando a imaginação dos mais novos que ali podem ver um duende, ao mesmo tempo que lhes é contada a história da bolota e do seu ciclo de vida até criar uma nova árvore. O objectivo é dar a conhecer às crianças o ciclo da vida vegetal, especialmente àquelas que vivem mais afastadas da natureza.

Escrita no final do Verão de 2005, após a trágica época de incêndios que estiveram a poucos metros da sua casa e lhe queimaram dezenas de árvores que ele próprio plantara, Nuno Garcia Lopes pretende ao mesmo tempo que esta história ajude a valorizar a importância e a privilegiar a plantação de sobreiros, carvalhos e outras espécies endógenas da floresta portuguesa, fundamentais para o equilíbrio ecológico mas também para ajudar a controlar a rápida propagação das chamas nos incêndios florestais, aos quais são muito mais resistentes.

Escritor e contador de histórias, Nuno Garcia Lopes é autor, entre outros livros, da colecção Lua do Mar, onde as divertidas aventuras de três amigos são o pretexto para aprender noções importantes, como a da reciclagem.

O grupo O Contador de Histórias é oriundo de Tomar e está actualmente a comemorar dez anos de actividade, promovendo em simultâneo a literatura, a cidadania e o ambiente. "A História do Zeca Garro", de Filipe Lopes e Carla Goulart Silva, é o livro mais recente deste colectivo, tendo por base a salvaguarda do cagarro, uma ave que nidifica nos Açores mas que corre alguns riscos no arquipélago.

Mais informações nuno@ocontadordehistorias.com

O Contador de Histórias - Apartado 139 - 2304-909 Tomar
Telefones: 91 4961072 e 91 2568944
Correio electrónico: geral@ocontadordehistorias.com
Internet: www.ocontadordehistorias.com
Blog: historiasdocontador.blogspot.com

Deus no século XXI


Informação recebida da Campo das Letras:

DEUS NO SÉCULO XXI
E O FUTURO DO CRISTIANISMO
coordenação de Anselmo Borges

A partir das reflexões de alguns dos mais conceituados especialistas dos diferentes saberes - sociologia, genética, neurobiologia, filosofia, teologia, psiquiatria, ciências da comunicação, história, ética e bioética, politologia - é do futuro de Deus e da Humanidade que este livro trata.

Textos de: Adriano Moreira | Alexandre Castro Caldas | Andrés Torres Queiruga | Frei Bento Domingues | Daniel Serrão | Edward Schilllebeeckx | Enrique Dussel | Fernando J. Regateiro | João Maria André| Joaquim Fernandes | Johann Baptist Metz| José María Mardones | Juan Martín Velasco| Juan Masiá Clavel | Manuel Pinto| Teresa M. Leal de A. Martinho Toldy

«"Deus no Século XXI e o Futuro do Cristianismo". Aí está um tema paradoxal. Não é Deus sempre o mesmo? Há um Deus próprio do século XXI? E será legítimo pôr em causa o futuro do cristianismo?

Deus é sempre o mesmo, mas transformou-se e transforma-se no encontro com os homens e as mulheres, como estes e estas, no encontro com Deus, se transformaram e transformam. Há múltiplas figuras de Deus por causa da sua história com os homens e as mulheres, e a história dos homens e das mulheres e as suas figuras e autocompreensão também não seriam as mesmas sem a sua história com Deus.
Possivelmente, a revolução em curso neste início de século e milénio só tem comparação com as revoluções do neolítico e da modernidade, e tem múltiplos contornos e domínios.

São tais as perspectivas nos campos da genética e das neurociências e, consequentemente, das biotecnologias que se chega a pensar na possibilidade de uma bifurcação da Humanidade, a caminho do pós-humano. Pela primeira vez, a Humanidade tem nas suas mãos o seu segredo. O que pode e quer fazer com ele? É humano-ético tudo quanto é tecnicamente possível?

A globalização, que tem sido sobretudo tecnológica e económico-financeira no quadro do neoliberalismo, obriga a pensar uma governança mundial e coloca de modo novo a problemática do multiculturalismo.

Se se quiser evitar o "choque das civilizações", impõe-se o diálogo intercultural no horizonte da mestiçagem, com todos os problemas de personalidades cada vez mais compósitas. (…)
»

Anselmo Borges

Bertrand Russell e a Filosofia Analítica


Informação recebida da Pé de Página (clicar na imagem para ampliar)

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Luís de Albuquerque (1917-1992)

Depoimento sobre Luís de Albuquerque feito a pedido da Ordem dos Engenheiros:

Passaram em Março passado noventa anos sobre o nascimento de Luís Guilherme Mendonça de Albuquerque, matemático e historiador. Ele foi um extraordinário homem de cultura que marcou o nosso século XX, juntando, como é raro acontecer, o cultivo das ciências e das letras.

Engenheiro geógrafo de formação, foi Doutor em Matemática pela Universidade de Coimbra e Doutor honoris causa em História pela Universidade de Lisboa, em reconhecimento da sua vasta obra histórica, nomeadamente sobre os descobrimentos portugueses. Foi Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Apesar de ter sido um bom pedagogo e de ter dado origem a um grupo de investigação em Matemática, foi sobretudo como investigador da história da náutica e da cartografia que ganhou renome nacional e internacional.

Ocupou lugares de relevo na academia como o de Vice-Reitor de 1978 a 1982 e de Director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra de 1978 até à data da sua jubilação, em 1987. Na sua direcção, modernizou os serviços e as instalações, tendo adquirido entre outros um núcleo bibliográfico do Dr. José Vicente Gomes de Moura e conseguido a oferta à universidade de diversos manuscritos, nomeadamente a Carta-portulano de Diogo Homem (ca. 1566). Além disso, deixou em testamento à Biblioteca Geral a sua enorme e rica biblioteca pessoal, onde se inclui um arquivo formado por alguns manuscritos (há, por exemplo, uma tradução em português do "De Nauigatione Libri Tres" de Diogo de Sá) e documentos.

Em homenagem ao seu ilustre antigo director, a Biblioteca Geral já decidiu atribuir à Sala actualmente usada para formação, onde se encontra aquele espólio, o nome de “Sala Luís Albuquerque”. Contudo, uma homenagem ainda maior que ele decerto merece e da qual todos seríamos beneficiários seria a catalogação da sua biblioteca que, além dos livros e revistas, contém muitos folhetos raros, colecções de recortes e fichas bibliográficas de leituras. De facto, por absoluta falta de meios humanos, esse acervo encontra-se ainda por catalogar e, portanto, por colocar à disposição dos interessados. Oxalá obtenha apoios um projecto para valorizar esse notável património que ele doou ao país.

Luís de Albuquerque era um cronista minucioso da vida cultural de Coimbra e do país. Segundo o escritor Cristóvão de Aguiar, em “Com Paulo Quintela à mesa da tertúlia : no centenário do seu nascimento”, ele mantinha diários estenografados cobrindo dezenas de anos de eventos relevantes e conversas. Assim, era com ele que os amigos iam buscar esclarecimentos sobre algum acontecimento que recordassem mal. Esses caderninhos mereciam ser disponibilizados na Biblioteca Geral e até ser transcritos para poderem ser usados como preciosa fonte histórica. Outros inéditos permanecem ainda de posse da família merecendo também divulgação.

Embora sobretudo um académico, Luís Albuquerque foi também um político: desde os tempos de assistente de Matemática que colaborou com revistas de intervenção político-cultural, como, por exemplo, a “Vértice”, e aceitou desempenhar as funções de Governador Civil de Coimbra no período a seguir ao 25 de Abril de 1974. Apesar das suas convicções de esquerda, nunca permitiu que elas se sobrepusessem às suas amizades, que soube cultivar num espectro vasto e sempre com grande generosidade.

Luís Albuquerque foi um homem sábio e um homem bom. Não tive a sorte de ter sido seu aluno, mas sou seu leitor. E orgulho-me de me contar entre os seus sucessores na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

Águas turvas: aquecimento global e oceanos



A edição de hoje da revista Nature é acompanhada por uma notícia intitulada «Greenhouse-gas levels accelerating», que dá conta de uma aceleração no ritmo de emissão de CO2 para a atmosfera. Enquanto na década de 90 se verificou uma aumento anual das emissões de cerca de 1.3%, o boom económico do século XXI - especialmente na China e na Índia - foi acompanhado por um boom equivalente nas emissões de gases de efeito de estufa, cerca de 3.3% ao ano a partir de 2000.

Pep Canadell, que lidera o Global Carbon Project e publicou um dos estudos analisados nesta notícia, sugere ainda que os tanques de carbono da Terra, especialmente os oceânicos, já não funcionam tão eficientemente como em meados no século passado e por isso menos CO2 atmosférico é retirado do sistema:

«Há cinquenta anos, se emitissemos 1 tonelada de CO2, os tanques [como os oceanos] removiam 600 quilogramas. Agora removem 550 kg e esta quantidade está a diminuir».

Outro dos artigos mencionados na notícia da Nature, publicado no Journal of Geophysical Research, reitera as afirmações de Canadell. Ute Schuster e Andrew Watson, da Universidade de East Anglia em Norwich, utilizaram dados recolhidos por instrumentos colocados em navios comerciais para concluir que em algumas zonas do Atlântico Norte a capacidade do oceano para remover CO2 diminuiu para menos de metade desde meados dos anos 90.

A descoberta dos dois cientistas surge apenas três meses após outra equipa ter descrito que o mesmo se passa no Oceano Polar Antártico. Esta diminuição drástica na capacidade de absorção de CO2 nos oceanos sugere que nem o tratamento de emergência prescrito por James Lovelock para a «patologia do aquecimento global» será suficiente para reduzir os níveis de CO2 na atmosfera terrestre.

O RACISMO - Passatempo com prémio

NUMA ALTURA em que, a propósito das polémicas declarações de James Watson, tanto se fala de racismo, o DE RERUM NATURA e o SORUMBÁTICO resolveram oferecer um exemplar deste livro ao primeiro leitor que, aqui, afixar um comentário pertinente sobre o assunto mas - atenção! - só a partir das 16h30m de hoje.
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NOTA: A hora a considerar será a que o Blogger atribuir. Um comentário que, eventualmente, seja afixado às 16h30m já será válido.

DEZ LIVROS DE FÍSICA PARA TODOS

A Biblioteca Pública de Évora pediu-me a indicação de dez livros de Física (em português) para todos. Correndo o risco de ser injusto para outros, eis os dez livros que me ocorreram imediatamente, por ordem alfabética do autor:

- Rómulo de Carvalho, "A Física do Dia-a-Dia", Relógio d' Água

Rómulo de Carvalho - o professor de Física e Química que é também o poeta António Gedeão e o patrono da cultura científica entre nós - deixou-nos este precioso guia para aprender ciência no quotidiano, que na edição original se chamava "Física para o Povo". O prefácio da reedição é de José Mariano Gago.

- Rómulo de Carvalho, "História dos Balões", Relógio d' Água

Este é apenas um exemplo dos extraordinários livrinhos da colecção "Ciência para Gente Nova" da Editora Atlântida. Quando eu e os da minha geração éramos mais novos, aquilo era "ciência nova" para a gente, isto é, contrastava com a ciência que nos aparecia nos manuais dos liceus. Talvez tenha sido por isso que alguns de nós enveredámos por carreiras científicas.

- Eve Curie, "Madame Curie", Livros do Brasil

Comovente biografia da cientista mais conhecida escrita pela sua própria filha, não a que foi Prémio Nobel como a mãe, mas a irmã mais nova. Num mundo onde há falta de mulheres cientistas (não é o caso em Portugal) é bom lembrar este extraordinário exemplo.

- Albert Einstein e Leopold Infeld, "A Evolução da Física", Livros do Brasil

Este é um verdadeiro clássico sobre a história da física escrito pelo "papa da física", um dos fundadores da física moderna, que inclui tanto a teoria da relatividade como a teoria quântica. Einstein quis com este livro ajudar Infeld, mas ajudou-nos a todos nós.

- Richard Feynman, "O que é uma Lei Física", Richard Feynman, Gradiva

Este livro, com tradução minha, mostra uma maneira muito original de ver a física da autoria de um dos físicos mais originais (e, já agora, mais divertidos), do nosso tempo. Feynman é também autir de engraçados livros contando histórias da sua vida.

- George Gamow, "As Aventuras do Senhor Tompkins", Gradiva

Outro livro de um físico divertido, contendo histórias fantásticas. Numa delas o Sr. Tompkins entra no interior dos átomos. Embora essa viagem seja feita em sonhos, os átomos podem hoje ser vistos. Um livro que nos faz sonhar....

- James Gleick, "Caos", Gradiva

Um dos melhores livros de ciência escrito por um não cientista: Gleick é jornalista do "New York Times". Mostra como a aventura da ciência, no caso a recente descoberta do caos, pode ser comunicada de modo atraente.

- Stephen Hawking, "Breve História do Tempo", Gradiva

Este é um dos maiores "best-sellers" da ciência, talvez mesmo o maior. Muita gente o comprou, mas pouca gente o leu. De facto, não é de fácil compreensão, mas o esforço para compreender pode ser compensador...

- Heinz Pagels, "Código Cósmico", Gradiva

Um dos melhores livros sobre a estranha teoria quântica, escrito por um físico (infelizmente falecido precocemente) que domina como poucos a arte da comunicação escrita.

- Ilya Prigogine e Isabelle Stengers, "A Nova Aliança", Gradiva

Prigogine é um dos contribuidores mais relevantes para o avanço do conhecimento dos fenómenos irreversíveis e ao mesmo tempo um dos filósofos da ciência mais originais. Em «A Nova Aliança» destaca o facto de a física estar a chegar a uma nova perspectiva do tempo, uma perspectiva que pode contribuir para a aproximação das «duas culturas» de que fala C. P. Snow.

GRANDES ERROS



A relação entre a Física Quântica e a Saúde Mental

Os números da Educação e do nosso descontentamento


Comentário alargado de Rui Baptista ao recente post com a posição de Medina Carreira sobre a educação nacional:

Neste blogue foi há pouco publicada, numa saudável provocação “para discussão”, uma notável entrevista de Medina Carreira (ex-ministro das Finanças do I Governo Constitucional), extraída do seu livro “O Dever da Verdade”, em que nos é dada conta do caminho seguido pela Educação desde que António Guterres, então primeiro ministro de Portugal, ter declarado a sua paixão por este importante sector com implicações de natureza cultural, económico e social de qualquer país desenvolvido ou em vias de desenvolvimento. Talvez que o exemplo das símias que de tanto amarem as suas crias as apertam de encontro ao peito até as asfixiar justifique o facto da Educação se não encontrar de boa saúde, necessitando para a sua sobrevivência de ingressar numa unidade de cuidados intensivos.

Diz Medina Carreira, entre outras coisas: 1. “No que respeita à Educação (…) o esforço financeiro de Portugal é, em termos relativos, dos mais elevados da União Europeia/15”; 2. “Os professores não prestam contas da sua competência técnica para ingressarem no ensino”; 3. “A paixão de Guterres pela Educação limitava-se a atingir 6% do PIB. Já estamos nos 5,9% com os resultados desastrosos conhecidos”.

Cotejemos, agora, estas declarações com as de Silva Lopes, antigo ministro das Finanças e do Plano (1978), em entrevista televisiva de 2004, quando acerca da Educação declara: “É um desastre completo. Nem daqui a 30 ou 40 anos nos livramos dos erros que andamos a fazer hoje”. Ao ser interpelado se tal se ficava a dever ao pouco investimento feito neste sector, não hesitou em responder com um não vigoroso, aduzindo, a título de mero exemplo, o facto de “sobretudo no fim da carreira termos alguns dos professores primários mais bem pagos da Europa”. E mais acrescentou: “Nunca ninguém me explicou por que é que não há concursos verdadeiros para professores, por que é que se utilizam as notas das universidades, venham elas de uma escola boa e exigente ou de uma universidade manhosa e perdulária nas notas”.

Acresce, também, que nos concursos para professores do 2.º ciclo do básico podem concorrer diplomados pelas escolas superiores de educação que nelas ingressam com notas mais baixas e saem com classificações mais elevadas do que os licenciados universitários da via ensino, dando azo a que um simples valor a mais de diploma lhes dê vantagem nesses concursos. Mas nada melhor do que dar a palavra a quem sentiu na pele o látego desta verdadeira injustiça: “Nós [universitários] suamos mais e trabalhamos mais do que os do Politécnico. ‘Setenta por cento marxista’, Cristina. originária de Bragança, estudante da Faculdade de Ciências e Tecnologia, subiu ontem à noite ao palanque da Assembleia Magna da Associação Académica de Coimbra (AAC), dissertou sobre as túnicas de Cristo e, às tantas, a propósito das alterações da Lei de Bases do Sistema Educativo [que passaria a dar acesso à docência do 3. ciclo aos diplomados pelas escolas superiores de educação até então da exclusividade dos licenciados universitários], conseguiu arrancar a primeira chuva de aplausos da sessão “ (“Público”, 1.Nov.1996).

Perante o costume bem nacional de que “santos ao pé da porta não fazem milagres”, busquemos testemunhos vindos do estrangeiro que podem explicar o não acompanhamento de custos/resultados: “Se em Portugal um professor em início de carreira ganha o mesmo, trabalhe no 1.ºciclo ou no secundário, na Hungria ou na Holanda os docentes do secundário têm salários superiores em 75%. A média da OCDE é de 41% de diferença entre os professores desses dois níveis” (“Público”, 18. Set. 2007).

Chegou mais recentemente a conhecimento público ter atravessado fronteiras nacionais o mau rendimento escolar português, através de um estudo realizado no Reino Unido, incidindo sobre 62.200 emigrantes portugueses citado num artigo, com o sugestivo título “Há por aí alguém que no possa educar por favor?”, da autoria de Miguel Castro Coelho, economista e “research fellow” no Institute for Policy Research, Londres. Nele o articulista refere que ficaram “os autores do estudo com ar perplexo pelo facto de Portugal nestas matérias [de ensino] se desviar sistematicamente do comportamento dos restantes países europeus e alinhar com os níveis de países tipo Bangladesh, Paquistão, Gana, Somália ou Uganda” (“Diário Económico”, 9.Out.2007).

Se para Marguerite Yourcenar, “toda a verdade gera um escândalo”, para nosso descontentamento o escândalo da Educação está bem patente e fundamentado em páginas do livro “O Dever da Verdade”! A sua leitura merece uma reflexão e uma discussão cuidadas por parte de quem se interessa por estes assuntos mesmo que não seja parte directamente interessada: a educação é um problema nacional que diz respeito a todos os cidadãos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Até à eternidade, Deborah Jane Kerr

O beijo que Deborah Kerr e Burt Lancaster deram numa praia deserta do Pacífico, com rochas alongadas e um mar aprazível por enquadramento, e que as câmaras de Fred Zinnemann captaram é, dizem alguns cinéfilos, o mais belo, o mais ousado, o mais erótico de todos aqueles que foram vistos na tela. Talvez seja. Pelo beijo em si; ou pela rebeldia que representa face a rígidas e muito particulares esquadrias morais; ou pela fantasia que invoca e que permite sobreviver quando o cheiro a guerra paira no ar; ou por todas estas razões, em conjunto; ou por outras que me escapam.

O que é facto é que o beijo gerou escândalo assinalável nos idos de cinquenta e deixou Deborah, a actriz de porte austero e elegante, estreitamente ligada ao belíssimo e inquietante filme “From Here to Eternity”, justamente incluído pela Academia Americana de Cinema na lista das cem fitas mais românticas.

Mas não foi só neste filme que a estudante escocesa de arte dramática e dança, que um dia rumou a Londres e depois a Hollywood, empenhou o seu enorme talento. Daqueles que vi, dos muitos em que ela desempenhou o papel principal, recordo com particular emoção: “Quando os Sinos Dobram”, de 1947, “As Minas do Rei Salomão", de 1950, "Quo Vadis", de 1951, "Bom-dia, Tristeza", de 1957 e “O Grande Amor da Minha Vida”, também de 1957.
Curiosamente, neste último, é pela ausência física da actriz que a cena mais emblemática do filme ganha toda aquela intensidade. A desesperada subida de Cary Grant ao Empire State Building e a sua ainda mais desesperada espera no último andar, fica retida na memória, não por Deborah lá estar, mas por lá não estar e desejarmos que estivesse.

"Tenho de confessar que vivi tempos maravilhosos", foi o que disse a "rosa inglesa", nome pelo qual Kerr era conhecida nos meios da sétima arte, quando, já depois de ter feito setenta anos, a “Academia” lhe atribuiu um Óscar Honorário. Devem, de facto, ter sido magníficos esses tempos e essa vida que por eles passou. Assim como magníficos são os papéis que essa vida proporcionou em tempos idos e para tempos que virão. Até à eternidade, Deborah Jane Kerr.

Imagens retiradas de:
1 - http://home.hiwaay.net/~oliver/dkformal.jpg
2 - http://images-eu.amazon.com/images/P/B00005N52K.02.LZZZZZZZ.jpg

domingo, 21 de outubro de 2007

James Watson: a queda de um ícone













A notícia tem corrido mundo: o famoso geneticista, co-descobridor da estrutura da molécula de DNA, James Watson, proferiu afirmações claramente racistas numa entrevista ao Sunday Times, domingo, 14 de Outubro (http://entertainment.timesonline.co.uk/tol/arts_and_entertainment
/books/article2630748.ece), em consequência das quais a sua conferência no Science Museum foi cancelada e a sua actividade de administrador no laboratório de Cold Spring Harbor suspensa. A onda de indignação está a ter uma dimensão inesperada e já há grupos de direitos cívicos britânicos a proporem o boicote aos seus livros. Watson, entretanto, anunciou em comunicado que pedia desculpas pelas afirmações: “A todos quantos inferiram das minhas palavras que África, como continente, é de alguma forma geneticamente inferior, peço desculpas sem reservas”. Muitos dos responsáveis científicos dos EUA e do Reino Unido vieram a terreno condenar as declarações de Watson.

Começo por afirmar que não concordo, de todo, com as afirmações de James Watson, quando se refere à inferioridade intelectual de umas cores de pele relativamente a outras, nem as mesmas têm fundamento científico. Mas, é igualmente importante que a forte rejeição de uma ideia errada não nos conduza por um caminho de dogmatismo que não ajuda nada a pensar sobre as coisas sem preconceitos.

James Watson está a ser condenado não por erros científicos, mas, pelo que podemos designar como a responsabilidade social de um cientista, nomeadamente, a de se coibir de fazer afirmações não fundamentadas, em nome da ciência, quando elas têm importantes implicações sociais. Aliás, quanto mais importantes essas implicações, maior o cuidado a ter.

Watson adora ser polémico e politicamente incorrecto. É a sua forma de se pretender apresentar como um pensador original e descomprometido. Muitas das suas afirmações polémicas até são contraditórias entre si. Mas, isso não o preocupa muito. Ele usa-as para atrair as atenções ou para provocar a reflexão ou a perplexidade nos outros. Isso pode ser muito irritante às vezes, senão ofensivo. Muitas mulheres cientistas se sentiram ofendidas com as suas afirmações machistas.

Convém não esquecer que as afirmações de Watson têm um contexto muito específico. Há cinquenta anos na América – e ainda hoje nalguns estados – as práticas discriminatórias, racistas, para os negros, eram correntes. Tal constitui uma página terrivelmente negra da história daquele país. E as feridas sobre esse assunto não sararam. Persistem em muitas pessoas formas muito discriminatórias de pensar, assentes na cor da pele.

Então, o que está errado na afirmação de Watson? O facto de ele assumir como válidos preconceitos sem base científica, que associam a cor da pele à inteligência dos povos e das pessoas, individualmente. E o facto de esses preconceitos surgirem pela boca de um geneticista famoso e, como tal, respeitado.

Não há associação conhecida entre genes que influenciam a inteligência e genes que influenciam a cor da pele. Há certamente, distribuições diferentes, com proporções diferentes em populações distintas. Mas, enquanto que os genes para a cor da pele parecem constituir um complexo que forma uma associação relativamente consistente – até porque foi seleccionado como adaptação regional da nossa espécie, como resposta aos níveis de incidência de radiação ultra-violeta – o mesmo não sucede com a inteligência. Mais, a cor da pele é influenciada por cerca de 14 genes. A inteligência é influenciada por um número bastante maior. Não é possível hoje concluir que quaisquer diferenças de capacidades cognitivas entre povos – o que também não foi medido – sejam devidas a diferenças genéticas.

Além disso, a divisão das pessoas por raças não corresponde a uma separação entre grupos claramente distintos.

Se considerarmos toda a variabilidade genética existente na nossa espécie, 85% dessa variação pode ser encontrada em qualquer cidade de média dimensão (150 000 habitantes). Dos restantes 15%, metade corresponde à divisão geográfica de grandes regiões: Europa, Ásia, América do Sul, etc. E apenas os restantes 7.5% correspondem a diferenças entre grupos étnicos caracterizados por determinados traços morfológicos, geralmente designados por raças. Ora se uma divisão por raças apenas dá conta de 7.5% da variação genética entre populações humanas, é uma divisão sem interesse biológico. O que estes dados mostram é que há uma enorme variabilidade em todas as populações humanas e que a nossa espécie é extremamente homogénea – o que se deve a uma origem recente a partir de uma população inicialmente muito pequena.

Mas, o facto de não haver diferenças em capacidades cognitivas entre povos que possam ser atribuídas a diferenças genéticas, não resulta de um decreto nem decorre de acharmos que é mais justo assim. Foi este o resultado do processo evolutivo.

As coisas poderiam ter-se passado de modo distinto, por exemplo, se o ‘out of Africa’ não se tivesse dado há menos de 100 mil anos. Se tivesse ocorrido há muito mais tempo, digamos 1.8 milhões de anos, como propôs a hipótese multi-regional de origem humana, certamente que teríamos diferenças acentuadas de património genético entre as populações humanas actuais.

Voltando a Watson, não seria bom que a rejeição de uma ideia errada nos atirasse para outras formas de preconceito e dogmatismo.

Não pertenço a um grupo socialmente discriminado no meu ambiente social e não posso avaliar, com certeza, o que é sentir diariamente o peso dessa discriminação. Mas, não gostaria que a rejeição de certas formas de discriminação levasse a que se instalassem outras formas de preconceito.

Racismo e o efeito corrosivo da filosofia

Ao ler o postal da Palmira sobre Watson ocorreu-me que a filosofia é uma coisa mesmo irritante. Ao contrário do que muitas pessoas parecem pensar, a filosofia não é uma espécie de cobertura de chocolate para enfeitar o bolo que já queremos comer. Ou seja, a filosofia não dá cobertura às nossas ideias preferidas, e que preferimos não avaliar cuidadosamente. Pelo contrário, a filosofia avalia criticamente as nossas ideias — todas — e pondo em causa os lugares-comuns em que todos acreditamos sem pensar muito nisso, fruto do tempo em que por acaso vivemos.

Como qualquer outra pessoa, fico alarmado, como a Palmira, com o possível racismo de Watson. Mas logo a filosofia faz das suas e me ponho a fazer perguntas chatas, e que valeram a Sócrates uma viagem forçada para a outra vida, em que ele firmemente acreditava, mas eu não. Eis algumas das perguntas chatas que a filosofia me fez formular: qual é exactamente o problema de ser racista? E o que é exactamente ser racista?

Comecemos pela primeira. Se ser racista é apenas ter a crença de que certos grupos de seres humanos são, estatisticamente, mais ou menos qualquer coisa, parece absurdo ficar escandalizado com o racismo. Afinal de contas, seria um pouco como ficarmos escandalizados por alguém acreditar que a Terra é redonda. Se não gostamos da ideia de que a Terra é redonda, temos de ficar é escandalizados por ela ser redonda e não por alguém acreditar, seguindo todas as informações disponíveis, que é redonda. Por isso, qual é o problema de pensar que, por exemplo, os seres humanos de origem caucasiana são menos inteligentes do que os asiáticos, como aparentemente a psicologia cognitiva nos ensina? Pode ser irritante que isso seja verdade, mas com certeza não é escandaloso acreditar nisso, se for verdade.

Podemos argumentar que o problema é tal coisa não ser verdadeira. Mas isto é idiota. Também não é verdade que a Terra é quadrada, mas aposto que ninguém ficaria escandalizado por descobrir que alguém acredita que a Terra é quadrada. Nem mesmo um cientista. Afinal, um cientista não tem direito a ter crenças falsas? Mais importante é investigar que razões tem tal cientista para ter tal crença — em que informações se baseia? Em que estudos? Mas despedir alguém por causa de ter uma crença falsa só porque é uma crença politicamente incorrecta parece-me o cúmulo do pesadelo orwelliano.

Em conclusão, o racismo, para ser escandaloso, não pode ser uma crença factual sobre as capacidades dos seres humanos. Será então uma crença moral? Uma crença sobre o que devemos fazer aos seres humanos que são menos ou mais inteligentes? Será isso o racismo?
Historicamente, é isso que caracteriza o racismo: trata-se de um grupo de crenças morais, ancoradas em falsidades empíricas sobre as pessoas. Mas o que faz de tais crenças inaceitáveis é o facto de retirarem de falsidades factuais monstruosidades morais, e não o facto de se basearem em falsidades factuais. Imaginemos, por exemplo, que era mesmo verdade que determinado grupo de seres humanos tinha deficiências cardíacas genéticas. Uma pessoa com mais de três neurónios conclui daqui que as pessoas desse grupo têm direito a cuidados de saúde acrescidos. Uma besta racista declara que, por causa disso, mais vale matá-los todos que não fazem cá falta.

Regressando ao tópico incómodo da inteligência, é obviamente verdade que alguns grupos de seres humanos são mais inteligentes do que outros. Tal como é obviamente verdade que alguns grupos de seres humanos são mais altos que outros. E poderá ser ou não verdade que estas diferenças médias de inteligência estão correlacionadas com as origens genéticas das pessoas. Quer esta correlação exista quer não, não poderá ser proibido pensar que existe. E não se deve pensar que daí se segue imediatamente qualquer posição moral racista — que as pessoas de tais grupos não devem poder ir para a universidade, por exemplo. Isto não se segue, em primeiro lugar, por uma questão puramente estatística.

Mesmo que seja verdade que em média os asiáticos são mais inteligentes do que os europeus, daí não se segue que qualquer asiático é mais inteligente do que qualquer europeu. Por exemplo, em média os homens são mais rápidos na corrida do que as mulheres. Mas daqui não se segue que qualquer homem é mais rápido do que qualquer mulher a correr. Na verdade, as mulheres mais rápidas a correr, como as que participam nos Jogos Olímpicos, são muito mais rápidas do que a maior parte dos homens que estão em casa sentados no sofá a ver futebol enquanto enchem a pança de cerveja e caracóis e adormecem os neurónios. Acontece apenas que elas são mais lentas do que os homens mais rápidos.

Em segundo lugar, não se segue por outra razão. Imagine-se que era mesmo verdade que a menos inteligente das mulheres era mais inteligente do que o mais inteligente dos homens. O que se segue daí moralmente? O salto lógico idiota que as pessoas costumam fazer é que então as mulheres devem poder oprimir os homens como lhes apetecer. E como pensam que esta idiotice se segue facilmente, procuram proibir alguém de pensar que a menos inteligente das mulheres é mais inteligente do que o mais inteligente dos homens. Mas isto é apenas isso mesmo: um salto lógico idiota; a conclusão não se segue de modo algum da premissa. Do facto de as mulheres serem mais inteligentes em absoluto do que os homens não se segue que devem poder oprimi-los. Na verdade, segue-se que devemos criar protecções legais para evitar que os homens sejam oprimidos pelas mulheres. Afinal, é precisamente isso que fazemos com as crianças: porque são menos autónomas, têm menos força, menos experiência, menos conhecimento e são menos inteligentes do que os adultos, há toda uma malha de protecção legal das crianças. Admitir isto é uma forma de discriminação infantil? Claro que não.

Em conclusão, Watson pode estar a ser vítima do “politicamente correcto”. Hoje é proibido pensar que as pessoas podem ser diferentes umas das outras em capacidades cognitivas, sendo tais diferenças correlativas às suas origens genéticas. Tal como é proibido dizer que o aquecimento global não é provocado pelos seres humanos. A proibição em si é grave, pois mostra até que ponto estamos em pleno pesadelo orwelliano. Mas o que me impressiona mais é o lodaçal conceptual que rodeia esta conversa toda. São confusões atrás de confusões. Ora, o obscurantismo começa sempre, historicamente, com a tentativa desesperada de ocultar verdades incómodas, e quase sempre com base em confusões infantis deste género. Afinal de contas, talvez o pensamento claro e disciplinado da filosofia sirva mesmo para alguma coisa?

Religiões envergonhadas: direito à vida e desígnio inteligente

Um postal convidado do filósofo e historiador da filosofia João Paulo Monteiro (Instituto de Filosofia da Linguagem da Universidade Nova de Lisboa), autor de Realidade e Cognição e Novos Estudos Humianos, ambos na INCM, e director da publicação portuguesa das obras de David Hume na INCM e na Gulbenkian.

Alguns anos antes da actual voga do “desígnio inteligente”, tese apresentada como científica pelos seus defensores, surgiu outra tese, esta apresentada como filosófica, sustentando o direito dos embriões à vida — lembram-se de Nixon e dos rights of the unborn? Ambas estas doutrinas recusam ver-se atribuído qualquer carácter religioso, ou pelo menos afirmam não depender de qualquer religião, pretendendo a segunda que a análise filosófica da vida humana prova que o direito a essa vida existe desde a concepção, e não apenas desde o nascimento ou algum outro momento intermédio, e pretendendo a primeira que a própria descoberta científica, por exemplo no caso da biologia, nos apresenta aspectos tão maravilhosos e extraordinários que é impossível explicá-los apenas por intermédio da teoria da selecção natural, sendo necessário recorrer ao conceito de uma Inteligência superior.

O que a meu ver une estas duas doutrinas é que em ambos os casos se trata de religiões envergonhadas — ou seja, de teorias cuja real motivação é a vontade, consciente ou inconsciente (ou um pouco de cada) de fazer prevalecer princípios e mandamentos que historicamente nasceram de posições religiosas, e de o fazer com uma abrangência capaz de justificar a obrigatoriedade desses princípios e mandamentos também para as pessoas de posição agnóstica e para as que abraçaram o ateísmo. São religiões que não ousam dizer o seu nome, e escondem a sua real natureza por detrás de alegações falsamente filosóficas ou pseudocientíficas. Daí que em vários países, inclusive Portugal, os referendos relativos ao direito de abortar tenham sido muitas vezes discutidos a partir de um “direito à vida” que filósofos como Dworkin mostraram ser destituído de fundamento, e que num país como os Estados Unidos da América, onde o avanço da ciência, incluindo a ciência darwiniana, é pelo menos o mais notório do planeta, muitas escolas pretendam obrigar os professores de teoria da evolução a expor a doutrina do desígnio inteligente no mesmo plano que a teoria da evolução por selecção natural, tentando assim violar a consciência profissional desses professores.

No caso dos direitos dos embriões, ou da sacralidade das células estaminais, a falácia é gritante: os direitos humanos foram concebidos, e só podem ter sentido, como direitos de pessoas. Tudo o mais é mero abuso de confiança filosófica, e como embriões e células não são pessoas — ao menos fomos poupados até agora de ouvir falar dos direitos das células — falar do direito à vida humana em qualquer sentido que não seja o de direitos de pessoas é simplesmente lançar a confusão num terreno já de si suficientemente importante e difícil para merecer ser tratado, pelo menos, com um mínimo de cuidado.

Por outro lado, o desígnio inteligente tem outra dignidade histórica: a ideia está no Timeu de Platão, na Suma Teológica de S. Tomás, e em diversos filósofos e cientistas ilustres, como Leibniz e Newton no século XVII, apesar da oposição dos não menos ilustres Descartes e Hobbes à ideia de causas finais. No século XVII tivemos a brilhante destruição desta ideia nos Diálogos Sobre a Religião Natural, que podemos ler na edição Gulbenkian das Obras sobre Religião de David Hume, mas no século XIX o influente William Paley ainda conseguiu voltar ao argumento do desígnio, até que finalmente Darwin encontrou nas ciências da vida o terreno possível de um argumento solidamente científico, capaz de tornar dispensável qualquer ideia de um demiurgo por cuja inteligência seriam explicados os evidentes exemplos de extraordinária adaptação dos seres vivos aos ambientes em que conseguiram sobreviver, graças à selecção natural, através da longa evolução das espécies.

Os direitos de seres que não são, ou ainda não são pessoas, ou a existência de um desígnio inteligente a explicar a ordem e adaptação de uma parte da natureza, são noções que já foram desacreditadas entre as pessoas medianamente cultas, capazes de compreender que elas são produto de religiões envergonhadas, mas receio que ainda esteja longe o dia (ou o século) em que os seus defensores finalmente tenham o bom gosto de silenciarem, como já há muito, felizmente, aconteceu com quem ainda possa acreditar que a Terra está no centro do seu sistema planetário.

João Paulo Monteiro
Instituto de Filosofia da Linguagem
Universidade Nova de Lisboa

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...