A linhas tantas, diz André Carmo, professor da Universidade de Évora, num artigo publicado na revista Visão de 8 de Outubro (páginas 86-87), com o título E é aqui que isto se torna um texto. Apelo de um leitor comum em tempo de IA:
"Gosto de seres humanos que puxam pela cabeça, que escrevem e reescrevem. Que fazem textos imperfeitos e com arestas aguçadas. Que falham. Que lidam com o problema da página em branco, das encruzilhadas que só um texto humanamente criado lhes coloca pela frente. Isso, diria eu, e admito estar errado, faz um autor (...)
De um lado, esforço, autenticidade, sacrifício e treino; do outro, tecno-chico-espertice. É difícil compreender onde está a necessidade, sobretudo se estes textos são produzidos por gente crescida e com provas dadas. Gente que até pode já nem ter necessidade de sucumbir ao 'publicar ou perecer' que se impõe tanto na academia como na opinião publicada.
Admiro aqueles que têm de superar os anos-luz que distam entre o aparecimento de uma ideia e o gesto que a transporta até à sua forma escrita definitiva. Que, em boa verdade, nunca o é. Que se deparam com a fricção e a sinuosidade, a incerteza e a dúvida. Sem atalhos nem facilitismos.
Antecipo a crítica: poderei ser um lírico inveterado que vai ser devorado pela vertigem do progresso. Aceito. Mas estou cansado dos tecnocratas impolutos que navegam as águas plácidas da hegemonia tecnológica e só se deixam ver quando o vento sopra de feição (...). Sem rasgo nem audácia. Gente que sabe estar sempre na crista da onda. Para quem a preguiça metacognitiva e a atrofia intelectual são problemas menores num mundo em que o cérebro com que se nasce parece começar a ser lastro indesejável. Afinal, está tudo na IA (...).
A todos os autores de carne e osso que não cedem ao facilitismo, o meu eterno reconhecimento e gratidão. Aos mestres da dissimulação powered by AI, reitero o apelo: porque não revelam o chatbot que têm na manga?
De um lado, esforço, autenticidade, sacrifício e treino; do outro, tecno-chico-espertice. É difícil compreender onde está a necessidade, sobretudo se estes textos são produzidos por gente crescida e com provas dadas. Gente que até pode já nem ter necessidade de sucumbir ao 'publicar ou perecer' que se impõe tanto na academia como na opinião publicada.
Admiro aqueles que têm de superar os anos-luz que distam entre o aparecimento de uma ideia e o gesto que a transporta até à sua forma escrita definitiva. Que, em boa verdade, nunca o é. Que se deparam com a fricção e a sinuosidade, a incerteza e a dúvida. Sem atalhos nem facilitismos.
Antecipo a crítica: poderei ser um lírico inveterado que vai ser devorado pela vertigem do progresso. Aceito. Mas estou cansado dos tecnocratas impolutos que navegam as águas plácidas da hegemonia tecnológica e só se deixam ver quando o vento sopra de feição (...). Sem rasgo nem audácia. Gente que sabe estar sempre na crista da onda. Para quem a preguiça metacognitiva e a atrofia intelectual são problemas menores num mundo em que o cérebro com que se nasce parece começar a ser lastro indesejável. Afinal, está tudo na IA (...).
A todos os autores de carne e osso que não cedem ao facilitismo, o meu eterno reconhecimento e gratidão. Aos mestres da dissimulação powered by AI, reitero o apelo: porque não revelam o chatbot que têm na manga?
E lembrei-me do quadro A paixão da criação de Leonid Pasternak, pintor e professor de pintura, próximo de escritores: pai de Boris Pasternak e amigo de Leo Tolstoi.
Percebo a paixão de escrever assim descrita e assim pintada; não consigo de maneira nenhuma perceber como pode alguém dispensá-la, fazendo crer que escreve ou, despudoradamente, explicando como treina a máquina para escrever por si.
Sem comentários:
Enviar um comentário