quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Ciência, Liberdade e Democracia

 


Meu contributo para a revista Ipsis Verbis, nº7, Abril, 2025, em Oliveira do Hospital, sobre o tema da Liberdade:

Os conceitos de liberdade e democracia estão intimamente associados: as liberdades, tanto individuais como colectivas, são necessárias para que haja «governo do povo».  Que a ciência se dá bem com a liberdade e a democracia e mal com a falta delas é a tese do livro do ensaísta norte-americano Timothy Ferris no seu livro Science of Liberty: Democracy, Reason, and the Laws of Nature, publicado originalmente pela editora Harper em 2019 e que saiu em tradução portuguesa em 2013 com o título Ciência e Liberdade. Democracia, Razão e Leis da Natureza, publicado originalmente em 2010 com o n.º 200 na colecção «Ciência Aberta» da Gradiva, uma editora fundada em 1981, quando a liberdade e a democracia já eram realidades entre nós. A obra foi escolhida por Guilherme Valente, fundador e da editora, para não só assinalar a publicação das duas centenas de volumes, mas também para encerrar com chave de ouro o seu ciclo de director dessa colecção, passando o testemunho ao autor destas linhas, por reflectir a sua ideia de ciência como trave-mestra da cultura e ingrediente indispensável ao desenvolvimento. Ferris afirma que «revolução democrática» no mundo [iniciada pela Revolução Gloriosa em Inglaterra, que instalou a monarquia constitucional em 1688, continuada pela Revolução Americana de 1776, que deu início a um novo país,  e pela Revolução Francesa de 1789, que consagrou os valores da «liberdade, igualdade e fraternidade»] foi desencadeada - provocada talvez não seja uma palavra demasiado forte – pela Revolução Científica [período de criação da ciência moderna nos séculos XVI e XVII]  e que a ciência continua, ainda hoje, a alimentar a liberdade política». E, mais à frente, diz que «liberdade significa respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades individuais. Na prática, os governos que conseguiram isso eram quase todos democracias liberais, de modo que a ascensão da liberdade pode ser aproximadamente equiparada a ascensão da democracia liberal. Este processo começou lentamente, mas acelerou muito nos últimos cem anos.» Segundo ele, explicitando esta afirmação, as primeiras democracias surgiram nos “Estados em que a ciência e a tecnologia estavam mais avançadas – Inglaterra, Estados Unidos e Países Baixos e (mais irregularmente) França, Itália e Alemanha. O autor alicerça a sua tese de que a ciência apenas floresce ou pelo menos floresce melhor em ambientes democrático-liberais em cinco argumentos principais: 

1) A ciência é “inerentemente antiautoritária tal como a democracia. Ao contrário do que por vezes se julga, em ciência não existem autoridades, mas sim especialistas, pois apenas à realidade se reconhece autoridade para escolher entre hipóteses rivais. As coisas não são como são por alguém o diz, mas sim porque existe uma realidade que o método científico, baseado na observação, experimentação e raciocínio lógico, permite desvendar.  Por exemplo, Galileu substituiu as ideias de Aristóteles sobre a queda dos corpos, simplesmente porque as novas ideias estavam mais de acordo com a experiência (isso não implica que Aristóteles estivesse completamente errado, mas apenas que a sua teoria contemplava apenas um certo aspecto da realidade, ao passo que a teoria galilaica era bastante mais abrangente. 

2) A ciência e a democracia autocorrigem-se. Segundo o filósofo de origem austríaca, mas fixado na Inglaterra Karl Popper, um dos maiores epistemólogos do século XX, também a democracia contém em si a possibilidade de emendar erros, embora os erros na política sejam obviamente diferentes dos erros na ciência. Ferris chama a atenção para o facto de as democracias liberais não se autocorrigirem suficientemente. Os erros em ciência são mais facilmente reconhecíveis do que outro tipo de erros. O método científico foi concebido propositadamente para evitar ao máximo os erros.  Se uma hipótese não estiver de acordo coma realidade, ela, não demorará, em geral, a ser descartada.   

3) A ciência, para se desenvolver, tem «de se valer de todos recursos intelectuais à sua disposição», o que significa que beneficia do facto de que, em democracia, todos, pelo menos em princípio, têm acesso aos benefícios da educação, dada o ideal de igualdade. A capacidade intelectual está muito bem distribuída na espécie humana: seria um desperdício se não pudesse ser aproveitada a de alguém que seja discriminado na sociedade. Ciência e democracia são, também por isso, naturais aliadas. Abundam os exemplos de pessoas das camadas mais baixas da sociedade que deram contributos extraordinários à ciência, uma vez que lhes foi proporcionada uma educação básica:  um deles foi o inglês Michael Faraday, que no século XIX inventou o dínamo, que está na base da actual distribuição da electricidade. 

4) A ciência é poderosa e a democracia permite que esse poder seja partilhado pelo maior número possível de cidadãos. Já o inglês Francis Bacon, contemporâneo de Galileu e um dos primeiros filósofos da ciência, dizia que “knowledge is power”. Bacon, no seu livro A Nova Atlântida, teve a visão de uma sociedade baseada no conhecimento, que é a actual. De facto, é o conhecimento que na época contemporânea tem feito avançar as economias dos países, permitindo um melhor nível de vida aos cidadãos. Ferris nota que «historicamente, oi crescimento económico avançou rapidamente nos países onde a ciência floresceu. Enquanto nos países menos ciente+iuficos se tecnológicos os relógios locais avançaram mais lentamente.»

 5) Por último, a ciência é uma actividade social, isto é, não depende de um só indivíduo ou de poucos indivíduos, exigindo o diálogo constante entre os membros da comunidade científica para que as conclusões da ciência sejam validadas. Uma pessoa pode enganar-se. Mas o engano de muitas pessoas é muito menos provável. Esse diálogo apenas é possível quando não são erguidas barreiras que impeçam a comunicação entre os indivíduos. Assim, a limitação das liberdades representa uma ameaça ao progresso da ciência. Também a democracia é um regime baseado na comunicação entre os indivíduos, sendo tanto melhor quanto melhor for essa comunicação. Por outro lado, também não podem ser erguidas barreiras entre ciência e sociedade, entre os criadores de ciência e os seus beneficiários, sendo desejável que todos possam desfrutar de uma forma o mais equitativa possível dos benefícios do processo científico. A ciência não é dos cientistas, mas sim de todos.

    Uma análise da história permite confirmar esse paralelismo entre ciência e democracia. Na Revolução Gloriosa, os revoltosos Whig eram defensores das ciências e da inovação, ou pelo menos eram mais do que os seus opositores, com visões tradicionalistas. Os pais da Revolução Americana como Thomas Paine, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson eram fervorosos adeptos a ciência, sendo nalguns casos mesmo cientistas amadores. São bem conhecidas as experiências feitas em tempo de trovoada com um papagaio por Franklin, que resultaram no para-raios.  Menos conhecido é o facto de Thomas Jefferson, que haveria de ser o terceiro presidente norte-americano, no dia da independência do seu país, a 4 de julho de 1776, não se ter esquecido de fazer as suas regulares observações meteorológicas, que para ele eram essenciais para uma boa agricultura nas propriedades que detinha. Disse um dia: «A ciência é a minha paixão, mas a política o meu dever». Em contraste, a Revolução Francesa não se revelou, de início, tão amiga da ciência, designadamente por uma das vítimas da guilhotina ter sido um dos grandes cientistas do seculo XVIII, o francês Antoine-Laurent Lavoisier, a quem se deve a química moderna. Note-.se, contudo, que ele não foi executado, após julgamento sumário, por ser cientista, mas sim por ser adepto do Ancien Régime, onde teve lugares de relevância, como o de pertencer à administração da Ferme Générale, a instituição que cobrava os impostos. Mas a Revolução Francesa foi inequivocamente resultado das ideias de filósofos iluministas que eram adeptas da ciência como Voltaire e Diderot, o primeiro receptor das ideias de Newton em França e o segundo coautor da famosa Enciclopédia.

No Século das Luzes assistiu-se ao triunfo da razão, que tinha ascendido coma Revolução Científica nos dois séculos anteriores. Não faltou quem pensasse que a fonte de onde brotava a ciência deveria também inspirar a organização da sociedade humana. Essa talvez seja uma ideia algo ingénua, mas o certo é que filósofos políticos ingleses como Thomas Hobbes e John Locke, beberam muitas das suas ideias dos escritos científicos. John Locke não só leu os escritos de Newton como foi amigo dele. Pode até dizer-se que a organização do Estado que ele idealizou foi buscar algumas ideias aos princípios newtonianas de organização do mundo físico.

A ciência, por se basear no diálogo de uma comunidade precisa de liberdade como de pão para a boca. Sem a possibilidade de livre expressão do pensamento e de livre circulação de ideias, que, por sua vez, exige livre circulação de pessoas e bens, a ciência não pode florescer. Este condicionalismo começou logo a tornar-se evidente na época da Revolução Científica, quando, em 1633, o italiano Galileu Galilei foi réu no Tribunal do Santo Ofício por afirmar, contra a autoridade da palavra bíblica, que é a Terra a mover-se e não o Sol. Verdadeira ou não (provavelmente não é), a expressão «e por si move!» que ele terá dito depois de ouvir a sentença significa simplesmente que as concepções científicas não podem ser reprimidas. De uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, acabam por se impor.

A democracia verificou, à medida que se espalhava e consolidava, que a ciência lhe servia e, do mesmo modo, a ciência verificou que a democracia lhe servia: as duas tornaram-se inseparáveis. A democracia procura assegurar o desenvolvimento aos cidadãos, mas só o pode fazer com base na ciência. Por sua vez, a ciência necessita de prosperidade, embora só gaste uma parcela muito pequena da riqueza que a sociedade cria.

            Ferris é taxativo: “de um modo geral, a ciência prosperou em sociedades livres e deu-se mal com governos despóticos.” Os exemplos da chamada «ciência alemã» nos tempos de Hitler (que, na medicina, conduziu a horríveis experiências com seres humanos em campos de concentração) e da «ciência soviética» na era de Estaline (que contrariava a biologia darwinista, tida como capitalista, por falar de competição por recursos ambientais) devem chegar para validar a tese da aversão entre a ciência e os regimes totalitários. Ainda hoje, observamos o maior progresso científico e tecnológico, com consequências extraordinárias no desenvolvimento económico e social, nos países onde a liberdade e a democracia estão mais enraizadas, enquanto vemos o menor progresso nos países onde existe défice democrático. Claro que esta tendência geral nem sempre é clara. Que dizer, por exemplo, do extraordinário progresso recente da ciência num país como a China onde existem manifesta restrições à liberdade? A China já é o país com mais publicações no globo, sendo também já o primeiro em publicações mais citadas (embora haja alguma desigualdade no desenvolvimento de áreas científicas). Trata-se de um case study a seguir. 

Como estamos, em Portugal, quanto à relação entre ciência, democracia e liberdade? 

De facto, a ciência, pese embora alguns exemplos limitados no espaço e no tempo, só ganhou quantidade e qualidade no nosso país após a Revolução de 25 de Abril de 1974, quando as liberdades foram afirmadas e se começaram a preparar as bases do sistema democrático que hoje vigora. O regime de António de Oliveira Salazar e de Marcello Caetano não era muito «amigo» da ciência, como mostra o reduzido investimento, o desprezo pela ciência fundamental e até a perseguição alguns cientistas, que não partilhavam as ideias do governo. Salazar disse um dia que preferia que Portugal fosse um país agrícola do que industrial, a «horta e o pomar da Europa», embora reconhecesse que a indústria trazia maior desenvolvimento do que a agricultura. Em consonância, só em 1963, muito depois de outros países europeus, o produto industrial ultrapassou o agrícola em Portugal. E o seu ministro Franco Nogueira defendeu que a ciência era para os países ricos, o que faz lembrar a frase do filósofo espanhol Miguel de Unamuno: «Que inventen ellos!». De 1974 para cá, graças em especial à integração de Portugal na União Europeia em 1986 (na altura chamava-se Comunidade Económica Europeia), a ciência cresceu entre nós de um modo sem precedentes, não só reforçando a investigação em disciplinas mais tradicionais, como as ciências exatas e naturais, mas também inaugurando a prática de disciplinas menos implantadas ou mesmo inexistentes, como algumas ciências sociais e humanas (a sociologia, por exemplo). Existem hoje cerca de 60 000 investigadores, mais do que o número de cientistas que jamais houve. Obtém-se um número parecido com o da média europeia, se o dividirmos pela população. Contudo, o investimento em ciência e tecnologia ainda fica aquém da média europeia: 1,7 por cento do PIB em contraste com os 2,3 por cento na Europa, que deseja chegar aos 3 por cento em 2030.

 Há ainda mais relações entre ciência e democracia. Modernamente, as ciências sociais e humanas, que muitas vezes se alimentam dos métodos das ciências exactas e naturais, são consideradas um meio auxiliar precioso para o funcionamento da democracia. Elas permitem, por exemplo, procurar respostas a questões sobre a organização da sociedade, em domínios como a economia, a justiça, a educação, etc.  A democracia é uma procura constante. E o mesmo acontece com a ciência. As duas anseiam por mais e melhor.~

Carlos Fiolhais

Professor emérito de Física da Universidade de Coimbra

 

A Ciência em Portugal no Tempo do Marquês de Pombal



Meu artigo no livro recente Pombal Reformador (Aida Lemos et al., coords., Imprensa da Univ. Coimbra):

O Marquês de Pombal e o Terramoto [1]

[1] O autor não segue o Novo Acordo Ortográfico, tendo aceitado contrariado a norma editorial. 

 Sebastião José de Carvalho e Melo (13 de maio de 1969 - 8 de maio de 1782), conde de Oeiras a partir de 1759 e marquês de Pombal a partir de 1770, foi, como é sabido, uma figura maior do Iluminismo português (Maxwell, 2001; Sena Lino, 2020). Logo no início do reinado de D. José, em 1750, foi nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros e, com o grande terramoto de Lisboa de 1755, tornou-se o todo-poderoso secretário de Estado dos Negócios Interiores do Reino, posição que corresponde às atuais funções de primeiro-ministro. Governou como se fosse o rei absoluto, escudando-se sempre por detrás do nome do monarca. Só seria apeado do poder com a chamada “Viradeira”, que se deu com a morte de D. José em 1777. Os seus últimos tempos foram de desterro na sua propriedade nas cercanias de Pombal, tendo o seu débil estado de saúde ajudado a livrar-se de acusações de exorbitação de poder que a justiça lhe fez. 

 O Marquês de Pombal, como ficou conhecido, foi um dos “estrangeirados” do nosso Iluminismo, uma vez que, quando foi embaixador em Londres (1738- 1745) e em Viena (1745-1749), por designação de D. João V, pai de D. José, recebeu influências sociais, políticas e culturais de duas sociedades fortemente marcadas pelo espírito das Luzes. Em Londres, o Marquês foi aceite em 15 de Maio de 1740 como sócio da Royal Society, sociedade que encarnava esse espírito (nessa época o título era dado como uma honra a pessoas notáveis, como nobres e diplomatas, ainda que não fossem cientistas) (Fiolhais, 2011). De facto, dessa sociedade, a mais antiga do seu tipo no mundo em funcionamento ininterrupto  (foi fundada por um grupo de livres-pensadores em 1660) brotava a ciência moderna, que tinha surgido nos séculos XVI e XVII com a Revolução Científica. O seu lema era Nulius in Verba (“Não acredites nas palavras”), querendo significar que as palavras nada valiam se não correspondessem a factos, isto é, a “sentenças” da Natureza, apuradas pela observação, pela experimentação e pela racionalização, e confirmadas pela comunidade científica no exercício livre da crítica. Da observação e da experiência deveria derivar todo o conhecimento seguro, e não da reprodução dos escritos de autoridades, por muito prestígio que estas tivessem. O Iluminismo significou o triunfo do saber fundado na razão, alicerçada na observação e na experimentação. E o saber traduzia-se em poder, tal como o filósofo inglês Francis Bacon profetizara no início do século XVII.

 O terramoto de 1755 foi o acontecimento que marcou a ascensão de Sebastião José de Carvalho e Melo ao poder absoluto, quando o rei delegou nele todas as suas atribuições, refugiando-se na Real Barraca na Ajuda, enquanto o seu secretário de Estado socorria as pessoas, limpava os destroços e restaurava a cidade (Priore, 2020). O sismo abalou não apenas a capital do reino, mas também a sociedade europeia, a ponto de as maiores mentes da época terem tratado o tema de uma forma ou de outra: o francês Voltaire, no seu conto Candide (Voltaire, 2012) e no seu Poéme sur le désastre de Lisbonne (Voltaire, 2013); o suíço Jean-Jacques Rousseau, com a sua Lettre à Voltaire sur la Providence (Rousseau, 1969; e o alemão Immanuel Kant, com Escritos sobre o Terramoto de Lisboa (Kant, 2019). Pela primeira vez na Europa uma grande cidade era destruída numa escala até então inimaginável. Com uma magnitude de pelo menos 8,4 na escala de Richter, foi o mais devastador terramoto sofrido no Velho Continente até então, situando-se o número de vítimas entre as 12 e as 50 mil pessoas. [2] O impacto foi enorme na teologia e na filosofia - levantaram-se questões como: Qual era a origem do mal? Teria Deus querido castigar os homens? (Neiman, 2005) -, mas também nas ciências da Terra, nessa altura ainda bastante incipientes. A sismologia começou com o Marquês de Pombal, quando ele lançou um inquérito de larga escala em que perguntava aos padres os estragos que tinham ocorrido nas respetivas paróquias. São esses dados que nos permitem hoje aquilatar a intensidade do abalo, já que, na altura, ainda não havia sismógrafos. Entre as várias obras sobre o terramoto que então surgiram, merece destaque, até por ser a primeira, a de Joaquim José Mendonça (Mendonça, 1758), que apresentou uma descrição sistemática do desastre, História Universal dos Terremotos que tem havido no mundo [...] Com uma narração individual do terramoto do primeiro de novembro de 1755.

 [2 ]Só não sendo o mais devastador na Europa até hoje porque a terra tremeu em Messina, na Sicília, em 1908, com a magnitude, um pouco inferior, de 7,1 na escala de Richter, mas causando mais de cem mil mortos.

A ciência do Iluminismo e os estrangeirados 

 O século XVIII fez-se, na ciência, sob a égide do físico inglês Isaac Newton (1643-1727), autor dos famosos Princípios Filosóficos de Filosofia Natural (1687), que contém as três leis da mecânica newtoniana e a lei da gravitação universal. Newton foi presidente da Royal Society desde 1703 até à sua morte: a sua fama deve muito à desta sociedade e vice-versa. A Royal Society, uma das primeiras corporações da comunidade científica, não só reuniu sócios à escala global, como começou a publicar, em 1665, uma das revistas científicas globais mais antigas que ainda hoje vêm lume, a Philosophical Transactions of the Royal Society. 

 Há uma marca portuguesa na criação dessa sociedade, em 1660, uma vez que a esposa de Carlos II, que lhe outorgou carta real em 1662, foi Catarina de Bragança, filha de D. João IV. Mas o primeiro sócio português da Royal Society foi o matemático, cosmógrafo e geógrafo Gaspar de Meres de Sousa (Maia do Amaral, 2018), admitido em 18 de novembro de 1669, muito antes do médico judeu Isaac de Sequeira Samuda, normalmente considerado o primeiro cientista luso daquela academia, que apenas foi admitido em 27 de junho de 1723, portanto ainda em vida de Newton, que ele conheceu. Por ela passaram uma plêiade de 26 cientistas portugueses que inclui, por ordem cronológica de admissão na sociedade, para além dos dois nomes referidos, o jesuíta italiano João Baptista Carbone (astrónomo), que se estabeleceu em Portugal no tempo de D. João V, dirigindo o Observatório Astronómico do Paço Real e o Observatório do Colégio de Santo Antão; e os portugueses Jacob de Castro Sarmento (médico), Bento de Moura Portugal (engenheiro, com formação de base em leis), João Mendes Sachetti Barbosa (médico), o padre João Chevalier (astrónomo), o padre Teodoro de Almeida (astrónomo, físico e divulgador de ciência), Jacob Rodrigues Pereira (educador de surdos), João Jacinto Magalhães (físico-químico e inventor), Abade José Correia da Serra (botânico) e Francisco de Borja Garção Stockler (militar e matemático) (Fiolhais, 2011). A maior parte deles, “estrangeirados”, isto é, exilados fora do país, condição que não os impediu de manter relações com Portugal: é o caso de Castro Sarmento, Moura Portugal, Chevalier, Almeida, Rodrigues Pereira, Magalhães e Correia da Serra. Castro Sarmento e Rodrigues Pereira eram judeus, uma condição incómoda entre nós num tempo em que a Inquisição ainda dominava; Chevalier e Almeida pertenciam à Ordem dos Oratorianos, que tinha ascendido no tempo joanino, distinguindo-se no ensino e na ciência (não tendo sido extinta como a Companhia de Jesus, a Ordem dos Oratorianos foi perseguida pelo Marquês); e Magalhães era um ex-frade crúzio que deixou o país definitivamente na ânsia de um clima de liberdade. Entre os 13 membros portugueses da Royal Society que não foram cientistas, para além do Marquês de Pombal, merece destaque D. João Carlos de Bragança, duque de Lafões, que haveria de ser o fundador da Real Academia de Ciências de Lisboa, estabelecida (com bastante atraso relativamente à sua congénere inglesa!) em 1779 (Silva, 2019). Sociedades como a Royal Society desempenharam um papel essencial na comunicação de resultados à comunidade científica e ao público em geral, formando redes internacionais. Faziam-no através de reuniões, da edição de revistas da especialidade, da construção e uso de instrumentos e, sobretudo, por meio da organização do trabalho conjunto dos cientistas, que se revelou muito útil, por exemplo, na astronomia e na geodesia. A ciência tornou-se então num empreendimento global, passando as barreiras fronteiriças e a diversidade das línguas nacionais. 

 O caso de Bento de Moura Portugal (1702 - 1766) é especial, porque, formado em direito pela Universidade de Coimbra, se interessava por obras públicas e por máquinas, tendo empreendido uma longa viagem de estudo pela Europa (Fiolhais, 2022). O seu nome surge contíguo ao do Marquês de Pombal na lista de entrada de portugueses para aquela sociedade: tornou-se fellow em 5 de fevereiro de 1941 e publicou nas Philosophical Transactions of the Royal Society, em 1751, um artigo em inglês no qual descreve um novo modelo de máquina a vapor (Smeaton, 1751-1752); contudo, foi uma vítima do regime pombalino quando resolveu regressar ao seu país natal em 1759, tendo sido apanhado no processo dos Távora, pelo que acabou os seus dias na prisão da Junqueira, em Lisboa, em 1766, em condições absolutamente desumanas, sem nunca ter sido julgado. Foram encontradas nos seus haveres da prisão notas sobe inventos úteis para o reino que a Imprensa da Universidade de Coimbra haveria de publicar já no tempo do Liberalismo, em 1821, seis décadas depois da sua morte, quando a maior parte dessas ideias já estavam desatualizadas (Saraiva,  1821). O historiador inglês Kenneth Maxwell chamou ao Marquês “paradoxo do Iluminismo” (Maxwell, 2001). De facto, ele acendeu as Luzes em Portugal, contribuindo para a modernização do país, mas, ao mesmo tempo, apagou a luz dos outros para que as suas pudessem brilhar mais. Apagou as luzes de nobres (como os da família dos Távora), as luzes de clérigos (ao expulsar os jesuítas do país em 1759) e as luzes de cientistas, como Moura Portugal, que, no estrangeiro, tinha ganhado a designação, porventura exagerada, de “Newton português”. 

 Para dar conta da ciência no tempo de Pombal, convém contar as histórias de alguns “estrangeirados”, que fazem pensar como poderia ter sido o país se eles não tivessem sido obrigados ao exílio, como é o caso dos que se seguem, um judeu e dois oratorianos. 

 Jacob de Castro Sarmento (1691-1762), nascido em Bragança, formou-se em medicina em Coimbra (Andrade & Guimarães, 2010). Fugiu para Londres em 1721 (Andrade & Guimarães, 2010). Publicou em Londres a Teórica verdadeira das marés, (Sarmento, 1737), uma tradução e comentário a um texto de Newton sobre esse fenómeno natural, cuja ocorrência o sábio inglês foi o primeiro a interpretar corretamente. É autor de várias obras de pré-química (alquimia), farmácia e medicina (designadamente, Sarmento, 1735). Propôs a construção de um jardim botânico na Universidade de Coimbra (1731), baseado no Physic Garden de Londres, um projeto que não foi executado por ser demasiado caro. Ajudou a sua alma mater, ao enviar para Coimbra o primeiro microscópio usado no ensino, e publicou nas Philosophical Transactions, em 1731. Logrou entrar em sociedades médicas britânicas, tendo acabado por se converter ao anglicanismo. Iniciou o projeto, não concretizado, de traduzir as obras de Francis Bacon para português. 

 Padre João Chevalier (1722-1801), frade oratoriano, filho de pai francês e mãe portuguesa, sobrinho de Luís António Verney, viveu e ensinou na Casa das Necessidades, onde hoje funciona o Ministério dos Negócios Estrangeiros [3]  Sócio da Academia de Ciências de Paris (1753) e da Royal Society (1754), enviou para esta sociedade comunicações sobre eventos astronómicos observados em Portugal (a Casa das Necessidades tinha um observatório astronómico) de 1754 a 1758, incluindo a observação de alguns eclipses de satélites de Júpiter em Lisboa em 1757. Após o fecho da Casa das Necessidades, em 1760, por ordem do Marquês, fugiu primeiro para Freixo de Espada à Cinta, onde a Ordem dos Oratorianos tinha uma casa, e, depois, para Bruxelas. Na capital belga, tornou-se diretor da Biblioteca da Academia e presidente da Academia Real Belga. Morreu em Viena, depois da invasão napoleónica de Bruxelas.

[ 3] Os oratorianos, por concessão de D. João V, transferiram-se em 1745 para a Casa das Necessidades depois de terem estado no Chiado (Correia, 2021)

 Padre Teodoro de Almeida (1735-1904), confrade e amigo de Chevalier, publicou com ele um artigo nas Philosophical Transactions, em 1757. Fugido de Lisboa em 1760, observou o trânsito de Vénus na Igreja dos Congregados, no Porto, em 1761. [4] Fugiu de Portugal, primeiro, para Espanha e, depois, para França num exílio que, no total, durou uma década (1768–1778). Regressado após a “Viradeira”, fez a primeira oração de sapiência na Academia de Ciências de Lisboa, em 1779, um discurso em que denunciou o atraso do país e que não agradou aos “órfãos políticos” do Marquês (Almeida, 2013). A sua obra maior, em 10 volumes, saídos entre 1751 e 1780, verdadeiramente enciclopédica, é a Recreação Filosófica (1.º vol.: Almeida, 1751), onde compila, em diálogos pedagógicos à laia de Galileu, o saber setecentista, começando com o estudo do movimento e acabando com os ditames da moral. O sucesso desses livros pode ser medido não só pelas reedições que conheceram (mais de 50 no total), como pelas traduções em castelhano e francês que deles foram publicadas. O primeiro volume é considerado a primeira obra de física escrita de raiz em português: nela se apresenta a física de Galileu e Newton, mostrando a sua atualização, apenas havendo cuidado em não apresentar como verdadeiro o sistema  heliocêntrico de Copérnico. Mas ele é também autor de Cartas fisico-mathematicas de Theodozio a Eugenio (Almeida, 1784-1798), em dois tomos, um diálogo que retoma as mesmas personagens da Recreação.

[4]   Muitos anos antes, o astrónomo inglês Edmond Halley tinha proposta observar esse raro evento astronómico para medir com precisão a distância do Sol à Terra.

 João Jacinto Magalhães (1722-1790), nascido em Aveiro, estudou no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde fez votos em 1743 (Malaquias, 1994). Emigrou depois para Paris (1756) e para Londres (1763). Magalhães não era propriamente um cientista, mas movia-se bem nos círculos científicos, funcionando como intermediário entre eles e os fabricantes de instrumentos científicos, cujas oficinas começavam a surgir no Reino Unido. Conviveu com os maiores cientistas do seu tempo (na astronomia, o francês Charles Messier; na matemática, o suíço Leonard Euler; na física, o norte-americano Benjamin Franklin, o inglês James Watt e o italiano Alessandro Volta; na química, o francês Antoine-Laurent Lavoisier, etc. Esteve no centro de uma rede de correspondência, sendo considerado o responsável, em larga medida, pela transferência da ciência da química, em Inglaterra, cultivada por Joseph Priestley, para o continente europeu, onde pontificou Lavoisier. O mais antigo prémio científico norte-americano, a Medalha Magellan, ainda hoje existente, foi criado em 1796, em resultado de uma doação que Magalhães fez, do seu próprio bolso, ao seu amigo Benjamin Franklin, o criador da Sociedade Filosófica Americana em Filadelfia, que instituiu a distinção. 

 Há, no entanto, estrangeirados que não pertenceram à Royal Society. Distinguimos três, um judeu e dois padres, um oratoriano e outro jesuíta. 

 António Ribeiro Sanches (1699-1783), natural de Penamacor, estudou direito na Universidade de Coimbra, mas formou-se em medicina na Universidade de Salamanca (1724). Após alguns anos de exercício da profissão médica no país, emigrou em 1730 para Leiden, nos Países Baixos, onde trabalhou com o influente médico holandês Herman Boerhaave. Depois, recomendado por este, mudou-se para a Rússia, onde permaneceu 15 anos e onde foi médico da czarina Ana Ivanovna. Os serviços prestados à corte russa, em São Petersburgo, valeram-lhe uma tença de outra czarina, Catarina, a Grande. Passou os seus últimos tempos em Paris, onde se tornou membro da Academia das Ciências, não sem antes passar por Berlim onde conversou com o imperador Frederico II. Escreveu, principalmente em Paris, várias obras de índole científica e pedagógica, como as Cartas sobre a Educação da Mocidade (Ribeiro Sanches, 1760), que terão inspirado o Marquês de Pombal em algumas das suas reformas educativas. Foi o único português a escrever (um artigo sobre a sífilis) para a famosa Enciclopédia de Diderot e d’ Alembert em 28 volumes, Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers (Diderot, Alembert et al., 1751-1772). Ribeiro Sanches expressou pensamento crítico sobre os privilégios da nobreza e do clero, tendo-se manifestado contra a escravatura.

 Luís António Verney (1713-1792), naturakl de Lisboa, filho de pai francês e mãe portuguesa, estudou no Colégio de Santo Antão, em Lisboa, dos jesuítas, e na Congregação do Oratório, antes de se formar em teologia, na Universidade Évora, a universidade dos jesuítas que fez concorrência à de Coimbra durante exatamente dois séculos (1559-1759). Doutorou-se na Universidade La Sapienza em Roma, em teologia e em leis, em 1736, tendo depois desempenhado funções eclesiais em Évora. É o autor (embora na primeira edição o seu nome tenha permanecido anónimo) do Verdadeiro Método de Estudar (Verney, 1746), com primeira  edição saída em Nápoles, em dois volumes, em que criticava asperamente os métodos pedagógicos dos jesuítas, pugnando por um ensino mais próximo da realidade e mais baseado na experiência, além de assegurado de forma alargada pelo Estado e não por instituições religiosas. Essa obra – que consiste numa coleção de cartas sobre vários assuntos supostamente dirigidas a um professor da Universidade de Coimbra – causou uma verdadeira “onda de choque” no panorama cultural português e, embora anterior ao consulado do Marquês, foi aproveitada por este no ataque que moveu à Companhia de Jesus. Verney tentou colaborar numa reforma pedagógica do país – afinal, o seu livro era uma proposta feita a D. João V –, mas, perseguido no tempo pombalino, viu-se forçado ao exílio em Roma, onde veio a falecer. Antes de morrer, foi reabilitado em Portugal, após a entronização de D. Maria, e nomeado membro correspondente na Academia das Ciências de Lisboa.

 O padre Inácio Monteiro (1724 -1812), natural de Lamas, estudou na escola jesuíta de Évora e formou-se em teologia na Universidade de Coimbra (Monteiro, 2004). Tendo sido um dos expoentes do ensino jesuíta, foi obrigado a deixar o país aquando da expulsão dos inacianos em 1759 e obteve um lugar como prefeito dos estudos em Ferrara, no norte de Itália. Antes de partir, tinha publicado, em Coimbra, o Compendio dos Elementos de Mathematica (Monteiro, 1754-1756), uma obra atualizada e de enorme mérito, que torna injustas boa parte das acusações que o Marquês lançou contra os jesuítas. Em paragens remotas do globo, como a China, a Rússia ou a Prússia, que não professavam a fé católica, alguns jesuítas foram muito úteis como professores e conselheiros. Isto só pode acontecer porque muitos deles, como Inácio Monteiro, além de bem informados eram mestres competentes. Claro que o domínio do reino com mão de ferro pelo Marquês impediu que o padre Monteiro desempenhasse o mesmo papel de “estrangeirado” na ajuda ao país que tiveram outros exilados.

 A reforma pombalina da Universidade de Coimbra 

 De entre as obras reformadoras do Marquês de Pombal, destaca-se, na área do ensino das ciências, a denominada reforma pombalina da Universidade de Coimbra, cuja preparação ele dirigiu e que consumou em 1772, quando, em representação do rei, veio a Coimbra entregar os novos Estatutos e superintender algumas obras (Martins, 1997; Araújo, 2000; Araújo, 2003; Araújo e Taveira da Fonseca, 2017)-

  A mais antiga universidade portuguesa, que tinha sido fundada em Lisboa, em 1290, no tempo do rei D. Dinis, ficou definitivamente estabelecida em Coimbra, em 1537, por ordem de D. João III. Foi nessa mesma época, quando os primeiros jesuítas se fixaram em Portugal, que foram criadas em todo o globo as primeiras casas dos inacianos que se destinavam ao ensino: em Coimbra, o Colégio de Jesus (1542) (o Colégio das Artes, fundado em 1547, foi entregue aos jesuítas em 1555, ficando nas proximidades do anterior) e, em Lisboa (também em 1542), o Colégio de Santo Antão, na zona de Alfama. Os dois colégios jesuítas de Coimbra, tal como o de Lisboa, destinavam-se ao ensino médio, necessário para ingressar no ensino universitário, e funcionaram como um grande complexo pedagógico anexo à Universidade de Coimbra (o Paço Real que hoje alberga a sede universitária foi adquirido pela universidade no tempo dos Filipes). Com o encerramento compulsivo desses colégios em 1759, a universidade tinha de se ressentir da falta de novos alunos. Foi essa situação que o Marquês teve de enfrentar, embora com algum atraso (entre 1759 e 1772, mediaram 13 anos). Acontece que o estabelecimento de ensino que o Marquês privilegiou em primeiro lugar, criando-o em Lisboa, numa antiga Casa de Noviciado dos jesuítas (onde hoje é o Museu Nacional de História Natural e da Ciência, pertencente à Universidade de Lisboa), foi o Real Colégio dos Nobres, que existiu legalmente de 1761 a 1837, embora na prática só tenha funcionado - e muito aquém das expectativas - de 1766 a 1772 (Carvalho, 1959). Nesse colégio, que se destinava ao ensino pré-universitário de moços fidalgos (entre os sete e os 13 anos), reuniu não só alguns equipamentos de laboratório, levados em parte da Casa dos Necessidades, mas também professores contratados, alguns deles estrangeiros, como os italianos, da Universidade de Pádua, Giovanni Antonio Dalla Bella e Domenico Vandelli. O projeto acabou por fracassar, em boa parte por desinteresse das famílias no ensino experimental que ali se procurava ministrar. O Marquês decidiu então operar uma mudança radical na Universidade de Coimbra, levando para lá tanto o equipamento como alguns professores contratados que tinham deixado de ser úteis em Lisboa. Mas não o fez sem antes montar uma gigantesca operação de propaganda em que denunciava os supostos “crimes” dos jesuítas. Criou, em 1770, um organismo que designou de Junta de Providência Literária, que mais não era do que câmara de eco do Marquês, e mandou esta fazer um relatório que mais não era do que um arrazoado de denúncias do que ele considerava serem as maquinações dos jesuítas: eles seriam os responsáveis pelo atraso do país depois do tempo glorioso dos Descobrimentos. O relatório com o título Compêndio Histórico do Estado da Universidade de Coimbra saiu em 1771. Entre os membros dessa junta estava Fr. Manuel do Cenáculo (1724-1814), um franciscano formado em teologia pela Universidade de Coimbra, onde foi professor, e que foi bispo de Beja e arcebispo de Évora. A reforma é consumada com a colaboração do chamado reitor reformador, D. Francisco Pereira Coutinho (1735-1822), nascido no estado do Rio de Janeiro e mais tarde bispo de Coimbra. [5] O Marquês entregou os novos estatutos à Universidade, um documento que seria publicado em 1773, intitulado Estatutos da Universidade de Coimbra compilados debaixo da imediata e suprema inspeção de EL Rei D: José I nosso senhor pela Junta de Providência Literária criada pelo mesmo senhor (Universidade de Coimbra, 1773).

[5] Haveria de ser reitor, em vários mandatos, durante 21 anos e bispo durante 48 anos. 

De facto, a “lenda negra” do Marquês a respeito dos jesuítas é, como se diria hoje, uma “teoria de conspiração”. Os acusados não eram nem ignorantes nem malfeitores (Franco & Fiolhais, 2016). Prova-o, por exemplo, a existência de um conjunto de azulejos jesuítas que representam figuras ilustrativas dos teoremas dos Elementos de Euclides, dos séculos XVII ou XVIII, que estavam provavelmente expostos em salas de aula ou pátios de um dos colégios jesuítas de Coimbra e que hoje se encontram na sua maior parte no Museu Nacional de Machado de Castro, num local aliás muito próximo, e também no Museu do Azulejo em Lisboa (para além de outros que estão em mãos particulares) (Duarte 2007). Provavelmente esses azulejos foram retirados do seu sítio quando foram feitas obras da reforma pombalina. 

 A reforma pombalina da Universidade de Coimbra, iniciada em 1772 e que se prolongou nos anos seguintes, consistiu essencialmente na reformulação do ensino das ciências, inaugurando de modo oficial o ensino experimental entre nós. Foram, pelos Estatutos, criadas duas faculdades: a Faculdade de Matemática (a autonomização da disciplina de matemática tem a ver com o reconhecimento, que já tinha sido feito de forma pioneira por Galileu, de que ela é a “linguagem da Natureza”) (Silva, 2013) e a filosofia (entenda-se filosofia natural, que compreendia o que hoje se chamam física, química e ciências naturais) (Martins, 2013). 

 Ligada à Faculdade de Matemática, a Reforma criou o Observatório Astronómico, que começou por ser edificado numa das torres do castelo medieval POMBAL EDIFICADOR 95 de Coimbra, na atual praça de D. Dinis (e hoje já não existente) (Figueiredo, 2013). Como o castelo ameaçava ruína, teve de ser construído um novo edifício no Pátio das Escolas, em frente à Biblioteca Joanina, que só ficou pronto em tempo pós-pombalino, em 1799. Mas este edifício foi arrasado quando se fizeram obras na Universidade de Coimbra nos anos de 1940, no tempo do Estado Novo, um ato que não pode deixar de ser considerado um atentado ao património. Os professores de matemática mais famosos foram José Monteiro da Rocha (1734-1819), antigo jesuíta que tinha estudado no Colégio da Companhia de Jesus na Baía, no Brasil (renunciou à sua condição de jesuíta em 1760), e que foi doutorado administrativamente em matemática em 1772 em Coimbra (Duarte et al., 2022); e José Anastácio da Cunha (1744-1787), um estudante dos oratorianos, que foi militar e também se tornou doutor com a Reforma (Ferraz et al., 1990). O primeiro, natural de Marco de Canaveses, foi diretor da Faculdade de Matemática durante muitos anos, assim como do Observatório Astronómico, que ele equipou com bons instrumentos, alguns vindos do Real Colégio dos Nobres e outros encomendados em Inglaterra por João Jacinto Magalhães, ao passo que o segundo, natural de Lisboa, foi, para além de distinto matemático, também poeta. Os dois lentes digladiaram-se por causa de uma acusação de plágio que Anastácio da Cunha dirigiu a Monteiro da Rocha. O primeiro foi, em 1777, alvo de um processo da Inquisição, por ter contactado com oficiais protestantes ingleses quando prestava serviço na praça de Valença. O processo ficou famoso, tendo sido romanceado por Aquilino Ribeiro no seu livro O Lente Penitenciado (Ribeiro, 1938). Cunha deixaria a universidade para se tornar, depois de um interregno, professor na Casa Pia de Lisboa, que tinha sido criada por Pina Manique, o ministro de D. Maria I, no Castelo de São Jorge em Lisboa. Foi o autor do Princípios Matemáticos para instrução dos alunos do Colégio de São Lucas da Real Casa Pia do Castello de São Jorge (Cunha, 1790), obra que, traduzida em francês em 1811, viria ser alvo de elogios devido a alguns aspetos originais no tempo em que saiu, designadamente por parte do grande matemático alemão Carl Friedrich Gauss.

 Na Faculdade de Filosofia, a Reforma pombalina criou três importantes equipamentos, a seguir sumariamente descritos: o Gabinete de Física Experimental, o Laboratorio Chimico e o Gabinete de História Natural. 

 O Gabinete de Física Experimental, que é hoje historial site da European Physical Society, reúne um conjunto notável de “máquinas” (instrumentos física) que estão bem preservadas, pertencendo às coleções do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra, criado em 2006. O professor Rómulo de Carvalho (1906-1997), que usou na produção literária o nome de António Gedeão, escreveu uma notável memória sobre o Gabinete de Física (Carvalho, 1978). As suas máquinas foram reveladas ao mundo na exposição Les Mécanismes du Génie, que esteve patente em Charleroi, na Bélgica, integrada na Europália, em 1991 (e que está documentada num excelente catálogo com esse título) e, depois, numa Exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, intitulada Engenho e Arte, em 1997, também acompanhada por um catálogo. 

 O primeiro professor de física depois da reforma pombalina foi o italiano Giovanni Antonio Dalla Bella (1730-1823), que tinha estado no Real Colégio dos Nobres (Carvalho, 1959; Carvalho, 1982). Como os Estatutos mandavam publicar manuais para uso dos estudantes, ele escreveu, em latim, o livro Físicas elementar usei academia Conimbricenses Acomoda (Dalla Bela, 1789). O mestre usava os instrumentos do Gabinete que estavam normalmente arrumados em armários (ainda existe o catálogo original: Dalla Bella, 1788) e colocava-os sobre uma mesa central para os operar, com os estudantes em volta. Dois desses instrumentos – um relógio de pêndula e uma máquina de Atwood – foram enviados de Londres por João Jacinto Magalhães, que, por sua vez, os encomendara junto de artífices londrinos. Dalla Bella interessou-se também por temas agrícolas, tendo sobre eles publicado memórias na Academia das Ciências de Lisboa, da qual foi um dos sócios fundadores. 

 O Laboratório Chimico, que hoje é a porta de entrada do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, foi erguido num edifício neoclássico de acordo com um risco traçado peça arquiteto militar inglês Guilherme Elsden, no lugar onde se situavam a cozinha e o refeitório comuns dos dois colégios jesuítas (Correia Cardoso, 2018). A sua reconstrução, no âmbito da primeira fase do referido Museu da Ciência, da responsabilidade dos arquitetos João Mendes Ribeiro e de Desirée Pedro, permitiu que o Museu da Ciência alcançasse o prémio Micheletti para o melhor museu de ciência e tecnologia que abriu na Europa no ano de 2006. O trabalho meticuloso de restauro do espaço jesuíta permitiu reconstruir um anfiteatro de madeira, com uma galeria de exposições temporárias em seu redor, e um laboratório de química, que funcionou desde o século XVIII até ao século XX como espaço e ensino e investigação. Neste último espaço, foi montada uma exposição interdisciplinar intitulada “Segredos da Luz e da Matéria”, que combina instrumentos antigos com módulos de experiências interativas, uma exposição documentada por um catálogo (Mota, 2006). No edifício do Colégio de Jesus, fronteiro ao Laboratorio Chimico, estava prevista a construção, na segunda fase, do resto do Museu da Ciência, que deveria valorizar os espaços dos Gabinetes de Física experimental e de História Natural, mas que também deveria contemplar um espaço de reserva para muitas peças do espólio. Infelizmente esse projeto não se veio a concretizar.

 O primeiro professor de química após a Reforma também veio do Real Colégio dos Nobres, tal como Dalla Bela: foi o italiano Domenico (Domingos) Vandelli (1735-1816) (Carvalho, 1959). Doutorado em medicina na Universidade de Pádua, correspondeu-se com o sueco Carl von Lineus a partir de 1761, ainda antes de vir para Portugal convidado pelo Marquês. Para montar o Laboratório de Química precisava de peças de cerâmica (o vidro só passaria a ser usado no século XIX), tendo fundado em Coimbra a Fábrica Vandelli, que fabricava tanto para a Universidade como para a cidade. Acumulando com a cátedra de química, foi também professor de ciências naturais, assunto sobre o qual deixou vários escritos (por exemplo, Vandelli, 2003). Na parte final da sua vida, já em Lisboa e ativo na Academia das Ciências, interessou-se por temas de Economia.

 Vandelli vendeu à Universidade uma boa parte da sua coleção de espécies vegetais e animais, o que permitiu que se constituísse um museu que servia para o ensino - o Gabinete de História Natural. Este pode hoje ser visitado, tal como o Gabinete de Física Experimental. Os dois podem ser considerados os mais antigos museus portugueses. O Gabinete de História Natural foi sendo alargado através da incorporação de coleções, uma delas a que resultou da viagem de um discípulo de Vandelli, o brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), ao longo de 10 anos, na Amazónia (“Viagem Philosophica”). 

 Não tendo tido seguimento a proposta de jardim botânico feita por Castro Sarmento, só no tempo da reforma pombalina foi criado o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, nos terrenos da cerca do Colégio de São Bento. Foi o primeiro jardim botânico português a funcionar numa escola, já que o primeiro foi construído nos jardins da Ajuda, não para ensino, mas para a recreação dos príncipes. O jardim foi progressivamente alargado com a plantação de numerosas espécies portuguesas e do império (Tavares, 2003).

 O hospital da cidade de Coimbra, que funcionava desde os tempos medievais na Praça Velha da cidade, passou para o Colégio de Jesus (Nunes, 2015), permitindo que o ensino na Faculdade de Medicina se tornasse mais prático, embora sem poder competir com o ensino em Lisboa primeiro no Hospital Real de todos os Santos, destruído pelo terramoto de 1755, dando lugar ao Hospital de São José, que ocupou o colégio de Santo Antão o Novo, que era dos jesuítas. Nesse colégio, teria sido construído um teatro anatómico, de que não restam vestígios, assim como um dispensário farmacêutico.

  Já depois da morte do Marquês, dois anos após, surgiu em Lisboa a Academia de Ciências de Lisboa (1779), que foi uma iniciativa de João Carlos de Bragança, duque de Lafões (1719-1806), que era sobrinho da rainha D. Maria I (Silva, 2019). Foi secretário da nova instituição o então jovem abade José Correia da Serra (1750-1823), que haveria de ser embaixador português em Washington D.C., nos primeiros tempos da independência dos Estados Unidos. Foi um dos melhores amigos de Thomas Jefferson, o terceiro presidente daquele país. Alguns professores de Coimbra, como Dalla Bella e Vandelli, foram sócios da Academia de Ciências de Lisboa.

 Considerações finais 

 Foi, indiscutivelmente, uma grande mudança a reforma pombalina da Universidade de Coimbra, uma vez que o Estado instaurou o ensino experimental. No entanto, não se pode dizer que esse ensino tenha sido inaugurado em Coimbra, uma vez que, cerca de 20 anos antes dar reforma, em 1750, já havia aulas com demonstrações experimentais na Casa das Necessidades, em Lisboa, às quais chegou a assistir o próprio rei D. José. Os professores oratorianos não eram inteiramente modernos, uma vez que defendiam o ecletismo no ensino da filosofia natural, isto é, entendiam que as antigas teorias aristotélicas deviam ser ensinadas ao mesmo tempo e ao mesmo nível que as doutrinas modernas, de Galileu e Newton. Se a iniciativa do Marquês teve inegável mérito, ela não foi original e pecou até por tardia. Além disso, num tempo anterior à Universidade de Humboldt, a universidade portuguesa fazia mais ensino do que investigação. No Século das Luzes, tinha triunfado na Europa a mecânica e começava a compreensão dos fenómenos da eletricidade e do magnetismo, mas pesquisas originais eram praticadas escassamente em Coimbra (não é verdade que Dalla Bella tenha descoberto em Coimbra as leis do magnetismo antes de Coulomb, como já foi reclamado; Carvalho, 1854). 

 O que aconteceu à reforma pombalina no tempo após a morte do Marquês? Uma das dificuldades maiores para o seu sucesso foi o facto de o número de alunos ter baixado extraordinariamente após a expulsão dos jesuítas (uma reforma dos ensinos secundário também feita pelo Marquês, mas que não conseguiu suprir o vazio deixado pelo fecho da rede de escolas jesuítas, quer na metrópole, quer no império). Assim, o número de alunos nas faculdades de Filosofia e de Matemática não pôde ser muito grande. Logo no início do século XIX, ocorreram as Invasões Francesas, tendo sido criado o Batalhão Académico, onde se alistaram professores e estudantes. O Laboratório Chimico foi reorientado para fabrico de pólvora (ainda hoje se pode ver no Museu da Ciência uma pia de fazer pólvora). Foi por muito pouco que um foco de incêndio não provocou uma explosão no paiol de pólvora que era então o Laboratório. Por causa da reconversão bélica da instituição universitária, a ira dos franceses dirigiu-se contra o mestre de química, Tomé Rodrigues Sobral (1759-1829), que ocupava o lugar que tinha sido de Vandelli: incendiaram-lhe a casa, levando à perda dos seus haveres, incluindo um manuscrito científico que ele estava a preparar. Depois veio a Revolução Liberal (1820) e a Guerra Civil (1832-1834), que não permitiu o clima de tranquilidade que o ensino superior exigia. Entretanto, no regime liberal, foram abertas escolas politécnicas e de medicina em Lisboa e no Porto, que, nalgumas áreas, faziam concorrência à antiga universidade.

 Passados 250 anos da reforma pombalina, a herdeira dessa reforma é a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, que resultou da Faculdade de Ciências criada com a República em 1911, havendo a junção das duas faculdades pombalinas (Matemática e Filosofia) e que mudou o nome para Faculdade de Ciências e Tecnologia em 1973, quando começaram, de forma plena, a funcionar os cursos de engenharia. Também as atuais faculdades de Medicina e de Farmácia são herdeiras das transformações então ocorridas. O Gabinete de Física Experimental e o de História Natural permanecem nos sítios de outrora, assim como o Jardim Botânico, enquanto o Observatório Astronómico se encontra, desde os anos de 1950, em Santa Clara, do outro lado do rio Mondego. O património histórico da reforma pombalina encontra-se vivo no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, detentor de coleções extraordinárias que só em parte podem ser vistas pelos numerosos turistas que demandam a Universidade. O Museu da Ciência da Universidade merecia um outro projeto, com um outro dinamismo e com mais atenção ao passado. Em particular, o Museu ficou a dever a si próprio uma comemoração condigna dos 250 anos da reforma pombalina.

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- Sena Lino, P. (2020). De Quase Nada a Quase Rei. Biografia de Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal. Lisboa: Contraponto.
- Silva, J. A. (2019). A Academia Real das Ciências de Lisboa (1779-1834). Ciências e Hibridismo numa Periferia Europeia. Lisboa: Colibri. 
- Silva, J. C. (2013). A Faculdade de Matemática (1772-1911). In C. Simões & D. Martins (eds.). História da Ciência Luso-Brasileira: Coimbra entre Portugal e o Brasil. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.
- Smeaton, J. (1751-1752). An engine for raising Water by Fire, being an Improvement of Savery’s Construction, to render it capable of working itself, invented by Mr. De Moura of Portugal, F.R.S. In Philosophical Transactions 47: 436-439.
- Tavares, A. C. (2003). Guia para Visitantes: Museu Botânico: Jardim Botânico. Coimbra: Departamento de Botânica da Universidade de Coimbra.
- Universidade de Coimbra. Estatutos (1773). Estatutos da Universidade de Coimbra, compilados debaixo da immediata e suprema inspecção de Elrei D. José I [...] pela Junta de Providência Literaria [...] para a restauração das Sciencias, e Artes Liberaes... Lisboa: Regia Officina Typografica.
- Vandelli, D. (2003). Memórias de História Natural. Ed. J. L. Cardoso. Porto: Porto Editora.
- Verney, L. A. (1746). Verdadeiro Método de Estudar. 2 tomos, Valensa: Officina de Antonio Balle. Ed. moderna: In C. Fiolhais & J. E. Franco (coords.) (2017-2019). Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa. Lisboa: Círculo de Leitores, 30 vols., vol. 27 (2018). Primeiro Tratado Pedagógico: Verdadeiro Método de Estudar de Luís António Verney.
- Voltaire (2012), Cândido ou o Optimismo . Trad., notas e posfácio de R. Tavares. Lisboa: Tinta da China.
- Voltaire (2013). Poème sur le désastre de Lisbonne

MEU PREFÁCIO AO LIVRO «FOLHAS SOLTAS. PENSAMENTOS CRUZADOS» DE JACINTO RODRIGUES, MIGUEL SANTIAGO E ROSA OLIVEIRA (COORD.), FUNDAÇÂO SERRA HENRIQUES



Divulgo a vida e obra de Jacinto Rodrigues, professor jubilado da Fac. Arquitectura_da Univ. Porto:

Este é um livro sobre o pensamento do filósofo, teórico do urbanismo e ecologista António Jacinto Rodrigues (1939), professor jubilado da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Comecei por o conhecer através de um livro que me espantou: A Conspiração Solar do Padre Himalaya. Esboço biográfico dum pioneiro da ecologia (Árvore, 1999). É uma biografia, investigada exaustivamente, do inventor português Manuel António Gomes, mais conhecido por Padre Himalaya (1868-1933), que deu origem ao filme A Utopia do Padre Himalaya (2024), realizado por Jorge António. O livro revela uma identificação estreita entre o autor e um visionário que, há mais de um século, promoveu as energias renováveis, ao inventar um forno solar, para além de ter sido um adepto de naturopatias, como a hidroterapia, e de métodos de educação baseados na prática agrícola. Rodrigues reavivou a memória de um dos portugueses mais notáveis de sempre, pelo seu pioneirismo em modos de vida que hoje são modernos. O Padre Himalaya foi o autor de outras ideias revolucionárias para a época – como o aproveitamento das energias eólica, hídrica e das marés, a construção antissísmica, a pesquisa de minérios, a nutrição animal, a chuva artificial e a plantação em furos abertos por explosivos. E foi uma figura cosmopolita: além dos Estados Unidos, visitou em missões de estudo e trabalho países como a Alemanha, o Reino Unido, a França e a Argentina. A fama internacional foi-lhe granjeada com o Grand Prize atribuído ao forno solar – o pirelióforo na Exposição Universal de Saint Louis (Missouri), nos Estados Unidos, em 1904. Mas, como muitos inovadores, ficou injustamente esquecido. 

 Tendo, a partir do referido livro, ficado curioso sobre o autor da monumental biografia, percebi logo que estava em presença de uma figura que pedia meças ao seu biografado. O trajecto de vida de Jacinto Rodrigues é absolutamente extraordinário. Nascido em Luanda numa família de colonos, veio para a metrópole estudar – cursou Filosofia em Coimbra, dizendo cobras e lagartos do ambiente académico de então –, tendo sido apanhado pela crise universitária de 1962. Tornou-se um resistente antifascista, num percurso que o haveria de levar ao exílio em Paris. O Maio de 1968 reforçou a sua consciência política revolucionária, que, como em tantos outros, apontou para a simpatia com o maoismo. Interessado pela ocupação do espaço urbano, estudou em Paris Sociologia, Urbanismo e Literatura (como diz o Sérgio Godinho, que também andou por Paris, «isto anda tudo ligado!»), revelando desde logo o seu pendor multidisciplinar e a versatilidade do seu pensamento. Regressado a Portugal com o 25 de Abril de 1974, completou uma licenciatura em Filosofia na Universidade do Porto e um doutoramento em História da Arte na Universidade Nova de Lisboa, para se tornar professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde, ascendendo, fez a agregação em 1991, com um trabalho sobre teoria da arquitectura. Autor de mais de duas dezenas de livros, alguns deles publicados em França e Espanha, formou muitos estudantes, que ficaram marcados por ele.

 Um dos estudantes que orientou no mestrado e doutoramento é precisamente Miguel Santiago, que em boa hora se decidiu abalançar ao empreendimento que é esta colectânea de textos do seu mestre. É um trabalho que nos permite entrar no pensamento muito rico de um docente universitário nada convencional que esteve sempre atento ao mundo e preocupado com ele. O seu tema central tem sido a necessidade de sustentabilidade na arquitectura, seja em áreas urbanas seja em áreas rurais, em várias regiões do mundo: a Angola onde nasceu, o centro da Europa onde cresceu politicamente, ou o Norte de Portugal, onde assentou na maturidade. O ser humano, ao ocupar a Terra, tem por dever respeitá-la, procurando conviver com ela de uma forma o mais sã possível. Como Rodrigues diz numa entrevista, estética, ética e técnica têm de estar juntas. 

 Não há muito tempo, numa minha ida ao Norte, tive oportunidade de conhecer pessoalmente Jacinto Rodrigues. Fiquei encantado não só com a sua desenvoltura física e intelectual, verdadeiramente invulgar para a idade que já leva, mas também – e principalmente – pela sua afabilidade. Já sabia que era um homem sábio. Fiquei também a saber que era um homem bom. Tendo-lhe dito que possuía o seu livro do Padre Himalaya, respondeu-me logo que fazia questão de me oferecer um exemplar autografado, o que fez in situ, acrescentando-lhe o grosso volume Padre Himalaya Antologia de Textos Inéditos (Câmara Municipal de Arcos de Valdevez, 2013, em colaboração com Rosa Oliveira, sua companheira), que eu, para minha vergonha, não conhecia. Percorrido o novo livro, aumentou ainda mais a admiração que já nutria pela sua curiosidade e génio investigativo. Gosto de pessoas que não largam o seu objecto de estudo.

 Agora, quando me foi pedido para prefaciar esta sua obra, achei que, apesar da sua área central – o bem-estar humano – estar distante da minha – os mistérios da física –, não me podia eximir, até porque me cabia retribuir a oferenda intelectual que me tinha feito com as suas descobertas sobre o Padre Himalaia. Essa aceitação, confesso que rápida porque intuitiva, proporcionou-me o grande bónus de poder conhecer melhor, com o material que me foi dado e que o leitor aqui encontra, uma história de vida notabilíssima (vide as entrevistas que deu no Cap. I ou as descrições das viagens no Cap. VI), para além de me confrontar com a sua ideia de mundo e de ser humano nos muitos artigos aqui reunidos (vide os capítulos intermediários), graciosamente polvilhado de desenhos seus que, para nosso prejuízo, estavam inéditos. É nessa obra de vida, enciclopédica e magistral, que convido os leitores a entrar. Não darão o tempo por perdido. Encontrarão, como eu, um caminho multiforme, mas unido pela coerência estética, ética e técnica do autor. Encontrarão «unidade na diversidade», nas palavras do poeta William Wordsworth, que é uma indiscutível marca não só da arte como da ciência. E apreciarão o sentido de solidariedade com o seu semelhante que ele tem sabido desenvolver ao longo da sua vida. É um professor que generosamente partilha connosco – seus discípulos através das páginas do livro – lições de cidadania e integridade. 

 Perceberão, enfim melhor, que a utopia de vida feliz no nosso planeta, que alimentou a mente do Padre Himalaya, é também a sua. A arquitectura vai muito para lá da arquitectura: é arte e é também vida. Veja-se o caso do movimento Bauhaus iniciado em 1919 por Walter Gropius na República de Weimar e extinto pelos nazis em 1933, que Rodrigues tratou num dos seus livros. O impacto desse movimento deve-se à sua feliz conjugação entre arte e vida. Foi Gropius que disse: «A mente é um guarda-chuva. É mais útil quando está aberta». Este livro, ao mostrar-nos a mente muito aberta de Jacinto Rodrigues, abre-nos também a nossa.

 Carlos Fiolhais 

«COSMOS» DE CARL SAGAN

 


Meu texto para o jornal escolar «O Mocho" das escolas de Canas de Senhorim (curiosamente colaborei com um jornal com o mesmo nome no meu tempo de Faculdade em Coimbra)
:

Se há um livro de ciência que resisto bem o tempo é Cosmos, do astrofísico norte-americano e divulgador científico Carl Sagan, professor na Universidade de Cornell.

Saído no original inglês em 1980 e traduzido em português em 1984 como um dos primeiros títulos da colecção «Ciência Aberta» da Gradiva. Há várias edições, que tiveram muitos leitores. Tenho num lugar especial da minha biblioteca a edição portuguesa de grande formato e ricamente ilustrada que a Gradiva publicou em 2001, que tem um prefácio especialmente escrito para a edição portuguesa de Ann Druyan, a viúva do autor, que tinha falecido em 1996. O livro foi um grande êxito internacional tal como a série televisiva, baseada no conteúdo do livro em 13 episódios, emitida pela PBS, a televisão pública dos EUA, e retransmitida entre nós pela RTP (existe uma edição em DVD e podem-se encontrar os episódios no Youtube). Portanto, livros impressos e séries audiovisuais podem não ser inimigos, mas antes companheiros.

O livro de Sagan é muito abrangente. Trata de tudo, como o título promete. O cap. 1 («As Costas do Oceano Cósmico», isto é, a superfície do nosso planeta) começa assim: «O Cosmos é tudo o que existe, existiu ou existirá. A mais insignificante contemplação do cosmos emociona-nos, provoca um arrepio, embarga-nos a voz, causa-nos a sensação suave de uma recordação distante. Sabemos que nos estamos a aproximar do maior de todos os mistérios.» Se é certo que o Cosmos, ou Universo, é um grande mistério, não é menos certo que temos desvendado várias facetas dele. Por exemplo, sabemos hoje que teve um início há 14 mil milhões de anos e que tem evoluído. Há 3,5 mil milhões de anos surgiu a vida na Terra.  Não sabemos como é que a vida surgiu, mas sabemos que os núcleos de carbono, o elemento químico que está na base da vida, foram fabricados no interior de estrelas, que depois explodiram. Há uns seis milhões anos apareceram os primeiros hominídeos. E, há cerca de 300 mil anos, surgiu em Africa a nossa espécie, o Homo sapiens, a única espécie capaz de penetrar nos mistérios cósmicos. O livro, em 13 capítulos, tantos quantos os episódios da série, é um excelente resumo do que sabemos sobre o Cosmos.

 De todos os capítulos destaco o 11 («A persistência da memória»), no qual o autor nos transmite que, quando a informação no genoma deixou de ser suficiente para o funcionamento dos seres vivos, a evolução «inventou» cérebros, capazes de guardar e processar informação. A nossa espécie tem o cérebro mais desenvolvido de todos os animais que o possuem. Foi ela que, há cerca de dez mil anos, começou a armazenar informação fora do seu corpo, primeiro em pedras, ossos ou madeiras e depois em papiros e papel. Os livros em papel impresso surgiram primeiro na China por volta do século VIII, mas, tendo o papel aparecido cedo na Europa graças à intermediação dos árabes, foi preciso esperar pelo século XV para a impressão em papel ser reinventada no Velho Continente. Os livros espalharam-se então rapidamente pela Europa e pelo mundo e, nos séculos XVI e XVII, ajudaram à difusão do método científico, o modo que criámos para interpelar o Cosmos. Hoje, graças à ciência e tecnologia, dispomos de uma gigantesca biblioteca digital, a Internet. A história humana e a história cultural estão, nesta obra de Sagan, integradas na grande história cósmica.

No cap. 13 («Quem pode salvar a Terra?), o autor fala dois prejuízos que temos causado ao nosso planeta. E chama a atenção para a nossa responsabilidade. Repare-se no modo eloquente como terminar: «Somos a encarnação local de um Cosmos que toma consciência de si próprio. Começámos a contemplar as nossas origens: pó de estrelas meditando acerca das estrelas; ajuntamentos organizados de dez mil biliões de biliões de átomos analisando a evolução dos átomos; descobrindo a longa caminhada através que, pelo menos para nós, levou ao aparecimento da consciência. Devemos a nossa lealdade às espécies e ao nosso planeta. Somos nós que nos responsabilizamos pela Terra. Devemos a nossa obrigação de sobreviver não só a nós próprios, mas ao Cosmos, vasto e antigo, de onde despontámos.» É um belo final de um belo livro, que nos fala do mundo e do nosso lugar nele. O público menos jovem vai gostar de o reler e o mais jovem de o ler.

Carlos Fiolhais
Professor emérito de Física da Universidade de Coimbra

DESCENTRALIZAR


 Minha recente resposta ao expresso, num inquérito sobre o que fazer contra os fogos florestais:

A floresta ocupa 39% do país, sendo 78% seminatural e 21% plantada. A cobertura florestal está na média da União Europeia, mas a porção de floresta plantada  é bastante superior, fazendo com que o sector florestal contribua para 5% do PIB. Contudo, o interior do país, onde há maiores manchas florestais, está cada vez mais despovoado. A população deixou as serras para ir para as cidades, descurando a floresta e propiciando fogos. É preciso incentivar a ocupação do interior, com particular foco na adequada gestão da floresta e no bom uso dos seus múltiplos produtos. O país sofre de centralismo excessivo, um centralismo quase sem paralelo na União Europeia. A descentralização devia, por isso, ser a primeira prioridade da Reforma do Estado. Há várias vozes a dizer isso na Associação Círculo de Estudos de Centralismo, com sede em Miranda do Douro, mas pregam num deserto que será cada vez maior até que o Estado se mova. O Ministério da Agricultura devia dar o exemplo, saindo de Lisboa para vir para perto da floresta.

Carlos Fiolhais
Professor emérito da Universidade de Coimbra

O QUE SE PASSA NA INFÂNCIA NÃO FICA NA INFÂNCIA

Meu artigo recente no JL:

No passado dia 31 de Maio, véspera do Dia da Criança (que, por recomendação das Nações Unidas, assinala em muitos países os direitos das crianças), decorreu na sede da Fundação Bissaya Barreto em Coimbra a apresentação do segundo tomo do livro «O que se passa na infância não fica na infância», publicado pela Editora d’Ideias de Coimbra, coordenado por João Pedro Gaspar, doutorado em Psicologia da Educação e responsável pela PAJE – Plataforma de Apoio a Jovens (Ex) acolhidos (instituição que recebe todas as receitas do livro) e por Paulo Guerra, juiz desembargador do Tribunal da Relação de Coimbra  e especialista em Direito de Família e das Crianças.

O livro, com um curto, mas eloquente prefácio de Manuela Ramalho Eanes (que, como primeira-dama, ajudou a criar o Instituto de Apoio à Criança) é um conjunto de depoimentos de 51 pessoas sobre experiências, positivas ou negativas, que os marcaram na infância. É mesmo verdade o que diz o título, corroborado por uma outra citação a abrir, esta do filme Magnólia, do realizador norte-americano Paul Thomas Anderson: «Podemos esquecer o passado, mas o passado nunca se esquece de nós».  O presente tomo segue-se a um primeiro, com capa semelhante, a mesma coordenação e a mesma estrutura, que saiu em Maio do ano passado na mesma editora e que foi apresentado em vários sítios do país, a última das quais em 3 de Abril último no Supremo Tribunal de Justiça, em Lisboa, com a presença de um bem conhecido futebolista que viveu numa instituição de acolhimento – o Eder, marcador do golo à França na final do Europeu de 2016. 

No volume agora saído alinham-se os textos dos vários autores, sempre com uma fotografia de infância (o neuropediatra Luís Mello Borges, o mais velho de todos nos seus bem conservados 88 anos, apresenta-se aí tal como veio ao mundo) e uma breve apresentação de cada um. A maior parte dos escribas, embora nem todos, têm alguma relação com questões da infância. Por exemplo, estão ligados pessoal ou profissionalmente à protecção e ao desenvolvimento infantil. Encontram-se aí, por ordem alfabética dos primeiros nomes dos autores, os depoimentos de Adalberto Campos Fernandes (médico e ex-ministro da Saúde), Alma Rivera (jurista e deputada), Daniel Oliveira (jornalista e comentador político), Dulce Pontes (cançonetista), Eduardo Sá (psicólogo clínico), Isabel Moreira (jurista e deputada), Lucília Gago (ex-Procuradora-Geral da República), Manuela Grazina (bioquímica e divulgadora de ciência), Mónica Quintela (advogada e deputada), Nini Andrade Silva (decoradora de interiores) e Teresa Ricou (a palhaço do Chapitô). Os outros que me perdoem a omissão dos nomes, mas são muitos.

Os coordenadores quiseram incluir-me neste rol, para além de me terem convidado para ser um dos apresentadores do livro em Coimbra, na companhia de Madalena Alarcão, doutorada em Psicologia Clínica e professora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Isso obrigou-me a lançar um olhar retrospectivo sobre um acontecimento de infância que me tenha particularmente marcado. Não tendo sido fácil, achei que o evento mais marcante da minha infância terá sido a entrada na escola primária, aos seis anos, saindo da esfera da exclusiva protecção familiar para a esfera da protecção partilhada com os professores. Este é, suponho, um momento importante na vida de qualquer pessoa. Se os pais nos dão os genes e a primeira educação, são os professores que, complementando-a, nos transmitem o essencial do património da humanidade. Costumo dizer que nos proporcionam «o melhor da humanidade para que a humanidade possa ser melhor». Intitulei o meu texto «Transições de Fases», indo buscar à minha ciência, a física, uma metáfora para as transformações que experimentamos na vida: em bebé os nossos movimentos são limitados como acontece com as moléculas na fase sólida da água (o gelo), na infância e juventude passam a estar mais soltas, ainda que tenham numerosas interacções, como as moléculas da água líquida, e em adultos passamos a mover-nos com maior liberdade, como as moléculas do vapor de água. Desse meu texto respigo aqui um excerto, com o intuito de chamar a atenção para um livro que constitui um retrato multifacetado de um Portugal já antigo que para além da cidade e dos campos, se estendia pela emigração e pelas colónias africanas, um Portugal onde existiam as reguadas que nunca mais se esquecem.

«Os físicos chamam «transição de fase» às mudanças de propriedades de um sistema, graças ao rearranjo da estrutura, quando muda a temperatura (ou a pressão). Por exemplo, a água passa da fase sólida para a líquida a zero graus Celsius à pressão normal e da fase líquida para a gasosa a cem graus. No primeiro caso, o gelo funde e, no segundo, a água ferve. Uso a metáfora das transições de fase – há quem lhes chame mudanças de estado – para, na minha descrição biográfica, designar a entrada na escola primária, aos seis anos, e a saída da escolaridade aos 26, com a conclusão do doutoramento em Física Teórica na Alemanha. Foram, no total, vinte anos de escola, quase um terço da minha vida até agora. Concentro-me, neste apontamento, no primeiro dos referidos momentos, talvez o mais decisivo na minha infância.

(…)  A memória, quando existe, é uma grande enganadora. E eu nunca tive tendência para a exercitar, olhando muito para o retrovisor da vida. Mas um acontecimento da infância que me ficou marcado na mente foi a entrada na Escola Primária da Voz do Operário, que fica na Ajuda (não confundir com a escola homónima, que fica na Graça). O meu pai levou-me pela mão, confiando-me a uma senhora professora, já com uma certa idade. Naturalmente que chorei baba e ranho, porque o meu progenitor me estava a deixar num lugar que me era estranho, entregue a pessoas que eu não conhecia. Mas, se de início estranhei, depois entranhei. (…) Cada dia em que voltava a casa tinha o cérebro mais crescido. Tal como as moléculas de água, quando a temperatura aumenta, eu estava cada vez mais desenvolto, quer dizer, mais livre.»

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 


Meu artigo recente no As Artes entre as Letras:

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) declarou em 2009 que o dia 5 de Maio passaria a ser o Dia da Língua e da Cultura Portuguesas. Passados dez anos, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) proclamou esse dia como Dia Mundial da Língua Portuguesa. Foi relevante para esse alargamento o papel do então embaixador português na UNESCO, António Sampaio da Novoa.

Qual é o lugar da língua portuguesa no mundo? Na Wikipédia em português, Portugal aparece em quinto lugar na tabela da entrada “Lista de línguas por número total de falantes”, que contabiliza o número de falantes não só de língua materna, mas também de segunda língua. Segundo a fonte usada, o Ethnologue de 2021, 293 milhões de pessoas usam o português, 258 pessoas como primeira língua e 35 milhões como segunda.  À frente do português estão o inglês (1,4 mil milhões de falantes, dos quais 370 milhões falantes de língua materna), o mandarim (1,1 mil milhões, dos quais 921 milhões como língua materna), o hindi (600 milhões, dos quais 342 milhões como língua materna) e o espanhol (543 milhões, dos quais 471 milhões como língua materna). Em todos os casos estão excluídas línguas crioulas.

Se, porém, consultarmos a mesma página em inglês, encontramos dados já atualizados de acordo com o Ethnologue de 2025. A língua portuguesa encontra-se no 8.º lugar, com um total de 267 milhões de falantes, ultrapassada pelo árabe padrão moderno (335 milhões) o francês (312 milhões) e o bengali (284 milhões). O russo está perto do português, com 253 milhões de falantes. Na versão em francês e em alemão da mesma página da Wikipédia, baseadas ambas no Ethnologue de 2022, o russo está à frente do português. Podemos concluir que os falantes de língua portuguesa que editam a Wikipédia (que são principalmente brasileiros) não actualizam rapidamente a informação.

Sobre este assunto, pode-se consultar o Novo Atlas da Língua Portuguesa (bilingue em português e inglês) da autoria de Luís Antero Reto, Fernando Luís Machado e José Paulo Esperança, publicado pela Imprensa Nacional em 2016 com o apoio do Instituto Camões e o patrocínio do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Aí, para além dos dados disponíveis na altura do Ethnologue, apresenta-se uma estimativa própria dos falantes da língua portuguesa. O total, não contando, com a diáspora dos países de língua portuguesa, é de 263 milhões. A base do cálculo é 100% dos residentes em Portugal e Brasil, 80% dos residentes em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau. Moçambique, São Tomé e Príncipe, e Timor-Leste (estes são os países da CPLP). É discutível se 100% dos residentes em Brasil em Portugal e Brasil falam português, mas o número apurado está perto do da Wikipédia em inglês. O mesmo livro avalia em 5,3 milhões o número de luso falantes na diáspora, dos quais 2,3 milhões são portugueses.

É curioso saber a evolução futura dos falantes. O referido atlas informa que, no ano 2100, a população dos países da CPLP vai passar dos actuais 276 milhões para 487 milhões. Este crescimento deve-se sobretudo ao aumento demográfico dos países africanos. O Brasil vai ter em 2100 apenas 200 milhões de habitantes, um pouco menos do que os 208 milhões de hoje, mas África vai ter um aumento notável de 56 milhões para 276 milhões. Isto é, o centro da língua portuguesa de gravidade da língua portuguesa vai estar não no Brasil, mas em África. O atlas também informa que a língua que mais se expandiu desde 1500 foi precisamente a portuguesa. Em Portugal havia nessa altura um milhão de pessoas a falar português e, se hoje há cerca de 265 milhões, o crescimento foi de 1,2% ao ano. O inglês, embora hoje tenha muitos mais falantes, só cresceu 0,93%, ao passo que o espanhol cresceu 0,8%.

O Novo Atlas da Língua Portuguesa é um repositório de dados interessantes sobre a presença do português no mundo. Por exemplo, há dados sobre a presença da língua portuguesa na Internet, em 2015: a primeira língua é o inglês, com 873 milhões de utilizadores, seguindo-se o mandarim, o espanhol, o árabe, e o português, com132 milhões. Era, portanto, a quinta língua mais usada na Internet. Nessa data, o Brasil era o quarto país do mundo com mais utilizadores da Internet, só ficando atrás da China, da Índia e dos Estados Unidos.

O português é uma língua de ciência, embora o possa ser muito mais.  Hoje, a língua de ciência global é, de longe, o inglês. A língua portuguesa tem conhecido alguma afirmação no ciberespaço através do portal SciELO - Scientific Electronic Library Online, um repositório em acesso aberto de artigos científicos não apenas do Brasil, mas também de países latino-americanos, como Espanha e Portugal (Portugal tem uma presença reduzida nesse repositório, até porque tem muito menos investigadores que o Brasil). Pelo seu tamanho populacional, o Brasil tem muito mais investigadores científicos do que Portugal, mas existe um portal de acesso aberto em Portugal, o RCAAP - Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal, que tinha, em 2016, 315 mil documentos. Na minha opinião, uma das maneiras de alargar a presença da língua portuguesa do mundo - mais do que apostar num grande modelo de linguagem com patrocínio governamental – é a promoção da publicação em acesso aberto de artigos em português (ou traduzidos do português para inglês, o que hoje a inteligência artificial permite fazer facilmente). E, também, a digitalização de mais artigos do vasto património cultural em língua portuguesa, que não tenham direitos de autor. Orgulho-me de ter contribuído para isso através da criação do Alma Mater, biblioteca digital de livro antigo da Universidade de Coimbra. Mas muito mais pode ser feito neste domínio…

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...