As descobertas da adolescência
são aventuras sempre muito intensas.
Pomos nelas grande luxo e ardência
e é como vermos Pisas e Florenças!
Destapamos, de olhos muito abertos,
cavernas com escondidas maravilhas:
a luz dos vestidos entreabertos,
os montinhos, no peito, como ilhas!
Tudo o que se descobre, depois,
já nunca mais tem o mesmo fulgor:
são luzes, mas sem a fúria de sóis,
que souberam aquecer-nos com ardor.
No começo, o mundo era uma mulher,
fruta, com novo sumo, que se quer!
Eugénio Lisboa
sábado, 18 de novembro de 2023
AS PRIMEIRAS DESCOBERTAS
A DEGRADAÇÃO DO NOSSO ENSINO PÚBLICO
“Portugal precisa de fazer cidadãos, essa matéria-prima de todas as pátrias”.
1 - As dotações orçamentais têm sido e continuam a ser insuficientes para a importância deste sector na sociedade. Radica aqui a causa dos baixos salários de todos os profissionais de ensino, dos professores e educadores aos agora chamados «assistentes operacionais», passando pelos administrativos, e tudo mais que importa melhorar;2 - Entre nós, uns ministros fazem e outros, logo a seguir, desfazem. O drama é que a escola exige políticas estruturais continuadas. Não se planeia nada, resolve-se tudo na urgência e acrescenta-se cada vez mais burocracia e controle. Os titulares da pasta entram e saem, mas a poderosa e impenetrável "máquina ministerial" tem lugar assegurado até à aposentação, dominando, entre outros, a concepção e elaboração do que eram programas, que foram extintos, e de que restam umas indefinidas e genéricas «aprendizagens essenciais», e dos questionários dos exames nacionais;3 - A preparação de professores tem muito que se lhe diga e o sistema de avaliações, demasiado injusto, não ajuda a elevar o nível do ensino. Avança-se por quotas e não por mérito. Praticamente, nada avalia. Lembre-se que propostas de avaliações a sério têm sido rejeitadas por parte dos muitos que não querem ou receiam ser avaliados. Neste capítulo, os maus professores, que os há e não são assim tão poucos, os tais que recusam as avaliações a sério e veem na Escola um emprego assegurado até à aposentação, têm contado com o apoio dos sindicatos, que põem ao mesmo nível os bons e os maus profissionais;4 - O chorudo negócio das editoras produz e comercializa os manuais escolares, sem uma rigorosa supervisão científica e pedagógica, em disciplinas como geologia, por exemplo. São muitos os que se repetem acriticamente, com noções estereotipadas e, por vezes, com erros, tantas vezes denunciados;5 - Os pais ou encarregados de educação que não estão à altura das suas responsabilidades. Pais e encarregados de educação, já instruídos e educados no pós-Revolução de Abril, a quem a escola deu, igualmente, muito pouco;6 - As escolas empobreceram e os professores são contratados à hora. Os funcionários vêm do Instituto do Emprego e Formação Profissional e são precários e mal pagos. Deixou de haver equipas pedagógicas, com professores de apoio, animadores, psicólogos. Tudo é escasso. Voltou-se às aulas expositivas e às turmas numerosas. Tudo numa permanente política de poupança.7 - A escola progressivamente mais empobrecida, deixou de ser uma "comunidade educativa". É o ministério que define tudo sobre objectivos, matérias e conteúdos. Os agrupamentos de escolas dispõem de uma mecânica que obriga muitos professores a correrem de umas para outras, sem trabalho em equipa. Os professores só se reúnem para dar as avaliações.8 - A carga burocrática que se abate sobre os docentes, em planos, arrevesados descritivos de metodologias e estratégias, «adaptações» de critérios de avaliação e obrigatoriedade de justificações que se traduzem em inflação de classificações para obter sucesso estatístico. Os "bons" professores fazem maravilhas, mas tudo está montado para trabalharem como lhes mandam.
sexta-feira, 17 de novembro de 2023
DE PORTUGAL PARA PARIS: A NATURAL RECOMPENSA PELA FIDELIZAÇÃO OCDEISTA
O mais alto responsável pela educação escolar em Portugal será presidente do Comité de Políticas Educativas da OCDE
“Este comité é responsável pela coordenação de toda a atividade da OCDE na área da Educação. João Costa é o primeiro português a ser escolhido para a função. O mandato, que tem a duração de três anos, inicia-se a 1 de janeiro de 2024 e terminará a 31 de dezembro de 2026”, conforme comunicado oficial do Ministério da Educação.
Cátia Delgado
quinta-feira, 16 de novembro de 2023
LEITURAS ADOLESCENTES QUE DEIXARAM MARCA
A FIGURA DO “DUPLOPENSAR” NA NARRATIVA DA EDUCAÇÃO DO FUTURO
"A transição dos recursos educativos do suporte de papel para o suporte digital está em curso em diversos países, tendo sido acelerada pela pandemia covid-19. Nos discursos de organizações internacionais e de instâncias políticas nacionais que a apresentam, é possível apurar uma dupla tendência: por um lado, fazem sobressair o imperativo da inovação tecnológica, na qual se reconhecem vantagens de diversa natureza; por outro lado, registam vários problemas dela derivados, sobretudo para a aprendizagem, que estudos dignos de confiança confirmam. É neste “duplopensar” que, no presente artigo, se analisa a dita transição, tendo sobretudo por referência a realidade portuguesa e europeia."
segunda-feira, 13 de novembro de 2023
O JUÍZO ESTÉTICO ANTECEDE O JUÍZO ÉTICO
domingo, 12 de novembro de 2023
RETRATO DE MARIANA
Seu amor era feito de recato,
de dedicação, pequenos serviços,
total entrega e suave acato,
de sentimentos fundos mas omissos.
Omnipresença que se apagava,
fogo que ardia e não se via,
chama que, secreta, se atiçava,
silêncio que, tão alto, se ouvia.
Vida feita de gestos recolhidos,
sempre próxima, mas tão sossegada,
contendo sempre a fome dos sentidos.
Porém, quando a morte se fez chegada,
lançou-se à água, em aberto ostento
de amor que fora seu oculto sustento.
Eugénio Lisboa
Mariana é uma das minhas personagens femininas preferidas.
Extraordinária criação de Camilo, num dos seus mais belos livros, Amor de Perdição.
A CORAGEM DE TENTAR SALVAR A ESCOLA PÚBLICA
Presumo que não tenha diplomas em Educação porém, como pessoa comum, revela capacidade de olhar para a Escola Pública e perceber o que é notório: ela não está a cumprir a sua função. Contudo (e aqui está a importância deste texto), é preciso que cumpra.
Muitos "curiosos" e "especialistas" em Educação insistem em declarar a falência da Escola Pública, mas - aqui está a diferença - esta falência é considerada a partir dos interesses que representam. Divergem, no entanto, na solução; adaptar a escola a esses interesses, dizem uns disfarçadamente; acabar com a Escola e criar alternativa, dizem outros claramente.
Quem andou na Escola Pública e a reconhece como um espaço formativo para todos, não pode, mesmo reconhecendo os problemas que a devoram, colocar-se do lado de uns nem de outros, tem de fazer o que estiver ao seu alcance para debelar esses problemas. E falar deles é um passo, diria, corajoso.
"Sou socialista, por ideologia e militância. Sou também filho de professores e um produto da Escola Pública. É por causa desta origem, mas também por um básico desejo de justiça e igualdade, que sinto a obrigação de me pronunciar sobre a dramática situação da Educação no nosso país.
Governar implica fazer opções e ter a coragem de assumir as suas consequências práticas e políticas. A escolha de muitos governos das últimas três décadas, vários deles socialistas, foi tratar a educação como uma questão terciária, um problema a ser procrastinado e nunca resolvido. E quais as consequências da atual linha política, que trata o professor como uma despesa e a escola como um depósito de adolescentes?
O papel da Escola é cada vez mais residual, incapaz de assumir a dimensão formativa (...). Ao desvalorizar os professores e a sua autoridade social e académica, a cobardia das elites políticas desprotege a Escola do reacionarismo social. Os professores, exaustos e continuamente maltratados, [veem] a sua capacidade de moldar os seus alunos diminuir (...).
A democratização da Educação é a principal responsável pela criação da classe média, pela elevação de milhões da pobreza, pelo progresso científico e social, pela criação da própria ideologia meritocrática que muitas vezes a ameaça.
A Educação Pública é a muralha contra o dogmatismo, os preconceitos e todas as formas de radicalismo, razão pela qual foi, e continua a ser, perseguida por fundamentalistas e autocratas.
O atual sistema que enquadra e define a Escola está cansado e doente, ferido pela ignorância e pela apatia daqueles que dela usufruíram (...). Não nos equivoquemos: num mundo crescentemente desigual, onde abunda a falsidade institucionalizada, onde o intelectual e o profundo rareiam, e onde os pais são muitas vezes obstáculos à educação dos seus filhos devido aos seus próprios dogmas e contextos, é a Escola Pública a principal bala de prata da igualdade e da democracia. Acontece que a realidade política e social atual não permite que a Escola Pública cumpra estas missões por falta de pessoal, recursos e visão (...).
Num mundo ideal, uma criança de uma família pobre, atacada por desespero ou fundamentalismo, sairia da escola mais tolerante e esperançosa no futuro, assim como uma criança de uma família rica, contaminada por excesso de privilégio ou arrogância, de lá sairia mais empática e consciente do seu papel na comunidade (...).
Não vivemos num mundo ideal, mas há muito que podemos fazer para caminhar na direção correta, começando por assumir a Educação como um desígnio nacional prioritário (...). Não se admirem que a depressão, a ignorância, a apatia e o egocentrismo se apresentem como flagelos que consomem as nossas crianças: afinal, é o que temos demonstrado com as nossas escolhas e ações.
Essa é a realidade que elas encontram hoje, uma Escola de Sísifos, empurrando os seus rochedos colina acima, condenados a fazê-lo até as suas forças faltarem ou até a democracia falir, moral e civicamente. Está, pois, na altura de ter coragem, e esperar que não seja já tarde demais para salvar a Educação."
Maria Helena Damião
quinta-feira, 9 de novembro de 2023
O ACONCHEGO DAS CERTEZAS
As certezas confortam corações
inseguros e cheios de temor.
Buscam tudo, mitos, religiões,
regimes de dogma e de terror.
Tudo, excepto o desassossego,
que não temem os que sondam mistérios.
Eles preferem o doce aconchego
das certezas dos que têm impérios!
Acreditar, em vez de descobrir
é bem mais suave e sossegado.
Para quê passar noites sem dormir,
desvendando o segredo blindado,
em vez de se acomodar, tranquilo,
em silente postura de pupilo?
Eugénio Lisboa
terça-feira, 7 de novembro de 2023
MAIS PENSAMENTOS SOBRE A GUERRA
Toda a gente, quando a guerra anda no ar, aprende a viver com um novo elemento: a mentira.
Jean Giraudox
Temos o poder de fazer, desta, a melhor geração da humanidade, na história do mundo – ou fazer, dela, a última.
John F. Kennedy
Mas, na guerra moderna… morrerás como um cão, por razão nenhuma.
Ernest Hemingway
A guerra existirá até ao momento em que o objector de consciência gozar da mesma reputação de que goza hoje o guerreiro.
John F. Kennedy
Eu lancei a frase – “A guerra para pôr fim a todas as guerras” – e esse não foi o menor dos meus crimes.
H. G. Wells
Desejamos lei mundial, na idade da autodeterminação – rejeitamos guerra mundial, na idade da maciça exterminação.
John F. Kennedy
A maneira de ganhar uma guerra atómica é fazer com que ela nunca comece.
General Omar Bradley
A paz é não só melhor do que a guerra, mas infinitamente mais árdua.
George Bernard Shaw
O que há de pior, logo a seguir a uma batalha, é uma batalha ganha.
Duque de Wellington (vencedor de Napoleão em Waterloo)
Seleccionadas e traduzidas por Eugénio Lisboa
domingo, 5 de novembro de 2023
O PENSAMENTO LIVRE
FRASE DO DIA
"SE É PRECISO NA PAZ PREPARAR A GUERRA,
COMO DIZ A SABEDORIA DAS NAÇÕES,
INDISPENSÁVEL TAMBÉM SE TORNA NA GUERRA PREPARAR A PAZ."
ROMAIN ROLLAND
Eugénio Lisboa
"Faz tempo que a [nova] filantropia tem gostado bastante de tecnologia"
Na sequência do meu texto anterior.
"Essas fundações geralmente têm uma visão de educação voltada para habilidades práticas e trabalhos, do mercado de trabalho, pensando em desenvolvimento econômico, pensando em um tipo de pessoa que depois vai ser útil para o mercado de trabalho.
E essa perspectiva tem uma coisa bastante individualizante da habilidade, que é o aluno saber fazer a conta, mas também saber se portar, falar, empreender, ser criativo, mas não o criativo social, que questiona os problemas sociais, e sim o criativo da solução de mercado, que consegue abrir uma startup...
E, dentro disso, a tecnologia cabe muito bem porque ela é vista como uma opção geralmente mais em conta. A gente pensa em ter um financiamento bem estruturado, mais robusto, políticas de formação e valorização profissional (...) mas, de repente, do outro lado se fala em um aplicativo que vai melhorar a aprendizagem das crianças porque elas vão ter joguinhos. E isso se torna uma solução mais barata, que vai bem com a visão individualista e de austeridade que essas entidades têm de educação.
Internacionalmente, não só no Brasil, faz tempo que a filantropia como um todo tem gostado bastante de tecnologia (...). Você vê filantrópicas que têm seus investimentos (...) e que, por acaso, pode virar um mercado, pode ter os aplicativos que vendem, os computadores, os tablets...
Aqui no Brasil a gente teve, por exemplo, o caso [do programa] ‘um computador por aluno’, que foi uma solução dos anos 2000 que acharam que iria revolucionar a educação. ‘Vamos dar um computador para cada criança’. Teve empresas que ganharam muito dinheiro vendendo computador. No fim, as crianças usavam os computadores como quem usa um caderno, os professores usavam as lousas e os computadores para fazer anotações e não revolucionou nada porque se a gente não pensa a pedagogia (...) [a tecnologia] não cria muita coisa.
Um outro ponto sobre o qual eu queria falar é que (...) geralmente não cabe todo mundo na política pública. Geralmente, quando alguém ganha proeminência, alguém está perdendo espaço. O que tem acontecido, nos últimos anos, é que essas organizações têm ganhado espaço e quem tem perdido são as organizações de educadores, os sindicatos, os fóruns estaduais e municipais.
Antigamente, a gente via uma reportagem na Globo em que o especialista era o pesquisador, hoje em dia tem alguém de uma fundação.
Uma coisa que a própria Campanha Nacional pelo Direito à Educação tem falado bastante é que só os professores nos municípios, as escolas e secretarias poderiam estar pensando em soluções que também usariam tecnologia, mas que fossem algo decidido e acordado entre os profissionais da área para poder dar essa resposta.
E, lógico, também é preciso comentar que o próprio MEC está completamente ausente dessa discussão. E, nesse vácuo, as fundações têm entrado.
Mas você vê o silenciamento dos profissionais da área. O que se faz pelo professor é dar o plano de aula pronto (…).
Google, por exemplo, começou a ampliar a cobertura educacional, deixou os pacotes de graça. O próprio zoom, que era pago depois de 40 minutos de ligação, de repente passou a ser de graça, um monte de escola começou a usar o zoom. A Microsoft fez isso naquela época do ‘um computador por aluno’, a Intel pegou um pouco disso também... É uma criação de mercado e tem um tanto de marketing, de fidelização, a criança vê aquela marca desde sempre...
O mercado da educação é muito polpudo, tem muito dinheiro, principalmente estatal.
Quanto à relação entre, por exemplo, o Google e as fundações, eu acho que não tem competição. No Brasil essas fundações têm uma abordagem bastante cooperativa. Existe um trabalho demarcado: uma é mais voltada para o ensino médio, se é sobre competências socioemocionais é mais o Instituto Ayrton Senna, se é sobre desenvolvimento infantil, é outra... Eles não entram muito um no lugar do outro. E aí uma Google, até onde eu tenho percebido, consegue de uma maneira muito rápida entrar nesse mercado, ver os atores que já estão ali naquele país e abordá-los, fazer parcerias que não entram em competição.
Acho que foi em 2015, 2016, que a Fundação Lemann com a [Revista] Nova escola, fez parceria com a Google para ter uma plataforma com planos de aula. Então, a Google, quando chega aqui, não chega sozinha, mas com uma fundação influente. Um fortalece o outro".
Maria Helena Damião
SOBRE A RESPONSABILIDADE DE EDUCAR NOS SISTEMAS DE ENSINO PÚBLICOS
sábado, 4 de novembro de 2023
GENTE ZANGADA
28 países assinam declaração conjunta para atenuar riscos da Inteligência Artificial (IA)
- “para o bem de todos, a IA deve ser concebida, desenvolvida, implantada e utilizada de forma segura, centrada no ser humano, fiável e responsável”;- “é necessário abordar a proteção dos direitos humanos, a transparência e a explicabilidade, a equidade, a responsabilidade, a regulamentação, a segurança, a supervisão humana adequada, a ética, a atenuação dos preconceitos, a privacidade e a proteção dos dados”;- “Registamos igualmente a possibilidade de riscos imprevistos decorrentes da capacidade de manipular conteúdos ou de gerar conteúdos enganadores”;- “As capacidades mais significativas destes modelos de IA podem causar danos graves, ou mesmo catastróficos, intencionais ou não”;- “embora a segurança deva ser considerada ao longo de todo o ciclo de vida da IA, os intervenientes que desenvolvem capacidades de IA de ponta, em particular os sistemas de IA que são invulgarmente poderosos e potencialmente prejudiciais, têm uma responsabilidade particularmente forte de garantir a segurança desses sistemas de IA, nomeadamente através de sistemas de testes de segurança, de avaliações e de outras medidas adequadas”.
UM PENSAMENTO PARA ESTA GUERRA
Por Eugénio Lisboa
MORE THAN AN END TO WAR, WE WANT AN END TO THE BEGINNING OF ALL WARS, YES, AN END TO THIS BRUTAL, INHUMAN AND THOROUGHLY UNPRACTICAL METHOD OF SETTLING DIFFERENCES BETWEEN GOVERNMENTS
(MAIS DO QUE UM FIM DA GUERRA, DESEJAMOS UM FIM DO COMEÇO DE TODAS AS GUERRAS, SIM, UM FIM DESTE MÉTODO BRUTAL, INUMANO E NADA PRÁTICO DE RESOLVER DIFERENÇAS ENTRE GOVERNOS.)
Franklin D. Roosevelt
sexta-feira, 3 de novembro de 2023
HOMENS E FORMIGAS
Os gatos, que eu saiba, não fazem guerras.
Só fazem guerras homens e formigas.
Os gatos, mesmo selvagens das serras,
só caçam ratos, fome a quanto obrigas!
Homens e formigas armam exércitos,
organizando arte de matar milhares.
Tanta gente que morre causa vómitos
e faz-te, em horrores, abismares!
A morte, organizada e calculada,
a morte fabricada e alinhada,
com vistosa matança conseguida,
é só própria de gente fratricida
ou de formigas muito bem treinadas:
guerreiras à loucura algemadas!
Eugénio Lisboa
O ACRESCENTADOR DE AZUL
O escritor Mário de Sá-Carneiro escreveu em 1914 um conto de ficção
científica, intitulado A Estranha Morte do Professor Antena, no qual faz
um grande elogio da ciência: “Com efeito um grande sábio cria – imagina tanto
ou mais do que o Artista. A Ciência é talvez a maior das artes – erguendo-se a
mais sobrenatural, a mais irreal, a mais longe em Além. O artista adivinha. Fazer
arte é prever. Eis pelo que Newton e Shakespeare, se se não excedem, se
igualam.” É curioso que, no mesmo ano de 1914, tenha publicado a sua primeira
obra de poesia, Dispersão, revista pelo seu amigo Fernando Pessoa, onde
consta o poema “Quase”, que também fala em além: “Um pouco mais de sol - eu era
brasa, / Um pouco mais de azul - eu era além.”
Pois foi esta bela expressão Um Pouco Mais de Azul que o editor da
Gradiva, Guilherme Valente, resolveu adoptar para título do primeiro livro
publicado pelo astrofísico franco-canadiano Hubert Reeves, que infelizmente acaba
de nos deixar aos 91 anos. O livro, o n.º 2 da colecção “Ciência Aberta,” saído
em 1983 com o subtítulo A Evolução Cósmica, conheceu um êxito estrondoso
em Portugal, tal como em todo o mundo: vendeu globalmente mais de um milhão de
exemplares em mais de 30 línguas. E foi um êxito bem merecido, pois o autor
conseguiu, como poucos, apresentar a história do Cosmos – averiguada pela
ciência – usando uma sedutora linguagem poética. O livro fez-nos sentir que
somos parte do Cosmos. Os átomos de que somos feitos vieram, na sua maioria,
das estrelas. Tanto quanto sabemos, somos a única espécie que consegue perceber
a unidade na complexidade do vasto espaço sideral. Como bem explica Reeves,
quando olhamos para as estrelas, estamos a olhar para as nossas raízes
cósmicas. Depois de o lermos, ficamos com uma consciência mais alargada do céu,
que associamos ao azul. Ele acrescentou, com esse seu livro, «um pouco mais de azul»
nas nossas vidas.
Um Pouco Mais de Azul saiu no original nas Éditions du Seuil em 1981. O
título francês – Patiente dans l’Azur – provinha não de Mário de
Sá-Carneiro, mas de um outro grande poeta, Paul Valéry. Foi retirado do poema
“Palme” do seu livro Charmes (1922). Em tradução livre o excerto poético
diz: “Paciência, paciência,/ paciência no azul! Cada átomo de silêncio/ É a
hipótese de um fruto maduro!” Na Introdução de Um Pouco Mais de Azul,
intitulada “A montanha e o rato” (que ele explica assim: “A história do
Universo é, grosso modo, a história da montanha que pariu um rato.»), diz
por que se lembrou de Valéry: “Paul Valéry, estendido nas areias quentes duma
laguna, olha para o céu. No seu campo de visão as palmeiras balançam
lentamente, amadurecendo os frutos. Está à escuta do tempo que lentamente leva
a cabo a sua obra. Esta escuta, podemos explicá-la e aplicá-la ao Universo. Com
o correr do tempo desenvolve-se a gestação cósmica. Em cada segundo, o Universo
prepara qualquer coisa. Ele sobe lentamente os degraus da complexidade.” E Reeves
continua imaginando um Paul Valéry assistindo ao aparecimento dos primeiros
átomos e das primeiras células. Comenta: “Para as primeiras células, teria
composto uma ode”. Comos e vê, Reeves junta ciência e poesia de uma maneira
singular. Porque, como Mário Sá-Carneiro intuiu antes dos modernos avanços
astrofísicos, ciência e poesia estão mais ligadas do que se pensa. Tanto o
cientista como o poeta precisam de uma grande imaginação. Poder-se-á pensar que
o cientista tem uma imaginação limitada pela «imaginação da Natureza». Mas a
Natureza tem revelado uma «imaginação» extraordinária, que nos desafia
permanentemente.
Ler Reeves é penetrar na imaginação da Natureza. Um Pouco Mais de Azul,
esgotado há muito, depois de se terem vendido todos os exemplares da 7.ª edição
(de 2013), vai em breve estar de novo à disposição dos leitores nacionais,
porque a mensagem do autor não perdeu de modo nenhum actualidade. Na colecção
“Ciência Aberta”, que tenho a honra de dirigir desde o n.º 200,” Reeves é,
devido ao continuado interesse dos leitores, o autor com mais títulos
publicados. Depois do n.º 2, seguiram-se o n.º 13 (A Hora dos Deslumbramento),
o n.º 43 (Malicorne, Reflexões de um observador da Natureza), o n.º 73 (Poeiras
de Estrelas, ilustrado a cores), o n.º 78 (O Primeiro Segundo), o n.º
104 (Aves, Maravilhosas Aves), o n.º 155 (A Agonia da Terra, uma
entrevista a Frédéric Lenoir), o n.º 163 (Crónicas dos Átomos e das
Galáxias”, do n.º 185 (Já não terei tempo, as suas memórias, que
incluem uma foto onde estou a seu lado, numa visita que ele fez a Coimbra em
1998) e o n.º 205 (Onde cresce o perigo surge também a salvação). Em breve
vai sair, ainda na mesma colecção, o livro Eu Vi Uma Flor Selvagem. O Herbário
do astrofísico, que dá conta do seu profundo interesse pelas plantas. De
facto, ele e a sua mulher compraram uma
casa na Borgonha, no sítio de Malicorne, onde não só podia passear sob árvores
centenárias como apanhar as flores que irrompem do solo. Escreveu no seu livro Malicorne:
«Tenho uma grande paixão por estas árvores. Que me sobreviverão por muito tempo
(sairei do túmulo para as proteger se alguém tiver a ousadia de querer cortá-las!)
O facto de ser responsável pela sua existência dá-me um prazer infinito.»
Hubert Reeves é não apenas um apaixonado pelo Cosmos, mas também um
apaixonado pela Natureza. Ele sabe bem que a Natureza veio do Cosmos. O físico
com ar de poeta – calvo, de barbas brancas e olhos azuis – que nos encantou
comas histórias do espaço é também um ecologista, que nos inquieta com a
«agonia da Terra». Ele lembra-nos que somos – devíamos ser – a consciência da Natureza.
Devemos respeitar a Natureza, cujo tempo é bastante maior do que o nosso. No
seu livro Onde cresce o perigo surge também a salvação (verso do poeta
alemão Friedrich Hölderlin), dedicado à associação Humanité et Bioversité, a
que ele presidia, cita um velho provérbio chinês: «É em vão que bate nas
pétalas de um botão de flor para o fazer florir mais depressa.»
Reeves morreu. Mas os seus livros continuam vivos. Leiam-nos porque ele, esteja onde estiver, ficará feliz por continuar a acrescentar azul às nossas vidas.
Não cheira a Liberdade…cheira a pús, necrose e excrementos.
É de conhecimento
geral que o Cirurgião Geral, desde tempos imemoriais de Barbeiro Cirurgião, se
move no meio dos humores: necessariamente pús, necrose e excrementos. Ainda há
quem se disponha a fazê-lo com orgulho.
Sempre que necessário, estes médicos operários
(operadores segundo doentes e ou colegas com menos escolaridade) realizam
horário extraordinário no Serviço de Urgência e em outras valências (bloco
operatório, consulta, internamento). São daqueles Médicos antiquados que operam
os doentes e desejam acompanhá-los, observá-los no internamento, avaliar com as
mãos, saber como se sentem, perceber o seu sofrimento, estar lá, falar a mesma
linguagem. Olham mais para o doente do que para o relógio. Não ouvem o seu estomago
roncar, não atendem impreterivelmente o telefone ao conjugue que o espera do
outro lado. São estes seres sem limites, praticantes do desporto radical que é
ser médico no SNS no século XXI.
Estes médicos ensinam e estão rodeados de aprendizes
que raramente se preocupam excessivamente com o excesso incomensurável de horas
extraordinárias realizadas. As horas extraordinárias são encaradas como
solidariedade para com os colegas, com intuito formativo, e mesmo como dever devido
a constrangimentos organizacionais tais como – a “impossibilidade” em
dimensionar um Serviço de Cirurgia para garantir o número de médicos necessários
para assegurar a qualidade de um serviço de urgência.
Estes médicos vão cumprindo com vontade e dedicação as
tarefas que lhes são propostas, dedicam-se, como a generalidade dos colegas,
com abnegação. Até que um dia param! Param para pensar, fazer contas às horas
dedicadas para lá do humanamente aceitável e tecnicamente aconselhável. Param
refletem e juntam-se ao movimento Médicos em Luta, sindicalizados ou não. Decidem
entregar, em pleno exercício da sua liberdade, a recusa em realizar
horas extra, em conformidade com o limite legal de 150 horas anuais, sob a
forma de um documento escrito. As 150 horas anuais são rapidamente realizadas
em cerca de três ou quatro meses. Um turno de urgência, para um Interno (em
formação) é de 12h, contudo é habitual a partir do do 4.º de 6 anos fazer 24h;
um cirurgião especialista tem em contrato 18h ou 24h normais, sendo que a
jornada de trabalho na urgência é de 24h, ninguém faz 18h, por uma questão
pragmática. A esta jornada desenfreada segue-se (não há muito tempo – foi um
“direito” recente) de um descanso de 6 a 8h. Os blocos são de 6 a 12 horas de
jornada contínua e numa tarde de consulta observam-se, na melhor das hipóteses,
20 doentes com consultas teoricamente de 15 minutos. Será legítimo pedir o mesmo
a um senhor jornalista? A um carpinteiro? A um operário fabril? A um piloto? São
estes os Médicos que no SNS recebem os acidentes de viação, às 5h da manhã, e
que nesse momento com 22h acumuladas estão como equivalente a uma taxa rime de
alcoolémia. Deseja isso par asi, para os seus familiares? Eu não!
Aqui começa o odor…. algum bafio mas que a generalidade
de nós desconhece. É um cheiro que não se entranha nem nos pára, pois grande
parte de nós nasce após 1974. Ingenuamente, democracia, liberdade, igualdade de
género são dados adquiridos por esta geração de médicos obreiros, com grande
reverência para com as gerações prévias que lutaram por estes direitos. Portanto,
nós somos aqueles que sempre que encontramos um desvio a estes princípios -
para connosco, um colega ou para a classe inteira – consideramos ter o dever de
o denunciar e garantir que não se repita. Os desvios a estes princípios têm
sido inúmeros e sinuosos, merecedores de queixas a entidades para tal
indigitadas. Por vezes ocorre-nos se seria mais simples continuar a trabalhar todas
estas horas, numa espécie de alienação coletiva: era mais prático, mais útil,
meter a cabeça debaixo do jugo do carro de bois, mas paramos para pensar. Estamos
exaustos, muito! Esta é a nossa vida, a nossa profissão a nossa luta. Vários
Serviços de Cirurgia Geral estarão fechados à Urgência. Até quando? Não
saberemos…
Talvez até deixarmos de ouvir um “SIM, MAS…” Uma ameaça velada a quem diz SIM diariamente, com orgulho e abnegação, a quem paga do seu (parco) bolso para publicar em revistas indexadas, a quem paga do seu (mediano) bolso cursos que custam milhares de euros (por vezes um salário inteiro), a que diz que sim, dando a cara e o seu esforço incondicional por todos os portugueses.
Isabel Marques
E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?
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