terça-feira, 24 de junho de 2014

NOVA EDIÇÃO DE "CIÊNCIA PARA MENINOS EM POEMAS PEQUENINOS"



Regina Gouveia foi professora de Físico-Química, deixou uma obra pedagógica notável, e está agora aposentada. É a autora do blogue “Do Caos ao Cosmoshttp://docaosaocosmos.blogspot.pt/  Gosta de escrever poesia de base científica (um pouco à maneira de António Gedeão, o pseudónimo poético de Rómulo de Carvalho, também ele professor de Físico-Química numa escola secundária). Alguns desses poemas dirigem-se aos mais pequenos. É o caso de  Era Uma Vez… Ciência e Poesia no Reino da Fantasia, Palavras & Rimas (2013), recomendado para o 2.º ano pelo Plano Nacional de Leitura,  Breve História da Química, 7 Dias 6 Noites (2011), que saiu no Ano Internacional da Química, e  Pelo Sistema Solar Vamos Todos Viajar, Editora Gatafunho (2010). Agora, na Primavera de 2014, saiu, finalmente numa grande editora (a Porto Editora), com capas duras e excelente aspecto gráfico uma das suas colecções de poemas infantis: “Ciência para meninos em poemas pequeninos”, com ilustrações do filho Nuno Gouveia, tal como tinha já acontecido com alguns livros anteriores. Contém um poema por página, em letra gorda, sempre com bonitas ilustrações alusivas. Quem quiser ler um  poema  ilustrado, pode ler este sobre a “Chuva”:  http://recursos.wook.pt/recurso?&id=9644999

É um livro encantador onde se pode aprender, em tenra idade, alguma ciência com a sensibilidade  e a imaginação que só a poesia podem proporcionar. De facto, este livro já tinha saído em 2010 numa edição de capa mole na editora  Ana Paula Faria (colecção Ciência e Poesia de Mãos Dadas). Mas a nova edição  de capa dura e formato maior (distingue-se nas livrarias por ter um buraco no meio da capa com a palavra “Histórias” desenhada), além de chegar a faixas maiores do mercado, foi feita para durar. Servindo-se dela professores e pais podem mostrar aos pequeninos que ciência e poesia são aliadas na busca do conhecimento.


- Regina Gouveia, “Ciência para meninos em poemas pequeninos”, ilustrações de Nuno Gouveia, Porto Editora, 2014.

A ALGA QUE QUERIA SER FLOR


Ana Cristina Tavares é doutorada em Biologia – Fisiologia Vegetal pela Universidade de Coimbra e foi durante muitos anos responsável pelo Serviço Educativo do belo Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. Tem um diploma de pós-graduação em  educação em jardins botânicos outorgado pelo famoso Jardim Botânico Real de Kew no Reino Unido. Publicou pela Imprensa da Universidade de Coimbra dois guias ilustrados desse jardim, Ritmos do Jardim Botânico (2011) e, em colaboração, Plantas Aromáticas e Medicinais do Jardim Botânico (2010).

“A Alga que queria ser flor” é um livro infantil, em edição bilingue (português e inglês) que foi publicado graças  apoio do Inquire, um programa da União Europeia. A história, comentada com a ajuda das ilustrações, é muito simples: Dois meninos vão ao jardim botânico e ouvem a  a história de uma alga de um laguinho, cujo sonho era ser flor. A alga pediu ajuda à D. Botânica  Esta transformou-a primeiro em musgo, depois em feto, depois em pinha e, finalmente, em flor. Esta história, que é afinal a da evolução botânica, é documentada com algumas imagens do Jardim Botânico de Coimbra, para além das ilustrações. De certo modo  está ali a evolução vegetal! E, para ver se os pequenos leitores aprenderam, no final estes são convidados a responder a algumas questões e a escreverem ou desenharem eles próprios uma pequena história.

Recomenda-se desde o jardim de infância até ao 1.º ciclo do básico, podendo e devendo ser utilizado com uma visita ao botânico. E não se diga que o livro não se encontrar.  Existe o livro electrónico, gratuito, aqui:

E uma vez que o livro é bilingue (a edição inglesa começa na contracapa na edição em papel, a edição em inglês também está acessível. Aqui:


- Ana Cristina Tavares, “A Alga que queria ser Flor”, com ilustrações de Joana Barata, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Prefácio à edição portuguesa do livro "A Partícula no Fim do Universo"


Prefácio à edição portuguesa do livro "A Partícula no Fim do Universo" de Sean Carroll, que muito em breve vai sair na Gradiva, intitula-se "Portugal e a Física numa descoberta dedicada ao Futuro da Ciência em Portugal". São seus autores José Mariano Gago, Amélia Maio e João Varela (agradecemos à editora a gentil cedência do texto em pré-publicação):

 Este livro conta a história de uma descoberta científica extraordinária. Trata‑se, contudo, de um episódio apenas, e apenas num dos domínios das ciências físicas, embora de tanta importância que dele continua a brotar uma renovada visão do nosso mundo material, das suas origens e do seu devir.

 Data do século XIX  a descoberta de que a electricidade e o magnetismo são manifestações de um mesmo fenómeno, a que chamamos electromagnético. Essa compreensão nova traduziu‑se em equações e, portanto, na capacidade de prever fenómenos, inventar e desenvolver técnicas novas, desde a produção e transporte de energia eléctrica às telecomunicações e a toda a química moderna. No século XX, a descoberta da radioactividade natural e dos raios cósmicos e a progressiva descoberta e compreensão dos constituintes fundamentais da matéria e das interacções entre eles desenvolveram‑se apenas a partir do quadro conceptual completamente inovador que a teoria da relatividade e a mecânica quântica vieram proporcionar. 

Nos anos 60 do século XX entendeu‑se que a «unificação » da electricidade e do magnetismo num mesmo quadro interpretativo era possivelmente um modelo mais geral no qual cabia a «unificação», talvez, de todas as outras interacções conhecidas. Depois de muitas tentativas, um passo nesse sentido foi a construção de um modelo  coerente do campo electromagnético e das interacções «fracas » (que se manifestam, por exemplo, no decaimento radioactivo). Esse modelo previa a existência de novas partículas (W e Z, entretanto descobertas efectivamente no CERN, Organização Europeia de Física de Partículas) e obrigava ainda à incorporação nas equações de um «campo» ainda desconhecido a que deveria corresponder uma partícula observável. 

O livro trata, pois, da história dessa partícula imaginada, a que hoje se chama (por razões nele explicadas) o «bosão de Higgs», e da sua efectiva descoberta ao fim de um esforço experimental mundial sem precedentes na ciência.

 Ao longo de mais de vinte anos, milhares de físicos e de engenheiros, milhares de estudantes, centenas de instituições e países de todo o mundo juntaram‑se na invenção e desenvolvimento de novas tecnologias, na operação do acelerador e colisionador de partículas mais eficaz e potente alguma vez construído, de detectores impressionantes, e de métodos inteiramente novos de extrair, seleccionar, partilhar e interpretar gigantescos volumes de dados experimentais adquiridos. 

O CERN, organização científica intergovernamental europeia criada em 1954 sob a égide da UNESCO e hoje de âmbito mundial, surge‑nos como um dos melhores exemplos de sucesso de uma Europa como a desejaríamos: aberta e apostada no conhecimento. 

Em 1990 foram apresentadas propostas de experiências capazes de revelar, ou de infirmar, a existência do «bosão de Higgs» no novo colisionador de protões do CERN (designado por LHC). Foi o início de um longo percurso seguido por cientistas do LIP (Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas, criado em 1986,  no seguimento da adesão de Portugal ao CERN) que desde o início se associaram às experiências ATLAS e CMS, no LHC. No total, cerca de dez mil cientistas do mundo inteiro trabalharam para estas experiências, na maioria europeus (incluindo portugueses, bem entendido), mas também americanos e russos em grande número, e japoneses, chineses, canadianos, iranianos, indianos, turcos, israelitas ou palestinianos, cientistas de mais de duas centenas de nacionalidades e de todos os continentes, sem reservas ou restrições geopolíticas. Tiveram de ser reinventadas novas formas de organização e de funcionamento. O CERN constituiu‑se, mais ainda do que no passado, numa verdadeira organização científica mundial capaz de promover os valores da cooperação pacífica. 

Foi preciso inventar ímanes supercondutores capazes de fornecer um campo magnético suficientemente forte para manter em trajectória circular os protões ao longo dos 27 kms de perímetro do LHC. Foi necessário projectar e construir o maior sistema de criogenia jamais imaginado capaz de manter os milhares de ímanes no túnel do LHC a uma temperatura vizinha do zero absoluto com hélio superfluido. 

Foi necessário inventar novos materiais: por exemplo, o cristal de tungstanato de chumbo para detectar electrões e fotões energéticos, constituído a 98 por cento de metais pesados, mas transparente. Foi preciso desenvolver novos fotodíodos para a detecção das emissões de luz de baixíssima intensidade geradas nestes cristais. Para detecção de partículas ionizantes foi preciso desenvolver fibras ópticas cintilantes e WLS (deslocadoras do comprimento de onda) flexíveis e resistentes à radiação. 

Tornou‑se necessário inventar uma tecnologia de microchip capaz de suportar doses enormes de radiação no seio  dos detectores, muitas ordens de grandeza acima da radiação a que os circuitos nos satélites estão sujeitos, por exemplo. 

Foi ainda preciso projectar e construir sistemas electrónicos novos, instalados em centenas de armários com milhares de módulos e interconectados por dezenas de milhares de ligações ópticas, para fazer a leitura de dados das colisões todos os 25 bilionésimos de segundo. 

Foi indispensável construir detectores únicos e excepcionais: ATLAS, com a altura de um prédio de dez andares e o comprimento de meio campo de futebol; CMS, com o peso da torre Eiffel, integrando dezenas de milhões de sensores posicionados com precisão micrométrica. 

Inventou‑se um novo conceito de computação, o GRID, capaz de federar computadores em centenas de centros de cálculo de instituições científicas em todo o planeta de modo a poderem processar os dados recolhidos. 

O que motivou esta comunidade de cientistas a lançar‑se com entusiasmo num desafio científico e tecnológico de tão excessiva complexidade? Para além do orgulho próprio de um grupo de físicos e engenheiros capaz de realizações tecnológicas «impossíveis», esta comunidade moveu‑se pela convicção profunda de que o LHC iria trazer algo de muito importante para a ciência. Nos seus anos de universidade, muitos dedicaram muitas horas a tentar compreender os mistérios quânticos e a estudar o legado de Einstein. Maravilharam‑se com o percurso da física de partículas no século XX. São apaixonados da física que dedicaram muito das suas vidas a estas experiências porque sabem que há segredos da natureza a que o LHC pode dar acesso. O mesmo se passa, naturalmente em todas as ciências e em todo o progresso científico. O sucesso de um longo esforço em física pertence também à comunidade científica no seu conjunto, porque representa um progresso dos valores da ciência, e diz respeito à sociedade toda, que encoraja e apoia o desenvolvimento científico e acredita nos seus cientistas. 

Através do LIP, Portugal participa no programa experimental no LHC desde o seu início, em 1992. O LIP congrega o esforço nacional de física experimental de partículas, instrumentação associada e aplicações directas à investigação biomédica ou à pesquisa espacial. São associados do LIP as Universidades de Coimbra, Lisboa e Minho e o IST (Instituto Superior Técnico), além da ANIMEE (Associação Nacional de Indústrias de Material Eléctrico e Electrónico) e da FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia). São também membros do LIP professores de outras instituições de ensino superior nacionais e estrangeiras, politécnicas e universitárias. 

Consequência directa da adesão de Portugal ao CERN em 1985 e da internacionalização científica do país, a participação nacional no LHC nos últimos vinte anos é um dos casos de sucesso da ciência em Portugal. A contribuição portuguesa, traduzida em resultados científicos e em posições de liderança a vários níveis das colaborações CMS e ATLAS, está acima da média. O LIP foi responsável pela construção de componentes significativas dos detectores, e tem a enorme responsabilidade de as manter em funcionamento. Alguns dos seus cientistas integraram directamente as equipas que analisaram os dados e revelaram a existência do bosão de Higgs. Várias indústrias nacionais forneceram componentes e serviços para o LHC e para os seus detectores, adquirindo competências e mercados novos. Centenas de jovens engenheiros integrados nos projectos tiveram oportunidades únicas de formação e várias dezenas de novos doutorados em física são hoje capazes de liderar projectos tecnológicos complexos, como exigido na indústria moderna.

Esta é também uma ocasião para prestar homenagem à centena e meia de físicos, engenheiros e estudantes de investigação portugueses que nos últimos vinte anos, de alguma forma ou nalgum período, colaboraram no esforço nacional para este imenso empreendimento. Deve‑se a estes actores anónimos, do LIP e de outras instituições científicas e instituições de ensino superior, contribuirmos de forma visível e reconhecida para esta aventura científica extraordinária. 

O LHC realizou as primeiras colisões à energia de 7 TeV em Março de 2010, mas só em 2011 reuniu um volume significativo de dados. Em 2012 a energia do acelerador subiu para 8 TeV. Uma vez os detectores afinados, o desafio para os experimentalistas em CMS e ATLAS consistiu então na análise de gigantescos volumes de dados correspondentes a algumas dezenas de biliões de interacções registadas. Objectivo: encontrar as poucas centenas de colisões em que possivelmente tivessem sido criados bosões de Higgs. 

O «Modelo‑Padrão » prevê que o Higgs se desintegre, dando origem a outras partículas. As pesquisas de eventos com dois fotões ou dois bosões ZZ ou WW eram as mais promissoras. Entre Março e Junho de 2012 as experiências tinham acumulado uma estatística equivalente à que tinha sido conseguida em 2011. Depois da campanha de 2011 sabíamos que, a existir, o Higgs teria massa entre 114 e 127 GeV. De forma a evitar qualquer possibilidade de enviesar os resultados, em 2012 a optimização das análises foi feita com dados simulados ou com dados reais em zonas de controlo, sem poder ver ou antecipar o resultado nesta região de massa, um procedimento designado por blinding. O dia 15 de Junho foi um dia de emoção na experiência CMS. Os resultados finais dos eventos com dois fotões ou quatro leptões foram revelados de manhã por jovens investigadores, e entre eles investigadores do LIP, que tinham passado a noite anterior a correr as análises e a refazer os gráficos sem aquele procedimento. Foi para nós o momento da «descoberta». O entusiasmo e empenho dos jovens investigadores de ATLAS foram idênticos, e simultâneos, na aventura da descoberta do Higgs a decair em dois fotões ou em ZZ ou WW, processo para o qual jovens investigadores portugueses de ATLAS contribuíram directamente.

 A conferência internacional da física de partículas (ICHEP) começaria a 4 de Julho em Melbourne, na Austrália. De comum acordo entre as colaborações ATLAS e CMS, a direcção do CERN e os organizadores da conferência ICHEP foi decidido que os resultados seriam apresentados pela primeira vez num seminário no CERN, tal como é tradição neste laboratório para todos os seus resultados, retransmitido para ICHEP à hora da sessão de abertura da conferência. O seminário a 4 de Julho de 2012 começou às 9h00 em Genebra (8h00 de Lisboa) quando eram 18h00 em Melbourne. 


A descoberta do bosão de Higgs foi um marco científico muito importante. Mas foi também «apenas» mais um marco numa longa trajectória. A pesquisa das propriedades do Higgs continua. Muitas das perguntas que a física colocava há trinta anos continuam sem resposta e as motivações para o prosseguimento do programa experimental do LHC permanecem abertas. Os esforços e resultados das ciências físicas nas últimas duas décadas, nas áreas interdependentes das partículas, astrofísica e cosmologia, deram‑nos novos conhecimentos mas simultaneamente adensaram os mistérios. Sabemos mais, mas também conseguimos hoje identificar muito mais perguntas para as quais não temos resposta. 

Continuamos sem saber se há simetrias adicionais na Natureza por revelar ou se o espaço‑tempo tem mais dimensões do que as que se conhecem, embora ambas as possibilidades conduzam a explicações plausíveis para dificuldades teóricas que parecem sugerir uma «nova física» para além do «Modelo‑Padrão » actual. 

À matéria escura necessária para compreender a rotação das galáxias juntou‑se a energia escura para justificar a expansão acelerada do universo observada nas medidas de supernovas. Sabemos que, em conjunto, representam talvez 96 por cento do Universo, mas ignoramos o que sejam. 

A tabela das três famílias de constituintes elementares da matéria completou‑se com o quark top descoberto no Tevatron (nos Estados Unidos) em 1995, mas continuamos sem perceber a razão de ser destas três famílias. 

O LHC vai certamente ajudar a compreender alguns destes mistérios. A observação do bosão de Higgs marca o início de um programa sistemático de pesquisas de nova física na fronteira do conhecimento actual. 

Outros avanços científicos neste domínio virão certamente de outras iniciativas corajosas, como a construção de grandes telescópios, sondas em satélites, observatórios de raios cósmicos ou de matéria escura, ou ainda de aceleradores e detectores inovadores. 

Esta é, contudo, apenas uma parte da aventura actual do conhecimento humano a que chamamos Ciência e para a qual todas as áreas científicas, todos os domínios, todo o conhecimento, contribuem. 

Nas últimas décadas, Portugal venceu finalmente o essencial do seu secular atraso científico. O seu destino como país depende hoje, de forma decisiva, do progresso cultural e científico que alcançar e da vontade de aprender da sociedade inteira.

 Possa esta pequena história de um sucesso científico da humanidade inspirar os mais novos a quererem aprender mais e a sociedade a defender o futuro da ciência em Portugal.

 José Mariano Gago, Professor do IST e presidente do LIP

Amélia Maio, Professora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (CFNUL) e responsável do LIP pela participação portuguesa na experiência ATLAS

João Varela, Professor do IST e responsável do LIP pela participação portuguesa na experiência CMS (e porta‑voz adjunto de toda a experiência CMS em 2012‑13)

Ó FREGUESA, VENHA CÁ!


Crónica da escritora Cristina Carvalho:

Tanta ovelha, tanta cabra e mais galinhas daquelas que põem ovos de vários calibres que vão do S ao XL, muitos porcos, muito gado variado - uns a relinchar outros, outros a balir, a cacarejar, uma barulheira dos infernos! Muita couve, muita cenoura, muita alface, muita flor, muito saco de plástico e o mau cheiro, muito mau cheiro como se acordássemos neste terreiro por volta de 1740 no tempo em que Lisboa, essa luminosa sereia das águas do Tejo, era conhecida pela fermosa estrebaria e que se não fosse o terramoto, se calhar ainda estávamos a chafurdar numa ensolarada e muito bem conservada praça-monumento, sala de visitas da capital. É que vamos ter, novamente, o já célebre e afamado Picnicão do Continente! Lembro-me do ano passado, de ler no jornal e ver na televisão como esta praça se transformou, logo a seguir ao famoso picnicão, num belo e arejado jardim do lixo. Cascas de amendoim, cascas de tremoço, o caroço da azeitona e as garrafas de cerveja, papéis lustrosos, brilhantes, de variadas marcas de bolachas e de chocolates, beatas aos milhões – refiro-me a pontas de cigarros, bem entendido! – lenços de papel amarfanhados, caricas, rolhame de garrafas de vinho, escarros secos no chão, folhas de couves, fruta apodrecida cheia de nódoas negras pelos pisões que levou, os carrinhos das bifanas mais seu aroma a subir, a subir em espirais de fumo azulado direito ao céu limpo de Lisboa. Foi então que finalmente, nesta tarde de bem-querer, apareceu Tony Carreira a cantar num palco grande e amplo e toda a gente a vibrar num delírio de espantar!

Isto sim! Valeu a pena, sim senhora, entrar nessa camioneta, viajar tanta auto estrada, levantar de madrugada, enrouquecer ao sol pôr, de tanto e tanto cantar! De tanto e tanto aplaudir chega a doer-me mãos, seca-se-me a boca antiga, mas que festa! Maravilha! É isto que a gente quer, tudo o resto não interessa, alguém faz com que eu me esqueça, alguém quer só que eu me esqueça, é tudo para o nosso bem. Esganiçarmo-nos como os galos, espreitar a fruta e o peixe, bom convívio, salutar, e lá por trás o Continente sempre e sempre a zelar! É tudo a zelar por nós, dos teus pais aos teus avós. Mesmo o cheiro pestilento não tem importância nenhuma, amanhã é outro dia, o tal de dia a seguir, sabes lá! Nem imaginas! Estive ali mesmo pertinho, quase, quase o apalpei, eu bem quis mas não cheguei, o Tony é tão simpático, a fruta estava barata, o peixe mesmo a saltar, os porcos a relinchar, os cavalos a roncar, as galinhas a balir, as cabras cacarejando, eu já estou toda trocada, tal é esta a excitação de uma cena irrepetível! Vi Lisboa de corrida, não passei da sua entrada e senti-me uma rainha, alguém que conhece a vida, digo-te agora eu a ti, digo a ele e digo a ela, foi um dia inesquecível, mas regresso à Bobadela, vou para o Porto e para a Arrentela, já lá vou na camioneta, já aqui vou adormecida, cansada mas satisfeita, os olhos quase a fechar e tudo numa visão, que pena já acabou, resta-me a Seleção que vai salvar Portugal e resta-me a sensação de que a vida não tem fim, que tudo valeu a pena, que todos velam por mim.

E novo ano chegou e com ele o Picnicão! Quero mais! Quero muito mais! E quero arroz para os pardais e peru assado à mesa. Tudo com delicadeza e que viva o Continente mais o seu picnicão! Só por isto vale a pena ter nascido portuguesa!

Irra!!!


CRISTINA CARVALHO

ALTERAÇÃO DAS ROCHAS (3)


A distinção entre alteração mecânica e alteração bioquímica reflecte, sobretudo, uma preocupação pedagógica, uma vez que na natureza há sempre associação dos dois processos, dominando um ou outro, isso sim, consoante as condições ambientais.

A alteração mecânica predomina largamente nas zonas climáticas que têm em comum acentuada pobreza de água no estado líquido, quer por extremo calor e secura quer por excesso de frio e, consequentemente, caracterizadas pela quase inexistência de vegetação. A actividade bioquímica é aqui, pois, muito reduzida ou, praticamente, nula. Nas restantes zonas a alteração mecânica é muito menos importante face aos processos químicos ou bioquímicos. A alteração mecânica tem, pois, papel secundário entre a meteorização, dado que ocupa área relativamente pequena no conjunto das terras emersas.

Propícias a este tipo de alteração distinguem-se as regiões áridas quentes e frias, as regiões glaciárias, as periglaciárias e as de alta montanha. Várias acções físicas têm aqui papel preponderante. Uma delas, a primeira a actuar, é a expansão por descompressão que ocorre nas situações em que há subida das rochas, da profundidade para a superfície.

Termoclastia
Duas outras são a dilatação e a retracção dos minerais das rochas por efeito das variações de temperatura ambiente. Nas regiões desérticas, por exemplo, o ar é seco, a variação térmica do dia para a noite pode atingir valores consideráveis e as variações processam-se com grande rapidez. No Sahara, são conhecidas amplitudes diárias da ordem dos 70º C. Nestas condições, as rochas estalam e fragmentam-se continuamente, num processo conhecido por termoclastia [1].

 Uma vez que muitas rochas contêm minerais escuros e minerais claros, portanto, com diferentes graus de absorção da energia radiante do Sol, estes minerais aquecem e dilatam-se de modo diferente, o que conduz à contínua «descolagem», entre si, dos respectivos grãos, que acabam por se desagregar. Por outro lado, devido à pouca condutibilidade térmica das rochas, verifica-se um aquecimento da película externa dos afloramentos rochosos, que contrasta com a temperatura no seu interior.

Tal facto origina um outro tipo de termoclastia, manifestado pela descamação [2] das rochas, tanto mais intensa quanto maiores forem as amplitudes térmicas sofridas.
Descamação
A fragmentação e a desagregação da rocha devido a variações de temperatura, por anisotropia de dilatação, também ocorre a níveis térmicos a que nos habituamos a chamar frios, numa avaliação relativa face à nossa própria temperatura fisiológica. Neste caso, usa-se a expressão crioclastia [3].
Crioclastia
Ainda associada ao frio, a gelivação que abarca não só a crioclastia, mas também a desagregação da rocha por expansão devida à congelação da água existente nos poros e nas fissuras.

Um outro agente de desagregação é a haloclastia, ou seja, a abertura de fendas e interstícios das rochas provocada pela cristalização de sais, quer os contidos na água de impregnação, após evaporação desta, quer os resultantes da hidratação de sais anidros, como é o caso da transformação de anidrite em gesso. 

Mecanismos como os atrás descritos afectam constantemente a coesão da capa superficial das rochas, provocando descamação e/ou desagregação ao nível dos grãos minerais constituintes. A rocha perde, assim, a coerência, embora mantenha a constituição mineralógica e a composição química iniciais.

Notas: 
[1] Expressão composta a partir dos elementos gregos thermos (calor) e klastos (quebrado).
[2] Processo que consiste na separação de placas superficiais, ou escamas, de espessura milimétrica a centimétrica, que acabam por se desprender do afloramento rochoso.
[3] Característica de um meio cujas propriedades físicas variam com a direcção.
[4] A partir do grego kryos (frio, glacial).
A. Galopim de Carvalho

domingo, 22 de junho de 2014

O PAÍS QUE AÍ VEM


Artigo de opinião de Guilherme Valente no expresso de ontem:

 1. O flagelo do «partido» único das «ciências» da educação que domina o ensino praticamente desde o 25 de Abril, não vitimou apenas os alunos, enganando-os sobre a função da escola e a vida, embotando inteligências e vontades. Atingiu também os professores, instrumentos e vítimas, bode expiatório dos resultados escolares anos e anos a piorar. E contagiou os pais, frequentemente barreira à mudança na educação. Uma manifestação expressiva da situação a que esse flagelo, facilitista e infantilizador, conduziu é a choradeira de muitas mães por causa do suposto stress dos meninos com os exames. Exames de caca, registe-se.

Muito pelo contrário, o que tem faltado é um mínimo de exigência, de exames a valer. Exames que no estado a que o ensino chegou são instrumento incontornável de regulação e construção da escola, que é natural e desejável induzirem nos alunos e nos professores empenho e preocupação, e mesmo um saudável stress. Professores que é urgente libertar, isso sim, de um outro stress, esse bem nocivo, o da burocracia cretina com que foram sendo asfixiados. Burocracia que este Ministro ainda não ...implodiu.

E o regime de exames imperativo na nossa escola é, evidentemente, diferente do praticado nas escolas responsabilizadoras de sociedades como o Japão, Finlândia ou Macau, com professores formados a sério e motivados e famílias com outras características culturais. É esta evidência que o especialista da OCDE que recentemente se referiu aos exames em Portugal devia perceber, não esquecendo a sábia asserção de Marx quanto à necessidade da analise concreta da situação concreta. São generalizações dessas que contribuem para perpetuar as desigualdades entre os países, impondo aos mais atrasados um queimar de etapas que só agrava a situação de partida. O que se passou na educação em Portugal é prova disso. Só depois das mudanças introduzidas por Justino e reforçadas por Sócrates se terá manifestado progresso nos resultados dos alunos portugueses nas provas comparativas internacionais. Progressos verificados só depois dessas mudanças, num dos testes com alunos apenas com quatro anos de escolaridade. Depois de em todos os anos anteriores os resultados terem sempre piorado. Bastaram, aliás, uns examezinhos para se perceber que os resultados estão a melhorar. Por isso a agitação da FENPROF, das associações de professores de Matemática e de Português, de associações de pais, que pais?

 2. Mas há outra manifestação assustadora dessa mundivisão posmoderna (com que a nossa velha cultura tão bem se dá) de que a educação que temos tido foi ponta de lança e modelo. Manifestação que os mídia tem reportado com silêncio crítico, como se não se tratasse da obscenidade que na verdade é. Situação de que a exigência e os exames, se persistissem, seriam factor de cura.

 Alguns títulos do Expresso: "Em 2013, pelo menos 5 mil crianças e jovens tiveram pela primeira vez acompanhamento por depressão. Consultas subiram 30%"; "Mil embalagens de antidepressivos e ansiolíticos receitados no ano passado a adolescentes entre os 12 e os 19 anos"; "Bebés também ficam deprimidos. Na Estefânia foram atendidos 20 em 2013"; "É urgente aumentar camas de internamento".

Para quê as campanhas do Dr. Francisco George? Prevenção da toxicodependência, para qûê? Não está, afinal, em curso uma sementeira para o consumo de todas as drogas?

Nos anos que aí vêm que País irá ser o nosso?

Guilherme Valente

A (estranha) preocupação com a educação escolar

Voltemos um pouco atrás, mais ou menos dois anos, o Banco de Portugal, em associação com o Instituto de Seguros de Portugal e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, uma vez acolhida no confortável "sítio" da Educação para a Cidadania da Direcção-Geral de Educação (aqui e aqui), levou à concretização do Plano Nacional de Formação Financeira, do Referencial de Educação Financeira, que tem a forma de metas curriculares, e do Programa de Formação de Professores... Há pouco tempo os nossos alunos foram premiados num qualquer concurso internacional (aqui).

Que maravilha: tão pouco tempo, tanta acção e um excelente resultado! O sistema de ensino luta há anos e anos para que as classificações em Português e Matemática sejam menos más e nada que se veja acontece!

Mas, o Banco de Portugal parece querer ir mais além, parece estar mesmo interessado em "elevar o nível de aprendizagem" e, para isso, convenhamos, a educação financeira é periferia do currículo; importa chegar ao centro.

Isto é o que deduzo da atenção que Departamento de Estudos Económicos desse Banco tem vindo a dar à investigação pedagógica, sobretudo a partir dos resultados do Programa para a Avaliação Internacional de Estudantes, o famoso PISA.

Foi notícia um estudo (aqui), publicado no número do corrente mês de Junho do Boletim Económico, mas outros já haviam sido publicados (por exemplo, aqui). À parte as ruidosas notícias na comunicação social, são estudos que não trazem qualquer novidade, não acrescentem nada ao que já se sabe.

No que diz respeito ao estudo agora publicado - Retenção escolar no ensino básico em Portugal: determinantes e impacto no desempenho dos estudantes - saliento que o próprio relatório da OCDE evidenciou os resultados que nele são apresentados e, além disso, a equipa portuguesa do Ministério da Educação e Ciência deu-lhe tratamento e destaque apropriado.

Assim, não posso deixar de pensar de mim para comigo: se o Banco de Portugal tem problemas económicos tão importantes para resolver porque é que dispersa a sua atenção com a educação?Não seria de se concentrar na sua função?

E, dirá o leitor: porque a educação escolar tem a ver com a economia! Mas, acrescento eu: a educação escolar tem a ver com... tudo! E é precisamente por isso que existe uma entidade máxima que se encarrega dela - o Ministério da Educação - e outras que são mandatadas para fazerem os currículos para os alunos, a formação de professores, os estudos de avaliação, etc.

Para garantir a independência das decisões e de procedimentos, por princípio, nenhuma dessas entidades está vinculada (e, se está, não deveria estar) a qualquer entidade ou empresa cujo interesse ou área de actuação seja outro que não a educação escolar por si, pelo valor que ela tem, e pelo valor instrumental que pode ter para a economia e para tudo o resto.

Mais, pensará, o leitor: não importa quem faz investigação, o que importa é seja bem feita. Pois, terá razão, porém se eu, que sou da área da pedagogia, tivesse de fazer um estudo na área da economia, poderia apresentá-lo "bem comportadinho", por referência à normas de produção de trabalhos científicos, mas faltar-lhe-ia certamente a profundidade e a amplitude que, pelo menos a introdução e a discussão, merecem (e isto sem a pretensão que um artigo seja uma dissertação académica). É este o caso. Parece-me que a "retenção escolar" tem muito a ver com pedagogia (apesar de não ter só a ver com pedagogia), mas dados fundamentais da pedagogia estão ali ausentes; também, tratando-se do "ensino básico em Portugal" conviria ter-se prestado atenção a estudos portugueses, que os há, e não quase exclusivamente a estudos estrangeiros, aliás os únicos estudos portugueses são dos próprios autores deste estudo!

Em suma, vejo com a maior reserva, e até apreensão, tanta preocupação, sempre apresentada como altruísta, pela educação escolar por parte de entidades que deveriam centrar-se na sua própria função. E se a cumprissem devidamente, todos lhes agradeceríamos.
Maria Helena Damiao

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Atapuerca escreve uma nova página no livro da evolução humana

Transcrevo, com a devida vénia, o texto que a reconhecida antropóloga Eugénia Cunha escreveu a meu pedido para o projecto Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva sobre os achados hominídeos em Sima de los Huesos e que hoje são tema de artigo extenso publicado na Science.

Crânio 17 de Sima de los Huesos em Atapuerca


Mais uma vez Atapuerca está na ribalta, desta vez não por causa duma nova descoberta mas sim pela análise de toda uma série de crânios que têm vindo a ser descobertos na Sima de los Huesos um autêntico tesouro, aparentemente inesgotável, de fósseis humanos. A página que desta vez é escrita sobre a evolução humana tem a ver com a origem dos neandertais, os nossos primos hominíneos mais próximos, com quem coexistimos até há 30 mil anos. O homem de Neandertal nasceu na Europa e, até aqui, acreditava-se que os Homo heidelbergensis (de Heidelberg onde foi descoberto o 1º fóssil desta espécie, em 1907) estariam na sua origem.

Ora, a possibilidade de analisar um conjunto de 17 crânios com cerca de 430 mil anos (pleno Pleistocénio Médio) provenientes dum único local é ímpar.

 A análise feita pela célebre equipa espanhola liderada por J.L. Arsuaga (Universidade Complutense, Madrid e Centro de Evolução Humana), agora publicada na revista Science, é exaustiva e foca-se sobretudo em caracteres não métricos do crânio apesar de também incluir algumas características métricas. Os resultados permitiram algumas conclusões importantes das quais destaco o facto destes fósseis da Sima, Atapuerca, não serem mais considerados como membros da espécie Homo heidelbergensis. Esta categoria taxonómica fica com fosseis como Arago (França) e Ceprano (Itália), e Mauer (Heidelberg) também do Pleistoceno Médio.

Coexistiram, assim, várias linhagens evolutivas no Pleistoceno Médio entre as quais a dos hominíneos da Sima de los Huesos que seriam os mais próximos filogeneticamente dos neandertais. Outra conclusão é que estes hominíneos também não são considerados neandertais, não obstante as apomorfias.

Cautelosamente, a categoria taxonómica dos fósseis da Sima fica em aberto. Cada vez mais, há evidências a favor de várias linhas evolutivas das quais só algumas terão conseguido seguir em frente. Curiosamente, este estudo vem ao encontro dos resultados preliminares da análise do ADN mitocondrial dos fósseis da Sima (Dezembro de 2013) que sugeriu que estes hominíneos estivessem mais próximos dos denisovianos (espécie contemporânea dos neandertais conhecida através de dados genéticos) do que dos neandertais. Merece destaque igualmente o facto da nova datação, resultante da aplicação de várias técnicas, tornar estes fosseis como os mais antigos (credivelmente datados) de hominíneos com características derivadas não partilhadas pelos ancestral comum (apomorfias).

Finalmente enfatizo o facto deste estudo permitir afirmar que foram as características faciais que primeiro evoluíram, ou seja, nem todas as particularidades cranianas mudaram ao mesmo tempo, o que é designado por evolução em mosaico. Este é um dado novo também sobre a evolução dos neandertais.


Eugénia Cunha (Departamento Ciências da Vida/Universidade de Coimbra)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA EXPLICADA ÀS CRIANÇAS (OU EMIGREM QUE NÃO HÁ REMÉDIO)

Chamo a  atenção para este texto de Rogério Colaço no I:
clique aqui.

LIVROS NOVOS DA GRADIVA EM JUNHO


A Partícula no Fim do Universo
Como a Caça do Bosão de Higgs nos levou ao Limiar de um Mundo Novo
Sean Carroll

Prémio Melhor Livro de Ciência da Royal Society

O bosão de Higgs, também chamado «partícula de Deus», é, para muitos, o maior avanço na nossa compreensão do Universo desde a cisão do átomo. Esta partícula esquiva foi finalmente descoberta
em 2012 no CERN, na Suíça, após décadas de um esforço que exigiu mais de 6000 investigadores. A Gradiva orgulhase de publicar a história de uma busca que começou com os atomistas  da Grécia antiga e atingiu agora um cume histórico, que valeu o Prémio Nobel aos físicos que previram esse bosão, num livro que venceu o prémio de maior prestígio que distingue obras de divulgação científica.

«Ciência Aberta», n.º 208, 424 pp., 424 pp., €21,50

Os Estados Unidos e a Crise do Poder Mundial
Zbigniew Brzezinski

O mundo actual enfrenta uma crise de poder, provocada pela deslocação drástica do centro de gravidade do Ocidente para o Oriente, pelo despertar político dinâmico dos povos mundiais e pela deterioração do desempenho dos Estados Unidos tanto nacional como internacionalmente. Com o seu conhecimento ímpar em matéria de política externa, Zbigniew Brzezinski apresenta neste livro um plano estratégico para um século XXI pacífico.

«Trajectos», n.º 97, 244 pp., €17,50

Bifes Mal Passados
Passeios e Outras Catástrofes por Terras de Sua Majestade
João Magueijo

Cómicos finsdesemana mal passados e tentativas frustradas de fazer férias em Inglaterra servem de ponto de partida para uma viagem pela cultura anglo-saxónica, vista pelos olhos de um cientista português radicado no Reino Unido há mais de vinte anos e do qual estamos mais habituados a ler obras de divulgação científica. Bifes Mal Passados é alternadamente hilariante e sério, convidando a uma reflexão sobre identidade cultural e incitando os portugueses a despojarem-se de complexos de inferioridade.

«Fora de Colecção», n.º 415, 188pp., €12,00

Corrupção e Pecado seguido de Sobre a Acusação de Si Mesmo
Cardeal Jorge Bergoglio (Papa Francisco)

Daquele que é hoje o Papa, dois textos reunidos num volume que trata temas caros ao Pontífice que se tem revelado uma luz nos tempos modernos, denunciando vícios e desmandos e pugnando pelos desvalidos e injustiçados. Reflexão profunda e séria, numa obra de referência para todos acompanhada por um texto introdutório de Paulo de Morais, vice-presidente do capítulo nacional da organização não-governamental Transparency Internacional.

«Gradiva Breve», n.º 3, 112 pp., €8,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/7707

O Silêncio Solar das Manhãs
António Canteiro
Ilustrações de Alves André

Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2013

Num pequeno livro de grande sensibilidade, encontramos os
poemas de António Canteiro expressivamente ilustrados pelas aguarelas de Alves André. Da escrita, o júri do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama apreciou sobretudo «a sua força de imagens, o domínio metafórico e a experiência de oficina de escrita que demonstra». Para os apreciadores de boa poesia.

«Fora de Colecção», n.º 416, 40 pp., €10,80

Os livros estarão disponíveis para venda a partir do dia 25 de Junho.

Notícias da construção da próxima crise


Ao contrário daquilo que é veiculado por uma camada mais distraída da sociedade, não há mercado mais regulado e mais controlado que o mercado da intermediação financeira, leia-se banca. Nunca na história, ou noutro sector, se controlaram os números de todas as empresas do sector sobre todos os aspectos da vida financeira, alavancagem, avaliação de riscos vários, mínimos de capital, projecções de liquidez, relações com os clientes, reclamações de clientes, incumprimentos de clientes, investimentos feitos, investimentos não feitos, etc. Os reguladores, centralizados agora na Autoridade Bancária Europeia com braços nos (antigos) bancos centrais da UE, impõem regras apertadíssimas sobre os membros do mercado que suportam custos elevadíssimos de demonstração a esses reguladores da adequação da sua actividade às regras impostas.

Nada disto é motivo de notícia nos jornais, mas este ano os bancos todos estão em actividade acelerada para cumprirem com mais uma carrada de reportes aos reguladores, com base no novo regulamento. O "regulamento", passado a directiva comunitária, mas emanado de Basileia para o mundo civilizado inteiro, é um verdadeiro manual de como cozinhar uma trafulhices e construir uma crise. Isto porque neste mundo de burocratas de produtividade nula, a única forma de criarem rendas para si é obrigar os outros a pagá-las e, assim, vai de criar leis que têm que ser controladas, auditadas, certificadas e verificadas, tudo no pressuposto de que há um cliente no fim da cadeia que quer ou pode pagar tudo isto.  Mas verdadeiramente grave é que os bancos, hoje, não avaliam os riscos de colocarem o dinheiro dos depositantes nas mãos de credores. Em vez de estarem a avaliar, a estudar, a modelar, etc. estão simplesmente a responder aos critérios dos reguladores, que sabem o que é melhor para eles em nome da estabilidade financeira. Um banco europeu é, hoje em dia, gerido por uma folha de Excel em Londres. Que, ainda por cima, está ERRADA! Portanto, não vai haver um banco errado e todos os outros certos. Quando um estiver errado, vão estar todos. E acreditem, vão estar.

A adicionar a isto, para além do crescimento obrigatório dos spreads sobre o crédito e a negatividade económica da coisa, é o facto do regulamento ser uma espécie de história de trafulhice sobre o capital, mas em negativo. Faz-se a história de todas os esquemas mais ou menos fraudelentos e coloca-se a obrigatoriedade de reportá-los. Isto torna-se particularmente útil para quem está a desenhar a próxima trafulhice, bastando para tal fazer uma gincana pelos pontos de reporte actuais, evitando os pontos onde podemos ser apanhados, deixando descansados os reguladores pelo facto de estarmos a evitar fazer aquilo que foi descoberto, ONTEM! 

Por exemplo, um esquema bastante criativo no passado foi um banco cotado em bolsa investir parte do dinheiro dos seus depositantes em acções do próprio banco. Como a administração era eleita pelos accionistas e estes gostam de eleger quem lhes dá mais dividendos, os dividendos que iam para o banco enquanto accionista do próprio banco foram convertidos em dividendos a distribuir pelos demais accionistas, que ficaram mais ricos com a operação. Quando se anunciam os dividendos, o preço das acções sobem e o banco ganha enquanto accionista. E quem representaria o accionista banco nas assembleia geral do banco? A própria administração! Um esquema brilhante em que o depositante era roubado por o risco do banco subir, os concorrentes eram roubados porque parte do capital do banco era subscrito pelo próprio banco e o banco era roubado, deixando administração e accionistas felizes.

Claro que os reguladores agora pedem para reportar as acções do próprio banco que o banco tem. Nada que não se resolva montando um fundo de investimento em activos imobiliários fechado que compra as acções do banco e vende unidades de participação ao banco, que as vai reportar como unidades de participação vulgares. Porquê? Porque o reporte assim o determina. Demasiado simples? Faz-se um fundo de fundos, uma financeira que emite obrigações. Há sempre possiblidade de fugir à regra se for essa a intenção. O regulador, esse, fica feliz e contente pelo facto de não haver acções próprias do banco inscritas no balanço.

E, assim, vamos cavando a próxima crise financeira com a ignorância (ou esperteza) dos reguladores. Lá se vai baixando taxas de juro quando se sobe o quadruplo ou o quintuplo nos spreads e, quando a crise financeira chegar - porque vai chegar- vai acontecer o mesmo que aconteceu agora, a culpa vai para a falta de regulação. Porquê? Porque a maneira mais fácil ganhar dinheiro é explorar os preconceitos ideológicos dos outros. Desde que em 1988 se globalizou a regulação bancária que as tragédias se têm repetido e a resposta tem sido sempre o aumento da regulação. Virá o dia em que se vai aprender, mas não me parece que seja já na próxima...

quarta-feira, 18 de junho de 2014

UM UNIVERSO CHEIO DE COR

Crónica primeiramente publicada na imprensa regional.



Ao olharmos para o céu nocturno vemos muito espaço negro entre as estrelas, espaço esse que parece ser composto por nada. Mas é uma limitação da nossa visão e do nosso conhecimento. Na realidade, essa negritude aparente está cheia de cor.

Os telescópios permitem desvendar essa cor proveniente de galáxias que se encontram a uma distância muito grande de nós.

Alguns telescópios também permitem registar a luz ultravioleta e infravermelha emitida por esses corpos celestes longínquos. Como a atmosfera terrestre absorve estas radiações impedindo que elas possam ser detectadas em terra, esses telescópios são colocados em órbitas para além dos limites da atmosfera.

A paleta assim estendida para além do visível oferece-nos retratos deslumbrantes do universo profundo. As imagens obtidas desta forma permitem aos astrónomos estudar a formação das estrelas e a evolução das galáxias que se originaram poucas centenas de milhões de anos depois do Big Bang.

O telescópio Espacial Hubble, em órbita há 24 anos, é um dos telescópios que nos tem oferecido imagens deslumbrantes do universo. Através das imagens por ele captadas, os astrónomos têm conseguido compor retratos espectaculares do universo profundo. Onde parecia não haver nada, o Hubble descobre um universo cheio de cor.

E agora foi desvendado aos nossos sentidos um novo olhar designado por “Observação no Ultravioleta de Campo Ultra Profundo do Hubble”. É esse o retrato que se mostra no topo e resulta da composição de diversas observações feitas entre 2003 e 2012. Ao longo 841 órbitas, o Hubble escrutinou um pedacinho de céu aparentemente negro, com uma dimensão inferior a um décimo do diâmetro da Lua, na constelação da Fornalha no hemisfério sul. É a imagem mais colorida do universo profundo jamais obtida!

Esta imagem de 2014 contem aproximadamente dez mil galáxias! A luz ultravioleta captada é proveniente das estrelas maiores, mais quentes e mais jovens. Observando neste comprimento de onda, os investigadores podem ver directamente as galáxias que estão a formar estrelas, bem como onde as estrelas se formam dentro dessas galáxias.

A luz captada pelo Hubble foi emitida pelas estrelas dessas galáxias entre 5 e 10 mil milhões de anos-luz. Este é o período da história do universo em que a maior parte das estrelas nasceu e por isso a informação obtida através desta imagem é preciosa e vem preencher uma lacuna que havia no conhecimento astronómico.

Como curiosidade, diga-se que as galáxias menos brilhantes da foto são 10000 milhões de vezes mais débeis do que o olho humano consegue alcançar!

Vemos assim o que não sabíamos existir e deslumbramos a retina com mais uma imagem deslumbrante do universo.

António Piedade

A AGRICULTURA E A CIÊNCIA


Meu artigo convidado no último número da revista "Agrotec": 

 Os meus avós eram agricultores do norte do país. É verdadeiramente admirável a evolução ocorrida desde o tempo deles, quando a agricultura era de subsistência, até à agricultura moderna, num tempo de alguma abundância. A ciência e a tecnologia desempenharam um papel essencial nessa transformação: desde o uso de melhores sementes até ao uso de adubos e pesticidas mais eficientes, passando por eficazes sistemas de irrigação e pela mecanização dos trabalhos agrícolas. Foram avanços na biologia, na química e na física bem aproveitados do ponto de vista técnico que permitiram fornecer os alimentos necessários a sete mil milhões de pessoas na Terra, incluindo os dez milhões de portugueses. Hoje, no mundo e no nosso país, a agricultura satisfaz necessidades que são bem maiores do que outrora. Se hoje ainda há fome no mundo, não é por escassez de alimentos, mas por falta de acesso a eles por faixas significativas da população. Para resolver os problemas sociais não bastam a ciência e a tecnologia, são precisas também a economia e a política.

Se os avanços foram impressionantes, os desafios são ainda enormes. A meio do presente século prevê-se que a população mundial aumente para 9,5 mil milhões, isto é, mais 35 por cento (em Portugal, em contraste, a população vai diminuir). Para alimentar todos os habitantes da Terra a produção agrícola terá de duplicar, isto é, aumentar cem por cento. A discrepância com o número anterior é fácil de explicar: uma boa parte da população, nos países em desenvolvimento, está a sair da miséria, o que passa pela melhoria da sua alimentação. Da agricultura espera-se que responda a essas exigências. Discute-se hoje o modo de conseguir esse objectivo. Pode-se pensar que bastaria alargar a extensão dos solos agrícolas recorrendo aos meios conhecidos; mas essa possibilidade está excluída dado que a agricultura já usa 39 por cento dos solos livres de gelo. Os outros solos já estão ocupados pelo homem ou são desertos, altas montanhas ou florestas tropicais. Abater estas últimas seria um crime de lesa ambiente, pois não só diminuiria a biodiversidade como aumentaria o efeito de estufa, agravando o aquecimento global. De facto, a consciência que o homem adquiriu do ambiente coloca um freio à expansão da agricultura tal como ela se faz. Sabe-se hoje que as tecnologias que possibilitaram a explosão da agricultura têm uma grande “pegada ambiental”. Há quem pense que a alternativa é a agricultura biológica mas, apesar do inegável interesse desta, os especialistas têm fortes dúvidas de que esta possa cobrir a totalidade das necessidades humanas.

 A solução virá - para além da mudança dietética e do combate ao desperdício alimentar (cerca de metade dos alimentos produzidos são deitados fora) - de ganhos de eficiência que permitirão aumentar as colheitas, de um modo amigo do ambiente: é a chamada “intensificação sustentável”. O futuro é já hoje. Dou dois exemplos de mudanças científico-tecnológicas disponíveis, que ainda não são usadas em larga escala nos campos: a revolução genética (os organismos geneticamente modificados têm sido alvo de críticas nem sempre bem fundamentadas, pois não são conhecidos prejuízos) e a revolução electrónica (robôs podem realizar actividades agrícolas difíceis e drones, com GPS, podem vigiar das alturas a evolução das plantações). Os meus avós ficariam espantados! Mas a investigação continua. As ciências agrárias, que são multidisciplinares, irão continuar a desenvolver-se, conduzindo a novas aplicações práticas.

 Como vão as ciências agrárias em Portugal, um país de florestas e de mar? O crescimento foi inegável, tanto em quantidade como em qualidade. Em 2008-2012, o impacto das publicações em ciências agrárias de autores nacionais foi superior à média europeia. Infelizmente, estamos hoje confrontados com um abrandamento da aposta nas ciências e tecnologias. É preciso alargar a consciência de que, sem um investimento adequado na investigação e desenvolvimento, não teremos futuro. Nem na agricultura nem no resto.

"UMA TEORIA PERFEITA" DE PEDRO FERREIRA

PHD MOVIE


O filme PhD Movie (2011), acerca da vida dos estudantes de doutoramento numa universidade norte-americana é baseado nas tiras de banda desenhada PhD Comics da autoria de Jorge Cham. 
Está agora disponível na íntegra, aqui:

http://www.phdmovie.com/

Os autor, Jorge Cham, procura financiamento para filmar uma sequela, através de crowdfunding.

DINOSSAUROS, DEUS E O EVANGELHO

Em época de exames, como estão os vossos conhecimentos de geologia, biologia e paleontologia?


PODERES TELECINÉTICOS NUM CAFÉ EM NOVA IORQUE

 T

Trata-se apenas de um sketch publicitário associado ao filme de horror Carrie (2013).

terça-feira, 17 de junho de 2014

AS 24 HORAS DO TEMPO - 2ª edição


Para saudar o solstício de Verão, a Ciência Viva organiza, pela segunda vez, um evento non-stop no Pavilhão do Conhecimento, entre as 18h00 do dia 20 de Junho e as 20h00 do dia 21 de Junho 2014.

Para a conferência de abertura o investigador Manuel Sobrinho Simões, que virá falar de "O Tempo na Saúde" e para a conferência de encerramento o deputado José Ribeiro e Castro que falará de "O Tempo da Política".

Neste espaço de tempo, decorrerão:

Mesas-redondas sobre o Tempo de Trabalho;
                                       o Tempo de Descanso;
                                       o Tempo do Ócio;
                                       o Tempo do Cérebro e 
                                       o Tempo nas Artes,
Exposição,  onde os visitantes podem “picar o ponto",  
Happy Hour com cocktails e também degustação de slow food.
Em Directo  a transmissão do programa da SIC “Expresso da Meia-Noite”. Será um serão para fazer malha e ouvir histórias tradicionais. 
Concerto de música electrónica com uma peça inspirada no Big Bang. Jazz para brincar com o tempo. Observações astronómicas. Leitura de poemas de Shakespeare sobre o tempo para celebrar o 450º aniversário do nascimento do poeta. Cinema “A Melhor Juventude” de Marco Tullio Giordana (352 minutos). Ginástica matinal. Concurso Open Rubik's Cube 2014, organizado pela World Cube Association.

Para mais informações: 

www.pavconhecimento.pt/24horas


INAUGURAÇÃO DUPLA NO CENTRO CIÊNCIA VIVA DE SINTRA

Informação recebida do Centro Ciência Viva de Sintra:


Dia 19 de Junho às 16h no Centro Ciência Viva de Sintra inauguram duas exposições interactivas de ciência, para todas as idades.

Sobre as exposições:

A física do dia-a-dia
Através de objectos do quotidiano enquadrados em cada uma das divisões de uma casa (quarto, sala, escritório, cozinha e jardim) explicam-se os princípios da Física Clássica, pelas experiências
idealizadas por Rómulo de Carvalho. Baseada na obra de Rómulo de Carvalho “A Física no dia-a-dia” desenvolvida pelo Pavilhão do Conhecimento e adaptada pelo Mundo na Escola para itinerância pelo país, estará patente ao público de 19 de Junho até 3 de Novembro.

A ciência que muda o mundo
Sabia que a vacinação, os antibióticos, a higiene, a contracepção, os cuidados de saúde e o acesso à assistência médica reduziram a mortalidade infantil e garantiram um aumento da esperança média de vida para um número crescente de pessoas apenas no último século? Venha descobrir os avanços da ciência que mudaram a nossa vida e a nossa saúde nos últimos 100 anos. Exposição concebida pelo Pavilhão do Conhecimento, e depois de ter estado em vários países europeus regressa agora a Portugal, ficando alojada no Centro Ciência Viva de Sintra.

O Centro Ciência Viva de Sintra está  aberto todos os dias, das 10h às 18h (das 11h às 19h aos fins de semana e feriados), na Estrada Nacional 247 que liga a Vila de Sintra a Colares.

Evolução do Pensamento Geológico

Informação chegada ao De Rerum Natura.


Este livro é a prestação de um tributo devido aos muitos que, desde a Antiguidade, pedra sobre pedra, ergueram o maravilhoso edifício que alberga as ciências da Terra. O facto de a esmagadora maioria das personalidades lembradas nesta obra serem homens, deve-se unicamente à condição de inferioridade imposta no passado às mulheres, a quem o ensino era praticamente vedado, à semelhança do que estamos a assistir em algumas sociedades do presente dominadas por fundamentalismos religiosos.

Com estas lamentáveis excepções, o século XX acabou com essa indignidade e, assim, são muitas as mulheres, hoje tantas ou mais do que os homens, que ocupam os bancos e as cátedras das universidades e participam, a todos os níveis, na investigação científica e tecnológica.

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...