sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O CHUMBO DO BOM ALUNO


Minha crónica no "Público" de hoje:

Uma auto-avaliação é sempre uma avaliação incompleta pois um bom aluno só o é, de facto, se for examinado externamente e se, em comparação directa com os outros, não se sair mal da prova. Pois Portugal, tantas vezes chamado “bom aluno”, não se tem saído airosamente de algumas provas internacionais em que tem entrado.

Dois relatórios internacionais sobre a desigualdade social recentemente publicados, um mais abrangente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e outro mais restrito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), não classificam bem as políticas sociais do nosso país ao longo dos últimos vinte anos. Ambos convergem em classificar Portugal no grupo de países onde as desigualdades entre ricos e pobres são maiores. O estudo da OIT (“Desigualdades de rendimentos na era da globalização financeira”) mostra que o fosso entre os mais ricos e os mais pobres tem vindo a aumentar sistematicamente ao longo dos últimos anos (que não tem necessariamente de ser assim é exemplificado pelo caso de Espanha, onde o fosso tem diminuído). Por outro lado, o estudo da OCDE (“Crescimento desigual?”) coloca-nos em terceiro lugar numa tabela de desigualdade social, apenas batidos pelo México e pela Turquia, e logo antes dos Estados Unidos, que são bem desiguais. Como se tal fosse pouco, o mesmo estudo faz-nos uma menção especial, ao afirmar que a média dos dez por cento mais pobres do Reino Unido ganha mais do que o português médio. Claro que os portugueses ricos ou da classe média alta que viajam a Londres já sabiam isso e os autóctones que vêem a “working class” inglesa vir de férias ao “Allgarve” também já sabiam isso, mas agora todos sabem.

São más notícias não para este ou aquele governo em particular, mas para o conjunto dos governos, do PS ou do PSD, que se têm sucedido nas últimas duas décadas. É certo que eles propuseram ou mantiveram algumas políticas com preocupação social, como a do rendimento mínimo garantido, mas estas têm-se revelado claramente insuficientes para debelar um problema que parece ser estrutural. Mesmo com o rendimento mínimo, a pobreza parece estar garantida, parece um destino.

À margem do relatório da OCDE, o Professor Anthony Atkinson, da Universidade de Oxford, comentou as respectivas conclusões, lembrando que estamos a viver uma crise mundial, uma crise que não é só em “Wall Street”, mas também em “all streets”:
A recessão – se se confirmar – não será uma boa notícia para todos os que estão nas margens da força laboral (...) Há uma mensagem política. Os orçamentos dos governos estão sob stress, mas os cidadãos estão à espera de que, se há fundos para salvar os bancos, então os governos podem subsidiar benefícios para o desemprego e para o emprego. Se os governos podem ser credores de último recurso, então gostaríamos de os ver como empregadores de último recurso. Falando claro, os governos têm de entrar em acção tal como Roosevelt fez na Grande Depressão”.
Não há o risco de os liberais ou neo-liberais aparecerem a protestar porque eles andam desaparecidos em parte incerta... As medidas para os governos combaterem o desemprego terão de ser dirigidas principalmente aos mais novos, porque, segundo os ditos relatórios, são eles os mais ameaçados pela pobreza. Os pobres mais recentes não são os velhos mas as crianças e jovens. Em particular, a desqualificação dos nossos jovens – culpa em larga medida de um sistema educativo iníquo - é um problema que clama por solução urgente. Será que podemos fazer isso? Sim, podemos. “O destino não é uma questão de sorte – é uma questão de escolha. Não é algo para ser esperado - é algo para ser conseguido”. Quem o disse não foi Barack Obama, foi William Jenning Bryan, um candidato do Partido Democrata três vezes derrotado à presidência dos Estados Unidos no dealbar do século XX. Bryan opunha-se com energia ao darwinismo social, ao triunfo dos mais ricos à custa dos mais pobres, o que, do outro lado do Atlântico como aqui, continua a ser um imperativo moral.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Empurrar o mundo


Quais são as fronteiras entre o activismo e o trabalho académico? Eu, os meus companheiros de blog e muitas outras pessoas queremos empurrar o mundo numa dada direcção: mais ciência, mais conhecimento, melhor ensino, mais cultura. Em grande parte porque acreditamos no valor intrínseco destas coisas, mas também porque tendemos a crer que os piores disparates da humanidade resultam de obscurantismo, irracionalidade, prepotência, falta de conhecimentos sólidos.

Mas é perigoso transformar o trabalho académico — que inclui, ou pode incluir, o trabalho de ensinar e divulgar a área da nossa especialidade — em activismo. Todo o activismo tende para a simplificação grosseira, a mentira e a prepotência: trata-se de empurrar o mundo numa dada direcção, procurando eliminar, ainda que não fisicamente, quem quer empurrar o mundo noutra direcção. Isto implica quase invariavelmente a traição do princípio fundamental que tem de orientar todo o trabalho académico de excelência: o amor pela verdade, rigor, precisão, atenção aos pormenores, abertura à crítica, consideração cuidadosa de ideias opostas. Tudo isto exige uma serenidade que não se adequa à luta política que é oportunista, suja, rápida, feita de golpes de bastidores e que conta com a imensa maioria que não pode realmente saber se estamos a dizer a mentira ou a verdade, porque ninguém pode ir estudar tudo e mais alguma coisa em profundidade para o saber. Isto levanta um problema simultaneamente epistemológico e político.

Temos de confiar uns nos outros — confiamos quando nos dizem que realmente houve Segunda Guerra Mundial, que o mundo já existia antes de nascermos, que Neil Armstrong foi à Lua com Buzz Aldrin. Não há maneira de cada um de nós testar tudo. Para isto ser possível, contudo, o número de pessoas cognitivamente confiáveis tem de ser superior, muito superior, ao número de pessoas inconfiáveis. Tal e qual como na vida diária: se a generalidade das pessoas não fosse razoavelmente honesta, não seria possível pôr um polícia atrás de cada pessoa (e o que iríamos pôr atrás de cada polícia?). Se a generalidade dos académicos contaminar o seu trabalho ideologicamente, por querer empurrar o mundo numa dada direcção, ficamos todos sem poder confiar no que lemos, nas aulas a que assistimos, nos artigos que lemos. Formam-se então grupos académicos de pressão, e quem empurra o mundo para um lado faz as suas revistas académicas e funda o seu conjunto de pares, e quem empurra o mundo para o outro lado faz o mesmo.

O que acontece depois? É um mundo académico hobbesiano e impossível. Não gostei do livro de combate do Dawkins sobre Deus porque é mero activismo ateu — não tem uma ponta de discussão séria — e a partir do momento em que ele entra no activismo ateu, perde a autoridade como biólogo. Eu agora já não sei se ele me diz realmente a verdade quando me diz seja o que for sobre biologia, ou se é como os criacionistas, que mentem o tempo todo para empurrar o mundo para onde eles querem. Fazer o que Dawkins fez pode ter sido o melhor que os criacionistas poderiam ter desejado. Repare-se que o ataque criacionista baseia-se precisamente na ideia de que os biólogos defendem apenas ideologicamente a teoria da evolução pela selecção natural, por ser uma aliada do ateísmo, sabendo que é falsa, mas ocultando isso das pessoas. Dawkins ajuda a tornar plausível esta ridícula teoria da conspiração.

Nada fazer perante os ataques da direita religiosa à ciência e à racionalidade não é opção, e não é isso que estou a advogar. Mas cair na armadilha do activismo, como Dawkins, pode não ser desejável. Alternativa? Não tenho. Ser intelectualmente honesto, ensinar honestamente, escrever e publicar honestamente, defender a verdade e a tolerância, a racionalidade e democracia, não fingir que sabemos o que realmente não sabemos, poderá parecer insuficiente a quem se sente impaciente por empurrar o mundo numa dada direcção. A chatice é que eu não sei se esses empurrões realmente funcionam como se deseja, ou se pelo contrário atropelam aquilo mesmo que estávamos a querer salvar. O que será melhor? Uma multidão ignara e supersticiosa, ou uma multidão igualmente ignara e ateia? O problema, parece-me, é a multidão; a palavra de ordem que se grita é quase irrelevante. Como escreveu Orwell, “O inimigo é o espírito de gramofone, quer concordemos quer não com o disco que está a tocar nesse momento.”

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO E O BARROCO


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Hoje, às 18 h, tem lugar na Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra uma conferência de Rui Vieira Nery, um concerto de música barroca e a inauguração de uma exposição sobre a obra de D. Francisco Manuel de Melo. A iniciativa enquadra-se num colóquio sobre esse escritor que as Faculdades de Letras das Universidades de Coimbra e Porto estão a organizar. Ver aqui.

Entretanto, está patente na Sala de São Pedro da Biblioteca Geral a exposição sobre "Coimbra Judaica", organizada em parceria com a Câmara Municipal de Coimbra. Ver aqui.

NOVOS LIVROS SOBRE ECONOMIA NA BIZÂNCIO

Informação recebida da Bizâncio:

Gregory Clark, "Um Adeus às Esmolas. Uma Breve História Económica do Mundo"

«O que causou a Revolução Industrial? Gregory Clark apresenta uma explicação fascinante e notável para este acontecimento que alterou a vida da humanidade após 100 000 anos de estagnação.»

George Akerlof, professor de Economia da Universidade da Califórnia e Prémio Nobel da Economia

Porque há zonas do mundo tão pobres e outras tão ricas? Por que razão se deu a Revolução Industrial — e o inédito crescimento económico que acarretou — na Inglaterra do século XVIII? Porque não outro lugar e outra época? Por que razão a industrialização não trouxe riqueza ao mundo inteiro? E por que razão tantas partes do mundo ficaram ainda mais pobres? Em Um Adeus às Esmolas, Gregory Clark procura responder a estas questões, avançando com uma nova, e provocadora, abordagem segundo a qual a cultura — e não a exploração, geografia ou os recursos — explica a riqueza e pobreza das nações.
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Eamon Butler, "O Melhor Livro no Mercado (Sobre o Mercado)"

Está preparado para saber a verdade sobre os mercados? Estas páginas mudarão a forma como encara o mundo…

Os mercados estão por todo o lado. Mas quantos de nós entendem como funcionam? O que significa realmente um «mercado livre». E existirão, na verdade? E deverão existir mais ou menos mercados livres? E, principalmente, porque deve tudo isto preocupar-nos? Usando uma linguagem muito acessível e exemplos da vida quotidiana, Eamonn Butler explica como os mercados que temos, e todos os que possamos vir a criar, poderão proporcionar-nos um mundo mais rico, livre e pacífico.

Se já se interrogou se são úteis as intervenções dos governos no mercado, o que faz prosperar o mercado negro ou por que razão os manuais de economia muitas vezes só dizem tolices, então está mesmo a precisar de O Melhor Livro no Mercado (Sobre o Mercado).

Introdução à Estética, de George Dickie

A Bizâncio acaba de anunciar o novo título da colecção Filosoficamente: Introdução à Estética, de George Dickie, com tradução de Vítor Guerreiro. É uma obra muito importante para quem quiser ter uma perspectiva histórica do desenvolvimento da estética e da filosofia da arte, de Platão aos nossos dias. A tradução de Vítor Guerreiro foi muito cuidada, e cuidadosamente revista por mim.

Espero que o livro seja útil para estudantes e professores de filosofia, assim como para artistas e críticos de arte, e pessoas interessadas em arte. É uma obra ideal para preparar uma boa cadeira semestral numa universidade, podendo ser complementada com a bibliografia primária que Dickie discute ao longo do texto, de Platão a Goodman.

O voto na ciência


No muito interessante «Provar uma negativa», o Desidério referiu ser uma falácia da autoridade deslocada ou imprópria a iniciativa «Um voto pela ciência», um desafio dos Scientists and Engineers for America Action Fund e dos ScienceBlogs aos cientistas norte-americanos para que explicassem em quem iam votar nas eleições de dia 4 e porquê votavam nesse candidato.

Não concordo mesmo nada com esta classificação, que esquece, entre outras, a iniciativa «Em Defesa da Ciência» de que o Carlos nos deu conta em meados de Setembro e de que volto a reproduzir os primeiros parágrafos publicados no NYTimes:
Hoje, nos Estados Unidos, a ciência, como ciência, está sob um ataque como nunca foi visto.

Os sinais estão por todo o lado. Os ataques chegam a um ritmo acelerado, e incluem frequentes intervenções por forças poderosas, dentro e fora da administração Bush, que parecem muito dispostas a negar todas as verdades científicas, perturbar investigações científicas, bloquear o progresso científico, minar a educação científica, e sacrificar a própria integridade do processo científico - todas procurando concretizar a sua agenda política particular. E hoje esta agenda política dominante está profundamente aliada e entrelaçada com uma agenda ideológica extremista (e extremamente anti-científica) apresentada por poderosas forças religiosas fundamentalistas vulgarmente conhecidas por direita religiosa.
Ou seja, estas iniciativas não pretendem «vender» a escolha política dos prémios Nobel como tendo um valor acrescido, destinam-se a explicar ao público em geral a posição quasi unânime da comunidade científica norte-americana em relação a estas eleições, bem expressa no gráfico que ilustra o post, resultante de uma votação levada a cabo pela The Scientist e analisada no artigo «Scientists pick their President».

De facto, a crise económica, a segurança nacional e a política externa, especialmente a primeira, têm dominado a agenda mediática das campanhas presidenciais. A ciência aparece como uma «parente» pobre do debate político, apenas vísivel indirectamente quando o tema é a crise energética ou as alterações climáticas.

No entanto, a importância da ciência mesmo no tópico que domina as preocupações actuais, não só nos Estados Unidos mas em todo o Globo, é visível se considerarmos que desde a segunda guerra mundial a ciência e a tecnologia foram responsáveis por metade do crescimento económico dos Estados Unidos. Isto é, a saída da crise passa também pela política de ciência do presidente a ser eleito. E para além de palavras que podem ser bonitas mas inconsequentes, importa assim analisar o que será esta política para ambos os candidatos. Na mesma Scientist, eram debatidos há uns tempos os conselheiros científicos de Obama e McCain. Como indicou Thomas Murray, presidente do Hastings Center, um think tank de bioética:

«Neither of the candidates is a scientist to start with. We can presume that they're going to rely on experts in science and science policy. It is important to know who their advisors are.»

Em relação a Obama, Martin Apple, presidente do Council of Science Society Presidents, uma confederação de sociedades de ciência envolvendo mais de um milhão de cientistas e professores, estava certo de que ele iria conseguir expandir o excelente grupo de conselheiros que já reunira de forma a cobrir todas as áreas de ciência.

No entanto, como a Scientist indicou em finais de Setembro, o ticket republicano não considerou necessários quaisquer conselheiros de ciência, pelo que se pode apenas presumir que os dois candidatos fazem tenção de levar para a Casa Branca as suas «maverick ideas» sobre ciência no caso cada vez mais improvável de serem eleitos.

As ideias de um ticket que se considera auto-suficiente em ciência foram «chumbadas» pela comunidade científica norte-americana que veio a público explicar as razões do chumbo e não tentar usar um mau argumento de autoridade.

A ciência norte-americana sobreviveu com alguma dificuldade a oito anos de administração Bush que desbaratou milhões de dólares em investigação pseudo-cientifica e comprometeu a ciência americana enchendo os organismos públicos de fanáticos religiosos, o caso mais notório sendo a Food and Drug Administration. Se McCain for eleito, não só dará continuidade à política de ciência de Bush como a poderá agravar se um Supremo de maioria teocrata resolver intervir em ciência «blasfema», como investigação em células estaminais, sexualidade, contracepção e afins. Ou seja, para além de continuarem os cortes do financiamento federal para projectos considerados imorais pela The Traditional Values Coalition (TVC), podem mesmo acabar essas áreas de investigação. Na hipótese remota de que não seja necessário substituir juizes do Supremo nos próximos 4 anos, a maioria dos cientistas norte-americanos teme as consequências de mais 4 anos de política anti-ciência e pró iniciativas da fé (que inclui o desvio de financiamento do NIH para palermices como curas pela fé e afins).

Por outro lado, há outras áreas como o ensino da ciência que causam preocupação. A eleição de Obama seria uma contribuição muito importante para encerrar a questão do ensino do criacionismo enquanto o voto em McCain/Palin dará alento às guerras «culturais» dos fundamentalistas evangélicos norte-americanos.

Também em termos das respostas à crise energética o ticket republicano causa muitas dúvidas. No Congresso norte-americano, o senator McCain faltou à votação das 8 propostas que pretendiam incentivar a produção de energias eólica e solar mas deu o seu apoio não só à diminuição da taxa fiscal sobre a gasolina como também a uma intensificação da exploração petrolífera. Na convenção republicana, os gritos dos delegados de "drill, baby, drill" que interromperam os discursos de Palin e McCain mostraram que os delegados presentes apoiam entusiasticamente as posições de ambos.

Sarah Palin, que considera não haver contribuição humana para as alterações climáticas, também já indicou claramente que a sua resposta à crise energética consiste em aumentar a produção de petróleo. No dia 2 de Julho de 2008, Sarah Palin juntou a sua à voz do senador Ted Stevens explicando porque se deve perfurar a Arctic National Wildlife Refuge, a que Palin se refere como «aquele pequeno pedaço de 2,000 acres».

Um dos problemas globais mais importantes é exactamente a promoção de inovação e investigação em torno de energias limpas e do aumento da eficiência energética mas esse problema tem sido até agora ignorado pelos candidatos republicanos em prol do aumento da exploração petrolífera, inclusive em reservas naturais.

Aliás, os ambientalistas apelidam Palin "killa from Wasilla" e a explicação desta alcunha explica ainda o que foi a política ambiental e a posição face à ciência de Palin enquanto governadora do Alasca:

«Her philosophy from our perspective is cut, kill, dig and drill," said John Toppenberg, director of the Alaska Wildlife Alliance, maintaining she is "in the Stone Age of wildlife management and is very opposed to utilizing accepted science.»

Em suma, a eleição de uma candidata que questiona os princípios básicos da ciência, que não não aceita as recomendações de cientistas se estes não tiverem ligações ao «Big Oil» e que considera que as suas crenças religiosas devem ser ensinadas como ciência terá certamente repercussões muito negativas na política científica norte-americana e é apenas natural que os cientistas demonstrem enfaticamente quem apoiam nestas eleições.

Outra questão que interessa considerar tem a ver com as consequências para o resto do mundo destas eleições e estou a pensar apenas nas consequências a nível científico. Se pensarmos em termos de ciência, poder-se-ia pensar que o afundamento da ciência norte-americana será benéfico para a Europa, que forma mais cientistas e engenheiros que os Estados Unidos mas não consegue retê-los: boa parte da «mão-de-obra» científica nos Estados Unidos vem de fora, em muitas áreas principalmente da Europa. Um ambiente «hostil» em algumas áreas, como seja a investigação em células estaminais a que Palin se opõe e Bush vetou, aliado a políticas de financiamento federal de investigação científica na linha das actuais poderão tornar este país menos aliciante para cientistas europeus.

Um desinvestimento federal em ciência nos Estados Unidos poderá assim beneficiar a Europa e colocar-nos na liderança em termos científicos e também tecnológicos, isto é, será uma ajuda preciosa em termos do desenvolvimento europeu de uma economia do conhecimento. Por exemplo, as tecnologias em energias renováveis, em que aposta muito fortemente a Alemanha, serão as próximas indústrias globais, ultrapassando muito provavelmente as tecnologias da informação daqui a uns anos. Os países que mais investirem agora em investigação nesta área beneficiarão assim de uma vantagem estratégica no futuro próximo.

No entanto, também nesta área, um abrandamento da investigação nos Estados Unidos afectar-nos-à a todos uma vez que atrasará certamente o desenvolvimento de formas alternativas de energia de que o planeta precisa urgentemente.

"THERE'S PROBABLY NO GOD"


A British Humanist Association, com a ajuda principal do biólogo Richard Dawkins, vai iniciar uma campanha publicitária, com cartazes nos autocarros de Londres, em defesa da ideia de que "provavelmente não há Deus". Ver notícia aqui.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Civilização ou barbárie em John Dewey


“À semelhança do que se passa com a vida biológica, a existência da sociedade é devida a um processo de transmissão. É através da comunicação de hábitos de fazer, construir e sentir, por parte dos mais velhos para os mais novos que esta transmissão se processa. Se não acontecer esta comunicação dos ideais, esperanças, expectativas, padrões e opiniões daqueles que mais depressa irão desaparecer do grupo dos vivos para aqueles que começam a fazer parte deste, então a vida social não sobrevive (…). A menos que sejam tomadas medidas de forma a verificar que se processa uma transmissão genuína e completa, qualquer grupo, por mais civilizado que seja, regressa à barbárie e seguidamente ao estado selvagem. De facto, os jovens humanos são de tal forma imaturos que se fossem abandonados a si próprios sem a orientação e ajuda de outros poderiam nem adquirir as competências rudimentares necessárias à própria existência física.”

As palavras acima transcritas são de John Dewey (1859-1952) e foram publicadas em 1916, no seu livro Educação e Democracia.

Dewey é um dos autores mais referidos nos trabalhos académicos que se produzem na área da pedagogia. Toda e qualquer dissertação de mestrado ou doutoramento, artigo ou livro que trate da aprendizagem, do ensino, da formação de professores, da educação para a democracia, da educação científica, da educação artística, da teoria e desenvolvimento curricular, dos métodos pedagógicos, inclui, por certo, o seu nome.

De facto, é inegável a influência das teses que formulou nas concepções de ensino que se retomaram ou formaram no passado século. E isso não aconteceu apenas no seu país - os Estados Unidos da América -, cedo chegaram à Europa e, naturalmente, a Portugal. A vastíssima e diversificada obra que produziu poderá justificar este reconhecimento, mas só em parte. Na verdade, os ódios e as paixões que ela desencadeou contribuíram bastante para isso.

Muitos foram aqueles que, ainda ele era vivo, o acusaram frontalmente de, com a sua proposta “progressista”, contribuir para a acentuada decadência da educação.

Por seu lado, os entusiastas dessa proposta aligeiraram-na e transformaram-na em slogans bem conhecidos como “ensino centrado no aluno”, “preparação para a vida”, “resolução de problemas complexos”, “aprendizagem pela descoberta”, “aprendizagem activa”, etc.

Quem o reconheceu, talvez em primeira mão, foi o próprio Dewey, que passou grande parte da sua vida a procurar esclarecer o sentido das suas palavras. E, nessa tarefa de reposição do que considerava certo, houve aspectos em que insistiu de modo muito vincado: a importância do ensino, o valor do conhecimento e a sua transmissão estruturada.

Dewey criticou sobretudo aqueles que, dizendo segui-lo, contribuíam para a não educação ou para a deseducação, ao defenderam a centração na criança, nos seus interesses e no respeito que mereceriam, ao ponto de advogarem a sua não modificação e proporem actividades pedagógicas sem substância.

Se alguma coisa este pedagogo e filósofo fez questão de deixar bem vincada foi a necessidade de se assumir a mudança intelectual e axiológica quando se exerce a acção educativa. Ainda que, para se chegar a todos os alunos, e não apenas aos mais privilegiados, como ele defendia, fosse importante ter em conta os seus interesses, que deveriam constituir um ponto de partida, mas nunca um ponto de chegada.

Aos professores atribuiu Dewey essa nobre e difícil tarefa de, partindo dos alunos, proporcionarem experiências de aprendizagem verdadeiramente educativas destinadas a desenvolver a cognição e, assim, assegurarem a manutenção da civilização.

Por esta e por outras ideias que veiculou - algumas das quais discutíveis à luz dos conhecimentos actuais - vale a pena a ler a sua obra, na versão original.

"Isto é dramático?"


"Porque é que há uma corrida dos professores à reforma - 700 só no próximo mês?
O aumento da idade de reforma e a alteração do estatuto de carreira do docente acarretaram, sobretudo para os professores em fim de carreira, uma mudança. Alguns iam à escola quatro horas por semana. Foi preciso dizer aos professores que as outras horas de trabalho, que o País paga, são precisas nas escolas, que os alunos precisam delas. Imagine um professor que ia oito horas à escola e que, de repente, passa a estar lá 25! Pessoas que acumulavam nos colégios privados, deixaram de poder acumular. Isto é dramático? Do ponto de vista do sistema, não é dramático. Hoje, o País tem milhares de jovens diplomados a querer entrar no sistema de ensino."


Esta foi uma resposta da Senhora Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, a Paulo Chitas em entrevista à revista Visão do passado dia 16.

Dados divulgados na imprensa dão a conhecer que no ano de 2007 mais de três mil professores passaram à reforma; no presente ano o número já anda pelos cinco mil.

Quando vou às escolas percebo uma vontade geral dos professores, mais velhos e mais novos de partir, uma vontade quase desesperada de abandonar um sistema que os sufoca, que não os deixa ensinar como acham que está certo ensinar, que os impede de se concentrarem nos alunos... e percebo uma mágoa, quase sempre recatada, pelo facto de a sua dedicação, o seu empenho, o seu brio profissional ser sistematicamente enxovalhado por quem devia, em primeiro lugar, cuidar de os reconhecer como elementos fundamentais da sociedade.

Se há professores que não cumprem, que os deve haver, há professores dedicadíssimos que não deveriam ser assim apreciados pela Ministra que os tutela.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A polémica sobre computadores nas escolas



Novo post de Rui Baptista (no vídeo um dos "sketchs" dos Gato Fedorento sobre o computador "Magalhães", que, ao que consta, também irá para escolas da Venezuela e do Brasil):


A polémica sobre o “Magalhães” está longe de ter chegado ao fim. Todos os dias são publicados estudos sobre a utilização dos computadores na escola. No meu último post, “Magalhães e Obesidade”, debrucei-me, apenas, sobre o uso desta tecnologia em crianças do 1.º ciclo do ensino básico (antiga instrução primária), tendo apresentado estudos nacionais e estrangeiros que suportam os seus malefícios no desencadear e agravamento da obesidade.

Embora este post dissesse apenas respeito ao assunto do respectivo título, num dos comentários foi levantado o seguinte ponto: “Estou a perder dotes de ortografia com os correctores automáticos (…)”. Pelo seu interesse, mereceu-me a seguinte resposta: ”Falemos, então, do corrector de texto. Numa perspectiva hedonística de ensino tem vantagem evidente sobre os maçadores ditados do meu tempo de escola primária. Mas como é hábito dizer-se, o que arde cura. Fazendo a transferência para a aprendizagem quando ela é feita com esforço perdura; o que se aprende facilmente entra por um ouvido e sai por outro”.

Neste mesmo blogue já perspectivei outras questões, de natureza cognitiva, num post intitulado “A entrega de portáteis na escola”. Nessa altura, não se tratava da “oferta” de “Magalhães” a alunos 1.º ciclo do ensino básico, mas de computadores mais sofisticados a estudantes do ensino secundário a preço de saldo e com idêntica pompa e circunstância da presença do “staff” governamental. Sobre o perigo do uso dos computadores, escrevi o seguinte: “Pesquisar na Net pode ser uma arma de dois gumes: pode pesquisar-se o que se deve e o que não se deve, pondo nas mãos dos jovens essa triagem e essa responsabilidade num período da vida escolar deveras perigoso porque marca a transição de um ensino básico permissivo para um ensino secundário que se tem sabido manter firme no seu exigente papel de antecâmara do ensino superior”.

Segundo uma notícia da Agência Lusa, de 17 de Outubro deste ano, foi divulgado um estudo que envolveu mais de 500 crianças e encarregados de educação de escolas da Grande Lisboa, apresentado na “II Conferência Anual da Entidade Reguladora Para a Comunicação Social”, decorrida em Lisboa. Segundo ele: “11,1% dos jovens inquiridos confessaram que usam a Internet para visitar sites pornográficos”. Entretanto, também aí é acrescentado que “84,1% dos pais acredita que os filhos o fazem para procurar informação”...

Os resultados deste estudo são reforçados por um outro, revelado em Setembro deste ano, e intitulado “Projecto Kids Online”, que informa que “Portugal, é a par da Polónia, o único em 21 países europeus onde os pais portugueses menos conhecem o que os seus filhos fazem on-line”.

Mas há mais. Assim, recordo o que escrevi sobre a entrega de portáteis na escola: “As horas que deviam ser dedicadas ao estudo correm o risco de se transformarem em ‘conversas da treta, com os colegas”. Confirma-nos agora o último estudo: “Na utilização da Internet, as crianças respondem que o fazem para conversar ou descarregar música (…)”.

Penso que ambos, o estudo da Grande Lisboa e o do “Projecto Kids Online”, podem servir de tira-teimas à acalorada polémica sobre computadores no ensino. E julgo que a procissão ainda vai no adro da igreja...

"TOP TEN" DE "POP SCIENCE"


O físico inglês John Barrow escreve na última revista "Physics World", do Instituto de Física britânico, um artigo sobre o crescimento da publicação de livros de divulgação científica. O artigo intitula-se sugestivamente "Pop science's big bang". Neste ano assinalam-se 20 anos sobre a publicação de "Uma Breve História do Tempo" de Stephen Hawking e também 20 anos sobre o aparecimento da revista.

Para acompanhar o artigo de Barrow, ele próprio escritor de livros de divulgação, a equipa editorial de "Physics World" escolheu 10 livros de "popular science" na área das ciências físicas de entre os que foram publicados nos últimos 20 anos:

1. "A Brief History of Time", Stephen Hawking, 1988.
2. "The Elegant Universe", Brian Greene, 1999.
3. "A Short History of Nearly Everything", Bill Bryson (2003)
4. "Longitude", Dava Sobel (1996)
5. "The Physics of Star Trek", Lawrence Krauss (1994)
6. "Strange Beauty", George Johnson (1999)
7. "Just Six Numbers", Martin Rees (1999)
8. "The Emperor's New Mind", Roger Penrose (1989)
9. "What do you Care what Other People Think", Richard Feynman (1989)
10. "The Trouble with Physics", Lee Smolin (2006).

À atenção dos editores: salvo erro, os livros 5, 6, 7 e 10 ainda não foram publicados em Portugal...Destes, o 5 tem uma edição brasileira.

MAPAS DA CIÊNCIA



Estes dois mapas mostram a área do país de modo proporcional a dois índices de produção científica:
- o de cima a proporção de artigos científicos mundiais publicados por autores desse país em 2001;
- o de baixo a proporção do aumento de artigos científicos publicados por autores desse país em 2001 relativamente a 1990.
Se no primeiro mapa, Portugal é pequenino, no segundo já está maior... E o mesmo se passa com o Brasil.

Os interessantes mapas, que são feitos pelo SASI Group e se encontram no sítio Worldmaps, saíram na forma de livro no passado mês de Setembro.

Filosofemos

A minha habitual crónica das terças-feiras do Público chama-se significativamente "Filosofemos" e está aqui.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Provar uma negativa

Aparentemente provocou alguma perplexidade a minha afirmação, num comentário, de que é um mito científico a ideia de que não podemos "provar negativas". Aqui está um bom artigo de Steven D. Hales para mostrar que se pode provar negativas. Na verdade, o que ele diz é trivial e qualquer filósofo competente que pense nisto por um momento concordará com ele. Claro que há depois muitas complicações quando começarmos a desenvolver as coisas, mas o importante é que é uma ilusão pensar que não se pode provar negativas. Na verdade, se não se pudesse provar negativas não se podia provar que não se podia provar negativas, porque a própria tese em causa é uma negativa. Mas, claro, isto só é óbvio para quem está habituado a pensar filosoficamente. Quem não está habituado vai dizer que isto é um jogo de palavras.

A ideia de que não se pode provar negativas está intimamente relacionada com o verificacionismo, e isto é algo que o Hales não refere. Parece plausível a um cientista que não se pode provar negativas porque não há experiências decisivas que possam provar negativas. Claro que isto é disparatado porque não há experiências decisivas para provar seja o que for: mandamos uma sonda a Marte e ela fotografa água, mas a foto pode ter sido adulterada por qualquer coisa e ser enganadora; a máquina faz uma experiência química e manda o resultado; mas o resultado pode ter sido modificado por qualquer fenómeno físico; etc. Não há experiências cruciais em ciência que possam decidir teorias, e isso qualquer filósofo da ciência sabe, se com experiência crucial se quer dizer uma experiência que elimine a possibilidade lógica de a teoria estar errada. Mas, claro, há experiências cruciais no sentido banal do termo, mais fraco, em que geralmente quando vemos árvores elas existem realmente, apesar de poderem logicamente não existir por estarmos a sonhar ou a alucinar ou etc. Mas se aceitamos provas neste sentido mais fraco -- e devemos aceitá-las porque caso contrário morríamos e não teríamos ciência -- então também temos de aceitar que se pode provar que não há deuses, flogisto ou seja lá o que for. Uma maneira simples de provar uma negativa e mostrar que não temos razão alguma para supor que algo existe. Poderá isso existir? Sim. No mesmíssimo sentido em que quando pensamos que existe uma árvore porque a estamos a ver, podemos estar enganados porque estamos a sonhar ou a alucinar ou etc. 

O mito científico de que não se pode provar uma negativa é muito comum na Internet. Há muitos mitos na Internet, além deste, científicos e outros, porque a partir do momento em que metemos montes de gente à balda, surgem montes de mitos: afirmações que por uma razão ou outra têm tendência para parecer razoáveis à maior parte das pessoas, mas são falsas e ninguém se dá realmente ao tabalho de procurar a verdade cuidadosamente: os debates na Internet são como os debates na televisão (o objectivo não é chegar à verdade, mas destruir o parceiro) e não como os bons debates académicos são quando são bons e nos quais se procura arduamente e sinceramente descobrir a verdade das coisas e não trapacear o parceiro para ganhar... o quê, exactamente? Tolices. 

Uma falácia comum é pensar que as opiniões de um biólogo, por exemplo, têm um peso acrescido quando se trata de questões como a lógica, os fundamentos do conhecimento, deuses, ou política. (Veja-se nos EUA a ideia de saber em quem vão votar os Prémio Nobel, como se as ideias políticas de um Prémio Nobel da física fossem necessariamente melhores do que as de um advogado ou taxista que não ganhou qualquer Prémio Nobel. Chama-se a isto falácia da autoridade deslocada ou imprópria.)

A filosofia é inevitável. Mas começamos a pensar sobre questões fundamentais (o que é o conhecimento? o que é a realidade? que tipos de realidade há? etc.), desatamos a filosofar sem nos darmos conta disso. Acontece que as opiniões de um poeta com respeito a estes temas têm tanta plausibilidade quanto as de um Prémio Nobel em biologia, porque quem trata destes temas malucos são os filósofos e quem não conhece a bibliografia diz inevitavelmente disparates simplistas. Tal como eu tenho uma ideia disparatada e simplista da química. A diferença é que não finjo que tenho ideias interessantes em química. Deixo isso à Palmira, tal como ela deixa a filosofia para mim.

Uma Breve História do Mundo

Estou a ler uma pérola de divulgação histórica: Uma Breve História do Mundo, de Geoffrey Blainey. Num só volume breve, o autor consegue dar uma boa visão, com suficiente pormenor, da história da humanidade, desde os seus primórdios hominídeos em África, até ao séc. XXI. O autor consegue a façanha de não mentir ao leitor, fingindo que sabemos tudo sobre o nosso passado — diz-nos até, em certos casos, por que razão sabemos certas coisas sobre os nossos antepassados —, mas oferece uma visão suficientemente sintética para caber num só volume. Não é um daqueles historiadores palavrosos que passam a vida a dizer coisas que evidentemente não podem saber, mas não se inibe de fazer especulações sensatas sobre a razão de ser deste ou daquele acontecimento histórico ou pré-histórico. O livro tem sido um sucesso nos países de língua inglesa e no Brasil está já disponível pela editora Fundamento. O primeiro capítulo pode ser lido aqui.

A edição brasileira que tenho (a segunda, diz na capa) é de fazer chorar as pedras da calçada. Não indica o nome do tradutor (apesar de dizer online); tiraram o prefácio da edição original, assim como a bibliografia (!) e o índice remissivo. E a melhor descrição da tradução é que consegue imitar razoavelmente a língua inglesa com palavras portuguesas: ou seja, as palavras inglesas foram traduzidas, mas não houve qualquer mudança na estrutura sintáctica, que permanece maravilhosamente inglesa. Não sei até que ponto quem não lê fluentemente inglês consegue compreender muitas daquelas passagens, mas dado que o editor até a bibliografia tirou, já se sabe que presume que o leitor é demasiado besta para estar interessado realmente em compreender seja o que for.

Este tipo de edição deixa-me sempre sentimentos contraditórios. Por um lado, é uma falta de respeito pelo leitor, é tratá-lo como lixo idiota. Por outro, os leitores copiam tanto os livros, e tornam o negócio tão difícil, que eu compreendo que um editor poupe todo o dinheiro que puder — traduzir bem é caro, fazer índices remissivos também, e em geral o editor tem o sentimento de que se fizer isso entra numa espiral desgraçada: o livro vai ficar 10 reais mais caro, o que vai incentivar ainda mais a cópia pirata, o que faz diminuir ainda mais as vendas. Na maior parte dos casos edita-se lixo e até acho bem que se edite mal e para ganhar descaradamente dinheiro à custa de tolos, porque a economia depende em grande parte de tolos que compram tolices. Mas num livro realmente bom, como este, fico sempre incomodado com a falta de qualidade. 

Enfim, vale o facto de estar publicado — em Portugal, por exemplo, não há tradução. A quem lê inglês, recomendo evidentemente o original, que se pode comprar por 5 dólares apenas na Amazon.com.

"O dever de educar"

A Livraria Minerva retoma no próximo dia 21, pelas 18h15, as Terças Feiras de Minerva com a primeira sessão do ciclo O dever de educar, que terá como convidado o Professor João Boavida, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

Neste ciclo lança-se um desafio aos convidados — professores, escritores, cientistas, filósofos, artistas, investigadores, jornalistas, estudantes: como tem sido entendido o dever de educar, e como é ou deve ser entendido no presente.

Com eles se discutirá o significado da "aprendizagem activa", da "aprendizagem centrada no aluno", do "direito ao sucesso e da educação para a excelência", da "educação para a liberdade de escolha". Discutir-se-á também o "valor do conhecimento", na "responsabilidade de ensinar", na "importância de desenvolver capacidades como a memória, a compreensão e a criatividade", de "ser professor neste início de século", do "ensino que a escola proporciona" e de "escolas de excepção".

As sessões, com uma regularidade quinzenal, destinam-se a todos os que possam ter interesse pela educação, são abertas ao público e decorrem na Livraria Minerva (Rua de Macau, n.º 52 - Bairro Norton de Matos), em Coimbra.

O dever de educar continua nos dias 4 e 18 de Novembro e 2 e 16 de Dezembro.

A corrida presidencial americana


USA 2008 Presidentials - Greyhound Race from Spam Cartoon on Vimeo.

Cartoon de André Carrilho e João Paulo Cotrim.

ARTE ISLÂMICA


Clicar aqui para descobrir a arte islâmica, onde a ciência por vezes também aparece (na foto padrões geométricos em pano árabe dos séculos XIV-XV, do Victoria and Albert Museum de Londres). A organização deste museu virtual é dos "Museus sem Fronteira", com participação portuguesa, que procuram em colaborações internacionais fazer museus temáticos. A seguir aos árabes será a vez do barroco...

Entrevista sobre educação

Fui entrevistado para o programa Páginas de Português, da Antena 2, sobre o ensino. O resultado está aqui. Ligação directa para a versão em MP3, aqui.

Definições

Retirado da Enciclopédia de Termos-Lógico Filosóficos, eis um artigo sobre definições que poderá ser útil. As definições são cruciais na nossa vida cognitiva: em física, biologia, direito, filosofia, sociologia. Precisamos de saber exactamente o que é um solteiro, em termos legais, por exemplo; o que é a massa, em física; o que é a água; o que é a validade dedutiva. Em todos estes casos, precisamos de definições rigorosas, mas para saber avaliar e apresentar definições precisamos de ter uma visão clara dos diferentes tipos de definições. Foi isso que tentei fazer neste artigo. Espero que seja útil. Aproveito para informar que a versão portuguesa da Enciclopédia deverá sair em 2009. 

Definir é especificar a natureza de algo. Chama-se definiendum ao que se quer definir e definiens ao que a define. Por exemplo, pode-se definir o ouro (definiendum) como o elemento cujo peso atómico é 79 (definiens). E pode-se definir a palavra «solteiro» como «não casado». Chama-se «real» ao primeiro tipo de definição e «nominal» ao segundo.

Há três tipos principais de definições nominais: as lexicais, as estipulativas e as de precisão.
Nas definições lexicais ou de dicionário dá-se apenas conta do significado preciso que uma dada palavra realmente tem. Estas definições podem ser equivalentes a definições reais. Por exemplo, definir a palavra «água» como «líquido incolor, sem cheiro nem sabor, que se encontra nos rios e na chuva» é equivalente a definir a própria água porque muitas vezes o modo formal é equivalente ao modo material (ver MODO FORMAL / MATERIAL).

Usa-se uma definição estipulativa quando se introduz um termo novo (como «Dasein»), ou quando se quer usar um termo corrente numa acepção especial (como «paradigma», na filosofia da ciência de Thomas Kuhn). Uma forma falaciosa de argumentação consiste em presumir que uma definição capta sempre algo, como se a definição de «flogisto» implicasse a existência de flogisto. Outra, consiste em simular definir uma noção da qual depende a plausibilidade de uma ideia, mas fazê-lo de modo tão vago que impede qualquer avaliação crítica dessa ideia.

Usa-se uma definição de precisão quando se pretende tornar o discurso mais preciso, dando um significado particular a um termo que pode ser entendido de modos diferentes («liberdade», por exemplo). Uma forma falaciosa de o fazer é usar uma definição que não capta aspectos fundamentais da noção em causa, o que permite criar a ilusão de que se resolveu o problema em discussão.

Os tipos fundamentais de definições são os seguintes:
  • Definições Explícitas
    • Analíticas
    • Essencialistas
    • Extensionais
  • Definições Implícitas
    • Ostensivas
    • Contextuais
Nas definições explícitas define-se algo por meio de condições necessárias e suficientes ou (o que é equivalente) através do esquema «definiendum é definiens». Por exemplo, «Algo é um Homem se, e só se, é um animal racional» ou «O Homem é um animal racional».

Nas definições implícitas define-se algo sem recorrer a condições necessárias e suficientes. Por exemplo, ensina-se as cores às crianças por definição implícita ostensiva: apontando para exemplos concretos de objectos coloridos. A incapacidade para definir explicitamente algo não significa que não se sabe do que se está a falar, pois a maior parte das pessoas não sabe definir explicitamente as cores, mas não se pode dizer que não conhecem as cores. Contudo, a procura de definições explícitas de noções centrais é uma parte importante da filosofia (e da ciência); a definição de conhecimento, arte, verdade e bem, por exemplo, tem constituído parte importante respectivamente da epistemologia, da estética, da metafísica e da ética.

As definições implícitas contextuais podem ser tão precisas e rigorosas quanto as definições explícitas. Um sistema axiomático para a aritmética, por exemplo, nunca define a soma explicitamente, mas o sistema no seu todo define correctamente esta operação (ver DEFINIÇÃO CONTEXTUAL).

As definições analíticas são as mais fortes de entre as explícitas, no sentido em que toda a definição analítica correcta é uma definição essencialista correcta (mas não vice-versa), e toda a definição essencialista correcta é uma definição extensional correcta (mas não vice-versa).

As definições analíticas captam o significado do termo a definir, resultando numa frase analítica. Por exemplo, a definição «Um solteiro é uma pessoa não casada» é uma frase analítica. As definições analíticas são expressões de sinonímia. Estas definições são nominais; contudo, dadas as críticas recentes à definição metafísica de analiticidade (ver ANALÍTICO), é defensável que são igualmente reais.

As definições essencialistas procedem em termos de condições metafisicamente necessárias e suficientes (ver CONDIÇÃO NECESSÁRIA). Por exemplo, a definição «A água é H2O» é essencialista porque, em todos os mundos possíveis, uma condição necessária e suficiente para algo ser água é ser H2O (ou seja, a água é necessariamente H2O). Esta definição não é analítica porque o significado da palavra «água» não é «H2O» (mesmo as pessoas que não sabem que a água é H2O sabem o significado da palavra «água»).

As definições extensionais procedem em termos de condições necessárias e suficientes. Por exemplo, a definição «Uma criatura com rins é uma criatura com coração» é uma definição extensional porque todas as criaturas que têm rins têm coração, e vice-versa. Mas noutros mundos possíveis poderá haver criaturas com rins que não têm coração, e por isso esta definição não é essencialista (logo, também não é analítica).

As definições explícitas podem falhar por 

1) serem excessivamente restritas (não incluírem tudo o que deviam), 
2) serem excessivamente amplas (incluírem o que não deviam) e 
3) incorrerem no erro 1 e 2 simultaneamente. 

Por exemplo: «A filosofia é o estudo do Homem» é uma definição excessivamente restrita de filosofia, pois exclui disciplinas filosóficas como a lógica e a metafísica, entre outras; «O Homem é um bípede sem penas» é uma definição excessivamente ampla, pois inclui na categoria de Homem bípedes como os cangurus; «O Homem é um animal racional» é excessivamente ampla (poderá haver animais racionais noutras partes da galáxia, e eles não serão humanos) e é excessivamente restrita (alguns bebés humanos nascem sem cérebro, pelo que não podem ser racionais, mas são apesar disso seres humanos).

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...