sexta-feira, 20 de março de 2026

O QUE MAIS IRÁ SER ENGENDRADO NA LITERACIA FINANCEIRA?

 

Quando, ontem, escrevi o texto que se pode ler aqui, julguei que tudo o que se poderia engendrar para levar a cabo, com grande sucesso, a literacia financeira já tinha sido engendrado, que nada mais haveria a acrescentar. Enganei-me. Não tinha lido a nota acima identificada, constante na página do Governo.

Soube, então, que foi apresentado o Plano Estratégico do Plano Nacional de Formação Financeira (interessante designação) para 2026-2030 no qual se percebem as boas relações entre o Ministério da Educação e três stakeholders (Banco de Portugal, Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões e Comissão do Mercado de Valores Mobiliários) tendo em vista o reforço da tal literacia.

Diz-se nessa nota que: 

1) Será criada uma bolsa de formadores através da capacitação de estudantes de ensino superior, docentes, entre outros, tornando-os aptos a lecionar, em articulação com o professor de Cidadania e Desenvolvimento, sessões de formação" em todos os níveis de escolaridade "procurando criar um efeito multiplicador que contribua para o aumento dos níveis de literacia financeira"
2) Os professores para além do "curso certificado" existente podem frequentar "novos cursos flexíveis, organizados por ciclos de ensino e por temas";
3) Em articulação com o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA), produzir-se-ão “materiais pedagógicos, incluindo vídeo-aulas e apresentações, de forma modular" de acordo com as Aprendizagens Essenciais" de literacia financeira e empreendedorismo;
4) Será disponibilizada uma "plataforma digital para as escolas", destinada a "complementar a aprendizagem (...) e apoiar a formação contínua dos professores;
5) (E o que já tinha visto na imprensa): integrar-se-á nos Mestrados em Ensino um módulo de literacia financeira destinado a futuros professores. "As escolas passam, assim, a receber uma nova geração de professores capacitada para abordar a educação financeira".

Imagine-se que o Ministério colocava o mesmo empenho em áreas de conhecimento efectivamente escolares: leitura compreensiva e escrita, filosofia, literatura, música, dança, teatro... 

4 comentários:

Carlos Ricardo Soares disse...

Já me pronunciei neste espaço sobre literacias e, em particular, sobre a literacia financeira nas escolas. Poucas instituições serão tão moldáveis como as escolas e isso, não sendo necessariamente um defeito, também não é necessariamente uma virtude. E, a propósito, as virtudes e os defeitos das literacias derivam sobretudo da forma como interceptam a escola fazendo dela um veículo educativo.
Quanto a isto, as semelhanças entre EMRC e as literacias para a cidadania não são poucas e já tentei mostrar que alguém andava a tentar recrutar os professores, mesmo os de economia, contabilidade, direito e sociologia, para catequistas.
A Economia, como disciplina científica, tem métodos de validação externa e pluralidade teórica, mas a Literacia Financeira surge como tecnologia educativa aplicada, frequentemente promovida por agentes com interesses próprios e a EMRC assume explicitamente uma função moral e formativa, ancorada numa tradição religiosa. A diferença fundamental entre estas três áreas não está apenas no conteúdo, mas na natureza da autoridade que reivindicam.
A Economia é a única que não depende de uma autoridade normativa externa, nem de uma doutrina religiosa, nem de um setor económico e, por isso, é a única que não se presta facilmente a ser transformada num catecismo. Já a Literacia Financeira e a EMRC, embora muito diferentes entre si, partilham a característica de proporem uma visão de comportamentos que se devem ter, de como se deve agir, consumir, poupar, partilhar, viver. Ambas operam no território sensível da formação de valores e comportamentos, e ambas podem, se mal enquadradas, transformar professores em catequistas e alunos em reprodutores de preceitos e de comportamentos.
A literacia financeira, tal como é frequentemente promovida, tende a apresentar uma visão financeirizada do mundo como se fosse a própria realidade. O indivíduo como gestor de si, o mercado como mecanismo natural de organização social, o risco como escolha individual, a poupança como virtude cívica, não são uma visão científica, mas ideológica, no sentido em que molda e apela a uma conceção de sociedade e de pessoa.
O problema ético surge quando esta visão é ensinada como se fosse neutra, técnica, inevitável. A literacia deixa então de ser emancipadora e passa a ser disciplinadora. Ao naturalizar estruturas económicas, desloca responsabilidades coletivas para o indivíduo e reduz a cidadania à adaptação a um sistema pré‑definido. A EMRC, por sua vez, assume a sua normatividade, mas pode igualmente tornar‑se prescritiva se não for dialogante.
As literacias apresentam-se como uma espécie de terapias alternativas, ou seja, estão para a educação como as homeopatias estão para a medicina. Lembram as terapias alternativas.
Falta-lhes uma validação epistemológica robusta. Muitas vezes não assentam em investigação sistemática, mas em consensos práticos, agendas políticas ou interesses setoriais. Entram no sistema educativo por via normativa, não científica, introduzidas porque “é importante que os alunos saibam isto”, não porque exista um corpo teórico consolidado que o justifique.
Há o risco de se tornarem doutrinas comportamentais, tal como algumas terapias alternativas prometem “harmonizar” o indivíduo, certas literacias prometem “formar” o cidadão ideal, responsável, resiliente, financeiramente prudente, digitalmente vigilante, sem discutir criticamente o modelo de cidadania subjacente.

Carlos Ricardo Soares disse...

Quando a educação se enche de literacias, corre o risco de substituir o pensamento crítico por comportamentos desejáveis, com as limitações e contra-indicações inerentes.
A questão central é que as literacias pressupõem sempre um modelo de cidadania antes de o discutirem. E quando esse modelo é invisível, o aluno não aprende a pensar, aprende a reproduzir.
Garantir que a educação para as literacias não reduz a imaginação democrática exige transparência, pluralidade, crítica e consciência dos pressupostos. Exige, sobretudo, que a escola continue a ser um espaço onde o real é discutido, não imposto, onde o possível é imaginado, não amputado, onde o cidadão é formado para pensar e não apenas para reproduzir.
A educação democrática exige literacias que preparem para imaginar o mundo como poderia/deveria ser, não apenas para viver no mundo tal como é.
Vivemos num tempo em que a escola se tornou o repositório de todas as expectativas sociais: literacias financeiras, digitais, ambientais, mediáticas, competências sócio-emocionais, educação para a cidadania, sustentabilidade, empreendedorismo, criatividade. Cada nova preocupação social gera uma nova literacia, e cada literacia traz consigo um projeto normativo.
Mas o tempo escolar é finito, e as capacidades cognitivas e emocionais dos alunos também.
Quanto mais se expande o campo daquilo que se quer ensinar, mais se torna difícil garantir a viabilidade, a prioridade e a coerência dos objetivos educativos.
A escola corre o risco de se transformar num mecanismo de normalização ideológica, em vez de ser um espaço de formação crítica.
A educação é simultaneamente instrumento económico, político e social. E quanto mais se expande o seu campo, mais ela própria se torna o mecanismo que legitima essa expansão, entrando numa circularidade que pode obscurecer os limites reais da aprendizagem humana.
Vivemos num momento em que alguns líderes políticos, ao rejeitarem mediações institucionais, direito, ciência, organismos internacionais, procuram substituir a objetividade institucional por “objetividade é o que eu quiser”. Não é apenas uma desconfiança da ciência, ou porque ela seja irrelevante, mas porque ela introduz limites, escrutínio e contestabilidade.
Neste contexto, a educação torna‑se um campo estratégico. Quem controla as literacias controla a narrativa do real.
E quando a literacia financeira, ou qualquer outra, é ensinada como se descrevesse o mundo tal como ele é, e não como uma entre várias formas possíveis de o organizar, ela pode tornar‑se um instrumento de redução da imaginação democrática.

Rui Ferreira disse...

… “literacia financeira” (como ser culpado por não conseguir viver com o salário mínimo) ou “empreendedorismo” (porque é que cada um é culpado pelo próprio desemprego) …
Raquel Varela
https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/2025/12/05/governo-quer-de-facto-proibir-a-greve/

Traduz-se, como diria Freire, numa pedagogia de domesticação, que não visa formar sujeitos críticos, mas adaptativos às exigências de um mercado apresentado como inevitável. (…) Recusar a literacia financeira tal como hoje é imposta não é recusar o conhecimento matemático ou económico, é recusar a sua instrumentalização ao serviço da reprodução das desigualdades.
Alice Faro e Santos
https://jornalmaio.org/educacao-ou-mercado-a-quem-serve-a-literacia-financeira-nas-escolas/

A palavra “literacia” veio designar o que a antiga “alfabetização” deixou de ser capaz de nomear: o domínio de códigos específicos, de práticas linguísticas especializadas, sem as quais os cidadãos ficam limitados nos seus gestos, conhecimento e capacidades.
Se a escola, na tradição humanista, fazia dos textos literários um instrumento essencial para a aquisição de competências de leitura e escrita, era, entre outras razões, porque considerava que a literatura correspondia ao mais sofisticado uso da linguagem e, por conseguinte, fornecia as aptidões para a compreensão e o uso de todos os campos linguísticos não técnico-científicos. E, ao mesmo tempo que conferia ao indivíduo a capacidade de realizar as suas tarefas funcionais, permitia-lhe também participar na esfera pública enquanto cidadão.
António Guerreiro, Revista Ípsilon, Jornal “Público”, 23 de agosto de 2024.
https://www.publico.pt/2024/08/23/culturaipsilon/cronica/escola-pobres-2101345

Helena Damião disse...

Estimados Leitores, agradeço os vossos esclarecedores comentários. Continuam o meu texto e completam-nos em vários aspectos. Cordialmente, MHDamião

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Isaltina Martins, nossa companheira do De Rerum Natura , é autora de um maravilhoso blogue com o título A cultura e as línguas clássicas , a...