segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

UM APELO A DIRECTORES E PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA

O Ministro da Educação e o Governador do Banco de Portugal auto-investiram-se no papel de professores para "darem aulas" de "educação" financeira" (ver aqui aqui). A eles juntam-se, agora, "líderes empresariais e autárquicos de referência em Portugal": "vão assumir o papel de «Professor por um Dia»" (ver aqui). A usurpação da “nobre e exigente tarefa de ensinar” (ver aqui) é óbvia!

 
E, como em casos congéneres, confirma-se a Lei de Murphy: o que pode piorar, piora: a "iniciativa é conduzida pela Teach For Portugal", sucursal do empório global que é a Teach for All, a que nós, como tantos outros países, abrimos carinhosamente as portas das escolas públicas para que "apoiasse" os "mais desfavorecidos" para que tenham "acesso a oportunidades".
 
Então, seguindo a notícia do sítio online Human Resources, os tais líderes empresariais e autárquicos de referência,  "acompanhados por mentores da Teach For Portugal e pelos professores das escolas":
1) "preparam previamente as aulas em conjunto" com essa organização e com os professores, "garantindo que os conteúdos (Literacia Financeira, Empreendedorismo ou Objectivos de Desenvolvimento Sustentável) estão alinhados com o currículo e adequados ao perfil da turma";
2) trabalham com alunos em sala de aula, "respondendo a perguntas, partilhando experiências e dinamizando actividades".
 
Entendi bem? Os "líderes empresariais e autárquicos de referência", nomeados na notícia, vão preparar aulas, ou seja, planificar aulas?! Com apoio da Teach For Portugal?! E vão trabalhar com alunos em sala de aula?! Nos temas de literacia financeira empreendedorismo e Objectivos de Desenvolvimento Sustentável?! 
 
E se esta disrupção (palavra na moda) não fosse bastante, a iniciativa procura duas coisas:
1) "aproximar o sector empresarial e as autarquias da realidade diária da escola pública";
2) "reconhecer e valorizar o trabalho dos professores", dar "visibilidade à complexidade" a esse trabalho e "ao papel central da escola pública".  
 
Entre as perguntas mais óbvias que não podem deixar de se colocar, saliento as seguintes:
1) haverá directores que deixam entrar estes líderes e esta organização na sua escola (que é pública) e professores que se dispõem a trabalhar com eles, permitindo-lhes ocupar o seu lugar na sala de aula para "dinamizar actividades" (isso mesmo, dinamizar actividades"!)?
2) se isso acontecer, não perceberão que os alunos serão usados em experiências inconsequentes, decorrentes de interesses particulares, de ordem política e económica (aqui tão obviamente ligadas)? 
3) será legal que quem não tenha formação para ser professor, não seja credenciado como tal, não saiba do ofício, possa planificar e leccionar (duas tarefas centrais na docência e que envolvem uma multiplicidade de saberes especializados, além de uma enorme responsabilidade)?
4) será legal "aproximar o sector empresarial e as autarquia" da escola pública, estratégia claramente ideológica, quando na Constituição da República Portuguesa e na Lei de Bases do Sistema Educativo está plasmada a proibição de programar o ensino segundo quaisquer directrizes políticas, ideológicas...?
5) será legal categorizar crianças e jovens que estão na escola pública como "mais desfavorecidos" e, em função disso, delinear intervenções externas e marginais à sua função educativa, sendo que os "mais favorecidos" ficarão a salvo delas?
 
E é bem evidente que, caso sejam invocados princípios éticos estruturantes - dignidade, justiça, liberdade... - este altruísmo-de-trazer-por-casa desaba de imediato.
 
Uma nota mais sobre a fineza retórica: 
- substituir os professores por quem não é professor, colocando-os ao serviço de entidades particulares, "pretende reconhecer e valorizar o trabalho dos professores", dar "visibilidade à complexidade" a esse trabalho; 
- subverter os desígnios da escola pública é reconhecer o "papel central da escola pública". 
 
Vê-se aqui muito bem a figura do "duplo pensar" que Orwell captou e denunciou, mas que, ainda assim, continua a funcionar lindamente na manipulação de massas.

Termino com um apelo aos directores e aos professores, os últimos elos do sistema de ensino: com base na lei de autonomia de escola e no dever de educar de que estão investidos, não deixem entrar nas vossas escolas, nas vossas aulas "líderes empresariais e autárquicos", eles não são educadores, o seu lugar é nas empresas e nas câmaras, lá serão competentes e precisos, na escola não.

1 comentário:

OLima disse...

Boa tarde. Peço licença para acrescentar uns 'pozinhos' a este excelente alerta: ADENDA AO APELO DE HELENA DAMIÃO
https://dererummundi.blogspot.com/2026/01/um-apelo-directores-e-professores-da.html
AOS DIRETORES E PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA A PROPÓSITO DA ‘’VISITA’ DE LÍDERES EMPRESARIAIS E AUTÁRQUICOS PARA DAREM ‘AULAS DE LITERACIA FINANCEIRA’: Os modelos veem dos EUA (Teach for America) e do Reino Unido (Teach Firist). As escolas envolvidas nada pagam porque há enormes apoios
https://teachforportugal.org/parceiros/
por trás: Bancos (BCP, Santander, Novo Banco), Distribuição (Sonae, Jerónimo Martins, Farfetch, Superbock, EDP), Tecnológicas (Microsoft, Ashoka), Fundações (Gulbenkian, La Caixa), Advogados (José Pedro Aguiar Branco), DReaamMewdia e Público (Portugal 2020, Horizon Europe,PRR)…
Essa ‘gente’ fez estágio obrigatório para dar aulas em escola oficiais portuguesas?

UM APELO A DIRECTORES E PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA

O Ministro da Educação e o Governador do Banco de Portugal auto-investiram-se no papel de professores para "darem aulas" de "...