quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

LANÇAMENTO DO LIVRO "ÍRIS CIENTÍFICA 5", DE ANTÓNIO PIEDADE, EM CONDEIXA-A-NOVA

O livro "Íris Científica 5", de António Piedade, que tem prefácio do professor Carlos Fiolhais, vai ser lançado no dia 23 de Fevereiro, Sábado, pelas 16h30, na Biblioteca Municipal Engº Jorge Bento, em Condeixa-a-Nova. 

O livro, que reúne 31 crónicas de divulgação científica, será apresentado pelo professor João Fernandes, director do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra.

A sessão, que terá início pelas 16h30, incluirá também uma palestra sobre "A Ciência na Poesia Portuguesa", proferida por António Piedade, e a actuação do Grupo Vocal Ad Libitum.

No final será servida uma "Escarpiada de Honra" a acompanhar uma sessão de autógrafos.


Ordem e Sindicatos de Enfermagem e respectivas atribuições

Meu artigo de opinião publicado hoje in "Diário as Beiras":

“A linguagem é uma forma de mal-entendidos”.

Antoine de Saint-Exupéry

Com a vivência de ter escrito o livro “Do Caos À Ordem dos Professores” (Janeiro/2004), em que, ao longo das suas duzentas páginas, me debrucei, exaustivamente, sobre a criação das ordens profissionais, anteriores a 25 de Abril de 74, destinadas exclusivamente a licenciados por universidades (médicos, advogados, engenheiros e farmacêuticos), enfatizei na respectiva p. 83:

“Como é consabido, a filosofia que tem presidido à criação das ordens profissionais, expressa em textos legais, aponta inequivocamente, as ordens como associações profissionais que têm como exigência mínima de inscrição uma licenciatura universitária, que se responsabilize pela qualidade dos actos profissionais prestados à comunidade pelos seus associados”.

E prossegui: ”No rescaldo duma época conturbada, que defendeu a sonegação do direito à diferença, em desrespeito deste modus faciendi, a Associação Nacional dos Professores do Ensino Básico (ANPE), constituída, em grande parte, por professores diplomados pelas antigas escolas do magistério primário anuncia num semanário realizado em 91, na cidade de Viseu, o firme propósito de se transformar em Ordem” (“Diário de Coimbra”, 07/05/91).

De lá para cá, quadruplicaram as ordens profissionais tendo sido criadas, entretanto, a Ordem dos Técnicos Oficiais de Conta e a Ordem dos Enfermeiros ambas tidas como génese da respectiva democratização ou havidas, a contrario sensu, como a sua mediocrização.

Alberga a primeira desde cursados pelas antigas escolas comerciais a licenciados pelo politécnico, acolhendo a segunda enfermeiros diplomados com o antigo curso geral de enfermagem e idêntica formação de ensino politécnico.

Para além destas minhas considerações, trago à colação um pequeno excerto da intervenção do Professor António Oliveira Marques no “Forum 96 - Pensar a Educação”, promovido pelo Sindicato Nacional dos Professores Licenciados, quando esclarece:

“A Ordem surge como defesa ética e até estética de toda uma profissão e de toda uma deontologia. Embora lhe possam interessar questões salariais e de promoção profissional, a Ordem delega esses assuntos nos sindicatos, respeitando o espaço tradicional que sempre lhe tem cabido e que sempre tem defendido com honra e dignidade”.

Aliás, esta situação, que estabelece o campo de acção dos sindicatos, encontra-se plasmada na Constituição da República Portuguesa, não permitindo, ipso facto, ceifas em seara alheia ao sabor de conveniências ocasionais ou meramente passionais de que é arquétipo a actual bastonária da  Ordem dos Enfermeiros.

Em suma, aos sindicatos compete a reivindicação dos direitos laborais dos seus associados e às ordens a atribuição do título profissional e o respeito por um código deontológico próprio. Assim, qualquer espécie de intromissão  da Ordem dos Enfermeiros em fronteiras  dos respectivos sindicatos, ou vice-versa, ainda que de forma sofismada, contribui para situações não só ilegais como ausentes de “ética e estética” defendidas por Oliveira Marques, emérito vulto da historiografia nacional.

Por fim, como sentenciavam os juristas da Roma Antiga: Suum cuique tribuere. Ou seja, dar a cada um o que é seu, no linguajar popular, dos nossos dias, “cada macaco no seu galho”!

TERTÚLIA SOBRE A TABELA PERIÓDICA


Na próxima sexta-feira, dia 22 de Fevereiro, pelas 17 horas, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, situado no piso 0 do Departamento de Física da FCTUC, José Ferreira Gomes, professor de Química da Universidade do Porto e coordenador nacional do “Ano Internacional da Tabela Periódica” estará à conversa com todos os interessados na celebração em Portugal dos 150 anos da Tabela Periódica. Apresentará o programa que está ser desenvolvido pela Sociedade Portuguesa de Química em colaboração com a Sociedade Portuguesa de Física e outras entidades, contando com ampla participação de escolas, para assinalar a proposta genial de Mendeleiev. Seguir-se-á um diálogo em que se tentará receber sugestões e promover novos eventos no Ano da Tabela Periódica A entrada é livre. A sessão interessa principalmente a professores, investigadores e estudantes.

SOBRE O ANO INTERNACIONAL DA TABELA PERIÓDICA (AITP 2019):

O ano de 1869 é considerado o ano da descoberta do Sistema Periódico, pelo cientista russo Dmitri Mendeleiev. O AITP 2019 comemora os 150 anos do estabelecimento da Tabela Periódica dos Elementos Químicos. O Ano Internacional visa a reconhecer a importância da Tabela Periódica como uma das conquistas mais importantes e influentes da ciência moderna, que reflete a essência não apenas da química, mas também da física, da biologia e de outras áreas das ciências puras. O AITP 2019 é uma oportunidade para se reflectir sobre os muitos aspectos da Tabela Periódica, incluindo sua história, o papel das mulheres na pesquisa científica, as tendências e as perspectivas mundiais sobre a ciência para o desenvolvimento sustentável, além dos impactos sociais e económicos dessa área. •

Site oficial (em inglês): https://www.iypt2019.org/

 Site português: https://www.iypt2019.pt/

 Nota biográfica de José Ferreira Gomes:

 • Professor Catedrático de Química na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto desde 1985; aposentado a 1 de Junho de 2013 e membro do Centro de Química da Universidade do Porto (Grupo de Química Teórica) que integra o Laboratório Associado UCIBIO/REQUIMTE.
 • Licenciado em Engenharia Químico-Industrial pela Universidade do Porto em 1970, Mestre (MSc) em Matemática em 1973 pela Universidade de Oxford (Reino Unido)., Doutor (D Phil) em Química Teórica em 1976 pela Universidade de Oxford (Reino Unido) e Mestre (Master) em Gestão Universitária pela Universidade Politécnica da Catalunha (Espanha).
 • Secretário de Estado do Ensino Superior e da Ciência do XX Governo Constitucional, 30 de outubro de 2015 a 26 de novembro de 2015 e Secretário de Estado do Ensino Superior XIX Governo Constitucional, 27 de julho de 2013 a 29 de outubro de 2015.
 • Deputado à Assembleia da República na XI legislatura, eleito em 27 Setembro 2009, cabeça de lista do PPD/PSD pelo Distrito de Bragança, até 19 de Junho de 2011.
• Coordenador do Projecto Casa das Ciências, um projecto da Fundação Calouste Gulbenkian, com um orçamento de €900 000, 2008-2015, dirigido para a melhoria das aprendizagens da matemática e das ciências no ensino básico e secundário.
 • Vice-Reitor da Universidade do Porto em 1998-2006.
• Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Ciências em 1997-1998 e Presidente do Departamento de Química da Faculdade de Ciências em 1994-1996.

Para mais informações: RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra Maria Manuela Serra e Silva Telefone – 239 410 699 E-Mail: ccvromulocarvalho@gmail.com
 Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002912006773 
 Webpage: https://www.uc.pt/iii/romuloccv

FRANCISCO CONTENTE DOMINGUES NO RÓMULO EM CONVERSA SOBRE OS DESCOBRIMENTOS





FRANCISCO CONTENTE DOMINGUES NO RÓMULO

No âmbito do programa 10 ANOS | 10 FIGURAS, que o RÓMULO -   Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra,  está a desenvolver no âmbito das comemorações do seu 10º aniversário, o historiador português Francisco Contente Domingues, especialista no período dos Descobrimentos portugueses, será o próximo convidado, merecendo justa homenagem pela sua longa e fértil vida académica dedicada à História Moderna.

No próximo dia 25 de Fevereiro, segunda-feira, pelas 18 horas, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, situado no piso 0 do Departamento de Física da FCTUC, Francisco Contente Domingues  virá falar sobre o seu último livro “Caravelas, Naus e Galeões. Séculos XV e XVI” (Caleidoscópio, 2018), para além de expressar a sua opinião sobre algumas questões actuais relativas aos Descobrimentos Portugueses e falar da sua rica experiência na história, educação e divulgação. A sessão, que será moderada pelo físico Carlos Fiolhais (director do Centro),  é destinada ao público geral, havendo lugar a diálogo com o autor homenageado.

Francisco Contente Domingues é professor catedrático de História na Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa. Começou a sua carreira no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (Lisboa)  antes de entrar na Faculdade de Letras. Foi aprovado com a mais alta pela dissertação de doutoramento “Os Navios da Expansão. O Livro da Fábrica das Naus de Fernando Oliveira e a arquitectura naval portuguesa dos séculos XVI e XVII”. Nas provas de agregação apresentou o relatório da cadeira de História dos Descobrimentos e da Expansão, e proferiu a lição: “Viagem ao circuito da terra. A travessia do Mar Oceano por Duarte Pacheco Pereira em 1498”.  Foi professor na Texas A&M University em 2006 e 2009, e na Universidade Mohammed V (Rabat, Marrocos) em 2013-2014. 

É autor dos livros “Ilustração e Catolicismo. Teodoro de Almeida”, Edições Colibri, 1994; “A Carreira da Índia. The India Run”, Clube do Coleccionador dos Correios, 1998; “Arqueologia Naval Portuguesa (séculos XV e XVI). História, conceito, bibliografia”, Edições Culturais da Marinha, 2003; “Os Navios do Mar Oceano. Teoria e empiria na arquitectura naval portuguesa dos séculos XVI e XVII”, Centro de História da Universidade de Lisboa, 2004;  Navios Portugueses dos Séculos XV e XVI”, Câmara Municipal de Vila do Conde, 2006; “Navios e Viagens. A experiência portuguesa nos séculos XV a XVIII”, Tribuna da História, 2008; “A Travessia do Mar Oceano. A viagem de Duarte Pacheco Pereira ao Brasil em 1498”,  Tribuna da História, 2012; Nuno Severiano Teixeira (coord.), Francisco Contente Domingues e João Gouveia Monteiro, “História Militar de Portugal”, A Esfera dos Livros, 2017. Coordenou, entre outras obras, o “Dicionário da Expansão Portuguesa”, 2 vols., Círculo de Leitores, 2016. É autor de numerosos artigos na sua área em revistas e livros. Orientou vários doutoramentos e mestrados. 

Recebeu vários prémios, entre os quais Prémio Monografia (1993), da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, com o trabalho O Silêncio dos Cronistas. As negociações de Tordesilhas na perspectiva de Rui de Pina, Garcia de Resende e Jerónimo Zurita, Prémio Sarmento Rodrigues (2001), da Academia de Marinha, com o trabalho Os Navios da Expansão. O Livro da Fábrica das Naus de Fernando Oliveira e a arquitectura naval portuguesa dos séculos XVI e XVII. Prémio 8º Conde dos Arcos – Vice-Rei do Brasil (2013), da Academia Portuguesa da História, com o livro A Travessia do Mar Oceano. A viagem de Duarte Pacheco Pereira ao Brasil em 1498


Para mais informações:

RÓMULOCentro Ciência Viva da Universidade de Coimbra 
                     Maria Manuela Serra e Silva
                     Telefone – 239 410 699
                     E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com
                     Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002912006773


DOIS NOVOS RETRATOS DA FUNDAÇÃO









Cientistas Portugueses

| David Marçal

#ciência#doutoramento#investigação #FCT #retratosFFMS

O livro
Em Portugal a Ciência cresceu de forma rápida e inédita nas últimas décadas. Temos hoje mais investigadores científicos do que nunca (e cerca de metade são mulheres), cujo trabalho tem muito mais impacto do que antes. Mas o seu estatuto profissional diminuiu.

Só uma ínfima minoria dos doutorados consegue entrar para os quadros de uma universidade. Para os outros a vida é semelhante à de um futebolista: têm de estar no clube certo em cada momento, poucos atingem um elevado grau de reconhecimento e a carreira pode estar acabada antes dos 40. Este livro traça um retrato vívido de quem faz investigação científica por cá. O que os motiva a ficar no país ou a partir? Como conjugam a paixão pela ciência com a vida pessoal? Eis do que falamos quando falamos de cientistas portugueses.

O autor

David Marçal é doutorado em Bioquímica pela Universidade Nova de Lisboa. Redactor científico na Ciência Viva e coordenador da rede GPS (Global Portuguese Scientists). Autor de centenas de artigos na comunicação social, de espectáculos, de programas de rádio e de televisão, sobre ciência, e de livros de divulgação científica, entre outros, o ensaio “Pseudociência”, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

A apresentação
20.02 | 18h | Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra
Apresentado por Nuno Ferrand  (CIBIO-InBio)
Moderado por Catarina Carvalho









Arquive-se

| Rita Almeida de Carvalho

#comentáriopolítico#comunicação#meida#televisão#marcelorebelodesousa#retratosFFMS

O livro

Arquive-se! A ordem parece simples e é seguramente muito comum. Na prática, são a organização e o acesso dos documentos arquivados - os “laboratórios da História” - que determinam o seu papel na compreensão da nossa história. Portugal progrediu significativamente no domínio dos arquivos, mas investigadores e arquivistas concordam que muito está ainda por fazer.

Sabia, por exemplo, que um tratamento adequado da documentação arquivada pela Administração Pública, preservando apenas a que tem valor probatório ou histórico, resultaria numa poupança de cinco milhões de euros só em instalações?

Numa abordagem crítica, a autora deste livro parte da análise de casos e circunstâncias, do testemunho próprio e de colegas historiadores e arquivistas, para radiografar a gestão do património arquivístico nacional. Diz-nos que nem tudo está bem, e explica porquê.

A autora

Rita Almeida de Carvalho é doutorada em História Contemporânea e investigadora no ICS-UL - Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Trabalha sobre o Estado Novo e actualmente estuda a associação entre arquitectura e política, procurando analogias e conexões entre o salazarismo e outras ditaduras de entre-guerras. Paralelamente, tem-se dedicado à arquivística e é responsável pelo Arquivo de História Social do ICS-UL.

A apresentação
08.03 | 19h | El Corte Inglés, Lisboa
Apresentado por Silvestre Lacerda  (director-geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas)
Moderado por Isabel Salema

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Hospitais da CUF e Grupo Saúde terminam acordo com a ADSE

Meu artigo de opinião publicado ontem no "Jornal as Beiras" (será que "água mole em pedra dura tanto dá até que fura" a malvadez da ADSE?):

 “Como se morre de velhice / Ou de acidente ou doença / Morro, Senhor, de indiferença / 
Da indiferença deste mundo / Onde o que se sente e se pensa / Não tem eco, na ausência imensa.” 
(Cecília Meireles). 

Tempos atrás, depois de ter estado em banho-maria desde1983, os cônjuges de beneficiários titulares da ADSE foram expulsos por usufruírem de magérrimas reformas do Centro Nacional de Pensões, ainda que mesmo doentes crónicos com elevada invalidez sendo recambiados para um Sistema Nacional de Saúde a rebentar pelas costuras por as actuais intervenções cirúrgicas estarem ainda mais sujeitas a uma demora porque desamparadas, em seu trôpego caminhar, pelo bastão da presidente da Ordem dos Enfermeiros.

Esta insólita situação mereceu, da minha parte, doze artigos críticos publicados neste jornal e por mim transcritos no blogue “De Rerum Natura”, de que sou um dos seus co-autores. De permeio, escrevi uma “Carta Aberta ao Presidente da República” (“Diário as Beiras”, 26/10/2007) por entender, com respaldo em Victor Hugo, que “os velhos têm tanta necessidade de afecto como de sol”.

Nela reportei-me a uma exposição que fiz à ADSE (02/12/2016) em que apresentei um relatório médico emanado do Centro de Reabilitação Rovisco Pais atestando a necessidade de minha mulher “continuar de vigilância médica e tratamentos constantes por tetraplegia incompleta secundária e mielomalacia”, solicitando esclarecimento se a legislação sobre as restrições levantadas à continuação de acesso à ADSE se aplicava apenas a futuras inscrições, nunca em prejuízo de antigas inscrições, ou seja sem efeitos retroactivos, numa questão controversa, em que os próprios juristas divergem, atingindo minha mulher nela inscrita há decénios na sua qualidade de cônjuge de beneficiário.

 A ADSE, fazendo fé abusiva da minha hipotética condição de ignaro, endossou-me para a leitura da legislação que suportava essa medida draconiana fazendo-o sem tomar em linha de conta, como escreveu João Miguel Tavares, de que “o Direito pode ser a lixívia que se utiliza para remover as nódoas mais difíceis” (“Público”, 10/07/2018).

E se, por ouro lado, como escreveu Garcia Marquez, “nada acontece por acaso” há que encarar a etiologia desta crise e as causas que, porventura, a motivaram como seja a destruição da ADSE em benefício de entidades privadas no domínio da saúde - o bem mais precioso da condição humana. Indo mais ao fundo da questão, seria uma ocasião soberana para os beneficiários serem esclarecidos sobre os motivos que possam tornar, “à la longue”” este organismo insustentável!

Segundo uma auditoria do Tribunal de Contas, a ADSE chegou a financiar o Orçamento do Estado por os funcionários públicos estarem a pagar mais 228 milhões de euros do que seria necessário (“Expresso”, 17/07/2015). Ou seja, de uma situação para a outra pode a ADSE passar de arlequim de ricas vestes a histrião pobretana.

Os professores têm de ser professores, não têm de ser missionários!

Extracto do texto "Do colégio dos betinhos à escola dos coitadinhos" da autoria de António Duarte e publicado no blogue "Escola Portuguesa". Vem ele a propósito do novo "ranking de sucesso".
"(...) temos o fado triste da escola dos meninos pobres, que aí vão em busca da comida e do afecto que muitos não têm em casa, e dos professores-missionários dedicados a uma causa que, embora podendo somar todos os dias pequenas vitórias está, no seu todo, invariavelmente perdida. Porque a luta contra a pobreza, a fome, o desemprego, a marginalidade, a violência doméstica e outras realidades que enchem o quotidiano destes alunos não se combate na escola. As refeições escolares, os apoios sociais e psicológicos, os programas de tutoria, os mediadores culturais, tudo isto são paliativos que tentam remediar, mas não resolvem os problemas de fundo. 
Claro que este fadinho do professor-missionário encaixa bem na lógica economicista e neoliberal do “menos Estado”: para quê ambiciosas políticas sociais, se podemos resolver os problemas todos através da escola, com professores faz-tudo, que tanto dão a sopa como tentam ensinar a tabuada e, com sorte, ainda vão a casa saber do menino quando ele não aparece na escola? 
Afinal de contas, estes miúdos pobres não têm os “sonhos”, as “ambições” dos outros, os dos colégios da Linha, pelo que alimentá-los e entretê-los na escola já parece um programa satisfatório – pelo menos será melhor do que o ambiente que têm em casa 
Em boa verdade, os professores não têm de ser missionários, muito menos de fazer de pais ou mães dos alunos carenciados. Tal como todas as crianças têm direito a uma família que as ame e que cuide delas, e se demasiados miúdos a não têm, crescendo negligenciados e desamparados, então são o Estado e a sociedade que estão a falhar. E o desemprego, a doença, as dificuldades das famílias monoparentais com baixos rendimentos, as carências habitacionais nas grandes cidades, tudo isto são problemas sociais que requerem respostas prontas e adequadas – mas não é a escola que as pode dar. 
Os professores destas escolas – cujo trabalho é incomparavelmente mais difícil do que o das que lutam pelos primeiros lugares dos rankings – fazem o que podem pelos seus alunos. E fazem bastante. Mas o muito que fazem fica muito aquém daquilo que são as exigências de um currículo nacional a que estes alunos não conseguem aceder. Como as médias negativas dos resultados dos exames claramente demonstram. 
A escola convertida em centro de assistência social não cumpre a sua verdadeira missão com estes alunos – limita-se a tentar fazer, de forma insuficiente e limitada, a intervenção que caberia a outras entidades. 
E não, ao contrário do que afirma João André Costa, esta não é a melhor escola do país. Mas poderá sê-lo – no dia em que se puder dedicar realmente a educar e instruir os seus alunos, em vez de se preocupar em saber se passaram bem a noite ou tomaram o pequeno-almoço."

A nova orientação do PISA: medir as competências de cidadania

Neste momento já avançado do século, não podemos deixar de conhecer o poder (absoluto) que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) tem na determinação e gestão do currículo escolar à escala global. É um poder que, tendo sido progressivamente delineado e consolidado depois da Segunda Grande Guerra, chegou a um estado de expressão plena. É um poder que avança sem debate intelectual de relevo, que é aceite e legitimado pelos países, regiões e escolas, e que as populações acolhem com entusiasmo.

Ora, a OCDE decidiu que, de tudo o que a escola ensina, o que deveria ser avaliado com fins de comparação de países, regiões e escolas, seriam as competências funcionais para o mercado de trabalho em três áreas disciplinares: língua materna, matemática e ciências. E, assim, nasceu o Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (PISA), que, estrategicamente, fez mudar os currículos nesse sentido.

Imagem recolhida aqui
Mais recentemente, a OCDE vem dizendo que, estando todo o conhecimento no google, na internet, a função da escola deve ser outra: levar os alunos a desenvolverem "competências de cidadania". Nesta sua nova cruzada, começou por dar atenção às competências financeiras.

Está claro que criou os documentos necessários para que cada país pudesse assumir esse "superior desígnio", sempre, evidentemente, em colaboração com "parceiros credenciados". O documento "Financial Education in Schools", publicado em 2012, é a base.

Criou também um portal intitulado "International Gateway for Financial Education" que constitui um banco centralizado de dados de educação financeira, recolhidos à escala global que acompanha e dá sustentação à "International Network on Financial Education" (INFE). Esse portal proporciona, a quem interessar, "acesso a uma ampla gama de informações, recursos, pesquisas e notícias sobre questões e programas de educação financeira em todo o mundo."

A ordem natural das coisas era que a educação financeira passasse a ser objecto de avaliação internacional, no âmbito do PISA. E já o foi por duas vezes: em 2012 e em 2015 (ver aquiaqui e aqui).

Imagem encontrada aqui
Portugal ainda não entrou na avaliação, mas não demorará, até porque o empenho luso nesta matéria tem sido inexcedível.

O "Plano Nacional de Educação Financeira", acolhido pela Direcção-Geral da Educação, e a criação de um "Plano de Educação Financeira"
têm sido devidamente concretizado em referenciais de ensino, materiais de apoio, programas de formação de professores, instrumentos de avaliação, actividades "pedagógicas", etc. Os resultados estão à vista: para grande alegria de todos, os nossos alunos têm ganhado concursos internacionais.

Mais: temos, agora, não uma, mas duas entidades, lideradas por bancos, a "trabalhar" em pleno nas escolas. E, o mais importante, com a reforma curricular em curso, a "Literacia financeira" encontra-se assegurada no ensino básico, tornando-se obrigatória em pelo menos dois ciclos de escolaridade (ver aqui).

A nossa vizinha Espanha está à nossa frente em termos de voluntarismo nesta avaliação, mas ficou abaixo da média dos catorze países participantes. Isto significa que os seus adolescentes são pouco educados em termos financeiros, uma das coisas que não sabem explicar é, precisamente, o "ba-a-ba" do Banco Mundial: a diferença entre "necessidades e desejos" (ver aqui). Solicitado a comentar este dado, o filósofo José Antonio Marina disse o que, parecendo óbvio, precisa de ser entendido e consciencializado:
"... puede tratarse de una manera de trasladar la responsabilidad desde el sistema financiero hasta los consumidores. De ahí que los detractores recuerden que el aprendizaje de los mecanismos del mundo financiero debe ser, ante todo, crítico".

"Do Inventor de Aldoar à Busca de Vida no Universo" de Manuel Paiva


Extracto de pré-publicação do livro de memórias do físico Manuel Paiva (na foto), Grande Prémio Ciência Viva, que está a sair em português depois de ter saído em edição de autor em francês. O  livro será apresentado a 14 de Março às 18,30h Sede da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde Rua da Vilarinha, 1090 4100-513 Porto.  A  apresentação será de Pedro Guedes de Oliveira Professor Emérito da U.Porto. É  um livro concebido para a família e alguns amigos, e que estes, dado o seu evidente interesse, empurraram para a publicação. Entre o relato íntimo da juventude, avivado com memórias da Vilarinha (Aldoar), e a conquista espacial, de que o autor foi e é também actor, colorido com o céu dos Estorninhos, um relato apaixonante que se lê dum fôlego.  (Edição portuguesa de "Des Châteaux en Espagne de mon Père à mon Pays des Rêves Bleus" traduzida por Joaquim Pinto da Silva).


A casa da noiva 


 A mais antiga recordação que retenho do meu pai foi quando o vi montar o cavalo da carroça da Cooperativa de Aldoar, era eu mais novo que Basile. O cavalo atrelado cumpria a mesma função das camionetas de hoje. Essa Cooperativa foi fundada pelo irmão da minha avó materna, Germano Lopes Martins, nascido na casa de meus bisavós, a 7 de janeiro de 1871, na Rua da Vilarinha, em frente daquela onde passei a minha infância. Participou no advento da República, da qual foi Ministro, era progressista, anticlerical, franco-mação… participou na elaboração das leis de separação da Igreja do Estado, um enorme passo para a democracia. É extraordinário que apenas tenha sabido disto ao percorrer uma enciclopédia, em Celorico da Beira, quando terminava, com a coautora, a redação de “Diálogos sobre Portugal”[1]. O meu tio-avô não tem descendência direta (das duas filhas, uma teve um filho que também já morreu) e conservou uma certa nomeada. Aqueles que queiram saber um pouco mais sobre este membro da família, pelo qual tenho uma grande admiração, bastará escreverem o seu nome no Google!

 O meu pai, tema central deste livro, provinha de uma família de comerciantes muito católicos que não podia ser senão conservadora. O meu avô materno, também ele mação, e a minha avó materna já tinham falecido quando os meus pais se casaram, a 21 de julho de 1930. A Bélgica festejava o seu centenário. Nesse dia, tornei-me uma possibilidade, mas com uma probabilidade inferior a 1 a dividir por 1 seguido de, pelo menos, trinta zeros e, se não posso dizer que foi da minha vontade, pelo menos, agarrei a oportunidade! As condições estavam assim reunidas para que a minha educação beneficiasse das reuniões familiares onde as discussões políticas eram tudo menos harmoniosas... Como nasci durante a derrota nazi em Estalinegrado não pude seguir os debates familiares nesse ano. No entanto, sei que o meu pai, como aliás a maior parte da família, era anglófila, contrastando com o ditador Salazar que não escondia a sua admiração por Mussolini, o fascista italiano, cuja foto com dedicatória podia ver-se na sua secretária. De Hitler, Salazar tinha recebido uma viatura blindada que ficou célebre quando, em 1961, seis prisioneiros políticos a utilizaram para se evadir da prisão de “alta segurança” de Caxias. Esse é também o ano do início da guerra colonial, que durou treze anos e que marcou profundamente a sociedade portuguesa… mas tudo isso me desvia da intenção deste livro.

 Tive muita sorte na vida. Felizes ocorrências associaram-se a probabilidades bem maiores que aquela de que vos falei atrás. Uma dentre elas está ligada ao momento do meu nascimento, que coincidiu com o curto período da vida de meu pai em que os negócios lhe correram de feição. Para se compreender o que se segue, preciso de vos falar um pouco da sua personalidade e do pouco que conheço da sua infância. O meu pai tinha três irmãs e uma meia-irmã. A esta chamávamos-lhe Dindinha. Foi fruto de um primeiro e curto casamento da minha avó, conhecida como Dona Constança. No dia em que quis saber um pouco mais da nossa família, soube que Dindinha tinha incendiado todas as fotografias que possuía.

 As três irmãs eram mais novas que ele, todas muito boas pessoas e que eu conheci bem. O pai dele, de quem me falava sem particular afecto, era gordo e um inveterado fumador que tinha o mau hábito de acender os cigarros na pirisca do cigarro que tinha acabado de fumar. Logo que o meu pai chegou à idade de experimentar os prazeres do fumador, Dona Constança, que ele adorava, obrigava-o a abrir a boca onde ela introduzia o seu nariz, transformado em detector de fumo. Aos 94 anos, o meu pai orgulhava-se ainda de nunca ter fumado. A sua família paterna era oriunda de Braga. Não sei onde nasceu o seu pai, dono de uma casa de ferragens, no Porto, na Rua do Almada. Conheci o seu irmão, o meu tio-avô paterno, o Tio Paiva, que era proprietário da Casa da Noiva, na Rua dos Clérigos, no centro do Porto, que creio ainda existe. Essa Casa da Noiva teve um papel importante na formação de meu pai. Como o Tio Paiva não tinha filhos e ainda por cima era o padrinho do meu pai, pareceu a Dona Constança que seria um bom investimento a prazo se o seu filho único começasse a preparar a sua herança indo trabalhar com o Tio Paiva. Foi uma muito má aposta.

Tinha já contado no meu outro livro, de tiragem muito limitada, “Voyages dans l’Espace-temps d’Estorninhos”[2] (“Viagens no Espaço-Tempo dos Estorninhos”) que, aos 14 anos, eu não ligava nada à escola. Recordo-me de ter visto o boletim escolar do meu pai quando ele tinha a mesma idade que eu e reparei que não era melhor que o meu! Tive então a boa ideia de confidenciar isto à minha mãe que me desaconselhou de o repetir a quem quer que seja. Felizmente isso agora prescreveu… não sei se um melhor boletim teria mudado a vida de meu pai, mas o que é um facto é que Dona Constança decidiu retirá-lo da escola e mandá-lo trabalhar na loja do seu padrinho. Pelas descrições do meu pai, morava num sótão húmido e sem aquecimento, e, muito cedo de manhã, começava a jornada a varrer o passeio à frente da Casa da Noiva. Enquanto varria e tossia, era motivo de risota dos seus camaradas a caminho do liceu ali perto. Foi por essa altura que Dona Constança disse ao seu filho: “o teu padrinho vai certamente perguntar-te o que queres receber como prenda de Páscoa. Vais responder que gostarias que fosse umas calças”. Dona Constança tinha acertado na previsão da pergunta do Tio Paiva mas não na possibilidade de meu pai, audaciosamente, a modificar, visto que ele disse ao seu padrinho: “gostava de ter uma raqueta de ténis”. E a sua vontade foi respeitada, chegando a casa com uma bela raqueta de ténis. Imaginam a indignação de Dona Constança, pois, para além de ter levado uns fortes raspanetes, o meu pai teve de explicar ao seu padrinho que tinha mudado de ideias e que preferia umas calças, tendo sido efectuada a troca. Termino este triste parêntese referindo que, pouco tempo depois, o Tio Paiva vendeu a sua loja e passou a viver dos seus rendimentos. Conheci bem a sua mulher, a quem chamávamos Tia Maricas, que pesava mais de 100 kg e que morreu aos 99 anos, tendo assim tempo suficiente para gastar toda a herança.

 Os 400 pintainhos holandeses 

 Tendo falhado o cálculo de Dona Constança, desconheço o percurso escolar do meu pai até ao seu primeiro emprego. Deveria ter seguido o da Escola de Comércio do Porto, visto que ele aprendeu inglês e francês, que, aliás, escrevia particularmente bem. Além disso, pagou do seu bolso aulas de alemão. Da sua vida de jovem adulto antes de casar, não conheço quase nada, a não ser que gostava muito de cinema, na altura, mudo, e que sonhava vir a ser ator. O seu ídolo era Harold Lloyd, considerado, com Charlie Chaplin, a quintessência do cinema cómico. Harold Lloyd foi o homem dos óculos de tartaruga e das lentes redondas e uma das suas cenas mais conhecidas é a do relógio em cujos ponteiros ele ficou pendurado. Lembro-me de uma foto do meu pai pendurado nos ramos da grande nespereira a imitar o grande ator, com o qual fisicamente se assemelhava.

 Quando nasci, o meu pai era o chefe-contabilista da casa Ferreirinha, onde a sua probidade era apreciada (Ferreirinha é ainda uma das grandes casas produtoras de Vinho do Porto). O meu pai poderia ali ter ficado até à reforma, mas quis antes montar a sua própria empresa. Quando a Irina veio pela primeira vez a Portugal, tivemos o privilégio extraordinário de beber um Porto centenário que o meu pai tinha recebido aquando da sua despedida. Pelo que sei, foi a partir desse momento que iniciou uma série de tentativas de enriquecimento através da criação de empresas, que altura não chamávamos ainda de “start-up’s”. Foram alguns destes episódios que fizeram sorrir Jorge e Eeva e que aqui vos vou contar, enquanto que a ExoMars 2016 se aproxima do seu destino.

 Não conheço a data exata da sua saída da Ferreirinha, mas sei que foi durante a guerra. As garrafas de Porto, individualmente protegidas por uma embalagem de palha, partiam de barco para os EUA. O meu pai decidiu deixar a Ferreirinha e criar uma sociedade para produzir essas embalagens. Suponho que, depois de Dona Constança ter morrido de pneumonia, em 1942, uma boa parte da herança tenha sido transformada em embalagens de palha. A versão do meu pai é que, devido a um defeito de fabrico das garrafas, algumas chegaram partidas aos EUA, as importações foram suspensas e a sua empresa à falência. Entretanto, o dinheiro ganho foi utilizado nalgumas transformações na casa onde nasci, que pertencia à minha mãe e às suas duas irmãs, que moraram sempre connosco. Elas tinham também um irmão mais novo, casado, mas sem filhos, que teve um papel importante na família. Ao mesmo tempo que o meu pai estava desempregado, o meu tio tornava-se uma pessoa conhecida na cidade. Possuía, por exemplo, um dos carros mais caros da época, um Jaguar. Foi graças a ele que o meu pai encontrou emprego, como contabilista numa empresa onde ele trabalharia até à sua reforma. O meu tio sempre foi uma pessoa encantadora, muito complacente, nem sempre sério, mas de uma grande generosidade para com os seus sobrinhos. Beneficiei muitas vezes dessa generosidade. Sem ele, nunca teria obtido o passaporte que me permitiu, como turista, sair de Portugal.

 A primeira vez que ouvi falar de um negócio do meu pai, devia ter cinco anos. Foi na Praia da Circunvalação, uma praia muito conhecida junto ao Castelo do Queijo, no Porto, onde muitas famílias alugavam barracas por todo o mês de agosto. Estendiam-se umas ao lado das outras, pelo que nós tínhamos duas pegadas. Tinham-me prevenido que não podia falar com a família da barraca do lado esquerdo. Foi muito mais tarde que soube que era a família de um sócio de meu pai num negócio de produtos de tinturaria; o sócio em questão estava preso pois tinha roubado o meu pai. Não resisto a fazer uma divagação sobre a barraca da direita: essa era ocupada pela família de um cirurgião, cujas relações com a nossa eram, para uma criança, das mais confusas. Os acasos da vida fizeram com que a minha mãe e a mulher do cirurgião tenham estado grávidas ao mesmo tempo, de mim e daquele que haveria de ser o meu único amigo de infância. Foi aí também que vi, numa das barracas vizinhas, uma rapariga da nossa idade toda nua, tendo ficado espantado por ela não ter pilinha. O meu amigo disse-me: “as raparigas são assim”. Ainda mantivemos o contacto durante a nossa adolescência e não fiquei muito surpreendido quando ele foi morar para uma casa da Opus Dei. A última vez que o vi foi durante as férias grandes, no Verão de 1974. Os meus pais convidaram-no lá para casa e meu pai foi direito ao assunto: “não será mais fácil respeitar os votos de pobreza e obediência que o de castidade?”. Por todos passou um sorriso amarelo, nuns mais que noutros. Ao escrever estas linhas não resisti a fazer uma procura com o seu nome no Google. Logo à primeira entrada encontrei o seu nome, podendo mesmo ler a sua data de nascimento, a da sua ordenação (suponho que padre), o seu número de telemóvel e a sua morada na Rua da Vilarinha. O número da porta leva-me a pensar que ele deve morar perto da casa onde morou Manoel de Oliveira[3], o maior cineasta português de sempre, falecido há pouco, com mais de 100 anos de idade. Pequeno mundo este da paróquia de Aldoar!

O primeiro negócio de meu pai, do qual posso esboçar verdadeiramente as grandes linhas foi aquele conhecido por Aviário da Vilarinha. Para percebermos a atmosfera torna-se necessário descrever o cenário. Vilarinha é ainda o nome da rua onde se encontra a casa da minha infância assim como duas outras belas mansões que o meu bisavô materno contruiu em meados do século XIX. A nossa casa tinha todas as características de casa agrícola, com animais, uma horta, um pomar e um grande terreno à volta. Isabelle et Nathalie conheceram-no bem tal como ao seu enorme galinheiro que, durante as férias grandes, os sete primos transformavam em sala de espetáculos para as peças de teatro, fruto da sua imaginação. Era também no galinheiro que estava o grande baú com as roupas velhas que inspiravam os prometedores cenaristas, servindo ao mesmo tempo de disfarces para os jovens atores. O público, composto por todos os moradores, incluindo a cozinheira, demonstrava sempre admiração e entusiasmo. Agora é a minha irmã que ali mora, uma pequena maravilha de quadro luxuriante de verdura e flores.

 Nos anos 50 não havia senão campos entre a nossa casa e o mar, onde agora se encontra o Parque da Cidade. Para ir ao centro da cidade, era necessário chegar à paragem do eléctrico que passava na Avenida da Boavista, no fim da Rua de António Aroso (nome também da paragem). Entre a casa da família Aroso (que era quem cultivava as terras ali à volta) e a nossa, não havia rigorosamente mais nada. Aos oito anos, quando fui pela primeira vez à escola, percorria sozinho o caminho, em terra batida, lamacento no Inverno e poeirento no Verão, onde raramente nos cruzávamos com alguém. O meu pai percorria-o também duas vezes por dia, nos dois sentidos, e contavam-se pelos dedos os outros passantes. Curiosamente, não me recordo de alguma vez ter sentido medo, mesmo tendo por ali passado pouco tempo depois de um marido ciumento ter ali assassinado a mulher à facada. Durante os dias seguintes, ainda se viam traços de sangue no chão e nos muros. A mulher assassinada era filha dos agricultores que viviam entre a igreja e a casa dos meus bisavós e onde todos os dias íamos comprar leite. O que me sossegou foi saber que o padre tinha ainda chegado a tempo de administrar a extrema-unção à moribunda. Antes de ir à escola, tinha já seguido a catequese para a minha primeira (e quase última) comunhão, e deduzi que, após passar um quarto de hora doloroso, a jovem assassinada se encontrava agora no Purgatório, a sala de espera do Paraíso. Voltemos ao Aviário da Vilarinha: não creio que o meu pai tenha feito um “business plan” para o seu negócio. Durante o Verão de 1950, seguiu de perto a construção do edifício, apoiado nas suas intuições de engenheiro e arquiteto. Tenho lembrança de ter ouvido que o galinheiro iria acolher 400 pintainhos da raça Leghorn que chegariam da Holanda, vindos de avião. Tornar-se-iam galinhas brancas excelentes poedeiras, de tipo galinhas dos ovos d’ouro. Aquilo que me impressionou mais foi elas chegarem de avião, e eu que tanto sonhava já em voar. Recentemente não resisti a ir verificar a pertinência da escolha da raça, consultando a Wikipédia. Ali pode ler-se que “as Leghorns são boas poedeiras, com uma média de 280 ovos por ano”. Ainda segundo a Wikipédia, o nome Leghorn provém da deformação, pelos americanos, do nome da cidade de Livorno, na Itália, de onde provinham as galinhas, em geral brancas, exportadas para os EUA.

As futuras galinhas do meu pai chegaram a Lisboa e, como o tio que tinha um Jaguar tinha também um pequeno Fiat, transformou este último em transporte avícola e foi, com meu pai, buscar os 400 pintainhos. Evidentemente que o meu pai pensou que à volta de metade dos pintainhos não poria ovos e apenas ao escrever estas linhas me dou conta que a razão pela qual ele frequentou um curso elementar de ciências veterinárias foi para aprender a castrar os frangos machos ou, pelo menos, a maioria deles. Sei também que ele pretendia enviar a minha irmã para a Dinamarca, para se formar em avicultura, o que teria comprometido a sua carreira de linguista. Apenas hoje, 67 anos mais tarde, é que compreendo o sentido de uma história que ele me contou e que ficou esquecida nos confins da minha memória: durante os trabalhos práticos do seu curso de castração aviária, o veterinário pediu um voluntário para pôr em prática os seus ensinamentos. Evidentemente que o meu pai se ofereceu e, quando orgulhosamente exibia o par de órgãos retirado, o veterinário felicitou-o pela sua participação, mas explicando à audiência que meu pai acabava de retirar os rins ao frango. Não se justificando um tratamento de diálise, o recentemente nomeado capão viu terminar prematuramente a sua curta vida numa panela em vez de gozar o estatuto de eunuco, bem alimentado e espectador tranquilo das aventuras dos seus confrades.


 Essas lições não se limitaram apenas à castração e os “dons” de cirurgião veterinário de meu pai poderiam ter tido uma influência na minha carreira. Com efeito, alguém notou que uma das galinhas tinha a moela inchada. O meu pai diagnosticou corretamente uma obstrução digestiva e decidiu que se impunha uma intervenção cirúrgica. Pediu à minha mãe o seu estojo de costura e, depois da refeição, a sala de jantar transformou-se em bloco operatório. Todas as potenciais enfermeiras abandonaram discretamente o local e eu fui designado assistente. Meu pai anestesiou a galinha, provavelmente com éter, pegou num par de tesouras de costura e abriu o que se assemelhava a um pequeno saco completamente cheio de milho, que cuidadosamente esvaziou, enquanto que eu segurava vigorosamente a galinha para o caso de ela acordar, e recoseu-a também cuidadosamente. Após alguns dias de quarentena, a galinha recuperada juntava-se aos seus consortes. A história ressoou pela família e eu era o mais surpreso pelo espanto familiar, pois isto tinha sido muito menos impressionante que a matança anual do porco, ou o também anual e pascal sacrifício do peru, que a minha frágil tia Rosinha embebedava com Vinho do Porto, antes de lhe cortar a garganta, em menos de um segundo. Lembro-me muito bem de ouvir o meu pai dizer que eu iria ser cirurgião e não advogado, como ele o imaginou antes, apoiando-se na minha reputação de grande mentiroso. Quase setenta anos depois, reconheço que as suas previsões sobre os meus futuros estudos universitários, antes mesmo de frequentar a escola, foram uma fonte de autoconfiança, mas também me fizeram subestimar o esforço necessário para obter esses diplomas!

Por uma razão que ignoro, mas que suponho ter sido uma má avaliação do mercado e a consequente dificuldade em escoar o produto, meu pai decidiu substituir a produção de galinhas pela de pintainhos, que seriam forçosamente fáceis de vender, pois tinha-os comprado na longínqua Holanda. Vendê-los em Portugal deveria necessariamente reduzir os custos. Adivinham desde já que o estudo do mercado dos pintainhos Leghorn era inconsistente e que provavelmente foi sozinho que concebeu o negócio. Entretanto, antes de falar das consequências da mudança de produto, está na hora de ir dar uma vista de olhos ao que se passa em Marte, ou melhor, à volta de Marte.




[1] “Diálogos sobre Portugal”, de Manuel Paiva e Mariana Pereira, edição de Livros &Leituras, 1998.

[2] “Voyages dans l’Espace-temps d’Estorninhos”, de Manuel Paiva; edição do autor, limitada a 10 exemplares, agosto de 2012.

[3] A Casa de Manoel de Oliveira corresponde aos números 431 a 475 daquela rua e foi classificada como Monumento de Interesse Público, em 2015.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

MAIS IMAGENS ESPECTACULARES DE VULCÕES

Vindas de Victor Hugo-Forjaz:







NOVOS CLASSICA DIGITALIA

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em acesso aberto.

Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa das novas publicações encontra-se disponível em todas as lojas Amazon.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Humanitas Supplementum" [Estudos]

- Delfim Leão, José Augusto Ramos, Nuno Simões Rodrigues (coords.), Arqueologias de Império (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018). 381 p.

[Este contributo português para a discussão da ideia de «Império» consiste num conjunto de estudos que abrangem as várias áreas de investigação da Antiguidade: as fontes bíblicas; o caso egípcio; os impérios antigos da Mesopotâmia; o espaço da Anatólia e do território fenício/siro palestinense; as civilizações e sociedades neomesopotâmicas; a Pérsia; o período helenístico. Nos últimos quatro estudos deste conjunto de ensaios, propõe-se uma genealogia conceptual para a ideia de imperium no mundo romano.]

 - Isabella Tardin Cardoso, Marcos Martinho (eds.), Cícero: obra e recepção (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2019). 239 p.

[O livro reúne sete ensaios acerca de Cícero compostos por uma equipa internacional de especialistas neste Autor. Os ensaios distribuem-se entre duas seções: na primeira, estudos de obras de Cícero (os diálogos: Lucullus, De finibus, De oratore, De officiis); na segunda, estudos da recepção antiga e também tardia de Cícero (em Sêneca, em Petrarca, em Erasmo).]

Votos de boas leituras.
Delfim Leão
(Classica Digitalia)
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"Percursos Paralelos, Ciência, Fotografia e História no Conhecimento"

Apresentação do livro CIENTISTAS PORTUGUESES

O meu novo livro «Cientistas portugueses», vai ser apresentado na próxima quarta-feira em Coimbra. Inscreva-se para assistir: www.ffms.pt/cientistasportugueses.






domingo, 17 de fevereiro de 2019

LANÇAMENTO DO “COLÓQUIO DOS SIMPLES” DE GARCIA DE ORTA



Na próxima terça-feira, dia 19 de Fevereiro, pelas 18 horas, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, situado no piso 0 do Departamento de Física da FCTUC, Alexandre Quintanilha, professor jubilado de Biologia da Universidade do Porto e deputado virá apresentar o livro “Colóquio dos Simples” de Garcia da Orta, que é considerado o primeiro tratado de botânica escrito de raiz em Portugal (saiu em Goa em 1563).  Este livro insere-se na colecção em 30 volumes “Obras  Pioneiras da Cultura Portuguesa”,   que tem vindo a ser publicada pelo Círculo de Leitores, um projecto dirigido por José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais, sob a égide da Universidades de Coimbra e da Universidade Aberta, que se destina a divulgar ao público de hoje as obras que foram escritas pela primeira vez em português nas mais variadas disciplinas e temas.  Estarão presentes, para além dos coordenadores gerais do projecto, o botânico Jorge Paiva, que foi,  com Carlos Fiolhais, coordenador científico da obra e que escreveu o seu prefácio. E estará também presente Paulo Ferrão, presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que foi um dos mecenas principais da obra.  

Trata-se de um grande acontecimento editorial, pois esta obra, absolutamente pioneira  no seu tempo por revelar na Europa plantas do Oriente e suas propriedades medicinais, e que é uma das obras principais da ciência nacional, não conhecia edição em português desde o século XIX, uma edição que a Imprensa Nacional – Casa da Moeda reproduziu. O volume, como os restantes das “Obras Pioneiras”, foi transcrito do exemplar existente na Biblioteca Nacional de Portugal, e o seu texto foi tratado por especialistas de modo a ser acessível ao leitor de hoje. Numerosas notas ajudam esse leitor a entender e espaço e o tempo em eu o livro foi escrito. O “Colóquio dos Simples” tem uma introdução em verso por Luís de Camões, que são os primeiros versos do poeta nacional que foram impressos (os Lusíadas só sairiam em 1572).
A sessão é destinada ao público geral.


Biografias do apresentador da obra e do coordenador científico (segundo a Wikipedia):

Alexandre Quintanilha nasceu no Maputo, em 1945, filho do biólogo Aurélio Quintanilha e de mãe alemã. Trabalhou durante vários anos na Universidade da Califórnia, Berkeley, nos Estados Unidos, onde foi director do Centro de Estudos Ambientais. Entre 1983 e 1990, foi director assistente no Laboratório Nacional Lawrence, secção de Energia e Ambiente, e, entre 1987 e 1990, foi director do Centro de Estudo de Tecnologia da Biosfera. Em 1991 foi nomeado director do Centro de Citologia Experimental e professor no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto. É professor catedrático, director do Centro de Citologia Experimental e coordenador do Instituto de Biologia Molecular e Celular, também no Porto.
Publicou cerca de 100 artigos em revistas científicas internacionais, foi editor e autor de seis volumes em áreas da Biologia e Ambiente, foi consultor redatorial da Enciclopédia de Física Aplicada e escreveu dezenas de artigos e relatórios em livros, revistas e jornais de divulgação, sendo ainda coordenador e autor de vários trabalhos nas áreas da Biologia, do Ambiente e da Física Aplicada. Em 1993 foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada. Entrou na vida política após a reforma como docente e investigador universitário, em 2015, como cabeça-de-lista do PS pelo círculo do Porto nas Eleições legislativas de 2015.

Jorge Paiva obteve una licenciatura em Ciências Biológicas na Universidade  de Coimbra e um doutoramento em Biologia pela Universidade de VigoRealizou identificações e classificações de novas espécies, publicando-as nas revistas Fontqueria, Anales Jard. Bot. Madrid, Bol. Soc. Portug. Cienc. Nat. e en Bol. Soc. Brot. Realizou extensas explorações botânicas no sul de África (Angola, Malawi, Moçambique), Àsia Ocidental (Azerbeijão), Brasil, ilhas africanas (Canárias, Cabo Verde, Madeira), Europa (Portugal, Espanha), África tropical (Santo Tomé e Príncipe). Recebeu o Grande Prémio Ciência Viva - Montepio.  É um conhecido e incansável ecologista e comunicador de ciência

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...