quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

"Portugal Católico: a beleza na diversidade" e "Diário de uma aventura n...

Hoje passam 120 anos do anúncio da descoberta do elemento químico rádio


Foi a 26 de Dezembro de 1898 que o casal Pierre e Marie Curie (na figura repreesntada numa pintura) numa comunicação à Academia de Ciências de Paris anunciaram a sua descoberta, através de espectroscopia, de uma substância química nova, o rádio, que vinha  preencher o lugar n.º 88 da Tabela Periódica. Contido na pechblenda (óxido de urânio), o seu isolamento químico revelou-se uma tarefa extremamente penosa, só concluída em 1902, pois foi preciso mais de uma tonelada de matéria prima para extrair um minúsculo miligrama. É pois merecido o prémio Nobel da Física que os dois tiveram em 1903 assim como o Nobel da Química que Madame Curie recebeu em 1911, já depois da morte do marido. Foi até hoje a única pessoa a receber o Nobel em duas disciplinas científicas diferentes.

Portugal está ligado a Madame Curie e à radioactividade. No Instituto do Rádio em paris passaram vários doutorandos portugueses (Mário Silva, que haveria de tentar sem êxito a criação de um instituto similar em Coimbra, Manuel Valadares, que como Silva haveria de ser proscrito pelo Estado Novo, e Branca Edmée Marques, uma das primeiras investigadoras portuguesas). Na Urgeiriça passaram-se no início do século a explorar minas de urânio, para extracção do rádio, que tinhas aplicações médicas,. Só com a II Guerra Mundial se percebeu que a "ganga", isto é, o próprio urânio, era importante, por causa das suas aplicações bélicas e, no tempo dos átomos ,para a paz", energéticas.

Fiz curtas declarações sobre o rádio para a TSF:

https://www.tsf.pt/sociedade/saude/interior/de-comestivel-a-radioativo-o-radio-foi-descoberto-ha-120-anos-10364403.html

"Escola Pública: tempos difíceis, mas não impossíveis"

Em 2017, a Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) centrou as comemorações do seu 45.º aniversário no debate sobre o ensino brasileiro, num contexto social e político particularmente adverso que vai além das fronteiras do país. Sob coordenação da professora Nora Krawczyk, realizou-se o Congresso Internacional Escola Pública: tempos difíceis, mas não impossíveis.

Um dos produtos foi um livro de acesso livre com o mesmo título (aqui), cujo intuito é:
"... ampliar o debate sobre os rumos que vem tomando a educação nos últimos anos, marcados pelos ataques à escola pública e o cerceamento ao trabalho docente. Os artigos (...) mergulham no momento atual, para desvendar os interesses em jogo e como estes se expressam nas recentes medidas de política educacional. “Nosso objetivo tem sido produzir conhecimento, função da universidade que só se realiza com autonomia para pensar, debater e confrontar diferentes visões”, explica a diretora da faculdade, Dirce Zan. Ela [reforça a] tomada de posição da Faculdade de Educação contra as tentativas de cercear a liberdade de ensinar e contra as estratégias de delação de professores, promovidas por movimentos como “escola sem partido” no Brasil, “con mis hijos no te metas” em diversos países hispano-americanos”. 
"Os artigos do livro não se limitam a analisar a escola pública e defende-la. Tratam de desmontar as falácias que fazem do estado uma espécie de origem de todos os males, que exaltam o privado e procuram destruir tudo o que tenha caráter público. Ao mesmo tempo, mostram como os ataques à escola pública não têm fronteiras: estão em ascensão tanto no Brasil, quanto na Europa e nos Estados Unidos. 
Infelizmente, é esse o momento que estamos vivendo, com uma forte campanha voltada à sua destruição e substituição por modelos que retiram seu caráter público e democrático. O discurso político alarmista e maniqueísta do fracasso do Estado na condução da educação básica e universitária é legitimado numa produção de conhecimento dominada pelo economicismo e pela supremacia dos interesses privados." 
"O ataque à escola pública não é mais nem menos que uma investida na ignorância que se dá, paradoxalmente, num tempo chamado ‘era do conhecimento’. Nega-se um espaço democrático onde se possa aprender a ser tolerante com as injustiças, a conviver com o diferente. Um espaço que estimule a curiosidade e o gosto intelectual de apreender. Um espaço que transcenda as crenças e os valores particulares de grupos e famílias. Uma escola que esteja disposta a contrariar destinos. 
O ataque à escola pública não é mais nem menos que um ataque à soberania nacional. A escola pública é um espaço estratégico de formação de valores e é fundamental no desenvolvimento de uma sociedade democrática e independente. Um espaço que, por sua própria condição de público, deve estar orientado pelo interesse coletivo. A universidade pública é o lugar, por excelência, de desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação, em prol do interesse coletivo, econômico e social. 
A destruição dos espaços públicos e a apropriação da educação escolar por interesses particulares – ideológicos e econômicos – são dimensões do processo regressivo das conquistas sociais adquiridas ao longo de décadas e que estamos vendo serem destruídas, produzindo nem mais nem menos que a precarização e a desagregação da sociedade . É nosso dever resistir à destruição da escola pública, pois ela, apesar de todas as suas contradições, inerentes ao sistema no qual está inserida."
Nora Krawczyk (organizadora da obra)

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Pode a educação impedir que a maior pessoas passe a viver num limiar de sobrevivência?

Na sequência de textos recentes divulgados neste blogue (por exemplo, "A ética está para além da ciência" ou "Bons e maus cidadãos. A urgência do diálogo entre a tecnologia e a ética"), vale a pena ler uma entrevista de grande interesse feita pelo jornalista Rui Antunes a Luís Moniz Pereira, especialista em inteligência artificial.

Essa entrevista, com o título "A máquina é mais barata do que o Homem para executar as mesmas tarefas. As pessoas vão viver num limiar de sobrevivência", publicada na revista Visão de 18 de Novembro passado, interpela necessariamente quem é educador e têm essa consciência. A questão é:
- se a busca de conhecimento científico, decorrente do desejo muito humano de saber, não deve, em circunstância alguma, perder de vista o respeito pelos direitos humanos e pelo planeta, consagrados a nível universal, e
- se a tecnologia, derivada do conhecimento conseguido, só tem sentido quando melhora a vida das pessoas (de todas elas),
porque é que vemos essa busca (progressivamente?) enviesada no sentido daquilo que pode ter lucro imediato (para um número cada vez mais restrito de pessoas), desprezando tudo o resto?
Entrar nesta questão requer uma educação escolar forte, capaz de concorrer para a sua compreensão, análise e crítica, sempre com base em saber fundamental. Que outro modo há de impedir o retrocesso civilizacional expreso na segunda frase do título de entrevista?
Em que medida a Inteligência Artificial está a tomar conta das nossas vidas? Na verdade, a Inteligência Artificial ainda não chegou. Ou chegou apenas uma pequena amostra. A maior parte do que hoje se chama com espetacularidade Inteligência Artificial é aquilo que, em Ciências da Computação, os cientistas mais rigorosos apelidam de Data Science (...) a IA é significa um todo que envolve imaginar, argumentar, provar teoremas matemáticos, e tudo continua ausente. Portanto, a IA ainda vai tomar conta das nossas vidas de maneiras muito mais sofisticadas.
As máquinas vão pensar? Claro. Digamos que são mais um utensílio que os humanos vão ter, como em tempos tiveram o arco e a flecha. O desafio é pôr o pensamento fora do cérebro, transpor para outro hardware todas as nossas capacidades cognitivas, criatividade incluída. Da mesma forma que os biólogos pensaram em criar vida num laboratório, outros cientistas pensam em colocar inteligência noutro suporte. Não será num tubo de ensaio, certamente.
(...)
Se faz raciocínios já não é só uma máquina que analisa padrões e imagens. Justamente. Os robôs autónomos são outra forma da IA que me surpreendeu. Já não é o robô que faz sempre o mesmo, começa a ter autonomia. São os drones, os carros sem condutor, os robôs que vão à mercearia pela rua fora e fazem a entrega das compras. A simbiose homem-máquina vai ser o futuro e, certamente, as máquinas vão tornar-se mais humanas. A autonomia obriga-as a conviver connosco e, para se inserirem na sociedade, vão precisar de regras sociais e morais. Até mesmo na convivência entre elas (...).
Esse cenário pressupõe que não exista um humano a supervisionar? (...) Cada vez haverá mais robôs com esse grau de iniciativa e que não podem estar à espera das instruções de um humano, além de que a máquina que está no terreno tem muito mais informação do que o humano que está longe. É o que já acontece com os drones autónomos, que são capazes de identificar caras e têm autonomia para atacar. Ainda não a usam, ou é-lhes negado que a usem, mas a tecnologia existe e pode começar a ser utilizada de um momento para o outro, até porque o inimigo também a tem.
As grandes potências estão numa corrida para terem o melhor desse tipo de armamento? Temos o exemplo do projeto da Google com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América, que contribui com o seu know how de gestão de imagens para a identificação de caras. Os drones conseguem reconhecer pessoas no meio de uma manifestação, coisa que também já se faz na China. Não se trata de um clima de guerra, mas as autoridades têm uma espécie de ficha em que vão pondo as coisas boas e más das pessoas e em que lhes atribuem pontos que determinam a rapidez do acesso à saúde, ao emprego, a uma casa, etc. Sabem quem contactou com fulanos suspeitos, quem encomendou alguma coisa pela internet, quem andou a ler artigos sobre o fabrico de explosivos – é uma espécie de controlo social através de ferramentas de IA.
Foi um dos 56 cientistas e académicos que apelaram, em abril, ao boicote a uma universidade sul-coreana, devido ao envolvimento num projeto para desenvolver robôs de guerra autónomos. Há um risco demasiado elevado de haver um engano nos algoritmos ou até de serem criados algoritmos com as piores intenções? Ainda não há técnicas de informática que certifiquem as propriedades morais das máquinas. Estamos muito atrasados na criação de um software de segurança, com padrões internacionais, que também as protejam, por exemplo, de ataques de hackers. E enquanto uma bomba atómica exige tecnologia muito complicada, já os drones estão ao alcance de todos. Hão de aparecer robôs para roubar e matar, ou um drone que entra por uma janela com um explosivo sem ninguém saber quem o enviou. É muito difícil ter a certeza de que as máquinas não fazem nada de errado, e aí entramos no campo da moral.
Tem sido esse o centro das suas investigações. Porque diz que estamos muito atrasados na introdução de uma moral nas máquinas? Sabemos pouco sobre a nossa moral, e as teorias não se entendem quanto a esta questão. Temos várias religiões no mundo e, entre os seus pares, são todos muitos bonzinhos, mas com os outros já não o são. Porque a moral evoluiu para se criar coesão dentro de determinado grupo, e a Humanidade encontra-se nesta encruzilhada em que ainda não foi capaz de se ver como um único grupo, à escala planetária.
Não existindo uma moral universal, como se poderão minimizar as divergências para impor alguma ordem na autonomia crescente dos robôs? Não podemos esperar que eles tenham logo uma moral completa que se aplique a todos os casos. Podemos criar uma base moral, com um conjunto de regras gerais, e depois o informático configura o programa de acordo com as regras morais específicas de cada cultura. E também tem de haver a possibilidade de o robô ir revendo a sua moral à medida que as situações se desenrolam. Mas estamos longe de poder produzir esse software (...).
(...)
Alinha com a tese de que as máquinas nos vão roubar empregos e criar maior desigualdade social entre pobres e ricos? É inevitável. O próprio trilho da nossa espécie diz-nos que há sempre uns que beneficiam mais do que outros. E com a amplificação tecnológica, os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Acredito que vamos evoluir para uma sociedade de castas, no sentido em que teremos acima de todos os donos dos robôs, depois os administradores das máquinas, a seguir os seus executivos e, por fim, os explorados. Para uns criarem riqueza vão ter de explorar outros. Isso vai gerar revoltas, e os robôs serão usados para proteger as castas mais elevadas e dominar a população.
Como nos filmes de ficção científica? Nós já estamos bastante robotizados nas nossas vidas de consumo permanente. As crianças estão tão habituadas ao smartphone que nem sabem lidar com as outras. As pessoas são transformadas em meros objetos de consumo e serão ainda mais mal pagas. Como o software vai ser cada vez mais cognitivo, as máquinas e os robôs vão substituindo os humanos com uma perversidade que é como se estivéssemos a marcar golo na própria baliza. Há centenas de milhares de pessoas a ganhar dinheiro no ensino das máquinas. Estão a trabalhar para ficarem sem emprego.
Já não vamos a tempo de virar o jogo a nosso favor? Vamos caminhar para uma uberização de todas as profissões. Está um arquiteto numa uber de arquitetos e recebe uma chamada a solicitar os seus serviços durante três horas, para verificar se uma planta está conforme os regulamentos. “Está livre?” “Sim, estou, vou a caminho.” Vai ser assim.
Olha o futuro com preocupação? É uma questão ideológica. A Humanidade cria instrumentos que permitem aproveitar recursos da Natureza. Pergunta-se: quem beneficia com isso? Porque há de ser o grande beneficiado o presidente da empresa tal, que a criou com vários contributos da sociedade envolvente, a começar nas universidades? Como a sociedade está cada vez mais globalizada, deve ser o todo a beneficiar da riqueza que produz. Tem de haver uma distribuição muito maior, mas o que se vê é que o hiato está a aumentar e não a diminuir. Em vez de ser posta ao serviço de todos, a IA vai agravar esse problema de uma maneira muito aguda. A máquina é mais barata do que o humano para executar as mesmas tarefas. Cada vez mais, as pessoas vão viver num limiar de sobrevivência e a consumir coisas que não lhes interessam para nada. Seremos como aquelas quintas de galinhas e porcos em que os animais vivem todos ao molho, só a produzir riqueza para outros.
É um cenário catastrófico. Por isso é que ninguém fala dele. É completamente tabu. Tenho 70 anos e a mim este cenário já não me vai afetar, mas acho que não está muito distante.
É para o século XXI? É certamente para o século XXI.

"Os Inimigos da Ciência" nos "Amigos de Platão"


AMIGOS DE PLATÃO

 na Sociedade de Geografia de Lisboa

35ª Charla dos Amigos de Platão

O Grupo Amigos de Platão tem o prazer de convidar para um jantar, seguido da 35ª “Charla dos Amigos de Platão” (palestra/debate), no próximo dia 18 de Janeiro, às 20h00, sobre o tema “Os inimigos da ciência”, com

 Carlos Fiolhais
Físico, Professor Universitário e Ensaísta

 A Charla irá realizar-se na Sociedade de Geografia de Lisboa, Rua das Portas de Santo Antão, 100, 1150-265 Lisboa

"A Expressão das Emoções" e "LED - Viagem ao interior num computador"



Meu posfácio ao livro que acaba de sair na Imprensa da Universidade de Coimbra reunindo duas peças de teatro de Mário Montenegro:

"A Expressão das Emoções" e "LED - Viagem ao interior num computador", cujos textos aqui ficam publicados, são duas peças de “teatro científico”, isto é, teatro inspirado em temas da ciência, da autoria de Mário Montenegro, que as encenou para a sua companhia, a “Marionet,” sedeada em Coimbra. “A Expressão das Emoções” estreou no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, a 25 de Novembro de 2014, integrada na Semana da Cultura Científica e Tecnológica, ao passo que “LED – Viagem no Interior de um Computador” estreou a 25 de Setembro de 2006 no Teatro Académico de Gil Vicente, na mesma cidade. 

Une as duas peças, para além de ambos os temas serem científico-técnicos – num caso a classificação das emoções humanas, que começou por ser ensaiada por fisiologistas e naturalistas do século XIX e no outro o funcionamento interno de um computador digital, que surgiu no século XX - o experimentalismo na exploração literária dos temas. Mário Montenegro recorreu, como é de resto seu timbre, tanto numa peça como noutra à discussão de ideias com o grupo dos seus colaboradores e falou também com investigadores científicos, num processo criativo que o levou, a partir da escolha do tema, à escolha de um enredo e do texto ora fixado em livro. Os dois resultados não podem deixar de ser considerados originais, tal como de resto ocorreu com as numerosas peças também de “teatro científico” que o mesmo dramaturgo e a mesma companhia prepararam e representaram desde 2001, numa experiência verdadeiramente singular no nosso país. Podemos falar de “escrita de cena” (em inglês, “devised theater”), um teatro que é construído em colectivo, emergindo o texto a partir de sucessivas reuniões e ensaios em palco. É um teatro que levanta mais perguntas do que responde, um teatro que provoca e inquieta, um teatro que procura envolver directamente os espectadores quer pela sua proximidade aos actores quer mesmo pela sua participação activa dentro de cena. Enfim, um teatro que desafia muitas das normas tradicionais.

A leitura dos textos dramatúrgicos não dá porque não pode dar a noção da sonoridade das falas, da visualidade dos cenários e dos figurinos e da expressão dos actores. No entanto, os textos permitem-nos, sem as distracções dos outros elementos cénicos, atentar melhor nas palavras e nas frases que elas, encadeadas, formam. São decerto as palavras e as frases mais adequadas que o autor-actor (nas representações, o autor foi ele próprio actor) encontrou, ponderando os contributos recebidos, para exprimir as ideias e os sentimentos que pretendia transmitir. Em “A Expressão das Emoções”, o título remete-nos para uma das obras mais conhecidas de Charles Darwin, “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais”, publicada em 1872, treze anos depois da “Origem das Espécies”, onde estuda a associação entre sete emoções consideradas básicas (tristeza, raiva, surpresa, medo, nojo, desprezo, alegria) e expressões faciais. Darwin estava interessado nos paralelismos entre homens e animais, ligados por uma longa história evolutiva. Sendo a ênfase desta peça colocada nas emoções, facilmente se percebe que a leitura do texto não pode dar a ideia da riqueza plástica do espectáculo, ao qual tive o prazer de assistir. Uma parte da peça nem sequer aparece codificada sob a forma de escrita: falta mesmo o texto, pois a ideia do autor é, em certos momentos,  a representação de um modo livre de cenas que exemplifiquem algumas emoções básicas, a começar pela tristeza. A acção leva-nos, no primeiro acto, a uma situação de ficção científica: Ana, uma investigadora de um Centro de Análise Emocional e Comportamental, vem à boca de cena falar da Arqueologia das Emoções, uma ciência que se serviria de objectos deixados em palco para chegar a conclusões sobre emoções associadas a eles. A partir das emoções neles detectadas, os objectos são classificados e colocados num sistema de quadrículas como o dos terrenos de escavação arqueológica, que correspondem às emoções padronizadas. Quer dizer, o palco fica literalmente um terreno de emoções. O segundo acto passa-se num Laboratório de Experimentação de Emoções, no qual se dá a experimentação das emoções por uma técnica teatral: um investigador, Leonardo, vai-se colocando nas várias quadrículas emocionais, revelando corporalmente o respectivo conteúdo. É uma espécie de teatro dentro do teatro. Ana não resiste a interagir coreograficamente com Leonardo, passando os dois rapidamente de emoção em emoção. O leitor que leu o texto conhece o desfecho: o jogo de emoções conduz a uma delas, a raiva, quando o chefe descobre o que se chama “relação no local de trabalho” (é a “katastrophe” do teatro grego”). Como o teatro imita a vida, os laboratórios científicos reais são também palcos de emoções, onde por vezes ocorrem picos emocionais, pela simples razão de que os cientistas são humanos, por vezes muito humanos. Provam-no à exaustão os numerosos casos de assédio sexual em ambiente científico que têm vindo a ser revelados nos últimos tempos. Para o teatro ser credível, é preciso que ele, por muita imaginação que incorpore, esteja ligado à realidade de que somos parte. E a realidade é que nos emocionamos facilmente, pois faz parte da nossa natureza. Ou será que, dissimulando emoções, podemos esconder a nossa natureza?

Na peça “LED - Viagem ao interior num computador”, recorre à personificação de uma partícula elementar, o electrão, que interpela filosoficamente a fonte de alimentação, que o manda dar a volta ao circuito sem que ele de início queira obedecer. Neste caso, a sobreposição entre o microscópico e o macroscópico permite que uma partícula fale tal como os animais das fábulas. Vale a pena transcrever um excerto do diálogo: O electrão diz: “Ainda não parei desde o primeiro instante. Sempre a saltar de átomo para átomo. Neste instante quero saber mais. Quero fazer a saber. Preciso. É esta a minha carga, aqui. Agora quero um objectivo.” Ao que a fonte responde: “Não podes deixar de ser atraído. É a natureza. Segue o teu impulso.” E o electrão replica: “Neste agora o impulso é perguntar”. Mais uma vez não se pode contrariar a natureza. O electrão, por não poder opor-se ao seu destino (o ”ananké” do teatro grego) acaba por saltar sucessivamente para o condutor, para a resistência, para o processador e a memória, a seguir para o transístor (bem, um processador é feito de transístores, mas o “teatro científico” não tem de ser estritamente científico), num processo, descrito por uma escrita frenética, que desemboca num espaço onde há o LED que dá o título à peça. Aqui os protagonistas são fotões, as partículas de luz, que interagem alegremente com os electrões. E faz-se luz! Há nesta peça uma espécie de “deus ex machina”, designado por ELE, que nunca aparece: é o programador que controla tudo o que acontece. Tal como os actores têm de fazer o que o autor do texto manda, também o electrão da peça, apesar das suas dúvidas existenciais, terá de fazer aquilo que o programador ordena. Ao lembrar a presença de um ELE, escondido mas  subjacente à intimidade do computador, o dramaturgo estará talvez a reforçar a ideia comum de que os computadores são nossos escravos e que, por isso, não podem ter vida própria. Mas ficará no espectador (aqui no leitor) a pergunta: será que os electrões algum dia poderão ser livres? Isto é, será que, como sustentam alguns defensores da inteligência artificial, as máquinas não poderão um dia ver-se livres dos humanos, irrompendo como modernas criaturas de Frankenstein. Onde está afinal a fronteira entre o natural e o artificial?

O teatro, tal como a arte em geral, serve para colocar questões. O pintor francês Georges Braque, um dos fundadores do cubismo, declarou um dia que “a arte é feita para perturbar; a ciência tranquiliza”. Tal como as pinturas cubistas o papel do teatro de vanguarda consiste em perturbar. Mas servirá a ciência para tranquilizar? Não duvidando que em certas circunstâncias o possa fazer, o certo é que ciência também perturba, como é evidenciado por estas estas duas peças de Mário Montenegro. A ciência e a arte têm mais semelhanças do que normalmente se julga. E o “teatro científico” só o vem confirmar.

Meu diálogo sobre fé e razão na Rádio Renascença com o P. Vasco Pinto Magalhães

domingo, 23 de dezembro de 2018

A "novilíngua" para a educação da OCDE

Recebi de duas pessoas próximas a entrevista que o Director do Departamento de Educação e Competências da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) deu a Teresa Campos, jornalista da revista Visão e publicada no passado dia 16. Uma frase do entrevistado, Andreas Schleicher, foi usada como título: a escola tem de conseguir produzir humanos de primeira, não pode continuar a originar robôs de segunda.

Talvez seja a diferença da língua ou a tradução (o entrevistado é alemão, domina o inglês), talvez seja a diferença de perspectiva (o entrevistado é formado em Física, tendo-se especializado em Estatística) que não me deixa entender o sentido dessa frase, principalmente pelas seguintes razões:
1. A escola deve contribuir para educar (sem ter o exclusivo dessa infindável tarefa), não para "produzir". A ideia de "produzir" está associada a um certo tipo de pensamento político-pedagógico originado nos Estados Unidos da América e preponderante entre os anos de 1920 e 1960, designado por "processo-produto": o aluno "processado" pelo currículo transformar-se-ia no "produto" pretendido;
2. No centro da filosofia da educação está, na verdade, a discussão das finalidades a perseguir pela escola (não confundir com o "produzir") para benefício de todas as pessoas; no seu vocabulário não consta a estranha expressão "humanos de primeira". Havendo "humanos de primeira" admite-se a existência de "humanos de segunda ou de terceira"?
3. Mesmo que se use a expressão "robôs de segunda" de modo figurativo, ela é manifestamente exagerada e sobretudo muito injusta, pois sugere-se (ou mais do que isso) que as escolas e os seus professores têm "originado" esse pseudo-tipo de pessoas (?). Na verdade, são as/algumas escolas e os/alguns professores que, com o seu trabalho cada vez mais mal compreendido, superam as enormes dificuldades educativas criadas pelas medidas impostas pela OCDE e pelas políticas nacionais que as legitimam.
Vale a pena ler alguns passos dessa entrevista (na qual se destaca a preparação das crianças e jovens para o mercado de trabalho) para melhor se perceber o sentido da frase. Não se deve perder de vista que o entrevistado é reconhecido como a pessoa mais importante e influente da educação escolar a nível global.

(Nota: sublinho o que é mais desconcertante no discurso, tanto pelas contradições que nele se encontram, como pela negação da prática histórica, como, ainda, pelo carácter impositivo das mudanças em causa).
(...) Tocava numa orquestra alemã, tinha um professor extraordinário que dirigia 100 alunos, e éramos obrigados a praticar todos os dias. Disciplina, esforço, aprendizagem, tudo isso mudou a minha vida (...). Foi assim que aprendi a esforçar-me e a concentrar-me. Todas essas competências que agora começamos a valorizar… Sim, percebi que, se tentar muito, tenho mais hipóteses de ser bem-sucedido.
(...)
Na sua conferência TED, em 2012, diz que há este conceito enganador de que a aprendizagem é um lugar e não uma prática. Quer explicar melhor? Percebemos, há algum tempo, que aquilo que é fácil ensinar e aprender será fácil de ser automatizado. Neste tempo da Inteligência Artificial, temos de pensar melhor sobre o que vai distinguir-nos das máquinas. A escola tem de conseguir produzir humanos de primeira, não pode continuar a originar robôs de segunda.
Concorda que, se alguém do século XVIII entrasse hoje numa sala de aula, não ia estranhar? É verdade em algumas coisas, noutras não. Mas há um risco de as escolas de hoje continuarem a ensinar para o passado em vez de para o futuro, a pensar no que aí vem (...). Achamos sempre que, como não se ensina como nós aprendemos, eles não estão a aprender nada…
As suas últimas palavras sobre o percurso e o desempenho de Portugal foram muito elogiosas. Continham, porém, esse aviso sobre o risco de os nossos alunos saberem reproduzir mas não aplicar o que aprenderam em situações reais… Exatamente: as aprendizagens só servem para alguma coisa se soubermos utilizá-las.
Isso explica, então, esta aposta num programa que quer avaliar competências sociais e emocionais. É preciso mudar este paradigma? Não se trata de escolher entre uma coisa e a outra. Deve haver uma combinação, a capacidade de mobilizar ambas as valências para um objetivo. Numa entrevista de emprego, o empregador vai querer saber dos seus resultados académicos, mas também quem é, do que gosta, se trabalha bem em equipa... E isso hoje faz toda a diferença porque é o que nos distingue das máquinas.
Como se ensina isso na escola? Essa é a grande questão. Algumas destas coisas "apanham-se", não se ensinam. Como a empatia, a resiliência. Mas é possível treiná-
las (...). De repente, compreendemos que a cultura que envolve a aprendizagem, e não só o que ensinamos, também faz a diferença, também tem os seus benefícios.
(...)
Quando me dizem que as escolas não podem resolver os problemas da sociedade, penso: “Então para que servem?”
(...)
E isso também explica a importância das tais soft skills. Bom, anda muita gente a falar de soft skills, mas eu nem gosto dessa expressão. Parece que é algo que não é muito importante. Digo sempre competências sociais e emocionais, até porque acredito que podem ser aprendidas, treinadas. Alguém pode ser muito bom a matemática e a ciências, mas se não tiver curiosidade para aprender, energia para ir à procura de mais, então nunca será bem-sucedido. Porque o que se ensina na escola em breve vai estar desatualizado.
E podemos sempre ir ao Google. Pois. E o mundo vai continuar a mudar e nós temos de ter a capacidade de nos adaptarmos. Se não formos capazes de andar com os outros, vamos ficar para trás. 
Isso quer também dizer que vamos ter de continuar a aprender ao longo da vida? Claro. Os que não forem capazes de continuar a aprender não serão capazes de acompanhar os outros. É que os computadores “aprendem” depressa. Num instante, estarão a fazer todo o trabalho que fazemos de forma automática. Para mim, esse é o lado bom da Inteligência Artificial. Vai obrigar-nos a focarmo-nos no que nos torna diferentes e relevantes num mundo robotizado (...) Se for um professor de desporto, pode sempre treinar a resiliência, a coragem, a responsabilidade pelo seu desempenho e pelo desempenho da equipa. Quando toquei na orquestra, percebi isso. Cada um tem de fazer o seu papel num todo, é preciso muita disciplina, muito esforço, muito treino.
Há quem defenda que a nossa cultura escolar não muda porque vivemos para os rankings e para as notas de acesso à faculdade. Se isso mudasse, mudaria tudo, não concorda? Concordo. As universidades são muito preguiçosas. Qualquer empregador quererá saber o máximo sobre quem está a empregar – e as universidades deviam fazer o mesmo. Bem, nós também devíamos exigir mais das universidades. Por exemplo, para estudar Medicina, é preciso ter muito boas notas. Mas isso não nos diz se aquela pessoa vai ser um bom médico. A empatia com o doente e a capacidade de ajudar também vão fazer a diferença. É muito preguiçoso escolher estudantes só pela sua “média”.

sábado, 22 de dezembro de 2018

SOLIDÃO


É difícil afastar das festividades desta quadra natalícia (convertidas num consumismo desenfreado que, embora compreenda e tenha por inevitável, me desgosta) tanta dor que grassa por este nosso mundo.

Este flash de fim de vida, intensamente estampado nesta excelente montagem fotográfica de Jorge Vieira, cala bem no fundo da nossa sensibilidade, não pela sombra do companheiro que partiu, já liberto e descansado das dores do corpo e da alma, mas pela irreversível e imensa solidão de quem ficou.

Tudo dói na crueza desta imagem.

É a expressão no rosto da velha senhora, é o seu cabelinho ralo e desalinhado e o seu corpo, que se adivinha ressequido, escondido numa roupa que, por isso, ficou vários números acima. São os sapatos e as meias, de quem não tenciona sair à rua. É aquela mão descarnada e é, ainda, a toalha, grande demais para a pequena mesa a dois, agora dobrada e a dizer que, estendida, serviu uma família inteira que se esfumou. Pelos vincos bem marcados, esta toalha, talvez de linho, que ela própria bordou em tempos de jovem casadoira, a juntar ao enxoval, mostra que acabou de sair de um velho baú, com anos e anos de dobrada e adormecida ao lado de um saquinho de alfazema.

A.Galopim de Carvalho

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

"Esta escola está nas mãos dos alunos"

Esta escola (...) está nas mãos dos alunos. Um projecto-piloto do Ministério da Educação, em cooperação com os professores, onde os alunos gerem o seu trabalho. (aqui)
As breves frases acima reproduzidas anunciam a reportagem "Uma Escola Para a Vida" ("Repórter TVI", emitida ontem). O tom de voz de quem as lê e o próprio conteúdo da reportagem imputa-lhes uma conotação manifestamente positiva. São veiculadas como um ideal.

Um ideal que nega o direito à educação dos mais novos, consagrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, que neste mês fez setenta anos, e, no caso de Portugal, no que concerne à escola pública, a escola para todos, na Constituição da República Portuguesa e na Lei de Bases do Sistema Educativo.

"A ética está para além da ciência": minha entrevista ao portal VER ~Valores, ética, responsabilidade


http://www.ver.pt/a-etica-esta-para-alem-da-ciencia/

A Censura inquisitorial nas Centúrias de Amato Lusitano


Meu artigo que acaba de sair na revista ASCLEPIO:

http://asclepio.revistas.csic.es/index.php/asclepio/article/view/786/1285

ABSTRACT:

We analyse the inquisitorial censorship expressed in expurgations of some excerpts of the Centuriae of Medicinal Cures, authored by the Portuguese physician João Rodrigues de Castelo Branco (1511-1568), better known as Amatus Lusitanus. Our sources were the Centuriae II, III and IV (bound together, Florence, 1551) and the Centuria VII (Venice, 1566), both kept in the General Library of the University of Coimbra, Portugal. For the reconstitution of the texts we resorted to other editions available online and to the modern Portuguese translation, prepared from the Bordeaux edition of 1620. We conclude that most of the censored excerpts refer to affections of sexuality, gynaecology and obstetrics, the remaining being related to matters of strictly religious nature.

KEY WORDS: Amatus Lusitanus; Centuriae; Censorship; 16th century; Medicine.

"Uma Escola Para a Vida" ou a versão da escola como um "céu na terra"

Vale a pena ver ou rever o programa Repórter TVI de ontem, intitulado Uma Escola Para a Vida 
"Há escolas que se estão a reinventar para que o insucesso se transforme em perspectivas. Há um projeto piloto de inovação pedagógica que está a ser executado em Portugal e que passa por atribuir mais autonomia aos alunos, mais aulas práticas e uma maior interação com os professores."
Nenhum problema na escola documentada: alunos e professores felizes, o sucesso (quase, quase) pleno, comportamento correctíssimo de todos. O céu na terra!

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

e-Letras convida


Este é o primeiro número de e-Letras com Vida — Revista de Humanidades e Artes, de carácter essencialmente ensaístico. A revista propõe-se a apresentar neste e nos seguintes números uma diversidade de pontos de vista, incluindo textos de investigação e de leituras críticas que lidam com a questão dos países de língua oficial portuguesa no contexto global. A e-Letras com Vida quer juntar-se ao plano das edições que reúnem pensadores de todo o mundo com vista a responder à atual necessidade de reunião de ideias entre um cá e um lá, que muitas vezes se encontram num aqui presente, que, globalizado, precisa desafiar fronteiras e ultrapassar muros, ou pular cercas vigiadas por milícias.  


Divulgue, participe, proponha!

“A poesia da ciência, a ciência da poesia"

"Algumas lições dos incêndios de 2017" por Domingos Xavier Viegas

PREFÁCIO DO "DICIONÁRIO DOS ANTIS" (IMPRENSA NACIONAL)


DICIONÁRIO DOS ANTIS
APRESENTAÇÃO

Foi há sete anos. José Eduardo Franco estava em Paris e apresentou-me o seu projeto de fazer uma história dos antis, e da cultura em negativo que estes produziram. Dada a diversidade de domínios que teria de abordar, concluiu que só a forma de dicionário permitiria fazer justiça à amplitude desta questão. A ideia seduziu-me imediatamente e, olhando para trás, perguntei a mim próprio como era possível que tal projeto nunca tivesse sido realizado. Estava diante de um daqueles conceitos simples e evidentes que mudam o ângulo de interpretação de toda a evolução humana, mas de cuja eficácia ainda ninguém se tinha apercebido. Existem, com efeito, numerosas mobilizações e organizações que foram criadas unicamente para se oporem a uma opção política, a uma ideologia, a uma religião; ou simplesmente a uma lei, a um decreto; ou então a um espetáculo ou a uma moda. Existem mesmo gerações inteiras de movimentos de oposição que forjaram múltiplos vocábulos para assinalar a radicalidade do seu desacordo.

Para um historiador contemporâneo, surgem em primeiro lugar aqueles que se ergueram contra os princípios que mudaram a sociedade em que viviam: a contrarreforma, a contrarrevolução, que manifestam o desejo de bloquear movimentos de transformação que colocavam em perigo, segundo os seus promotores, o equilíbrio do mundo. Ora, os que eram contra esperavam uma erradicação completa desses processos destrutores.

No século xx, desenvolveram-se movimentos anti fortemente implicados no terreno ideológico e partidário. É a grande época dos anticomunistas, dos antifascistas, dos antimarxistas, dos antinazis, dos antimaçónicos... De tal modo que estes termos entraram na linguagem corrente e se tornaram tema de teses e de obras de investigação. Os antis têm como ponto comum serem simétricos e pressuporem que os seus adversários se manterão ativos durante muito tempo.

De algumas décadas a esta parte, houve um sufixo entrou na linguagem corrente para desqualificar um adversário: “fóbico”. Com os islamofóbicos, os homofóbicos e outros judeofóbicos, deixou de haver uma oposição racional; o que há é uma espécie de loucura, de doença mental, que obrigará à exclusão da sociedade dos “fanáticos” que fazem tais discursos. Estamos perante um testemunho vivo daquela eufemismização da violência pensada por Norbert Elias em Dans la Dinamyque de l’Occident, onde o pensador alemão profetizou, já nos anos de 1960, uma psicologização das relações sociais, que iria ao ponto de transformar o debate publico numa polémica clínica...

A originalidade do dicionário que o leitor tem entre mãos consiste em observar as práticas sociais de hoje e as suas representações em comportamentos e argumentações muito mais antigos. E porque não desde a aurora da humanidade? Vemos assim que os antis não constituem apenas uma história reduzida às oposições pontuais, mas uma história de cada século, de tal modo que cada geração escreve a sua própria redefinição intelectual e alimenta a criação de novas instituições para efeitos de contradição e afronta.

Em suma, José Eduardo Franco e os seus colegas mostram-nos, através dos antis, como se tem desdobrado uma dimensão negativa da cultura desde a Antiguidade. Prolongando o seu propósito, compreendemos que a crítica acabou por se tornar uma forma de arte: o confronto promove o saber-fazer, modela maneiras de pensar que constituem uma afirmação. Um olhar sobre o panorama dos antis permite observar as grandes questões da civilização ocidental e as tensões que subjazem aos seus enredos. As entradas sobre ateísmo e antiateísmo ilustram bem este perceção e lançam-nos na longa duração, demonstrando que a atitude de pôr em causa as crenças está relacionada com os sistemas religiosos de cada época.

O leitor pode usar este livro para tomar conhecimento dos verbetes saborosos que aguçam a sua curiosidade e navegar aleatoriamente na história; ou regalar-se, por assim dizer, lendo a entrada sobre anticarnivorismo (antiantropofagia); ou ficar admirado ao ver o antidonjuanismo impor-se como doutrina literária. As ilustrações pertinentes favorecem esta vagabundagem ao sabor do humor, entre retratos de personagens importantes e cenas inesperadas.

Mas este dicionário permite também uma leitura contínua, como quem lê um ensaio, repleto de uma série de curtos capítulos ricos em aproximações entre os valores e os acontecimentos.

Desta leitura, podem retirar-se duas conclusões fundamentais. A primeira é que o Dicionário dos Antis constitui uma verdadeira história pluridisciplinar de Portugal, através de cujas entradas se revisitam as grandes rotações do país: a reconquista, a afirmação do poder da monarquia, os movimentos eclesiásticos, nomeadamente os Jesuítas, seguidos das tensões coloniais e partidárias... Também se pode observar de que modo filósofos, historiadores, juristas e sociólogos contribuíram, ao lado dos escritores e juntamente com os políticos, para este movimento. As mudanças, até mesmo da língua portuguesa, encontram-se nas obras pioneiras que influenciaram o futuro do estilo académico e político. Por esta via, distingue-se claramente como se formaram as normas do bem crer, do bem pensar, do bem agir.

Em segundo lugar, a obra ilustra de forma notável a grande utilidade dos estudos globais aos quais se consagra a equipa responsável por este projeto. Ao longo das suas muitas páginas, este dicionário manifesta a extraordinária conexão de Portugal com a história do mundo: reencontramos os contactos aventurosos dos navegadores, bem como o desenvolvimento de uma esfera lusófona onde circulam as palavras e os discursos de oposição; viajantes e migrantes são os promotores de uma circulação transnacional das ideias que aparecem depois com grande vitalidade em Portugal, provindas de paradigmas imaginados noutros países. É o caso, por exemplo, do anticomunismo, cujas raízes remontam, no mundo ocidental, à luta contrarrevolucionária, que atingiu o seu cume após 1917; e do antifascismo, que, nascido em Itália em 1919, se transplantou em seguida, ao ritmo da radicalização europeia, para a península Ibérica.

No fundo, os antis não têm fronteiras. As bibliografias que concluem os artigos são a maior prova da variedade de referências e da diversidade da sua proveniência. O leitor constata de que modo os argumentos passam de um país a outro, ora alumiando um debate, ora relançando uma polémica, ora inspirando certas ondas intelectuais em movimento perpétuo.

Não há dúvida, por outro lado, de que o Dicionário dos Antis vai suscitar um vasto debate internacional. Não estamos em altura de denunciar este ou aquele grupo, mas de entrar no laboratório do pensamento dialético, que é uma maneira de estimular o espírito crítico quando o falso, o virtual e o verdadeiro se misturam; que é pôr em causa os erros conspirativos e as certezas abusivas deste mundo dividido entre manipulação e informação que se tornou o nosso.

Fabrice d’Almeida
Professor Catedrático da Universidade de Paris II, Panthéon-Assas
Antigo Diretor do Instituto de História do Tempo Presente de Paris

Paris, 14 de fevereiro de 2018

APRESENTAÇÃO DE "PORTUGAL CATÓLICO" AMANHÃ NO RÓMULO


segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

"Ciência e Arte, duas faces da cultura": hoje no Palacete Araújo Porto no Porto


O físico e professor universitário Carlos Fiolhais  o segundo orador convidado do ciclo "Conferências do Politécnico - Ciência, Educação, Cultura e Sociedade" A segunda edição das Conferências do Politécnico, Ciência, Educação, Cultura e Sociedade,  iniciativa da Presidência do Politécnico do Porto, realiza-se no dia 17 de dezembro,l 21h30, no Palacete Araújo Porto (Auditório D. Pedro IV) da Santa Casa da Misericórdia.  Depois de Alexandre Quintanilha inaugurar as conferências com uma comunicação subordinada ao tema O conhecimento como base da democracia, o físico e ensaísta Carlos Fiolhais é o próximo orador desafiado com uma palestra designada Ciência e Arte, duas faces da cultura. 

Carlos Fiolhais é um dos cientistas e divulgadores de ciência mais reconhecidos em Portugal. Doutorado pela Goethe-Universität Frankfurt, é autor de mais de 60 livros, entre obras de divulgação, livros pedagógicos e obras de história. 

As Conferências do Politécnico  apresentam-se como um espaço de diálogo entre múltiplos saberes, de partilha de conhecimento e de cruzamento de experiências distintivas nos domínios da ciência, da educação e da cultura em sociedade. Os conferencistas convidados são individualidades  reconhecidas, cuja intervenção no espaço público, no âmbito das temáticas, é unanimemente reconhecida. 

Em 2019 estão confirmados nomes de individualidades como João Paulo André, Luís Portela, Guilherme d'Oliveira Martins e Isabel Pires de Lima.

Por favor confirme a sua presença para conferencias@ipp.pt.

"A escola como plataforma do comércio"

    Artigo de opinião do Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje, 12 de Maio de 20...