terça-feira, 22 de outubro de 2013

A NOSSSA HISTÓRIA EM 2 MINUTOS

DAS "CARTAS A UM JOVEM POETA" DE RILKE


E, na sessão de apresentação do livro A Dinâmica da Espiral, perante as múltiplas referências a Rilke não pude deixar de ler este belo excerto de uma das suas Cartas a um jovem poeta, publicadas postumamente, mas escritas em 1903:

“Se procurar amparo na Natureza, no que é nela tão simples e pequeno que quase não se vê mas que inesperadamente pode tornar-se grande e incomensurável; se alimentar esse amor pelo mais ínfimo e se tentar, humilde como um criado, ganhar a confiança do que parece pobre, tudo será para si mais fácil, mais coeso e de algum modo mais conciliador, talvez não no intelecto, que recua atónito, mas no mais íntimo da sua consciência, do seu conhecimento e atenção.

Você é tão jovem ainda, está diante de todos os inícios, e por isso gostaria de lhe pedir, caro Senhor, que tenha paciência quanto a tudo o que está ainda por resolver no seu coração e que tente amar as próprias perguntas como se fossem salas fechadas ou livros escritos numa língua muito diferente das que conhecemos. Não procure agora respostas que não lhe podem ser dadas porque ainda não as pode viver. E tudo tem de ser vivido. Viva agora as perguntas. Aos poucos, sem o notar, talvez dê por si um dia, num futuro distante, a viver dentro da resposta. Talvez traga em si a possibilidade de criar e de dar forma e talvez venha a senti-la como uma forma de vida particularmente pura e bem-aventurada; é esse o rumo que deverá tomar a sua educação; mas aceite o que está por vir com grande confiança, e se ele surgir apenas da sua vontade, de uma qualquer necessidade interior, deixe-o entrar dentro de si e não odeie nada.”

Rainer Maria Rilke, “Cartas a um Jovem Poeta”, Carta Quatro, “Worpswede, junto a Bremen”, 16 de Julho de 1903.

DO "LIVRO DAS HORAS" DE RILKE

No livro sobre ciência, filosofia e religião recentemente publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra, A Dinâmica da Espiral, de Formosinho Sanches e Oliveira Branco, o segundo autor declara-se extasiado com a leitura de um poema de Rainer Maria Rilke, d' O Livro de Horas, que ele próprio tentou traduzir a partir do original em alemão. Eis a tradução desse poema da pena do grande germanista Paulo Quintela (que está nas Obras Completas de Paulo Quintela, na Gulbenkian; a edição da figura, da Assírio e Alvim, contém outra tradução):

Deus fala a cada um só antes de o fazer.
Então sai calado, com ele para fora da noite.
As palavras, porém, antes que cada um comece,
essas palavras nubladas, são:

Enviado pelos teus sentidos,
vai até ao limite da tua saudade;
dá-me roupagens.

Atrás das coisas cresce como incêndio,
que as suas sombras dilatadas
me cubram sempre todo.

Deixa que tudo te aconteça: beleza e pavor.
Só é preciso andar: nenhum sentimento é mais longínquo.
Não te deixes apartar de mim.
É perto a terra
a que chamam vida.

Hás-de reconhecê-la
pela sua gravidade.

Dá-me a tua mão.

Rainer Maria Rilke (Livro de Horas, 1905, tradução de Paulo Quintela)

QUE NADA SE SABE

Ontem numa aula de mestrado em Saúde Pública da Faculdade de Medicina de Coimbra tive ocasião de lembrar o prefácio do médico e filósofo português Francisco Sanches, professor de Medicina na Universidade de Toulouse contemporâneo de Galileu, na sua obra "Que nada se sabe" ("Quod nihil scitur"):
"Não esperes de mim um estilo ataviado e polido. Empregá-lo-ia se quisesse mas a verdade escapa-se quando estamos a escolher muito as palavras e usamos de rodeios: isso é nem mais nem menos que enganar. Se é isso que desejas, recorre a Cícero, pois é esse o seu ofício. O que eu disser será bastante belo, se bastante verdadeiro. As belas frases convêm aos retóricos, aos poetas, aos áulicos, aos namorados, às cortesãs, aos proxenetas, aos aduladores, aos parasitas e semelhantes, para os quais o falar bem é um fim. Para a ciência basta, e é necessária mesmo, a propriedade, o que não pode conjugar-se com aquilo. Não exijas também de mim muitas citações, ou uma reverência para com os autores que é mais própria de um ânimo servil e inculto do que de um espírito livre e que busca a verdade. A autoridade manda crer; a razão demonstra; aquela é própria da fé; esta, da ciência. Dos outros, aquilo que me parecer verdadeiro, confirmá-lo-ei com a razão; o que me parecer falso, infirmá-lo-ei. Oxalá que tudo aquilo que eu atentamente elaboro, depois de elaborado tu o recebas com o mesmo espírito e precaução, e o julgues com são critério: e que tudo aquilo que parecer falso, tu o destruas com razões sólidas (coisa que, sendo, como é, própria de um filósofo, me é extremamente grata), e não, como fazem os invejosos e alguns ignorantes, com injúrias ineptas e que nada invalidam (coisa que, sendo, como é, própria de mulheres, é indigna de um filósofo, e para mim absolutamente desagradável); aquilo, porém, que parecer justo, oxalá que tu o aproves e confirmes".

Francisco Sanches, Que Nada se Sabe, Lisboa, Vega, p. 60

Lapis phylosophorum

No seguimento da sua fixação numa nomenclatura binomial e em latim, o grande naturalista sueco Carlos Lineu (1707-1778), a meados do século XVIII, deu o nome de Lapis philosophorum à grafite, com base no facto de, então, este mineral ser a “pedra” (lapis, em latim) com a qual se podia escrever num suporte macio e porque escrever era prática de estudiosos, ou seja, de filósofos. Um outro nome da grafite foi “mica dos pintores”, em alusão ao seu aspecto lamelar e por deixar traço negro e fácil sobre o papel. Repare-se que o nome desta espécie no léxico mineralógico actual reflecte a última destas características, contida no elemento grego graph, que traduz o acto de escrever.

Grafite
Numa época em que se não distinguiam as rochas dos minerais, tudo era pedra. É por isso que ainda hoje se fala de pedra-mármore, uma rocha de todos conhecida, e de pedra-hume, um mineral (sulfato duplo de alumínio e potássio) de uso corrente pelo seu carácter adstringente e cicatrizante. Foi neste contexto que surgiram os nomes lápis, para designar o objecto com que escrevemos e desenhamos, e mina, para o estilete de grafite no seu interior. Lápis e mina duas palavras que radicam no referido contexto. Com efeito, no passado, a palavra mina era usada como sinónimo de minério e a grafite era já então explorada com tal.

No que se refere à palavra lápis, disse-se atrás que, na origem latina, significava pedra e que qualquer mineral era referido como tal. Porque a macieza ao tacto, a cor negra e o brilho metálico da grafite a confundiam com a molibdenite, então referida por molybdaena, e porque nesse tempo não se distinguia o molibdénio do chumbo (plumbo, em latim) também se lhe chamou “plumbagina” e “chumbo negro”.

Com a mesma composição química do diamante e como ele, um polimorfo de carbono nativo, a grafite é um bom condutor do calor e da electricidade e uma das substâncias de mais baixa dureza, à semelhança do talco (silicato de magnésio hidratado) e da molibdenite (sulfureto de molibdénio). A grande diferença que a separa do diamante, a mais dura conhecida, reside no modo de arrumo dos átomos de carbono.

Se dermos o nome de grafeno a uma estrutura planar na qual os átomos de carbono estão fortemente unidos (ligação covalente), constituindo folhas em que cada átomo (através de três dos seus quatro electrões) se liga a três outros, formando hexágonos, a estrutura grafite define-se como sendo um empilhamento de folhas de grafeno unidas por uma ligação muito fraca (ligação de van der Waals) a uma distância de 3,35 Angströms.

Com largas aplicações na metalurgia do ferro, nas indústrias dos lápis (misturada com argila), dos lubrificantes (o pó da grafite é usado a seco), dos refractários, das tintas, das borrachas e na electrónica, parte da grafite que se explora de entre as rochas, no subsolo, já foi hulha ou antracite e, centenas de milhões de anos antes, madeira de árvores das florestas de então.

A primeira mina de grafite foi descoberta na Baviera, no início do século XV. Cem anos depois, idêntica descoberta teve lugar em Cumberland, na Inglaterra, mas só no final do século XVIII se soube a sua verdadeira natureza química, em resultado do trabalho do químico sueco Karl Wilhelm Scheele (1742-1786). Em 1761, o alemão Kaspar Faber deu início à produção de lápis, em Stein, próximo de Nuremberga. Um seu bisneto, Lothar von Faber, modernizou a produção a partir de 1839. Passou, então a ser possível fabricar lápis com graus de dureza, através da mistura de argila com grafite.

Oriunda da região de Irkutsk, na Sibéria, a grafite usada pela fábrica Faber era localmente referida por “ouro negro” e transportada no dorso de renas até ao porto de onde saía, em navios, para os seus destinos.

A indústria dispõe hoje de grafite produzida industrialmente, a temperatura e pressão elevadas, a partir de coque, de petróleo ou de antracite.

A. Galopim de Carvalho

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

NOVOS LIVROS DA BIZÂNCIO


Título: O Continente Perdido

Subtítulo: Uma Análise sobre o mais negro Momento da Europa desde a Segunda Guerra Mundial
Autor: Gavin Hewitt
ISBN: 978-972-53-0533-1 Código de Barras: 9 789 725 305 331
Págs.: 336
Preço: Euros 15,09 / 16,00
Política/Actualidade/Economia
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«Das planícies áridas de Espanha, ergue-se o aeroporto de Ciudad Real, feito de vidro e aço escovado, a brilhar à luz do sol. Vangloria-se de ter uma das pistas de maior comprimento da Europa. O seu terminal, amplo e arejado, foi concebido para acolher 5 milhões de passageiros por ano. Custou quase mil milhões de euros. Mas não se vêem aviões. É um elefante branco, financiado com o dinheiro dos contribuintes. Existem outros aeroportos «fantasma». Por todo o país, há projectos semiacabados: o legado de políticos que utilizaram os fundos públicos para satisfazer a sua ambição.»

O Continente Perdido conta-nos a história de um sonho falhado, uma visão nobre que se tornou perigosa e que conduziu a Europa à mais grave crise que enfrenta desde a Segunda Guerra Mundial: uma crise para a qual estava totalmente impreparada. Um dos pilares do sonho europeu, surgido no pós-guerra, era a criação de uma moeda única, e com ela surgiu o dinheiro fácil, seduzindo alguns países que se lançaram numa voracidade despesista. Após a crise financeira dos Estados Unidos, a Europa foi inevitavelmente atingida e deparou-se com uma crise da dívida pública que põe em causa todo o projecto europeu.

O Continente Perdido está repleto de casos patéticos, que cruzam os bastidores dos centros de decisão política com as histórias de cidadãos comuns, dando um retrato ímpar da mudança dramática da História a que assistimos nos nossos dias. Inclui, ainda, entrevistas com funcionários europeus de topo, dentro e fora do sistema, e relatos dramáticos de algumas das cimeiras europeias. Um livro claro e de leitura apaixonante, de um dos mais conceituados, e bem relacionados, jornalistas dos nossos dias, que nos explica com invulgar simplicidade como chegámos aqui e para onde caminhamos.



Título: António Ferro: A Vertigem da Palavra
Subtítulo: Retórica, Política e Propaganda no Estado Novo
Autor: Margarida Acciaiuoli
ISBN: 978-972-53-0534-8 Código de Barras: 9 789 725 305 348
Págs.: 432
Preço: Euros 16,98 / 18,00
Política/Biografia
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António Ferro era um homem singular. Escritor, jornalista, adquiriu notoriedade com o seu livro sobre a viagem em torno das ditaduras europeias nos anos 20 do século XX. Soube convencer Salazar de que o povo precisava de espectáculo, mostrou-lhe que tinha um programa e objectivos para a promoção do regime e foi nomeado director do organismo que se encarregaria das actividades de propaganda do Estado Novo. Durante quinze anos fez do país um «teatro» e foi o seu encenador: organizou exposições, criou prémios artísticos e literários, financiou filmes e documentários, criou uma companhia de bailado, um teatro do povo, um Museu de Arte Popular. O turismo teve com ele uma inusitada relevância através, entre outros, dos incentivos à qualidade de hotéis e restaurantes e do programa de Pousadas.

Nada lhe escapou, dir-se-ia. Mas, quando a Segunda Guerra Mundial terminou, percebeu-se que o país pouco mudara. É desta contradição que este livro trata, sem esquecer as convicções de António Ferro e a importância que sempre deu à palavra.

sábado, 19 de outubro de 2013

IDADE DO GELO

Extensão das calotes glaciárias polar e de montanha (Alpes e Pirinéus) na Europa durante a última glaciação (Würm)
Idade do Gelo é a expressão habitualmente usada para designar o último período geológico de arrefecimento da superfície e atmosfera terrestres, marcado pela expansão das calotes glaciárias (inlandsis) polares bem como das geleiras ou glaciares de vale, nas montanhas. No primeiro quartel do século XIX, o suíço, Jean-Pierre Perraudin (1767-1858) percebeu que, tempos atrás, os glaciares canalizados nos vales dos Alpes suíços haviam descido e coberto grande parte desses vales e que, nos últimos milénios, haviam recuado gradualmente para as posições que actualmente ocupam. Verificou ainda, que, na descida, essas “línguas de gelo” arrastaram grandes amontoados de calhaus e blocos de rocha, por vezes polidos e/ou estriados, para as zonas mais baixas e aí os deixaram quando o gelo fundiu.

A residência deste precursor do glacialismo foi, mais tarde, transformada no Museu do Glaciar. Embora hoje familiar para a maioria das pessoas, a ideia de Perraudin foi rejeitada pela comunidade científica de então, mas não tardou a encontrar defensores. Um deles foi o naturalista suíço Ignaz Venetz (1788-1859), considerado o fundador da glaciologia. Na sequência das observações de Parraudin e vencendo a forte oposição de uma boa parte dos seus contemporâneos mais influentes, Venetz confirmou as observações deste seu conterrâneo, afirmando, em 1829, que os glaciares alpinos e os referidos amontoados de calhaus e blocos, tinham invadido as planuras suíças do Jura e que semelhantes materiais, vindos da Escandinávia, haviam atingido e coberto grande parte do norte da Alemanha e da Polónia, deixado aí amontoados de calhaus e grandes blocos isolados, mais tarde referidos, respectivamente, por moreias (ou morenas) e blocos erráticos.

Moreia
Dois anos depois, o engenheiro de minas alemão, Johann von Charpentier (1786-1855), director das minas de sal de Bex, na Suíça, veio em seu apoiou. Venetz foi, assim, o primeiro a interpretar a origem glaciária das moreias e blocos erráticos e o primeiro a reconhecer os glaciares como uma das mais poderosas forças actuantes na erosão do relevo. O livro que publicou, em 1833, sobre os Alpes suíços, Mémoire sur les variations de la température dans les Alpes de la Suisse, antecedeu em sete anos a obra do famoso Louis Agassiz (1807-1873). Anos mais tarde, confirmou o seu pensamento em Mémoire sur l’extension des anciens glaciers, renfermant quelques explications sur leurs effets remarquables, publicado, postumamente, em 1861, pela Sociedade Helvética de Ciências Naturais.

Bloco errático conservado na planura do norte da Polónia
Entretanto, na Alemanha, Albrecht Reinhard Bernhardi (1797-1849), professor de silvicultura na Escola de Engenheiros Florestais de Dreissigacker, corroborava a ideia de Venetz e, em 1832, escrevia que, num passado recente, uma imensa capa de gelo, oriunda da região polar árctica, teria alastrado e invadido as planícies do norte da Europa, com as mesmas consequência apontadas pelo colega suíço. Com base nesta ideia, admitiu também que os glaciares alpinos poderiam ter tido, nesse mesmo passado, uma extensão igualmente alargada. «Se esta hipótese estiver correcta», dizia, «serão do mesmo tipo as acumulações de detritos rochosos semelhantes em outras áreas vizinhas dos Alpes». Nesta visão de Bernhardi, hoje confirmada, os vales alpinos, actualmente libertos de gelo, foram nesse tempo os leitos de poderosos glaciares que transportaram toda essa carga de detritos rochosos.

Glaciar de vale nos Alpes
Ainda na Alemanha, Karl Friedrich Schimper (1803-1867), naturalista e poeta, professor na Universidade de Munique, foi o inovador do conceito de glaciação e da ideia da existência, na pré-história, de uma alternância de eras quentes e frias, dando início à discussão sobre os períodos glaciários e os ciclos climáticos. Segundo ele, a Europa, a Ásia e a América do Norte haviam sido, por diversas vezes, num passado geológico recente, invadidas por imensas capas de gelo. Ao mesmo tempo, na Escócia, James David Forbes (1809.1868 físico, geólogo e glaciologista, contribuía para este tema com o seu saber na área da física. Interessado nos glaciares da Suíça e da Noruega, definiu estas massas de gelo como fluidos imperfeitos ou corpos viscosos que deslizam pelas encostas com uma dada inclinação por efeito do seu próprio peso.

Atento a esta problemática, o suíço Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), doutorado em medicina, produziu obra valiosa neste domínio, documentada na sua monumental memória, em dois volumes, Études sur les glaciers, publicada em 1840, tornando-se, assim, o nome mais conhecido no glacialismo. Professor de História Natural na Universidade de Neuchatel que, sob a sua orientação, se tornou uma das principais instituições de investigação científica do seu tempo, Agassiz ficou também conhecido como paleontólogo (na área dos peixes) e geólogo. Estudou com Alexander von Humboldt (1769-1859) que lhe abriu as portas à observação da paisagem física.

Em 1836, na companhia de Johann Charpentier, visitou os glaciares alpinos e as moreias de Diablerets e do Vale do Ródano. Na sequência desta visita, ele, que sempre fora céptico relativamente ao glacialismo, envolveu-se interessadamente na respectiva investigação. Como resultado desenvolveu uma teoria que apresentou à Sociedade Suíça de Ciências Naturais, de Neuchatel, em 1837, ao mesmo tempo que divulgava o conceito de Era Glaciária ou Idade do Gelo. Antes dele, outros (Venetz, Charpentier, Bernhardi) tinham observado as geleiras alpinas e chegado, praticamente, às mesmas conclusões, mas foi Agassiz que ficou na história deste capítulo da geologia. Nesta sua memória, discutiu os movimentos das línguas glaciárias, a sua influência na erosão dos respectivos vales, o desgaste e polimento das moreias e das rochas sobre as quais se deslocavam, estriando-as. Agassiz estendeu as suas observações às montanhas da Escócia, na companhia do reverendo inglês, William Buckland (1784-1856), decano de Westminster, e encontrou aí testemunhos seguros de glaciares antigos, à semelhança dos reconhecidos nos Alpes.

Também a Inglaterra, o País de Gales e a Irlanda lhe revelaram a existência de moreias e outros testemunhos de actividade glaciária na dependência das suas montanhas. Corroborando estas observações, o geólogo escocês Charles Lyell (1797-1875) revelava que os blocos rochosos, isolados e de natureza diferente da rocha que forma o terreno sobre o qual se encontram (blocos erráticos), foram transportados no seio das grandes massas de gelo dos glaciares de há milhares de anos. Mais tarde, Agassiz trocou a Europa pelos Estados Unidos da América, onde permaneceu até o fim de sua vida, em 1873, tendo ensinado zoologia e geologia na Universidade de Harvard e aí fundado o Museu de Zoologia

Comparada, de que foi o primeiro director. Na continuação do seu trabalho na Europa, como glaciologista, ele foi, entre muitas outras actividades científicas e pedagógicas, um dos primeiros a estudar os efeitos da última glaciação na América do Norte, no que foi apoiado, mais tarde, pelo americano, James Dwight Dana (1813-1895). O Agassiz Lake, de origem glaciária, na região dos Grandes Lagos, o Agassiz Mount, na Califórnia, o Agassiz Peak, no Arizona, e o Agassiz Glacier, no Parque Nacional dos Glaciares, no Estado de Montana, são alguns dos acidente geográficos que evocam o seu nome.

O progresso acelerado dos conhecimentos geológicos nessa época, nomeadamente os revelados por Charles Lyell, levou William Buckland a reconhecer, em um dos oito volumes do famoso “Bridgewater Treatise”, que a abundância de blocos erráticos observados no terreno não confirmavam o relato bíblico do Dilúvio. Ele que, de início e como eclesiástico, julgara ter encontrado evidências geológicas do Dilúvio à escala mundial, passou a acreditar nas ideias de Agassiz sobre a Idade do Gelo que permitiam uma explicação plausível para o que lhe era dado observar no terreno.

Mais tarde, na Áustria, Eduard Brückner (1862-1927), geógrafo, climatologista e glaciologista, professor nas Universidades de Berna, Halle (na Saxónia, Alemanha) e Viena, chamava a atenção para a importância das mudanças climáticas e das consequentes flutuações do nível do mar. Especializou-se no estudo dos glaciares alpinos e, neste domínio, colaborou com o conhecido geógrafo alemão, Friedrich Karl Albrecht Penk (1858-1945), na obra em três volumes, Die Alpen im Eiszeitalter (Os Alpes na Idade do Gelo), editada em 1909. Nesse trabalho, admitiram a existência de quatro períodos glaciários que designaram, do mais antigo para o mais recente, por Gunz, Mindel, Riss e Würm. Do outro lado do oceano, o norte-americano Thomas Chrowder Chamberlin (1843-1928), geólogo e professor de geologia , fundador do Journal of Geology, reconheceu, nos depósitos glaciários (moreias) que cobrem parte do território do estado, outras tantas glaciações pleistocénicas, a que deu nomes ainda em uso: Nebraska, Kansas, Illinois e Wisconsin que, pela mesma ordem, correspondem às glaciações alpinas.
Vale glaciário do Zêzere (Portuga)
Em Portugal, as Serras da Estrela e do Gerês conservam testemunhos da última glaciação (Würm) bloco-errático – bloco rochoso, por vezes de grandes dimensões, arrastado pelo gelo do glaciar e depois abandonado aquando do degelo. São reconhecíveis como tal porque, geralmente, assentam sobre terrenos de natureza diferente da sua e, nessa medida, são também considerados blocos-exóticos. São relíquias de antigas moreias frontais, que permitem reconstituir a extensão dos glaciares. moreia ou morena - acumulação de detritos de todas as dimensões transportados pelos glaciares.

Distingue-se uma moreia basal ou de fundo (que se acumula e desloca na base ou no fundo da língua glaciária); uma moreia dorsal ou mediana (acumulada longitudinalmente, como uma dorsal, na língua glaciária); uma moreia lateral (arrastado junto às duas margens da língua glaciária; uma moreia interna (dispersa no interior da língua glaciária) e uma moreia frontal (acumulada e empurrada na frente da língua glaciária). Por fusão e recuo do gelo, esta moreia pode constituir uma barragem natural e criar um lago a montante. Os tilitos são antigas moreias consolidadas.

Galopim de Carvalho

SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO EM COIMBRA

MÚSICA ANTIGA EM COIMBRA


LIVROS DE OUTUBRO DA GRADIVA

Novidades que a Gradiva publicará durante o mês de Outubro: 
 

«Trata-se de um esforço sério, melhor descrito como corajoso, reflectido, informado, e tão livre de preconceitos quanto possível, atendendo ao tema. Os resultados são surpreendentes e merecem atenção.» - ANTÓNIO DAMÁSIO

O autor sustenta que o acaso é incapaz de realizar tanto o universo como a vida e defende a tese do universo enquanto jogo de computador.

«Fora de Colecção», n.º 405


Instituto Português de Oncologia. Saber Aceitar Saber: Quando o Cancro é Hereditário

Dois objectivos: ouvir os doentes e ajudar a população em geral a entender o cancro hereditário. Se enfrentar um diagnóstico de cancro é uma experiência difícil, adicionar-lhe o processo de saber se esse cancro é hereditário pode ser devastador.

Um livro sensível, com a autoridade reconhecida do Instituto Português de Oncologia.

«Fora de Colecção», n.º 406, 160 pp.



Contrariando a ideia feita sobre a personalidade e a obra do homem e do político, este livro, ancorado numa sólida base documental, revela um Pina Manique visionário e idealista, que concebeu e implementou vários projectos utópicos no país que éramos, legando ao futuro a preocupação com os problemas de saúde pública e com a miséria das populações, que assumiu como uma questão da governação.

«Fora de Colecção», n.º 403, 484 pp.




Os livros estarão disponíveis para venda a partir do dia 23 de Outubro.

Emigrem, enquanto é tempo!

Texto recebido de Augusto Küttner de Magalhães: 


Será este o discurso de fim de percurso – que é afinal o que nos está a acontecer - que teremos que passar a ouvir, e por certo, também, a repetir : Emigrem, enquanto é tempo! Emigrem enquanto têm idade de o conseguir fazer, de arranjar trabalho “lá fora”, que isto “aqui dentro”, vai em declínio continuado.

Emigrem, dado que ninguém cá dentro tem sequer explicações, quanto mais soluções, para o presente e para o futuro, e dado que os poucos que as possam ter, como não estão nem directa nem indirectamente ligados aos permanentemente “instalados”, ou são mandados calar ou nem chegam a falar.
Emigrem dado que os políticos, todos, todos do nosso País, não querem desinstalar-se das governações e das oposições onde estão instalados, não querem abdicar das suas mordomias e regalias, pelo que nada vai melhorar.  Para manterem o que têm, irão piorando o pouco que nós ainda temos.
Emigrem dado que o País está a enlouquecer - a previsão é que em 2040 quase metade da população que cá estiver está louca e evitem fazer parte dos que lá vão chegar.
Emigrem para não terem que ver os vossos pais, avós, e restantes familiares mais velhos, sem alternativas, sem comida, sem aquecimento, sem futuro. Sem nada.
Emigrem antes de terem 60 anos, dado que, a partir dessa idade, as perspectivas se acabam: qualquer oportunidade, por mais pequena que seja, deixou completamente de existir.
Emigrem, enquanto é tempo!
Augusto Küttner de Magalhães

ASTRONOMIA Q&A


O astrónomo amador Guilherme Almeida chama a atenção para este portal sobre perguntas e respostas de Astronomia:

Conhecem o portal "Astronomia - Perguntas e Respostas" ( Astronomia Q&A ) ?
 
 
Podem inscrever-se e colocar lá as vossas perguntas. E haverá respostas...

PORTUGUESES NA AUSTRÁLIA


Convite recebido do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra:

O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra e o Diretor da Imprensa da Universidade de Coimbra têm o prazer de convidar V. Ex.ª para o lançamento da obra Portugueses na Austrália - as primeiras viagens com coordenação de Carlota Simões e Francisco Contente Domingues.

A sessão terá lugar no dia 22 de Outubro, às 17.00, no Museu da Ciência, estando a apresentação a cargo do Professor João Marinho dos Santos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Indisciplina na escola

Meu Prefácio (adaptado) ao livro Indisciplina na escola, de Dorothy L. Espelage e João Lopes, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.


“Se um aluno estiver lá numa carteira qualquer, levantando 
um braço, disser um disparate e o professor começar a ralhar
com ele isso não dá resultado. O professor (…) deve cha-
mar a atenção para o que devem fazer, o que convém fazer.”

Rómulo de Carvalho, 1996, 3.

Compreende-se que o leitor, especialista ou leigo em matéria de pedagogia, que contacte com este livro se interrogue acerca do sentido de mais um título sobre uma temática que desencadeou tantos outros. Terá, pois, de vislumbrar uma boa razão para iniciar a sua leitura. Será que a encontra nas páginas que se seguem? Estamos em crer que sim e explicamos porquê.

A indisciplina escolar, “tão antiga como a própria escola e tão inevitável como ela” (Estrela, 1992, 11), tem polarizado a atenção de inúmeros investigadores ocidentais de várias áreas disciplinares – sociologia, psicologia, educação –, os quais, sobretudo depois da segunda metade do século XX, vêm explorando uma multiplicidade de dimensões que se suspeita potenciarem os comportamentos desajustados dos alunos, nomeadamente os que se manifestam em sala de aula. Referimo-nos a dimensões de natureza política, social, relacional e individual, que se prendem, por exemplo, com o ambiente escolar, familiar e de pares com a maturação e o temperamento.

O estudo dessas dimensões tem contemplado – sendo certo que nem sempre o faz – a ligação dos referidos comportamentos à aprendizagem, mais concretamente, à perturbação que podem causar a este nível: os alunos indisciplinados, além de não se regerem por regras básicas que lhes permitam estar de modo adequado em contextos de ensino formal, dificilmente seguem e consolidam raciocínios que conduzam às aquisições disciplinares; por seu lado, os alunos com um comportamento adequado sofrem este mesmo tipo de efeitos, com a agravante de poderem tornar-se vítimas directas dos primeiros.

A direcção heurística que se destaca é, pois, em geral, no sentido da implicação da (in)disciplina dos alunos – a causa – na sua aprendizagem – a consequência. Apesar de válida, esta direcção deixa na penumbra a que lhe é complementar e que tem validade equivalente: a implicação da aprendizagem – a causa – na (in)disciplina – a consequência.

Isto significa que têm sido menos escrutinadas as medidas que certas escolas adoptam e o correspondente esforço dos seus professores para levarem os alunos, desde o início de escolaridade, a conhecerem, compreenderem e integrarem regras de conduta, a dominarem conteúdos disciplinares relevantes e a desenvolverem capacidades cognitivas que lhes permitam encarar as aprendizagens, progressivamente mais exigentes, como desafios.

Esse enviesamento da investigação sobre os comportamentos indesejados dos alunos (centrada na indisciplina, descuidando a disciplina) não pode deixar de conduzir a percepção dos diversos agentes educativos (a indisciplina vista como problema que impede o sucesso na aprendizagem e não como decorrente do insucesso da aprendizagem) e, em sequência, as medidas que prevêem para lhes fazer face (essencialmente de carácter remediativo, negligenciando as de carácter preventivo, com destaque para a organização do ensino que, de uma forma intelectualmente estimulante, seja capaz de garantir a aprendizagem e a disciplina).

Ora, é neste equilíbrio entre a aprendizagem e a disciplina, cuja manutenção se afigura, em grande medida, da responsabilidade das escolas e dos professores, que urge laborar, sob pena de os comportamentos desadequados dos alunos evoluírem para formas várias de violência, com resultados académicos devastadores.

O livro que a Fundação Francisco Manuel dos Santos agora publica na colecção Questões-chave da Educação, dando a conhecer a um público alargado o essencial de uma conferência com o mesmo título, foca precisamente a problemática que acabámos de enunciar. Nos dois textos que o concretizam, o referido equilíbrio é aflorado e trabalhado com recurso a dados de pesquisa actual.

O texto Prevenir a violência juvenil e o bullying através de programas e modelos de prevenção escolar sócio-emocionais, da lavra de Dorothy L. Espelage, professora da Universidade de Illinois, incide nas manifestações agravadas da indisciplina, que podem assumir diversas formas de violência, com implicações devastadoras na aprendizagem. A autora destaca a necessidade de se recorrer a programas que envolvam famílias, comunidades e escolas e se centrem no envolvimento académico e no desenvolvimento de competências de teor social e emocional, capazes de beneficiar percepções, expectativas e desempenhos traduzidos na empatia, na comunicação, na decisão, na resolução de problemas, no esforço. Em sequência, apresenta e analisa vários programas dessa índole, cujo índice de eficácia se tem revelado muito satisfatório, tanto na prevenção como na redução dessas formas de violência, beneficiando também as aprendizagens disciplinares dos alunos. Espelage alerta, ainda, para um dado de suma importância, recorrente, aliás, em estudos dignos de crédito: os efeitos da intervenção especializada são tanto mais positivos, quanto mais precoce essa intervenção for; correlativamente à medida que a adolescência avança, a sua eficácia dilui-se.

João A. Lopes, professor de Psicologia da Universidade do Minho, no seu texto, a que deu o título A indisciplina em sala de aula, após expor uma síntese da investigação mais relevante sobre o assunto, discute a perspectiva que enunciámos, sem, no entanto, a considerar exclusiva do problema: “continua a não ser fácil para os agentes educativos acreditarem que uma causa tão próxima e até tão óbvia como o insucesso académico possa ter alguma importância na configuração da indisciplina (…) consequências do insucesso académico do ponto de vista disciplinar são ainda relevantes pelo seu carácter duradouro e mutuamente reforçador. À medida que o tempo passa, os alunos com dificuldades académicas têm cada vez maiores problemas em aceder ao currículo (por falta de bases), o que potencia os maus comportamentos, os quais, por seu turno, inibem a centração nas tarefas académicas. Daqui resulta uma espiral negativa da qual é muito difícil o sujeito libertar-se”.

Ambos os textos fazem destacam a necessidade de um redireccionamento das representações do papel da escola e, muito particularmente, e da acção do professor, começando pela afirmação do seu inalienável dever de ensinar, tal como Savater (1997) e Quintana Cabanas (2005) fazem notar.

Além disso, veiculam uma mensagem de consolidação da pedagogia como disciplina científica. Continuando a abordagem de temas tão difíceis como este que ocupa as páginas que se seguem, a depender de medidas políticas avulsas e de opiniões, são os alunos que perdem em termos de aprendizagem e os professores que se vêem impedidos de ensinar como aspiraram. Isso deve fazer pensar todos aqueles que, directa ou indirectamente, estão ligados ao sistema escolar, pois a verdade é que a indisciplina “produz efeitos negativos em relação à socialização e aproveitamento escolar dos alunos, produz igualmente efeitos negativos em relação aos docentes. Embora menos evidentes e imediatos, esses efeitos não são menos nocivos” (Estrela, 1992, 97).

Referências:
Carvalho, R. (1996). Humanidades e ciências é tudo a mesma coisa. Público de 24 de Novembro, 2-4.

Estrela, M. T. (1992). Relação pedagógica, disciplina e indisciplina na aula. Porto, Porto Editora.
Savater, F. (1997). O valor de educar. Lisboa: Editorial Presença.
Quintana Cabanas, J. M. (2005). Crítica pedagógica de los sistemas educativos occidentales. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, 13 (46), 55-66. 


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

TELEPRESENÇA E BIOARTE

Um convite vindo do Brasil:


A LUA DO PORTO



A lua no passado dia 8 de Outubro vista da Casa Andersen no Porto, no Jardim Botânico da Universidade do Porto, onde estive a apresentar o novo livro de Luís Miguel Bernardo (cortesia da Editora da Universidade do Porto).

Que mais receia no próximo Orçamento de Estado?

Minha resposta à questão do JN, dada anteontem (antes do Orçamento do Estado ser conhecido) e publicada ontem:
Que aperte ainda mais o rolo compressor da ciência e da educação. Os cientistas e professores estão revoltados  por verem essas áreas, que são  um investimento vital para o país,  sumir-se em cada orçamento. Basta de tanto apertar!

O FIM DA LEGISLATURA

Com o Orçamento que anunciou, que provavelmente vai passar na Assembleia da República dada a maioria existente e a falta de independência dos deputados, o governo acabou. Assinou a sua própria sentença de morte. A tensão social vai-se agravar, em especial na classe média, alvo maior deste Orçamento. A morte anunciada poderá ser às mãos do Tribunal Constitucional, que tem mais do que matéria para intervir e deverá fazê-lo, ou às mãos do Presidente da República, que é co-responsável pela situação actual mas poderá ainda emendar a mão. A coligação poder-se-á também desmanchar espontaneamente, colada como está com cuspo: é patética dupla formada pelo ministro das Relações com a Troika e pela ministra das Finanças, com o primeiro a tentar passar por entre as gotas de chuva e a segunda a mostrar slides com uma conversa técnico-burocrática.  

A solução no quadro da democracia são eleições. Não temos, de momento, outro remédio que não eleições antecipadas. Infelizmente, o principal partido da oposição não está preparado para governar, pelo menos com o actual líder. Tal como o chefe do governo, também ele já mostrou ser incapaz de propor uma saída para o país. O primeiro-ministro ainda em funções não fazia ideia nenhuma do rumo a tomar. Actuou  de um modo atabalhoado e infeliz, procurando apenas satisfazer a troika. Mas o  líder da oposição quer o quê? E que maioria tem para querer alguma coisa?  Será pedir muito eleições com outros lideres?

Gatos e Homens


Georges Perec, romancista e poeta francês, autor de “Les Choses”, tinha como companhia preferida os gatos pretos.

No filme L`Atalante de Jean Vigo, a cozinha e o quarto, dentro do navio, do cómico, e ímpar e femeeiro Le père Jules (Michel Simon), está também ela cheia de gatos, e ele diverte-se a afagá-los como se fossem mulheres.

Em mecânica quântica, a interpretação de Copenhaga irritou Erwin Schrödinger e levou-o a imaginar uma experiência mental, onde dentro de uma caixa lacrada estava um gato e um gás venífluo que seria libertado assim que uma amostra de  núcleos radioactivos, com um determinado tempo de Meia-Vida, começasse a decair. Ao fim de algum tempo há 50:50 de possibilidades de o gás se libertar. Ele põe-nos então duas questões: O que acontece ao gato se a caixa permanecer encerrada, e o que acontece ao gato se a abrirmos? A resposta à segunda questão é óbvia: ele está vivo ou morto (colapso da função de onda); todavia, para a primeira questão, ele está vivo e morto, em simultâneo; isto é o paradoxo de Schrödinger. A perturbação de um sistema pela observação ou medição é um dos pilares da interpretação de Copenhaga, os outros são a dualidade da natureza da partícula-onda (a complementaridade) e a incerteza numa medição quântica.

O poeta Vasco Graça Moura também convive com gatos. No seu poema “variações sobre um gato”, um gatinho salta para o teclado do computador e inadvertidamente escreve “ba”. Este facto deixa o poeta ensimesmado com a possibilidade de no ecrã aparecer o nome “bach” e com a possibilidade do gatinho ser sobredotado. É nesse momento que o retira do teclado para matar a curiosidade do leitor, como quem diz basta ou chega.

Uma das novelas que mais gosto de John Steinbeck é Ratos e Homens. Aqui, o autor compara os homens apanhados pela grande depressão, vagueando de quinta em quinta, a ratos, mas fá-lo depreciativamente; no final, ele deixa ao leitor a sentença para um homem deficiente e incapaz de controlar as suas emoções, que acaba de assassinar acidentalmente uma mulher casada com o filho de um proprietário.

Gastos e de rastos, caminhamos, vamos, sonhamos, lemos….

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ainda os cortes cegos nas reformas da CGA e o constitucionalista Jorge Miranda

“Tudo o que sucede, sucede por alguma razão” (Gabriel Garcia Marquez).

Antes de responder ao comentário do leitor Fernando Lobo, insito no meu post “Cortes cegos nas reformas da CGA?” ( 07/10/2013), duas anotações prévias:
1.ª - O facto deste comentário ter sido publicado uma semana depois do meu post fê-lo perder actualidade (daqui eu  obrigar-me  a transcrevê-lo verbo pro verbo).
2.ª - Dando de barato ter havido um lapsus calami neste comentário de Fernando Lobo, ao escrever a palavra “concuspiscência” (sic.) em vez de concupiscência, permanece, todavia,  em mim, a dúvida sobre o significado por ele pretendido atribuir-lhe. Significado de natureza filosófica, teológica ou, mais terra-a- terra, de ganância por bens materiais? Mas adiante!
Assim, escreveu o leitor Fernando Lobo no seu comentário:
“Há muita incompetência que "queimou as pestanas" durante toda a vida - e "conseguiu" manter-se nessa atávica incompetência. Assim como há quem, sendo detentor de natural vocação para a prática da docência, não tenha sentido a necessidade de queimar as ditas para um exercício honesto e profícuo da sua actividade. Ou não?Enquanto se generalizarem concepções onde o subjectividade domine, o resultado apontará sempre em nosso benefício - mas a concuspiscência também”.

Posto isto, vou àquilo que tenho como sendo o cerne da questão do referido comentário: haver muita incompetência de quem  “queimou as pestanas” durante toda a vida e, em contrapartida, sobressair a “natural vocação para a prática da docência”, tornando, ipso facto,  desnecessário que se queimem as pestanas “para um exercício honesto e profícuo desta   actividade”.Em acordo parcial com Gustav e Le Bon quando nos adverte, in “Les opinions et les Croyances”,  que “grande número de políticos ou de universitários, carregados de diplomas,  possuem uma mentalidade de bárbaros e não podem, portanto, ter por guias nas vida senão uma alma de bárbaros”, aceito que nem sempre os diplomas universitários são aval  de uma competência sem mácula. Mas daí extrapolar esta opinião como uma verdade indiscutível parece-me deveras perigoso por nos aproximar de uma situação  em que os pais, em face do tempo e dos costumes, e perante  uma possível vocação  para a docência,  incitem os seus rebentos: “Meu filho, se queres ser alguém na vida não queimes as pestanas”. Inscreve-te num sindicado politicamente forte que te faça subir na vida sem esforço!

Aliás, se reparar, e reparou pela certa, no meu post - “  Cortes cegos nas reformas da CGA?”-  referia-me ao carreirismo de docentes , habilitados com o antigos cursos médios (v.g., diplomas das antigas escolas do magistério primário) que com a muleta sindical, em que se ampararam, outrossim, alguns dos  respectivos dirigentes, em meia dúzia de meses em passagem meteórica por cursos  de escolas privadas, ou mesmo públicas,  de duvidosa qualidade, se reformaram  (ou venham a reformar)no último escalão da carreira docente ombreando com licenciados de raiz.
Curiosamente, no dia a seguir  à transcrição neste blogue, sob a forma de post, do meu artigo no Público, foi publicado no mesmo jornal,  um outro, intitulado “Pensões de aposentação e solidariedade entre gerações”, da autoria do constitucionalista e professor catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa Jorge Miranda em que ele, em dado momento, escreve:
“É certo que alguns pensionistas não contribuíram, nas suas carreiras ou nas funções que desempenharam, com montantes equivalentes aos que agora pretendem receber. Mas isso apenas obrigaria o legislador a distinguir, em vez de aplicar cegamente o mesmo regime a esses e aos demais, com preterição da igualdade e da proporcionalidade. E pode tratar-se por igual quem esteve 45 anos na função pública (dos quais três de serviço militar obrigatório) até aos 70 anos e quem se aposentou ao fim de muitos menos anos?”

Cotejo este exemplo de Jorge Miranda com este outro do dia anterior da minha autoria:
“Referencio um docente do 1.º ciclo do básico que se tenha reformado com 52 anos de idade e trinta e dois de serviço quando confrontado com um outro de diferente grau de ensino não superior que se tenha reformado com o limite de idade de 70 anos e com quarenta ou mais anos de serviço e que, devido a cortes cegos na respectiva reforma, passe a ser vítima de igual desconto ao daquele”.
Confrontemos, ainda, estas duas situações com a situação de antigos professores de ensino primário que voltaram ao liceu para tirarem o antigo 7.º ano para  se matricularem e completarem cursos universitários de natureza docente. Será moral aceitar como igual o que é desigual numa espécie de honra ao demérito e em denegação do princípio do Direito Romano: “Suum cuique”’. Esta a questão! Uma questão que merece ser discutida até à exaustão para que a mediocridade, num país em que, segundo  João Lobo Antunes, "a mediocridade  é a lei”, se não faça praça forte da docência em que se aceita tudo em nome do “reducionismo das técnicas pedagógicas” (para utilizar uma expressão feliz de Shculman) menos  competência científica.
Pior do que isso, será dar guarida generosa à “natural vocação para a prática da docência” em detrimento do conhecimento científico em que se “queimam as pestanas” em noites insones enquanto os “vocacionados” dormem o sono dos justos ou se divertem na noite até altas horas da madrugada. Repiso, esta a questão!

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...