terça-feira, 22 de outubro de 2013
DAS "CARTAS A UM JOVEM POETA" DE RILKE
E, na sessão de apresentação do livro A Dinâmica da Espiral, perante as múltiplas referências a Rilke não pude deixar de ler este belo excerto de uma das suas Cartas a um jovem poeta, publicadas postumamente, mas escritas em 1903:
“Se procurar amparo na Natureza, no que é nela tão simples e pequeno que quase não se vê mas que inesperadamente pode tornar-se grande e incomensurável; se alimentar esse amor pelo mais ínfimo e se tentar, humilde como um criado, ganhar a confiança do que parece pobre, tudo será para si mais fácil, mais coeso e de algum modo mais conciliador, talvez não no intelecto, que recua atónito, mas no mais íntimo da sua consciência, do seu conhecimento e atenção.
Você é tão jovem ainda, está diante de todos os inícios, e por isso gostaria de lhe pedir, caro Senhor, que tenha paciência quanto a tudo o que está ainda por resolver no seu coração e que tente amar as próprias perguntas como se fossem salas fechadas ou livros escritos numa língua muito diferente das que conhecemos. Não procure agora respostas que não lhe podem ser dadas porque ainda não as pode viver. E tudo tem de ser vivido. Viva agora as perguntas. Aos poucos, sem o notar, talvez dê por si um dia, num futuro distante, a viver dentro da resposta. Talvez traga em si a possibilidade de criar e de dar forma e talvez venha a senti-la como uma forma de vida particularmente pura e bem-aventurada; é esse o rumo que deverá tomar a sua educação; mas aceite o que está por vir com grande confiança, e se ele surgir apenas da sua vontade, de uma qualquer necessidade interior, deixe-o entrar dentro de si e não odeie nada.”
Rainer Maria Rilke, “Cartas a um Jovem Poeta”, Carta Quatro, “Worpswede, junto a Bremen”, 16 de Julho de 1903.
DO "LIVRO DAS HORAS" DE RILKE
No livro sobre ciência, filosofia e religião recentemente publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra, A Dinâmica da Espiral, de Formosinho Sanches e Oliveira Branco, o segundo autor declara-se extasiado com a leitura de um poema de Rainer Maria Rilke, d' O Livro de Horas, que ele próprio tentou traduzir a partir do original em alemão. Eis a tradução desse poema da pena do grande germanista Paulo Quintela (que está nas Obras Completas de Paulo Quintela, na Gulbenkian; a edição da figura, da Assírio e Alvim, contém outra tradução):
Deus fala a cada um só antes de o fazer.
Então sai calado, com ele para fora da noite.
As palavras, porém, antes que cada um comece,
essas palavras nubladas, são:
Enviado pelos teus sentidos,
vai até ao limite da tua saudade;
dá-me roupagens.
Atrás das coisas cresce como incêndio,
que as suas sombras dilatadas
me cubram sempre todo.
Deixa que tudo te aconteça: beleza e pavor.
Só é preciso andar: nenhum sentimento é mais longínquo.
Não te deixes apartar de mim.
É perto a terra
a que chamam vida.
Hás-de reconhecê-la
pela sua gravidade.
Dá-me a tua mão.
Rainer Maria Rilke (Livro de Horas, 1905, tradução de Paulo Quintela)
Deus fala a cada um só antes de o fazer.
Então sai calado, com ele para fora da noite.
As palavras, porém, antes que cada um comece,
essas palavras nubladas, são:
Enviado pelos teus sentidos,
vai até ao limite da tua saudade;
dá-me roupagens.
Atrás das coisas cresce como incêndio,
que as suas sombras dilatadas
me cubram sempre todo.
Deixa que tudo te aconteça: beleza e pavor.
Só é preciso andar: nenhum sentimento é mais longínquo.
Não te deixes apartar de mim.
É perto a terra
a que chamam vida.
Hás-de reconhecê-la
pela sua gravidade.
Dá-me a tua mão.
Rainer Maria Rilke (Livro de Horas, 1905, tradução de Paulo Quintela)
QUE NADA SE SABE
Ontem numa aula de mestrado em Saúde Pública da Faculdade de Medicina de Coimbra tive ocasião de lembrar o prefácio do médico e filósofo português Francisco Sanches, professor de Medicina na Universidade de Toulouse contemporâneo de Galileu, na sua obra "Que nada se sabe" ("Quod nihil scitur"):
Francisco Sanches, Que Nada se Sabe, Lisboa, Vega, p. 60
"Não esperes de mim um estilo ataviado e polido. Empregá-lo-ia se quisesse mas a verdade escapa-se quando estamos a escolher muito as palavras e usamos de rodeios: isso é nem mais nem menos que enganar. Se é isso que desejas, recorre a Cícero, pois é esse o seu ofício. O que eu disser será bastante belo, se bastante verdadeiro. As belas frases convêm aos retóricos, aos poetas, aos áulicos, aos namorados, às cortesãs, aos proxenetas, aos aduladores, aos parasitas e semelhantes, para os quais o falar bem é um fim. Para a ciência basta, e é necessária mesmo, a propriedade, o que não pode conjugar-se com aquilo. Não exijas também de mim muitas citações, ou uma reverência para com os autores que é mais própria de um ânimo servil e inculto do que de um espírito livre e que busca a verdade. A autoridade manda crer; a razão demonstra; aquela é própria da fé; esta, da ciência. Dos outros, aquilo que me parecer verdadeiro, confirmá-lo-ei com a razão; o que me parecer falso, infirmá-lo-ei. Oxalá que tudo aquilo que eu atentamente elaboro, depois de elaborado tu o recebas com o mesmo espírito e precaução, e o julgues com são critério: e que tudo aquilo que parecer falso, tu o destruas com razões sólidas (coisa que, sendo, como é, própria de um filósofo, me é extremamente grata), e não, como fazem os invejosos e alguns ignorantes, com injúrias ineptas e que nada invalidam (coisa que, sendo, como é, própria de mulheres, é indigna de um filósofo, e para mim absolutamente desagradável); aquilo, porém, que parecer justo, oxalá que tu o aproves e confirmes".
Lapis phylosophorum
No seguimento da sua fixação numa nomenclatura binomial e em latim, o grande naturalista sueco Carlos Lineu (1707-1778), a meados do século XVIII, deu o nome de Lapis philosophorum à grafite, com base no facto de, então, este mineral ser a “pedra” (lapis, em latim) com a qual se podia escrever num suporte macio e porque escrever era prática de estudiosos, ou seja, de filósofos. Um outro nome da grafite foi “mica dos pintores”, em alusão ao seu aspecto lamelar e por deixar traço negro e fácil sobre o papel. Repare-se que o nome desta espécie no léxico mineralógico actual reflecte a última destas características, contida no elemento grego graph, que traduz o acto de escrever.
Numa época em que se não distinguiam as rochas dos minerais, tudo era pedra. É por isso que ainda hoje se fala de pedra-mármore, uma rocha de todos conhecida, e de pedra-hume, um mineral (sulfato duplo de alumínio e potássio) de uso corrente pelo seu carácter adstringente e cicatrizante. Foi neste contexto que surgiram os nomes lápis, para designar o objecto com que escrevemos e desenhamos, e mina, para o estilete de grafite no seu interior. Lápis e mina duas palavras que radicam no referido contexto. Com efeito, no passado, a palavra mina era usada como sinónimo de minério e a grafite era já então explorada com tal.
No que se refere à palavra lápis, disse-se atrás que, na origem latina, significava pedra e que qualquer mineral era referido como tal. Porque a macieza ao tacto, a cor negra e o brilho metálico da grafite a confundiam com a molibdenite, então referida por molybdaena, e porque nesse tempo não se distinguia o molibdénio do chumbo (plumbo, em latim) também se lhe chamou “plumbagina” e “chumbo negro”.
Com a mesma composição química do diamante e como ele, um polimorfo de carbono nativo, a grafite é um bom condutor do calor e da electricidade e uma das substâncias de mais baixa dureza, à semelhança do talco (silicato de magnésio hidratado) e da molibdenite (sulfureto de molibdénio). A grande diferença que a separa do diamante, a mais dura conhecida, reside no modo de arrumo dos átomos de carbono.
Se dermos o nome de grafeno a uma estrutura planar na qual os átomos de carbono estão fortemente unidos (ligação covalente), constituindo folhas em que cada átomo (através de três dos seus quatro electrões) se liga a três outros, formando hexágonos, a estrutura grafite define-se como sendo um empilhamento de folhas de grafeno unidas por uma ligação muito fraca (ligação de van der Waals) a uma distância de 3,35 Angströms.
Com largas aplicações na metalurgia do ferro, nas indústrias dos lápis (misturada com argila), dos lubrificantes (o pó da grafite é usado a seco), dos refractários, das tintas, das borrachas e na electrónica, parte da grafite que se explora de entre as rochas, no subsolo, já foi hulha ou antracite e, centenas de milhões de anos antes, madeira de árvores das florestas de então.
A primeira mina de grafite foi descoberta na Baviera, no início do século XV. Cem anos depois, idêntica descoberta teve lugar em Cumberland, na Inglaterra, mas só no final do século XVIII se soube a sua verdadeira natureza química, em resultado do trabalho do químico sueco Karl Wilhelm Scheele (1742-1786). Em 1761, o alemão Kaspar Faber deu início à produção de lápis, em Stein, próximo de Nuremberga. Um seu bisneto, Lothar von Faber, modernizou a produção a partir de 1839. Passou, então a ser possível fabricar lápis com graus de dureza, através da mistura de argila com grafite.
Oriunda da região de Irkutsk, na Sibéria, a grafite usada pela fábrica Faber era localmente referida por “ouro negro” e transportada no dorso de renas até ao porto de onde saía, em navios, para os seus destinos.
A indústria dispõe hoje de grafite produzida industrialmente, a temperatura e pressão elevadas, a partir de coque, de petróleo ou de antracite.
A. Galopim de Carvalho
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| Grafite |
No que se refere à palavra lápis, disse-se atrás que, na origem latina, significava pedra e que qualquer mineral era referido como tal. Porque a macieza ao tacto, a cor negra e o brilho metálico da grafite a confundiam com a molibdenite, então referida por molybdaena, e porque nesse tempo não se distinguia o molibdénio do chumbo (plumbo, em latim) também se lhe chamou “plumbagina” e “chumbo negro”.
Com a mesma composição química do diamante e como ele, um polimorfo de carbono nativo, a grafite é um bom condutor do calor e da electricidade e uma das substâncias de mais baixa dureza, à semelhança do talco (silicato de magnésio hidratado) e da molibdenite (sulfureto de molibdénio). A grande diferença que a separa do diamante, a mais dura conhecida, reside no modo de arrumo dos átomos de carbono.
Se dermos o nome de grafeno a uma estrutura planar na qual os átomos de carbono estão fortemente unidos (ligação covalente), constituindo folhas em que cada átomo (através de três dos seus quatro electrões) se liga a três outros, formando hexágonos, a estrutura grafite define-se como sendo um empilhamento de folhas de grafeno unidas por uma ligação muito fraca (ligação de van der Waals) a uma distância de 3,35 Angströms.
Com largas aplicações na metalurgia do ferro, nas indústrias dos lápis (misturada com argila), dos lubrificantes (o pó da grafite é usado a seco), dos refractários, das tintas, das borrachas e na electrónica, parte da grafite que se explora de entre as rochas, no subsolo, já foi hulha ou antracite e, centenas de milhões de anos antes, madeira de árvores das florestas de então.
A primeira mina de grafite foi descoberta na Baviera, no início do século XV. Cem anos depois, idêntica descoberta teve lugar em Cumberland, na Inglaterra, mas só no final do século XVIII se soube a sua verdadeira natureza química, em resultado do trabalho do químico sueco Karl Wilhelm Scheele (1742-1786). Em 1761, o alemão Kaspar Faber deu início à produção de lápis, em Stein, próximo de Nuremberga. Um seu bisneto, Lothar von Faber, modernizou a produção a partir de 1839. Passou, então a ser possível fabricar lápis com graus de dureza, através da mistura de argila com grafite.Oriunda da região de Irkutsk, na Sibéria, a grafite usada pela fábrica Faber era localmente referida por “ouro negro” e transportada no dorso de renas até ao porto de onde saía, em navios, para os seus destinos.
A indústria dispõe hoje de grafite produzida industrialmente, a temperatura e pressão elevadas, a partir de coque, de petróleo ou de antracite.
A. Galopim de Carvalho
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
NOVOS LIVROS DA BIZÂNCIO
Título: O
Continente Perdido
Subtítulo: Uma
Análise sobre o mais negro Momento da Europa desde a Segunda Guerra
Mundial
Autor: Gavin Hewitt
ISBN: 978-972-53-0533-1 Código de Barras: 9 789 725
305 331
Págs.: 336
Preço: Euros 15,09 / 16,00
Política/Actualidade/Economia
______________________________________________________________
«Das planícies
áridas de Espanha, ergue-se o aeroporto de Ciudad Real, feito de vidro e
aço escovado, a brilhar à luz do sol. Vangloria-se de ter uma das pistas
de maior comprimento da Europa. O seu terminal, amplo e arejado, foi
concebido para acolher 5 milhões de passageiros por ano. Custou quase mil
milhões de euros. Mas não se vêem aviões. É um elefante branco, financiado
com o dinheiro dos contribuintes. Existem outros aeroportos «fantasma».
Por todo o país, há projectos semiacabados: o legado de políticos que
utilizaram os fundos públicos para satisfazer a sua
ambição.»
O Continente Perdido conta-nos a história de um sonho falhado, uma
visão nobre que se tornou perigosa e que conduziu a Europa à mais grave
crise que enfrenta desde a Segunda Guerra Mundial: uma crise para a qual
estava totalmente impreparada. Um dos pilares do sonho europeu, surgido no
pós-guerra, era a criação de uma moeda única, e com ela surgiu o dinheiro
fácil, seduzindo alguns países que se lançaram numa voracidade despesista.
Após a crise financeira dos Estados Unidos, a Europa foi inevitavelmente
atingida e deparou-se com uma crise da dívida pública que põe em causa
todo o projecto europeu.
O Continente Perdido está repleto de casos patéticos, que cruzam os
bastidores dos centros de decisão política com as histórias de cidadãos
comuns, dando um retrato ímpar da mudança dramática da História a que
assistimos nos nossos dias. Inclui, ainda, entrevistas com funcionários
europeus de topo, dentro e fora do sistema, e relatos dramáticos de
algumas das cimeiras europeias. Um livro claro e de leitura apaixonante,
de um dos mais conceituados, e bem relacionados, jornalistas dos nossos
dias, que nos explica com invulgar simplicidade como chegámos aqui e para
onde caminhamos.
Título:
António Ferro: A Vertigem da
Palavra
Subtítulo:
Retórica, Política e Propaganda no Estado
Novo
Autor: Margarida
Acciaiuoli
ISBN: 978-972-53-0534-8 Código de Barras: 9 789 725
305 348
Págs.: 432
Preço: Euros 16,98 /
18,00
Política/Biografia
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António Ferro
era um homem singular. Escritor, jornalista, adquiriu notoriedade com o
seu livro sobre a viagem em torno das ditaduras europeias nos anos 20 do
século XX. Soube convencer Salazar de que o povo precisava de espectáculo,
mostrou-lhe que tinha um programa e objectivos para a promoção do regime e
foi nomeado director do organismo que se encarregaria das actividades de
propaganda do Estado Novo. Durante quinze anos fez do país um «teatro» e
foi o seu encenador: organizou exposições, criou prémios artísticos e
literários, financiou filmes e documentários, criou uma companhia de
bailado, um teatro do povo, um Museu de Arte Popular. O turismo teve com
ele uma inusitada relevância através, entre outros, dos incentivos à
qualidade de hotéis e restaurantes e do programa de Pousadas.
Nada lhe
escapou, dir-se-ia. Mas, quando a Segunda Guerra Mundial terminou,
percebeu-se que o país pouco mudara. É desta contradição que este livro
trata, sem esquecer as convicções de António Ferro e a importância que
sempre deu à palavra.
sábado, 19 de outubro de 2013
IDADE DO GELO
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Extensão das calotes glaciárias polar e de montanha
(Alpes e Pirinéus) na Europa durante a última glaciação (Würm)
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A residência deste precursor do glacialismo foi, mais tarde, transformada no Museu do Glaciar. Embora hoje familiar para a maioria das pessoas, a ideia de Perraudin foi rejeitada pela comunidade científica de então, mas não tardou a encontrar defensores. Um deles foi o naturalista suíço Ignaz Venetz (1788-1859), considerado o fundador da glaciologia. Na sequência das observações de Parraudin e vencendo a forte oposição de uma boa parte dos seus contemporâneos mais influentes, Venetz confirmou as observações deste seu conterrâneo, afirmando, em 1829, que os glaciares alpinos e os referidos amontoados de calhaus e blocos, tinham invadido as planuras suíças do Jura e que semelhantes materiais, vindos da Escandinávia, haviam atingido e coberto grande parte do norte da Alemanha e da Polónia, deixado aí amontoados de calhaus e grandes blocos isolados, mais tarde referidos, respectivamente, por moreias (ou morenas) e blocos erráticos.
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Moreia
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Bloco
errático conservado na planura do norte da Polónia
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| Glaciar de vale nos Alpes |
Atento a esta problemática, o suíço Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), doutorado em medicina, produziu obra valiosa neste domínio, documentada na sua monumental memória, em dois volumes, Études sur les glaciers, publicada em 1840, tornando-se, assim, o nome mais conhecido no glacialismo. Professor de História Natural na Universidade de Neuchatel que, sob a sua orientação, se tornou uma das principais instituições de investigação científica do seu tempo, Agassiz ficou também conhecido como paleontólogo (na área dos peixes) e geólogo. Estudou com Alexander von Humboldt (1769-1859) que lhe abriu as portas à observação da paisagem física.
Em 1836, na companhia de Johann Charpentier, visitou os glaciares alpinos e as moreias de Diablerets e do Vale do Ródano. Na sequência desta visita, ele, que sempre fora céptico relativamente ao glacialismo, envolveu-se interessadamente na respectiva investigação. Como resultado desenvolveu uma teoria que apresentou à Sociedade Suíça de Ciências Naturais, de Neuchatel, em 1837, ao mesmo tempo que divulgava o conceito de Era Glaciária ou Idade do Gelo. Antes dele, outros (Venetz, Charpentier, Bernhardi) tinham observado as geleiras alpinas e chegado, praticamente, às mesmas conclusões, mas foi Agassiz que ficou na história deste capítulo da geologia. Nesta sua memória, discutiu os movimentos das línguas glaciárias, a sua influência na erosão dos respectivos vales, o desgaste e polimento das moreias e das rochas sobre as quais se deslocavam, estriando-as. Agassiz estendeu as suas observações às montanhas da Escócia, na companhia do reverendo inglês, William Buckland (1784-1856), decano de Westminster, e encontrou aí testemunhos seguros de glaciares antigos, à semelhança dos reconhecidos nos Alpes.
Também a Inglaterra, o País de Gales e a Irlanda lhe revelaram a existência de moreias e outros testemunhos de actividade glaciária na dependência das suas montanhas. Corroborando estas observações, o geólogo escocês Charles Lyell (1797-1875) revelava que os blocos rochosos, isolados e de natureza diferente da rocha que forma o terreno sobre o qual se encontram (blocos erráticos), foram transportados no seio das grandes massas de gelo dos glaciares de há milhares de anos. Mais tarde, Agassiz trocou a Europa pelos Estados Unidos da América, onde permaneceu até o fim de sua vida, em 1873, tendo ensinado zoologia e geologia na Universidade de Harvard e aí fundado o Museu de Zoologia
Comparada, de que foi o primeiro director. Na continuação do seu trabalho na Europa, como glaciologista, ele foi, entre muitas outras actividades científicas e pedagógicas, um dos primeiros a estudar os efeitos da última glaciação na América do Norte, no que foi apoiado, mais tarde, pelo americano, James Dwight Dana (1813-1895). O Agassiz Lake, de origem glaciária, na região dos Grandes Lagos, o Agassiz Mount, na Califórnia, o Agassiz Peak, no Arizona, e o Agassiz Glacier, no Parque Nacional dos Glaciares, no Estado de Montana, são alguns dos acidente geográficos que evocam o seu nome.
O progresso acelerado dos conhecimentos geológicos nessa época, nomeadamente os revelados por Charles Lyell, levou William Buckland a reconhecer, em um dos oito volumes do famoso “Bridgewater Treatise”, que a abundância de blocos erráticos observados no terreno não confirmavam o relato bíblico do Dilúvio. Ele que, de início e como eclesiástico, julgara ter encontrado evidências geológicas do Dilúvio à escala mundial, passou a acreditar nas ideias de Agassiz sobre a Idade do Gelo que permitiam uma explicação plausível para o que lhe era dado observar no terreno.
Mais tarde, na Áustria, Eduard Brückner (1862-1927), geógrafo, climatologista e glaciologista, professor nas Universidades de Berna, Halle (na Saxónia, Alemanha) e Viena, chamava a atenção para a importância das mudanças climáticas e das consequentes flutuações do nível do mar. Especializou-se no estudo dos glaciares alpinos e, neste domínio, colaborou com o conhecido geógrafo alemão, Friedrich Karl Albrecht Penk (1858-1945), na obra em três volumes, Die Alpen im Eiszeitalter (Os Alpes na Idade do Gelo), editada em 1909. Nesse trabalho, admitiram a existência de quatro períodos glaciários que designaram, do mais antigo para o mais recente, por Gunz, Mindel, Riss e Würm. Do outro lado do oceano, o norte-americano Thomas Chrowder Chamberlin (1843-1928), geólogo e professor de geologia , fundador do Journal of Geology, reconheceu, nos depósitos glaciários (moreias) que cobrem parte do território do estado, outras tantas glaciações pleistocénicas, a que deu nomes ainda em uso: Nebraska, Kansas, Illinois e Wisconsin que, pela mesma ordem, correspondem às glaciações alpinas.
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| Vale glaciário do Zêzere (Portuga) |
Distingue-se uma moreia basal ou de fundo (que se acumula e desloca na base ou no fundo da língua glaciária); uma moreia dorsal ou mediana (acumulada longitudinalmente, como uma dorsal, na língua glaciária); uma moreia lateral (arrastado junto às duas margens da língua glaciária; uma moreia interna (dispersa no interior da língua glaciária) e uma moreia frontal (acumulada e empurrada na frente da língua glaciária). Por fusão e recuo do gelo, esta moreia pode constituir uma barragem natural e criar um lago a montante. Os tilitos são antigas moreias consolidadas.
Galopim de Carvalho
LIVROS DE OUTUBRO DA GRADIVA
Novidades que a Gradiva publicará durante o mês de Outubro:
«Trata-se de um esforço sério, melhor descrito como corajoso, reflectido, informado, e tão livre de preconceitos quanto possível, atendendo ao tema. Os resultados são surpreendentes e merecem atenção.» - ANTÓNIO DAMÁSIO
O
autor sustenta que o acaso é incapaz de realizar tanto o universo como a
vida e defende a tese do universo enquanto jogo de computador.
«Fora de Colecção», n.º 405
Dois
objectivos: ouvir os doentes e ajudar a população em geral a entender o
cancro hereditário. Se enfrentar um diagnóstico de cancro é uma
experiência difícil, adicionar-lhe o processo de saber se esse cancro é
hereditário pode ser devastador.
Um livro sensível, com a autoridade reconhecida do Instituto Português de Oncologia.
«Fora de Colecção», n.º 406, 160 pp.
Contrariando
a ideia feita sobre a personalidade e a obra do homem e do político,
este livro, ancorado numa sólida base documental, revela um Pina Manique
visionário e idealista, que concebeu e implementou vários projectos
utópicos no país que éramos, legando ao futuro a preocupação com os
problemas de saúde pública e com a miséria das populações, que assumiu
como uma questão da governação.
«Fora de Colecção», n.º 403, 484 pp.
Os livros estarão disponíveis para venda a partir do dia 23 de Outubro.
Emigrem, enquanto é tempo!
Texto recebido de Augusto Küttner de Magalhães:
Emigrem, dado que ninguém cá dentro tem sequer explicações, quanto mais soluções, para o presente e para o futuro, e dado que os poucos que as possam ter, como não estão nem directa nem indirectamente ligados aos permanentemente “instalados”, ou são mandados calar ou nem chegam a falar.
Será
este o discurso de fim de percurso – que é afinal o que nos está a acontecer -
que teremos que passar a ouvir, e por certo, também, a repetir : Emigrem,
enquanto é tempo! Emigrem
enquanto têm idade de o conseguir fazer, de arranjar trabalho “lá
fora”, que isto “aqui dentro”, vai em declínio continuado.
Emigrem, dado que ninguém cá dentro tem sequer explicações, quanto mais soluções, para o presente e para o futuro, e dado que os poucos que as possam ter, como não estão nem directa nem indirectamente ligados aos permanentemente “instalados”, ou são mandados calar ou nem chegam a falar.
Emigrem
dado que os políticos, todos, todos do nosso País, não querem
desinstalar-se das governações e das oposições onde estão instalados, não querem abdicar das suas mordomias e
regalias, pelo que nada vai melhorar. Para manterem o
que têm, irão piorando o pouco que nós ainda temos.
Emigrem
dado que o País está a enlouquecer - a previsão é que em 2040 quase
metade da população que cá estiver está louca e evitem fazer parte dos que lá vão chegar.
Emigrem
para não terem que ver os vossos pais, avós, e restantes familiares
mais velhos, sem alternativas, sem comida, sem aquecimento, sem futuro. Sem nada.
Emigrem
antes de terem 60 anos, dado que, a partir dessa idade, as perspectivas se acabam: qualquer
oportunidade, por mais pequena que seja, deixou
completamente de existir.
Emigrem, enquanto é tempo!
Augusto Küttner de Magalhães
ASTRONOMIA Q&A
O astrónomo amador Guilherme Almeida chama a atenção para este portal sobre perguntas e respostas de Astronomia:
Conhecem o portal "Astronomia - Perguntas e
Respostas" ( Astronomia Q&A
) ?
Está em: http://astronomia.galactica.pt/
Podem
inscrever-se e colocar lá as vossas perguntas. E haverá
respostas...
PORTUGUESES NA AUSTRÁLIA
O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra e o Diretor da
Imprensa da Universidade de Coimbra têm o prazer de convidar V. Ex.ª
para o lançamento da obra Portugueses na Austrália - as primeiras viagens com coordenação de Carlota Simões e Francisco Contente Domingues.
A sessão terá lugar no dia 22 de Outubro, às 17.00, no Museu da Ciência, estando a apresentação a cargo do Professor João Marinho dos Santos.
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
Indisciplina na escola
Meu Prefácio (adaptado) ao livro Indisciplina na escola, de Dorothy L. Espelage e João Lopes, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Compreende-se que o leitor, especialista ou leigo em matéria de pedagogia, que contacte com este livro se interrogue acerca do sentido de mais um título sobre uma temática que desencadeou tantos outros. Terá, pois, de vislumbrar uma boa razão para iniciar a sua leitura. Será que a encontra nas páginas que se seguem? Estamos em crer que sim e explicamos porquê.
A indisciplina escolar, “tão antiga como a própria escola e tão inevitável como ela” (Estrela, 1992, 11), tem polarizado a atenção de inúmeros investigadores ocidentais de várias áreas disciplinares – sociologia, psicologia, educação –, os quais, sobretudo depois da segunda metade do século XX, vêm explorando uma multiplicidade de dimensões que se suspeita potenciarem os comportamentos desajustados dos alunos, nomeadamente os que se manifestam em sala de aula. Referimo-nos a dimensões de natureza política, social, relacional e individual, que se prendem, por exemplo, com o ambiente escolar, familiar e de pares com a maturação e o temperamento.
O estudo dessas dimensões tem contemplado – sendo certo que nem sempre o faz – a ligação dos referidos comportamentos à aprendizagem, mais concretamente, à perturbação que podem causar a este nível: os alunos indisciplinados, além de não se regerem por regras básicas que lhes permitam estar de modo adequado em contextos de ensino formal, dificilmente seguem e consolidam raciocínios que conduzam às aquisições disciplinares; por seu lado, os alunos com um comportamento adequado sofrem este mesmo tipo de efeitos, com a agravante de poderem tornar-se vítimas directas dos primeiros.
A direcção heurística que se destaca é, pois, em geral, no sentido da implicação da (in)disciplina dos alunos – a causa – na sua aprendizagem – a consequência. Apesar de válida, esta direcção deixa na penumbra a que lhe é complementar e que tem validade equivalente: a implicação da aprendizagem – a causa – na (in)disciplina – a consequência.
Isto significa que têm sido menos escrutinadas as medidas que certas escolas adoptam e o correspondente esforço dos seus professores para levarem os alunos, desde o início de escolaridade, a conhecerem, compreenderem e integrarem regras de conduta, a dominarem conteúdos disciplinares relevantes e a desenvolverem capacidades cognitivas que lhes permitam encarar as aprendizagens, progressivamente mais exigentes, como desafios.
Esse enviesamento da investigação sobre os comportamentos indesejados dos alunos (centrada na indisciplina, descuidando a disciplina) não pode deixar de conduzir a percepção dos diversos agentes educativos (a indisciplina vista como problema que impede o sucesso na aprendizagem e não como decorrente do insucesso da aprendizagem) e, em sequência, as medidas que prevêem para lhes fazer face (essencialmente de carácter remediativo, negligenciando as de carácter preventivo, com destaque para a organização do ensino que, de uma forma intelectualmente estimulante, seja capaz de garantir a aprendizagem e a disciplina).
Ora, é neste equilíbrio entre a aprendizagem e a disciplina, cuja manutenção se afigura, em grande medida, da responsabilidade das escolas e dos professores, que urge laborar, sob pena de os comportamentos desadequados dos alunos evoluírem para formas várias de violência, com resultados académicos devastadores.
O livro que a Fundação Francisco Manuel dos Santos agora publica na colecção Questões-chave da Educação, dando a conhecer a um público alargado o essencial de uma conferência com o mesmo título, foca precisamente a problemática que acabámos de enunciar. Nos dois textos que o concretizam, o referido equilíbrio é aflorado e trabalhado com recurso a dados de pesquisa actual.
O texto Prevenir a violência juvenil e o bullying através de programas e modelos de prevenção escolar sócio-emocionais, da lavra de Dorothy L. Espelage, professora da Universidade de Illinois, incide nas manifestações agravadas da indisciplina, que podem assumir diversas formas de violência, com implicações devastadoras na aprendizagem. A autora destaca a necessidade de se recorrer a programas que envolvam famílias, comunidades e escolas e se centrem no envolvimento académico e no desenvolvimento de competências de teor social e emocional, capazes de beneficiar percepções, expectativas e desempenhos traduzidos na empatia, na comunicação, na decisão, na resolução de problemas, no esforço. Em sequência, apresenta e analisa vários programas dessa índole, cujo índice de eficácia se tem revelado muito satisfatório, tanto na prevenção como na redução dessas formas de violência, beneficiando também as aprendizagens disciplinares dos alunos. Espelage alerta, ainda, para um dado de suma importância, recorrente, aliás, em estudos dignos de crédito: os efeitos da intervenção especializada são tanto mais positivos, quanto mais precoce essa intervenção for; correlativamente à medida que a adolescência avança, a sua eficácia dilui-se.
João A. Lopes, professor de Psicologia da Universidade do Minho, no seu texto, a que deu o título A indisciplina em sala de aula, após expor uma síntese da investigação mais relevante sobre o assunto, discute a perspectiva que enunciámos, sem, no entanto, a considerar exclusiva do problema: “continua a não ser fácil para os agentes educativos acreditarem que uma causa tão próxima e até tão óbvia como o insucesso académico possa ter alguma importância na configuração da indisciplina (…) consequências do insucesso académico do ponto de vista disciplinar são ainda relevantes pelo seu carácter duradouro e mutuamente reforçador. À medida que o tempo passa, os alunos com dificuldades académicas têm cada vez maiores problemas em aceder ao currículo (por falta de bases), o que potencia os maus comportamentos, os quais, por seu turno, inibem a centração nas tarefas académicas. Daqui resulta uma espiral negativa da qual é muito difícil o sujeito libertar-se”.
Ambos os textos fazem destacam a necessidade de um redireccionamento das representações do papel da escola e, muito particularmente, e da acção do professor, começando pela afirmação do seu inalienável dever de ensinar, tal como Savater (1997) e Quintana Cabanas (2005) fazem notar.
Além disso, veiculam uma mensagem de consolidação da pedagogia como disciplina científica. Continuando a abordagem de temas tão difíceis como este que ocupa as páginas que se seguem, a depender de medidas políticas avulsas e de opiniões, são os alunos que perdem em termos de aprendizagem e os professores que se vêem impedidos de ensinar como aspiraram. Isso deve fazer pensar todos aqueles que, directa ou indirectamente, estão ligados ao sistema escolar, pois a verdade é que a indisciplina “produz efeitos negativos em relação à socialização e aproveitamento escolar dos alunos, produz igualmente efeitos negativos em relação aos docentes. Embora menos evidentes e imediatos, esses efeitos não são menos nocivos” (Estrela, 1992, 97).
Referências:
Carvalho, R. (1996). Humanidades e ciências é tudo a mesma coisa. Público de 24 de Novembro, 2-4.
Estrela, M. T. (1992). Relação pedagógica, disciplina e indisciplina na aula. Porto, Porto Editora.
Savater, F. (1997). O valor de educar. Lisboa: Editorial Presença.
Quintana Cabanas, J. M. (2005). Crítica pedagógica de los sistemas educativos occidentales. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, 13 (46), 55-66.
“Se um aluno estiver lá numa carteira qualquer, levantando
um braço, disser um disparate e o professor começar a ralhar
com ele isso não dá resultado. O professor (…) deve cha-
mar a atenção para o que devem fazer, o que convém fazer.”
Rómulo de Carvalho, 1996, 3.
Compreende-se que o leitor, especialista ou leigo em matéria de pedagogia, que contacte com este livro se interrogue acerca do sentido de mais um título sobre uma temática que desencadeou tantos outros. Terá, pois, de vislumbrar uma boa razão para iniciar a sua leitura. Será que a encontra nas páginas que se seguem? Estamos em crer que sim e explicamos porquê.
A indisciplina escolar, “tão antiga como a própria escola e tão inevitável como ela” (Estrela, 1992, 11), tem polarizado a atenção de inúmeros investigadores ocidentais de várias áreas disciplinares – sociologia, psicologia, educação –, os quais, sobretudo depois da segunda metade do século XX, vêm explorando uma multiplicidade de dimensões que se suspeita potenciarem os comportamentos desajustados dos alunos, nomeadamente os que se manifestam em sala de aula. Referimo-nos a dimensões de natureza política, social, relacional e individual, que se prendem, por exemplo, com o ambiente escolar, familiar e de pares com a maturação e o temperamento.
O estudo dessas dimensões tem contemplado – sendo certo que nem sempre o faz – a ligação dos referidos comportamentos à aprendizagem, mais concretamente, à perturbação que podem causar a este nível: os alunos indisciplinados, além de não se regerem por regras básicas que lhes permitam estar de modo adequado em contextos de ensino formal, dificilmente seguem e consolidam raciocínios que conduzam às aquisições disciplinares; por seu lado, os alunos com um comportamento adequado sofrem este mesmo tipo de efeitos, com a agravante de poderem tornar-se vítimas directas dos primeiros.
A direcção heurística que se destaca é, pois, em geral, no sentido da implicação da (in)disciplina dos alunos – a causa – na sua aprendizagem – a consequência. Apesar de válida, esta direcção deixa na penumbra a que lhe é complementar e que tem validade equivalente: a implicação da aprendizagem – a causa – na (in)disciplina – a consequência.
Isto significa que têm sido menos escrutinadas as medidas que certas escolas adoptam e o correspondente esforço dos seus professores para levarem os alunos, desde o início de escolaridade, a conhecerem, compreenderem e integrarem regras de conduta, a dominarem conteúdos disciplinares relevantes e a desenvolverem capacidades cognitivas que lhes permitam encarar as aprendizagens, progressivamente mais exigentes, como desafios.
Esse enviesamento da investigação sobre os comportamentos indesejados dos alunos (centrada na indisciplina, descuidando a disciplina) não pode deixar de conduzir a percepção dos diversos agentes educativos (a indisciplina vista como problema que impede o sucesso na aprendizagem e não como decorrente do insucesso da aprendizagem) e, em sequência, as medidas que prevêem para lhes fazer face (essencialmente de carácter remediativo, negligenciando as de carácter preventivo, com destaque para a organização do ensino que, de uma forma intelectualmente estimulante, seja capaz de garantir a aprendizagem e a disciplina).
Ora, é neste equilíbrio entre a aprendizagem e a disciplina, cuja manutenção se afigura, em grande medida, da responsabilidade das escolas e dos professores, que urge laborar, sob pena de os comportamentos desadequados dos alunos evoluírem para formas várias de violência, com resultados académicos devastadores.
O livro que a Fundação Francisco Manuel dos Santos agora publica na colecção Questões-chave da Educação, dando a conhecer a um público alargado o essencial de uma conferência com o mesmo título, foca precisamente a problemática que acabámos de enunciar. Nos dois textos que o concretizam, o referido equilíbrio é aflorado e trabalhado com recurso a dados de pesquisa actual.
O texto Prevenir a violência juvenil e o bullying através de programas e modelos de prevenção escolar sócio-emocionais, da lavra de Dorothy L. Espelage, professora da Universidade de Illinois, incide nas manifestações agravadas da indisciplina, que podem assumir diversas formas de violência, com implicações devastadoras na aprendizagem. A autora destaca a necessidade de se recorrer a programas que envolvam famílias, comunidades e escolas e se centrem no envolvimento académico e no desenvolvimento de competências de teor social e emocional, capazes de beneficiar percepções, expectativas e desempenhos traduzidos na empatia, na comunicação, na decisão, na resolução de problemas, no esforço. Em sequência, apresenta e analisa vários programas dessa índole, cujo índice de eficácia se tem revelado muito satisfatório, tanto na prevenção como na redução dessas formas de violência, beneficiando também as aprendizagens disciplinares dos alunos. Espelage alerta, ainda, para um dado de suma importância, recorrente, aliás, em estudos dignos de crédito: os efeitos da intervenção especializada são tanto mais positivos, quanto mais precoce essa intervenção for; correlativamente à medida que a adolescência avança, a sua eficácia dilui-se.
João A. Lopes, professor de Psicologia da Universidade do Minho, no seu texto, a que deu o título A indisciplina em sala de aula, após expor uma síntese da investigação mais relevante sobre o assunto, discute a perspectiva que enunciámos, sem, no entanto, a considerar exclusiva do problema: “continua a não ser fácil para os agentes educativos acreditarem que uma causa tão próxima e até tão óbvia como o insucesso académico possa ter alguma importância na configuração da indisciplina (…) consequências do insucesso académico do ponto de vista disciplinar são ainda relevantes pelo seu carácter duradouro e mutuamente reforçador. À medida que o tempo passa, os alunos com dificuldades académicas têm cada vez maiores problemas em aceder ao currículo (por falta de bases), o que potencia os maus comportamentos, os quais, por seu turno, inibem a centração nas tarefas académicas. Daqui resulta uma espiral negativa da qual é muito difícil o sujeito libertar-se”.
Ambos os textos fazem destacam a necessidade de um redireccionamento das representações do papel da escola e, muito particularmente, e da acção do professor, começando pela afirmação do seu inalienável dever de ensinar, tal como Savater (1997) e Quintana Cabanas (2005) fazem notar.
Além disso, veiculam uma mensagem de consolidação da pedagogia como disciplina científica. Continuando a abordagem de temas tão difíceis como este que ocupa as páginas que se seguem, a depender de medidas políticas avulsas e de opiniões, são os alunos que perdem em termos de aprendizagem e os professores que se vêem impedidos de ensinar como aspiraram. Isso deve fazer pensar todos aqueles que, directa ou indirectamente, estão ligados ao sistema escolar, pois a verdade é que a indisciplina “produz efeitos negativos em relação à socialização e aproveitamento escolar dos alunos, produz igualmente efeitos negativos em relação aos docentes. Embora menos evidentes e imediatos, esses efeitos não são menos nocivos” (Estrela, 1992, 97).
Referências:
Carvalho, R. (1996). Humanidades e ciências é tudo a mesma coisa. Público de 24 de Novembro, 2-4.
Estrela, M. T. (1992). Relação pedagógica, disciplina e indisciplina na aula. Porto, Porto Editora.
Savater, F. (1997). O valor de educar. Lisboa: Editorial Presença.
Quintana Cabanas, J. M. (2005). Crítica pedagógica de los sistemas educativos occidentales. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, 13 (46), 55-66.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
A LUA DO PORTO
Que mais receia no próximo Orçamento de Estado?
Minha resposta à questão do JN, dada anteontem (antes do Orçamento do Estado ser conhecido) e publicada ontem:
Que aperte ainda mais o rolo compressor da ciência e da
educação. Os cientistas e professores estão revoltados por verem essas áreas, que são um investimento vital para o país, sumir-se em cada orçamento. Basta de tanto
apertar!
O FIM DA LEGISLATURA
Com o Orçamento que anunciou, que provavelmente vai passar na Assembleia da República dada a maioria existente e a falta de independência dos deputados, o governo acabou. Assinou a sua própria sentença de morte. A tensão social vai-se agravar, em especial na classe média, alvo maior deste Orçamento. A morte anunciada poderá ser às mãos do Tribunal Constitucional, que tem mais do que matéria para intervir e deverá fazê-lo, ou às mãos do Presidente da República, que é co-responsável pela situação actual mas poderá ainda emendar a mão. A coligação poder-se-á também desmanchar espontaneamente, colada como está com cuspo: é patética dupla formada pelo ministro das Relações com a Troika e pela ministra das Finanças, com o primeiro a tentar passar por entre as gotas de chuva e a segunda a mostrar slides com uma conversa técnico-burocrática.
A solução no quadro da democracia são eleições. Não temos, de momento, outro remédio que não eleições antecipadas. Infelizmente, o principal partido da oposição não está preparado para governar, pelo menos com o actual líder. Tal como o chefe do governo, também ele já mostrou ser incapaz de propor uma saída para o país. O primeiro-ministro ainda em funções não fazia ideia nenhuma do rumo a tomar. Actuou de um modo atabalhoado e infeliz, procurando apenas satisfazer a troika. Mas o líder da oposição quer o quê? E que maioria tem para querer alguma coisa? Será pedir muito eleições com outros lideres?
A solução no quadro da democracia são eleições. Não temos, de momento, outro remédio que não eleições antecipadas. Infelizmente, o principal partido da oposição não está preparado para governar, pelo menos com o actual líder. Tal como o chefe do governo, também ele já mostrou ser incapaz de propor uma saída para o país. O primeiro-ministro ainda em funções não fazia ideia nenhuma do rumo a tomar. Actuou de um modo atabalhoado e infeliz, procurando apenas satisfazer a troika. Mas o líder da oposição quer o quê? E que maioria tem para querer alguma coisa? Será pedir muito eleições com outros lideres?
Gatos e Homens
No filme L`Atalante de Jean Vigo, a cozinha e o quarto, dentro
do navio, do cómico, e ímpar e femeeiro Le père Jules (Michel Simon), está
também ela cheia de gatos, e ele diverte-se a afagá-los como se fossem
mulheres.
Em mecânica quântica, a interpretação de Copenhaga irritou Erwin
Schrödinger e levou-o
a imaginar uma experiência mental, onde dentro de uma caixa lacrada estava um
gato e um gás venífluo que seria libertado assim que uma amostra de núcleos radioactivos, com um determinado tempo
de Meia-Vida, começasse a decair. Ao fim de algum tempo há 50:50 de
possibilidades de o gás se libertar. Ele põe-nos então duas questões: O
que acontece ao gato se a caixa permanecer encerrada, e o que acontece ao gato
se a abrirmos? A resposta à segunda questão é óbvia: ele está vivo ou morto
(colapso da função de onda); todavia, para a primeira questão, ele está vivo e
morto, em simultâneo; isto é o paradoxo de Schrödinger. A perturbação de um sistema pela observação
ou medição é um dos pilares da interpretação de Copenhaga, os outros são a
dualidade da natureza da partícula-onda (a complementaridade) e a incerteza
numa medição quântica.
O poeta Vasco Graça Moura também convive com gatos. No seu poema
“variações sobre um gato”, um gatinho salta para o teclado do computador e
inadvertidamente escreve “ba”. Este facto deixa o poeta ensimesmado com a
possibilidade de no ecrã aparecer o nome “bach” e com a possibilidade do gatinho
ser sobredotado. É nesse momento que o retira do teclado para matar a curiosidade
do leitor, como quem diz basta ou chega.
Uma das novelas que mais gosto de John Steinbeck é Ratos e
Homens. Aqui, o autor compara os homens apanhados pela grande depressão,
vagueando de quinta em quinta, a ratos, mas fá-lo depreciativamente; no final, ele
deixa ao leitor a sentença para um homem deficiente e incapaz de controlar as
suas emoções, que acaba de assassinar acidentalmente uma mulher casada com o filho de um proprietário.
Gastos e de rastos, caminhamos, vamos, sonhamos, lemos….
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Ainda os cortes cegos nas reformas da CGA e o constitucionalista Jorge Miranda
“Tudo o que sucede, sucede por alguma razão”
(Gabriel Garcia Marquez).
Posto isto, vou àquilo que tenho como sendo o cerne da questão do referido comentário: haver muita incompetência de quem “queimou as pestanas” durante toda a vida e, em contrapartida, sobressair a “natural vocação para a prática da docência”, tornando, ipso facto, desnecessário que se queimem as pestanas “para um exercício honesto e profícuo desta actividade”.Em acordo parcial com Gustav e Le Bon quando nos adverte, in “Les opinions et les Croyances”, que “grande número de políticos ou de universitários, carregados de diplomas, possuem uma mentalidade de bárbaros e não podem, portanto, ter por guias nas vida senão uma alma de bárbaros”, aceito que nem sempre os diplomas universitários são aval de uma competência sem mácula. Mas daí extrapolar esta opinião como uma verdade indiscutível parece-me deveras perigoso por nos aproximar de uma situação em que os pais, em face do tempo e dos costumes, e perante uma possível vocação para a docência, incitem os seus rebentos: “Meu filho, se queres ser alguém na vida não queimes as pestanas”. Inscreve-te num sindicado politicamente forte que te faça subir na vida sem esforço!
Aliás, se reparar, e reparou pela certa, no meu post - “ Cortes cegos nas reformas da CGA?”- referia-me ao carreirismo de docentes , habilitados com o antigos cursos médios (v.g., diplomas das antigas escolas do magistério primário) que com a muleta sindical, em que se ampararam, outrossim, alguns dos respectivos dirigentes, em meia dúzia de meses em passagem meteórica por cursos de escolas privadas, ou mesmo públicas, de duvidosa qualidade, se reformaram (ou venham a reformar)no último escalão da carreira docente ombreando com licenciados de raiz.
Antes de responder ao comentário do leitor Fernando Lobo, insito no meu post
“Cortes cegos nas reformas da CGA?” ( 07/10/2013), duas anotações
prévias:
1.ª - O facto deste comentário ter sido publicado
uma semana depois do meu post fê-lo perder actualidade (daqui eu obrigar-me a transcrevê-lo verbo pro verbo).
2.ª - Dando de barato ter havido um lapsus
calami neste comentário de Fernando Lobo, ao escrever a palavra “concuspiscência”
(sic.) em vez de concupiscência, permanece, todavia, em mim, a dúvida sobre o significado por ele pretendido
atribuir-lhe. Significado de natureza filosófica, teológica ou, mais terra-a-
terra, de ganância por bens materiais? Mas adiante!
Assim, escreveu o leitor Fernando Lobo no seu comentário:
“Há muita incompetência que
"queimou as pestanas" durante toda a vida - e "conseguiu"
manter-se nessa atávica incompetência. Assim como há quem, sendo detentor de
natural vocação para a prática da docência, não tenha sentido a necessidade de
queimar as ditas para um exercício honesto e profícuo da sua actividade. Ou
não?Enquanto se generalizarem concepções onde o subjectividade domine, o resultado
apontará sempre em nosso benefício - mas a concuspiscência também”.Posto isto, vou àquilo que tenho como sendo o cerne da questão do referido comentário: haver muita incompetência de quem “queimou as pestanas” durante toda a vida e, em contrapartida, sobressair a “natural vocação para a prática da docência”, tornando, ipso facto, desnecessário que se queimem as pestanas “para um exercício honesto e profícuo desta actividade”.Em acordo parcial com Gustav e Le Bon quando nos adverte, in “Les opinions et les Croyances”, que “grande número de políticos ou de universitários, carregados de diplomas, possuem uma mentalidade de bárbaros e não podem, portanto, ter por guias nas vida senão uma alma de bárbaros”, aceito que nem sempre os diplomas universitários são aval de uma competência sem mácula. Mas daí extrapolar esta opinião como uma verdade indiscutível parece-me deveras perigoso por nos aproximar de uma situação em que os pais, em face do tempo e dos costumes, e perante uma possível vocação para a docência, incitem os seus rebentos: “Meu filho, se queres ser alguém na vida não queimes as pestanas”. Inscreve-te num sindicado politicamente forte que te faça subir na vida sem esforço!
Aliás, se reparar, e reparou pela certa, no meu post - “ Cortes cegos nas reformas da CGA?”- referia-me ao carreirismo de docentes , habilitados com o antigos cursos médios (v.g., diplomas das antigas escolas do magistério primário) que com a muleta sindical, em que se ampararam, outrossim, alguns dos respectivos dirigentes, em meia dúzia de meses em passagem meteórica por cursos de escolas privadas, ou mesmo públicas, de duvidosa qualidade, se reformaram (ou venham a reformar)no último escalão da carreira docente ombreando com licenciados de raiz.
Curiosamente, no dia a seguir à transcrição neste blogue, sob a forma de post, do meu artigo no Público, foi publicado no
mesmo jornal, um outro, intitulado
“Pensões de aposentação e solidariedade entre gerações”, da autoria do
constitucionalista e professor catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa Jorge
Miranda em que ele, em dado momento, escreve:
“É certo que alguns pensionistas não contribuíram, nas
suas carreiras ou nas funções que desempenharam, com montantes equivalentes aos
que agora pretendem receber. Mas isso apenas obrigaria o legislador a
distinguir, em vez de aplicar cegamente o mesmo regime a esses e aos demais, com
preterição da igualdade e da proporcionalidade. E pode tratar-se por igual quem
esteve 45 anos na função pública (dos quais três de serviço militar
obrigatório) até aos 70 anos e quem se aposentou ao fim de muitos menos anos?”
Cotejo este exemplo de Jorge Miranda
com este outro do dia anterior da minha autoria:
“Referencio um docente do 1.º ciclo
do básico que se tenha reformado com 52 anos de idade e trinta e dois de
serviço quando confrontado com um outro de diferente grau de ensino não
superior que se tenha reformado com o limite de idade de 70 anos e com quarenta
ou mais anos de serviço e que, devido a cortes cegos na respectiva reforma,
passe a ser vítima de igual desconto ao daquele”.
Confrontemos, ainda, estas duas situações com a situação de antigos professores de ensino primário que
voltaram ao liceu para tirarem o antigo 7.º ano para se matricularem e completarem cursos
universitários de natureza docente. Será moral aceitar como igual o que é
desigual numa espécie de honra ao demérito e em denegação do princípio do
Direito Romano: “Suum cuique”’. Esta a questão! Uma questão que merece ser
discutida até à exaustão para que a mediocridade, num país em que, segundo João Lobo Antunes, "a mediocridade é a lei”, se não faça praça forte da docência
em que se aceita tudo em nome do “reducionismo das técnicas pedagógicas” (para
utilizar uma expressão feliz de Shculman) menos
competência científica.
Pior do que
isso, será dar guarida generosa à “natural vocação para a prática da docência” em detrimento do
conhecimento científico em que se “queimam as pestanas” em noites insones
enquanto os “vocacionados” dormem o sono dos justos ou se divertem na noite até
altas horas da madrugada. Repiso, esta a questão!
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