quinta-feira, 27 de maio de 2010

O PESO DA IGNORÂNCIA

O escritor Pedro Rosa Mendes, cujo livro sobre Timor "Peregrinação de Enmanuel Jhesus" (D. Quixote) acaba de sair, deu uma entrevista ao "Semanário Económico", publicada em 22 de Maio último, da qual destaco o seguinte extracto:
P- A dificuldade de se libertar dessa condição de oprimido é onde reside a grande dificuldade de Timor crescer como país?

R- Acho que conheço relativamente bem as paragens do nosso ex-império e Timor é o espelho mais límpido e mais doloroso para ler Portugal.

P- Porquê?

R- Qual foi a persistência maior da nossa ditadura? A ignorância. Essa foi a parte da ditadura que não acabou em 25 de Abril de 74. Quem pensa o ciclo longo de Portugal, quem quiser ler Portugal não através da legislatura, ou do tempo actual, ou da conjuntura económica, ou das alianças de bloco central, etc., quem quiser ver mais longo constata que o maior problema e a coisa mais insidiosa da ditadura salazarista não era a PIDE, não foi o Tarrafal. Foi o facto de termos vivido tanto tempo debaixo de uma ditadura de ignorância que se perpetua.

O grande problema de Timor não foi a opressão política, não foi a perda demográfica. Em termos colectivos morreram mais de 200 mil timorenses. A maior persistência disso é, por um lado, a do trauma, que é muito operativo nas relações sociais, nas relações pessoais, na relação de trabalho. Há ali feridas que têm de ser saradas, mas por outro lado a construção e a viabilidade do novo estado esbarra com o peso do atraso, o peso da ignorância.

P- O que se pode fazer?

R- Educação, educação, educação. O que se passa em Timor é que colectivamente há uma sociedade sem capacidade de auto-crítica."

HUMOR - BIODIVERSIDADE 3

HUMOR - BIODIVERSIDADE 2

HUMOR - BIODIVERSIDADE 1

quarta-feira, 26 de maio de 2010

BIODIVERSIDADE EM HISTÓRIAS

Informação recebida pelo De Rerum Natura:

Biodiversidade portuguesa em contos e estórias, dia 27 de Maio, às 15 horas, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. A entrada é livre. Infomação completa aqui.

Já ouviu falar do BI da Pomba? E dos "11 burros [que] caem num estômago vazio"? Pois, na próxima quinta-feira, oa animais de Miranda são algumas das estrelas d'Os Bichos e pretexto para falar de Ecologia e Evolução.

"Este projecto consiste na recolha de histórias tradicionais relacionadas com zoologia, mas também com a identificação de conhecimentos empíricos de pesca, pastorícia, pecuária, que possam ter sido usados - ou ainda sejam usados - por pescadores, pastores ou produtores de gado nos seus diversos ofícios" (equipa do Museu da Ciência acerca d'Os Bichos).

Um dos momentos fortes é a difusão do "projecto meta-etnográfico" da autoria de Tiago Pereira. "11 burros caem num estômago vazio", filme com cerca de meia hora, que foi apresentado e premiado no DocLisboa 2006 (Prémio da Melhor Curta Metragem). "Todas as histórias e cantigas resultantes da vida de isolamento e trabalho dos habitantes do planalto mirandês, já por si mágico e miscigenador de tradições, funcionam como um escape e como uma forma de pensar única, reveladora da realidade humana deste povo", adianta a sinopse da curta metragem."O documentário descreve o trabalho e a importância que a Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino tem, relatando as histórias e cantigas de quem lida com burros de Miranda todos os dias", completa Nuno Martins, um dos responsáveis da associação AEPGA que vai também estar presente no encontro.

Ana Isabel Queiroz, docente do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT), fará no Museu uma leitura do 'BI da Pomba', texto de Ana Maria Freitas excerto da "primeira sistematização do bestiário e outros seres míticos constantes na tradição popular portuguesa", os 'Bilhetes de Identidade dos Bichos e Quejandos'. Composta por 32 obras publicadas pela 'Apenas Livros', sob a direcção de Ana Paula Guimarães, a colecção revela-nos "quem somos e ao que andamos"."Ana Paula Guimarães quer lançar agora um novo desafio: que os especialistas em Biodiversidade se aproximem destes textos e os comentem sob o olhar das Ciências Naturais. O que se pede é que reflictam sobre a raiz ecológica de usos, práticas e significados, e que contribuam, através da sua análise da literatura tradicional, para a construção de uma consciência ambiental suportada em factos e valores".

Que mitos e tabus envolvendo animais se esconderão nos objectos de madeira da colecção de Antropologia da Universidade de Coimbra? Maria do Rosário Martins e Maria Arminda Miranda (Museu da Ciência da UC) vão por outro lado contar "Histórias de bichos contadas na madeira".

Serão ainda apresentados durante a tarde o projecto BioDiversity4All, que tem por objectivo a criação de uma base de dados em que se possa descobrir como os 'bichos' são distribuídos pelo país, e a associação Palombar, que promove a revitalização dos pombais tradicionais.

As sessões são orientadas por Ana Paula Guimarães (Instituto de Estudos de Literatura Tradicional - IELT) e Carlota Simões (Museu da Ciência da UC). Serão por outro lado gravadas e editadas para publicação no site Memoria Media.Os parceiros d' Os Bichos voltam a encontrar-se a 12 de Novembro de 2010. Apresentarão desta vez, entre outros projectos, uma mostra de bichos (José Barbieri - Memoriamedia) e contos sobre o lobo (Francisco Fonseca - Grupo Lobo).

Programa: 27 de Maio de 2010 15H00

- Histórias de bichos contadas na madeira: por Maria do Rosário Martins e Maria Arminda Miranda (Museu da Ciência da Universidade de Coimbra)
- O Projecto BioDiversity4All: por Filipe Ribeiro, Luís Tiago Ferreira, Patrícia Tiago e Marcel Dix (BioDiversity4All)
- BI da Pomba, pretexto para falar de Ecologia e Evolução: por Ana Isabel Queiroz (IELT)11 burros caem num estômago vazio: documentário da autoria de Tiago Pereira (em parceria com a AEPGA)

CORJA MALDITA

Excerto do romance "Corja maldita" de Pedro Almeida Vieira (Sextante). o autor de "Nove Mil Passos", "O Profeta do Castigo Divino" e "A Mão Esquerda de Deus". que logo às 18h30 irei apresentar na Livraria Almedina Estádio de Coimbra (o livro versa a expulsão dos jesuítas no tempo do Marquês de Pombal mas o facto de ter um narrador diabólico permite-lhe incursões como esta pela nossa actualidade):
"E acreditando nas palavras de um sucessor do conde de Oeiras - homem com nominata de filósofo, versado em recitar aforismos e que trata, nos nossos dias, os portugueses como analectos - essa carruagem alegórica chamada Portugal tem ainda de compor, para este desiderato e neste pequeno pedaço de mundo, auto-estradas em todos os distritos - três serão precisas de Lisboa ao Porto -, mais duas linhas férreas de alta velocidade para Espanha, uma tríade de pranchas de betão e aço entre a capital e a margem sul, mais um novo aeroporto majestático em cima de chaparrais, mais um terminal de contentores para emparedar as vistas do Tejo, mais umas plataformas logísticas em terras agrícolas, muitos empreendimentos turísticos em cima de arribas para um certo dia soterrarem uns incautos banhistas, uma fartadela de centros comerciais, estádios de bola muitos, e outros folclores e demais obras fantasias, sinuosas e escorregadias, tudo destinado a prover de folguedos e acepipes o povoléu, que tudo há-de pagar, para alegria de empresários e partidários de comissões e alcavalas, mesmo sabendo-se que, à conta das muitas manigâncias, os tribunais vão ficando entupidos em rebuçados processos, mas convenientemente arquivados ou prescritos em tribunais superiores, quando não inferiores, gastando-se, as mais das vezes, sem glória, horas de escutas telefónicas que se destinam, mais tarde, a surgirem no Youtube."

terça-feira, 25 de maio de 2010

À LA RECHERCHE DU TEMPS PERDU (2)

Continuação do post anterior de Eugénio Lisboa:

Os grandes momentos de descoberta estavam sempre ligados – e assim ficaram na minha memória – a certos momentos ”históricos” ou mesmo históricos (sem aspas). O encontro com a Charlotte Brontë e com o Stendhal veio “marcado”: a Jane Eyre surgia ligeiramente estragada pela água, o Vermelho e Negro, em tradução do Marinho, mostrava-se claramente danificado pelo banho que tomara, em viagem marítima de Lisboa para Lourenço Marques. Em vez de irem para o refugo, os “rejects” vinham, pelas mãos do meu pai, parar às minhas. Eu associava romanticamente o estrago dos livros aos perigos da guerra, mas acho que exagerava. Devia ter só que ver com o mau tempo e com o mau resguardo da mercadoria no porão. A tais descuidos, em todo o caso, fiquei eu a dever o início mágico das minhas leituras e o meu amor vitalício pela Senhora de Rênal. É o que se chama faire un bon usage des maladies. O Pascal, que, nessa altura, ainda não conhecia (excepto o da Física...), ficaria satisfeito – a sua terapêutica, por uma vez, funcionara.

O Stendhal providenciava-me, de um golpe, dois benefícios inestimáveis: o meu amor pela Senhora de Rênal e a minha incomensurável aprendizagem do horror à pompa asinina e à ênfase balofa. O seu estilo despojado, acerado e voltaireano (mas cheio de nervo e emoção) tomou-me de assalto e comigo ficou para o resto da vida. Tem feito, com frequência, a minha felicidade (como Gide, volto constantemente a ele para aguçar o bico), e não lhe regateio a minha gratidão. (A Matilde de la Mole, por algumas semanas, perturbou-me os berlindes: caí na esparrela de achar que valia a pena esbanjar talento e manha a ver se a “dobrava”. Mas fartei-me e regressei, para sempre e contente, à Senhora de Rênal. Bem está o que bem acaba!).

Tudo isto em Lourenço Marques. E também a guerra. A nossa guerra, a guerra vista dali. Éramos quase todos pelos aliados, excepto um ou outro nazi que odiávamos meticulosamente e com intensidade. Líamos o Neptuno e A Guerra Ilustrada que íamos buscar aos escritórios dos agentes de navegação, muito em especial a Parry Leon & Hayhoe, onde, quase diariamente, pescávamos vários exemplares da mesma edição, que eu guardava em caixas de cartão debaixo da cama. Coleccionava Neptunos como outros coleccionam selos ou botões. Ali aprendi a amar Churchill, a quem fiquei para sempre fiel, apesar de ele ser conservador e eu não. A verdade é que nenhum cidadão que se preze poderá jamais trair os bons tempos do Neptuno. Ganhámos a guerra juntos e essas coisas, parecendo que não, ficam. Fiz a Guerra do Deserto no Scala, às matinées, e estive em Casablanca com a Ingrid e o Bogey, muito antes de os lisboetas poderem estar (há censuras e censuras e, em Lourenço Marques a liberdade era maior...). E, à fisgada, com os meus irmãos, rebentei a vitrine de uma loja de fotografia que pertencia a um tal Bonk, alemão, igualzinho ao Himler. Que era espião, era. E por isso pagou. Eis como ajudei os aliados a ganharem a segunda guerra mundial.

Os submarinos alemães torpedeavam navios aliados à entrada da baía, e os náufragos vinham para Lourenço Marques e, alguns, para a África do Sul; os submarinos aliados, por sua vez, torpedeavam barcos alemães e italianos, e os náufragos vinham também para Lourenço Marques. A malta, em vista disto, ia para a praia ou para o topo da rampa para cocar os longes da baía, para os lados da Inhaca. Fazíamos tanta força para ver, que acabávamos por ver os submarinos que, naquele momento, não estavam lá ou, estando, não se viam. Quando, muitos anos depois, vi miúdos a fazerem o mesmo num filme do Woody Allen, achei que era plágio. Quem tinha visto primeiro os submarinos que não estavam lá tínhamos sido nós, na Lourenço Marques que naquela altura estava lá e agora já só está dentro de mim. O Woody que se vá lixar.

A guerra, ou antes, o fim dela, trouxe-me outras coisas. Quando a Alemanha se rendeu incondicionalmente (como esta palavra brilhava com toda a sua força vingativa!), como o feriado não veio de seguida (o governador aguardava ordens de Lisboa), entrámos em greve, no liceu (a ordem de feriado veio logo a seguir). O dia de greve mais o feriado “oficial” fez dois dias, o que deu para uma data de cavaco. Foi nessa altura que, reunido subversivamente, em minha casa, com um colega, falámos de coisas deliciosamente proibidas: os movimentos democráticos em Portugal, o assassinato do Lorca e um sujeito francês que se chamava Sartre e era escritor e filósofo. Tudo aquilo em voz baixa, de catacumba, para “eles” não ouvirem. O Lorca ficou comigo e mais tarde, já em Lisboa, li-lhe as peças e vi a Bernarda Alba, com a Maria Barroso a fazer de Adela, a mesma Maria Barroso que encarnou a Benilde do Régio. Devo confessar que, ao ver a Maria Barroso na Benilde, a Senhora de Rênal esteve quase a correr o risco de ser substituída. Mas não tive coragem: essas coisas não se fazem e, ao fim e ao cabo, ela estava disposta a morrer por mim, beijando os filhos. São coisas que marcam.

O Sartre captou-me com alguns contos, um romance e algum teatro. Mas o filósofo é de se ir ali e já vir. Que trapalhada! O Bertie Russell é que tinha razão em dizer, apesar de ser amigo e, em certa fase, correligionário político dele: “Tudo aquilo não passa de extravagâncias linguísticas”. Bem sei que o Vergílio Ferreira chamava ao Sartre a “locomotiva de pensar”. Mas o Vergílio sempre teve aquele feitio e sempre confundiu pensar com uma certa forma oracular de ejacular palavras.

Ponho-me a falar e não sei que fio leva a história. Isto de começar com a Maria de Lourdes Cortez e acabar com o Vergílio Ferreira não augura nada de bom. E o pior é que esta crónica já vai comprida. E pouco ou nada pesquei do tempo perdido. Perdido? Enfim, fica para outra vez, se me der para aí.

Eugénio Lisboa

À LA RECHERCHE DU TEMPS PERDU (1)

Novo post convidado de Eugénio Lisboa:

Lourenço Marques ficou sendo, para sempre, a minha capital da memória. O termo deu-mo a Maria de Lourdes Cortez, que o pilhou, por sua vez, ao Lawrence Durrell.

Era uma cidadezinha muito bela e ajardinada, onde tudo ficava à mão, para efeitos de convívio, amizade e amor. Crescia-se ali como no paraíso.

Para os pouco abastados, como eu, uma parte da vida (a casa) ficava num extremo da 24 de Julho (a avenida mais comprida lá do burgo), e a outra parte (o liceu) quase no outro extremo, a desembocar na “rampa” que se atirava por ali abaixo até ao Pavilhão da Praia. Mesmo, mesmo no extremo, logo a seguir ao liceu, ficava um caramanchão e a casa do Reis Costa. O Reis Costa, para quem não saiba, era um personagem: homem cultíssimo, de olhar penetrante e caminheiro infatigável (nunca teve carro), fora amigo e companheiro de habitação do Hernâni Cidade e ensinava francês e português como quem trata por tu o Camões, o Anatole, o Oliveira Martins, o Gide, o Pessoa, o Proust ou o Régio. Esfuracava, com os olhos imensamente acesos, os nossos mistérios adolescentes e metia-nos nas mãos a Karenina e as Encruzilhadas de Deus. Amava instantaneamente uns e detestava, figadalmente e de modo igualmente abrupto, outros. Mas, se lhe pedíamos clemência para os colegas em desgraça, cedia com gesto magnânimo de imperador caprichoso mas dialogante.

No liceu, as aulas cheiravam deliciadamente a amendoim torrado. Tudo quanto ali aprendi ficou saborosamente contaminado por aquele bom cheiro e por aquele sabor que o mundo teve quando foi feito. Amendoim, o Júlio Verne, amendoim, o Salgari, amendoim, o Alexandre Herculano.

Aquele liceu era fora de série, e acho que nunca paguei publicamente a dívida que fiquei a ter para com ele. Foi ali que nasci um pouco e foi ali que fiz a minha segunda grande guerra. Mas já lá vou.

O importante era a praia. A praia estava ali connosco: mais do que à mão, estava quase dentro de nós. Junto ao Pavilhão, havia a “rede”, por causa dos tubarões, e uma ponte de onde se pescava (para fora da rede) e se saltava para dentro do recinto protegido pela rede. Uma grande parte das pessoas tomava banho dentro da rede, mais por causa da “prancha” que tinha sido construída dentro daquele recinto, para “saltos” e “mergulhos”, do que por causa dos tubarões. Porque a malta, a verdade diga-se, estava-se borrifando para os tubarões. Quantos e quantos dias não íamos antes para o Palmar, junto ao Peter’s ou à Costa do Sol, perfeitamente esquecidos dos tubarões que andavam aos cardumes a poucas centenas de metros, junto à Xefina. Porque não vinham ter connosco? Mistérios que deixo ao ardil dos biologistas.

Para a praia, levava quase sempre o Nero. Mal chegávamos ao topo da rampa, de onde se avistava a soberba baía, o Nero, de nervoso, parecia um árabe em transe de manifestação espontânea: perdia, literalmente, os pedais. Disseram-me que era por ser “cão de água”. Por mim, acho que o tanas. O que ele era, era laurentino de gema e pelava-se pela praia como a malta toda que ali tinha nascido.

Isto era nos anos quarenta e, a partir de certa altura, a praia ficou cheia de soldados do Infantaria 68 e, um pouco mais tarde, do Infantaria 10: tinham ido para ali “em missão de soberania”, para guardarem Moçambique dos alemães (ou dos ingleses?). Destes, dos magalas, lembro-me sobretudo que me faziam uma inveja do caneco porque alguns se punham a ler, refastelados na areia, como quem esquece, livros do Camilo, que me apeteciam, mas a que não tinha acesso. Ficou-me, desse tempo, uma tal fome do Amor de Perdição que, quando me apanhei em Lisboa, na universidade, atirei-me ao Camilo como gato a bofe. Mal acabava um, saía desesperado à procura de outro. Quando já não havia nas livrarias de Lisboa, comprava nas Caldas da Rainha ou onde calhasse. As grandes e intensas leituras são muitas vezes um puro ajuste de contas com fomes muito antigas: aqui têm uma teoria novinha em folha, que vos ofereço de borla, para eventual tese de doutoramento (que vai acabar por estragar a gracinha que tudo isto tem. Mas, enfim.)

Reparem que estou a recordar, como o Proust. Sobem-me à crista da memória momentos, imagens, rostos, instantes de felicidade, que até apetece gritar. As imagens são boas porque não traem a verdade dos momentos que já foram: ficam intactas, iguaizinhas ao que tinham sido naquele tempo. “O tempo”, dizia Proust, “que muda as pessoas, não altera a imagem que delas retivemos”. O quarto onde me rodeava de livros e onde, pela primeira vez, vi aparecer, ao portão, a Senhora de Rênal, esse quarto está, na minha memória, intacto, mas a casa onde havia o quarto desapareceu. Qual a realidade mais forte? A casa que já não existe ou o quarto que, em mim, ainda existe? A escolha, quanto a mim, é fácil. Matar o quarto era matar a Senhora de Rênal que em mim não morre, ou só morrerá quando eu morrer.

Sim, lia muito, lia interminavelmente, à balda, sem ordem nenhuma, ao sabor de um apetite voraz e querendo começar tudo ao mesmo tempo: mais olhos que barriga. Mais tarde percebi muito bem o que queria dizer o Salinger, ao afirmar que era perfeitamente iletrado, mas que tinha lido uma data de livros. Percebi mas não sei se concordei. Até porque não sei se alguma vez se leu de outra maneira ou se há outra maneira que dê tanto proveito.

Eugénio Lisboa

(Imagem nocturna de Lourenço Marques em fins da década de 70).

Os ladrões genéticos

Há não muito tempo atrás houve uma corrida para sequenciar o genoma humano. Tal como a maioria das corridas foi desigual. De um lado um consórcio público internacional essencialmente britânico e norte-americano, mas que envolveu universidades e grupos de investigação do Japão, França, Alemanha, China, Índia, Canadá e Nova Zelândia. Este consórcio público, chamado Human Genome Project, foi inicialmente liderado por James Watson (o da estrutura do ADN em 1953) e começou a trabalhar a partir de 1990 para ler os três mil milhões de pares de bases contidos em 23 cromossomas. Na pista do lado, e partindo atrasada (apenas começou em 1998) uma empresa privada americana chamada Celera Genomics, liderada por um investigador e empreendedor chamado Craig Venter. Para a história fica que chegaram ao mesmo tempo à meta, com a publicação simultânea em 2000 de ambas as sequências rascunho nas revistas Science e Nature. O consórcio público fica muito mal nesta história da lebre e da tartaruga. Mas essa é uma história mal contada.

O consórcio público começou por desenvolver as metodologias para sequenciar o genoma humano num tempo útil e não ao longo de várias gerações. Essa tecnologia não existia em 1990: não se sabia bem como pegar num ADN tão grande e parti-lo em bocados complementares mas com pequenas sobreposições sem perder nada (pois não é possível sequenciar mais de 1000 bases de cada vez e lembremos que estamos a falar de um total de 3 000 0000 000 de bases), não existiam os programas de computador suficientemente fiáveis para ler as sobreposições de sequências de vários fragmentos e ordená-las de forma correcta e os aparelhos de sequenciação eram bem mais limitados. Foi preciso construir livrarias genéticas, ou seja porções de ADN que se sabe muito bem a que sítio do genoma é que pertencem. Para desenvolver estes métodos o consórcio público avançou em paralelo com a sequenciação de genomas mais pequenos, como o da mosca do vinagre. E isto permitiu desenvolver processos fiáveis e robustos que permitiram sequenciar a totalidade do genoma humano com um grande rigor.

A Celera Genomics entrou na corrida com um outro método, chamado Shotgun sequencing, ou método da caçadeira, que basicamente consiste em partir o ADN em bocados aleatórios, sequenciar o que se encontra e depois tentar a partir de sobreposições dos vários bocados identificar quais são contíguos e reconstruir a sequencia completa original usando programas de computador. Isto resulta bem para genomas pequenos, mas para o genoma humano não resulta tão bem: a Celera Genomics completou o genoma de Craig Venter (coisa pouco narcisista e egocêntrica, o genoma do consórcio público é de múltiplos dadores) usando a sequência do consórcio público para preencher os bocados que lhe faltavam.

A Celera Genomics também entrou na corrida com outras motivações: pretendia efectivamente patentear genes e condicionar o acesso à sequência. Acesso parcial gratuito a grupos de investigação sem fins lucrativos, mas o genoma completo seria a pagar ou mediante requisões e acordos de confidêncialidade. Numa outra fase queria "dar um avanço" de seis meses no conhecimento da sequência aos clientes pagantes, sobre o resto da comunidade científica. Claro que tudo isto é eticamente inaceitável. Patenteiam-se invenções, não o conhecimento. Há quem ache que a sequência do ADN humano é uma invenção divina, mas certamente não é uma invenção de Craig Venter.

Hoje a sequência do ADN humano é de livre acesso muito graças ao esforço do consórcio público que divulgava os resultados da sequenciação no final de cada dia, à medida que os ia obtendo, fazendo cair a sequência no domínio público.

Mas, para os media e generalidade do público, a história que ficou foi a de que a Celera Genomics fez em dois anos o mesmo que o consórcio público fez em dez, e que talvez tenha havido um desperdício de fundos públicos numa estrutura ineficiente quando comparada com a agilidade de uma única empresa privada.

Mas Craig Venter não desistiu de roubar património genético, usando as chamadas leis de propriedade intelectual. Nos anos seguintes, entre outras coisas perscrutou o fundo dos mares à procura de organismos desconhecidos com alguma utilidade para patentear. E agora surge com o progresso notável da vida artificial. E é verdadeiramente notável, reconheçamos: introduziu um material genético completamente sintético dentro de uma bactéria, que começou a expressá-lo e se transformou nessa outra bactéria sintética. Fazendo uma especulação de ficção científica, e tendo em conta a sequenciação recente do genoma do Neandertal, conceptualmente poderíamos pensar num Neandertal sintético a andar entre nós. Claro que há obstáculos técnicos grandes (as bactérias são seres unicelulares sem um compartimento para o material genético e têm um único cromossoma) e gritantes questões éticas, naturalmente.

Os media mais uma vez bateram palmas aos sucessos de Craig Venter. E este mais uma vez submeteu uma montanha de patentes. O que é bastante perigoso, porque o ADN sintético pode ter sido feito em laboratório, mas usando a sequência de uma série de genes que não foram inventados pelo Craig Venter e que existem em organismos naturais.

Há a ideia de que as patentes servem para proteger os inventores e criadores. Não servem. Servem para que as invenções inovadoras apenas possam ser exploradas por quem tenha um exército planetário de advogados para travar batalhas legais nos tribunais de todo o mundo. Por isso o mercado farmacêutico mundial está na mão de meia dúzia de empresas. Também há a ideia de que esta protecção das patentes estimula a inovação: isso é mais um mito ou uma convicção subjectiva do que um facto demonstrável. Há alternativas e limites às patentes.

E mesmo considerando as patentes como necessárias, o conhecimento não se protege, partilha-se (claro que há excepções bem conhecidas, nomeadamente no campo militar). Mas uma coisa é conhecimento fundamental, outra é uma aplicação tecnológica para produzir um bem ou serviço.

Quem pára a besta?

“A educação, objecto de tanto palavrório, passa moeda falsa: promete o mundo e não dá saber ou trabalho” (Vasco Pulido Valente).

Passado um século da implantação da República vigora neste país o reinado do facilitismo na aquisição de diplomas académicos.

Chegou-se ao ponto de criar condições de acesso ao ensino superior sem ter sido feito um percurso académico anterior completo ou satisfeito um exigente exame ad hoc, bastando para tanto um cartão do cidadão com uma data de nascimento que cumpra os 23 ou mais anos de idade. Ou seja, como escreveu, anos atrás, nestas colunas, o deputado do Partido Socialista, Vital Moreira, “a ideia de democratizar o ensino superior pela banalização do acesso e pela crescente degradação da sua qualidade não é somente um crime contra a própria ideia de ensino superior é também politicamente pouco honesta.”

A própria Universidade, bastião da cultura de um povo, foi tomada de assalto transigindo no seu papel como denunciou corajosamente Aníbal Pinto de Castro, professor jubilado de Letras da Universidade de Coimbra, dirigindo-se ao respectivo reitor Seabra Santos, numa cerimónia oficial: “Não destruam. Não cedam. Não tenham medo porque a Universidade não pode ser uma instituição de caridade. Para isso há os asilos e a Mitra. Não pode ser um hospital de alienados” (“Diário de Coimbra”, 27/11/2005).

Mas, ainda, mesmo num percurso académico “normal” nas camadas mais jovens dos nossos escolares não são criados hábitos de trabalho: passam sempre, e de qualquer forma, até ao 9.º ano de escolaridade. Em defesa deste oásis pedagógico, num deserto de reprovações, escrevem-se teses académicas que servem quer os desígnios dos ocupantes dos cadeirões da 5 de Outubro, quer os interesses de pais que não gostam de ver os seus filhos sem aproveitamento escolar, eufemismo de “chumbo”. Teses que embotam o próprio raciocínio de quem as defende por simples convicção ou grande dose de oportunismo, criando a miragem do sucesso escolar para toda a gente mesmo depois de António Guterres, então primeiro ministro de Portugal, ter tido a coragem e a honestidade de numa entrevista televisiva (23.Outubro.96) ter afirmado que “há alunos do 1.ºciclo do ensino básico que saem sem saber fazer contas”.

O reducionismo às técnicas pedagógicas na concepção da formação e da avaliação dos professores foi criticado por Schulman (1986) e secundado pelo sociólogo italiano Francesco Alberoni (2010) : “Na verdade, a pedagogia que nivela tudo por baixo no intuito de esbater as diferenças tem como consequência tornar ignorantes milhões de pessoas e privilegiar aqueles que podiam ir para a universidade e para escolas de excelência com professores respeitados e programas rigorosos; é por essa razão que há cada vez mais pessoas a quererem uma escola mais séria, mais rigorosa, com professores preparados e mais respeitados”.

Embora Alexandre Herculano tenha reconhecido que “das definições possíveis do homem, uma só é verdadeira: o homem é o animal que disputa”, denunciar a iliteracia torna-se incómodo num país habituado a deixar correr o marfim mesmo que estudos recentes lhe digam ser de 60% essa percentagem, como cita Guilherme Valente no seu artigo de opinião, intitulado “O princípio do fim do eduquês?”, publicado no jornal "Público" do passado dia 23.

Por isso, temo que a campanha dos que se assumem com corajosa e necessária teimosia publicamente contra este statu quo não seja compreendida ou encontre eco naqueles que não têm interesse em que ela seja compreendida ou dada por finda, como é reconhecido numa das interrogações finais do referido artigo: “ Quem pára a besta?”

Mas porque a voz do povo é a voz de Deus, em derradeira réstia de esperança que se cumpra, pelo menos, o aforisma de que “água mole em pedra dura…”

As Estrelas comem planetas?


O planeta WASP-12b está a ser literalmente devorado pela sua estrela (WASP-12 da constelação Auriga, colocada a cerca de 600 anos-luz da Terra), como demonstraram as leituras do Cosmic Origins Spectograph (COS) instalado no Hubble. A sua temperatura subiu até 2800ºF e o planeta adquiriu a forma de uma bola de rugby. O planeta, com cerca de 40% mais massa que Júpiter, está a libertar material para a estrela, sendo devorado aos poucos durante os próximos 10 milhões de anos.


Artigo original aqui.

:-)

O LEGO DA VIDA


Nova crónica de António Piedade, saída há pouco no "Diário de Coimbra":

Quando em 2001 a empresa Celera Genomics, liderada por J. Craig Venter, e o Consórcio Internacional do Projecto do Genoma Humano, liderado inicialmente por James Watson, divulgaram as suas cartografias do genoma do Homo sapiens sapiens, foi salientado por muitos cientistas que a tarefa hercúlea que acabara de ser concluída, era só o princípio de um dilúvio de dúvidas, novas questões, novos desafios insuspeitos, algo de genuinamente próprio da melhor ciência. Foi como se se tivesse fotografado, de dois ângulos ligeiramente diferentes, a pedra de Roseta: já se conseguiam “ver” todas as “letras” e a sequência por que estão dispostas.

Mas a sequenciação, em si própria, não respondeu imediatamente a questões como o que é que a sequência diz (faz), qual o seu papel na orquestra dos mecanismos celulares, qual a semântica da hiperligação existente entre frases em parágrafos (genes) e capítulos (cromossomas) diferentes e que aparentam estar envolvidos em instruções para uma tarefa particular. É que as instruções genómicas para a vida não são muito lineares. Verificamos inúmeros exemplos em que a decisão, para uma determinada característica, resulta da comunicação entre genes localizados em cromossomas distintos. Por outras palavras, o resultado da regulação e da interacção da informação inscrita nos cromossomas é muito diferente da soma das partes. A álgebra da vida parece precisar de outras operações para as quais ainda somos míopes (Newton resolveu a sua miopia desenvolvendo uma nova lente matemática para melhor descrever o movimento e a atracção dos corpos com massa!).

Ademais, há ainda a considerar, para a compreensão do funcionamento celular, a interacção de inúmeras moléculas, que banham e inundam as células, transportando ondas de ordens, informações vindas de outras células, muitas tendo origem e fim em órgãos diferentes (o cérebro a controlar o movimento dos músculos com que o leitor folheará esta página, por exemplo). Muita da habilidade molecular em dar sentido a estas comunicações químicas está inscrita nos genes. Mas também é resultado das propriedades físico-químicas da interacção entre as biomoléculas. O genoma foi-se “estabilizando” ao longo da evolução, de acordo com as propriedades implícitas da matéria que também o constrói.

Se pensarmos nestes blocos de biomoléculas, quer orgânicas, quer inorgânicas, como peças de Lego, talvez percebamos melhor que peças “iguais" podem cumprir perfeitamente a sua função, como parte do parapeito de uma janela ou da asa de um avião.

A natureza da vida rege-se por uma economia muito ajustada dos recursos disponíveis: quando algo funciona bem, utiliza-se para o maior número de funções e interacções em que funcione com significado e utilidade. Assim, com um número reduzido de peças, consegue-se uma biodiversidade espantosa e ajustada a um meio em permanente mudança. Logo, as peças, ou algo na forma como elas interagem, também têm de ser flexíveis para poderem funcionar em ambientes diferentes dos iniciais. Caso contrário, são dispensadas, ou melhor, recicladas e transformadas noutra peça potencial. É um pouco como se os encaixes entre as peças de Lego pudessem ser ligeiramente modificados com um custo mínimo, mas com um resultado determinante: a sobrevivência do todo celular.

Espreitar esta complexidade ilustra a dificuldade em recriarmos a vida em laboratório, a partir dos ácidos, das bases e algumas pitadas de sais. Mesmo já conhecendo muitas instruções genéticas, para muitas das funções celulares, montar a caixa celular a partir de uma sequência artificialmente justaposta de genes (longas sequências especificas das peças guanina, adenina, citosina e timina) continua a ser uma quimera desejada por muito boa gente, a trabalhar nesta odisseia há já alguns anos, como é o caso do Instituto J. Craig Venter, nos Estados Unidos.

Na edição da revista Science de 21 de Maio de 2010, uma equipa de investigadores liderada por Craig Venter acaba de publicar (aqui ) que conseguiu reconstituir artificialmente e pela primeira vez, uma bactéria, a partir de peças de lego bioquímicas.

Não, não se trata de um novo jogo de computador. Trata-se de bioengenharia laboriosa (15 anos e 40 milhões de dólares) e deslumbrante. O modelo utilizado foi o Mycoplasma mycoides, uma bactéria com mais de um milhão de pares de bases no seu único cromossoma circular. Dadas as implicações éticas e discussões filosóficas que qualquer nova tecnologia da vida trás consigo, a equipa de Venter, ironicamente, substituiu 14 genes que conferem patogenicidade (em cabras) ao M. mycoides, por frases codificadas na sequência de letras do ADN genómico com os nomes dos elementos da equipa de Venter, um sítio da Internet e várias citações famosas

Aparentemente, esta versão culta do M. mycoides é capaz de se dividir, uma das características da vida. Veremos se as frases introduzidas por Venter resistem a mutações deletérias e à implacável selecção natural.

António Piedade

segunda-feira, 24 de maio de 2010

LIVROS DE QUíMICA NA BIBLIOTECA JOANINA


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra relativa a uma mostra de livros de Química aí patentes:

O visitante da Biblioteca Joanina raramente tem possibilidade de saber que livros se encontram por detrás das lombadas ricamente decoradas e tomar conhecimento de quais são os assuntos tratados nestas obras. No que respeita à Química encontram-se nesta Biblioteca alguns dos livros mais marcantes da sua história e dos primórdios do seu ensino em Portugal. Deste riquíssimo conjunto de obras que nos permite entender melhor o início do ensino da química em Portugal seleccionámos algumas das que consideramos mais marcantes para a presente mostra bibliográfica.

O Sceptical Chymist de Robert Boyle (1627-1691) é um dos livros mais importantes da história da química, sendo muitas vezes associado ao nascimento da química moderna. A edição original em inglês datada de 1661 é muito rara. Na mostra encontra-se uma compilação de obras de Boyle que inclui uma edição em latim datada de 1680 contemporânea da segunda edição inglesa deste livro.

As ideias, em particular a teoria do flogístico, expressas no livro Fundamenta Chymiae Dogmatica de Georg Stahl (1660-1734), influenciaram a química durante quase um século; na presente exposição encontra-se um exemplar datado de 1723.

Os Fundamenta chemiae praelectionibus publicis accomodata de Giovanni Scopoli (1723-1788) era o compêndio pelo qual Domingos Vandelli (1730-1816) ensinava enquanto não escrevia o livro de química que fazia parte do seu contrato com a Universidade. Trata-se de um livro da escola de Stahl, anterior às ideias de Lavoisier. O exemplar que pode ser visto na mostra é da primeira edição, datada de 1777.

Os Elementos de chimica e farmacia de Manuel Joaquim Henriques de Paiva (1752-1819) foram publicados em 1783 pela Academia das Ciências. Este livro é considerado o primeiro manual de química escrito em português, sendo em grande parte uma tradução anotada e adaptada do compêndio de Scopoli.

Os Elementos de Chimica de Vicente Coelho de Seabra (1764-1804), cujo primeiro volume saiu em 1788 são o primeiro livro moderno, no sentido das ideias de Lavoisier, escrito em Portugal. Esta obra é em muitos aspectos um livro inovador para a época, precedendo num ano a publicação do Traité élémentaire de chimie de Antoine-Laurent Lavoisier (1743-1794), cuja edição de 1805 se encontra na exposição. Infelizmente nem os Elementos de Chymica nem o próprio Vicente Seabra tiveram na época o impacto que mereciam.

Domingos Vandelli nunca chegou a escrever o compêndio de química. O seu sucessor, Tomé Rodrigues Sobral (1759-1829), ainda apresentou o plano de um livro pedagógico, mas aparentemente este também nunca foi concluído. O único livro de química que nos deixou Rodrigues Sobral é uma tradução datada de 1793 de um artigo da enciclopédia de Mr. de Morveau, o Tractado das Affinidades Chimicas, obra que ainda se insere na escola flogística.

Mesmo já existindo os livros de Henriques de Paiva e de Vicente Seabra, continuaram a ser adoptados como livros de ensino obras de autores estrangeiros; por exemplo uma tradução em castelhano do compêndio de Jean Antoine Chaptal (1756-1832), Elementos de química, cujo exemplar presente na exposição é datado de 1793.

Sérgio Rodrigues

Bibliografia

A. M. Amorim da Costa, Primórdios da Ciência Química em Portugal, Lisboa, ICLP, 1984.

A. M. Amorim da Costa, Thomé Rodrigues Sobral (1759-1829), a química ao serviço da comunidade, in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Lisboa, Academia das Ciências, 1986, vol 1, pp 373-401.

A. J. Andrade de Gouveia, Químico esclarecido luso-brasileiro, Vicente Seabra (1764-1804), in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Lisboa, Academia das Ciências, 1986, vol 1 , pp 8-35.

C. A. L. Filgueiras, As vicissitudes da ciência periférica: a vida e a obra de Manuel Joaquim Henriques de Paiva, Química Nova 14, 1991, 133.

ACABAR COM OS "RICOS" EM VEZ DE ACABAR COM OS "POBRES"


Novo texto de Guilherme Valente, na sequência do anterior e sobre o mesmo assunto - o estado a que chegou a educação nacional (na imagem o castelo de Leiria, num quadro de Rute Guerreiro):

O meu Pai, advogado em Leiria, encarnou o melhor do espírito da República, de que foi militante intrépido. Um liberal social - expressão que encontro para o designar, pelo que dele ainda pude conhecer e, sobretudo, pelo que dele me contaram --, combateu pela democracia e a igualdade social, sofreu, foi preso e deportado. Nunca confundiu as ideias com as pessoas que as defendiam e, por isso, teve o respeito dos seus adversários, alguns deles grandes amigos seus. Com a minha Mãe, pessoa humilde, quase sem instrução, mas de fina inteligência e fé, estiveram sempre ao lado dos mais desfavorecidos. Isso mesmo foi gratamente lembrado por Amigos meus recentemente num almoço na nossa Leiria.

Por ser quem era, o meu Pai colocou-me na escola de Santo Estêvão, a escola primária frequentada pela gente mais pobre da minha Terra. Nessa escola confirmei o que aprendi com o meu Pai, com as suas palavras e o exemplo da sua vida: a inteligência, a generosidade, a lealdade, o sentido de justiça, o espírito de aventura, o sonho, não são qualidades sociais, são qualidades humanas.

Muitos dos meus colegas, se não a maioria, iam descalços para a escola.

Um dia, ao fim da tarde, quando brincava com alguns deles na pequena quinta onde nasci, o meu Pai chegou e viu, descoberta e prazer de miúdo, que eu me tinha descalçado também. À noite, tranquilamente, disse-me: «O que tens de fazer não é tirar os sapatos, mas fazeres sempre tudo na tua vida para que toda gente possa andar calçada».

Se o leitor substituir «sapatos» por «conhecimento» compreenderá o que pode ser uma metáfora expressiva do crime que continua a ser cometido no nosso sistema educativo. Em vez de calçar todos os alunos, o eduquês, o Ministério, empenham-se em tirar os sapatos a todos.

E a verdade é que não conseguem acabar com os «ricos», que têm os meios que têm, porque há o ensino privado e o estrangeiro. O que conseguem é apenas tornar todos mais «pobres», muito particularmente, os que entram na escola sem nada. Não é óbvio?

(Para quem, tendo acompanhado o que escrevi, ainda não tenha percebido, estranhamente, o que designamos com a expressão, digo, rapidamente, que o eduquês é uma mistura de ideologia igualitarista -- reaccionária, geradora, afinal, como se sabe, da maior desigualdade - e teorias pedagógicas ditas «novas», mas velhíssimas, que frequentemente ocultam ou disfarçam uma grande ignorância e ausência de domínio do conhecimento e dos saberes que contam, que era suposto e é imperativo a escola transmitir e promover.)

Supostamente em nome da não discriminação de quem não tem acesso à cultura em casa, desvalorizam, reduzem até ao ridículo (ao trágico, na realidade; ver as aberrações lúcida e corajosamente divulgadas por Nuno Crato), suprimem a cultura, os saberes, o conhecimento que conta. Estupidificam para anular as diferenças, em vez de elevar todos, apoiando (como deviam, mas não sabem ou não querem fazer) os que apresentam mais dificuldades. Odeiam e impedem a escola e o ensino que revelaria as diferentes capacidades e vocações, procurando levá-las tão longe quanto se possa e queira.

Claro que o eduquês convém a muita gente, porque há sempre muita gente que prefere não fazer nada, não assumir responsabilidade nenhuma. Foi também por isto que o eduquês lavrou como um incêndio.

Cúmulo de delírio fanático, de estupidez que «mata». Que «mata» as pessoas e está a matar o País.

Guilherme Valente

HUMOR - A ESCOLA MODERNA 3

HUMOR - A ESCOLA MODERNA 2

HUMOR - A ESCOLA MODERNA 1

domingo, 23 de maio de 2010

O PRINCÍPIO DO FIM DO EDUQUÊS?

Texto de Guilherme Valente publicado no "Público" de hoje (versão ligeiramente ampliada):

Demoraram, mas são boas notícias! Afinal o doutor Daniel Sampaio (tem nome e respeito-o) também é um crítico do eduquês (ver Pública, 16/5/10). Apesar de se tratar, como escreve DS, de um grupo de intelectuais, cujo nome não refere, que «´sabem`tudo sobre a escola», da «pressa crítica» que diz terem, do seu «discurso pessimista», do «narcisismo solitário e redutor das suas opiniões», «de se considerarem os únicos que têm razão», DS partilha, afinal, críticas que fazem ao eduquês. E isso é que importante! E vão aparecer mais. Não é novo na História. Pressinto que no final irá restar apenas a doutora Ana Benavente. Um mérito dela, talvez. «Sê tu próprio», exortava-se na Grécia Clássica.

O resto do que DS escreve, sem conseguir iludir quem conheça o pensamento e a acção do tal grupo de intelectuais cujos nomes DS omite, é irrelevante e será, porventura, do foro das afecções que os psicólogos costumam resolver. Os médicos não estão imunes à doença.

Apenas umas breves notas sobre contradições e erros mais gritantes:

DS afirma estar com os professores, mas umas linhas antes atribuíra a responsabilidade da indisciplina às «hesitações dos docentes» (com amigos assim…). Porém, em breve também nisso irá concordar connosco: na forma, no grau, na generalização como se manifesta, a indisciplina é um produto do eduquês. É mesmo um instrumento ao serviço do seu projecto insensato. Uma táctica que também não é nova na História. Esta é, digamos, a «causa formal». A «causa eficiente» é a desvalorização do papel do professor, a sua desautorização, o seu desprestígio aos olhos dos alunos, dos pais e da sociedade, perpretados pelo Ministério e os seus «especialistas» Tudo ligado à desvalorização relativista do conhecimento e da sua transmissão, ao facilitismo, enfim.

Como pode haver disciplina se defendem e impõem que se aprenda a brincar? Se vêem a indisciplina e, por isso, a suscitam, como revelação desejável de traumas e ressentimentos sociais? A verdade é que o sentido do bem e do mal, a inteligência, o sentimento e o juízo de justiça, não são qualidades sociais ou de riqueza, são qualidades humanas, que os pobres também têm. As crianças e os jovens não são insectos, como o eduquês as trata.

Estar ao lado dos professores é promover as condições para o ensino de qualidade que os realiza e dignifica. Pergunte-se aos professores.

E mais: não se percebe se DS reprova ou não a tolice ou o expediente das «competências»; se acha bem a «escola exigente, organizada e geradora de conhecimento e de progresso» (transmissora de conhecimento, precise-se).

Fala ainda na «exigente burocracia ministerial» - está a louvar ou a criticar a burocracia? -- que «fez com que predominasse o pessimismo». Não se percebe aonde quer chegar. E -- fantástico, mesmo que seja tão tarde -- afirma que a «a escola deve garantir um mínimo de conhecimentos que possibilite aos jovens que não pretendem continuar a estudar a aprendizagem de um ofício que lhes permita um percurso de autonomia digna». Ora, os tais intelectuais «narcisistas» não se têm cansado de propor isso desde há muitos anos (DS esteve ausente no estrangeiro?), mas de modo muito claro e coerente: uma via técnica-profissional, com dignidade, qualidade e exigência iguais às da via de acesso ao ensino superior, oferecida aos jovens por iniciativa e com o apoio criterioso das escolas, a tempo de evitar o abandono, as retenções, ou os diplomas mentirosos que não correspondem a qualificação nenhuma. Uma via como existe, por exemplo, na Finlândia, sendo ali frequentada, aliás, pela maioria dos estudantes. A Finlândia, que gostam tanto de citar, mas citam quase sempre erradamente.

DS acusa esses intelectuais «redutores» de não apresentarem soluções. Não têm feito outra coisa se não sugerir soluções, desde logo mostrando o que é o eduquês . DS escreve como se fosse ele a ter proposto os exames sérios e universais e as vias técnico-profissionais, que agora diz defender.

E que soluções avança DS? Repare-se na solução que dá para a indisciplina: «A disciplina só será alcançada com um esforço conjunto dos professores, alunos, e pais». E o Ministério? Pensei que acrescentaria: colocando os alunos e os pais no mesmo plano dos professores… Como se os alunos fossem iguais aos professores, mas não.

Um ensino «que inclui», diz DS? Com 40% de abandono escolar? Ouvi o Senhor Primeiro Ministro falar em 30% (deve continuar a ser, portanto, mais de 40%), como se isso, tanto quanto percebi, fosse um êxito. E com que qualificações reais sai do sistema a maioria dos que não o abandonam? Não conheço hoje na Europa sistema de ensino que produza mais exclusão do que este do eduquês.

Atente-se na irresponsabilidade mais gritante: a aprendizagem da leitura e da escrita, os níveis de «iliteracia», palavra importada para evitar o termo português que toda a gente perceberia: analfabetismo funcional. Segundo o estudo comparativo mais recente, um estudo oficial, muito eduquês, aliás, na trapalhada nada inocente do seu conteúdo e da sua escrita iletrada, a percentagem de iliteracia (na verdade puro e simples analfabetismo, perguntem aos docentes) é em Portugal de 60%!!! Num País em que o analfabetismo é desde sempre a grande chaga, não seria a alfabetização real do País o grande desafio a empreender e a estar há muito vencido?

Continuo a pensar que o Primeiro-Ministro quis enfrentar o problema, como indica o facto de terem sido anunciadas algumas medidas acertadas, que há muito vínhamos propondo. Mas foram logo neutralizadas na sua concretização. Veja-se, por exemplo, o que aconteceu com a avaliação: inventou-se um modelo absurdo, impraticável. Provavelmente para distrair o País do essencial.

Fez-se muito, diz o doutor DS. Não fez. Fez-se apenas o que a mudança dos tempos impôs.

Não se aproveita nada? Não, não se aproveita nada. Quando não se consegue o mínimo, é preciso varrer tudo. Ou melhor, aproveita-se apenas a resistência de grandes professores, as suas práticas, o seu exemplo.

Grandes professores que resistem e continuam a salvar muitos alunos. Estive com Professores assim, recentemente, numa escola pública da Caparica, com professores e alunos que todos os dias enfrentam e vencem o delírio ou a insensatez do eduquês imposto pelo Ministério.

Tenho procurado explicar a natureza do eduquês, a essência do problema da educação em Portugal. Natureza que por ser impensável poucos compreenderam. E o eduquês pôde, assim, ocupar o sistema educativo, dominar as escolas de formação de professores, impor a ideologia e as teorias educativas que têm impedido a construção da escola que é imperativa para o progresso do País. Quando acabará o delírio ou a insensatez? Quem pára a besta?

Pessimista é quem desiste de lutar, quem se cala perante o mal, acabando, assim, por servi-lo. «Pessimistas», «redutores», «narcisistas», hoje os adjectivos são outros, mas o método velhíssimo. Argumentos, venham os argumentos e os factos.

Guilherme Valente

sábado, 22 de maio de 2010

Sobre o cálculo da circunferência da Terra

Na sequência de dúvidas levantada por um leitor em relação ao cálculo da circunferência da Terra por Eratóstenes, explicado por António Piedade no texto Quanto mede um meridiano?, o De Rerum Natura procurou junto do classicista Bernardo Mota, que se interessa pelo assunto, informação suplementar. Sugere-nos ele as seguintes leituras:

- Bowen, Alan C. & Todd, Robert B. (2004). Cleomedes' Lectures on Astronomy. University of California Press.
A mais recente tradução inglesa duma das principais fontes para o cálculo de Eratóstenes. Tem esquemas e bibliografia secundária fundamental indicada nas notas.

- Roller, Duane W. (2010). Eratosthenes' Geography - Fragments collected and translated, with commentary and additional material. Princeton University Press.
Trata-se da mais recente obra de síntese sobre Eratóstenes

- Rawlins, D. (2008). Eratosthenes' Lighthouse Ploy Earth Radius 40800 Stades. The International Journal of Scientific History.
Neste artigo, o autor (que gosta de adoptar tom polémico), pretende mostrar que a história de Cleomedes é uma fábula.

Imagem retirada de: Bowen, Alan C.; Todd, Robert B. (2004).

As infra-estruturas básicas existem. Tirem partido delas.

A minha coluna Passeio Público, Jornal de Notícias, 19 de Maio de 2010.

Acredito firmemente que é nas cidades que deve ser colocado o foco do desenvolvimento no século XXI. É nas cidades que podemos reforçar as nossas vantagens competitivas como país, isto é, é no seu desenvolvimento equilibrado e sustentável que pode ser encontrado o reforço da nossa economia. E o problema não é essencialmente de infra-estruturas, ou seja, de obras e de betão, mas especialmente de conteúdo e actividade.

Nas cidades, assim como no país, faltam objectivos estratégicos. É isso que tem permitido o desenvolvimento desequilibrado do país, concentrando a cada vez menor riqueza gerada nos locais com maior poder político, e reduzindo enormemente a nossa capacidade competitiva.

É urgente inverter esta marcha. As cidades têm de produzir, criar riqueza, reforçar as suas capacidades humanas e empreendedoras para que possam desenvolver dinâmicas geradoras de actividade e valor.

O objectivo de uma cidade não é só ter qualidade de vida (como parece ser o lema da grande maioria dos autarcas, que medem a sua acção pela quantidade de obra que realizam), atraindo o consumo, mas justamente usar a qualidade de vida que for capaz de desenvolver como vantagem competitiva para a geração de riqueza que é a sua verdadeira razão de existir.

Consequentemente, os objectivos das cidades devem ser essencialmente os do dinamismo e da criatividade (cultural e económica), tendo os aspectos da qualidade e segurança como condições básicas para os atingir.

Este deveria ser o nosso objectivo a médio e longo prazo. Reforçar o papel das cidades, incentivando o funcionamento em rede que evitasse multiplicação de meios e infra-estruturas incentivando a sua partilha e racionalização, fomentando a diferenciação potenciadora de sinergias e reforço de competências, dinamizando o desenvolvimento equilibrado do país como forma de tirar partido das nossas potencialidades como nação.

Um plano bem montado teria ainda a capacidade de mobilizar as pessoas, pois elas sabiam com clareza que os seus esforços locais eram bem entendidos, cabiam num plano nacional de desenvolvimento e tinham um contributo visível no sucesso do seu país. E todos sabemos quão importante é a motivação das pessoas, a sua mobilização, para enfrentar dificuldades e realizar politicas de desenvolvimento a médio e longo prazo. E seria muito mais claro e racional decidir como e onde investir.

Uma nova estrada, uma nova ponte, uma nova infra-estrutura de transporte rápido, uma infra-estrutura científica ou cultural, etc., seria sempre encarada numa perspectiva nacional e justificada tendo por base o objectivo estratégico de desenvolver essa rede nacional de motores de desenvolvimento que são as cidades. E a cada investimento teria de estar sempre associada uma estratégia de dinamização que permitisse a todos perceber para que serve, como vai ser rentabilizado e como se insere no todo nacional.

Portugal tem as infra-estruturas básicas de que precisa. As próximas, aquelas que forem consideradas necessárias, têm de ser justificadas com base num plano de desenvolvimento nacional equilibrado que seja reconhecido pelos cidadãos nacionais como aquilo que querem para o seu país.

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...