Num artigo saído no jornal Público já há alguns dias (ver aqui), António Carlos Cortez, professor, escritor e cronista, apresenta a sua opinião sobre os documentos curriculares para o ensino do Português (as tais Aprendizagens Essenciais), focando-se na "diluição" do único prémio Nobel da Literatura atribuído a um autor português. Em certo passo, escreveu o seguinte:
"Que se leia o arrazoado teórico do documento que está agora em discussão pública e lá teremos a tónica posta na óbvia relação entre a leitura literária e a construção do pensamento crítico; lá teremos o postulado da fruição estética e a defesa de que pensar e escrever e falar sobre obras literárias constitui um caminho para a cidadania e a inclusão; lá teremos, enfim, a evidente consideração de que estudar literatura é aprofundar o autoconhecimento e a alteridade; lá teremos o princípio de que é essencial estudarem-se os autores maiores do idioma para a própria ideia de ética na educação".
Aqui António Carlos Cortez poderia ter afirmado, como é regra fazer-se, que estas "verdades de La Palisse" são expressões do eduquês renovado, das (pseudo)ciências da educação, da lavra dos pedagogos reconvertidos à "educação do futuro". Mas não: considera que se trata, tão-somente, de um
"jargão tecnocrático que dilui, oculta, esconde e deturpa um ensino sério do texto literário, assim como maquiavelicamente conduz os professores, uma vez mais, a transformar as suas aulas em roteiros de obediência cega ao que o ministério ordena".
Fazendo minhas as suas palavras, agradeço-lhe ter localizado o problema na tecnocracia ou algo do género... Esse modo de falar e escrever que redunda em lugares-comuns, que anda à volta de si mesmo e que, portanto, nada adianta, que parece muito bonzinho, muito em prol de um "céu-na-terra".
O jargão tecnocrático é usado por gente de muitas áreas, incluindo da área da educação, mas não pode ser confundido com a mesma. Na verdade, não a representa ou não a deve representar.
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