Raras são as conversas entre professores, pelo menos nas quais participo, que não partam, não vão dar ou não cheguem à IAGen. Um cansaço!
Um cansaço pelo tema – há tantos outros de que se pode e deve falar –, pela repetição de argumentos – muitos deles tão pobres quanto falaciosos –, pelo vocabulário em tecno-inglês – não sou capaz de reter tantas palavras novas...
Na última conversa com colegas de duas universidades do país, para manter alguma racionalidade, valeu-me a leitura de um artigo que havia lido há mais de dois meses e que guardei para o que fosse preciso. E foi! Identifico-o ao lado, e partilho-o uma parte com os leitores, a quem pode também dar jeito. Os destaques são meus.
"Num certo sentido, o debate sobre a IA é uma subcategoria do debate sobre automação, e a automação é sempre excelente para as universidades. A médio prazo promete automatizar tarefas suficientes para prescindir de ineficiências aborrecidas, como pessoal com contratos. A longo prazo, se tudo correr bem, permitirá também automatizar todas as funções de alunos e docentes, deixando-nos finalmente mais próximos da universidade perfeita: uma instituição composta apenas por administradores, que se podem gerir a si próprios sem distracções, com a ajuda de software pago.
Mas quando se fala de IA e educação, o que normalmente está em causa é uma ansiedade muito concreta: estudantes a usar modelos de linguagem para produzir trabalhos avaliados, sobretudo textos escritos. É aqui que o assunto me interessa (...) porque, ao dar uma aula por semestre numa pós-graduação, ando há uma década a ler e avaliar, em média, 30 ensaios escritos por estudantes universitários todos os anos. Não é um conjunto heróico de dados longitudinais, mas é uma amostra estável, e a estabilidade tem virtudes. Os ensaios não medem a aquisição de conhecimentos específicos. Servem para observar modos de ler, hábitos de atenção, a capacidade de transformar materiais comuns em algo pessoal e coerente (...)
O chatgptês parece um idioma novo porque foi tornado visível. A escrita média costumava passar despercebida, cumprindo as suas funções em silêncio, confundindo-se com a atmosfera (...). Tenho achado cada vez mais útil presumir que muita da comunicação escrita que encontro diariamente foi gerada por máquinas (...). Nenhum imperativo ético exige a seres humanos que dediquem tempo e talento a redigir pessoalmente cartas de recomendação, convites para festas, campanhas publicitárias, ou programas eleitorais. Automatizar estas tarefas vai poupar-nos tempo precioso para escrevermos, por exemplo, mais manifestos (...).
As universidades nunca foram especialmente boas a proteger a escrita das forças que a ameaçam. É lá, afinal, que se produzem algumas das maiores quantidades de prosa mecanizada. O que podem oferecer é um espaço onde a diferença ainda possa ser identificada, valorizada e discutida. Fazê-lo depende de tempo, curiosidade, e da vontade para ler e reler frases que não anunciam imediatamente ao que vêm. Essas condições já eram raras e frágeis antes da Inteligência Artificial chegar, e agora serão um bocadinho mais. Ainda dá para ter calma, mas é complicado."
Mas quando se fala de IA e educação, o que normalmente está em causa é uma ansiedade muito concreta: estudantes a usar modelos de linguagem para produzir trabalhos avaliados, sobretudo textos escritos. É aqui que o assunto me interessa (...) porque, ao dar uma aula por semestre numa pós-graduação, ando há uma década a ler e avaliar, em média, 30 ensaios escritos por estudantes universitários todos os anos. Não é um conjunto heróico de dados longitudinais, mas é uma amostra estável, e a estabilidade tem virtudes. Os ensaios não medem a aquisição de conhecimentos específicos. Servem para observar modos de ler, hábitos de atenção, a capacidade de transformar materiais comuns em algo pessoal e coerente (...)
O chatgptês parece um idioma novo porque foi tornado visível. A escrita média costumava passar despercebida, cumprindo as suas funções em silêncio, confundindo-se com a atmosfera (...). Tenho achado cada vez mais útil presumir que muita da comunicação escrita que encontro diariamente foi gerada por máquinas (...). Nenhum imperativo ético exige a seres humanos que dediquem tempo e talento a redigir pessoalmente cartas de recomendação, convites para festas, campanhas publicitárias, ou programas eleitorais. Automatizar estas tarefas vai poupar-nos tempo precioso para escrevermos, por exemplo, mais manifestos (...).
As universidades nunca foram especialmente boas a proteger a escrita das forças que a ameaçam. É lá, afinal, que se produzem algumas das maiores quantidades de prosa mecanizada. O que podem oferecer é um espaço onde a diferença ainda possa ser identificada, valorizada e discutida. Fazê-lo depende de tempo, curiosidade, e da vontade para ler e reler frases que não anunciam imediatamente ao que vêm. Essas condições já eram raras e frágeis antes da Inteligência Artificial chegar, e agora serão um bocadinho mais. Ainda dá para ter calma, mas é complicado."
Sem comentários:
Enviar um comentário