terça-feira, 12 de outubro de 2021

OS DIAS DA PESTE

 


Novo texto de Eugénio Lisboa:


Em resumo – disse Tarrou com sim-

plicidade - , o que me interessa é

saber como é que alguém consegue

                                                             ser santo.

                                                                                                   - Mas Você não acredita em Deus.

        - Justamente. Poder ser santo sem Deus

é o único problema que hoje me ocupa.

Albert Camus. La Peste

 

Assinalando o centenário do PEN Internacional, fundado em Londres, em 1921, em boa hora a Presidente do PEN Português, Teresa Martins Marques, resolveu publicar um livro intitulado OS DIAS DA PESTE, que desse forte destaque àquele centenário, centrando a celebração num tema que neste momento preocupa, de modo particularmente angustiante, a humanidade de todas as latitudes e longitudes, de todas as etnias, de todas as crenças religiosas (incluindo a ausência delas), de todas as ideologias (ou de nenhuma), de todas as idades, em guerra ou em paz: o COVID 19, uma das grandes pragas que têm avassalado o mundo. Glosadas em várias obras famosas, de Bocaccio e Daniel Defoe a Albert Camus, as grandes pandemias têm sido um dos mais mortíferos pesadelos que têm afligido a humanidade, dizimando ao acaso milhões de seres humanos, entre os quais se encontrariam provavelmente muitos talentos e até génios que para todo o sempre ficaram perdidos.

Destes medonhos flagelos – a morte totalmente descontrolada, ceifando a torto e a direito – ninguém deixou mais impressivo testemunho do que Camus, enorme escritor e grande consciência do nosso tempo, destemidamente em luta contra todas as opressões totalitárias e grande mestre de inteireza e de coragem. Como esquecer acutilantes cintilâncias como esta: “Nada é menos espectacular do que um flagelo e, pela sua própria duração, as grandes desgraças são monótonas”?

Este precioso e belo livro que Teresa Martins Marques e Rosa Maria Pina congeminaram e organizaram, com o título que indiquei – OS DIAS DA PESTE – constitui uma volumosa e generosa obra de 630 páginas, servidas por 272 autores de 58 países, todos assinalando, cada um à sua maneira, esta grande peste do século XXI. A qual só poderá ser completamente dominada pelo esforço contínuo, deliberado, teimoso e obstinadamente atento de governantes, médicos, enfermeiros e, também (ia dizer: sobretudo) de todos nós, sem excepção absolutamente nenhuma. Não pode haver a mais pequena distracção que nos desvie de um grande objectivo comum. Foi ainda Camus, no seu imortal romance – A PESTE – quem nos deixou este fundamental recado: “O que é natural é o micróbio. O resto – a saúde, a integridade, a pureza, se quiser – é um efeito da vontade, de uma vontade que não deve jamais deter-se. O homem direito, aquele que não infecta quase ninguém, é aquele que tem o menor número de distracções possível.”

Este livro que, para ser consumado, envolveu um gigantesco e obstinado esforço que não custa imaginar e que ficará como um marco a assinalar um dos mais negros períodos da história da vida humana, tem tido, curiosamente, pouca repercussão nos meios da comunicação social. É pena porque lê-lo é encontrar bom combustível para os que gostam de reflectir no que profundamente nos aflige.

Eugénio Lisboa

 

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Carros com rodas esféricas

 A marca de pneus Goodyear tem estado a desenvolver novas tecnologia para rodas de automóveis. Um desses exemplos é o pneu esférico "Eagle-360", como se pode ver nestas imagens ainda de 2016:


Num vídeo mais recente, deste ano, já se consegue ver a aplicação deste pneu num protótipo da Citroen. Trata-se de um módulo que tanto pode servir para transportar cargas, como para acoplar outros módulos de transporte à base plana.


O tempo dirá se esses protótipos futuristas captarão o interesse das pessoas e indústrias e se o modelo dos pneus esféricos veio para ficar. 



"Os estudantes não são frangos de aviário"

Num artigo publicado no jornal espanhol El País, no passado dia 18 de Setembro (aqui),  o professor e filósofo italiano Nuccio Ordine faz uma análise lúcida e esclarecedora da situação que se vive nos sistemas educativos europeus, subordinados à lógica do mercado.

"A Europa deve repensar a verdadeira missão das escolas e das universidades e devolver a dignidade a professores e alunos. Aceitar a lógica neoliberal na educação foi um gravíssimo erro."

Durante décadas temos assistido em silêncio à degradação do sistema educativo. Só uma minoria contestatária se empenhou em expressar o mal-estar de quem vive nas escolas e nas universidades que, desde há muito, perderam a sua função essencial: formar cidadãos cultos, solidários, dotados de sentido crítico e de consciência cívica. Deste modo, em todos os países europeus se reaviva o debate quando se fala de novas reformas.

A questão é, sem dúvida, mais complexa. Neste momento, os ministros dos diferentes Estados têm uma margem de manobra muito limitada, que não lhes permite fazer nenhuma mudança autêntica.

A distribuição de fundos para a educação, com efeito, foi diabolicamente confiada a um mecanismo infernal de recompensas, baseado em rígidos sistemas de avaliação. A Europa, de maneira acrítica, importou os instrumentos e parâmetros dominantes nos Estados Unidos e no Reino Unido. Em poucas palavras, passámos de um excesso a outro: das malhas largas do passado à estreita peneira actual. O termo mérito tornou-se o salvo-conduto para a obtenção de fundos, reconhecimentos, selos de excelência e promoções profissionais para a classe docente.

O problema não diz respeito à avaliação em si, positiva e correcta quando exercida com equilíbrio e baseada em valores compartilhados. Pelo contrário, diz respeito aos critérios que, de modo despótico, se estabeleceram para identificar os que têm mérito. Trata-se, infelizmente, de uma lógica que acabou por impor nas escolas e universidades inadequados modelos empresariais. Desde a primária ao doutoramento, toda a cadeia educativa foi colocada ao serviço do chamado crescimento económico, das exigências do mercado e das empresas. As teorias neoliberais impuseram, definitivamente, os seus princípios ao mundo da educação: interacção com a empresa privada, cooperação com os distintos sectores da economia, competitividade entre escolas e universidades, prioridade às “competências” e “habilidades”, que contribuíram para criar uma perigosa visão utilitarista do estudo, da investigação científica e do conhecimento.

Basta reler as proféticas observações de Charles Dickens para compreender as consequências de uma educação modelada segundo as regras do mercado. Em “Tempos Difíceis” (1854), a escola de Coketown (fruto de uma Inglaterra industrial) é governada por um banqueiro, Bounderby, e pelo pedagogo Gradgrind, obcecados em combater tudo o que se oponha à concretização dos factos e da produção (“A escola era toda ela factos. A escola de desenho era factos. As relações entre o patrão e o trabalhador eram factos e tudo eram factos, desde a maternidade ao cemitério; tudo o que não se podia expressar em números, nem demonstrar que era possível comprá-lo no mercado mais barato para vendê-lo mais caro não existia, não existiria nunca em Coketown até o fim dos séculos. Amén”).

Inimigo de um ensino aberto à imaginação e a todas as formas de curiosidade, Gradgrind vai sempre “com uma régua, uma balança e a tabuada de multiplicar no bolso”, pronto “para pesar e medir qualquer partícula da natureza humana e para dizer exactamente quanto isso vale”. Para ele, a educação e a vida reduzem-se a “uma mera questão de números”, ao mesmo tempo que considera os seus jovens alunos como “pequenos recipientes que deviam encher-se de factos”.

Aqui é possível encontrar, em essência, algumas das limitações dos sistemas de avaliação actuais.

Estamos certos de que os parâmetros quantitativos e a sufocante máquina burocrática desenhada para os determinar estão a construir uma educação melhor? 

Para lá das boas intenções, parece-me evidente que as escolas e universidades se vêem obrigadas a trabalhar exclusivamente para obter uma boa classificação. Sem “resultados” não se obtém financiamento. Por outras palavras: quem não aceita os critérios estabelecidos está destinado a sucumbir. O sistema de medição não se limita a medir. Orienta, sem hipótese de apelação, o futuro de todo o “rendimento”. Desse modo, a avaliação serve para a reprodução em espiral de um modelo único e, sobretudo, para impor uma lógica que impede imaginar alternativas possíveis.

Por que razão se mede a internacionalização das universidades em função dos cursos em inglês? Porque é que entre os critérios  figuram os salários que os estudantes ganharão quando se formarem? Porque é que a quantidade de licenciados é mais importante que a sua qualidade? Temos, por acaso, a certeza que a competência estimula o crescimento mais do que a colaboração? Estamos certos de que só devem fomentar-se as disciplinas capazes de garantir um futuro económico em detrimento das humanidades? Vale a pena dar atenção a rankings internacionais quando vemos que  só Harvard gasta com os seus 20 000 estudantes quase metade dos fundos que recebem as universidades estatais italianas, em conjunto, para um total de 1 6000 000 alunos? A bicicleta eléctrica europeia (que se esforça, com os seus escassos recursos, por manter uma prestigiosa educação de massas) não pode competir com uma caríssima motorizada de corrida construída para uma elite endinheirada. Ascender a esses rankings significa renunciar à educação de muitos para concentrar os recursos nuns poucos eleitos.

Os professores não são directores de empresas: o seu tempo deve ser dedicado aos estudantes e a uma investigação livre das absurdas medidas das agências nacionais. E, por outro lado, há que explicar aos jovens que não se estuda para aprender um ofício e que cultivar as próprias paixões vale mais que qualquer “êxito” económico. Não é um simples pedaço de papel, que é um diploma,  que os faz ricos. Não é Ítaca, como nos lembra Constantino Cavafis, o objectivo da viagem, são antes as experiências que vamos tendo para chegar ao destino (“ Ítaca brindou-te com tão formosa viagem. / Sem ela não terias empreendido o caminho/ Mas não tem já nada para te dar”). A nossa verdadeira meta, como diz o poeta Antonio Machado, coincide com o nosso caminho: “Caminhante não há caminho / o caminho faz-se caminhando”.

Cabe à Europa imaginar um novo caminho para repensar a verdadeira missão das escolas e universidades, e para devolver a dignidade ao papel dos professores e dos próprios estudantes, considerados frangos de aviário. Só um acordo entre os países europeus poderia pôr fim a esta chantagem económica, baseada em parâmetros impostos pela banca e pelas finanças. Aceitar a lógica neoliberal foi um gravíssimo erro: a educação não representa uma despesa, mas um investimento indispensável. E se o PIB não mede as coisas mais importantes da vida, uma educação baseada no mercado acabará por oferecer às gerações futuras uma imagem distorcida do conhecimento e da humanidade. A educação devia preparar para o questionamento dos modelos únicos impostos pela economia e pela tecnologia. Deveria ensinar que o saber gratuito e o estudo do passado são fundamentais para fazermos melhor e construir um mundo mais solidário. Porque, como lembrava Carlo Levo, “o futuro tem um coração antigo”.

domingo, 10 de outubro de 2021

SEARA NOVA: CEM ANOS

Informação recebida no De Rerum Natura:

Convidamo-lo a participar no Colóquio "Os Seareiros", Comemorativo do Centenário da revista Seara Nova, que terá lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, no próximo dia 12 de Outubro, terça-feira, a partir das 9h30.

Nas noites de 14 e 15 de Outubro, a RTP2  fará a estreia do documentário "Há 100 anos - a Seara Nova", com realização de Diana Andringa.

Recordamos que em 
Revistas de Ideias e Cultura tem acesso à colecção da Seara Nova, com índice de autores e centenas de documentos inéditos.

No mesmo Portal pode consultar 28 revistas fundamentais para a compreensão da história cultural e política portuguesa do século XX.

Cordialmente,

Luís Andrade
Coordenador do Seminário Livre de História das Ideias (CHAM/FCSH/UNL)

Ciência às Seis (on-line): A Física no Dia-a-Dia

Informação recebida do RÒMULO:

Na próxima terça-feira, dia 12 de Outubro de 2021, pelas 18 horas, realiza-se a conversa "O papel da Física no dia-a-dia" integrada no ciclo "Ciência às Seis", iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, nesta sessão em co-organização com o Núcleo de Estudantes de Física da Associação Académica de Coimbra. O evento online destina-se especialmente aos estudantes, mas pode ser visto por todo o público interessado, havendo oportunidade para questões no final.

Entrar na reunião Zoom:  https://videoconf-colibri.zoom.us/j/83459297401

ID da reunião: 83459297401  

Resumo:

Que influência tem a Física nas nossas vidas? Em particular, que influência tem a Física Quântica, que descreve o mundo submicroscópico, nas nossas vidas? Muito mais do que normalmente se imagina. Praticamente toda a nossa vida passa por aplicações da Física em geral e da Física Quântica em particular: Computadores, tablets, consolas de jogos e telemóveis são feitos de transístores, que são artefactos da teoria quântica. O mesmo se pode dizer da televisão e da rádio. As comunicações à distância fazem-se por fibras ópticas, que usam luz laser, ou por redes sem fios, que usam micro-ondas. A luz laser, que é um efeito quântico, está por todo o lado desde o leitor de código de barras até às impressoras. A orientação por GPS exige relógios atómicos, que são dispositivos quânticos. Muitos dispositivos de diagnóstico e tratamento médico como o TAC, o RMN  e o PET são ainda baseados nos conhecimentos da teoria quântica. Nos institutos e laboratórios de Física constrói-se já hoje a vida quotidiana de amanhã, que passará por computadores quânticos e comunicações ainda mais avançadas. 

Breve Biografia:

Carlos Fiolhais natural de Lisboa é professor aposentado de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, fundador do RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra e comunicador de ciência. Dos vários livros publicados, destaca-se pelo número de exemplares vendidos  Física Divertida e Nova Física Divertida. Tem escrito, com David Marçal, vários livros de combate à pseudociência, o último dos quais foi Apanhados pelo Vírus: factos e mitos sobre a Covid 19. Foi diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e tem sido director do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Recebeu vários prémios e distinções.

Os vídeos das sessões anteriores do ciclo (e outros) estão disponíveis no Canal YouTube

 

RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Divulgação de Eventos

Departamento de Física da FCTUC 

Rua Larga
3004-516 Coimbra

Telefone: 239 410 699

O MUNDO QUE O HOMEM CRIOU

 


Novo poema de Eugénio Lisboa:

O MUNDO QUE O HOMEM CRIOU

 

Os sinais estão aí, por todo o lado,

insinuam que o mundo apodrece,

que está todo despedaçado,

que, sem redenção, sobreaquece.

Os rios e os mares infectados,

os vírus desvairados, assassinos,

as terras desertadas, devastadas,

dilúvios afogando peregrinos,

o mundo em completo desconcerto

a vida cada vez mais degradada,

a luta pela vida num aperto,

a esperança de viver desbaratada,

os hospitais cheios e exauridos,

os cemitérios todos esgotados,

os gritos das crianças assustadas,

apagando-se em sítios  esquecidos!

A lama, o sangue, o pus, a merda toda

medalhas que sobraram da vida que houve,

no meio de tudo isto, a estuporada foda,

resto de vida, que durar não soube!

Da música sublime que se criara,

sobra, para acompanhar a derrocada,

marcha fúnebre para a ardida seara,

montanha de ruínas assombrada.

Radiações que matam devagar

e o frio que aos poucos nos devora,

tudo eficaz arte de matar,

dando-nos um final que não demora.

A história do homem nesta Terra,

feita de conflitos e descobertas,

deu pra inventar ciência e guerra

e, ao terror, ofertar portas abertas.

O nosso mundo vai chegar ao fim

e, desta nossa construída glória,

finar-se-á, a um toque de clarim,

história de que não ficará memória.

Eugénio Lisboa

 

 

 


Cinema no Jardim - Lisboa e Ciência

 


Vários filmes/documentários poderão ser visualizados, durante o mês de outubro, no Jardim Botânico de Lisboa, no próprio Museu Nacional de História Natural e da Ciência, ou ainda no Jardim Botânico Tropical.

Na imagem em baixo podem ser consultados os títulos, as datas e os locais.



quinta-feira, 7 de outubro de 2021

LUIS QUINTAIS E O ÂNGULO MORTO


Minha recensão no I de hoje:

O ângulo morto é um conceito da óptica, com aplicação aos espelhos retrovisores dos veículos automóveis. Alguns espelhos não permitem ver para alguns ângulos de visão, designadamente para objectos imediatamente adjacentes ao observador. Actualmente já há espelho retrovisores com sistemas que anulam ou mitigam o ângulo morto, permitindo ver quaisquer pessoas, bicicletas ou automóveis que circulem mesmo ao nosso lado. A legislação tem vindo a limitar os ângulos mortos.

Mas, tomada agora a expressão como metáfora, todos nós temos ângulos mortos na nossa vida. Há coisas que se passam mesmo ao lado e cuja percepção nos escapa. A poesia costuma ter um olhar mais profundo do que o olhar físico, pelo que é natural que veja os ângulos que são mortos de acordo com as leis da óptica. O uso da metáfora é curioso, embora não seja inteiramente original. Por exemplo, num número da revista Colóquio Letras, Pierre Schioentjes, professor de Literatura na Universidade de Gent, Bélgica, falava da «mudança climática na literatura francesa» como um «ângulo morto da resistência ecológica». E muita outra gente tem usado metáforas vindas da física ou de outras ciências. Recebi um dia uma chamada de uma professora de Literatura que me queria perguntar sobre a legitimidade do uso da expressão «ângulo crítico», que surge na descrição da refracção, num seu ensaio de crítica literária. Respondi-lhe que achava o uso perfeitamente legítimo uma vez que as palavras não têm donos. O uso literário de termos usados originalmente na ciência ou na tecnologia permite alargar o seu domínio semântico. Do mesmo modo, os físicos e  outros cientistas «roubam» termos da literatura: basta dar o exemplo da palavra «quark», sem um  significado óbvio, que foi tomado pelo físico norte-americano Murray Gell-Mann, que se interessava por linguística, para designar uma partícula, de um trecho do romance  Finnegans Wake de James Joyce: «Three quarks for Muster Mark!»

Ângulo Morto é o 14.º livro do poeta e antropólogo Luís Quintais. Quase toda a sua poesia está reunida no livro Arrancar Penas a um Canto de Cisne. Poesia, 2015-1995 (Assírio & Alvim, 2015), uma obra que recebeu o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores «Teixeira de Pascoaes», em consórcio com a Câmara Municipal de Amarante. O livro reúne, por ordem cronológica reversa, os livros O Vidro (Assírio e Alvim, 2014, Prémios Fundação Inês de Castro e António Ramos Rosa), Depois da Música (Tinta da China, 2013), Riscava a Palavra Dor no Quadro Negro (Cotovia, 2010), Mais Espesso que a Água (idem, 2008), Canto Onde (idem, 2006), Duelo (idem, 2004, Prémios de Poesia do Pen Clube português e da Fundação Luís Miguel Nava), Angst (Cotovia, 2002), Verso Antigo (idem, 2001), Umbria (Pedra Formosa, 1999), Lamento (Cotovia, 1999)  e  Imprecisa Melancolia (Barcelona: Lúmen, 1995, Prémio da Aula de Poesia de Barcelona). Depois dessa grande recolha de poesia (862 páginas), Quintais publicou na Assírio & Alvim: A Noite Imóvel (2017, Prémios Oceanos e Casino da Póvoa) e Ágon (2018). Vê-se pela sucessão de prémios que a sua obra, que tem saído com uma cadência impressionante, tem encontrado excelente acolhimento. Nas edições internacionais, além da publicação em Espanha em edição bilingue do livro de estreia, publicou no Brasil as  antologias Poesia Revisitada (1995-2010) (Rio de Janeiro: Sete Letras, 2011) e Portugal, 0, 3 (idem: Oficina Raquel, 2008). É curioso que eu tenha encontrado toda esta informação numa página Wikipédia em galego. Há uma versão em alemão, mas não em português nem noutras línguas.

Luís Quintais nasceu em Luena (ex-Vila Luso nos tempos coloniais), capital da província do Moxico, bem no interior de Angola. Viveu até aos 27 anos em Lisboa, tendo-se formado em Antropologia no ISCTE. Hoje trabalha na área da antropologia social na Universidade de Coimbra, sendo professor no Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia e investigador do Centro de Estudos Sociais. Os seus temas de eleição são a psiquiatria forense a as relações entre arte, ciência e técnica (escreveu sobre a obra do escultor Rui Chafes e sobre a bioarte). Quintais é ainda autor de um interessante livrinho sobre Cultura e Cognição (Angelus Novus, 2009).

A suas produção poética faz um uso muito criativo da linguagem. Na introdução a Arrancar Penas a um Canto de Cisne. Poesia Quintais escreveu: «O que me interessa está sempre a jusante, no delta do rio,  não na nascente. As palavras que se reúnem sob o sortilégio desse jogo de linguagem que é a poesia servem uma ideia de ordem, disse. São a régua e o esquadro da experiência que não pode ser metrificada, que não é mensurável. Talvez seja este  o sentido flutuante da poesia.» Sendo cientista social, Quintais sabe bem que a poesia serve para dizer aquilo que a ciência não consegue dizer. Pedro Eiras, poeta e professor de Literatura da Universidade do Porto, no posfácio à poesia reunida, intitulado  «Inventar a Antiguidade de som mais antigo», começou por citar a referida frase de Quintais comentando: «Esta é a experiência radical da poesia de Luís Quintais – a invenção de uma linguagem e de um uso para a linguagem, invenção de uma linguagem que inventa um mundo. Invenção de leitura: como ler? Como jogar o jogo de ler o texto, se ele inventou as regras da sua leitura e as escreve numa linguagem que ainda não decifrámos?»

O matemático britânico de origem polaca Jacob Bronowski fez uma apologia da poesia, numa entrevista que deu ao filósofo norte-americano George Defere, publicada na revista The American Scholar (1974) e republicada, em tradução portuguesa, no volume A Responsabilidade do Cientista e Outros Escritos (Dom Quixote, 1992), que reúne  textos de Bronowski editados por António Nunes dos Santos et al. Diz Bronowski: “A poesia é um tema maravilhoso que deveríamos considerar sempre que falamos de ideias científicas, porque nos relembra que se pode comunicar uma verdade de indubitável valor intelectual sem necessidade de ser complementada por qualquer sistema de equações.”

Poder-se-á pensar que a ciência estará, portanto, nos antípodas da poesia. Mas Bronowski, que de matemático passou a crítico literário  (o seu primeiro livro foi sobre os românticos ingleses), chamou a atenção para a profunda relação entre ciência e poesia noutro texto do mesmo livro (no capítulo «Ciência e Valores Humanos»):

«Quando Coleridge tenta definir a beleza, regressava sempre a um único pensamento profundo: a beleza, disse, é a ‘unidade na variedade’. A ciência não é nada mais do que a procura da descoberta da unidade na desordenada variedade da natureza – ou, mais exatamente, na variedade da nossa experiência. A poesia, a pintura, as artes, são a mesma procura, na frase de Coleridge, da unidade na variedade. Cada um, à sua própria maneira, procura as semelhanças sob a variedade da experiência humana. O que vem a ser uma imagem poética senão a apreensão e a exploração de uma semelhança escondida, o manter juntas duas partes de uma comparação que vão dar mais profundidade uma à outra?»

Não me atrevo a fazer uma critica literária de um livro de poesia tão denso como o último livro de  Quintais. Além do mais, recordo-me uma reacção violenta do autor a uma crítica do biólogo, poeta e ensaísta José Mário Silva no Expresso: «Dá-me quatro estrelas. Melhor seria que não desse nenhuma. Que as metesse pelo cu acima!». Prefiro, em vez de comentar, deixar falar a poesia. O livro Ângulo morto tem três partes, «Muro», «Iceberg» e «Mesa». Escolhi o poema «Rosalind Franklin (1920-1958)», de «Mesa», porque versa um tema de ciência – a obra da cientista britânica Rosalind Franklin, que foi pioneira o uso de raios X para estudar moléculas biológicas, técnica que se revelou essencial para a descoberta da estrutura do ADN por Watson e Crick em 1953, mas que infelizmente morreu cedo de cancro, sem que o seu trabalho pudesse ser premiado pela Academia Sueca:

«Gostaria ela de cristais,/ grafite, elipses?/ Depois de reconhecemos/ a sombra que a arrastou/ para o esquecimento incompleto,/ memorializado por má consciência,/ gostamos intensamente/ de cristais, grafite, elipses.// A virtude que há no sacrifício em nome da ciência/ nada nos diz. Afinal tudo/ é crença e revisitação./ Tudo é dura contenda/ com o sem-sentido que nos espreita./ Rosalind perseguia/ cristais, grafite, elipses// como quem persegue/ a elegância de um vaso etrusco/ uma luz de fim de tarde/ esmagando a praia de há mil anos,/ um sonho que, sem complacência,/ se desfaz após o acordar,// Sufocamos depressa as linhas de uma biografia,/ a imagem inteira da natureza/ que o caderno de ocasião/ poderá conter ainda./ Morremos jovens/ Antigo é o mundo na sua beleza/ indiferente e amoral/que nos traz cristais, grafite e elipses.»

Há aqui uma metáfora que associa as observações de cristais efectuadas por Rosalind com a «elegância de um vaso etrusco». Parafraseando Fernando Pessoa, ou melhor Álvaro de Campos: «Os cristais são tão belos como um vaso etrusco. O que há é pouca gente para dar por isso.»

Uma palavra final de elogio à Assírio & Alvim. A qualidade das suas edições de poesia é inquestionável: depois de A Matéria Escura e Outros Poemas, de Jorge Sousa Braga, já publicou na colecção “Poesia inédita portuguesa”  Inferno, de Pedro Eiras, Cães de Chuva, de Daniel Jonas. Voltar, de Luís Filipe Castro Mendes, Coração Lento, de Frederico Pedreira, e Purgatório, de Pedro Eiras.


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

VAMOS FALAR DE GEOLOGIA

Informação que nos foi enviada pelo Professor Galopim de Carvalho

Videoconferências emitidas a partir do Museu Nacional de História Natural e da Ciência. Especialmente destinadas aos professores de geologia e de geografia, embora sejam acessíveis à generalidade do público. A começar a 23 de Outubro, todos os Sábados, pelas 18 horas. Um primeiro bloco de 9 videoconferências, com temas avulsos, decorrerá durante o 1.º período lectivo. Prevê-se a realização de mais um bloco, no 2.º, e de um outro, no 3.º. Duração de cerca de 45 minutos, seguidos de tempo para perguntas.

OUTUBRO

23 – Geologia e cidadania. A história da Terra e da vida, envolve conhecimentos que devem interessar ao cidadão, não só para que se saiba situar no todo natural e, assim, compreender e abraçar os problemas de defesa do ambiente e da conservação da Natureza, mas também, para poder participar conscientemente nas decisões dos políticos, em sectores que dizem respeito à qualidade de vida material e intelectual da sua geração e da dos vindouros.

30 – O granito na ciência e na cultura. Granito é um nome antigo, que toda a gente conhece e sabe dizer, de cor, que é uma rocha formada por quartzo, feldspato e mica”, mas é mais do que isso. Surgido no século XVI, designa o conjunto das rochas mais abundantes nos continentes e da maior importância, quer no campo científico quer no da vida dos povos. 

NOVEMBRO

6 – Geologia e sociedade. É neste “planeta azul” que, desde sempre, reside tudo o que temos: o ar que respiramos, a água que bebemos, o chão que pisamos e nos dá o pão, as rochas e os minerais de que necessitamos. ´E só com isto que, por ora, contamos para viver. É, pois, fundamental conhecer melhor esta "nossa casa” e, aqui, a geologia tem papel fundamental, papel que sempre condicionou a sociedade.

13– A energia que nos vem do Sol. Numa muito simples abordagem, alude-se, não só à energia que aquece directamente tudo o que fica exposto ao Sol ou à que se concentra nos painéis fotovoltaicos da modernidade, mas também à que se liberta na combustão da lenha, dos carvões, dos derivados do petróleo, do gás natural e à que nos chega a casa, vinda das barragens hidroeléctricas. Alude-se, ainda, à energia despendida no trabalho físico dos animais ao nosso serviço e ao nosso próprio trabalho intelectual. 

20 – O chão que nos dá o pão. Uma conversa sobre solos. Expostas aos agentes atmosféricos as rochas sofrem meteorização. Forma-se, assim, o manto ou capa de alteração. Sempre que esse manto permite a ocupação vegetal e com ela todo um cortejo de seres vivos e de matéria orgânica, tem lugar a formação do solo. O solo nasce, assim, como um corpo natural, complexo e dinâmico, constituído por elementos minerais e orgânicos. Tem vida vegetal e animal própria, está sujeito à circulação da água e do ar e funciona como receptor e redistribuidor de energia. 

27 – Tectónica de placas, uma história que vem de longe. Se representarmos um ano por um degrau, temos de subir mais de 2260 degraus para chegarmos ao conhecimento que hoje temos sobre a tectónica de placas. De Eratóstenes, o astrónomo grego, da Antiguidade, aos geólogos e geofísicos dos anos 60 do século passado, por Ortel, Snider-Pellegrini, Suees, Wegener e tantos outros, esta fabulosa teoria, não só globalizou as ciências que estudam a Terra, como explica de maneira integrada muitos dos seus capítulos.

DEZEMBRO

4 – Vamos falar de vulcões, uma introdução ao vulcanismo. Expressões visíveis do magmatismo terrestre, os vulcões, uns activos outros mortos ou adormecidos, acompanham a história da humanidade, muitas vezes com efeitos trágicos. Diferentes uns dos outros na forma e no tipo de actividade, o seu estudo, ao longo de séculos, deu nascimento a um vasto e complexo capítulo da geologia.

11 – Vulcanismo e tectónica de placas. A par das diversas manifestações do movimento relativo das placas litosféricas (nascimento e alastramento dos oceanos, elevação das montanhas e simos) o vulcanismo tem lugar, sobretudo nas fronteiras de placas divergentes, ou seja, nos riftes, e nas das placas convergentes, ou seja, nas zonas de subducção. dois tipos de ambiente tectónico que determinam actividades próprias e diferentes litologias a que dão nascimento.

A RIQUEZA DE JOÃO RENDEIRO

Novo texto de Eugénio Lisboa:

O ouro põe na fila da frente
o mais desprezível dos homens.
Eurípedes

O dinheiro, mesmo o mais mal cheiroso, fascina os homens até os levar à mais abjecta subserviência. Mesmo sabendo que determinada fortuna foi adquirida por meios, no mínimo, discutíveis, muito frequentemente, por meios ilícitos quando não francamente criminosos, o homem médio não deixa de admirar a “esperteza” do afortunado ricaço, atribuindo-lhe uma inteligência excepcional, que ele de facto não tem. 

Porque é um erro muito comum pensar-se que é preciso uma grande inteligência para se criar uma grande fortuna: do que realmente se precisa, quase sempre, com honrosas e poucas excepções, é de uma boa dose de falta de escrúpulos. O homem rico raramente é inteligente ou mostra grande visão, mas o que ele é é manhoso, espertalhão – não inteligente – e não hesita em cometer actos que uma mente mais sensível e escrupulosa nunca seria capaz de cometer. Mesmo assim, a grande maioria das pessoas inclina-se reverentemente diante do homem rico, imaginando-o possuidor de dotes especiais, à beira do génio.

Nunca esqueci um diálogo famoso entre dois grandes romancistas americanos: Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Vivendo à grande, na costa azul francesa e esbanjando, sem medida, o muito dinheiro que ganhava, o que o levou a encontrar-se frequentemente em apuros, Fitzgerald admirava e invejava os verdadeiramente ricos. Ao ponto de, um dia, ter desabafado com o autor de ADEUS ÀS ARMAS (Hemingway), nestes termos: “Os ricos são diferentes de nós.” Hemingway, escarninho e mais lúcido, respondeu claro e curto: “São: têm mais dinheiro.” É de facto isso. Também, é claro, existem homens, como Bill Gates e outros, que não são de inteligência vulgar e, além dela, são pessoas de enorme visão e capazes de um mecenato generoso e inteligente. Mas a maioria dos milionários e bilionários são pessoas medíocres e até boçais, mesquinhas e até francamente à beira do criminoso, como, por exemplo, Donald Trump, o qual, na minha modesta opinião, fez mais do que o suficiente para ser metido numa prisão. 

Um exemplo, que muito me chocou, de subserviência perante um homem rico, foi o do que se passou com Belmiro de Azevedo, o qual, convocado para comparecer no Parlamento, para prestar declarações, não me recordo a que respeito nem isso para aqui interessa, se atreveu a ditar àquele órgão de soberania as condições em que compareceria: oito ou nove da manhã, não me recordo, alegando ter muito que fazer e não podendo, portanto, desperdiçar tempo com o órgão legislativo da Nação. Que eu saiba, ninguém o meteu na ordem e foi recebido com toda a reverência… Que diabo, o homem sempre era rico e, visto isso, diferente de nós, como sugerira o autor de O Grande Gatsby.

Tudo isto, a propósito da escandalosa e incompreensível fuga do “banqueiro” João Rendeiro, nas barbas complacentes da justiça e de uma ministra que eufemisticamente classificou de “desconfortável” o acto infame de quem, além de ladrão, se julga acima da lei (depois de perder todos os recursos – e foram demais – entendeu que lhe tinha sido feita grossa injustiça e por isso se pisgava, “em legítima defesa”). 

Vi, repetidamente, dizerem de Rendeiro, que era um “homem rico”: cá está, perante o homem sem escrúpulos, mas com muito dinheiro, o uso de uma linguagem que, de algum modo, desvela reverência por tanta “esperteza”. Porque Rendeiro não pode ser apelidado de homem rico, visto que não o é: rico é aquele que, ou herdou uma fortuna ou a ganhou, por meios razoavelmente lícitos. Rendeiro não é um homem rico, porque o dinheiro que tem não é dele, é dos que lhe confiaram as suas poupanças com vista a uma futura reforma mais confortável, das quais poupanças ele se apropriou, com grande desenvoltura.

Repito: Rendeiro não é um homem rico: é, pura e simplesmente, um desenrascado ladrão. É preciso respeitinho com as palavras, para se não cair desastradamente no “newspeak” de que falava Orweell, o qual permitiria redigir assim o acto de Rendeiro: 

“O operoso banqueiro, que mostrou desde a infância um compreensível fascínio pelo dinheiro, encontrando-se à frente de um banco que geria fortunas, desviou, quiçá sem intenção enviesada, algum desse dinheiro para uma conta sua, não se tendo apercebido de que isso poderia eventualmente não ser bem recebido pelos depositantes. Depois, acossado por uma justiça implacável e quiçá pouco humana, e aconselhado devidamente por amigos e admiradores, resolveu mudar de residência, para melhor esquecer este episódio desagradável e ter um resto de vida sossegado junto a alguma praia benfazeja.”

Eugénio Lisboa

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Cristóvão de Aguiar: no dia da morte de um senhor da palavra

No dia da sua morte é necessário não deixar esquecer Cristóvão de Aguiar, e chamar a atenção dos que ainda não conhecem a sua obra, pois é um dos melhores escritores portugueses da segunda metade do século XX. 

Senhor de uma obra vasta e variada, que vai da poesia (Mãos vazias, 1965, O pão da palavra, 1977, Sonetos de amor ilhéus, 1992) ao monumental diário, Relação de Bordo (1964-2015), que é uma imagem próxima, rigorosa, vibrante e frontal de Coimbra, das suas elites e, simultaneamente, do tempo coimbrão e português, durante mais de cinquenta anos. E muitas outras obras, como Com Paulo Quintela à mesa da tertúlia (1986), A tabuada do tempo – a lenta narrativa dos dias (Prémio Miguel Torga / cidade de Coimbra, 2007), Miguel Torga o lavrador das letras, um percurso partilhado, no 1.º centenário do seu nascimento (2007), Braço tatuado (1990), Passageiro em trânsito (1994), Charlas sobre a língua portuguesa (2009), e ainda tradutor, por exemplo, desse clássico que é A riqueza das nações, de Adam Smith. 

Mas é sobretudo na sua obra de ficção Ciclone de Setembro (1985), Passageiro em trânsito (1988), O braço tatuado (1990), A descoberta da cidade e outras histórias (1992), Um grito em chamas (1995), A semente e a seiva (1979) (Prémio Ricardo Malheiros), Vindima de fogo (1979), e O fruto e o sonho (1980), uma trilogia que foi posteriormente publicada num só volume (2015), Raiz comovida, e integrada nas suas Obras Completas.

Relendo Raiz comovida à distância de quarenta anos, verificamos que não envelheceu nada, que continua viva e com todas as suas qualidades. Para os que viveram no Portugal daquele tempo, que o amaram e sofreram com os seus ambientes, pessoas, situações, mentalidades, carências, injustiças, desigualdades, misérias e grandezas, é estimulante e chega a entusiasmar o reencontro com essa realidade já algo afastada. É um retrato magnífico da sociedade portuguesa em meados do século XX, uma autêntica aguarela, como se costuma dizer, rica, colorida, picaresca, mas realista e cheia de humanidade e graça. Como diz Aníbal Pinto de Castro, 
«o que mais profundamente me impressiona na sua escrita é a riquíssima carga de humanidade que simultaneamente lhe serve de “raiz”, lhe vivifica a alma e lhe marca o estilo. Por isso a sua ficção está tão visceralmente ligada aos lugares onde nasceu, cresceu, viveu, e às pessoas que, sendo parte essencial desses lugares, deles conservam marcas tão fundas mesmo quando, no seu discurso, se volvem personagens».
É, de facto, a especificidade açoriana em toda a sua pujança – nas peripécias, na linguagem, nas paisagens, nos ambientes sociais – o que nos comove e encanta, pois parecem revelar simultaneamente uma feição arquetípica e um concreto particular e intransmissível. É um todo açoriano que se integra num todo português, próximo pelos hábitos e pelos modos de sentir, pelos afetos, pelas crenças, mesmo que afastado por milhares de quilómetros. 

Ao retratar os Açores dos anos cinquenta, Cristóvão de Aguiar retrata igualmente o Portugal desse tempo. Com uma estrutura aberta, numa sequência de memórias de lugares, pessoas e situações, uma criança recorda as suas vivências e vai muito para trás relatando casos contados por familiares, histórias da vila, personagens, rivalidades e lutas que viveu ao ritmo do calendário litúrgico, das estações do ano, das tempestades marítimas, dos tremores de terra, sempre com o sonho da América e uma vida melhor, na alma, e sob a proteção da Santa Madre Igreja, como também acontecia no Continente.

A obra de Cristóvão de Aguiar, para quem visite as ilhas açorianas e se delicie com aquela preciosidade paisagística, urbanística, humana e cultural, ganha em nós uma profundidade renovada, um encantamento e uma riqueza suplementares, como se aquele mundo tão particular exigisse a obra, e esta, mais que reconhecer e sentir aqueles lugares e situações fosse dela uma sublimação literária, como de facto é.

E tudo isto através de uma escrita de grande qualidade, conseguindo misturar ingredientes que não é comum vermos tão bem sintetizados numa só obra. É de facto, como disse o Medeiros Ferreira, seu contemporâneo e amigo, uma «homenagem à língua portuguesa»; mas é mais do que isso, é uma homenagem ao povo açoriano e, em termos mais vastos, a todo o povo português, pois sentimo-lo ali das mais variadas e autênticas maneiras.

Não há muitas obras na literatura portuguesa que nos mostrem tão bem o Portugal de então. E se nos restringirmos aos Açores, certamente que não há outra. Há, é certo, o Mau tempo no canal, de Vitorino Nemésio, que é efetivamente um dos nossos grandes romances do século XX. Mas tendo em conta que os dois autores são açorianos, que emergem da mesma realidade cultural e sem grande diferença temporal, a comparação é inevitável, embora seja sempre uma fonte de equívocos e de possíveis injustiças.

Ora, sem pôr em causa a qualidade do livro de Vitorino Nemésio, uma vez que retratam a mesma época e paisagem mas não exatamente o mesmo estrato social, Raiz comovida é um retrato mais realista e mais próximo do povo açoriano. E, note-se, com não menos qualidade literária. Se outro mérito não tivesse, a obra constitui um vastíssimo e variadíssimo quadro social e cultural, uma montra dos usos, costumes, mentalidades, falas, expressões, relações familiares, artes, ofícios, crenças, moralidade, sexualidade, repressão, formas de educação, manhas e artimanhas, enfim, histórias de muitas formas e feitios, que nos proporcionam um enorme prazer na leitura e uma informação sobre os Açores que nenhum outro meio consegue.

Por outro lado, repito, a obra tem uma qualidade que não cede ao longo de todos os livros, uma originalidade de sintaxe, sem desconstruir sintaticamente, uma riqueza linguística única, e um sem número de achados de primeira 
(Alguns exemplos tirados de Raiz comovida: De contente, «o senhor padre não cabia nos paramentos», ou «os luteranos recolheram as redes e partiram com elas vazia de almas e de peixes», p. 405; «os olhos colavam-se às montras das lojas que se sucediam como pevides de melancia», p. 277, etc., etc.). 
E algumas descrições de antologia, como a ida à cidade, com o pai, para comprar ferro, no pós-guerra, pp. 274-280, ou a aparição do Inferno ao pobre do Luz Cruz, pp. 241-244). Talvez um pouco gongórica aqui e além. Mas também isto tem que ser contextualizado porque faz parte da amálgama lexical, social, cultural e até paisagística que, de algum modo, a solicita. E talvez até exija, pois é sobretudo descrição, oralidade, colorido e não propriamente o jogo verbal e o arrebique desnecessário de que o gongorismo tanto gosta. Ou seja, a base coloquial das histórias, sequenciais e entrecruzadas, implica uma certa repetição, e até, por vezes, alguma redundância, mas todas as obras, na medida em que são, ou devem ser, um sistema, definem a sua coerência, e o importante é saber se conseguem mantê-la, ou não.

Ora, também a este nível, Raiz comovida é irrepreensível. E se pensarmos em alguns dos nossos maiores (Camilo, Aquilino Ribeiro, Tomaz de Figueiredo) encontramos gongorismos bem mais assumidos e desenvolvidos, e nem por isso as consideramos menos. Ombreia com os nossos melhores neorrealistas, e sendo já um clássico estou certo de que o será cada vez mais. 

Para Coimbra, onde Cristóvão de Aguiar se formou e onde viveu desde a juventude, é sem dúvida uma grande perda. Consola, porém, o facto de poder juntar o seu nome a muitos outros – José Régio, Edmundo de Betencourt, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Afonso Duarte, Vitorino Nemésio, Fernando Namora, Virgílio Ferreira, Carlos de Oliveira, Torga, Agustina Bessa Luís, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço, Manuel Alegre – que aqui se formaram ou por cá passaram e que a cidade, de uma maneira ou de outra, marcou e inspirou, e a quem nem sempre soube agradecer como devia.

Pessoalmente, tive o grande privilégio de, nos últimos anos, pertencer a um grupo de amigos – de que fazia parte Cristóvão de Aguiar – e que se reuniam regularmente. Pude apreciar a sua erudição, a sua competência linguística, e o verbo ora entusiasmado e veemente ora ácido e duro, conforme o tema o entusiasmava ou o indignava.

Era um homem bem formado e de caráter. 
João Boavida

DO QUE A UNIVERSIDADE É AO QUE ELA PODE (VOLTAR A) SER

Um professor de Direito Constitucional da Universidade de Múrcia, Germán M. Teruel Lozano, publicou, no passado dia 3, um texto no jornal online «La Verdad« (ver aqui) sobre o que a universidade deveria ser e o que ela é. Trata-se de um texto lúcido que, por isso mesmo, preocupa, mas, ao mesmo tempo, apresenta uma réstia de esperança: nem todos os professores desistem da ideia de universidade e da aula como "espaço de desconexão digital (...), uma ocasião para alunos e professores interagirem, olhando-se nos olhos, sem ecrãs pelo meio".

A universidade não é um centro de educação superior qualquer. Uma das suas especificidades é que deve instruir num saber, numa disciplina do conhecimento que poderá ser útil para um ofício, mas o seu objecto não é formar profissionais. Na Faculdade de Direito não se formam advogados, nem juízes, nem notários, mas juristas. Para isso, deverão transmitir-se uns conhecimentos e formar numas competências básicas (pensamento crítico, dominar uma linguagem técnica e exprimir-se com correcção, saber argumentar...). 

Além do mais, a universidade é também um laboratório de conhecimento, nela faz-se ciência. Não é um museu nem, tão pouco, um lugar onde só se dá instrução aos jovens. Segundo Ortega a universidade deve aspirar a consagrar-se como um «poder espiritual» da sociedade. Face ao mundo actual, frenético, intoxicado pelas urgências, pelos acontecimentos e pelo imediato, a universidade deve oferecer serenidade e reflexão, rigor. 

Aqui não valem as zascas* nem a cultura da «influência» ou do sujeito que tudo opina e nada sabe. Há que fugir do charlatão, apostar no estudo, indagar os porquês, as razões que sustentam as nossas ideias. E, para todas elas, a universidade deve ser um espaço de liberdade. Daí que ser universitário é um autêntico privilégio e, portanto, uma responsabilidade. «Non studiamus scholae sed vitae», não se vai para a universidade estudar para a nota, mas para a vida, sentenciava um grafiti na Universidade de Salamanca no século XVI. 

Pois bem, a realidade deste ideal de universidade vê-se hoje mais difícil, por diversas razões, entre elas gostaria de referir três. As duas primeiras como consequência de carências do nosso sistema educativo, que os alunos trazem consigo quando chegam à universidade e mesmo depois de passar por ela. 

Como professor de Direito, a carência mais grave que detecto é no âmbito da leitura e da escrita. Encontramos alunos que têm sérias dificuldades em compreender um texto minimamente complexo (...) e ainda mais de escrever um texto que vá além do copiar e colar. Além disso, não têm interiorizada a importância de procurar fontes fiáveis de informação, restringindo-se às que o google lhes põe à frente. 

Outra importante carência situa-se no âmbito da cultura humanista. Se estamos integrados numa civilização é, precisamente, porque partilhamos um marco cultural e de pensamento comum que nos serve para ver o mundo com sentido crítico. A história, a filosofia, a literatura ou a cultura clássica são imprescindíveis para isso e, no entanto, encontram-se cada vez mais afastadas. Ora, o universitário deve olhar para o que estuda para contemplar e analisar a actualidade. 

Por fim há que destacar os perigos implicados no mundo digital numa dupla perspectiva. Como assinalou, há uns anos, G. Sartori, não podemos deixar que o «homo videns» anule o «homo sapiens», a imagem não pode sobrepor-se ao logos, ao pensamento conceptual. Por outro lado, devemos alertar para os perigos da dispersão e das dificuldades de atenção que o digital propicia e reivindicar a leitura serena e a concentração.

* termo em moda em Espanha, especialmente entre os jovens, e cujo significado tem evoluído; de uma onomatopeia que exprimia um ruído, como o de uma rápida bofetada, passou a ser aplicado em situações diversas, nomeadamente com o sentido de "réplica cortante e rápida", uma "bofetada verbal", um estalo dialéctico.

Maria Helena Damião & Isaltina Martins 

DA "VOZ DOS PROFESSORES" AO SEU PROGRESSIVO DESAPARECIMENTO

Publicado hoje num outro blogue (ver aqui), o texto "Onde estão os professores…?", assinado por um professor (Carlos Santos), faz sobressair uma perplexidade: na multiplicidade de relatórios de entidades supranacionais que determinam os desígnios da educação e de sítios on line que têm criado para os concretizar, afirma-se, "com base em evidências concretas" que a voz do professor nunca foi tão ouvida como agora. E que eles, mais do que pronunciarem-se a favor das mudanças em curso nos sistemas educativos, participam na sua formulação e implementação.

Ora, uma dessas mudanças situa-se na sua função, que vemos ser afastada do ensino. O mais preocupante é que, abrindo alguns desses sítios, constatamos que há professores a corroborar isso mesmo. No é o caso do autor do texto a que me refiro.

É imperioso que se permita o regresso dos professores às escolas; o regresso dos professores à sala de aula e do que, a rigor, representa a sua verdadeira função, que é a de ensinar! 
Com tantas reformas educativas preocupadas com a organização das escolas, dos currículos, tanta teoria de gabinete a dar muitíssima importância ao supérfluo, a pais e alunos, tanta diligência em afastar os professores dos órgãos de decisão e em sobrecarregá-los de inutilidades, que acabaram por os empurrar para o fim da fila das prioridades na estrutura de ensino. Foram, simplesmente, excluídos – banidos das escolas. 
Todas essas teorias excessivamente centradas nos interesses particulares dos encarregados de educação e dos alunos e na doutrina cega do professor como mera figura decorativa em redor do estudante, acabaram por deixar a escola e a aprendizagem nas mãos das crianças, dos pais, dos gestores, dos burocratas e dos políticos.
A escola passou a ser um tema sobre o qual todos opinam, todos sabem, todos mandam… menos os professores. Foram, na verdade, perseguidos, humilhados e desautorizados; foram tudo, menos auscultados e respeitados. Tanta desconsideração pela figura do Professor esvaziou-o de protagonismo, autoridade e importância (...).
E por mais que ninguém queira admitir, hoje as escolas estão sem professores. Não só pelo défice em número, mas sobretudo pela falta de representatividade, importância e participação. Acrescido à sobrecarga de burocracia, transformou-os em meros contabilistas da inutilidade (...), pouco resta do Professor na escola (...).
Atiraram-lhes à cara essa lama perfumada de hipocrisia e desdém de que “não há ensino sem alunos” (...). Mas… e sem professores, o que há? O que não há torna-se evidente: não há alunos; não há instrução, educação, respeito nem civismo; não há evolução nem inovação, não há sociedade; não há civilização; não há país; não há futuro (...).

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

NO PRINCÍPIO ERA O MAGMA…

À atenção dos professores de geologia.


Após a acreção do protoplaneta que antecedeu a formação deste maravilhoso corpo planetário que nos deu berço, e na sequência dos processos que determinaram a sua diferenciação como planeta (nomeadamente e em especial, a contracção gravítica e a formação núcleo), a Terra acumulou uma quantidade de calor tal que a converteu numa imensa bola incandescente.

Durante as primeiras centenas de milhões de anos, este nosso hoje “Planeta Azul” esteve envolvido num “oceano” de magma, em resultado da fusão da sua parte mais externa, “oceano” cuja profundidade teria sido da ordem de algumas centenas de quilómetros.

Foi a partir da capa mais superficial deste invólucro ígneo que, por arrefecimento posterior, se formou a primitiva crosta terrestre (com mais de 4000 milhões de anos, desaparecida na sequência da contínua renovação da crosta determinada pela chamada tectónica de placas), separada de uma outra entidade, que se lhe segue em profundidade, também ela já parcialmente arrefecida, a que foi dado o nome de manto.

Entendendo por magmatismo o processo natural através do qual um material fundido, a que se convencionou chamar magma, conduz à formação das rochas (ditas magmáticas), temos de concluir que este processo geológico é uma constante na história do nosso planeta (e do Sistema Solar) e que está na origem de todos os tipos de rochas (petrogénese).

Com efeito, não haveria rochas sedimentares sem as magmáticas preexistentes, nem rochas metamórficas sem que, pelo menos, tivesse existido um destes dois tipos de rochas. É, assim, lícito pensar que o mesmo acontece nos planetas telúricos, nossos vizinhos, e noutros de outros sistemas planetários da nossa e de outras galáxias. O magmatismo é, pois, uma das fases da evolução da matéria no quadro universal da sua história, como são, entre outras: 
a nucleossíntese que dá nascimento aos elementos químicos, em grande parte no interior das estrelas e na sequência das explosões (supernovas) que lhes ditam o fim; e a quimiossíntese que, por junção dos elementos químicos, dá origem aos compostos, entre os quais os minerais, fase esta que inclui o magmatismo e os restantes processos petrogenéticos, para além de outros, como são os biogénicos.
Foi através do magmatismo que a Terra, em formação, libertou uma atmosfera primitiva, rica (entre outros componentes) em vapor de água e dióxido de carbono. Foi a partir deste vapor de água que se formou, por condensação, grande parte da hidrosfera. E, na medida em que a vida foi gerada nas águas, torna-se evidente a sua dependência do processo magmático.

Assim, é lícito pensar que, sem magmatismo, a biodiversidade, tal como a conhecemos, não teria existido. Também os seres das profundidades oceânicas associadas a fontes hidrotermais e a chaminés negras (um ecossistema muito particular que só há pouco mais de três décadas foi conhecido) dependem absolutamente da actividade magmática, neste caso, submarina.

Do mesmo modo, a atmosfera actual (a que hoje respiramos e que diariamente poluímos em nome do chamado desenvolvimento), na qual o oxigénio resulta da actividade biológica das plantas com clorofila, é uma consequência, embora indirecta, do magmatismo.

Os magmas que, desde a existência de uma litosfera (conjunto da crosta e da capa rochosa do manto nascidas da diferenciação do planeta) geraram e continuam a gerar as rochas que, por isso, apelidamos de magmáticas, nasceram e continuam a nascer da fusão de rochas da crosta ou do manto superior, a temperaturas que variam entre cerca de 850°C, num xisto argiloso da crosta continental e em presença de água, e cerca de 1300°C num peridotito do manto, na ausência de água.

No que se refere às pressões, o fenómeno pode verificar-se entre cerca de 3 a 4 atmosferas, a 10 km de profundidade, e várias dezenas de atmosferas, 100 km mais abaixo. Ao nível da crosta a fusão dos materiais rochosos, isto é, a geração de um magma acontece associada ao metamorfismo de grau mais elevado, no decurso da formação de uma cadeia montanhosa (orogénese). No manto, a fusão é praticamente anorogénica, isto é, não envolve compressões tangenciais. Está, sim, relacionada com movimentos verticais e diminuição de pressão ou com penetração de fluidos aquosos.

A comparação frequente do magma com a lava incandescente ou ígnea saída dos vulcões, embora sugestiva, não é correcta. Deve acentuar-se que a lava já não é, exactamente, um magma, dado que, ao descomprimir-se na saída para o exterior, perde parte dos seus componentes gasosos (vapor de água, dióxido de carbono, entre outros) e, ao arrefecer, permite a cristalização (solidificação) prematura de alguns minerais (como é o caso dos cristais de olivina ou de augite em alguns basaltos) que, por acção gravítica, decantam, saindo também desse fundido, empobrecendo-o.

Um material assim, como o que se vê transbordar do vulcão e fluir à superfície, em que coexistem grãos cristalinos (sólidos), material ainda fundido e apenas parte dos gases que inicialmente o formavam, já não deve ser considerado um verdadeiro magma embora tenha mobilidade. É curioso assinalar que, na origem, a palavra magma significa “massa empedernida”.

Não obstante este significado, a petrologia adoptou essa mesma palavra para designar o material ainda em fusão (na totalidade ou em parte) que, por arrefecimento, consolida e, só então, se torna pedra. Do ponto de vista composicional, o magma pode ser então definido como um fundido de substâncias químicas, na grande maioria silicatos, existente em zonas mais ou menos profundas do planeta que, em virtude da temperatura e da pressão a que está sujeito, se mantém, pelo menos em parte, no estado líquido e, como tal, flui, ou seja, tem mobilidade.

Neste banho e com uma representação muitíssimo inferior à dos silicatos, podem existir óxidos, em particular os de ferro, de titânio e de crómio, sulfuretos, fosfatos e carbonatos. Como numa sopa quente, além do caldo, que nesta imagem exemplifica a parte fundida, podem coexistir no magma fases sólidas, representadas pelos minerais, e gasosas (vapor de água, dióxido de carbono, gás sulfídrico e outros) que lhe são próprios, de que podemos ter uma ideia através das manifestações secundárias do vulcanismo, como são as mofetas e as sulfataras.

As fases sólidas, quando presentes no magma, estão expressas pelos minerais que, por serem mais refractários (isto é, com um ponto de fusão mais elevado), cristalizaram prematuramente no seio do líquido magmático, o que não impede a mobilidade do conjunto, que poderá fluir enquanto houver uma fase fluida, ainda que residual, a assegurar-lhe essa característica implícita na própria definição de magma.

É o que acontece, como se disse atrás, com os cristais de olivina e ou de augite em certas lavas de natureza basáltica. Como ingredientes fundamentais do magma silicatado (ver nota abaixo) figuram quase sempre pouco mais de uma dezena de elementos químicos, os mais abundantes na crosta terrestre, e, por isso, ditos principais ou maiores (do inglês major elements), cujas percentagens, respectivamente, em peso e em volume são: 
Oxigénio (O): 46,6% peso; 93,8 % volume
Silício (Si): 27,7% peso; 0,8 % volume
Alumínio (Al): 8,1% peso; 0,5 % volume 
Ferro (Fe): 5,0% peso%; 0,4% volume 
Cálcio (Ca): 3,6% peso%; 1,0% volume
Sódio (Na): 2,8% peso; 1,3% volume
Potássio (K): 2,7% peso; 1,8 % volume
Magnésio (Mg): 2,1% peso; 0,3 % volume
São estes, pois, os principais constituintes dos minerais das rochas magmáticas, entre os quais, como se disse, os silicatos que, por si só, representam cerca de 99% da crosta terrestre. A análise química destas rochas revela, ainda, manganês, fósforo, titânio, carbono e enxofre e hidrogénio praticamente sempre presentes, embora em menores percentagens. Parte da água inicialmente contida no magma entra na composição de certos minerais, outra perde-se, quer em profundidade, no interior da crosta, indo alimentar outros processos petrogenéticos, quer à superfície, no vulcanismo. 

É esta água no estado de vapor que, com o dióxido de carbono e outros gases de menor representatividade igualmente libertados do magma, se evola nas erupções vulcânicas, originando os espessos “fumos” brancos que se dispersam no ar, acompanhando quer as projecções sólidas de piroclastos, quer a saída e progressão da lava.

Para além dos já referidos elementos principais ou maiores (por definição, aqueles cujas percentagens, em peso, nas rochas é superior a 1%), há ainda a considerar os elementos menores (do inglês, minor elements), entre os quais bário, chumbo, cobre cobalto, níquel, ouro, prata e muitos mais, cuja presença nas rochas se situa, em termos percentuais, abaixo de 1%. Nestes há que distinguir elementos secundários (entre 1% e 0,1%) e elementos vestigiais ou elementos-traço (do inglês, trace-elements) que, como o nome indica, estão representados em quantidades ínfimas. A presença de elementos-traço na composição dos minerais e das rochas é hoje fácil e rotineiramente pesquisada nos estudos petrológicos e geoquímicos.

Consoante o rigor exigido pelas análises ou possibilitado pelos equipamentos disponíveis, a sua quantificação é expressa em ppm (partes por milhão) ou em cifras ainda menores, em ppb (partes por milhar de milhões). O termo oligoelemento (do grego, oligós, ínfimo), usado por alguns autores, é ambíguo, pois tem sido usado quer como sinónimo de elemento menor quer como de elemento-traço. 

No que se refere ao nosso planeta, o magmatismo foi e é uma constante na respectiva dinâmica global, quer sob a forma de vulcanismo e subvulcanismo (ascensão de magma que acaba por arrefecer e solidificar a pequena profundidade, antes de atingir a superfície, como aconteceu com os maciços de Sintra, Sines e Monchique), quer de plutonismo (arrefecimento e solidificação em profundidade). 

Pelo que conhecemos da história da Terra, temos de admitir que o magmatismo sempre antecedeu e antecede os outros dois processos petrogenéticos (a sedimentogénese e o metamorfismo). Com efeito, só depois das primeiras rochas (magmáticas) formadas à superfície da Terra estarem expostas aos agentes externos é que pôde ocorrer a sua erosão seguida de sedimentação e/ou a sua transformação em rochas metamórficas. 

Nota: Além do magma silicatado, o mais abundante e significativo, existe um outro, muitíssimo reduzido à escala do que conhecemos, de natureza carbonatada, essencialmente formado por carbonatos (de cálcio, magnésio, ferro e outros) que está na base de rochas magmáticas designadas por carbonatitos.
A. Galopim de Carvalho.

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...