segunda-feira, 24 de maio de 2021

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

 Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto.

NOVIDADES EDITORIAIS 

Série “Humanitas - Supplementum” [estudos]

 - Fernando Rodrigues Junior, Breno Battistin Sebastiani & Bárbara da Costa e Silva (coords.), A Poética calimaquiana e sua influência na poesia epigramática (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021). 226 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-1950-7

[Este livro reúne textos apresentados no evento internacional Quinta Semana de Estudos sobre o Período Helenístico: a Poética Calimaquiana e sua Influência na Poesia Epigramática, realizado na Universidade de São Paulo. Trata-se de uma coleção de artigos que discutem aspectos do programa poético defendido na obra supérstite de Calímaco e a influência que exerceram na criação dos epigramas literários a partir do século III a.C. O livro, portanto, apresenta não somente reflexões voltadas à exposição da discussão metapoética empreendida por Calímaco em seus poemas, de modo a defender um estilo de composição, mas também aborda a recepção desse debate nas gerações de poetas subsequentes, incluindo, entre outros, Mnasalcas, Antípatro de Sídon, Meleagro, Marcial, Horácio e Gregório de Nazianzo.]

Série “Ideia” [estudos]

- Maria Luísa Portocarrero, Testemunho, atestação e conflito: balizas da Antropologia Hermenêutica de Paul Ricœur (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021). 434 p.

Link: http://monographs.uc.pt/iuc/catalog/book/133

[Esta obra apresenta uma defesa da unidade interna do pensamento filosófico de Paul Ricœur, muitas vezes encarado como disperso e passando de um tema para outro completamente diferente. Com efeito, a via longa do pensamento filosófico da pessoa, em Ricœur, obriga a diferentes abordagens, uma vez que o filósofo considera que o novo sujeito não se compreende de forma imediata, como acontecia com o ‘cogito’ tradicional. É através das expressões das suas capacidades e vulnerabilidades, das suas obras, ações e decisões históricas que podemos entender o caráter eminentemente ético da pessoa. O percurso necessário para o captar deve passar pelos signos, pelos textos e pela história, o que leva o filósofo a tratar filosoficamente e com detalhe questões como a linguagem, as formas da ação, a historiografia, a memória e as instituições.]

PODCAST DO PÚBLICO E FFMS: ASSIM FALA TIAGO OUTEIRO EM GOETTINGEN


https://www.publico.pt/2021/05/22/ciencia/noticia/assim-fala-tiago-outeiro-parkinson-1963365

EM DEMANDA DA FELICIDADE


 Nova contribuição do psiquiatra Nuno Pereira:
 

    A felicidade, como bem-estar com relativa estabilidade temporal, integra duas dimensões essenciais: uma afetiva (as emoções positivas) com benefício imediato e outra cognitiva, valorativa (o sentido da vida) com benefício adiado. As pessoas felizes experimentam predomínio de emoções positivas (como prazer, alegria) em relação às negativas (como tristeza, medo). O sentido da vida consiste num projeto que propicia autorrealização e tem valor. Não é plenamente feliz uma vida de prazer, mas à deriva, apenas centrada no ganho presente, nem uma vida com sentido, mas sacrificada, apenas orientada para o ganho futuro. Uma vida feliz corresponde a uma existência agradável e significativa, à semelhança duma viagem aprazível e com rumo, em que se aprecia o percurso e se cumprem as etapas em direção ao destino desejável.

     Tal como a boa viagem implica adequadas condições da estrada, do veículo e do condutor, também o bem-estar depende de fatores circunstanciais, biológicos e psicológicos. Contra a intuição geral, a maioria das circunstâncias de vida (tanto acontecimentos negativos como positivos) tem atenuado impacto nos níveis de felicidade (maior a curto prazo, mas menor a longo prazo), devido à espantosa capacidade de adaptação humana. Não obstante a importância do desenvolvimento económico, a correlação entre riqueza material e felicidade tende a esbater-se, após o equilíbrio financeiro e satisfeitas as necessidades básicas. O modo de viver feliz requer sobretudo bom estado do cérebro ligado ao corpo – isto é, da maquinaria cerebral, da neuroquímica e da disposição temperamental herdada – e competente controlo psicológico, com ampla margem educável.

    Não basta a ausência de sofrimento, neutralizando o estado negativo, importa outrossim promover o bem-estar, em que se procura acrescentar valor positivo à existência, conciliando o agradável com o sentido.

                                                                                   Nuno Pereira (psiquiatra)


Com a devida vénia, e subscrevendo a homenagem a Armando Policarpo, artigo de Rui Dilão, hoje no jornal As Beiras:

 O professor Armando Policarpo, recentemente falecido, é um dos nomes maiores da Física e da Ciência em Portugal no século XX. Após o seu doutoramento em Manchester em 1965, iniciou em Coimbra uma intensa atividade de investigação na física de detetores de radiação, utilizados nos grandes aceleradores de partículas. Este trabalho conduziria a uma forte colaboração com o físico francês Georges Charpak, laureado com Prémio Nobel da Física em 1992. Charpak, no seu discurso de aceitação do prémio, muito justamente refere: “este trabalho [de Armando Policarpo] foi para mim uma grande fonte de inspiração e mostrou ser muito importante para a experiência que adquiri e, em particular, para a compreensão dos princípios que governam a multiplicação de electrões em gases.” 

O professor Policarpo foi assim, juntamente com José Mariano Gago e Gaspar Barreira, um dos artífices da adesão de Portugal ao CERN, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, que simbolicamente se dá em simultâneo com a adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, a 1 de Janeiro de 1986. A inclusão do país no concerto das democracias liberais europeias, como forma de sedimentar a então jovem democracia portuguesa, encontra o seu contraponto científico nesta adesão ao CERN, extraordinária estrutura de cooperação científica nascida dos escombros da 2ª Guerra Mundial. 

Armando Policarpo foi assim também um dos universitários de proa que conduziu a Universidade Portuguesa do apagado papel que desempenhou durante a ditadura para o lugar de destaque que assume em todas as democracias liberais: formando as novas gerações no espírito e no método de análise crítica de todos os assuntos, que apenas os docentes que praticam a investigação científica em plena liberdade estão em condições de transmitir devidamente. Este espírito e este método transcendem em muito os limites da mera ciência, constituindo um ingrediente indispensável da participação cívica em democracia. 

Homem culto e cosmopolita, os seus interesses não se limitavam à ciência, mas tocavam ainda a literatura, a fotografia, o cinema, a espiritualidade ou o património. 

Numa altura histórica em que por todo o mundo e também em Portugal se levantam nuvens de obscurantismo, servas fi éis de velhos tiques autoritários, resplandece com maior brilho o legado comprometido de Armando Policarpo, cidadão, académico, cientista, político de ciência. 

Muito obrigado por tudo, Sr. Dr. Policarpo!

Rui Dilão

sábado, 22 de maio de 2021

Dedicatórias que fiz em 2017 e 2019 aos Estudantes de Química e Química Medicinal

[Nunca tive grande interesse pelas praxes. Sempre achei que eram formas de poder e, pior, de violência, mas ao longo dos anos fui começando a ter uma opinião mais favorável. Continuo a abominar as prepotências, mas aceito melhor a parte do divertimento. E tinha de acontecer: em 2017 e 2019 convidaram-me para escrever no livro dos estudantes, eu que nunca gostei, nem participei nas praxes. Foi isto que saiu. Lembrei-me hoje de novo quando Luis Miguel Cintra e Jorge Silva Melo receberem doutoramentos honoris causa].  

Jovens estudantes de Química e Química Medicinal!

É com enorme prazer que vos escrevo estas linhas para acompanhar um dos ritos de passagem que todos os anos, desde tempos imemoriais, estudantes como vós, celebram, evocando de forma profundamente telúrica, subconsciente e oculta, o que é a Universidade.

Universidade é Juventude, Liberdade e Química. Juventude, porque todos os anos se renova, refaz e renasce, com a chegada dos novos estudantes. Liberdade, porque o conhecimento e a sua transmissão devem ser livres para serem responsáveis, criadores e úteis. Química, porque a renovação e a liberdade geram transformações profundas que se mantém em equilíbrio dinâmico. Já era assim antes de Immanuel Kant indicar a liberdade e a renovação como os maiores bens da universidade ou de von Humboldt reconhecer a união fundamental entre o ensino e a investigação. Na verdade, a ideia de Universidade e as suas raízes profundas na juventude, liberdade e equilíbrio são tão fortes, que estão muito para além dos que por aqui vão passando – alguns como cão por vinha vindimada, citando o Miguel Torga do Diário -, e vão bebendo, dando de beber, ou mergulhando nesta fonte sempre renovada que é a Universidade.

Os 726 anos da Universidade de Coimbra seguem a par com a velha canção Gaudeamus Egitur, a qual é ainda mais antiga do que a Universidade de Coimbra. Diz a canção: Gaudeamus Igitur, Juvenes dum sumus. (Alegremo-nos, portanto, enquanto somos jovens). E mais à frente: Vivat academia! Vivant professores! Vivat membrum quodlibet, Vivant membra quaelibet, Semper sint in flore. (Viva a academia! Vivam os professores! Viva cada estudante! Vivam todos os estudantes! Que estejam sempre em flor). Releia-se a última frase: que estejam sempre em flor, ou seja sempre jovens, com ideias frescas, preparados para frutificar e receber e trocar o pólen do conhecimento. Com estas metáforas florais salto a parte da canção que, embora divertida, poderá ser considerada sexista e leio-vos mais um verso: Pereat tristitia, Morra a tristeza! Universidade é também Alegria!

Finalmente, dirijo-me aos jovens futuros químicos e químicos medicinais. Tornar-se químico é adquirir uma forma única de ver o mundo e desenvolver a capacidade de o transformar (em geral para melhor), inventando ou descobrindo novas moléculas e materiais, controlando com rigor as suas propriedades. Actualmente, são descobertas ou inventadas mais de 15 mil moléculas por dia. No decurso da vossa licenciatura serão, dependendo da vossa pressa (ou vagar) mais de 16 milhões de novas moléculas. Entre o momento em que entraram na universidade e o dia de hoje ficaram disponíveis moléculas para o tratamento, por exemplo, de doenças como a hepatite C e alguns tipos de cancros, entre muitas outras. Alguns de vós estiveram presentes, ou terão essa oportunidade no futuro,  nas descobertas e na escrita de trabalhos que poderão mudar o mundo e a vida das pessoas. São neste momento conhecidas mais 133 milhões de substâncias, mas há um espaço químico de cerca de 1 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 milhões de substâncias à espera de serem descobertas!

Com o que o que aprenderam e viveram no Departamento de Química da Universidade de Coimbra que sejam  seta e laser apontados ao futuro. Uma seta sem amarras e um laser que não se apague, contribuindo para o bem e progresso da humanidade, não deixando, como na velha canção, de estar sempre em flor.  

[Em 2019, convidaram-me de novo. Assumi renovar o texto que estava acima. Parece quase auto-plágio, mas o objectivo era realçar o quão pouco parece que se evolui nestas coisas, mas se lerem com mais atenção verão que o número de substâncias descobertas se alterou. Se o escrevesse hoje seriam mais de 180 milhoẽs. Parece que nada muda, mas as coisas modificam-se e muito.]

Jovens estudantes de Química e Química Medicinal!

É com enorme prazer que revisito e renovo o orgulho de vos acompanhar no vosse crescimento como pessoas, cidadãos e químicos, e escrevo umas linhas para o guião do rito de passagem que todos os anos, desde tempos imemoriais, estudantes como vós celebram, evocando o que é ser Universidade.

Disse aos vossos colegas de há uns anos: Universidade é Juventude, Liberdade e Química. Juventude, porque todos os anos se renova, refaz e renasce, com a chegada dos novos estudantes. Liberdade, porque o conhecimento e a sua transmissão devem ser livres para serem responsáveis, criadores e úteis. Química, porque a renovação e a liberdade geram transformações profundas que se mantém em equilíbrio dinâmico. As palavras são as mesmas, mas o seu significado é renovado. Universidade é também a alegria de  se renovar, de ser Estudante e querer saber sempre mais, de ultrapassar fronteiras, de derrubar barreiras, conhecer novos mundos,  produzir saber e cultura, fazer amizades para a vida e contribuir para transformar e melhorar o mundo.

Um químico é alguém que adquire uma forma única de ver o mundo e desenvolve a capacidade de o transformar,  inventando ou descobrindo novas moléculas e materiais, controlando com rigor as suas propriedades. São conhecidas no dia em que vos escrevo mais de 148 milhões de moléculas, sendo descobertas ou inventadas mais de 15 mil por dia. No decurso das vossas licenciatura e mestrado serão descobertas ou inventadas mais de 27 milhões de novas moléculas. Entre o dia em que entraram na universidade até ao dia de hoje ficaram disponíveis moléculas para o tratamento de doenças que não tinham cura e materiais mais sustentáveis que não existiam. Alguns de vós podem ter estado envolvidos nessas descobertas, outros poderão ter essa oportunidade no futuro, mas todos podem à sua maneira e com o que aprenderam no Departamento de Química da Universidade de Coimbra contribuir para o bem comum e para o progresso da humanidade. E, para isso, tão importante como toda a química que puderam aprender, é terem desenvolvido espírito crítico e liberdade de pensamento que vos façam inteiros e completos, capazes de enfrentar os sucessos e as dificuldades, as alegrias e as tristezas, o conhecido e o desconhecido, sem receio e com sabedoria, como no famoso poema de Kipling, If, preenchendo cada inesquecível minuto com sessenta segundos de uma corrida que vale a pena.

Termino com a evocação do velho, mas sempre renovado, hino universitário, Gaudeamus Egitur, Juvenes dum sumus. (Alegremo-nos, portanto, enquanto somos jovens), Vivat academia! Vivant professores! Vivat membrum quodlibet, Vivant membra quaelibet, Semper sint in flore. (Viva a academia! Vivam os professores! Viva cada estudantes! Vivam todos os estudantes! Que estejam sempre em flor). É isso: o meu maior desejo é que estejam sempre em flor, que mantenham a juventude de pensamento e sejam sempre capazes de originar novos frutos. 

sexta-feira, 21 de maio de 2021

UMA BELA SURPRESA POÉTICA: ROUPÃO AZUL

 


Novo texto de Eugénio Lisboa:
 

Este livro de poesia, singularmente intitulado ROUPÃO AZUL- o que logo indicia uma invulgar temeridade da parte da autora, ao trazer, com evidência, para o universo da poesia, a materialidade, em princípio, pouco “poética”, de um roupão de trazer por casa – acaba de ser galardoado com o Prémio Glória de Sant’Anna, criado em homenagem à notabilíssima poetisa que amou e cantou o mar – a água – de Pemba, no norte de Moçambique.

ROUPÃO AZUL é uma obra, a vários títulos, notável, não me parecendo, pois, difícil de aceitar que tenha sido escolhida, entre outras de autores mais conhecidos, visto ser este o primeiro livro da autora.

Os poetas, embora tenham poderes limitados, quando se trata de salvar o mundo, têm poderes inesperados, quando se trata de dilatá-lo e enriquecê-lo pela força imperiosa da imaginação e pela manipulação inovadora das palavras. Segundo Jean Cocteau, os poetas até têm a capacidade de se lembrarem do futuro, isto é, de terem já criado o que ainda não existe.

ROUPÃO AZUL interpela-nos com decisão e vigor, glosando uma singular relação entre filha e pai, por via de uma escrita serena e neutra, quase ausente, em fulgurante contraste com o que a análise daquela relação nos desvela. Fala das coisas mais dolorosas e delicadas numa linguagem tranquila, que se não deixa encrespar nem mesmo pela revelação mais dilacerante. Faz-nos regressar a Valéry, quando dizia que “a elegância é a arte de não se fazer notar aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir”. É o que mais nos assalta, neste belíssimo primeiro livro,: uma deliberada fuga à ênfase da escrita, para melhor desvelar a intensidade do sentido: falar menos para dizer mais. Ou, por outras palavras: o “menos” como catapulta eficaz do “mais”. Uma escrita despojada de artifícios, de buzinas, de metáforas ostensivas, quase pacífica, sem gritos nem demasiados desvelos, ao serviço altamente produtivo de uma sondagem de grande amperagem e dolorosa claridade. Estou portanto a insinuar uma grande nobreza de dicção, um enorme pudor que, nem por ser pudor, receia entregar-nos as descobertas mais perturbantes. Uma arte que recusa a ênfase para nos poder dar um máximo de intensidade. Por outras palavras: o melhor do classicismo ao serviço da mais genuína modernidade.

Diante de uma primeira obra desta qualidade e desta ousadia, que se não exibe mas está lá, fica-se numa justificada expectativa quanto a obras futuras desta autora, de que aqui dizemos o nome, para que conste: Ana Paula Jardim.

Parabéns ao júri que, em boa hora, assinalou este belo livro, e à editora Guerra & Paz, que teve a ousadia de a publicar em tempos recessivos de pandemia. A poesia também serve para nos proteger e surpreender e encantar, quando, lá fora, um inimigo implacável nos cerca e nos ameaça. Aliarmo-nos à poesia e vivermos com ela é um modo galhardo de resistirmos. Talvez o melhor, o mais eficaz e o menos dispendioso. Além de que, lendo-a, nos estamos também a ler a nós próprios. Em especial, quando ela se acolhe em livros com a força esbelta e bem vigiada deste admirável ROUPÃO AZUL.

Eugénio Lisboa

Nova ATLANTIS

 A “Atlantís” acaba de publicar o seu número mais recente (em acesso aberto). Convidamos a navegar pelo sumário da revista para aceder à informação.

Imprensa da Universidade de Coimbra

Atlantís - review

v. 39 (2021)

Sumário

https://impactum-journals.uc.pt/atlantis/index

[Recensão a] BELLUCCI, Nikola, La storia della collezione egizia del Museo Archeologico Civico di Modena. Collana di studi di egittologia e civiltà copta, 3, Canterano, Aracne, 2018. 125 pp. ISBN: 978-88-2551-910-5

Marcella Boglione

[Recensão a] JACOBS, Susan G., Plutarch’s Pragmatic Biographies: Lessons for Statesmen and Generals in the Parallel Lives, Leiden & Boston, Brill Academic, 2018. 471 pp. ISBN: 978-90-04-27660-4

Joaquim Pinheiro

[Recensão a] MARINCOLA, John, On Writing History: from Herodotus to Herodian, London, Penguin Classics (Penguin Books), 2017. 600 pp. ISBN: 978-0-141-39357-5

Martinho Soares

[Recensão a] O’MEARA, Dominic J., Cosmology and Politics in Plato’s Later Works, Cambridge, Cambridge University Press, 2017. xi + 157 pp. ISBN: 978-110-7183-27-8

Daniel Vázquez

[Recensão a] ROSSETTI, Livio, Un altro Parmenide. Volume I. Il sapere 'peri physeos'. Parmenide e l’irrazionale, Bologna, Diogene, 2017. 184 pp. ISBN: 978-88-93-63055-9

José Trindade Santos

[Recensão a] CHAISEMARTIN, Nathalie & THEODORESCU, Dinu, Le théâtre d’Aphrodisias: les structures scéniques (Aphrodisias 8), Wiesbaden, Reichert Verlag, 2017. 368 pp. ISBN: 978-39-54-90112-8

Adriane da Silva Duarte

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Atlantís
http://impactum-journals.uc.pt/atlantis

Original é a Cultura: nas margens da família

https://sicnoticias.pt/cultura/2021-05-21-Original-e-a-Cultura-Nas-margens-da-Familia-7dc5a9a6

Uma história de maus Fígados | Ciência às Seis (on-line)

quinta-feira, 20 de maio de 2021

CAROLINA E JORGE: DIÁLOGO EPISTOLAR


Meu artigo no último JL:

A Carolina do título é D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos (1851 – 1925), a filóloga, crítica literária e professora universitária luso-alemã, que foi a primeira professora do ensino superior em Portugal: foi nomeada professora de Filologia Germânica na recém-formada Universidade de Lisboa em 1911, mas logo se transferiu para a Universidade de Coimbra, pois ficava mais perto do Porto, onde residia com o marido Joaquim de Vasconcelos (1849-1936), historiador, musicólogo e crítico de arte. A sua bibliografia, reunida em 1933 num opúsculo da Imprensa da Universidade de Coimbra, inclui 171 publicações, a primeira das quais vinda a lume quando tinha apenas 16 anos e última seis anos após a sua morte. Escreveu, sempre com grande rigor e por vezes com brilhante pioneirismo, sobre os cancioneiros medievais, Gil Vicente, Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro, Luís de Camões, Uriel da Costa, etc. Perto do fim, resumiu assim o seu currículo: “Não tenho biografia. Gastei a minha vida a estudar.”

Por seu lado, o Jorge do título é Ricardo Jorge (1858-1939), o médico, higienista e professor de Medicina portuense (o pai, de profissão modesta, tinha raízes em Vouzela). Formado na escola Médico-Cirúrgica do Porto em 1879, Jorge começou por se interessar por neurologia, para se passar a dedicar à saúde pública. Em 1899 identificou a peste bubónica no Porto, mas teve de fugir à fúria do povo descontente com as medidas de isolamento profiláctico. Passou então a ser professor de Higiene na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e fundou o Instituto Central de Higiene, que é o antecessor do  Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge. Em Lisboa enfrentou várias epidemias do início do século XX como a pneumónica, a tuberculose, a cólera e o tifo. Da sua extensa bibliografia, constam títulos científicos pioneiros como Higiene Social Aplicada à Nação Portuguesa e A Peste Bubónica do Porto 1899, e outros de interesse histórico-literário como Amato Lusitano, Canhenhos dum Vagamundo e Sermões de um Leigo.

Carolina Michaëlis e Ricardo Jorge corresponderam-se sobre assuntos literários entre 1909 e 1925, sendo conhecidos 132 espécimes. As cartas de Carolina para Jorge estão na Biblioteca Nacional e as de Jorge estão na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e na colecção privada de um seu bisneto. A Imprensa da Universidade de Coimbra acaba de publicar esse diálogo epistolar: Correspondência – Carolina Michaelis de Vasconcelos e Ricardo Jorge. São autores da muito cuidada edição, Maria Manuela Delille, professora de Germânicas jubilala, e a Isabel João Ramires, bibliotecária da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. A edição em pdf é facilmente acessível: https://digitalis-dsp.uc.pt/jspui/bitstream/10316.2/2725/3/Carolina%20Michaelis.preview.pdf Merece louvor o amplo esforço daquela editora no domínio do digital.

Para além de uma muito útil introdução, que coloca as cartas no seu contexto, e da correspondência propriamente dita, rigorosamente transcrita e anotada, o livro tem no final uma lista cronológica das cartas e bilhetes postais, uma tábua comparativa da obra de Ricardo Jorge Francisco Rodrigues Lobo. Estudo biográfico e crítico, publicada na Revista da Universidade de Coimbra (1913-1918) e em separata em 1920 (há uma edição facsimilada da Fenda, 1996), e uma relação das cartas eruditas de Carolina publicadas até agora na íntegra (entre os seus correspondentes estão nomes como Marcelino Menéndez Pelayo, Afonso Lopes Vieira, Teófilo Braga e Oliveira Martins).

O que diziam um ao outro uma grande filologia e um grande médico? Os dois sábios carteavam-se trocando informações e publicações de natureza literário-histórica. Foi Ricardo Jorge, mais novo e grande admirador de Carolina, que tomou a iniciativa de lhe escrever  oferecendo-lhe um seu artigo saído numa revista espanhola sobre a comédia La Celestina, de Fernando de Rojas (1499). O médico albicastrense Amato Lusitano (João  Rodrigues de Castelo Branco), que Jorge biografou, refere essa comédia  no seu  livro Index Dioscórides (1536). E Carolina tinha escrito sobre La Celestina em 1901. O apreço de Jorge era inteiramente retribuído por Carolina. Os dois entendiam-se muito bem, apesar de um ser de ciências e outra de letras. Foram ganhando familiaridade ao longo dos anos, cada um contando ao outro os seus achaques e os lugares  por onde tinham andado. Carolina reviu as provas da referida monografia de Jorge sobre Francisco Rodrigues Lobo (1574-1621; comemoram-se este ano 400 anos da sua morte), o escritor leiriense autor de Corte na Aldeia (1619), considerada a aparição do barroco em Portugal. Além disso, Carolina escreveu para Jorge o prefácio de A Intercultura de Portugal e Espanha (1921). Encontram-se nas cartas referências ao panorama literário da época, com Jorge a insurgir-se violentamente contra um plágio de Teófilo Braga, e ao panorama político-cultural, com Carolina a bater a porta com estrondo à Academia das Ciências, onde em 1911 tinha sido um das duas primeiras mulheres a entrar, por causa de uma catilinária antialemã divulgada por alguns académicos. Ambos publicaram na revista Lusitânia, da qual Carolina foi directora.

O volume agora publicado mostra como há mais de um século havia um diálogo profícuo entre ciências e letras. No seu livro sobre Rodrigues Lobo escreve Jorge: «(...) Ciências e letras, para estes olheiros sobrecenhudos, têm fosso de permeio. Se ao letrado chega a ser lícito divagar pelos domínios do cientista, o inverso é julgado defeso; o profissional da ciência arrisca-se a sair lesado na  reputação, e até na seriedade do seu ofício ou do seu cargo, se lhe descobrem ressaibos de cultura literária – quando mais não seja o de escrever com relativa correcção linguística e elocutiva.»  E, noutro passo: «Ciências e letras, que absurda dicotomia! Ao transitar daquelas a estas, não dei fé da mudança – os mesmos métodos, os mesmos processos de pesquisa.  Direi até que no ramo da erudição encontrei maior rigor e escrúpulo que nas ciências de observação e experiência, e nomeadamente na medicina. Senti que o meu ser lógico se robustecera ao treinar-me nas questões da paleo-literatura.»  Ora aqui está um belo elogio das letras, vindo das ciências!

 

 

 

PODCAST "ASSIM FALA A CIÊNCIA" QUE FIZ COM CAETANO REIS E SOUSA


https://www.publico.pt/2021/04/24/ciencia/noticia/caetano-reis-sousa-portugues-royal-society-1959673

APOCALIPSES ONTEM


Minha recensão no último "As Artes entre as Letras":

Joaquim Fernandes (JF, n. 1946) é um jornalista, historiador e professor universitário que se especializou no estudo de fenómenos estranhos. A tese de doutoramento que defendeu na Faculdade de Letras da Universidade do Porto intitula-se O Imaginário Extraterrestre na Cultura Portuguesa - do fim da Modernidade até meados do século XIX (2004). Saiu uma versão impressa intitulada Moradas Celestes: O imaginário extraterrestre na cultura portuguesa (Âncora 2014). Os primeiros livros do autor tinham a ver com os fenómenos extraterrestres: OVNIS em Portugal (Nova Crítica, 1978). JF tem continuado a escrever sobre o assunto: De Outros Mundos: Portugueses e extraterrestres no século XX (Planeta, 2009) e Ficheiros Secretos à Portuguesa: Avistamentos de Ovnis, fenómenos impossíveis e outros casos à espera de explicação (Manuscrito, 2018). Confesso que nunca encontrei grande substância em livros sobre fenómenos OVNI, que têm sempre um público interessado, mas que já estiveram mais na moda do que hoje. Costumo dizer que sei tudo sobre “discos voadores”: não existem! Os livros de maior sucesso de JF devem ter  sido aqueles, em colaboração com Fina d’Armada, pseudónimo de Josefina Moreira (1945-2014), historiadora e poeta, que abordaram as aparições de Fátima, explorando a possibilidade de serem fenómenos extraterrestres: Intervenção Extraterrestre em Fátima: As aparições e o fenómeno ovni (Bertrand, 1981), As Aparições de Portugal e o Fenómeno Ovni (Estampa, 1995) e Fátima: Nos Bastidores do Segredo (Âncora, 2002). JF escreveu a solo recentemente As Outras “Fátimas” (Manuscrito, 2021), um livro sobre aparições marianas que não tiveram a “bênção” da Igreja. Não penso que haja qualquer substância em explicações extraterrestres de Fátima. É muito mais provável que  “fenómenos inexplicados” sejam explicáveis por causas terrestres, humanas ou não, do que por quaisquer causas extraterrestres.

A vasta bibliografia de JF inclui vários livros, relacionados com a sua tese doutoral, que descrevem, documentadamente, o “Portugal prodigioso”, o Portugal onde, ao longo dos séculos, a religião e a superstição se cruzam com a astronomia e a meteorologia. JF conhece muitas fontes bastante curiosas e permite-nos perceber como é que o irracional prevaleceu muitas vezes sobre o racional (foram longos os tempos pré-científicos e ainda hoje não falta quem ignore as explicações científicas). Elenco alguns títulos, que tive curiosidade e gosto em ler: Halley: O cometa da República (Círculo de Leitores, 2010), História Prodigiosa de Portugal: Mitos e maravilhas (QuidNovi, 2012), História Prodigiosa de Portugal: Magias e mistérios (Verso da História, 2015), Portugal Insólito: Enigmas, crenças, experiências sobrenaturais e outros mistérios (Manuscrito, 2016) e Portugal: Uma História de Prodígios (Book Cover, 2020). Acho esta literatura de JF, bem escrita, mais interessante do que a referida atrás, porque na maioria das vezes ajuda a compreender e desmistificar histórias fabulosas. De entre as obras de JF, gostaria de destacar um original dicionário sobre portugueses que merecem ser mais reconhecimento, para o qual escrevi o prefácio - O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos  (Círculo de Leitores, 2008) - e uma antologia de poesia portuguesa sobre astronomia, com prefácio do saudoso Manuel António Pina - Mitos, Mundos e Medos: O céu na poesia portuguesa da tradição popular ao século XX (idem, 2010). Acho também interessantes Newton Herético (Ésquilo, 2006), em coautoria, sobre o lado secreto do grande físico inglês, e O Livro do Universo: A revelação do Cosmos e a procura do outro (Quidonovi, 2013), com prefácio do astrofísico Paulo Gali Macedo, sobre o lugar do homem do Universo. JF também é dado à ficção. Nesta área escreveu dois romances, que ainda não li: O Cavaleiro da Ilha do Corvo (Circulo de Leitores, 2008) e As Curandeiras Chinesas. Um motim que abalou a I República (Gradiva, 2014). É ainda poeta: escreveu Multiversos (Seda Publicações, 2018), com prefácio de Isabel Ponce de Leão.

Acabo de ler o último livro de JF: Apocalipses: Os vários fins do mundo da história de Portugal, publicado pela Contraponto, com prefácio de Miguel Real (que já tinha prefaciado As Curandeiras Chinesas). Os fins do mundo do título, todos eles frustrados, são, como destaca a contracapa,  muito variados; “cometas, auroras boreais, eclipses, terramotos, dilúvios, pragas, epidemias, invasões extraterrestres e outros momentos que sobressaltaram o país”. Claro que as “invasões extraterrestres” são só ilusão. O autor conta a história do programa de Matos Maia em 1958 na Rádio Renascença sobre uma suposta invasão de marcianos, recriando entre nós a famosa emissão de Orson Welles nos EUA baseada na Guerra dos Mundos de H. G. Wells, e a da repetição desse embuste em 1988 na Rádio Braga. JF fala, no resto do livro, de muitos fenómenos naturais que causaram grande alarme social. Os cometas e eclipses sempre excitaram a imaginação humana, quando se desconhecia a sua explicação científica  e mesmo depois (há pouco mais de cem anos temia-se o cometa Halley). Outros fenómenos naturais como as auroras boreais também suscitaram pânico (viu-se uma em Portugal em 1938). E o mesmo se passou com os terramotos, dos quais o maior, de longe, foi o que devastou Lisboa e o Sul do país em 1755. Nos dilúvios estão incluídos eventos raros como as chuvas de areias que ocorreram no Minho em 1759. Por sua vez, as pragas e epidemias têm sido recorrentes, desde a peste negra que cá chegou em 1348 até à actual Covid, passando pela pneumónica de 1918-1919. No final são referidos apocalipses contemporâneos, que vêm menos a propósito num livro centrado em Portugal, como o receio do “bug do milénio”, associada ao ano 2000, ou o medo mais delirante de um apocalipse indicado num calendário maia. Todas as notícias sobre o fim do mundo foram manifestamente exageradas.

Haverá fim do mundo? A ciência prevê que, daqui a 5000 mil anos, a Terra não será um bom lugar para estar… Mas, no Universo todo, não haverá fim do mundo, mas tão só um arrefecimento muito lento: o Universo tem um futuro infinito à sua frente. O mito também é eterno: acompanhar-mos-á sempre, ou, pelo menos, enquanto existirmos.

Afonso Cruz e o Vício dos Livros


Minha recensão no I de hoje:

Tenho o vicio dos livros. Não resisto nunca a entrar numa livraria ou alfarrabista. Leio pelo menos um livro por semana para fazer as recensões para este jornal e, por vezes, são mesmo dois ou três. Já me aconteceu regressar de uma livraria todo contente com um livro novo na mão, para verificar na minha biblioteca que afinal já tinha esse título, não passando de uma nova edição: não fico desconsolado, pois, se o tenho em duplicado, posso sempre oferecê-lo. E, de facto, duas edições diferentes são dois livros diferentes.

Se houvesse uma comunidade de “bibliófilos anónimos” não hesitaria em entrar, procurando apoio para “alcançar e manter a sobriedade através da abstinência total” de compra de livros. Encontraria lá gente muito interessante, como, por exemplo, Afonso Cruz, que acaba de publicar O Vício dos Livros, com a chancela da Companhia das Letras (do grupo Penguin Random House). É uma bela edição de capas duras, com ilustrações do próprio autor, que foi lançada no Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, 23 de Abril.

Tive a oportunidade de entrevistar Afonso Cruz em 23 de Novembro de 2018, no 10.º aniversário do Rómulo, Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, o centro que fundei à volta de uma biblioteca que homenageia Rómulo de Carvalho (nome real do poeta António Gedeão). Por essa biblioteca têm passado escritores como João Lobo Antunes, e José Tolentino de Mendonça  e Onésimo Teotónio Almeida. Tenho oferecido muitos livros a essa biblioteca, juntando-os a livros oferecidos, entre outros, por Guilherme Valente, o editor da Gradiva, e pela família de António Manuel Baptista, o grande divulgador da ciência. Também lá estão alguns livros de Afonso Cruz, que ele assinou na altura.

Afonso Cruz dispensa apresentações para além daquela que ele, com concisão, faz de si próprio nas badanas dos seus livros: “Escritor, ilustrador, cineasta e músico da banda The Safed Lam. Em Julho de 1971, na Figueira da Foz, era completamente recém-nascido, e haveria, anos mais tarde, de frequentar lugares como a António Arroio, as Belas-Artes de Lisboa, o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e mais de meia centena de países. Assina, desde Fevereiro de 2013, uma crónica mensal no Jornal de Letras, Artes e Ideias sob o título «Paralaxe». Recebeu vários prémios e distinções nas diversas áreas em que trabalha, vive no campo e gosta de cerveja.”

Fui, depois da entrevista no Rómulo, jantar com ele, tendo confirmado que gosta de cerveja, bebida que, segundo me explicou, era na Terra Santa, mais comum do que o vinho no tempo de Jesus Cristo. Daí o curioso título de um dos seus romances, Jesus Cristo Bebia Cerveja (Alfaguara, 2012). Os seus títulos primam, aliás, pela originalidade. O primeiro, com um título também de ressonâncias religiosas, A Carne de Deus (Bertrand, 2008), é uma história de aventuras tendo a maçonaria como pano de fundo. Entre esses dois livros saíram A Boneca de Kokoschka (Quetzal, 2010; reedição: Companhia das Letras, 2018) e O Pintor Debaixo do Lava-Loiças (Caminho, 2011). Seguiram-se, com uma regularidade impressionante, outros romances: O Livro do Ano (Alfaguara, 2013), O Cultivo de Flores de Plástico (idem, 2013), Para Onde Vão os Guarda-Chuvas (Companhia das Letras, 2013), Flores (idem, 2015), Nem Todas As Baleias Voam (idem, 2016), Jalan Jalan: Uma leitura do mundo (idem, 2017; “jalan” significa, em indonésio, “passear”), O Princípio de Karenina (idem, 2018), e Paz Traz Paz (Companhia das Letras, 2019). O estilo literário é, como os títulos, bastante original. Alguns destes livros foram premiados: por exemplo, Jalan Jalan ganhou em 2017 o Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga da Associação Portuguesa de Escritores e da Câmara Municipal de Braga.

Gosto particularmente da colecção de sete livros de Afonso Cruz, intitulada Enciclopédia da Estória Universal, quase todos da Alfaguara, saídos entre 2009 e 2018. São conjuntos de histórias apócrifas e aforismos de autores fictícios. De início estranhei, mas depois entranhei.

Afonso Cruz escreveu também vários livros infanto-juvenis, sendo o primeiro Os Livros que Devoraram o Meu Pai (Caminho, 2010) e o mais recente Como Cozinhar uma Criança (Alfaguara, 2019). Mais uma vez títulos extraordinários. Um outro livro recente dele é o ensaio O Macaco Bêbedo Foi à Ópera (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2019), uma breve história cultural do álcool, com histórias sobre cerveja e vinho.

O Vicio de Livros é uma colectânea de pequenos textos, histórias ou divagações à volta de livros, que, na sua maior parte, viram a luz do dia no Jornal de Letras. O primeiro, “A primeira vez que conheci um esquifobético (A neve desaparece mas o original não desoriginaliza)”, conta os rabiscos que um brasileiro maluco fez intempestivamente no livro A Brincadeira de Milan Kundera que Cruz estava a ler, uma algaravia que o “esquifobético” – um termo não dicionarizado -  traduziu para dar a frase do parêntesis. O último, “A voz dos livros”, conta a oferta que um avô lhe fez do livro Eles Vieram de Madrugada, de Manuela Câncio Reis, a mulher do escritor Soeiro Pereira Gomes, que foi preso político durante longos anos. A dedicatória do avô, também preso político, dizia: “Para o meu neto, para que ele perceba um pouco daquilo que passei”. Escreve Cruz: “Este livro deixou então de ser de Manuela Câncio Reis para passar a ser o livro que o meu avô me escreveu. E a voz que ouvi enquanto lia o livro era a sua.”

Revelo um pouco deste estimulante livro sobre livros. Aprendi que os livros podem matar. O texto “Porém, a poesia pode matar amigos” conta a história de dois amigos que discutiram qual era o género literário mais significativo, a poesia ou a prosa. O amante de poesia acabou por matar o antagonista à facada. No texto “O poeta que foi assassinado pelos seus próprios livros,“ Afonso Cruz, depois de descrever casos reais em que a queda de uma biblioteca matou o seu proprietário, escreve: “Qualquer bom leitor, quanto maior for a sua biblioteca, mais sente o peso esmagador do que leu e, principalmente, do que não leu (…) e nunca poderá ler, ainda que, felizmente, o faça de forma menos literal do que os exemplos antes referidos.” A literatura, se por vezes mata, noutras vezes pode salvar. Em “A morte, perante os livros, fica sem poder” o autor cita um estudo da Universidade de Yale que expõe os benefícios da leitura: “Ler 30 minutos por dia fará viver, em média, mais dois anos. Se não for pelo prazer de ler, talvez devamos ler pela nossa saúde.”

Um dos textos que mais gostei está relacionado com a física. Intitulado “Principio de Anti-Fermat”, parte da experiência do autor, adolescente, a ler num autocarro a caminho da escola: “O princípio de Fermat diz-nos que a luz não percorre a distância mais curta, mas sim o tempo menor entre dois pontos. Um leitor, muitas vezes, tenta encontrar o caminho mais lento entre dois pontos. Era isso o que eu fazia. Ia para a escola pelo caminho com mais palavras.”

Sobre a liberdade que a leitura confere, Afonso Cruz conta a história de uma mulher do Kuwait que abandonou as vestes e os hábitos tradicionais: “Comecei a ler e libertei-me”. Há outras citações. Por exemplo, de uma inscrição egípcia: “Na biblioteca do faraó Ramsés II estava escrito por cima da porta de entrada: Casa para terapia da alma”. E do escritor francês Jules Renard: “Quando penso em todos os livros que tenho para ler, tenho a certeza de ainda ser feliz.” São citados outros escritores como Plutarco, Lewis Carroll, Edith Wharton, Stefan Zweig, Franz Kafka, Aldous Huxley, Rainer Maria Rilke, Elias Canetti, George Steiner e Rosa Montero.

O texto “O que se esconde debaixo de um poema” fez-me lembrar Jorge Luís Borges: “Um poeta, quando escreve um poema e levanta a folha onde o escreveu, descobre uma infindável pilha de poemas onde foi escrita toda a poesia que precedeu o seu poema, e ao pousar essa mesma folha verá que já contém o peso de incontáveis poemas escritos sobre aquele que acabou de escrever.” De facto, os livros têm sempre um passado e um futuro.

Vou colocar O Vício dos Livros na minha biblioteca perto de outros livros sobre livros. Acho que fica bem perto do livrinho de Montaigne Dos Livros (Teorema, 1999), que aliás Afonso Cruz cita, e onde o escritor francês comenta as suas leituras: “Não me apego aos livros novos porque os antigos me parecem mais ricos e mais sólidos”. E do de Proust O Prazer da Leitura (idem, 1997), onde se lê: “O que difere essencialmente entre um livro e um amigo, não é a sua maior ou menor sensatez, mas a maneira como se comunica com ele; a leitura, ao arrepio da conversa, consistindo para cada um de nós em receber comunicação de outro pensamento, mas permanecendo a sós.”

Na biblioteca do Rómulo, em Coimbra, os livros de Afonso Cruz estão na companhia dos de Carl Sagan, que, em Cosmos (Gradiva, 2020), escreveu: “Os livros permitem-nos viajar através do tempo, de beber na própria fonte o saber dos nossos antepassados. A biblioteca põe-nos em contacto com as concepções e o saber, a custo extraídos da natureza, das maiores mentes até agora existentes, com os melhores professores, provindos de todo o planeta e de toda a nossa história, para nos instruírem sem nos fatigarmos e para nos inspirarem a dar a nossa contribuição ao saber colectivo da espécie humana.” O mais recente livro de Afonso Cruz entrará um dia no Rómulo. Tenho esperança de que ajude a fomentar o vício dos livros.

PALESTRA PARA O BRASIL: HISTÓRIA DA CIÊNCIA NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA


 

Ondas gravitacionais: ‘ouvir’ o Universo

   


A SAC - Secção de Astronomia da Associação Académica de Coimbra e o RÓMULO - Centro  Ciência Viva da Universidade de Coimbra organizam uma sessão conjunta no próximo dia 25 de Maio de 2021, pelas 18 horas. Será orador Carlos Fiolhais, professor de Física da Universidade de Coimbra, que falará sobre “Ondas gravitacionais: ‘ouvir’ o Universo”. Serão moderadores da sessão  Luís Januário e Diogo Eufrásio, representantes da SAC. A sessão ficará registada no PODSAC, o podcast da SAC.

O evento online destina-se a todo o público com interesse em questões de astrofísica, mas muito em especial os estudantes de ciências. Haverá oportunidade para colocar questões no final.

Para aceder à sessão via zoom bastará entrar no evento criado no Site e no Facebook.

Ou Entrar na reunião Zoom:   https://videoconf-colibri.zoom.us/j/83821183583

ID da reunião:  838 2118 3583

Resumo:

As ondas gravitacionais são oscilações do espaço-tempo que Einstein previu em 1916 como consequência da sua teoria da relatividade geral e que só recentemente, em 2015,  foram detectadas por um observatório nos Estados Unidos construído propositadamente para o efeito (LIGO). A primeira observação resultou da fusão de dois buracos negros com algumas dezenas de massas solares para darem origem a um único superburaco negro. Foi a primeira prova directa da existência de buracos negros. A descoberta, que foi recompensada com o Prémio Nobel da Física de 2017, abriu as portas a novas possibilidades de percepção do Universo: até agora só podíamos vê-lo, agora podemos também, num certo sentido, “ouvi-lo”.

Biografia:

Carlos Fiolhais nasceu em Lisboa em 1956. Licenciado em Física na Universidade de Coimbra e doutorado em Física Teórica na Universidade Goethe, em Frankfurt, Alemanha, em 1982, é professor catedrático de Física na Universidade de Coimbra desde 2000. Foi professor convidado em universidades de Portugal, Brasil e Estados Unidos. Publicou mais de 60 livros. É autor de mais de 150 artigos científicos (um dos quais com mais de 20.000 citações, o mais citado de cientistas em Portugal). Foi director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Ganhou vários prémios, entre os quais o Globo de Ouro de Mérito e Excelência em Ciência de 2004 atribuído pela televisão SIC em 2005 (o único Globo de Ouro em ciência atribuído até hoje). 

Para mais informações:

SAC -Secção de Astronomia e Astronáutica da Associação Aacadémica de Coimbra

Maria Inês Ferreira

Email – saccoimbra@gmail.com

Facebook - https://www.facebook.com/saccoimbra

Instagram – https://www.instagram.com/astronomia.aac/

Site – http://sac-aac.pt/

PodSAC - https://open.spotify.com/show/5nWfS78fDKHvBjtSYGZkcU?si=Hhqg1fYDR92Q7qb5IEzCag&nd=1

 

 

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Maria Manuela Serra e Silva

Telefone – 239 410 699

E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com

Facebook: https://www.facebook.com/Romuloccvuc

VER É SER VISTO, de Eduardo Lourenço

 


Informação recebida da Gradiva:

Ver é Ser Visto - Fragmentos Essenciais, de Eduardo Lourenço
Gradiva lança antologia dos principais textos de uns dos mais marcantes pensadores da cultura portuguesa do século XX


Antologia dos principais textos de uns dos mais marcantes pensadores da cultura portuguesa do século XX, falecido no final de 2020, Ver é ser Visto, de Eduardo Lourenço reúne ensaios dedicados às principais questões e autores sobres os quais Eduardo Lourenço reflectiu. Com prefácio de José Tolentino Mendonça, a obra que agora a Gradiva lança (editora que tem vindo a reunir e a publicar toda a produção ensaística do autor) resulta de um trabalho de selecção de Guilherme d’Oliveira Martins, um profundo conhecedor da obra do ensaísta e um dos seus amigos mais próximos.


Saiba mais sobre o livro aqui.

Consulte aqui o índice.
                                       
Conheça
aqui toda a obra do autor. 

Por mares nunca dantes navegados à descoberta das origens da doença de P...

terça-feira, 18 de maio de 2021

Sofia Talas - Giovani Poleni's Legacy

Uma história de maus fígados



CIÊNCIA ÀS SEIS! no RÓMULO: Paulo Oliveira fala sobre fígado gordo

Realiza-se na terça-feira, dia 18 de Maio 2021, pelas 18 horas, a palestra intitulada "Uma história de maus fígados ", inserida no ciclo  “Ciência às Seis! (temporada 5)”, com a coordenação de Carlos Fiolhais e a colaboração de António Piedade. Será palestrante Paulo Oliveira, doutorado em Biologia Celular, Investigador no Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra e líder do laboratório MitoXT – Toxicologia e Terapêutica Experimental Mitocondrial. O evento online destina-se a todo o público, havendo oportunidade no final para diálogo e questões.

Esta palestra será dedicada á memória de José Mariano Gago (1948-2015), assinalando o Dia Nacional dos Cientistas, data do seu aniversário (teria feito 73 anos em 16 de Maio). O ministro Mariano Gago foi um grande impulsionador do Rómulo, que assim lhe rende mais uma vez homenagem.

Para aceder à sessão via zoom bastará entrar no evento criado no Site e no Facebook.

Ou Entrar na reunião Zoom:  https://videoconf-colibri.zoom.us/j/89959028554
ou ID da reunião: 899 5902 8554

Resumo:

Nesta palestra, iremos discutir a problemática do fígado gordo não alcoólico, o que o causa e o que o pode causar, e potenciais formas de tratamento. Iremos igualmente discutir a forma como os nossos estilos de vida actuais, principalmente em situação de pandemia, levam a uma incidência cada vez maior desta condição.

Curta biografia:

Paulo Oliveira licenciou-se em 1999 em Bioquímica na Universidade de Coimbra, onde também obteve a seu doutoramento em Biologia Celular. Actualmente, é Investigador Principal no Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra e líder do laboratório MitoXT – Toxicologia e Terapêutica Experimental Mitocondrial. Do seu trabalho de investigação já resultaram mais de 215 publicações revistas por pares.

 Para mais informações:

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Maria Manuela Serra e Silva

Telefone – 239 410 699

E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com

Facebook: https://www.facebook.com/Romuloccvuc

segunda-feira, 17 de maio de 2021

"Educação através da Internet"

No ponto 2 do artigo 11.º (Direito ao desenvolvimento de competências digitais) da recém publicada Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital, diz o seguinte "educação através da Internet". 

Muito mal pensamos a educação quando a atribuímos a um recurso, seja este seja outro. A verdade é que a educação acontece entre pessoas que, eventualmente usam recursos, podendo um deles ser a internet

Esta nota não é um jogo de palavras ou um preciosismo académico, muito longe disso, na verdade é um alerta para a destituição do sentido da educação. O que, de resto, de tão comum, não consegue surpreender-me.

"A escola como plataforma do comércio"

    Artigo de opinião do Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje, 12 de Maio de 20...