domingo, 22 de setembro de 2019
HÁ BIFE EM CAMBRIDGE?
A política alimentar seguida na Universidade de Cambridge (que data de 2016) trata todos os ruminantes por igual (carneiro/borrego, maior emissor, e vaca) não aboliu completamente (dois dos restaurantes continuam a servir) e, acima de tudo, preparou um estudo, com muitas medidas de preparação e acompanhamento:
https://www.environment.admin.cam.ac.uk/sustainable-food/university-cambridges-sustainable-food-policy#
A MADEIRA NA ROTA DA ANTÁRCTIDA
Como hoje é um dia importante para a Madeira pré-publico aqui uma entrada que preparei para o Dicionário Enciclopédico da Madeira (dirigido por José Eduardo Franco). Pouca gente saberá o papel que a Madeira teve como entreposto na exploração da Antárctida (na foto onorueguês Amundsen e os seus companheiros, na primeira expedição a chegar ao pólo sul):
Se os séculos
XVIII e XIX tinham assistido à concretização de vários projectos de
circum-navegação do globo, que se interessaram particularmente pela realização
de descobertas no Oceano Pacífico, o início do século XX assistiu à exploração
das regiões polares, tanto no norte como no sul do globo terrestre. A 6 de Abril de 1909
o engenheiro da Marinha norte-americana
e explorador Robert Edwin Peary (1856-1920) terá chegado
ao pólo norte (de facto, ficou, de acordo com o nosso conhecimento actual,
a cerca de 100 km desse sítio e os
primeiros seres humanos só atingiram o
pólo norte em 1968), mas a corrida ao
pólo sul revelou-se bem mais dramática. Se há fortes dúvidas sobre a primazia de
Peary a chegar ao pólo norte, já não as há no que respeita ao pólo sul. Ele foi
alcançado em 14 de Dezembro de 1911 pelo norueguês
Roald Amundsen (1872-1928), que bateu
por escassos 35 dias o inglês Robert Falcon Scott (1868-1912),
que, com os seus companheiros,
morreria de exaustão e frio durante a sua viagem de regresso. Ora, tanto
Amundsen como Scott passaram, a caminho do Sul, pelo Funchal. Mais: foi no
Funchal, a 9 de Setembro de 1910, que Amundsen, que tinha anunciado a sua
partida para as águas do Árctico (dando a volta ao continente americano pelo
cabo Horn), decidiu inopinadamente partir em direcção ao pólo sul, tentando
bater Scott. Amundsen, que foi mais tarde, em 12 de Maio de 1926, o primeiro
a atingir o pólo norte por meios aéreos
(com o capitão italiano Umberto Nobile, 1885-1978, usando o dirigível Norge), teve um fim trágico tal como
Scott: pereceu no Árctico em 1928, quando o seu hidroavião desapareceu sem
deixar rasto, numa expedição de socorro ao Nobile, capitão do dirigível Italia, que sofreu um acidente numa
expedição ao pólo norte. Amundsen foi, portanto, o primeiro homem a estar nos
dois pólos da Terra.
Foram
várias as viagens de reconhecimento da
Antárctida, antes da corrida final decidida ao sprint entre Amundsen e Scott, tendo algumas delas passado pela ilha
da Madeira. Em Julho de 1902 passou
no Funchal o navio Morning, comandado por
William Colbec, capitão da Marinha Real Inglesa, que rumava aos gelos antárcticos,
com o intuito de ajudar o HMS Discovery, navio de Scott, que na primeira expedição deste à
Antárctica tinha ficado aprisionado nos gelos do estreito de McMurdo, que
separa a ilha de Ross da Antárctica continental. A expedição Discovery (1901–1904) foi um
empreendimento britânico tanto de exploração como científico que teve o
patrocínio conjunto da Royal Geographical Society e da Royal Society. A sua meta
era o pólo sul, mas a marcha realizada por Scott e outros dois famosos
exploradores polares, o irlandês Ernest Shackleton (1874 -1922) e o inglês Edward
Wilson (1872-1912), só conseguiu atingir a latitude de 82° 17′ S, a cerca de
850 km do pólo, um recorde na época. A difícil marcha de volta provocaria um
colapso a Shackleton, apanhado pelo escorbuto. No final da expedição, foi
preciso a ajuda de dois navios de resgate para libertar o Discovery, sendo um deles o referido Morning e o outro o Terra
Nova, que haveria de dar o nome à segunda expedição antárctica de Scott.
A 10
de setembro de 1903 passou
pelo Funchal o vapor Le Français, tendo
a bordo o navegador, médico e cientista francês
Jean-Baptiste Charcot (1867–1936), em viagem para a Antárctica. Charcot, filho
do famoso neurologista Jean-Martin Charcot, explorou, no comando da Expedição
Antárctica Francesa, a costa oeste da Terra de Graham, parte da Península Antárctica,
entre 1904 e 1907. À semelhança de
outros exploradores polares, Charcot teve um fim infeliz: morreu quando
o seu navio Pourquoi-Pas? foi
destroçado por uma violenta tempestade ao largo da Islândia no ano de 1936.
A
segunda expedição de Scott, a Terra Nova,
ocorreu de 1910 a 1913. No seu plano o
comandante dizia que o seu "principal objetivo é alcançar o pólo sul, e
garantir para o Império Britânico a honra desta conquista." Scott não
sabia que iria participar numa corrida até em 12 de Outubro de 1910 ter lido um
telegrama, enviado por Amundsen para Melbourne, na Austrália, a 9 de Setembro de
1910. Foi já na sua base na ilha de Ross que Scott soube que Amundsen estava
acampado com a sua equipa, e um largo grupo de cães trazidos da Gronelândia, na
baía das Baleias, a cerca de 500 km a leste (e mais perto do pólo sul). Scott não
fez qualquer desvio dos seus planos, que consistiam em viajar por uma rota
conhecida, que já tinha sido experimentada por Shackleton em 1907. A marcha
para sul começou a 1 de Novembro de 1911, com a ajuda de um conjunto de vários
trenós carregados, puxados por vários meios: a distância total a percorrer
seriam 1353 km. No dia 4 de Janeiro de 1912, à latitude 87° 34′ S, Scott
anunciou quais seriam os quatro homens que com ele iam tentar alcançar o pólo
austral: Edward Wilson (que era médico e tinha estado com Scott na expedição
anterior), Lawrence Oates, Henry Bowers e Edgar Evans. Este grupo chegou, de
facto, ao pólo sul no dia 17 de Janeiro de 1912, mas, para sua surpresa e
desilusão, encontrou a bandeira norueguesa e a tenda que Amundsen tinha erguido
35 dias antes. O regresso, em condições muito difíceis, não chegou a ser consumado:
os corpos gelados do grupo final formado por três exploradores (Oates já tinha
ficado para trás, desaparecido no gelo) foram encontrados meses depois da data
da morte, que deve ter ocorrido a 29 de Março de 1912, a avaliar pelo diário de
Scott que estava ao seu lado na tenda que lhe serviu de túmulo
Se
a passagem de Scott pela Madeira, foi normal, tendo sido efectuado o necessário
reabastecimento para a viagem de longo curso que se seguia, a paragem de
Amundsen na Madeira está, como foi dito, associada a uma viragem que se
afigurou decisiva na corrida ao pólo sul. Os planos de Amundsen
eram no sentido de alcançar o pólo norte. Com a notícia divulgada de que Robert
Peary teria chegado a esse pólo (e, pouco antes dele, o explorador
norte-americano Frederick Cook, 1865-1940, num feito que, tal como o de Peary,
não pôde ser confirmado), mudou de
ideias. No seu navio Fram, que era famoso por já antes ter participado
noutras viagens no Árctico, partiu da Escandinávia em 1910. De facto, o navio de Amundsen tinha sido preparado para ir
para norte, e a decisão de ir para sul só foi tomada pelo próprio na ilha da Madeira,
tendo sido anunciada primeiro aos tripulantes, que a aceitaram unanimemente, e
depois por telegrama lacónico (“Estou a ir para sul”, ) enviado aos seus rivais
ingleses. A imprensa deu uma notícia falsa que, com a mudança de planos, se
tornou verdadeira. Em 7 de Setembro de 1910, o Diário de Notícias da Madeira, numa breve notícia intitulada “Ao
pólo-sul”, informava: "Fundeou ontem no nosso porto [do Funchal], o
navio-explorador norueguês Fram,
procedente de Christiania [antigo nome de Oslo], em 20 dias de viagem,
conduzindo uma expedição scientífica ao pólo-sul." Esta notícia foi
verdadeiramente extraordinária, por se ter revelado premonitória dos factos
reais: o jornal não podia nessa altura saber que o Fram iria para o pólo sul, tendo dado essa informação por mera
confusão. O certo é que nem os correspondentes britânicos na ilha da Madeira se
aperceberam da grande novidade, ainda que involuntária, contida na notícia.
Houve já quem considerasse esse notícia “a maior ‘cacha’ de sempre da imprensa
portuguesa”. Não foi fácil para Amundsen tomar essa decisão pois consideráveis fundos, em boa parte públicos, tinham-lhe
sido concedidos para ir para o Árctico e não para o Antárctico. Em carta ao seu
armador, explicou as razões da mudança, pedindo desculpa. Informou, também por
carta, o rei norueguês. A notícia foi de início mal recebida no seu país natal.
A concorrência aos ingleses não foi, de início, particularmente bem-vista, na
Noruega e na Europa em geral, até porque Scott era mundialmente conhecido.
O
ambicioso Amundsen foi mais bem sucedido porque se revelou mais pragmático e profissional do que Scott, como mostram os
seus diários: atingiu o pólo sul, num grupo onde também estavam Olav Bjaaland,
Helmer Hanssen, Sverre Hassel e Oscar Wisting, usando trenós puxados por cães,
uma técnica que ele aprendeu em terras árcticas (este terá sido um dos segredos
do seu êxito). Em contraste com Scott, que confiou numa rota conhecida, Amundsen
teve que procurar o seu próprio caminho atravessando os difíceis Montes
Transantárcticos para penetrar no extenso planalto antárctico e, depois da sua
chegada ao extremo sul da Terra, conseguiu retornar ao acampamento-base, após ter
percorrido durante três meses, no trajecto de ida e volta, mais de 3000 km em
condições meteorológicas bastante adversas.
Shackleton recuperou
e voltou ao activo em explorações antárcticas. Para além de ter participado como
oficial subalterno na primeira expedição de Scott, Shackleton liderou três
expedições britânicas à Antárctida. Regressou aí em 1907 à frente da expedição
Antárctica Britânica de 1907-1909 ou expedição Nimrod, do nome do navio. Nesse quadro, ele e três companheiros
efectuaram, em Janeiro de 1909, uma marcha para sul que estabeleceu uma nova
marca de latitude sul - 88° 23′ S, a apenas
180 km do pólo sul. Depois da corrida ao pólo sul ter terminado, Shackleton dirigiu
a sua atenção para o que considerava ser o último objectivo da exploração antárctida:
atravessar o continente gelado de mar a mar, passando pelo pólo sul. Preparou então
a expedição que foi chamada Transantárctica Imperial (1914–1917). Entre 21 e 25 de Agosto de 1914 o navio Endurance, sob o comando do capitão
neozelandês Frank Arthur Worsley (1872-1943), parou na Madeira, na sua rota para
o pólo sul, com o irlandês Ernest Henry
Shackleton a bordo. que não correu bem, por o navio ter ficado aprisionado
no gelo, ter sido esmagado e finalmente afundado. O salvamento dos náufragos,
depois de algumas aventuras, só foi feito in-extremis,
sem terem ocorrido perdas humanas, graças à grande perícia e coragem de Worsley.
Shackleton regressaria finalmente em 1921 à Antárctida, com o intento de realizar
um programa científico. Os navios Quest,
de novo com Worsley a bordo, e Dans pararam
na Madeira a de 16 a 19 de Outubro de
1921. Ainda antes de a expedição ter iniciado os seus trabalhos, Shackleton morreu
a 5 de Janeiro de 1922 de ataque cardíaco quando o Quest estava ancorado na Geórgia do Sul, uma ilha no sul do
Pacífico descoberta por James Cook, na sua segunda viagem de circum-navegação, tendo
sido aí sepultado.
Em
resumo: todos os três grandes exploradores do pólo sul - Samuel Amundsen,
Robert Scott e Ernest Shackleton - passaram pela Madeira, mais especificamente
pelo porto do Funchal, a caminho dos mares do sul. Os três morreram durante o
seu trabalho de exploração nas regiões polares. Podemos falar de “idade heróica”
da exploração polar e dizer que a Madeira esteve no caminho da exploração, ainda que apenas
como ponto de reabastecimento entre o Norte da Europa e o extremo sul do mundo.
As
expedições polares, para além do pioneirismo na exploração, foram empreendimentos
científicos. No século XX, houve uma outra famosa expedição científica, que rumou
não ao pólo sul, mas sim à linha do equador, e que se destinava a observar um
eclipse solar total no arquipélago de S.
Tomé e Príncipe e no Brasil, a fim de estar a teoria da relatividade geral de
Albert Einstein (1867-1955). Também esta expedição, realizada no HMS Anselm, passou a 8 de Março de 1919 pela Madeira, como
posto intermédio entre a Inglaterra e a latitude equatorial, dividindo-se aí a
expedição numa parte que rumou a Sobral, Brasil, e noutra parte, que rumou, a
bordo do paquete Portugal, após
algumas semanas de espera, à ilha do Príncipe, então uma colónia portuguesa. O
chefe da expedição ao Príncipe era o famoso astrofísico inglês Arthur Eddington
(1882-1944) e o resultado das
observações de 27 de Maio de 1919 foi conclusivo: Einstein estava certo pois os
raios de estrelas que no campo de visão estavam perto do Sol se dobravam na
medida certa ao passar perto do disco solar. Este foi, sem dúvida, um dos
maiores eventos científicos do século XX.
Referências
- Amundsen, Roald; Nilsen, Thorvald; Prestrud, Kristian; Chater, A.G.
(trad.), (1976) [1912]. “The South Pole: An Account of the Norwegian expedition
in the Fram, 1910–12” (Vols. I and II). London: C. Hurst & Company. Original
publicado em 1912 por John Murray, Londres.
- Francisco,
Luís, “Diário de dois rivais, Pólo Sul:
rivalidade entre Amundsen e Scott através dos seus diários”, Público,
4 de Janeiro de 2011,
-Mota, Elsa; Simões, Ana; e Crawford, Paulo,
“Eddington’s expedition to Principe and the reaction os the Portugueses
astronomers (1917-1925)”, The British
Journal of the History of Science 42(2) 245-273 (2009)
O QUE É VER NA CIÊNCIA?
Primeira parte de uma extensa entrevista que dei a Margarida Alves, artista plástica e doutoranda em belas Artes na faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa:
Margarida Alves - Gostaria de saber como é que, com recurso a
dispositivos tecnológicos (analógicos ou digitais), podemos descobrir ou inferir a matéria mais
ínfima, a matéria infimamente pequena que existe e que é descrita pela física
quântica?
Carlos
Fiolhais - Vou começar pelo início. Nós somos todos herdeiros de uma
grande mudança ocorrida nos séculos XVI e XVII que é chamada “Revolução
Científica”. Essa Revolução deu-nos o método científico que, embora seja
complicado de enunciar em pormenor, tem alguns elementos essenciais: a observação, que é uma visão cuidadosa; a
experimentação, que é a observação de situações controladas; e o raciocínio
lógico, que se baseia na matemática. O método inclui também a crítica, no
sentido em que as conclusões da ciência têm de ser comunicadas e validadas,
primeiro no interior da comunidade científica e depois a todos. É tudo isto que faz a ciência, é isto o que a distingue de outras
actividades humanas, como por exemplo a arte. Há outras actividades humanas que
têm alguns destes elementos, mas não todos
e não da mesma maneira. Podemos dizer que na arte há observação, que
pode até haver num certo sentido experimentação, mas o raciocínio lógico não é um imperativo
na arte. A arte, embora dependa da
crítica, porventura não depende tanto dela como a ciência. Mas as relações
entre arte e ciência são profundas e
merecem uma reflexão mais alongada…
Quando a ciência
começou a observação foi muito importante, mesmo quando não se podia
experimentar. Percebeu-se imediatamente que se podia ver mais do que aquilo que
os nossos olhos viam ou, melhor, aquilo
que os olhos directamente viam. Isso é bem manifesto isso no trabalho de
Galileu, em 1609, quando olha para o céu com um instrumento novo, o telescópio,
e faz descobertas sensacionais, que anuncia no ano seguinte em O Mensageiro das Estrelas. Não foi ele
que inventou o telescópio, mas foi ele o primeiro a olhar para o céu com
atenção e a registar o que viu: descreveu
coisas no céu que nunca ninguém tinha visto. O que ele viu era radicalmente
novo… A Natureza revelava-se surpreendente ao
fornecer, com a ajuda do instrumento, fenómenos que a vista humana não
tinha conseguido alcançar. Havia coisas que estavam antes invisíveis que eram
espantosas, como por exemplo manchas no Sol - o Sol não era perfeito; irregularidades na Lua – o nosso satélite tinha montes
e vales, isto é, não era uma esfera perfeita; fases de Vénus, antes difíceis de
discernir dada a pequenez do astro; e, acima de tudo, quatro satélites de
Júpiter, luas que andavam à volta desse planeta, tal como a Lua andava à volta
da Terra. Tudo isso mudou o pensamento humano a respeito do mundo.
Havia
mais mundos para além da nossa directa percepção. As novidades do invisível
passaram a ser uma marca da ciência e esta
passou a partir daí a procurar o mundo invisível. Começou pelo muito grande,
que está muito longe (não digo infinitamente longe porque o infinito é uma
questão mais matemática e se quisermos metafísica do que física), mas em breve,
ainda no século XVII, passou a ver o muito pequeno, continuando a usar lentes, ligadas em sistemas ópticos que
mudavam o percurso da luz. As lentes de Galileu tinham vindo da Holanda de fabricantes de óculos. Foram também holandeses os inventores do primeiro
microscópio. A primeira pessoa a usar o microscópio para veres seres vivos foi
o holandês Anton van Leeuwenhoek. Aqui há um aspecto importante a realçar: a
precedência nessa época da tecnologia sobre a ciência. Por que é que antes
ninguém tinha conseguido ver aquilo que o Galileu viu? Porque a indústria de
lentes não estava suficientemente desenvolvida. O talhamento do vidro, a
escultura do vidro, para usar uma palavra do mundo da arte (estou-me a lembrar
das esculturas muito lisas do Brancusi),
atingiu no início do século XVII na Holanda um estado de perfeição que permitia
usar as lentes em instrumentos de visão. Foi preciso que os artífices
holandeses conseguissem polir muito bem as lentes para que elas pudessem servir
em artefactos tecnológicos. Lembro que Espinosa
foi polidor de lentes. Houve, portanto, uma mudança tecnológica que permitiu
uma mudança científica. Esse processo passou a repetir-se: quando uma
tecnologia avança, a ciência avança também. A diferença para os tempos de hoje
é que agora praticamente toda a tecnologia vem da ciência, o que significa que a ciência se
alimenta a si própria ao produzir objectos tecnológicos que por sua vez
alavancam o progresso do conhecimento científico. É uma espécie de “pescadinha
de rabo na boca”…
Leeuwenhoek recorreu a um
microscópio para ver o muito pequeno. É só uma
questão de escolher as lentes adequadas e colocá-las na posição certa. E
conseguiu ver animais minúsculos, ou
pormenores de animais maiores, como a sua estrutura celular. Passou-se, no
domínio microscópico, tal como tinha acontecido antes no domínio do
macroscópico, a ver coisas que nunca
ninguém tinha visto. Robert Hooke, um físico inglês do tempo de Newton, foi o
autor de um livro com imagens
absolutamente impressionantes, Micrographia,
publicado em Londres em 1665. A física,
através da óptica, conquistou nessa altura tanto o grande como o pequeno.
Podemos ver mais do que os nossos olhos vêem e os instrumentos ópticos são o
modo de ampliação da nossa vista.
Não é
de mais enfatizar o sentido da visão.
Temos outros sentidos, mas a vista é importantíssima. É-o também na arte, nas
chamadas artes visuais em particular.
Talvez arrisque dizer que a visão é o nosso sentido mais importante porque as
câmaras que são os nossos olhos não só estão colocadas perto do cérebro como
efectuam já, na retina, algum processamento da informação. De certo modo a
vista é uma parte do cérebro. O sinais vindos da vista têm, no nervo óptico,
de percorrer uma curta distância para que haja processamento completo. As câmaras que são os nossos olhos passaram a
ser ampliadas por meios artificiais. O
telescópio e microscópio forneciam uma
capacidade acrescida ao olhos: A capacidade da visão humana estendeu-se para os
dois lados, o que está perto e é pequeno e o que está longe e é grande.
Passámos a ver mais do que aquilo que víamos directamente, passámos a ver mais
mundos do que o mundo à nossa escala. A partir do momento em que houve uma
apreensão de escalas diferentes imediatamente
o nosso cérebro ampliou-se. Quando a vista se amplia, o cérebro amplia-se
também, porque a vista e o cérebro estão ligados intimamente ligados.
A partir de então, estava aberto o caminho para
mais transformações desse tipo. Fazem-se telescópios cada vez mais poderosos e
continuamos nesse caminho, não está à vista o seu fim. Estamos a construir
telescópios cada vez mais poderosos para ver ainda mais longe, usando luz de
todo o tipo. A luz pode ser visível como foi usada por Galileu e Leeuwenhoek mas, sabemos hoje, pode ser invisível.
Construímos telescópios para recolher luz de todo o género que vem do espaço: a
luz infravermelha, a luz ultravioleta, raios X, ondas de rádio, etc. Sabemos
muita coisa de objectos do espaço
distante graças aos raios X. Nesse caso, os telescópios têm de estar montados
num satélite porque os raios X não chegam à Terra. Felizmente que a atmosfera
os absorve pois são perigosos para a
vida. As ondas de rádio, essas sim, chegam à Terra, através da atmosfera, e
dispomos de radiotelescópios para as captar. Estamos a instalar novos
telescópios que são cada vez maiores, o que significa que cada vez vemos mais,
que vemos coisas novas e que vemos coisas que já conhecemos com cada vez mais
pormenor.
A nossa visão
no espaço distante tem um limite que tem a ver com o Big Bang que se deu há catorze mil milhões de anos. A luz tem uma
velocidade finita, o que significa que não podemos ver mais do que uma esfera
de catorze mil milhões de anos-luz. Não sabemos se o Universo é finito ou infinito, mas o nosso Universo observável está dentro de uma esfera de
catorze mil milhões de anos-luz.
Para o outro lado, para o lado do muito
pequeno, os microscópios desenvolveram-se também extraordinariamente, passámos
a ter, no século XX, microscópios electrónicos, o que significa que, em vez de
luz, passámos a usar electrões, partículas elementares de carga negativa que
interagem com a matéria. Ver pode não ser só com a luz. É sempre interacção com a matéria, seja de luz seja de
partículas, que falamos quando falamos de ver. Num microscópio electrónico, precisamos
no final uma tradução em luz da informação recolhida pelos electrões porque o nosso cérebro é particularmente sensível à luz. As imagens começam por ser captadas por electrões
e passadas depois para sinais luminosos. Há outros tipos de microscópios, mais
poderosos, chamados uns de “efeito túnel” e outros de “força atómica”, que
conseguem visualizar os átomos. Os primeiros usam também electrões. Outrora os átomos eram uma abstracção útil, mas
hoje são uma realidade observada. Os átomos existem, não são apenas coisas
conceptuais. Não só vemos os átomos como os manipulamos, é esse o objectivo da
nanotecnologia.
Num microscópio de efeito túnel estabelecemos uma grande tensão
eléctrica entre a superfície que queremos observar e uma ponta do microscópio e
isso faz com que alguns dos electrões que estão no objecto passem para a ponta,
que funciona como uma sonda. Regista-se qual é a corrente que está a passar e
nós “vemos” qual é a densidade de electrões na superfície: se há mais
electrões, a corrente é maior. Não se pode com esta técnica ver o interior da
matéria, mas apenas a superfície. Com as
correntes recolhidas fazemos aparecer num ecrã de computador uma modelação
tridimensional. E vemos que a superfície é granulada, isto é, que a matéria tem
uma estrutura atómica. Quando se trata de cristais, existe regularidade,
simetria, mas há também matéria amorfa e
todo o tipo de possibilidades entre a
ordem e a desordem, o que torna a observação do mundo muito interessante. A relação entre
ordem e desordem muda conforme a
temperatura. À temperatura muito baixa, a ordem impera mas, à medida que a
temperatura aumenta, a desordem vai-se instalando. É essa a diferença entre o
frio e o quente… Com raios X podemos ver o interior dos objectos e reconhecer
também aí a ordem ou a falta dela.
Nos tempos mais recentes, para ver o mais
ínfimo da matéria, designadamente os quarks, o que fazemos, de uma maneira ou
de outra, é “provocar” a matéria enviando-lhe luz ou partículas para cima. Se
os projécteis forem a grande velocidade, o objecto-alvo desfaz-se em mil peças
e esperamos, como quem despedaça violentamente um relógio, perceber de que são feitas as coisas a partir da recolha das peças espalhadas. Digamos que os “relógios” da Natureza são muito complicados e nós, quando usamos
aceleradores de partículas, procuramos descobrir os seus constituintes e
perceber o seu funcionamento.. O que é que vemos? O que ficamos a saber?
Sabemos hoje que toda a matéria é feita de átomos e que os átomos são feitos de núcleos e electrões; que
os núcleos por sua vez são feitos de protões e neutrões, e que os protões e
neutrões são feitos de quarks. Estas são as partículas “últimas” que conhecemos
hoje, não quer dizer que sejam as partículas finais. Há muita especulação sobre
o que serão as partículas “últimas”, mas uma coisa é certa, toda a matéria que
vemos, do muito grande ao muito pequeno, é formada por partículas, quer dizer, toda
a matéria é corpuscular. Todas as formas
de matéria que vemos no Universo são
feitas a partir de constituintes microscópicos que são na última escala
conhecida partículas. No fundo, o mundo
é um conjunto de bonecas russas, com umas peças a encaixar nas outras. Os
nossos instrumentos têm de ser os mais
adequados para observar as matrioscas maiores e as mais pequenas. Tudo aquilo
que conhecemos do mundo é sempre a partir da observação, na maior parte dos
casos instrumental.
Em resumo: A
luz interage com a matéria e é isso que faz a observação directa. Por outro
lado, a própria matéria interage com a matéria, como ocorre no microscópio electrónico ou
no microscópio de efeito túnel, constituindo outras modalidades de observação.
Recentemente,
descobrimos que o mundo chegam sinais que não são nem de luz
nem de matéria. A luz e a matéria
existem em dois “cenários”, o espaço e o tempo, que estão interrelacionados. O
espaço e o tempo são os “palcos” em que a luz e a matéria existem. Einstein há
cerca de cem anos propôs que o espaço e o tempo podiam abanar: são as ondas
gravitacionais. Hoje há todo um conjunto
de confirmações experimentais destas ondas, pelo que não se trata de um mero raciocínio teórico. A observação é muito sofisticada: mas podemos
dizer que os detectores de ondas gravitacionais são novos tipos de telescópios.
As ondas gravitacionais provêm de choques de buracos negros e de estrelas de
neutrões, que são estrelas muito pesadas. Essas ondas ensinam-nos que os palcos em que a matéria
existe são dinâmicos, quer dizer, o espaço e o tempo são alterados pela presença da matéria e
energia. Essa alteração é, segundo Einstein, a própria força da gravidade.
Quando um buraco negro, que é uma estrela na fase final da sua vida, está a circular à volta de outro, e caem em
espiral um sobre o outro, o choque é tão grande que o espaço e o tempo
são abanados a toda a volta chegando a perturbação muito longe. Nós que estamos
muito distantes desses objectos (não convém estar próximo, pois o choque de
dois buracos negros é dos eventos mais violentas que acontecem no cosmos) a
milhões de anos-luz de distância, conseguimos registar o abano no espaço, que
aqui chega minúsculo. Este registo não
deixa de ser uma forma de observação, mas não estamos a usar luz. A luz intervém, mas não há luz directa vinda do espaço, mas sim outro tipo de ondas. A observação é nova: estamos a “ouvir” o Universo e não apenas a vê-lo. Uso a palavra “ouvir” entre aspas, porque
pode-se pensar que é som, mas não é, pois chega
através do vazio cósmico. É o próprio espaço que abana, não é como o ar que
aqui abana, quando há uma vibração. Está-me a ouvir por causa das moléculas que
estão a abanar no ar à minha frente, mas
os emissores de ondas gravitacionais são objectos cósmicos que sofrem profundas
alterações e o espaço abana numa agitação que acaba por cá chegar. Usamos
espelhos que são vistos a abanar, o que
nós percebemos com a ajuda de luz laser.
Por outras palavras, há muitas formas de observação, usando
luz directamente, usando matéria, e modernamente usando ondas de gravidade, que
são perturbações do próprio espaço. Nós tiramos
conclusões a partir e tudo o que “vemos” e, quando temos novas janelas de visão
proporcionadas por novos instrumentos, ficamos a saber mais. Os instrumento
originam nova ciência, e vai continuar a ser assim no futuro. Não é apenas nem
sequer principalmente porque uma pessoa, como o Einstein, se lembra de uma
ideia nova - as ideias puramente mentais são muito raras- que alcançamos novo
conhecimento. É Conseguimos ver e saber
mais principalmente porque construímos novos instrumentos. Einstein tinha uma enorme imaginação. Pessoas menos dotadas do que eles
baseiam-se em instrumentos para alcançar a
“imaginação” da Natureza, estou a usar uma metáfora. Com os instrumentos, nós
conseguimos descobrir, desvendar a “imaginação” da Natureza, A Natureza tem uma
imaginação muito superior à nossa. Por outras palavras, não está à vista o fim
do empreendimento científico. A história da ciência ensina que, quando nós pensámos
que o empreendimento científico está acabado, que já vimos tudo, que já sabemos
tudo, então surge uma surpresa que nos faz perceber que não vimos tudo.
O que eu diria para
finalizar é que já vimos muita coisa de
várias maneiras, mas estamos ainda muito longe de ter visto tudo. Há
actualmente alguns mistérios, que são indícios de coisas que não estamos a ver,
que são manifestações do invisível. Os físicos
chamam a esses fenómenos “matéria escura” e “energia escura”, as duas coisas escuras
mas coisas diferentes. É algo que não estamos a ver, mas que gostaríamos de ver
e, acima de tudo, de perceber.
FACTOS SOBRE CONSUMO DE CARNE E EMISSÕES DE CO2
Havendo tanta discussão sobre a abolição do bife nas cantinas da Universidade de Coimbra, é bom ter um olhar científico sobre o assunto:1) Toda carne consumida no mundo, proveniente da pecuária, contribui com 7100 megatoneladas de CO2 por ano, o que significa 14,5% do total anual de emissões. https://ccafs.cgiar.org/bigfacts/#
2) Por seu lado a carne de vaca não é que causa maior quantidade das referidas emissões, mas sim a de cordeiro/ carneiro / borrego (39 kg de CO2 por quilograma de carne consumida em vez de 27 kg) http://www.greeneatz.com/foods-carbon-footprint.html Não vi qualquer estudo da Universidade sobre o assunto, que não dispõe aliás de grandes especialistas em emissões de carbono e, ainda menos, em ciências da nutrição (ainda não há uma Faculdade das Ciências da Nutrição e da Alimentação).
Portanto, a medida agora anunciada - se é que de facto tem alguma efícácia, pois parece que praticamente não há bife de vaca nos menus das cantinas - parece ser uma medida demagógiga e panfletária: se as intenções poderão ser as melhores, seria melhor procurar diminuir as emissões dos autocarros turísticos poluentes a vários títulos (não é só CO2!) que enchem a Rua Larga, para não falar de todo o outro intenso trânsito na Alta e, se o foco for apenas o consumo de proteínas que causa emissões, convém não esquecer o cordeiro e, ainda que menores a carne de vaca, o queijo, o porco e o salmão.
MAGALHÃES NA NOITE EUROPEIA DOS INVESTIGADORES EM COIMBRA
Noite Europeia dos Investigadores
2019
“Fernão de Magalhães: a primeira
volta ao globo”
27 | SETEMBRO | 2019
Na
próxima sexta-feira, dia 27 de Setembro, vai decorrer por toda a
Europa, a Noite Europeia dos
Investigadores (NEI). Esta iniciativa visa aproximar cientistas e público
num convívio informal, lúdico e educativo. A troca de ideias e experiências que
esta iniciativa proporciona contribui para o esclarecimento do que é ser
investigador, do que é a ciência e do papel que descobertas antigas têm na
sociedade actual.
Integrado
nesta iniciativa internacional, o RÓMULO
– Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, moderno centro de
recursos de divulgação e educação científica da rede Ciência Viva, organiza, tal como nos anos anteriores, das
21h30 às 23h00, um debate nas suas instalações no rés-do-chão do Departamento de Física da Universidade de
Coimbra. O tema deste ano será “Fernão
de Magalhães: a primeira volta ao globo”, procurando assinalar os 500 anos
da primeira viagem de circum-navegação (a partida de San Lúcar de Barrameda foi a 20 de Setembro de 1519). Para este debate, o RÓMULO convidou
alguns especialistas bem conhecidos da área da História da Ciência. Os convidados
são
- António
Costa Canas (Escola Naval, Lisboa)
- Carlota
Simões (Universidade de Coimbra, Dep. de Matemática da Faculdade de
Ciências e Tecnologia)
- Teresa
Nobre Carvalho (Universidade Nova de Lisboa; Centro de Humanidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas)
A sessão será moderada por Carlos Fiolhais, físico e director do
RÓMULO.
Com entrada livre, e num
ambiente único, a sessão é aberta ao público em geral e, em especial, aos mais
interessados pela cultura e património que poderão estabelecer diálogo com os
convidados, num ambiente informal que já é habitual neste dia. Na Universidade
de Coimbra e em toda a Europa será um dia de ciência para toda a gente.
Celebraremos, a propósito de Magalhães, a exploração e a descoberta.
BIOGRAFIAS
António Costa
Canas é oficial da Marinha, sendo
actualmente diretor do Museu de Marinha. Licenciado pela Escola Naval, em 1990,
em Ciências Militares Navais, Ramo de Marinha. Licenciado em História, em 1998,
pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mestre em História dos
Descobrimentos e da Expansão Portuguesa, em 2005, pela Faculdade de Letras da
Universidade de Lisboa. Tem uma pós-graduação em História e Filosofia das
Ciências, em 2006, pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Doutor
em História, especialidade de Descobrimentos e da Expansão Portuguesa, pela
Universidade de Lisboa, em 2012. Membro do Centro Interuniversitário de
História das Ciências e da Tecnologia, do Centro de Investigação Naval e da
Direção do Seminário Nacional de História da Matemática. Secretário do International Committee for the History of
Nautical Science. Alguns livros publicados: Naufrágios e longitude, Lisboa, Comissão Cultural de Marinha, 2003.
Os Submarinos em Portugal, Lisboa,
Prefácio, 2009. A Matemática no tempo de
Mestre José Vizinho, Lisboa, Gradiva, 2009.
Carlota Simões é doutorada em Matemática pela Universidade de Twente, nos
Países Baixos, é professora no Departamento de Matemática da Faculdade de
Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. É autora de Descobre
a Matemática e de Descobre o Som, obras de divulgação da
matemática. Foi também co-autora de História da Ciência Luso-Brasileira, História
da Ciência na Universidade de Coimbra e Portugueses na
Austrália. Foi Directora do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra,
onde desenvolveu ampla actividade, e fez parte da equipa do projeto História da
Ciência na mesma Universidade. Em 2016, no Dia Internacional da Mulher, foi
homenageada pelo Ciência Viva.
Teresa Nobre
de Carvalho pertence ao Centro de Humanidades
da FCSH/UNL. Fez doutoramento em História e Filosofia das Ciências na
Universidade de Lisboa sobre “O mundo natural da Ásia aos olhos do Ocidente.” Deu aulas na Universidade Aberta e no Instituto
Superior de Agronomia sobre temas de biologia vegetal. Algumas publicações: “As flores do Imperador.
Do bolbo ao tapete”, (Fundação Gulbenkian, 2018), “Os desafios de Garcia de
Orta. Colóquios dos Simples e Drogas da Índia”. (Esfera do Caos, 2015).
Para mais informações:
RÓMULO – Centro Ciência Viva da
Universidade de Coimbra
Maria Manuela Serra e
Silva
Telefone – 239 410 699
sábado, 21 de setembro de 2019
ORDEM DOS ENFERMEIROS E ORDENS PROFISSIONAIS
Para além do instituído em disposições legais recentes, por uma questão ética, às ordens profissionais não tem sido usual publicitar as atividades dos seus associados. Assim, não se descortinam na comunicação social propaganda de médicos, advogados, etc., representados por ordens tradicionais, ademais paga a peso de ouro, 36 mil euros, como o acontecido com a recente Ordem dos Enfermeiros, segundo notícia de ontem do "Correio da Manhâ".
Felizmente, valha-nos ao menos isso ! Ana Rita Cavaco não se propôs, ela própria, interpretar o papel de personagem que coube à actriz Liliana Santos, na telenovela da SIC (Nazaré), com vantagem estética para os telespectadores! Aliás, Ética e Estética, esta no seu sentido filosófico, têm sido, até agora, princípios norteadores de ordens profissionais e da respectiva dignificação.
Enfim, as modernices de dar nas vistas têm limites que não podem, e muito menos devem, em desculpa oficial esfarrapada de Ana Rita Cavaco, como bastonária da Ordem dos Enfermeiros, servir "como forma de valorizar a profissão aos olhos da sociedade" num mundo ficcionado de faz de conta. A nobre profissão de enfermagem merece ser reconhecida, como é de uma forma geral, pelo que faz, no seu dia-a-dia e noites insones, à cabeceira dos que sofrem porque, como pontificou Charles Lamb, "a doença amplia as dimensões internas do homem"!
sexta-feira, 20 de setembro de 2019
LEONARDO E PORTUGAL
Ontem estive a falar sobre Leonardo da Vinci na Feira do Livro no Porto. Em baixo o meu texto no último "As Artes entre as Letras", precisamente sobre Leonardo (na figura o mapa-múndi atribuído a Leonardo):
Leonardo da Vinci (Anchiano – Vinci, 1452 – Amboise, 1519), o grande génio italiano que celebramos este ano por ocasião dos 500 anos da sua morte, é do tempo das maiores proezas dos Descobrimentos portugueses: foi contemporâneo dos reis D. Afonso V (1.º reinado 1438-1477, 2.º reinado 1477-1481), D. João II (1.º reinado 1477, 2.º reinado 1481-195) e D. Manuel I (reinado 1495-1521). Novos caminhos do globo foram, ao longo dos 67 anos da sua vida, abertos por navegadores lusos: em 1434 Gil Eanes dobrou o cabo Bojador, em 1488 Bartolomeu Dias dobrou o cabo da Boa Esperança, em 1498 Vasco da Gama chegou à Índia, em 1500 Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil quando estava em rota para a Índia, e em 1513 Jorge Álvares chegou à China. No entanto, é em vão que se procuram nos milhares de páginas dos livros de apontamentos de Leonardo, que constituem a sua obra maior, referência aos feitos dos portugueses, sobre os quais ele, em Itália, em Florença, em Milão, em Roma ou nos outros sítios onde esteve, deve ter tido conhecimento. Nem sequer há qualquer outra referência a Portugal.
Uma aproximação aos Descobrimentos poderá ser a referência que faz a um seu mapa-múndi (“il mio mappamondi…, il libro mio”) no Codex Atlanticus, de 1480-1485, hoje guardado em Milão. Embora não se saiba ao certo a obra a que se refere, é impossível que o autor não tenha reflectido aí as descobertas marítimas dos portugueses, corrigindo assim a antiga cartografia ptolemaica. Em 1470, os navegadores João de Santarém e Pedro Escobar já tinham chegado ao arquipélago de S. Tomé e Príncipe, na costa da Guiné (a ilha do Príncipe foi baptizada em honra do filho de D. João V, que lhe haveria de suceder). Existe hoje guardado na Royal Library britânica, em Windsor, um desenho de um mapa-múndi, datado de ca. 1508, que pode estar relacionado com a referida indicação no Codex. O desenho, que mostra o globo espalmado em octantes, é um dos primeiros a representar a América, descoberta por Cristóvão Colombo, genovês ao serviço de Espanha, em 1492. Não se afasta muito da realidade, incluindo curiosamente tanto uma razoável representação do Árctico como um desenho precoce e imaginativo da Antárctica. Mas erra substancialmente no tamanho da Europa e na localização da América, que ostenta já esse nome. Mostra, embora com pouco rigor, a África, que tem inscrito o nome “Ethiopia” inscrito, e algumas ilhas atlânticas. Mostra a Índia, a China e o Japão, cuja existência era conhecida do Ocidente antes da chegada dos navegadores ocidentais. Manda a verdade dizer que é algo duvidosa a autoria de Leonardo desse mapa-múndi, pensando alguns especialistas que será antes de algum discípulo. Facto é que no referido Codex se encontra um esquisso mostrando o mesmo tipo de projecção em octante que o do mapa-múndi que alguns atribuem a Leonardo. Este terá conhecido Américo Vespúcio (1454-1512), o florentino que fez viagens à América no final do século XV e início do século, algumas sob a bandeira portuguesa, tendo escrito sobre elas (como é sabido, o nome de América refere-se a ele). O primeiro mapa do globo a referir o nome “América” é o chamado mapa de Waldseemueller, do nome do cartógrafo alemão que o publicou em 1507, mapa esse que se encontra hoje na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.
Há outras conexões de Leonardo com Portugal. Nos seus anos de juventude, por volta de 1475, Leonardo pintou um cartão, destinado a fabricar uma tapeçaria da Flandres, por encomenda de um florentino que provavelmente tinha negócios com Portugal relacionados com a Madeira ou África, para ser oferecido ao rei D. Afonso V ou ao príncipe seu herdeiro. Nessa altura Leonardo estava na oficina do seu mestre Verrochio, tratando-se por isso de uma das suas primeiras obras. A tapeçaria, que representava uma cena do paraíso bíblico (que para alguns tinha conexão com as míticas e procuradas terras do Prestes João na África), nunca foi feita, mas o desenho original, ainda que incompleto, foi admirado por vários artistas, incluindo provavelmente Rafael que pintou cena semelhante no Vaticano. Não chegou aos nossos dias. Há uma só obra de Leonardo em Portugal: o pequeno desenho Rapariga lavando os pés de uma criança, que está de posse da Universidade do Porto e deverá ser exibido na grande exposição sobre Leonardo que abrirá no Museu do Louvre, em Paris, a 24 de Outubro em Paris. Não se sabe bem como chegou a Portugal, mas sabe-se que deve ter sido feita em Florença, cerca de 1480. A autoria de Da Vinci ficou estabelecida apenas na década de 60, uma vez que antes se pensava ser de um obscuro maneirista italiano.
Quando é que pela primeira vez se falou de Leonardo da Vinci em Portugal? Embora tenha havido notícias no reinado de D. Manuel a respeito de máquinas de inspiração leonardiana, o certo é que só no reinado de D. João III o génio italiano aparece referido. O primeiro tratado de pintura escrito em língua portuguesa é Da Pintura Antiga, de Francisco de Holanda (ca.1517-1585), recentemente publicado pelo Círculo de Leitores, na colecção Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa. O manuscrito data de 1548, mas só foi impresso no século XIX depois de ter sido encontrado numa biblioteca de Madrid. Numa secção do Livro II desse tratado intitulada “Tábua dos famosos pintores modernos a que eles chamam ‘Aguias,’ ” Francisco de Holanda, coloca no lugar cimeiro “Miguel Ângelo, florentim”, o famoso rival de Leonardo: “Querem que seja o primeiro, e que a todos leve a palma.” Florentim.” Mas, “a segunda dou a Leonardo da Vinci, que foi o primeiro que fez ousadamente a sombra.” Seguem-se na lista Rafael, Ticiano e Mestre Perino. No Livro I do mesmo tratado, ao falar dos pintores mais recentes, escreve: “Finalmente, no tempo do papa Alexandre, Júlio e Leo, primeiro Leonardo da Vinci, florentino, e Rafael de Urbino abriram os formosos olhos da pintura, alimpando-lhe a terra que dentro tinham, e, ultimamente, mestre Miguel Ângelo, florentino, parece que lhe deu espírito vital e a restituiu quase em seu primeiro ser e prisca animosidade. Mas a Leonardo e Rafael tenho mais inveja que a este famosíssimo pintor toscano, tudo isto segundo o pouco que eu entendo.” Francisco de Holanda possuiu um desenho de Leonardo, representando um velho (Busto de homem grotesco visto de perfil), mas essa obra não está hoje em Portugal, mas sim em Oxford.
Há uma outra ligação portuguesa, O quadro mais caro do mundo, rematado em leilão em 2017 por 450 milhões de dólares, o Salvator Mundi, que alguns atribuem a Leonardo, que não estará na próxima exposição do Louvre por os respectivos curadores duvidarem da verdadeira autoria. Acontece que o quadro pertenceu a um colecionador inglês, Sir Francis Cook (1817-1901), que teve título de nobreza e casa em Montserrat, Sintra, onde esteve parte da sua coleção. A pintura foi vendida ao desbarato, por 45 libras, em 1958 por herdeiros de Cook, por não se lhe conhecer valor na altura…
PENSAR LIVREMENTE: E PORQUE NÃO O ACORDO ORTOGRÁFICO?
Texto de Maria do Carmo Vieira saído no Público:
Surpreende-me o facto de a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), que se tem notabilizado pela excelência do seu trabalho, e lembre-se a PORDATA, a edição e a realização de debates públicos sobre variadíssimos temas, que dão a «conhecer» e a «pensar o país», contribuindo «para a identificação e resolução dos problemas nacionais», nunca se ter interessado em debater publicamente ou dar a desenvolver, por escrito, um tema como o do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), convidando autores, pró e contra, a analisar a polémica, que se mantém, o que já de si traduz o interesse pelo tema, na sociedade portuguesa.
Um tema relevante para os portugueses, sublinho-o, porquanto a Língua que falamos guarda uma longa história e expressa uma identidade que Vergílio Ferreira tão expressivamente soube descrever, em «Voz do Mar», aquando do Prémio Europália (1991, Bruxelas), evidenciando em simultâneo, e numa atitude humanista, a grandeza da diversidade da História e da Cultura dos povos que não implica «extensão de território», como ele próprio precisa: O orgulho não é um exclusivo dos grandes países, porque ele não tem que ver com a extensão de um território, mas com a extensão da alma que o preencheu. […]
Uma língua é o lugar donde se vê o mundo e de ser nela pensamento e sensibilidade. Da minha língua vê-se o mar. Na minha língua ouve-se o seu rumor como na de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi em nós a da nossa inquietação.
Os apoiantes do AO90, para o justificar, implicam a importância do Brasil no que ao número de falantes diz respeito, um argumento já de si falso, mas que cai por terra à luz do texto de Vergílio Ferreira de que os acordistas, aliás, se servem comummente, dele isolando a frase «Da minha língua vê-se o mar». Situação idêntica, a da descontextualização, acontece com a frase de Fernando Pessoa/Bernardo Soares, Minha pátria é a língua portuguesa («Livro do Desassossego»), o que favorece a manipulação do sentido.
Ousam citar «os nossos maiores», sabendo que estes não têm possibilidade de se defender destas e de outras aleivosias. Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, que ocupou também a 5 de Outubro (2000-2001), preparando-se nessa altura a famigerada Reforma de 2003, que em relação ao ensino do Português inventou TLEBS e etiquetas de roupa juntamente com textos literários, faz parte desse grupo.
Num discurso, relativamente recente, sobre os 130 anos do Jornal de Notícias (5 de Junho de 2018), Augusto Santos Silva expôs a sua arte de bem falar, citando nomes de escritores e frases suas, descontextualizadas, cujo significado se perde e se distorce. Ei-lo, iluminado pelo seu narcisismo: «Se Fernando Pessoa pôde dizer que a língua portuguesa era a sua pátria e se Vergílio Ferreira pôde dizer que da língua portuguesa se via o mar, acho que nós todos – os portugueses, os brasileiros, os angolanos, os guineenses, os são-tomenses, os moçambicanos, os cabo-verdianos e os timorenses – podemos dizer que da língua portuguesa, que é a nossa língua comum, se vê hoje o futuro», acrescentando eu, por um canudo, senhor ministro!
Não posso deixar de o aconselhar, senhor ministro, a reler o texto de Vergílio Ferreira, para se inteirar melhor do seu sentido, e sobretudo o que integra a frase de Fernando Pessoa/Bernardo Soares porque seguramente nunca o leu, caso contrário não citaria a frase cujo sentido profundo colide com o objectivo que o senhor se propôs defender: o AO90.
Surpreender-se-á com o facto de a referida frase ser uma apologia à língua portuguesa, enquanto «território abstracto», marcado por uma herança greco-latina e por uma ortografia, «que também é gente», que não pode andar à deriva de vontades e acordos que a aviltam. Santa ignorância, não é, senhor ministro? Mas ainda está a tempo de corrigir o erro. Nesse mesmo discurso, Augusto Santos Silva reforça a sua indiferença pela História e pela Literatura Portuguesas, orgulhando-se de não pertencer «ao grupo daqueles que dizem que a língua portuguesa é a Língua de Camões», preferindo «dizer que a língua portuguesa é a língua de Mia Couto, de Pepetela, de Germano de Almeida, de Clarice Lispector.»
Na sua óptica, o Dia de Portugal terá sido erroneamente escolhido; Luís de Camões não lhe é figura grata e representativa. Tê-lo-á alguma vez lido, com atenção? Que o poeta se situe no séc. XVI, eivado desse «espírito novo» a que se refere Vergílio Ferreira, no seu texto integral, não tem também qualquer relevo para Augusto Santos Silva. Desconhecerá que a obra, épica e lírica, do poeta constitui «uma das expressões mais completas do homem português»? (Aníbal Pinto de Castro).
No mesmo espírito de ignorância, a Reforma de 2003 aconselhava apenas a leitura de «2 ou 3 dos melhores sonetos» do poeta, limitando também, e drasticamente, o estudo de «Os Lusíadas». Foi assim que um dos episódios emblemáticos da épica, «O Velho do Restelo», desapareceu, situação que, lamentavelmente, se mantém. Na intemporalidade que caracteriza a obra artística de um génio, neste caso, Luís de Camões, é possível que se reveja, senhor ministro, no grupo da gente «surda e endurecida», «metida/no gosto da cobiça e na rudeza/ de uma austera, apagada e vil tristeza», «gente» insensível ao «engenho» e ao «estudo», à «experiência» da língua portuguesa e à «poesia» (Canto X de «Os Lusíadas»).
Não duvido também que os escritores contemporâneos que citou, e de quem sou leitora, e admiradora de alguns, se sentiram envergonhados e insultados pela sua triste visão literária e atitude colonialista. Clarice Lispector já não está fisicamente entre nós, mas seguramente não gostaria de se ver assim referida.
É intolerável numa sociedade democrática, que forçosamente não pode suprimir ideias divergentes, que se tenha vindo a impedir, ao longo dos anos, uma discussão aberta e séria sobre o AO90, seja a nível político seja académico.
É igualmente intolerável que se negue o caos linguístico que existe (escrita e pronúncia), decorrente da obrigatoriedade do cumprimento do AO 90, bem como as nefastas consequências, no Ensino, nomeadamente no ensino da Língua Portuguesa, consequências essas que o Ministério da Educação, em 1991, anteviu, no seu parecer contundente contra o AO 90: Há acordos assináveis, sem grandes problemas e há outros que são de não assinar.
O acordo recentemente assinado tem pontos que merecem séria contestação e é, frequentemente, uma simples consagração de desacordos. Intolerável ainda que uma Câmara Municipal, a do Porto, contrariando a lei, impeça, pela segunda vez, cidadãos do Movimento da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (ILC-AO) de recolher assinaturas, no recinto onde tem lugar a Feira do Livro.
De sublinhar que os voluntários não desistiram. Não estão dentro do recinto, mas, diariamente, à sua entrada e a adesão faz fila! Lembro-lhe, senhor presidente da Câmara do Porto, uma frase do realizador Youssef Chahine, no seu filme, «O Destino»: As ideias têm asas, nada pode impedi-las de voar.
Acredito que, em nome do lema, «Pensar livremente», honrado pela FFMS, e dos objectivos que a Fundação se propõe, possamos vir a ser leitores ou público assistente de uma ou mais iniciativas sobre o tema, organizadas pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Na verdade, o debate sério é um factor crucial, num tema polémico.
Recusá-lo é não deixar pensar livremente.
Maria do Carmo Vieira
Lisboa, 15 de Setembro de 2019
Surpreende-me o facto de a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), que se tem notabilizado pela excelência do seu trabalho, e lembre-se a PORDATA, a edição e a realização de debates públicos sobre variadíssimos temas, que dão a «conhecer» e a «pensar o país», contribuindo «para a identificação e resolução dos problemas nacionais», nunca se ter interessado em debater publicamente ou dar a desenvolver, por escrito, um tema como o do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90), convidando autores, pró e contra, a analisar a polémica, que se mantém, o que já de si traduz o interesse pelo tema, na sociedade portuguesa.
Um tema relevante para os portugueses, sublinho-o, porquanto a Língua que falamos guarda uma longa história e expressa uma identidade que Vergílio Ferreira tão expressivamente soube descrever, em «Voz do Mar», aquando do Prémio Europália (1991, Bruxelas), evidenciando em simultâneo, e numa atitude humanista, a grandeza da diversidade da História e da Cultura dos povos que não implica «extensão de território», como ele próprio precisa: O orgulho não é um exclusivo dos grandes países, porque ele não tem que ver com a extensão de um território, mas com a extensão da alma que o preencheu. […]
Uma língua é o lugar donde se vê o mundo e de ser nela pensamento e sensibilidade. Da minha língua vê-se o mar. Na minha língua ouve-se o seu rumor como na de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi em nós a da nossa inquietação.
Os apoiantes do AO90, para o justificar, implicam a importância do Brasil no que ao número de falantes diz respeito, um argumento já de si falso, mas que cai por terra à luz do texto de Vergílio Ferreira de que os acordistas, aliás, se servem comummente, dele isolando a frase «Da minha língua vê-se o mar». Situação idêntica, a da descontextualização, acontece com a frase de Fernando Pessoa/Bernardo Soares, Minha pátria é a língua portuguesa («Livro do Desassossego»), o que favorece a manipulação do sentido.
Ousam citar «os nossos maiores», sabendo que estes não têm possibilidade de se defender destas e de outras aleivosias. Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, que ocupou também a 5 de Outubro (2000-2001), preparando-se nessa altura a famigerada Reforma de 2003, que em relação ao ensino do Português inventou TLEBS e etiquetas de roupa juntamente com textos literários, faz parte desse grupo.
Num discurso, relativamente recente, sobre os 130 anos do Jornal de Notícias (5 de Junho de 2018), Augusto Santos Silva expôs a sua arte de bem falar, citando nomes de escritores e frases suas, descontextualizadas, cujo significado se perde e se distorce. Ei-lo, iluminado pelo seu narcisismo: «Se Fernando Pessoa pôde dizer que a língua portuguesa era a sua pátria e se Vergílio Ferreira pôde dizer que da língua portuguesa se via o mar, acho que nós todos – os portugueses, os brasileiros, os angolanos, os guineenses, os são-tomenses, os moçambicanos, os cabo-verdianos e os timorenses – podemos dizer que da língua portuguesa, que é a nossa língua comum, se vê hoje o futuro», acrescentando eu, por um canudo, senhor ministro!
Não posso deixar de o aconselhar, senhor ministro, a reler o texto de Vergílio Ferreira, para se inteirar melhor do seu sentido, e sobretudo o que integra a frase de Fernando Pessoa/Bernardo Soares porque seguramente nunca o leu, caso contrário não citaria a frase cujo sentido profundo colide com o objectivo que o senhor se propôs defender: o AO90.
Surpreender-se-á com o facto de a referida frase ser uma apologia à língua portuguesa, enquanto «território abstracto», marcado por uma herança greco-latina e por uma ortografia, «que também é gente», que não pode andar à deriva de vontades e acordos que a aviltam. Santa ignorância, não é, senhor ministro? Mas ainda está a tempo de corrigir o erro. Nesse mesmo discurso, Augusto Santos Silva reforça a sua indiferença pela História e pela Literatura Portuguesas, orgulhando-se de não pertencer «ao grupo daqueles que dizem que a língua portuguesa é a Língua de Camões», preferindo «dizer que a língua portuguesa é a língua de Mia Couto, de Pepetela, de Germano de Almeida, de Clarice Lispector.»
Na sua óptica, o Dia de Portugal terá sido erroneamente escolhido; Luís de Camões não lhe é figura grata e representativa. Tê-lo-á alguma vez lido, com atenção? Que o poeta se situe no séc. XVI, eivado desse «espírito novo» a que se refere Vergílio Ferreira, no seu texto integral, não tem também qualquer relevo para Augusto Santos Silva. Desconhecerá que a obra, épica e lírica, do poeta constitui «uma das expressões mais completas do homem português»? (Aníbal Pinto de Castro).
No mesmo espírito de ignorância, a Reforma de 2003 aconselhava apenas a leitura de «2 ou 3 dos melhores sonetos» do poeta, limitando também, e drasticamente, o estudo de «Os Lusíadas». Foi assim que um dos episódios emblemáticos da épica, «O Velho do Restelo», desapareceu, situação que, lamentavelmente, se mantém. Na intemporalidade que caracteriza a obra artística de um génio, neste caso, Luís de Camões, é possível que se reveja, senhor ministro, no grupo da gente «surda e endurecida», «metida/no gosto da cobiça e na rudeza/ de uma austera, apagada e vil tristeza», «gente» insensível ao «engenho» e ao «estudo», à «experiência» da língua portuguesa e à «poesia» (Canto X de «Os Lusíadas»).
Não duvido também que os escritores contemporâneos que citou, e de quem sou leitora, e admiradora de alguns, se sentiram envergonhados e insultados pela sua triste visão literária e atitude colonialista. Clarice Lispector já não está fisicamente entre nós, mas seguramente não gostaria de se ver assim referida.
É intolerável numa sociedade democrática, que forçosamente não pode suprimir ideias divergentes, que se tenha vindo a impedir, ao longo dos anos, uma discussão aberta e séria sobre o AO90, seja a nível político seja académico.
É igualmente intolerável que se negue o caos linguístico que existe (escrita e pronúncia), decorrente da obrigatoriedade do cumprimento do AO 90, bem como as nefastas consequências, no Ensino, nomeadamente no ensino da Língua Portuguesa, consequências essas que o Ministério da Educação, em 1991, anteviu, no seu parecer contundente contra o AO 90: Há acordos assináveis, sem grandes problemas e há outros que são de não assinar.
O acordo recentemente assinado tem pontos que merecem séria contestação e é, frequentemente, uma simples consagração de desacordos. Intolerável ainda que uma Câmara Municipal, a do Porto, contrariando a lei, impeça, pela segunda vez, cidadãos do Movimento da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (ILC-AO) de recolher assinaturas, no recinto onde tem lugar a Feira do Livro.
De sublinhar que os voluntários não desistiram. Não estão dentro do recinto, mas, diariamente, à sua entrada e a adesão faz fila! Lembro-lhe, senhor presidente da Câmara do Porto, uma frase do realizador Youssef Chahine, no seu filme, «O Destino»: As ideias têm asas, nada pode impedi-las de voar.
Acredito que, em nome do lema, «Pensar livremente», honrado pela FFMS, e dos objectivos que a Fundação se propõe, possamos vir a ser leitores ou público assistente de uma ou mais iniciativas sobre o tema, organizadas pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Na verdade, o debate sério é um factor crucial, num tema polémico.
Recusá-lo é não deixar pensar livremente.
Maria do Carmo Vieira
Lisboa, 15 de Setembro de 2019
IN MEMORIA DE ANTÓNIO PAULA BRITO
(António Paula Brito)
Com grande tristeza acabo de tomar conhecimento do falecimento ontem de um Colega, António Paula Brito, da minha geração do ISEF, que para além de dois outros colegas e amigos, falecidos tempos atrás, Jorge Teixeira de Sousa e João Correia Boaventura, foram personagens académicas em que a Amizade perdurou, no que ela tem de mais nobre, para além da juventude.
Como derradeira homenagem, menciono do seu riquíssimo currículo que tomo a liberdade de transcrever do Comité Olímpico Português:
Com grande tristeza acabo de tomar conhecimento do falecimento ontem de um Colega, António Paula Brito, da minha geração do ISEF, que para além de dois outros colegas e amigos, falecidos tempos atrás, Jorge Teixeira de Sousa e João Correia Boaventura, foram personagens académicas em que a Amizade perdurou, no que ela tem de mais nobre, para além da juventude.
Como derradeira homenagem, menciono do seu riquíssimo currículo que tomo a liberdade de transcrever do Comité Olímpico Português:
"Faleceu António Paula Brito (19/09//2019) professor catedrático aposentado da Faculdade de Motricidade Humana (FMH) e um nome de referência na implantação da Psicologia do Desporto em Portugal.
Licenciado em Educação Física pelo Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e em Psicologia Industrial pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada, António Paula Brito doutorou-se em Educação Física na especialidade de Psicologia das Atividades Físicas pela Universidade Livre de Bruxelas, onde também se pós-graduou em Psicologia Profissional.
Criou e dirigiu o Gabinete de Investigação Aplicada no Instituto Nacional de Educação Física, o Gabinete de Estudos da Direção-Geral dos Desportos e o Laboratório de Psicologia do Desporto do ISEF/FMH. Foi o fundador e primeiro presidente da Sociedade Portuguesa de Educação Física e da Sociedade Portuguesa de Psicologia Desportiva, da qual se tornou presidente honorário.
António Paula Brito foi condecorado pela Féderation Internationale d’Education Physique e recebeu o prémio Pffizer da Sociedade Portuguesa de Ciências Médicas [ em aditamento meu , em equipa com outros licenciados pelo INEF e respecivo director doutor Andreson Leitão, 1963 ]".
Repousa em paz, meu irmão, meu amigo, meu colega.
JL: Amazónia, "onde nasce o perigo, cresce também a salvação?"
[Na edição de 12 de setembro do JL, entre muitas outras coisas, um pequeno dossiê sobre os fogos da Amazónia, de costas, mas não voltadas, com Viriato Soromenho Marques, com quem, aliás, concordo com as teses. Uma visão, apesar de tudo, optimista, baseada na literatura Portuguesa e Brasileira e muito mais]
A selva, romance autobiográfico de Ferreira de Castro publicado em 1930, descreve o período de 1914/16 que este passou no seringal Paraíso, na Amazónia, no apogeu do ciclo da borracha. Dedica-o a “essa majestade verde, soberba e enigmática, que é a selva amazónica,” pelo que nela sofreu e pela coragem que lhe deu, assim como à gente que “à extracção da borracha entregava a sua fome, a sua liberdade e a sua existência,” numa “epopeia que não ajuíza quem, no resto do Mundo, se deixa conduzir, veloz e comodamente, num automóvel com rodas de borracha … que esses homens, humildemente heróicos, tiram à selva misteriosa e implacável.”
Ferreira de Castro descreve com precisão as duras condições de vida dos seringueiros, a extracção do látex da Hevea brasiliensis e o processo insalúbre de obtenção da borracha, usando o que descreve como fumo ácido e asfixiante. Mais recentemente, em 2008, Milton Hatoum, em Orfãos do Eldorado inventou o bairro “Cegos do Paraíso” onde viviam invisuais vítimas da defumação do látex. A procura mundial por borracha originou, de 1890 a 1908, no “Estado Livre do Congo” do rei Leopoldo II da Bélgica, um regime de escravatura e atricidades para extrair o látex de um tipo de liana africana. Esta situação foi denunciada por Joseph Conrad em “O coração das trevas”, de 1902, assim como por Mark Twain e Conan Doyle, entre outros. No Brasil não foi tão duro, mas Ferreira de Castro descreve como os trabalhadores ficavam na prática “presos” por terem de pagar as dívidas que se acumulavam. Tudo isso é agora uma memória, mas a recordação do sofrimento ficou.
Monteiro Lobato, em A Geografia de Dona Benta, de 1935, coloca Pedrinho a perguntar por que razão a produção de borracha brasileira foi ultrapassada pelas plantações dos Holandeses e Ingleses que levaram a seringueira para a Ásia. Enquanto no Brasil se explorava a floresta nativa, com umas dez árvores da borracha por hectare, misturadas com muitas outras espécies, na Ásia usava-se o sistema de plantação. Como é também referido por Ferreira de Castro, houve interesse internacional em introduzir esse sistema no Brasil, nomeadamente por Henry Ford, mas tal nunca se concretizou.
O fim do ciclo da borracha, que agonizou até meados do século XX, não foi apenas devido ao aparecimento de outros locais de produção de borracha natural. Foi também causado pelo desenvolvimento da produção de borracha sintética a partir do petróleo. Claro que podemos dizer que subtituímos um problema por outro, mas a necessidade de plantações intensivas, a exploração dos seringueiros e a pressão sobre os ecossistemas, desapareceu.
Mário de Andrade que faz sair Macunaíma – o herói sem nenhum carácter, publicado em 1928, da Amazónia, embora crítico da ideia de progresso de Monteiro Lobato, não a rejeita. Nas suas notas das viagens, realizadas de 1926 a 1929 e publicadas em “O turista aprendiz,” descreve o progresso da Amazónia como algo bom. Está no espírito dos tempos actuais a rejeição filosófica (não na prática) da ideia de progresso. A história da ciência e da técnica mostra-nos que o anacronismo é dificil de evitar e que muitas supostas relações causais ou situações sem saída são ilusões causadas pela nossa falta de conhecimento.
Os incêndios na Amazónia são uma situação grave mas não são uma catástrofe global. Um pico de queimadas, o fumo nas grandes cidades, as imagens de satélite e as redes sociais, chamaram a atenção para um desperdício de energia e recursos ambientais que, infelizmente, acontece há muitos anos. Estes podem – e não é pouco - provocar perturbações nos equilíbrios dos ciclos da água, ameaçar a biodiversidade, aumentar as partículas de fumo na atmosfera, entre outras coisas, mas não vão causar a diminuição do oxigénio no planeta nem originar um grande aumento do dióxido de carbono na atmosfera pois este já havia sido fixado pelas plantas.
O uso do fogo para criar terra livre é referido por Ferreira de Castro, mas usá-lo hoje para criar espaços livres, pastagens e terrenos de cultura na Amazónia não parece fazer sentido. Não é eficiente nem sustentável - em poucos anos esgota os terrenos e acelera a desflorestação - sendo possível manter e até aumentar de outras formas os níveis de produção dos solos já em uso, controlando a erosão, sem ameaçar ecossistemas e aumentar a desflorestação.
Outra fonte de problemas na Amazónia é a mineração. Para além dos receios em relação à possibilidade de serem atribuídas licenças para exploração mineira de grandes dimensões na Amazónia, um grande problema têm sido as muitas minas artesanais ilegais que vão causando desflorestação e contaminando os solos e as pessoas que nelas trabalham ou com elas contactam.
O mapeamento das espécies e o registo das assinaturas genéticas e das composições químicas, são fundamentais para a preservação e valorização da biodiversidade da Amazónia - o conhecimento aberto e público dificultam a apropriação e contribuem para o uso racional. No entanto, a ideia, sustentada pelas estimativas de espécies ainda desconhecidas, de que poderemos encontrar com maior probabilidade novos medicamentos na floresta da Amazónia é uma ilusão. A maior parte dos cerca de quarenta novos medicamentos descobertos anualmente no mundo é sintética. E poderemos igualmente encontrar, tal como no conto de Borges, tesouros no nosso quintal: moléculas de novos medicamentos escondidas nas plantas do nosso jardim. E não tenhamos receio: se descobrirem novos fármacos em plantas amazónicas, a indústria preferirá inventar um processo de síntese a partir de materiais sustentáveis e baratos do que enfrentar o problema do cultivo da planta, ou, o que seria inaceitável, da sua exploração ilegal.
Como nos mostra a história da borracha e da química medicinal, os problemas vão criando novas soluções que criam novos problemas que, em todo o caso, só se resolvem com mais ciência. Não esqueçamos o verso de Hölderlin que se reinventa em Heidegger, Ulrich Beck e Hubert Reeves: “onde há o perigo, cresce também a salvação.”
Subscrever:
Mensagens (Atom)
A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA
Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...
-
A falácia do espantalho , uma das mais utilizadas pelos que que não conseguem sequer compreender os temas em debate, basicamente consiste em...
-
Na Antiguidade, entre os Gregos e os Romanos, as máscaras eram utilizadas no teatro e serviam para caracterizar a personagem que ali se que...










