segunda-feira, 27 de maio de 2019
Sophie Kowalevski: A Queen from the Empire of Science
Na próxima terça-feira, dia 28 de Maio, às 15h, realiza-se no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a palestra intitulada "Sophie Kowalevski: A Queen from the Empire of Science" por Ma Li, professora no Departamento de Ciências Matemáticas da Universidade de Tsinghua, China.
Carlos Fiolhais, director do RÓMULO, apresentará a professora Ma Li, especialista em história e ensino da ciência. A sessão, destinada ao público em geral e a todos os que se interessam por esta área da história e da matemática, é de entrada livre.
RESUMO DA PALESTRA:
“On 18 November 1883, the Swedish newspaper Dagens Nyheter carried an article about the arrival of Sophie Kowalevski in Stockholm entitled “An Important Guest in Stockholm”: This does not have to do with an insignificant king or prince from some friendly nation but rather a queen from the empire of science. Sophie Kowalevski (15 January 1850 – 10 February 1891) lived in the second half of the 19th century. It was in Russia where she first saw the world; the world ended for her in Sweden. Her life was relatively short, yet eventful and unusual. She was the first woman in the world to have received a PhD in mathematics — at Göttingen University in 1874, and the first woman to actually hold an official university professorship — at Stockholm University from 1889 to her premature death in 1891. As an editor for Acta Mathematica, she was probably the first woman to be in the board of any major scientific journal. In 1888 she was awarded the prestigious Bordin Prize of the French Academy of Sciences for her work on rotation of a rigid body around a fixed point, the so-called Kovalewski top. The following year she was elected a corresponding member of the St. Petersburg Imperial Academy of Sciences. She was also the first woman to be so honoured. In fact, the rules of the Academy hade to be changed to allow female members before a vote could be held regarding her candidacy. Besides, there is indication that, at the time of her premature death in 1891, she was being considered full membership in the Academy.”
NOVA ATLANTIS
A
revista “Atlantís” acaba de publicar o seu último número (em acesso
aberto). Convidamos a navegar pelo sumário da revista para aceder à
informação.
Atlantís - review
v. 27 (2019)Sumário
https://impactum-journals.uc.pt/atlantis/issue/view/365
[Recensão a] LAKS, André & MOST, Glenn, Early Greek Philosophy. Cambridge MA, Loeb Classical Library, 2016, 9 vols. ISBN: 978-2-213-63753-2.
Sergio Javier Barrionuevo
[Recensão a] RYAN, Barbara & SHAMIR, Milette (eds.), Bigger than Ben-Hur. The Book, its Adaptations and their Audiences, Syracuse, New York, Syracuse University Press, 2016, 269 pp. ISBN: 978-0- 8156-3403-4.
Nuno Simões Rodrigues
[Recensão a] TRABATTONI, Franco, Essays on Plato’s Epistemology. Ancient and Medieval Philosophy, Leuven, Leuven University Press, 2016, 338 pp. ISBN: 978-9462700598.
Nicholas Zucchetti
[Recensão a] BREMMER, Jan, Initiation into the Mysteries of the Ancient World, Berlin, Walter De Gruyter, 2014, 256 pp. ISBN: 978-3-11-029929-8.
Marco Alampi
[Recensão a] CYRINO, Monica & SAFRAN, Meredith (eds.), Classical Myth on Screen, New York, Palgrave Macmillan, 2015, 257 pp. ISBN: 978-1-137-49453-5.
Sílvia Catarina Pereira Diogo
Atlantís
http://impactum-journals.uc.pt/atlantis
Porque nos devemos preocupar muito, muitíssimo com a educação escolar?
O ensino de artes pode tornar-se mais importante do que a matemática no futuro, baseado em tecnologia. Este é o enigmático título de um artigo que acabo de receber, publicado em 27 de Fevereiro do corrente ano (aqui), retirado do depoimento que Andreas Schleicher levou à Câmara dos Comuns sobre uma investigação em curso (presumivelmente da responsabilidade da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico - OCDE) sobre a influência na sociedade da "quarta revolução industrial" (robótica e inteligência artificial).
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| Imagem recolhida aqui |
Schleicher, o mais alto representante da OCDE para a Educação, é apresentado, no artigo, como "um importante especialista em educação", "um dos principais pensadores educacionais do mundo".
Sabendo que, efectivamente, assim é, estando bem consciente do poder que representa nos desígnios da escola pública à escala global, levo muito a sério tudo o que diz. E, naturalmente, preocupo-me.
Preocupo-me, nomeadamente, pelo facto de, nesse artigo, ser sugerido ou afirmado, pela enéssima vez, que:
- a integração de uma área de conhecimento no currículo escolar exclui outra(s) área(s). Por exemplo, para dar expressão à tecnologia minimiza-se a das humanidades e das artes (o que, de resto, acontece e está profundamente errado); para dar expressão às artes minimiza-se o das ciências e da matemática (o que se pretende, agora, fazer?). O que tenho a dizer é que as várias áreas que compõem o conhecimento humano são complementares e, portanto, todas elas devem estar devidamente representadas no percurso escolar dos alunos;
- as artes estão directamente associadas à criatividade. Não estão. A verdade é que todas as áreas de conhecimento podem concorrer para desenvolver essa capacidade humana. Ou não. Depende de como ela se estimula, através do ensino;
- a "priorização" de aprendizagens académicas impede os alunos de serem criativos. Ora, são precisamente as aprendizagens académicas (que interpreto serem as de ordem disciplinar) que permitem o desenvolvimento da criatividade (pelo menos de um certo tipo de criatividade que leva o conhecimento civilizacional mais além);
- as aprendizagens "muito focadas em tarefas tradicionais, como a memorização" são contraproducentes. A integração, tratamento e recuperação de conhecimento (dependentes do "aparelho de aprendizagem" que é a memória) são a base de toda a aprendizagem. O "jogo" entre estas três operações conduzem ao desenvolvimento de capacidades como a compreensão, a aplicação, a análise e a síntese... e a criatividade;
- para se conseguir a criatividade é preciso dispensar a "aprendizagem baseada em testes". Não sei bem o que Schleicher quer dizer com "aprendizagem baseada em testes", mas os testes, podem medir diversas capacidades, incluindo a criatividade (por referência a conhecimento escolar). Os testes não são, não podem ser, entendidos como um fim em si mesmos, mas são instrumentos de regulação do ensino e dos sistemas educativos, cumprem igualmente a função fundamental de identificar dificuldades, corrigir trajectórias de aprendizagem e dar feedback aos alunos. Não posso deixar de notar que o autor da afirmação é o responsável pelo "Programa Internacional de Avaliação de Estudantes" (PISA), concretizado, em parte, através de testes!
- se pode opor "habilidades"/"competências" (que não são a mesma coisa) ao conhecimento. Como é possível não se perceber que a realização prática (se é que o sentido de "habilidade"/"competência" usado depende de conhecimento que se integrou e se faz valer, que se evidencia numa certa circunstância?
- as “habilidades sociais e emocionais" (também não estou certa do que se possa entender por elas) são separáveis das "habilidades duras como ciência e matemática". Há aqui uma enorme confusão entre capacidades humanas e conhecimento(s). Vejamos: elementos cognitivos e afectivos da aprendizagem andam a par, pelo que devem ser trabalhados em consonância e isto em todas as áreas disciplinares e disciplinas, temas disciplinares, interdisciplinares, etc.;
- é preciso tornar, no futuro a "ciência e a matemática mais suaves" uma vez que a necessidade delas diminui devido à tecnologia é, no mínimo, desorientador... Não consigo entender o sentido da afirmação, quer pelo que mencionei no ponto acima, quer pela necessidade crescente do conhecimento científico, humanístico, artístico para lidar com a tecnologia. Como poderemos dispensar a "ciência e a matemática" numa sociedade tecnológica?!
- (mais:) porquê e para quê tornar as “habilidades sociais e emocionais" (como a “curiosidade, a liderança, a persistência e a resiliência”) em “habilidades difíceis”, invertendo a suposta ordem (ainda) existente? E como é possível desenvolver estas (chamemos-lhe) "habilidades" sem trabalhar o conhecimento escolar?
- às artes, ou às "artes" úteis à tecnologia?
- e à criatividade ou à "criatividade" que (uma certa) tecnologia envolve?
Finalmente, como é regra nas suas intervenções, Schleicher, diz que:
- é preciso preparar os alunos para o futuro (sim, evidentemente, que é desejável fazer isso, de resto, a escola sempre fez isso) e abandonar o passado (não, evidentemente, que isso não pode ser feito sem ponderação). Alega que os tipos de tarefas que os estudantes (no caso, os ingleses, mas também já li que o disse para os portugueses e para os espanhóis) desempenham melhor "são as que estão mais associadas ao passado do que ao futuro, o tipo de coisas que são fáceis de ensinar e fáceis de testar". Eu diria que tudo o que é escolar (dada a sua natureza) sempre foi, é e será difícil de ensinar e de aprender e, também, de testar;
- "o mundo moderno não recompensa ninguém pelo que sabe, mas pelo que pode fazer com o que sabe". Esta frase (eco de outra reproduzida no Expresso: “já não recompensa as pessoas apenas por aquilo que sabem – o Google sabe tudo – mas por aquilo que conseguem fazer com isso”) é absolutamente paradoxar: o que podemos fazer com o saber que... não temos?! Isto para não falar da desvalorização absoluta e grosseira do saber que se tem apenas porque se tem, e porque importa preservar o saber independentemente do que se possa fazer com ele. E, ainda, para não falar da miserável lógica da "recompensa" externa, material, imediata... tudo o que não couber nesta lógica deve ser apagado, destruído.
domingo, 26 de maio de 2019
SEGUNDA CONFERÊNCIA: “Responsabilidade social das empresas na construção do currículo escolar"
Realizou-se ontem a SEGUNDA CONFERÊNCIA do ciclo “O currículo escolar na contemporaneidade: Identificação e discussão de algumas das suas bases” (ver aqui e aqui).
Título: “Responsabilidade social das empresas na construção do currículo escolar”
Resumo: No cenário global designado da “Educação para o Futuro”/”Educação para do Século XXI”, os sistemas de ensino e as empresas mantêm múltiplas e estreitas relações, as quais acompanham o delineamento e desenvolvimento do currículo, sobretudo na componente designada por “Educação para a Cidadania” (em Portugal, designada na mais recente reforma curricular por “Cidadania e Desenvolvimento”). Ainda que se trate de relações que já se tornaram comuns e que, inclusivamente, encontrem suporte na lei vigente, há que interrogá-las, quer pela diferença de propósitos em causa (educar, para os sistemas de ensino; expandir o negócio, para as empresas), quer pela abordagem (crítica, para os sistemas de ensino; promocional, para as empresas). Há que interrogá-las, ainda, pela recolha de dados junto dos alunos, professores e famílias, que lhes está associada. Esta conferência, para a qual são convidados especialistas em Direito do Consumo e Intervenção Cívica incide, por um lado, na caracterização da mencionada situação e, por outro lado, na sua análise. O fim último é prestar apoio às decisões dos agentes educativos, mais directamente ligados às escolas, no respeitante à matéria em discussão.
Programa
1. Relações entre empresas, sistemas educativos e escolas públicas
2. Abordagem estratégica das empresas na escola pública: a publicidade
3. Implicações dessa abordagem no aliciamento para o consumo e na protecção de dados dos alunos e das suas famílias
1. Relações entre empresas, sistemas educativos e escolas públicas
2. Abordagem estratégica das empresas na escola pública: a publicidade
3. Implicações dessa abordagem no aliciamento para o consumo e na protecção de dados dos alunos e das suas famílias
4. Responsabilidade dos educadores na formação dos alunos e na sua protecção
Um dos conferencistas convidados, Mário Frota, para sintetizar a sua intervenção leu um poema de Carlos Drummond de Andrade com a ênfase que merece por parte de quem é professor e vê a investida das empresas na escola, incentivada pelas políticas internacionais e legitimada pelas políticas nacionais. O poema foi este:
EU, ETIQUETA
Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda,
ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional
ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comparo,
tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam
e cada gesto, cada olhar
cada
vinco da roupa
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.
Andrade, C.D. (1989). Obra poética. Lisboa: Publicações Europa-América (vol. 4-6).
"Grandes convenções dramáticas: o Frei Luís de Sousa e a tradição clássica"
No próximo dia 29 de Maio realiza-se a quinta e última conferência do Ciclo de Conferências Desfiando o passado: A antiguidade greco-latina em contínua presença, promovida pela Associação de Professores de Latim e Grego. Vale a pena assistir.
Gigantes desportivos: competência, coragem e talento político para reformar o desporto português
Publicamos mais um texto do leitor Fernando Tenreiro, que agradecemos.
O filme Hidden Figures apresentado na SIC, a 12mai2019, trata das vicissitudes que mulheres de raça negra, licenciadas em matemática, tiveram de passar para se afirmarem com sucesso no projecto inovador da NASA de colocar astronautas americanos em órbita da Terra, de os enviar à Lua e de os trazer de volta.
A cena do filme que interessa a este artigo, passa-se em 1961 quando se discutia na NASA a amaragem da cápsula de John Glenn no oceano Atlântico, depois de um período no espaço em que daria algumas voltas à Terra. O responsável da Marinha refere que não lhe podem pedir para cobrir todo o oceano e necessitava que lhe garantissem que a chegada da cápsula com o astronauta ao oceano aconteceria num determinado local com 50 quilómetros quadrados. Dado que na enorme mesa ninguém tinha a resposta o director Harrison (o actor Kevin Costner) entrega um giz e pede à matemática Katerine Goble (a atriz Taraji Henson) que explique a todos como a operação decorrerá.
Katerine Goble dirige-se a um quadro e enuncia que tomando as Bahamas como local de amaragem, a decisão de John Glenn continuar a órbita ou de a abortar voltando à terra teria de se decidir a 5 km de distância. Com o giz escreve a equação, considerando a velocidade da cápsula de 28.234 km por hora desde que chegara ao espaço, o ângulo de descida, a gravidade terrestre, a velocidade de reentrada na atmosfera, etc., que assegurava a chegada da cápsula à latitude X e à longitude Y das Bahamas como solicitado para os 50 km2 aonde estariam os navios e os helicópteros que recolheriam a cápsula e o astronauta.
Os gigantes americanos
Nas palavras do director Harrison, o projecto integrou gigantes que colocaram os norte-americanos a orbitar a Terra, irem à Lua e a voltarem sãos e salvos. Os gigantes incluiriam o Presidente Kennedy que definiu o objectivo de chegar à Lua e as metas de orbitar a Terra com os seus aparelhos e de lá colocar um astronauta em resposta ao competidor directo na corrida espacial, a União Soviética. Entre outros, os gigantes foram as matemáticas de raça negra que demonstraram estar à altura dos desafios que a NASA tinha de resolver e acima do que era pedido aos seus colegas brancos. Outra característica do projecto americano em relação ao desporto português é a disponibilização de meios financeiros e organizacionais com o envolvimento de vários departamentos do Estado, Segurança, Marinha, informática, ciência, etc.
A corrida espacial tal como os Jogos Olímpicos são desafios sublimes que os países investem para afirmarem a excelência da sua Nação, dos seus povos, dos seus regimes políticos, da sua economia e da sua cultura, entre outros desígnios fundamentais.
A história dos Jogos Olímpicos está cheia das palavras e do arrojo dos políticos e das suas Nações que se afirmam pelo querer inquebrantável e a determinação de os usar como elo de formação e maturação das nacionalidades.
No caso recente do Reino Unido existe um percurso de política pública desportiva com várias décadas de investimento no melhoramento das instituições de todo o seu desporto o que elevou a sua produtividade olímpica a níveis que nenhum outro grande país mundial alcançou de 1 milhão de habitantes por medalha conquistada, quando a média dos grandes países se situa entre os 2 e os 3 milhões de habitantes por medalha, e que agora chega à final da Liga dos Campeões de futebol com os 2 finalistas.
A órbita baixa do desporto português
Os líderes do desporto nacional não quantificam a produção nem determinam uma meta temporal. A figura 1 mostra a performance desde início dos Jogos Olímpicos de verão em 1896 dos países da dimensão de Portugal e mais pequenos. A figura 2 compara a evolução de Portugal com outros países que têm menos décadas de participação nos Jogos Olímpicos.
A figura 1 é construída com as medalhas olímpicas dos primeiros, segundos e terceiros lugares acumulados por países europeus de micro dimensão, com menos de 5 milhões de habitantes, por países de dimensão pequena entre 5 milhões de habitantes e 8 milhões de habitantes e por países de média dimensão entre os 8 milhões de habitantes e menos de 20 milhões de habitantes. Não são considerados na figura 1, os grandes países com mais de 20 milhões de habitantes.
Formam-se 3 grupos países: o grupo 1 da produtividade menor na conquista de medalhas olímpicas; o grupo 2 da produtividade média; e, o grupo 3 da produtividade superior. A figura 1 identifica a dimensão populacional dos países da amostra em micros, pequenos e médios.
No grupo 1 da menor produtividade Portugal é um país médio com 10 milhões de habitantes e conquistou o menor número de 24 medalhas entre todos os países considerados. Neste grupo junta-se a Irlanda, um país micro com menos de 5 milhões de habitantes, que conquistou 31 medalhas. No grupo 2 da produtividade média encontra-se a Áustria com 95 medalhas que pertence ao grupo dos países que tem até 200 medalhas acumuladas e a que pertencem a Bélgica, Noruega, República Checa, Suíça e Dinamarca. O grupo 3 dos países de produtividade superior varia entre as cerca de 300 medalhas conquistadas e as 50 medalhas e integra a Holanda, a Finlândia, a Hungria e a Suécia que é a campeã.
A conclusão da figura 1 é que os países mais pequenos do que Portugal como a Finlândia, a Dinamarca, a Noruega e a Irlanda ganharam ao longo dos 100 anos de participação olímpica mais medalhas do que Portugal não consegue produzir.
Todos os países foram e estão a ir-se embora e o desporto nacional ficará sozinho
A análise dos países que tiveram uma transformação de regime político demonstra que o nível de acumulação das medalhas mesmo nos países mais pequenos com menos de 5 milhões de habitantes é superior à produtividade olímpica de Portugal.
A figura 2 apresenta os países que começaram a participar a partir da transformação do seu regime político. A República Checa que pertence ao grupo dos países que conquistaram até 200 medalhas resulta da divisão da Checoslováquia em República Checa e Eslováquia. Verifica-se que apesar da divisão do país, o declive da conquista das medalhas é equivalente antes e depois da passagem do regime soviético para o democrático.
No caso de Portugal e de Espanha o ano de 1976 marca os últimos Jogos Olímpicos em que os resultados são aproximados. Depois desses Jogos Olímpicos a inclinação da curva de Espanha é igual às curvas da República Checa e da Eslováquia e sugerem a existência de um padrão de sucesso.
Países como a Ucrânia e a Bielorrússia depois da saída da URSS passam a acumular medalhas com médias elevadas de conquista de medalhas. O grupo mais interessante é o dos países micro com menos de 5 milhões de habitantes, como a Croácia, a Estónia, a Geórgia, a Eslovénia e a Lituânia, que se tornam independentes no início da década de 90 e têm níveis de produtividade que lhes permitem em 7 Jogos Olímpicos ultrapassar Portugal que possui mais de 10 milhões de habitantes e compete nos Jogos Olímpicos desde 1924.
A conclusão da figura 2 sugere que Portugal deveria conquistar a média de medalhas dos países que possuem uma dimensão populacional equivalente ao país. Os países europeus médios entre os 8 milhões de habitantes e os 20 milhões de habitantes têm uma média de 7 medalhas por Jogos Olímpicos. Este indicador permitiria ao desporto nacional comportar-se ao nível de todos os países europeus e duplicar o seu número de medalhas em 3 Jogos Olímpicos, em vez de esperar que passem mais 100 anos de produtividade medíocre.
A produtividade olímpica de Portugal é inaceitável
O quadro abaixo divide na coluna 1 os países europeus pela produtividade: os países eficientes e os ineficientes. Na coluna 2 os países são qualificados dividindo a sua população pelo número de medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
Começando pelos países com eficiência produtiva:
• Os países mais pequenos precisam de 500 mil habitantes para conquistar uma medalha e que esses países têm na sua maior parte menos de 5 milhões de habitantes.
• Seguem-se os países que necessitam de 1 milhão de habitantes para produzirem uma medalha e que na sua maior parte são países de dimensão média, a dimensão de Portugal. Estes países também são maioritários no agrupamento seguinte da produtividade de 1,5 milhões por medalha.
• Entre os 2 e os 3 milhões de habitantes por medalha estão os grandes países.
O grupo dos 6 milhões de habitantes por medalha olímpica corresponde a níveis de ineficiência produtiva que se poderá qualificar de ineficiência baixa. No nível seguinte de ineficiência alta está a Áustria e Portugal. A Áustria é um país que já conquistou 95 medalhas olímpicas e que recentemente atravessa uma baixa de produtividade. Portugal pode ter a média de produtividade olímpica que quiser, não pode é não ter uma política pública desportiva em negação como actualmente acontece com o silêncio absoluto dos parceiros desportivos.
À política pública do desporto nacional falta a produtividade de nível europeu
Em Portugal os Governos decidem habitualmente continuar a frágil actividade desportiva e nunca decidem cortar com essa rotina e investir na prática generalizada de desporto pela população e na conquista de medalhas entre outros indicadores de sucesso desportivo.
O desporto português necessita de um momento fundacional por parte de um alto responsável público que proclame uma “palavra”; um discurso; uma decisão; um programa; um projecto; uma Visão; uma paixão (Guterres dixit); uma motivação de política pública nacional de resposta a um resultado desportivo de excepção, etc. etc. etc.
As selfies com os campeões desportivos ocasionais são seiva populista de quem cala a política pública desportiva e cavalga o almoço grátis no camarote!
O acto de política pública desportiva teria de ser mais poderoso do que o que gerou a antiga Lei de Bases do Sistema Desporto em 1990 e que colocou o desporto nacional num contexto superior ao passado de décadas de ordenamento jurídico corporativo ou o que se candidatou e criou o campeonato europeu de futebol, Euro2004. Houve limitações que levaram à jurisdicionalização do direito desportivo e actualmente destroem o desporto e houve limitações por ocasião do Euro2004 que se evidenciaram no fracasso relativo em Pequim2008 e desde então se agravaram. A vitória no campeonato europeu de 2016 em França foi um magnífico e belíssimo acaso. Deve estar-se ciente que não foi uma consequência das decisões de política pública desportiva e surgiu contra a evidência da catástrofe que se reconhece se passou no Sporting Clube de Portugal e passa mais além endemicamente.
O desporto português mantém-se numa órbita baixa, num limbo pequeno e “orgulhosamente só” que recusa a ciência, a democracia, a solidariedade, a sustentabilidade, o Século XXI, a integridade dos líderes de excepção, o talento ao serviço da política pública desportiva, a competitividade desportiva e a determinação do consenso nacional do que será o desporto para os seus filhos e netos.
Essa órbita baixa suscita interrogações como as seguintes: O que aconteceria se os jovens atletas portugueses em vez de competirem com as más condições nacionais competissem com as condições dos restantes países europeus? Uma pergunta melhor é: que resultados desportivos seriam produzidos pela juventude portuguesa se tivesse as mesmas condições da juventude de todos os outros países europeus, em vez das condições cronicamente medíocres da política pública desportiva que lhe são oferecidas pelo Estado português?
O que receiam ou esperam os políticos portugueses do desporto nacional?
Fernando Tenreiro,
economista, fjstenreiro@gmail.com, linda-a-velha,
25mai2019
O filme Hidden Figures apresentado na SIC, a 12mai2019, trata das vicissitudes que mulheres de raça negra, licenciadas em matemática, tiveram de passar para se afirmarem com sucesso no projecto inovador da NASA de colocar astronautas americanos em órbita da Terra, de os enviar à Lua e de os trazer de volta.
A cena do filme que interessa a este artigo, passa-se em 1961 quando se discutia na NASA a amaragem da cápsula de John Glenn no oceano Atlântico, depois de um período no espaço em que daria algumas voltas à Terra. O responsável da Marinha refere que não lhe podem pedir para cobrir todo o oceano e necessitava que lhe garantissem que a chegada da cápsula com o astronauta ao oceano aconteceria num determinado local com 50 quilómetros quadrados. Dado que na enorme mesa ninguém tinha a resposta o director Harrison (o actor Kevin Costner) entrega um giz e pede à matemática Katerine Goble (a atriz Taraji Henson) que explique a todos como a operação decorrerá.
Katerine Goble dirige-se a um quadro e enuncia que tomando as Bahamas como local de amaragem, a decisão de John Glenn continuar a órbita ou de a abortar voltando à terra teria de se decidir a 5 km de distância. Com o giz escreve a equação, considerando a velocidade da cápsula de 28.234 km por hora desde que chegara ao espaço, o ângulo de descida, a gravidade terrestre, a velocidade de reentrada na atmosfera, etc., que assegurava a chegada da cápsula à latitude X e à longitude Y das Bahamas como solicitado para os 50 km2 aonde estariam os navios e os helicópteros que recolheriam a cápsula e o astronauta.
Os gigantes americanos
Nas palavras do director Harrison, o projecto integrou gigantes que colocaram os norte-americanos a orbitar a Terra, irem à Lua e a voltarem sãos e salvos. Os gigantes incluiriam o Presidente Kennedy que definiu o objectivo de chegar à Lua e as metas de orbitar a Terra com os seus aparelhos e de lá colocar um astronauta em resposta ao competidor directo na corrida espacial, a União Soviética. Entre outros, os gigantes foram as matemáticas de raça negra que demonstraram estar à altura dos desafios que a NASA tinha de resolver e acima do que era pedido aos seus colegas brancos. Outra característica do projecto americano em relação ao desporto português é a disponibilização de meios financeiros e organizacionais com o envolvimento de vários departamentos do Estado, Segurança, Marinha, informática, ciência, etc.
A corrida espacial tal como os Jogos Olímpicos são desafios sublimes que os países investem para afirmarem a excelência da sua Nação, dos seus povos, dos seus regimes políticos, da sua economia e da sua cultura, entre outros desígnios fundamentais.
A história dos Jogos Olímpicos está cheia das palavras e do arrojo dos políticos e das suas Nações que se afirmam pelo querer inquebrantável e a determinação de os usar como elo de formação e maturação das nacionalidades.
No caso recente do Reino Unido existe um percurso de política pública desportiva com várias décadas de investimento no melhoramento das instituições de todo o seu desporto o que elevou a sua produtividade olímpica a níveis que nenhum outro grande país mundial alcançou de 1 milhão de habitantes por medalha conquistada, quando a média dos grandes países se situa entre os 2 e os 3 milhões de habitantes por medalha, e que agora chega à final da Liga dos Campeões de futebol com os 2 finalistas.
A órbita baixa do desporto português
Os líderes do desporto nacional não quantificam a produção nem determinam uma meta temporal. A figura 1 mostra a performance desde início dos Jogos Olímpicos de verão em 1896 dos países da dimensão de Portugal e mais pequenos. A figura 2 compara a evolução de Portugal com outros países que têm menos décadas de participação nos Jogos Olímpicos.
A figura 1 é construída com as medalhas olímpicas dos primeiros, segundos e terceiros lugares acumulados por países europeus de micro dimensão, com menos de 5 milhões de habitantes, por países de dimensão pequena entre 5 milhões de habitantes e 8 milhões de habitantes e por países de média dimensão entre os 8 milhões de habitantes e menos de 20 milhões de habitantes. Não são considerados na figura 1, os grandes países com mais de 20 milhões de habitantes.
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Figura 1
A participação nos Jogos Olímpicos de 1896 a 2016 dos países do ocidente europeu (Fonte: Tenreiro, F.?
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Formam-se 3 grupos países: o grupo 1 da produtividade menor na conquista de medalhas olímpicas; o grupo 2 da produtividade média; e, o grupo 3 da produtividade superior. A figura 1 identifica a dimensão populacional dos países da amostra em micros, pequenos e médios.
No grupo 1 da menor produtividade Portugal é um país médio com 10 milhões de habitantes e conquistou o menor número de 24 medalhas entre todos os países considerados. Neste grupo junta-se a Irlanda, um país micro com menos de 5 milhões de habitantes, que conquistou 31 medalhas. No grupo 2 da produtividade média encontra-se a Áustria com 95 medalhas que pertence ao grupo dos países que tem até 200 medalhas acumuladas e a que pertencem a Bélgica, Noruega, República Checa, Suíça e Dinamarca. O grupo 3 dos países de produtividade superior varia entre as cerca de 300 medalhas conquistadas e as 50 medalhas e integra a Holanda, a Finlândia, a Hungria e a Suécia que é a campeã.
A conclusão da figura 1 é que os países mais pequenos do que Portugal como a Finlândia, a Dinamarca, a Noruega e a Irlanda ganharam ao longo dos 100 anos de participação olímpica mais medalhas do que Portugal não consegue produzir.
Todos os países foram e estão a ir-se embora e o desporto nacional ficará sozinho
A análise dos países que tiveram uma transformação de regime político demonstra que o nível de acumulação das medalhas mesmo nos países mais pequenos com menos de 5 milhões de habitantes é superior à produtividade olímpica de Portugal.
A figura 2 apresenta os países que começaram a participar a partir da transformação do seu regime político. A República Checa que pertence ao grupo dos países que conquistaram até 200 medalhas resulta da divisão da Checoslováquia em República Checa e Eslováquia. Verifica-se que apesar da divisão do país, o declive da conquista das medalhas é equivalente antes e depois da passagem do regime soviético para o democrático.
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Figura 2
A participação nos Jogos Olímpicos de 1896 a 2016 dos países do leste europeu (Fonte: Tenreiro, F)
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Países como a Ucrânia e a Bielorrússia depois da saída da URSS passam a acumular medalhas com médias elevadas de conquista de medalhas. O grupo mais interessante é o dos países micro com menos de 5 milhões de habitantes, como a Croácia, a Estónia, a Geórgia, a Eslovénia e a Lituânia, que se tornam independentes no início da década de 90 e têm níveis de produtividade que lhes permitem em 7 Jogos Olímpicos ultrapassar Portugal que possui mais de 10 milhões de habitantes e compete nos Jogos Olímpicos desde 1924.
A conclusão da figura 2 sugere que Portugal deveria conquistar a média de medalhas dos países que possuem uma dimensão populacional equivalente ao país. Os países europeus médios entre os 8 milhões de habitantes e os 20 milhões de habitantes têm uma média de 7 medalhas por Jogos Olímpicos. Este indicador permitiria ao desporto nacional comportar-se ao nível de todos os países europeus e duplicar o seu número de medalhas em 3 Jogos Olímpicos, em vez de esperar que passem mais 100 anos de produtividade medíocre.
A produtividade olímpica de Portugal é inaceitável
O quadro abaixo divide na coluna 1 os países europeus pela produtividade: os países eficientes e os ineficientes. Na coluna 2 os países são qualificados dividindo a sua população pelo número de medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
Começando pelos países com eficiência produtiva:
• Os países mais pequenos precisam de 500 mil habitantes para conquistar uma medalha e que esses países têm na sua maior parte menos de 5 milhões de habitantes.
• Seguem-se os países que necessitam de 1 milhão de habitantes para produzirem uma medalha e que na sua maior parte são países de dimensão média, a dimensão de Portugal. Estes países também são maioritários no agrupamento seguinte da produtividade de 1,5 milhões por medalha.
• Entre os 2 e os 3 milhões de habitantes por medalha estão os grandes países.
O grupo dos 6 milhões de habitantes por medalha olímpica corresponde a níveis de ineficiência produtiva que se poderá qualificar de ineficiência baixa. No nível seguinte de ineficiência alta está a Áustria e Portugal. A Áustria é um país que já conquistou 95 medalhas olímpicas e que recentemente atravessa uma baixa de produtividade. Portugal pode ter a média de produtividade olímpica que quiser, não pode é não ter uma política pública desportiva em negação como actualmente acontece com o silêncio absoluto dos parceiros desportivos.
À política pública do desporto nacional falta a produtividade de nível europeu
Em Portugal os Governos decidem habitualmente continuar a frágil actividade desportiva e nunca decidem cortar com essa rotina e investir na prática generalizada de desporto pela população e na conquista de medalhas entre outros indicadores de sucesso desportivo.
O desporto português necessita de um momento fundacional por parte de um alto responsável público que proclame uma “palavra”; um discurso; uma decisão; um programa; um projecto; uma Visão; uma paixão (Guterres dixit); uma motivação de política pública nacional de resposta a um resultado desportivo de excepção, etc. etc. etc.
As selfies com os campeões desportivos ocasionais são seiva populista de quem cala a política pública desportiva e cavalga o almoço grátis no camarote!
O acto de política pública desportiva teria de ser mais poderoso do que o que gerou a antiga Lei de Bases do Sistema Desporto em 1990 e que colocou o desporto nacional num contexto superior ao passado de décadas de ordenamento jurídico corporativo ou o que se candidatou e criou o campeonato europeu de futebol, Euro2004. Houve limitações que levaram à jurisdicionalização do direito desportivo e actualmente destroem o desporto e houve limitações por ocasião do Euro2004 que se evidenciaram no fracasso relativo em Pequim2008 e desde então se agravaram. A vitória no campeonato europeu de 2016 em França foi um magnífico e belíssimo acaso. Deve estar-se ciente que não foi uma consequência das decisões de política pública desportiva e surgiu contra a evidência da catástrofe que se reconhece se passou no Sporting Clube de Portugal e passa mais além endemicamente.
O desporto português mantém-se numa órbita baixa, num limbo pequeno e “orgulhosamente só” que recusa a ciência, a democracia, a solidariedade, a sustentabilidade, o Século XXI, a integridade dos líderes de excepção, o talento ao serviço da política pública desportiva, a competitividade desportiva e a determinação do consenso nacional do que será o desporto para os seus filhos e netos.
Essa órbita baixa suscita interrogações como as seguintes: O que aconteceria se os jovens atletas portugueses em vez de competirem com as más condições nacionais competissem com as condições dos restantes países europeus? Uma pergunta melhor é: que resultados desportivos seriam produzidos pela juventude portuguesa se tivesse as mesmas condições da juventude de todos os outros países europeus, em vez das condições cronicamente medíocres da política pública desportiva que lhe são oferecidas pelo Estado português?
O que receiam ou esperam os políticos portugueses do desporto nacional?
Fernando Tenreiro,
economista, fjstenreiro@gmail.com, linda-a-velha,
25mai2019
sexta-feira, 24 de maio de 2019
EINSTEIN E AS ABELHAS
Fiz uma curta intervenção no Jornal das Oito da TVI do dia 22 de Maio (peça que começa no minuto 34), dia do apicultor, desmentindo que Einstein alguma vez tenha dito que, se as abelhas desaparecessem, a humanidade também desapareceria no espaço de quatro anos. São "fake news", em que se invoca indevidamente uma autoridade da ciência!
Inovações na genómica
Meu artigo na revista "Ter" do ISAVE (Amares):
Hoje em dia a inovação é uma
palavra que está constantemente a chegar aos nossos ouvidos. De facto, são as
inovações – entendida aqui como a novidade de base científico-técnica com
implicações sociais – que nos abrem a porta do futuro. Na área da saúde
estão a ocorrer algumas inovações
extraordinárias. Na minha visão, as mais extraordinárias estão a ocorrer na área da genómica, com a sequenciação completa
e a interpretação do genoma humano. As implicações na prevenção, diagnóstico e
tratamento de doenças são enormes.
O genoma humano é a informação hereditária que
está contida no ADN dos seres vivos, em particular dos seres humanos. No
interior de cada uma das células, em particular as do nosso corpo, reside o “código
da vida apenas quatro letras, A, T, G e C, para designar
respectivamente a adenina, timina,
guanina e citosina, que são grupos
químicos genericamente chamados bases que se sucedem ao longo do ADN, ácido
desoxirribonucleico, uma molécula extensa com a forma de uma dupla hélice. O
ADN é conhecido há muito como substância química: foi descoberto pelo médico
suíço Friedrich Miescher (1844-1895) em 1871. No entanto, a descoberta da
estrutura em dupla hélice da respectiva molécula só veio a ser realizada foi
realizada em 1953 pelo físico inglês Francis Crick (1916-2004) e pelo biólogo norte-americano
James Watson (n. 1928), que receberam por esse feito o Nobel da Medicina em
1962. A estrutura entrelaçada foi revelada por observações de raios X, conhecidos
desde 1895 (talvez a maior contribuição que a Física deu à medicina). De facto,
os raios X permitem ver o interior de cristais, como aqueles que são formados
por moléculas de ADN bem empacotadas numa rede. A sequenciação ou decifração
das letras do ADN demorou um pouco: O bioquímico inglês Frederick Sanger
(1918-2013) foi o primeiro, em 1977, a sequenciar o ADN de um organismo simples, o
bacteriófago Phi X 174, que tem 5286 bases, agrupadas em 11 genes (genes são
agrupamentos de bases, que contêm a “receita”
de produção de proteínas, as “máquinas-ferramentas” da vida). Esse cientista
foi até hoje o único laureado com dois Prémios Nobel da Química: o segundo
foi-lhe dado em 1980 precisamente pela sequenciação do referido genoma (a
técnica de Sanger ainda hoje se usa). Veio somar-se ao primeiro, que lhe tinha
sido dado em 1958 pela revelação da estrutura de uma proteína, a insulina, com
base mais uma vez em observações de raios X. Quer a identificação do ADN, quer
da sua estrutura, quer a sua decifração foram grandes inovações na bioquímica
com implicações na medicina.
”, isto é, registo da nossa identidade biológica escrita com
Mas uma coisa é sequenciar um
microrganismo e outra é sequenciar o genoma humano. O Projecto do Genoma
Humano, um dos maiores empreendimentos científicos da nossa época, teve lugar
entre 1990 e 2003: o seu objectivo consistia em mapear todos os genes do ADN
humano e não apenas alguns em locais específicos. O empreendimento incluiu mais
de 5000 cientistas, de 250 laboratórios, de vários sítios do mundo. Concluiu
que os 23 cromossomas humanos continham cerca de três mil milhões pares de
bases, 20 000 genes (menos do que se pensava, há seres vivos com mais genes!),
com o total de 800 megabytes de informação, o que corresponde mais ou menos à
capacidade de um vulgar CD (do total menos de 0,1 por cento é verdadeiramente
individual, podendo o resto ser considerado um padrão da espécie humana).
Tremendos desenvolvimentos na bioquímica
e na informática permitiram uma enorme queda do preço da sequenciação genómica
(ver Figura), o que tem permitido aumentar o número de genomas disponíveis para
análise. De 1990 a 2007, na chamada 1.ª geração de sequenciação, o custo de um
genoma era de dez milhões de dólares, de 2007 a 2011 decorreu o tempo da 2.ª
geração, na qual o custo caiu para 5000 dólares. Finalmente desde 2014 vivemos na
3.ª geração, período no qual a sequenciação do genoma passou a custar menos de 1000
dólares. Hoje ela custa hoje cerca de 700 dólares (foi o custo aproximada da
sequenciação do meu genoma), sendo a meta actual
atingir o preço de cem dólares. Essa meta – uma inovação a coroar outras
– parece estar ao virar da esquina. Vai ter implicações na nossa saúde.
O projecto “1000 Genomas”
recolheu dados sobre a diversidade genética da humanidade. Somos diferentes, mas somos também iguais. Com
a decifração do genoma humano começou a
estudar-se relação entre genes e doenças ou, nalguns casos, a
predisposição para doenças. Se em certas doenças há uma relação inequívoca
entre mutações genéticas (alterações nas bases nas cópias que a célula faz ao
reproduzir-se) e enfermidades, noutros
casos, a maior parte e a mais interessante, só se pode falar de probabilidades.
Algumas variações genéticas em certos sítios proporcionam, ou pelo menos
favorecem, o desenvolvimento de algumas doenças, estando a literatura
científica a aumentar com nova informação sobre essas relações. As aplicações estão à vista. Por vezes a
informação genética pode medir a medidas radicais de prevenção: a actriz norte-americana
Angelina Jolie fez uma mastectomia total por ter uma probabilidade, baseada na
análise genómica, de uma probabilidade de 80% de ter cancro da mama. Uma das
aplicações mais promissoras dá pelo nome de farmacogenómica: a dose de alguns
fármacos deve ser adequada ao perfil genético de cada pessoa, pois cada indivíduo
metaboliza a um ritmo diferente do de outros Novas tecnologias, designadamente
na área da nanotecnologia, prometem baixar ainda mais o preço da sequenciação e
assim permitir a acesso a este tipo de tecnologia por parte de mais pessoas.
Tais tecnologias somam-se a avanços na área do software, que permitem tratar
grandes quantidades de dados, recorrendo por exemplo à inteligência artificial.
A ideia consiste em aprender sobre a nossa saúde à medida que o tratamento de a
quantidade de dados avança.
Não é arriscada a previsão de que
a genómica desempenhará no futuro um papel muito maior do que hoje, quando se
estão a generalizar as análises genéticas. No futuro, as buscas devidamente
autorizadas a bases de dados, que contêm a informação genómica total de vários
indivíduos, deverão substituir os testes genéticos actuais, que se destinam a
obter informações sobre sítios precisos do genoma. A vantagem é que a
sequenciação completa se faz uma só vez, podendo vir a ser usada ao longo da
história clínicas das pessoas cuja informação está lá guardada. Os médicos tomarão decisões cada vez mais
ajudados por máquinas. Existem decerto questões éticas, legais, económicas e
políticas sobre a utilização de dados genómicos. Colocam-se hoje novas
questões, que têm necessariamente de ser informadas pela ética, relativas não
só ao uso de dados genéticos, mas também às possibilidades de edição genética. Com
efeito, recentemente um médico chinês anunciou que tinha usado uma nova
técnica, o CRISPR (do inglês Clustered Regularly
Interspaced Short Palindromic Repeats), para fazer um certo tipo de
melhoramento genético de embriões humanos, sem existir uma base legal para o
procedimento. Estas questões dizem
respeito a todos, não podendo ser deixadas a cientistas, engenheiros, gestores
ou políticos. São questões que têm de
ser decididas por todos. Convém por isso que a sociedade tenha acesso a
informação adequada.
UMA DÉCADA DO ARTES
Meu texto que saiu no último número do "Artes", abreviatura da revista cultural "As Artes entre as Letras", que acaba de fazer 10 anos:
Dez anos não é um tempo pequeno. Como o tempo médio de vida
humana é inferior a cem anos, é uma parte substancial das nossas vidas. Nos
meus últimos dez anos, tal como os meus contemporâneos, pude beneficiar da
leitura de “As Artes entre as Letras” (ou só “Artes”), o jornal cultural com
sede no Porto que tem espelhado as artes e as letras de todo o país e do mundo.
Graças ao amável convite da Nassalete Miranda, estive no projecto desde o seu início
quer no Conselho Editorial quer como colaborador regular. Orgulho-me, por isso,
de ter ajudado ao crescimento da criança que viu a luz do dia em Maio de 2009 e
que agora passa na idade a ter dois
dígitos.
Há sempre uma história antes da história. E o jornal que
agora está de parabéns encontra os seus antecedentes no suplemento cultural
“Das Artes Das Letras” de longa e muito rica tradição (data de 1942) do
“Primeiro de Janeiro”, o periódico que a Nassalete diligentemente dirigiu entre
2000 e 2008. Pois eu também colaborei nesse suplemento de boa memória. Foi aí
aliás que fui treinando a escrita que depois se foi espraiando por outros
sítios. Estou naturalmente grato pela oportunidade que a sempre jovem directora
me proporcionou, dando espaço a um jovem desconhecido. Eu fui feliz por poder escrever
num jornal que me tinha acompanhado na infância, desfrutando dos desenhos do
Príncipe Valente. Foi um editor valente – Guilherme Valente – com quem eu já
colaborava, na Gradiva, que me pôs em contacto com a Nassalete. Para mim, entre
os dois jornais culturais, vão quase vinte anos de colaboração.
Por que é que tenho ajudado a juntar a ciência às artes, ou
melhor à cultura, primeiro no “Das Artes Das Letras” e depois no “As Artes
entre as Letras”? Pela simples razão simples de que a ciência faz parte da
cultura, que não é só feita de artes e letras. Depois da polémica das “duas
culturas” de C. P. Snow, ainda há quem julgue que a ciência é uma cultura e que
as artes e humanidades são outra, estando as duas separadas. Mas não, são ambas
partes da mesma cultura, sendo múltiplas as ligações entre elas que devem ser
enfatizadas. A ciência tal como a arte é um impulso humano, é uma tentativa de
descobrir, de conhecer. A ciência tal
como a arte exige imaginação, sonho, criatividade. A ciência tal como a arte
pretende fazer sentido, ligar coisas que estavam antes separadas, revelar a
unidade do mundo.
Nos aniversários costumam-se desejar muitos anos de vida. Se
tudo correr como esperamos, a o “Artes” vai continuar, tem de continuar. O jornal
ganhou um lugar indiscutível no nosso panorama cultural. Não são muitos os
jornais que reúnam o ensaio e o comentário nas mais várias formas da cultura com
a própria criação artística me literária, ao mesmo tempo que acompanham a
actualidade cultural. Fazem muita falta, pelo que é preciso defendê-los. Desejo,
por isso, que a Nassalete Miranda e a sua excelente equipa consigam, neste
tempo nada fácil em que a cultura ainda é vista pelos poderes instituídos como
uma coisa de somenos, prolongar a infância do “Artes” numa adolescência feliz.
No mínimo, mais outros dez anos.
NÃO HÁ PLANETA B
Para vergonha dos governantes de todo o mundo, rendidos ao poder da alta finança, os adolescentes de todo o mundo, lutam, unidos, em defesa do seu futuro.
Quem estudou ou estuda geologia, ainda que a nível básico, sabe que, ao longo dos milhões de anos da história da Terra, houve várias crises planetárias de naturezas diversas (megaimpactos meteoríticos, intenso vulcanismo, variações do clima e do nível do mar e outras que ignoramos) de que resultaram extinções, à escala do planeta, de grande número de espécies, uma das quais, a mais divulgada, há cerca de 65 milhões de anos, pôs fim a cerca de dois terços das espécies de então, entre as quais os dinossáurios. Sabe também que, a seguir a essas crises, novas espécies surgiram adaptadas às novas condições ambientais.
O Homem, feito dos mesmos átomos de que são feitas as estrelas, os minerais, as plantas, os outros animais e tudo o mais que existe, é matéria que adquiriu complexidade tal que se assumiu com capacidade de se interrogar, de se explicar e de intervir no seu próprio curso e no do ambiente onde foi “fabricado”. Ele é um estado que julgamos ser o mais avançado da combinação dessa mesma matéria, capaz de pensar e fazer aquilo a que chamamos Ciência, isto é, observar, descrever, relacionar, explicar, induzir, prever.
O Homem, na sua possibilidade de adquirir conhecimento e de o transmitir, de criar religiões e as mais diversas formas de arte, é a manifestação mais elaborada da realidade física do mundo que conhecemos, na qual foi consumida a totalidade do tempo do universo, estimado em cerca de 3 800 milhões de anos.
Assim, a Ciência, através do Homem, pode ser entendida também como expoente máximo da matéria que se questiona a si própria. Pode dizer-se que a Natureza “pensa” através do cérebro humano e, com igual razão, pode aceitar-se que o Homem deu voz à Natureza.
Tais capacidades colocam-nos a nós, humanos, numa posição de grande vantagem entre os nossos pares no todo natural. Mas teremos nós o direito de gerir a Natureza apenas em nosso proveito, agredindo-a como tem sido regra, sobretudo a partir da Revolução Industrial, no séc. XIX, com intensidade exponencialmente crescente e alarmante nos dias de hoje?
A Terra, no quadro em que se nos apresenta nos dias que estamos a viver, é o resultado de um sem número de agressões sofridas ao longo da sua velhíssima história, a que se junta a que, todos os dias em vão, tem vindo a ser denunciada pelos cientistas.
A Terra, sabemos hoje, é um corpo que se autorregula e, como tal, sempre soube encontrar resposta a todas essas agressões e vai, sem dúvida, continuar a fazê-lo. Os danos que lhe estamos a causar, no mau uso que dela fazemos, é mudar-lhe as condições que nos são favoráveis e que bem conhecemos, dando origem a outras, já previstas pela ciência, que nos serão adversas.
Assim, ao atentarmos contra a Natureza, estamos, certamente, a atentar também contra nós contra a humanidade, contra, já, aos milhões de crianças que, como a pequena sueca Greta Thunberg, desfilam em milhares de cidades do mundo, a lembrarem que não há planeta B. Acaso deixou de existir mundo natural aquando das grandes extinções em massa?
Numa ânsia desenfreada de lucro e de prazer, a civilização industrial incontrolada está a caminho de nova extinção em massa (todos os dias somos alertados sobre espécies extintas e em via de extinção) que, certamente, nos vitimará também.
Porém, o planeta – e os geólogos têm consciência disso – irá prosseguir, mesmo sem a inteligência do Homem, e acabará por encontrar novos caminhos, em obediência apenas às leis da física, incluindo as do acaso, podendo voltar a ensaiar um outro ser inteligente ou, até, mais inteligente do que esta versão moderna, egoísta e estúpida do Homo sapiens, que somos nós.
Para tal só necessita de tempo, de muito tempo, e isso não lhe irá faltar, uma vez que estimamos em mais cinco a seis mil milhões de anos a sua existência como planeta, até que o Sol, na sua evolução como estrela, nos envolva num imenso brasido.
Quem estudou ou estuda geologia, ainda que a nível básico, sabe que, ao longo dos milhões de anos da história da Terra, houve várias crises planetárias de naturezas diversas (megaimpactos meteoríticos, intenso vulcanismo, variações do clima e do nível do mar e outras que ignoramos) de que resultaram extinções, à escala do planeta, de grande número de espécies, uma das quais, a mais divulgada, há cerca de 65 milhões de anos, pôs fim a cerca de dois terços das espécies de então, entre as quais os dinossáurios. Sabe também que, a seguir a essas crises, novas espécies surgiram adaptadas às novas condições ambientais.
O Homem, feito dos mesmos átomos de que são feitas as estrelas, os minerais, as plantas, os outros animais e tudo o mais que existe, é matéria que adquiriu complexidade tal que se assumiu com capacidade de se interrogar, de se explicar e de intervir no seu próprio curso e no do ambiente onde foi “fabricado”. Ele é um estado que julgamos ser o mais avançado da combinação dessa mesma matéria, capaz de pensar e fazer aquilo a que chamamos Ciência, isto é, observar, descrever, relacionar, explicar, induzir, prever.
O Homem, na sua possibilidade de adquirir conhecimento e de o transmitir, de criar religiões e as mais diversas formas de arte, é a manifestação mais elaborada da realidade física do mundo que conhecemos, na qual foi consumida a totalidade do tempo do universo, estimado em cerca de 3 800 milhões de anos.
Assim, a Ciência, através do Homem, pode ser entendida também como expoente máximo da matéria que se questiona a si própria. Pode dizer-se que a Natureza “pensa” através do cérebro humano e, com igual razão, pode aceitar-se que o Homem deu voz à Natureza.
Tais capacidades colocam-nos a nós, humanos, numa posição de grande vantagem entre os nossos pares no todo natural. Mas teremos nós o direito de gerir a Natureza apenas em nosso proveito, agredindo-a como tem sido regra, sobretudo a partir da Revolução Industrial, no séc. XIX, com intensidade exponencialmente crescente e alarmante nos dias de hoje?
A Terra, no quadro em que se nos apresenta nos dias que estamos a viver, é o resultado de um sem número de agressões sofridas ao longo da sua velhíssima história, a que se junta a que, todos os dias em vão, tem vindo a ser denunciada pelos cientistas.
A Terra, sabemos hoje, é um corpo que se autorregula e, como tal, sempre soube encontrar resposta a todas essas agressões e vai, sem dúvida, continuar a fazê-lo. Os danos que lhe estamos a causar, no mau uso que dela fazemos, é mudar-lhe as condições que nos são favoráveis e que bem conhecemos, dando origem a outras, já previstas pela ciência, que nos serão adversas.
Assim, ao atentarmos contra a Natureza, estamos, certamente, a atentar também contra nós contra a humanidade, contra, já, aos milhões de crianças que, como a pequena sueca Greta Thunberg, desfilam em milhares de cidades do mundo, a lembrarem que não há planeta B. Acaso deixou de existir mundo natural aquando das grandes extinções em massa?
Numa ânsia desenfreada de lucro e de prazer, a civilização industrial incontrolada está a caminho de nova extinção em massa (todos os dias somos alertados sobre espécies extintas e em via de extinção) que, certamente, nos vitimará também.
Porém, o planeta – e os geólogos têm consciência disso – irá prosseguir, mesmo sem a inteligência do Homem, e acabará por encontrar novos caminhos, em obediência apenas às leis da física, incluindo as do acaso, podendo voltar a ensaiar um outro ser inteligente ou, até, mais inteligente do que esta versão moderna, egoísta e estúpida do Homo sapiens, que somos nós.
Para tal só necessita de tempo, de muito tempo, e isso não lhe irá faltar, uma vez que estimamos em mais cinco a seis mil milhões de anos a sua existência como planeta, até que o Sol, na sua evolução como estrela, nos envolva num imenso brasido.
A. Galopim de Carvalho
O UNIVERSO DA FÍSICA DE PARTÍCULAS EM QUE VIVEMOS
Na próxima 4ª feira,
dia 29 de Maio de 2019, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro
Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra “O Universo da
Física de Partículas em que Vivemos”, por António Onofre, físico de partículas, investigador
do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP).
Investigador no CERN. Professor da Universidade do Minho.
António Onofre
Sinopse da palestra:
Desde os seus
primeiros momentos de existência e logo após esse momento singular conhecido
por “Big Bang”, o Universo que observamos e conhecemos tem-se revelado aos
nossos olhos de uma forma surpreendente. Após um período inicial de inflação
rápida, o Universo arrefeceu o suficiente para permitir a formação de
partículas sub-atómicas, mais pequenas (e mais leves) do que um átomo. Estas
partículas, mais tarde, combinaram-se nos átomos que conhecemos hoje em dia e
deram origem á estrutura da matéria que nos rodeia i.e., estrelas e galáxias do
Universo visível. Apesar de todo o conhecimento acumulado até hoje sobre
as partículas fundamentais já observadas experimentalmente e as interações
entre elas, apenas é possível descrever teoricamente cerca de 5% do nosso
Universo. Os restantes 95% encontram-se divididos por Matéria Escura
(provavelmente não constituída por matéria convencional) e Energia Escura
(responsável pela expansão acelerada do Universo), para os quais não possuímos
qualquer explicação. As questões deixadas em aberto, fazem-nos refletir sobre o
momento particular em que vivemos, numa época e num tempo, em que se sabe
descrever 5% do Universo observado, mas se deixa sem qualquer explicação, os
restantes 95%, que se sabe existirem. Nesta palestra, será feita uma reflexão
sobre o estado atual do conhecimento das partículas e interações fundamentais conhecidas
e do papel relevante de algumas delas na estabilidade do nosso próprio
Universo, incluindo o papel determinante do bosão de Higgs, recentemente
descoberto no LHC, no CERN.
*Este ciclo de
palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador
de Ciência.
ENTRADA LIVRE
Público-Alvo: Público
em geral
Link para o evento no facebook
Um tipo de texto comum em manuais dos primeiros anos de escolaridade
Ontem chegou-me à caixa de correio a fotografia abaixo, de um manual de língua portuguesa do 2.º ano de escolaridade; hoje várias pessoas me falaram dela. Ao que parece, foi uma mãe indignada que a tirou e divulgou não sei em que rede social, também não sei que razões de indignação são as suas. Eis o texto:
O Pedro e a mãe vivem sozinhos desde que o pai saiu de casa.
Quando o Pedro chega a casa, a mãe estava toda bonita. Fartou-se de arrumar e de cozinhar e não parece tão irritada e cansada como de costume.
- Fiz-te leite com chocolate! - diz, radiante.
O Pedro desconfia. Com tanta simpatia, o que será que a mãe quer?
- Aviso já que não me vou deixar enrolar pela conversa desse senhor! - previne o Pedro.
Uma hora depois ouve-se a campainha. É o Tiago, traz um ramos de flores.E onde está a prenda para conquistar o Pedro? Nada, não há prenda nenhuma.Diz simplesmente olá ao Pedro. Mas não diz «Com que então és tu o Pedro». Ou: «Que tal vai a escola?» Ou: «Não vais ajudar a tua mãe?». Ou: «Tens sempre esse ar amuado?»Senta-se à mesa, sorri e elogia os cozinhados da mãe. Depois jogam ao Ludo durante um bom bocado. O Pedro decide ir deitar-se. Está cansado. Cansado de esperar que o Tiago diga alguma estupidez. Mas o Tiago não diz. Só diz: «Boa noite»".
Podemos presumir que o texto cumpre o objectivo dar uma imagem de família alternativa à "tradicional", veiculada nos manuais escolares, como forma de ideologia. Mas, ainda que por contraste, não consegue deixar de ter um cunho ideológico.
Podemos, ainda, olhar para o texto considerando:
- a sua qualidade literária e não ficaremos bem impressionados;
- a criança da história que, caprichosa e interesseira, não será grande modelo para miúdos de sete anos de idade;
- a mãe que, como adulta, deixa muito a desejar, pois parece querer agradar, em simultâneo ao filho e ao namorado.
Contudo, (lamentavelmente) não destoa, por aí além, de muitos dos textos que constam nos manuais do 1.º Ciclo do Ensino Básico.Apenas uma nota: o texto é retirado de "um livro para todos os filhos e todos os pais e mães de famílias separadas e para todos os namorados e namoradas que investem numa nova família".
Livro (com o título Namorado Novo da Mãe, da autoria de Anke Wagner e Heike Herold) que é recomendado, pelo menos desde 2017, no Plano Nacional de Leitura, mas para a Educação Pré-Escolar
terça-feira, 21 de maio de 2019
Decida-se Senhora Bastonária da Ordem dos Enfermeiros
Meu artigo de opinião publicado em "As Beiras" de hoje:
“Se
cada tijolo não estiver no seu lugar não haverá construção”.
Antoine de Saint-Exupéry
Antoine de Saint-Exupéry
A bastonária da Ordem
dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, com um ego desmesurado que a leva a não
perder uma oportunidade de aparecer na comunicação social, nem que seja pelas
piores razões, como, por exemplo, defender que as quotizações da Ordem dos
Enfermeiros servem para pagar camionetas para deslocações de enfermeiros a manifestações de natureza sindical, ainda que sob o manto diáfano de “Marcha
Branca” .
E nesta sua
cruzada de socialite não perde um minuto
que seja para o auto-elogio. Destarte, durante a “I Convenção Internacional dos
Enfermeiros”, levada a efeito pela respectiva associação profissional, em Alfândega do Porto (10 e 11 de Maio de 2019), a seis meses, portanto, de nova eleição
para o cargo que ocupa actualmente, sobe ela ao
palanque, numa espécie de
campanha pré-eleitoral, assumindo o papel de Calimero, como o leitor deve estar
lembrado um choroso, pintaínho que diz ser
perseguido, injustamente, por meio mundo!
Ou, mudando radicalmente de “mise en scène”, optando pela táctica dos relvados
de futebol de que o ataque é a melhor defesa, brinda a plateia com este pequeno,
mas suculento naco de prosa: ”Eu estou aqui inteira, livre, como sempre estive,
para vos dizer que podem contar comigo
para mais 4 anos se for essa a vossa vontade”.
Demos tempo ao tempo!
É cedo para se saber se essa é a vontade dos enfermeiros. Mas dela é, pese
embora o “sacrifício” de natureza económica com os seus apetecíveis honorários
aumentados principescamente.
Num país de
lantejoulas, nada me devia espantar, mas espanta-me! Espanta-me, por exemplo, a
fronteira difusa com que a pessoa em causa torce a lei para justificar os seus
fins, ao arrepio do defendido por
António da Nóvoa (1987): “O exercício de uma profissão faz apelos a normas e
comportamentos éticos que orientem a prática profissional e as relações tanto
entre os próprios práticos como entre estes e os outros actores sociais”.
A atitude da
bastonária, em querer ter um sapatinho de Cinderela numa associação
profissional de direito público e o seu par nos sindicatos, levam-me a pensar
que ela “acaba por achar sagrada a desordem do seu espírito” (Jean Rimbaud).
Quer um conselho
senhora bastonária (bem sei, se os conselhos fossem sempre coisa boa ninguém os
dava, vendia-os por bom preço), arrume as suas ideias, de uma vez por todas, porque
o que está em jogo não são interesses pessoais. “Outro valor mais alto se
alevanta”: uma classe profissional com o seu valor profissional reconhecido, através
dos tempos, e, recentemente, consolidado numa cerimónia, plena de significado, realizada
no Centro Hospitalar de Coimbra, em homenagem a 204 enfermeiros com 35 ou mais
anos de serviço que o respectivo presidente do Conselho de Administração houve
como “de respeito e valorização da profissão”.
Não senhora bastonária, não há um tempo de
“apagada e vil tristeza”, antes de Ana Rita Cavaco, e outro de glória depois do
seu aparecimento fulgurante em cena, anunciado, por trombetas de
glória por si sopradas!
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