domingo, 17 de abril de 2016

Da invenção do "homem" à extirpação de si mesmo

No centenário de professor e escritor Vergílio Ferreira.
"- Qual o povo da Antiguidade que mais aprecia?
- Mas o da Grécia, naturalmente, porque foi o que inventou o homem. Os outros só tinham inventado os deuses, o que é, apesar de tudo, bastante mais fácil.
Que é o Homem?
A negação de um conceito de Homem é um aspecto ou conclusão final de uma multiplicidade de aspectos que se unificam num estado de coisas cultural ou civilizacional. É assim necessário, por exemplo, pensar que a cibernética encara a possibilidade de realizar num computador os recursos de um cérebro humano e até mesmo, o que nos parece incrível, que ele se programe a si próprio (...). É necessário pensar ainda que também todos os valores estão postos em causa - eu digo todos - que o efeito radical da revolução técnica é extirpar o homem de si mesmo, reduzindo-o à pura exterioridade. E só depois entenderemos talvez o mais que a filosofia e a arte, e nela a literatura, nos vem pondo em evidência (...) Compreendemos assim que o humanismo tenha sofrido uma violenta despromoção."
Vergílio Ferreira.
in Um escritor apresenta-se, 1981, INCM, pp. 145-146
 

ARMAS: FÍSICO, DIVULGADOR, INSTALADOR, MÚSICO E ESCRITOR



Nascido em 1985 na cidade da Horta, nos Açores, Jácome Armas  é um físico actualmente pós doc na Universidade de Bruxelas, que trabalha na relação entre propriedades de buracos negros e as de alguns sólidos elásticos e fluidos viscosos.  Antes foi pós-doc na Universidade de Berna (a cidade onde viveu Einstein), após o doutoramento em Física Teórica na Universidade de Copenhaga, no famoso Instituto Niels Bohr  sobre  electroelasticidade a partir da gravidade. Antes ainda tinha feito o curso de Engenharia Física na Universidade de Aveiro e um mestrado na Universidade de Cambridge.
Portanto, um percurso brilhante de um dos jovens cientistas portugueses (já conta com vários artigos em revistas de impacto). Tem-se distinguido na comunicação de  ciência  (recebeu, por exemplo, o prémio Genius de comunicação de ciência, atribuído pela associação dinamarquesa de jornalistas de ciência), e fundou o Science and Cocktails, uma conjunto de conferências públicas onde a ciência surge  misturadas com arte e... cocktails. Prepara um livro sobre entrevistas com especialistas em gravidade quântica, um dos temas de fronteira da física contemporânea.

Mas Armas é também um artista. É o autor de várias instalações e de desenho de som. E é músico no grupo  açoriano “O Experimentar Na M’incomoda”.

Como se fosse pouco, é autor de  “Conjunto Homem” (Companhia das Ilhas, 2014) um  livrinho de escrita literária de inspiração filosófica sobre temas de ciência (estruturado como um tema científico, com Lemas e Exemplos) que ganhou o 2.º prémio no concurso açoriano Labjovem 2009 e que esteve patente na feira do Livro de Frankfurt.  A obra trata o confronto entre o racionalismo e o newage e é apenas o primeiro volume de uma trilogia. A Companhia das Ilhas é uma editora açoriana que tem publicado, na ficção, autores como António Cabrita e Valério Romão, na poesia, Luís Carlos Patraquim e Nuno Costa Santos, e, no teatro, Jaime Rocha e Tiago Rodrigues (não o ministro, obviamente, mas o director do Teatro Nacional).


Para dar o sabor da escrita de Armas, deixo o início deste seu livro.  Só foram editados 100 exemplares  e eu tenho um!

“Da Natureza para o Homem
Caro Homem, disse a Natureza, sabias que o teu maior erro foi teres inventado o espelho?
(E o Homem sentiu-se estúpido, não sabia.)

Mas não, disse a Natureza.
 (E o Homem sentiu-se ainda mais estúpido: tinha sido enganado).

Então a Natureza disse: o teu maior erro foi teres coberto o Mundo com espelhos Agora, sem te aperceberes, sempre que olhas pela janela e tentas pintar o que vês, acabas por pintar-te a ti próprio. No fim ainda levantas o quadro e dizes: O Mundo.
 (O Homem ouviu, calou-se e saiu convencido de que ia provar à Natureza que era capaz de ver o Mundo e todas as suas cores.
(Até hoje o Homem falhou).”

HAIKUS DE DAVID RODRIGUES SOBRE DIREITOS HUMANOS


David Rodrigues é um professor  universitário, doutorado na Universidade Técnica de Lisboa com uma tese sobre crianças com  paralisia cerebral,  autor ou editor de numerosos livros sobre educação, Presdiente da  Pró Inclusão – Associação nacional de Docdentes de Educação especial, e colunista do Público sobre temas educativos (em particular, os temas da inclusão na escola). Mas, comos e isso fosse pouco, é também um pianista de jazz antigo e um poeta. Autor de nove livros de poesia, priveligia o haiku, a forma tradicional japonesa de três versos que de iníio tinha 5-7-5 sílabas, com rima entre o primeiro e o terceuiro verso e uma rima interna no segundo verso, mas que no ocidente se tornou uma forma mais livre. O tema tradicional do haiku é o encontro breve do homem e da natureza, que provoca uma emoção intensa que o poema procura transmitir. Normalmente há um contraste, que nos leva a pensar. A ideia do haiku é transmitir o máximo  de modo mínimo.

O seu livrinho de haikus bilingue (português e inglês) “Plural & Singular” (edição de autor, Lisboa, 2015) contém 24 poemas desse género sobre o tema dos direitos humanos. Eis meia dúzia de exemplos, da minha escolha, que ilustram a sensibilidade poética do autor, membro da  World Haiku Association (Japão) e  orientador de workshops sobre haikus:

Linhas no mapa
Separam a fome da comida.
só linhas.

Centenas de pessoas
Salvam uma baleia.
À deriva, os migrantes.

Não há
Pássaros
Estrangeiros.

Numa praia da Síria
Um homem olha um búzio
Com a casa  às costas.

As árvores
Ensinam a escola:
Estações, flores e frutos.

Ouvir o outro
como se ouve um regato:
Para adivinhar a água.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

NEM TUDO O QUE PARECE CIÊNCIA O É!

Texto publicado primeiramente na imprensa regional.

Logotipo dos Prémios Unicórnio Voador -  Crédito Cláudia Barrocas


“Nem tudo o que reluz é ouro e quando a esmola é grande o pobre desconfia. Estes são dois exemplos da sabedoria popular que nos lembram a importância de sermos cépticos e críticos. Mitos e falsas alegações podem ser bastante prejudiciais para a nossa saúde e carteira, por isso é essencial saber como separar o trigo do joio ‐ é preciso questionar e exigir provas antes de aceitar algo como verdadeiro. O cepticismo e o pensamento crítico são parte fundamental da ciência, mas todos/as nós podemos e devemos aplicá‐los nas decisões que tomamos no dia‐a‐dia.”

O texto do parágrafo anterior foi-me enviado por elementos da COMCEPT – Comunidade Céptica Portuguesa, organização cidadã fundada em Abril de 2012 por Diana Barbosa, Leonor Abrantes e João Monteiro, todos eles excelentes comunicadores de ciência. Os quatro anos de existência que se cumprem este mês e que celebramos permitem já uma avaliação e divulgação merecida da actividade desta organização.

Começo por enunciar que o “objectivo da COMCEPT é promover a ciência e o pensamento crítico através do activismo céptico. Isto envolve a denúncia da pseudociência, isto é, de tudo aquilo que tenta passar‐se por ciência sem o ser, mas também do negacionismo de factos científicos bem estabelecidos”.

A COMCEPT deu-se primeiramente a conhecer na sua página na internet (http://comcept.org), sítio onde desde o primeiro momento têm sido divulgados textos de diferente índole relacionados com a sua actividade. Segundo David Marçal, bioquímico e comunicador de ciência, “no sítio de Internet da COMCEPT podemos encontrar artigos aprofundados, que de modo fundamentado e claro ajudam a esclarecer algumas pseudociências e a desmontar os argumentos dos seus partidários.”

A COMCEPT organiza vários eventos ao longo do ano. Tertúlias mensais e informais intituladas “Cépticos com Vox” que têm lugar, de forma alternada, em Lisboa e Porto, “ com debates à volta de temas muito relevantes e pouco debatidos”, segundo David Marçal. Anualmente promove ainda uma conferência nacional, a “ComceptCon”, onde pretende reunir todos os cépticos portugueses, mas também qualquer pessoa que tenha curiosidade pela ciência. Também organiza anualmente o ciclo “ Conferências do Solstício ”, no sábado anterior ao Natal, mais ou menos coincidente com o solstício de Inverno.

Para o professor de Física, historiador e comunicador da ciência Carlos Fiolhais, “a COMCEPT, Comunidade Céptica Portuguesa, tem feito excelente serviço público. Tal como outras congéneres noutros países, tem defendido a ciência, procurando sempre distingui-la da pseudociência. O espírito céptico é uma das marcas da ciência. Não podemos acreditar em tudo, mas sim e apenas naquilo que resistir a uma análise crítica. E a característica principal da ciência é o exercício ao máximo dessa análise crítica.”

Para António Gomes da Costa, presidente da SciCom Pt – Rede de Comunicação de Ciência e Tecnologia, “a COMCEPT desenvolve um trabalho essencial: exigir que as afirmações, julgamentos e decisões que fazemos requeiram sempre uma grande e salutar dose de lógica e de razão e, sobretudo, que se baseiem em factos concretos e bem demonstrados. Tudo o que assim não for não passa de uma opinião ou de uma crença e deve ser encarado com todas as reservas.” E sublinha que “parece simples, mas é uma atitude infelizmente rara num mundo em que juízos de valor apressados e baseados em coisa nenhuma são muitas vezes responsáveis por catástrofes humanitárias e por problemas graves de saúde pública. É neste campo que a COMCEPT desenvolve um trabalho intenso e regular (com pelo menos uma tertúlia mensal e um grande encontro anual), cuja qualidade tem aumentado de ano para ano, e que é dinamizado de modo voluntário essencialmente por três pessoas: A Leonor Abrantes, a Diana Barbosa e o João Monteiro.”

David Marçal também reconhece que “a COMCEPT tem feito ao longo dos últimos quatro anos um trabalho persistente e meritório na promoção da cultura científica em Portugal. Tem contribuído para esclarecer equívocos acerca de coisas que se fazem passar por ciência, sem o serem. A sua actuação concretiza-se de várias maneiras, complementares e mobilizadoras.”

“Prémios Unicórnio Voador”
Outra actividade em que a COMCEPT se tem destacado é a da atribuição anual dos “Prémios Unicórnio Voador”. Com estes prémios a organização pretende desmascarar as situações mais gritantes de pseudociência que populam na sociedade portuguesa. Para David Marçal, estes prémios são “distinções humorísticas que visam premiar as manifestações mais absurdas da pseudociência. Sempre com rigor, clareza e boa fundamentação. E não apenas uma vez, por outra, mas com grande regularidade e continuidade.”

Ainda sobre estes prémios, o professor de Química e comunicador de ciência Paulo Ribeiro-Claro diz-nos: “sou fã do Prémio Unicórnio Voador, que é uma forma muito criativa e bem-humorada de enfrentar um problema sério: como a comunicação social - e televisão em particular - é permissiva e cúmplice de toda e qualquer vigarice pseudocientífica que explore a falta de cultura científica do cidadão. É um prémio que merecia uma gala... na TV!”

Vejam aqui os vencedores dos Prémios Unicórnio Voador de 2015.

Posto isto, afirmo em plena concordância com David Marçal que “a Comunidade Céptica Portuguesa é uma associação que fazia falta em Portugal!”. Sugiro ao leitor/a que esteja atento/a às iniciativas desta organização e que, se possível, nelas participe.

A COMCEPT pode ser seguida na web , Facebook e Twitter . Os interessados podem subscrever a newsletter aqui.

António Piedade

quinta-feira, 14 de abril de 2016

NOVIDADES EDITORIAIS DA GRADIVA


Informação recebida da Gradiva (destaco estas novidade deste mês):
Vários
Regresso ao Futuro - A Nova Emigração e a Sociedade Portuguesa
Num contexto de inúmeros comentários sobre a nova emigração portuguesa, este livro fornece uma análise rigorosa e séria, com os resultados de uma investigação que envolveu várias instituições universitárias. Inclui dados concretos de alguns países: Reino Unido, França, Luxemburgo, Brasil, Angola e Moçambique. O que motivou a emigração? Que relações mantêm os emigrantes com Portugal? Pretendem regressar? As respostas que faziam falta sobre a emigração recente em Portugal.

«Trajectos», n.º 102, 328 pp., € 15,90


Glenn Murphy
Espaço  - Toda a História Bangbástica!
O espaço nunca deixa de despertar a curiosidade dos mais novos. O que é um buraco negro? Como sabemos a idade das estrelas e das galáxias? Qual é a diferença entre estrelas e planetas? O que é o Universo? São múltiplas perguntas, para outras tantas respostas, num livro de registo simultaneamente informativo e divertido que torna os livros de Glenn Murphy um enorme sucesso.

«Gradiva Júnior», n.º 154, 192 pp., € 10,00



Jean‑Claude Rodet
Segredos para Envelhecer com Saúde  - Sem o Perigo das Hormonas Químicas

Este é um guia prático para viver em forma e com prazer durante muito tempo. Permite descobrir o papel da nutrição na longevidade e os alimentos que retardam o envelhecimento. Ensina a gerir o stress e a fintar a doença de Alzheimer, explica os benefícios do exercício físico, da sexualidade e da restrição alimentar periódica. Fornece informação sobre regras alimentares e conselhos práticos para todos os sistemas do corpo humano. Indispensável para quem quer viver com saúde e bem‑estar ao longo dos anos!

JESUÍTAS, CONSTRUTORES DA GLOBALIZAÇÃO


Artigo meu e de José Eduardo Franco que acaba de sair na Revista Clube do Coleccionador dos CTT anunciando a saída próxima do livro, ricamente ilustrado, com o mesmo título.

            A  Companhia de Jesus, criada em 1534 pelo basco Inácio de Loiola (1491-1556), exerceu uma influência modeladora não só na Igreja como na sociedade em geral, incluindo a política, o comércio e a cultura, desde o alvorecer da modernidade. Portugal foi o primeiro país a acolher a nova ordem, logo no primeiro ano da sua aprovação pelo Papa Paulo III (1540), e a dar-lhe, ao mais alto nível, um apoio que se revelou decisivo para a sua afirmação na Europa e nos espaços ultramarinos abertos à missionação. Mas Portugal foi também o primeiro reino a expulsar de forma impiedosa os Jesuítas, em 1759 pela mão do Marquês de Pombal, processo que conduziu à sua extinção mundial pelo papa Clemente XIV (1773). Essa medida extrema veio a ser retomada outras duas vezes nos séculos seguintes: em 1834, no quadro da restauração do Liberalismo, e em 1910, pela 1.ª República. No entanto, a Companhia de Jesus conseguiu regressar sempre e reconstituir-se com notável rapidez e eficácia por cima das suas ruínas, deixando uma incontornável marca em importantes domínios da vida do país.

Os Jesuítas são uma das instituições mais fascinantes e também mais controversas da história da Igreja e do mundo nos últimos 500 anos. Não admira por isso que se tenha tornado uma das ordens religiosas mais estudadas em escolas ocidentais, onde de resto muitos dos seus membros pontificaram. Esses estudos vão desde a história religiosa até às ciências exactas e naturais (matemática, física, biologia, etc.), passando pela antropologia, linguística e filosofia. Por outro lado, são frequentes os romances, peças de teatro e filmes em cujo enredo entram personagens ou eventos da Companhia de Jesus. Os Jesuítas têm inspirado criações artísticas condimentadas com mistérios, onde entram tanto a figura do herói e santo como a do conspirador e demónio.

De facto, não se pode estudar a história da cultura, incluindo a religião, a ciência, a filosofia, a literatura e a arte em geral, sem levar em conta os contributos dos Jesuítas. Os padres da Companhia estiveram nos centros de muitas decisões, transformações e recomposições sociais e políticas desde o início da modernidade. Eles foram obreiros do primeiro processo de globalização, ao colocarem em contacto povos e culturas até então afastados. Os religiosos da Companhia tornaram-se em poucas décadas educadores de elites europeias e transeuropeias, exploradores de regiões desconhecidas e missionários que levaram a doutrina cristã a paragens longínquas. Foram conselheiros de reis e príncipes europeus, como ainda cientistas, comerciantes, diplomatas e escritores ligados aos imperadores da China e do Japão e a outros senhores gentios. Conheceram novas terras e novas gentes, tanto nas selvas e montanhas americanas, como nas savanas e estepes africanas, como ainda nos imensos territórios do sudoeste asiático, tendo sido os primeiros europeus a chegar aos cumes do Tibete. Através de uma prática cuidadosa e persistente de observação e escrita e de uma rede de correspondência que cobria todo o mundo, ergueram aquela que pode ser considerada a primeira base de dados global sobre povos, culturas, línguas, religiões, hábitos e costumes, minerais, fauna e flora. Os Jesuítas participaram na dinâmica da globalização que os Descobrimentos abriram e contribuíram, com as suas recolhas sistemáticas, para a grande revolução do conhecimento que então se começou a operar.
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Foi o rei D. João III que abriu aos Jesuítas as portas do mundo. Num século em que Portugal detinha um império marítimo polvilhado de fortalezas e feitorias, foi no nosso país que eles encontraram o adequado acolhimento para se lançarem na sua aventura de evangelização planetária. Com efeito, o rei português ofereceu à Companhia de Jesus uma plataforma de lançamento que lhe permitiu tornar-se na ordem religiosa que melhor respondeu aos desafios das relações entre povos distantes.

Em Portugal, como por toda a Europa e mesmo fora dela, foi enorme a produção escrita e iconográfica sobre os Jesuítas desde o século XVI. Semelhante interesse e até, por vezes, obsessão em produzir conhecimento e opinião sobre estes religiosos será apenas comparável ao que ocorreu em torno dos Judeus, cujo processo de diáspora é bem conhecido. Aliás, Jesuítas e Judeus foram duas elites que marcaram a história portuguesa e internacional e que acabaram por experimentar crítica, perseguição e expulsão. Ainda hoje está por fazer uma avaliação rigorosa das consequências para o nosso país da expulsão em tempos e em circunstâncias diferentes, mas ambos cruciais na história tanto de Portugal como da Europa, destes dois grupos qualificados e empreendedores.

Em Portugal, a imagem construída pelos escritos sobre Jesuítas fizeram deles em certos momentos meios de explicação do atraso do país após os Descobrimentos. O poder de transformação sociocultural, política e religiosa atribuído a Jesuítas originou, aliás, teorias da conspiração. De um lado da barricada, existe a literatura dos apologistas, que valorizam a exemplaridade cristã e social da Companhia. Do outro preponderou uma imagem negativa que, emergindo do tom negro da literatura pombalina, passou para o discurso antijesuítico de liberais e republicanos, que apresentaram os inacianos como causadores do obscurantismo e da decadência nacionais.

Até ao dealbar do século XX, enquanto não ganhou proeminência num conhecimento desapaixonado dos Jesuítas, revelou-se difícil encontrar análises equilibradas a respeito do seu papel na história dos últimos 500 anos. Mas hoje ninguém nega que os padres da Companhia deixaram uma marca indelével na história, embora naturalmente os vários autores divirjam, por vezes na avaliação da sua acção, a começar logo pelos desígnios que estariam na base do seu protagonismo.

Não faltam edições, algumas com a melhor qualidade, sobre os Jesuítas, em particular, sobretudo nas últimas décadas, monografias sobre figuras, temas e certos períodos da história da Companhia. Todavia, parece haver um certo pudor em propor uma releitura geral da história destes religiosos que apareceram com a modernidade. O livro Os Jesuítas: Construtores da Globalização, agora editado pelos CTT, procura fazer um resumo da sua acção mais proeminente. Inácio de Loiola tinha a intenção de reformar a vida religiosa da velha cristandade, dando um impulso à Igreja que, no início do século XVI, se debatia com a questão da rotura protestante. Mas, ao mesmo tempo, confrontou-se com as oportunidades oferecidas pelas viagens marítimas de portugueses e espanhóis. Fundados num tempo crucial da história mundial, os Jesuítas procuraram com invulgar dinamismo invulgar novos horizontes.  Pesem embora todas as contradições, não há dúvida de que o conseguiram.

José Eduaqrdo Franco e Carlos Fiolhais

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O horizonte é a produtividade

Uma das várias discussões que a mais recente reforma curricular francesa gerou reporta-se à redução do lugar destinado às línguas clássicas - latim e grego -, em favor de disciplinas centradas na aquisição de "saberes fundamentais", que se afirmam ser, nomeadamente, os da matemática e do inglês funcionais.

A ministra da educação tem sido confrontada com posições fortes de diversos sectores da sociedade que questionam o acantonamento destas línguas, e à cultura a que dão acesso, no EPI - Ensino pático interdisciplinar.

Tornando-se opção, ficam ao critério de cada escola e dos alunos, não havendo garantia da sua manutenção. A isto responde a ministra que essas línguas, nomeadamente o latim, encontram-se acessíveis, não só no EPI como nos novos programas disciplinares que deverão contemplar elementos culturais e linguísticos essenciais para a compreensão da língua francesa.

A questão é profunda, está longe de ficar por esta discussão. Diz respeito ao próprio sentido da escola pública que, nos diversos países ocidentais, tem sido convertida numa instância dependente da economia imediatista e ao seu serviço, centrando-se na preparação para o adverso e competitivo mercado de trabalho. O horizonte é a produtividade. E isto para benefícios de alguns, poucos; as nossas crianças e jovens estão destinadas a ser os seus "recursos humanos".

Ler mais, por exemplo: aqui.

“É PROIBIDO... MAS PODE-SE FAZER”


Meu artigo no Público de hoje:
O humorista brasileiro Millôr Fernandes respondeu assim à pergunta sobre se um químico pode tomar decisões "precipitadas”: pode, mas não é uma "boa solução". Começou mal o novo ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, bioquímico de formação, ao tomar a decisão de acabar com os exames no ensino básico antes do 9.º ano, introduzindo “provas de aferição” a meio dos ciclos desse nível de escolaridade. A sua mudança foi apressada. Não houve nenhum estudo fundamentado nem nenhum debate público. Foi uma medida tomada apenas com base em preconceitos, de natureza ideológica, que vingam em certos sectores do PS e dos seus parceiros. Confrontado com opiniões contrárias, o ministro ainda se desdobrou em reuniões com directores de escola, mas não escapou à censura presidencial: a sua tão urgente e radical reforma acabou por ser matizada pelo Presidente da República. As escolas, querendo, podem afinal realizar exames. Com Marcelo Rebelo de Sousa ficou uma coisa do tipo “é proibido, mas pode-se fazer”.

Critico o ministro a contragosto. Quando tomou posse, escrevi, com não disfarçada alegria, que “o novo ministro da Educação é novo”. Era alguém que vinha de fora, de uma geração que não tinha encontrado futuro no país mas que queria contribuir para o futuro do país. Os professores tinham sofrido desilusões com os ministros anteriores: Maria de Lurdes Rodrigues originou uma impressionante manifestação de professores e Nuno Crato, que tinha ido a ministro nos braços dos professores, acabou no chão sem um braço que lhe acudisse. Acreditei que o novo titular da pasta ia procurar redignificar os professores, uma profissão que conheceu nas últimas décadas um processo de proletarização. Teria feito bem se tivesse mobilizado os professores, que são o esteio da escola, pedindo-lhes ajuda no caminho a tomar. Em vez disso, seguiu as vozes mais extremistas dos partidos no poder, que reclamavam, com justificações delirantes, o fim imediato dos exames, vistos como um mal absoluto. Uma das razões era que os exames prejudicavam os infantes que, coitadinhos, não podiam ser expostos a esforços intelectuais mais intensos (como se a escola não fosse o meio que a sociedade criou para preparar para a vida e como se a vida fosse fácil). Outra era que tinha voltado a quarta classe de antigamente, existindo uma malvada intenção governamental de exclusão precoce (nada mais errado já que os exames só contavam com 30 por cento para a nota do aluno). Outra ainda dizia que os exames eram antipedagógicos, pois a boa pedagogia dispensaria a avaliação (os emissores dessa opinião são, como é óbvio, contra qualquer forma de avaliação).

O timing escolhido para a alteração não podia ser pior. Não faz qualquer sentido mudar as regras a meio do jogo, isto é, do ano lectivo. O ministro prosseguiu a nossa má tradição, que consiste em cada novo governante querer recomeçar tudo. Além disso, não explicou suficientemente: Por que razão não deu uma entrevista em que explanasse a sua visão  em vez de se refugiar atrás de um comunicado?  E por que não nomeou um grupo de trabalho  que apurasse as vantagens de substituir umas  provas nuns anos por outras noutros anos? As “provas de aferição” vão ser inúteis, pois as crianças não se vão preocupar com provas que não contam para nada (não havendo provas que contem, ninguém estuda!) e também porque não existe qualquer registo histórico para comparar os resultados.  De resto, a prova no 2.º ano parece-me particularmente absurda, pois as crianças nessa fase ainda não lêem nem escrevem com fluência. Já uma prova no 4.º ano, ainda que não contasse para os alunos, poderia  indicar sobre se as escolas estavam a cumprir a sua missão, designadamente formando leitores capazes.

O nosso sistema educativo precisa de estabilidade. Os professores e os alunos precisam de fazer o seu trabalho em paz, sabendo atempadamente o que os espera.  Agora, com a legislação promulgada, está instalada a entropia nas escolas. Umas vão fazer o que já faziam, outras vão fazer outra coisa, adoptando novas provas preparadas à pressa. O argumento de que a escolha do modelo de avaliação, o antigo ou o novo, assenta na autonomia das escolas não passa de uma desculpa esfarrapada. Em primeiro lugar, porque essa autonomia tem sido uma palavra vã e, em segundo, porque fivou um regime  transitório de provas e, para o ano, a proclamada autonomia já não vai existir. Receio que as escolas vão, moldadas como estão ao centralismo, alinhar com o Ministério.  

“Provas de aferição” é um termo de eduquês. O "eduquês", que sempre foi inimigo da avaliação, está de volta, mais forte do que antes. Nuno Crato, revelando inabilidade política, tornou os exames no ícone da sua política, esquecendo que eles são um meio e não um fim. Agora não me admira nada - nem deve admirar a ele -  que seja a vez dos iconoclastas.


*Professor universitário (tcarlos@uc.pt)

terça-feira, 12 de abril de 2016

AUTORIZAÇÕES DE DIVULGAÇÃO DE DADOS E IMAGENS PESSOAIS DE ALUNOS

Em blogues de escola e de sala de aula começam a ver-se destacadas notas como a que se segue:
AUTORIZAÇÕES DE DIVULGAÇÃO DE DADOS E IMAGENS PESSOAIS
Todos os alunos cujas fotografias ou outros dados sobre trabalhos escolares, visitas de estudo, campanhas e ações de voluntariado surgem no blogue .........., têm autorização escrita dos pais e/ou encarregados de educação para a sua publicação e consequente exposição.
Ora, acontece que, mesmo que os pais e/ou encarregados de educação dêem autorização para que os seus filhos/educandos sejam expostos através da escola desta maneira - exposição que a própria escola tem por dever moral e ético contrariar - não nos podemos esquecer que estamos a falar de pessoas com direitos.

Mais: sendo as crianças e os jovens, pela sua condição, pessoas especialmente vulneráveis, exige-se da parte dos pais e/ou encarregados de educação um especial dever de cuidado, pelo que, nestes casos, a validade da sua autorização é muito discutível. Volto a citar a declaração ainda recente de um colectivo de juízes do Tribunal da Relação de Évora (ver aqui):
“Na verdade, os filhos não são coisas ou objetos pertencentes aos pais e de que estes podem dispor a seu belo prazer. São pessoas e consequentemente titulares de direitos"
O facto de as escolas incluírem o tipo de nota acima reproduzido (e, não duvido, de previamente solicitarem autorizações escritas aos pais e/ou encarregados de educação) significa que:
- estão preocupadas com os problemas legais que possam ter, no caso incorrerem numa falha burocrática mas
- não denotam preocupação com a exposição que fazem dos menores que têm ao seu cuidado e, insisto, dos quais devem cuidar efectivamente.

Deveriam preocupar-se de modo muito particular com a exposição dos menores cujos pais e/ou encarregados de educação autorizam a sua exposição. Na verdade, estes menores encontram-se duplamente desprotegidos.
Maria Helena Damião

segunda-feira, 11 de abril de 2016

AUTOBIOGRAFIA

Texto recebido do Professor Galopim de Carvalho.

Passou este ano, no dia 26 de Janeiro, o centenário do nascimento de Virgílio Ferreira, e no passado dia 1 de Março completaram-se 20 anos sobre o seu falecimento. 


 AUTOBIOGRAFIA
Vejo o meu pai, no limite da minha infância, dobrar a porta do pátio, com um baú de folha na mão. Vejo-o de lado, e sem se voltar, eu estou dentro do pátio e não há, na minha memória, ninguém mais ao pé de mim. Devo ter o olhar espantado e ofendido por ele partir. Mas alguns meses depois o corredor da casa da minha avó amontoa-se de gente, na despedida de minha mãe e da minha irmã mais velha que partiam também. Do alto dos degraus de uma sala contígua, descubro um mar de cabeças agitadas e aos gritos. Estou só ainda, na memória que me ficou. Depois, não sei como, vejo-me correndo atrás da charrete que as levava. O cavalo corria mais do que eu e a poeira que se ia erguendo tornava ainda a distância maior. Minha mãe dizia-me adeus de dentro da charrete e cada vez de mais longe. Até que deixei de correr. Dessa vez houve choro pela noite adiante - tia Quina contava, conta ainda. Mas não conta de choro algum dos meus dois irmãos que ficavam também. Deve-me ter vibrado pela vida fora esse choro que não lembro. É dos livros, suponho. Depois a infância recomeçou. Três irmãos, duas tias e avó maternas, depois a vida recomeçou. Mas toda essa infância me parece atravessar apenas um longo inverno. É um inverno soturno de chuvas e de vento, de neves na montanha, de histórias de terror, contadas à luz da candeia no negrume da cozinha, assombrada de tempestade. Até que um dia um tio de minha mãe, que era padre na aldeia, se pôs o problema de eu não ser talvez estúpido. E imediatamente se empolgou para me consagrar ao Altíssimo. E para me ir desbravando a alma, juntamente com a doutrina, atacou-me a memória com o latinório todo da missa. Aprendi-o sem falhas, ia eu nos seis anos. E quando aos sete o fui ver esticado na cama, a face toda negra, e me obrigaram a beijar-lhe a mão morta, já tinha o destino talhado para o Senhor. Minhas tias apoderaram-se logo de mim, negligenciando um pouco os meus irmãos, e sufocaram-me de religião. Na instrução primária cumpri. Deus mostrava à evidência que me chamava ao seu serviço. Era forte em contas, mais atrapalhado em História, de qualquer modo, os desígnios de Deus eram evidentes. E assim, para se cumprir a sua vontade, parti. Ficava à distância de um dia de comboio, o Seminário. Saio na estação ao anoitecer, há uma multidão de seminaristas à minha volta, todos vestidos de preto. Estou entre eles, não conheço ninguém. Avançamos pelo escuro estrada fora, no tropear confuso de uma enorme massa negra. O Seminário espera-nos numa curva da estrada. É um casarão enorme, olho-o do fundo do meu pavor. Há outono à minha volta, respiro-o agora em todo esse passado morto, nos castanheiros a desfolharem-se na cerca, no espaço dos salões, nos longos corredores ermos, nos ângulos cruzados pelos espetros perfeitos. Mas seis anos depois, levantado de heroísmo, saí. Fiz o liceu, entrei na Universidade. Mas não o fiz assim em três palavras como o faço aqui. Meu irmão corpo. Como foi difícil acomodarmo-nos um ao outro. A vida que me coube não a pude utilizar toda. Numa fração dela acumulei assim aquilo com que se realiza - o sonho, o trabalho, a alegria. 
E eis que se me levantam os sete anos de Coimbra. Sombrios, longos, penosos. Mas o que acede desse tempo à evocação tem apenas o halo de uma balada. Ruas da Alta, e a Torre, e o plácido rio do alto da Universidade, e os mestres que eu julgava um prodígio da Natureza, quando cheguei à cidade, e fiquei a julgar também, a vários deles, quando saí, mas com outro sinal, e a praxe estúpida, e os namoros estúpidos, e a descoberta, enfim, da literatura, que só então descobri, embora trabalhasse há muito o verso com obstinação, e as tertúlias, as rixas, o próprio futebol, as próprias desgraças físicas - tudo me ressoa agora a uma toada de legenda. Da festa juvenil, como da festa literária eu só conhecia as margens do rumor que transbordava da alegria dos outros. Isso basta, porém, a que a legenda se me levante e o seu eco me ondeie ao espaço da evocação. Assim Coimbra, só no ressoar do seu nome tem já um timbre de guitarra. Música de miséria, não é nela que eu a ouço, mas no passado que a transcende e é da memória inatingível, da memória absoluta. Coimbra da saudade difícil, Coimbra de sempre e de nunca. Comigo a levei, longo tempo me acompanhou, presente, obsessiva. Mas havia tanta coisa ainda à minha espera. Faro do ar marinho, da laguna das águas mortas, Bragança das invernias, Évora, Lisboa. Professor sou-o por fatalidade. Mas alguma coisa se me impõe na avidez dos alunos que me escutam, na necessidade de responder à sua descoberta do Mundo - e assim me invento o professor que não sou, e eles imaginam em verdade o que é em mim só ficção. Mas dos centros de irradiação da minha atividade, apenas Évora transbordou de emoção para a lembrança. E como a Coimbra, é de novo a música, agora o coral dos camponeses, que a levanta ao espaço da minha comoção. Ouço-o ainda agora, a esse coro de amargura, raiado à infinidade da planície. Évora do silêncio com sinos nas manhãs de domingo, estradas abandonadas à vertigem da distância, ó cidade irreal, cidade única, memória perdida de mim. Sou do Alentejo como da serra onde nasci, a mesma voz de uma e outra ressoa em mim a espaço, a angústia e solidão. 
E a minha biografia deve ter findado aqui. Lisboa é um sítio onde se está, não um lugar onde se vive. Mesmo que se lá viva há 18 anos como eu. Eu o disse, aliás, a alguém, na iminência de vir: quando for para Lisboa, levo a província comigo e instalo-me nela. E assim se fez. Os livros que aqui escrevi são afinal da província donde sou. Terrorismo do trânsito, das relações pessoais, da luta em febre pela glória por que se luta ou do ódio surdo pela que calhou aos outros, terrorismo das distâncias, das relações humanas ao telefone, das cartas que nos escrevemos para de uma rua a outra ao pé, da cultura tratada a uísque nos salões do mundanismo, da individualidade perdida, da vida massificada. Vejo-me numa enfermaria do hospital, acordando estranhamente de não sei que tempo de inconsciência, com vários médicos conversando entre si e sobre mim. Pergunto de que se trata, porque estou ali. «Foste atropelado» - diz-me o meu filho, que é um dos médicos. Tenho fratura do crânio, várias contusões pelo corpo. Lisboa, selvagem, cidade bonita na claridade dos prédios, no rio das descobertas, no aéreo das colinas, meu veneno e minha sedução. Fui atropelado. Mas é talvez justo que o fosse. Porque eu não sou daqui. 
maio, 1977
Fonte: Godinho, Helder e Ferreira, Serafim (organização), Vergílio Ferreira - fotobiografia, Bertrand Editora, outubro de 1993.

CINCO COISAS QUE NÃO SABE SOBRE O ZIKA

A minha crónica mais recente na Notícias Magazine:

Em dez mil grávidas infetadas com zika, quantas transmitem o vírus ao feto? Uma estimativa aponta para 95 casos de microcefalia por cada dez mil mulheres infetadas durante o primeiro trimestre. Mas não há nenhuma estimativa para fases mais avançadas. Há fatores de risco que aumentem o risco de transmissão?

Texto completo aqui.

Uma das coisas que sabemos sobre o zika desde o final do mês passado: a forma do vírus em três dimensões, obtida por microscopia electrónica.

domingo, 10 de abril de 2016

A chave de casa

Quando um político português disse que, caso tivesse de fugir da guerra, levaria na (famosa) mochila a chave da sua casa, lembrei-me da subtileza de Amin Maalouf.
“Vais perguntar-me - continuou Khali - porque é que disse às pessoas que ali estavam o contrário da verdade. Sabes, Hassan, todos aqueles homens ainda têm pendurada na parede a chave da sua casa em Granada. Todos os dias a olham e ao olhá-la suspiram e rezam. Todos os dias vêm à sua memória alegrias, hábitos, sobretudo um orgulho que não encontrarão no exílio. A sua única razão de viver é o pensamento de que em breve (…) voltarão a encontrar as suas casas, a cor das suas pedras, os odores dos seus jardins, a água das suas fontes intactos, inalterados, como nos seus pensamentos (…). Talvez seja necessário que alguém lhe diga a verdade um dia. Eu não tenho coragem.” 
Amin Maalouf, Leão, O Africano, p. 152-153.

sábado, 9 de abril de 2016

Jóias na mochila, não!


Há três dias (alguém ainda se lembra?) houve uma campanha - "E se fosse eu" - promovida por uma organização designada por "Plataforma de Apoio aos Refugiados". Ao que li na página on line, a sua intenção era
"sensibilizar a sociedade portuguesa para as condições em que os refugiados se encontram", "promover um exercício de empatia com quem foge da guerra na Síria e procura proteção humanitária, percebendo o que quer dizer deixar tudo para trás, ter de selecionar o que é mais importante e viver só com uma mochila numa jornada de perigos e de incertezas."
A inspiração, declarou essa organização, foi encontrada no projeto “What’s in my bag?”
"desenvolvido pelo International Rescue Committee em colaboração com o fotógrafo Tyler Jump que fotografou um grupo de refugiados que chegou à ilha de Lesbos (Grécia) – uma mãe, uma criança, um adolescente, uma família, um farmacêutico e um artista – e que partilharam o que trouxeram nas suas mochilas quando tiveram de fugir."
Passo por esta informação sem fazer comentários (o seu conteúdo parece-me suficientemente explícito) e centro-me nos resultados da campanha portuguesa, a que, de um modo disperso, tive acesso.

Percebi que obteve a atenção de toda a comunicação social - jornais, estações de televisão e de rádio, internet - e que por ela desfilou uma multiplicidade de entidades, representantes, grupos, pessoas comuns.

No que respeita à educação, envolveram-se o próprio ministro, secretários de estado, centenas de escolas, muitos directores e professores, milhares de crianças e jovens. Todos falaram a uma só voz.

O mesmo aconteceu com as muitas celebridades que fizeram declarações. Aqui houve, no entanto, a nota discordante de uma artista que, desapaixonadamente, disse num vídeo que, caso tivesse de fugir da guerra, levaria as suas jóias na mochila. Também a uma só voz o país caiu-lhe em cima!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Casa/Território: Sujeito, Democracia e Pertença



Informação recebida do Teatrão:

Casa/Território: Sujeito, Democracia e Pertença é um ciclo de conferências organizado pelo Teatrão para aprofundar e inscrever no território a discussão que serve de base à investigação e à criação de “Três Irmãs (Making Of)”. No espetáculo, que percorreu a cidade na primeira temporada, as Irmãs procuram uma solução para o problema da sua casa - enfrentando a angústia de a governar falida. Desde Tchekhov, essa «casa-metáfora» mudou. Para nós, a discussão actualizou-se enquanto a Europa implode em atentados e questiona a sua própria união. Em Portugal há um novo quadro político e, com ele, novas expectativas – e também interrogações. O espírito nómada que marcou as temporadas do espetáculo (e que é, aliás, marca da Companhia) continua aceso sob o mote Ver a Pé, Andar de Perto. Por isso, e para discutir o país (a europa e o mundo) como território de pertença comum, levamos estas conferências a outras casas – que também são nossas, de todos. A Oficina Municipal do Teatro é o destino final deste périplo, a partir de 12 de maio, quando as Três Irmãs regressarem a cena. E a casa.

Construção do estado democrático
Auditório do Museu do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, 9 de abril às 17h

Álvaro Laborinho Lúcio
Ex-ministro e Juiz Conselheiro Jubilado
António Filipe Gaião Rodrigues
Deputado na Assembleia da República (PCP)
Luís Monteiro
Deputado na Assembleia de República (BE)
António Casimiro Ferreira (moderação)
Investigador doutorado em Sociologia do Estado e da Administração

Com este painel, pretende-se fazer uma reflexão sobre o momento atual de implosão do conceito de estado social na Europa e, particularmente, em Portugal.
Um painel de políticos com experiência parlamentar e governativa, que vem refletir connosco sobre a evolução, ao longo dos últimos 40 anos, destes conceitos no nosso país e na europa.

Cultura e Neoliberalismo
Café-Concerto do Convento de São Francisco, 16 de abril às 17h

Carlos Moura Carvalho
Director-geral das Artes
Catarina Vaz Pinto
Vereadora da Cultura da CM Lisboa e gestora cultural
Rui Vieira Nery
Musicólogo e Diretor do Programa Gulbenkian de Língua e Cultura Portuguesas
Manuel Rocha (moderação)
Diretor do Conservatório de Música de Coimbra e músico da Brigada Victor Jara

Nesta conversa, pensamos sobre a contemporaneidade e a forma como a Arte pode criar brechas de discussão e alternativa a uma construção hegemónica do mundo.
Um painel de pensadores, mediadores e gestores culturais, que vem refletir connosco sobre a evolução das políticas culturais do país e da forma como estas são ou não potenciadas para o desenvolvimento do mesmo.

Territórios Difusos, 23 de abril
Quinta das Lágrimas, 23 de abril às 17h

Ana Paula Tavares
Historiadora e investigadora do Arquivo Histórico de Angola
Boaventura Monjane
Jornalista e activista social em Moçambique
Luís Carlos Patraquim
Poeta, autor teatral e jornalista
Catarina Martins (moderação)
Professora universitária e Deputada Municipal

Neste painel, organizado juntamente com o programa de Doutoramento do Centro de Estudos Sociais “Pós–Colonialismo e Cidadania Global”, será debatida a globalização da “casa” como sinónimo da pertença, as migrações, os refugiados. O Norte e o Sul na disputa dos territórios.

"O MAR EXPLICADO AOS MEUS NETOS" DE HUBERT REEVES


PRELÚDIO  DO LIVRO INFANTO-JUVENIL DE HUHERT REEVES E YVES LANCELOT QUE ACABA DE SAIR NA GRADIVA:

Abarcar o mar em toda a sua dimensão

Dois não éramos demais para contar o que é o mar! Nem mesmo os nossos netos imaginavam, ao olhá‑lo na nossa companhia, que as suas perguntas iriam levar‑nos tão longe, no tempo e no espaço. Como toda a gente (ou quase), gostam do mar pelos prazeres que proporciona aos sentidos, às sensações, ao imaginário. E já não é pouco, esta capacidade de fazer sonhar. Mas trata‑se de uma atração por um pedaço do mundo que, fundamentalmente, é estranho à vida humana. Gostamos que o mar exista, mas, ao fim ao cabo, poderíamos passar sem ele...

Ora, desde há uns 50 anos apenas, a ciência fez descobertas extraordinárias que fazem do mar um tema central para o futuro terrestre. Aquilo que sabemos hoje do mar, das suas origens, da sua formação, da sua natureza física, dos seus movimentos, do seu papel nas alterações climáticas, obriga‑nos a olhá‑lo de outra maneira: não como um entre outros elementos presentes na superfície da Terra, mas como o coração de um sistema global de que depende o equilíbrio do planeta. Para nós, o mar é indispensável. Para lhe conferir toda a sua dimensão, congregámos os nossos conhecimentos e os nossos olhares. Era preciso um astrofísico (Hubert Reeves) para falar sobre o seu lugar no Universo e explicar o que ele nos ensina sobre o Sistema Solar. Era preciso um oceanógrafo (Yves Lancelot) para o observar a partir da Terra, mergulhando nas suas profundidades extremas. É assim que respondemos a uma só voz às perguntas dos nossos netos. Tal como os jovens da sua geração, eles vão herdar um planeta no estado precário em que vamos deixá‑lo. Mais do que nós com a mesma idade, são já sensíveis à sua fragilidade e sabem que terão de olhar por ele. Também quisemos ajudá‑los a compreender, por sua vez, os mistérios da vida, a despertar a sua curiosidade para lhes dar vontade de saber, de procurar, de descobrir, e a preservar toda a sua capacidade de deslumbramento.

Nós, avôs sábios, conservámo‑la intacta e gostamos tanto de a ver brilhar nos olhos dos nossos netos...

Hubert Reeves, Yves Lancelot

LIVROS NA TV

A partir deste fim-de-semana, a RTP3 vai acolher dois novos programas dedicados a livros e escritores.

Um chama-se Os Livros e passa aos sábados, às 11h50 e 17h50, e aos domingos, às 12h50 e às 17h50. Mais informações aqui: https://www.facebook.com/oslivrosrtp3/?fref=photo

Edição e apresentação: Inês Fonseca Santos
Realização: Pedro Macedo
Montagem: Micael Espinha
Motion design: Pedro Rodrigues
Música: Tiago Inuit
Produção: Framed . http://www.framed.pt

O outro chama-se Todas as Palavras e passa aos sábados, às 16h30.

Edição, apresentação e conteúdos: Ana Daniela Soares, Inês Fonseca Santos e Luís Caetano
Realização: Ricardo Espírito Santo
Produção: Terra Líquida . http://www.terraliquidafilmes.com

TAMING THE QUANTUM WORLD

"Taming the Quantum World"


No próximo Sábado,
 9 de Abril de 2016, pelas 21h30 realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a exibição do documentário "Taming the Quantum World", vencedor na categoria Melhor Produção numa Área Específica da Ciência (Física), que será comentado por Helena Vieira Alberto, no âmbito do Projecto Quark! - Escola de Física para Jovens 2016.


ENTRADA LIVRE
Público-alvo: Estudantes do ensino secundário e público em geral


quarta-feira, 6 de abril de 2016

A Infinitude da Queda no Teeteto de Platão

 Informação e convite chegados ao De Rerum Natura.


O Projeto Diálogos, apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, promove no próximo dia 11 de Abril, pelas 14:00h, no anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a palestra A Infinitude da Queda no Teeteto de Platão, a proferir pela Professora Doutora Olga Pombo, Coordenadora do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa.

Durante a palestra haverá leitura de excertos do diálogo de Platão pelo Grupo de Teatro Thíasos/FESTEA da Universidade de Coimbra.

O Projeto Diálogos visa aprofundar o conhecimento de textos fundamentais da história do pensamento ocidental. Pretende-se, a partir de obras que interpelaram as pessoas na sua época e continuam a interpelar ao longo dos tempos, no espaço privilegiado que é a universidade, promover a reflexão e o debate em torno de questões essenciais à compreensão do mundo de que fazemos parte.

O FameLab está de volta! A semifinal é já este sábado

Informação recebida da Fundação Calouste Gulbenkian:


FameLab Portugal está de volta!FameLab - concurso internacional de comunicação científica dirigido ao grande público continua este ano com mais uma edição. No dia 9 de abril, os semifinalistas sobem ao palco do Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian. O FameLab é um concurso que pretende estimular a boa comunicação de temas científicosdespertar a curiosidade dos públicos por estes temas e desenvolver as competências daqueles que já demonstram ter interesse e talento para comunicar ciência. Para isso, os candidatos tiveram de enviar um vídeo de três minutos onde demonstraram as suas capacidades de comunicar os mais diversos temas científicos que escolheram, recorrendo apenas à palavra e ao gesto, sem a ajuda de powerpoints e outros adereços informáticos.

Dia 9 de abril, às 11h00, os 24 semifinalistas, selecionados a partir das candidaturas em vídeo, sobem ao palco para uma apresentação pública na qual serão escolhidos os dez finalistas pelo júri composto por Bárbara Teixeira, Carlos Fiolhais e João Caraça. O vencedor da final nacional, que se realiza a 7 de maio no Pavilhão do Conhecimento, vai representar Portugal na Final Internacional, em junho, no Cheltenham Festival, no Reino Unido.

Venha conhecer os 24 semifinalistas!
A entrada é livre e pode saber mais informações aqui - http://bit.ly/1qsgsKV.

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...