quinta-feira, 23 de julho de 2015
PORTUGAL EM LISTA DE ESPERA
Novo texto de Galopim de Carvalho:
A Europa dos ricos e os seus diligentes seguidores em Portugal estão a conduzir-nos, decidida e deliberadamente, no caminho do empobrecimento económico e também, estupidamente, no do definhamento científico e cultural. Tudo isto sob a magistratura conivente de um Chefe de Estado que, há muito, deixou de ser o Presidente de todos os portugueses.
Estamos a assistir ao retrocesso económico, social e cultural imposto por uma cada vez menos União Europeia, em afastamento do ideal que a concebeu e, hoje, um mais do que evidente logro da esperança que assinámos a 12 de Junho de 1985, fez agora trinta anos. Em obediência subserviente às directrizes alemãs, o neoliberalismo cego do PSD (traidor do pensamento e da prática social democrata que lhe deu nascimento), amparado nesta muletazinha conhecida pela sigla CDS-PP, tomou conta dos nossos destinos, vai para quatro anos, num retrocesso declarado das conquistas nas condições do trabalho, na segurança social, nos cuidados de saúde, na ciência, no ensino e no apoio à cultura conseguidas na vivência em democracia que se seguiu à Revolução dos Cravos.
O discurso da coligação que nos governa, já em plena campanha eleitoral e, como em 2011, assente na mentira descarada, não pode fazer esquecer a destruição sistemática que tem vindo a fazer destas conquistas que vemos fugir da nossa vida colectiva como areia por entre os dedos.
Ao longo de governos anteriores fomos perdendo parte significativa da independência nacional e assistimos à asfixia e destruição de muitas das nossas valências económicas. Nos dias de hoje são cada vez mais os nossos concidadãos a viverem tempos de miséria e, até, de fome, cada vez maior o número de ricos e cada vez maior a sua riqueza. A corrupção instalou-se, impune, a todos os níveis do espectro político e financeiro. É confrangedor o desumano abandono dos idosos, a chamada classe média continua a afundar-se e o desemprego tornou-se uma realidade dramática dos que já não conseguem encontrar um posto de trabalho, constituindo um incentivo crescente à igualmente dramática emigração de uma juventude que a democratização do ensino qualificou a níveis nunca antes conseguidos.
São muitos a dizer que a seguir à Grécia estamos nós.
António Galopim de Carvalho
quarta-feira, 22 de julho de 2015
DESONESTIDADE
Já nada me admira neste país actualmente sem rumo. Ouço na rádio o ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, num auto-elogio próprio da campanha eleitoral a gabar a sua política de ciência. Referiu até num hipotético acréscimo de meios que teria havido no seu mandato.
Já sabíamos que muitos políticos mentem e que Crato passou em quatro anos de um prestigiado cientista e divulgador de ciência a um vulgar político dos muitos que há por aí a dizer coisas. De facto, como tem sido amplamente demonstrado, ele deixa a ciência muito pior do que a recebeu das mãos de Mariano Gago.
Abateu centros de investigação e cortou bolsas, após processos de "avaliação" indignos e por isso largamente contestados (em várias instâncias, incluindo os tribunais; o processo está longe de ter terminado). A actuação do ministério não é apenas de desonestidade intelectual mas também de desonestidade material. As leis da República foram atropeladas para que só um certo grupo, de tamanho definido à partida por um viés inexplicado e inexplicável, pudesse ser mantido. Chegou-se a tirar meios públicos do sector público para os dar ao sector privado.
As palavras do ministro de uma coligação avessa à ciência, ditas aliás num atropelo próprio da demagogia, ficam apenas como uma tentativa falhada de justificar o injustificável.
Em breve Nuno Crato passará à história da educação e ciência nacional, ocupando um lugar nos antípodas da proeminência. Por acção e inacção Crato conseguiu a proeza de ser um mau ministro da educação e um péssimo ministro da ciência, o pior de sempre.
OS PRIMEIROS RAIOS INVISÍVEIS
Neste Ano Internacional da Luz, mais um texto meu de divulgação sobre a luz que saiu no último As Artes entre as Letras (na imagem William e Caroline Herschel):
Quando a leitora ou leitor muda o
canal televisivo ou aumenta o volume de som da emissão com a ajuda de um
controlo remoto está a usar uma forma de luz invisível que é conhecida por luz
ou radiação infravermelha. Esta luz comporta-se como a luz visível, pelo que o
portador do controlo remoto terá de estar em linha de visão com a televisão.
Mas pode não estar, usando um truque: tal como a luz visível também a luz
infravermelha se reflecte num espelho, sendo por isso apenas necessário que o
espelho esteja em linha de vista com a televisão. A leitora ou leitor pode,
portanto, experimentar uma simples experiência de óptica que consiste em
desligar um desinteressante programa de televisão sem sequer se dignar sequer olhar
para o ecrã.
A luz infravermelha foi a
primeira luz invisível a ser descoberta. Corria o ano de 1800 e o autor da
façanha foi um astrónomo anglo-germânico (nascido em Hannover, na Alemanha, mas
emigrado em Inglaterra) chamado William Herschel (1738-1822). A experiência que
revelou os infravermelhos foi realizada na pequena cidade de Slough, algumas
milhas a oeste de Londres. Não admira por isso que aí o visitante encontre hoje
uma futurista estação de camionetas, com um tecto de alumínio ondulado, que
logo associa às ondas de luz. O dispositivo é extraordinariamente simples: um
prisma causa o aparecimento do arco-íris, tal como o inglês Isaac Newton tinha
feito, e um conjunto de termómetros serve para medir a temperatura das várias
cores do espectro. Ora, Herschel verificou que a temperatura ia subindo quando
se passava do violeta para o vermelho, atingindo o máximo no vermelho. Um
termómetro colocado fora da zona colorida servia para controlo. Mas Herschel
admirou-se muito justamente quando verificou que este termómetro de controlo,
quando colocado perto da zona vermelha mas fora do espectro, revelava uma subida
de temperatura ainda maior do que se verificava no vermelho. Havia pois uma
forma de luz ou radiação que, apesar de invisível, tinha propriedades térmicas
semelhantes mas ainda superiores às da luz vermelha. A tentação de medir do
outro lado do espectro, perto do violeta, era imediata, mas Herschel nada achou
de relevante. Foi um outro cientista contemporâneo de Herschel, o químico
alemão Johann Wilhelm Ritter (1776-1810, morreu com a idade de Cristo), amigo
de Johann Wolfgang von Goethe e de Alexandre von Humboldt, quem encontrou em 1801 a luz ou radiação
ultravioleta, após ter ouvido falar da descoberta de Herschel. Sabendo que o
cloreto de prata era particularmente sensível à luz azul, ficando preto,
experimentou colocá-lo perto da cor violeta do espectro: observou que ficava
ainda mais preto. Ritter chamou a esta nova forma de luz raios químicos, mas
raios ultravioletas foi o nome que acabou por vingar. O cloreto de prata ainda
hoje é usado no papel fotográfico.
Em resumo, logo no início do
século XIX, quando despontava o romantismo, emergiram as duas primeiras formas
conhecidas de raios de luz invisível: os infravermelhos e os ultravioletas.
Hoje usamos os infravermelhos, para além dos comandos de televisão, em câmaras
que servem para ver no escuro, em termómetros, na análise de obras de arte, em lâmpadas para
aquecer os alimentos, etc. Por seu lado, os ultravioletas, para além da
fotografia, usam-se na detecção de notas falsas, na impressão de circuitos
digitais, na esterilização e desinfecção, em certas formas de terapia
dermatológica, etc.
Vale a pena contar um pouco da
biografia de William (ou Wilhelm) Herschel, uma vez que ele foi, além de
físico, um notável músico e um extraordinário astrónomo: alguns consideram-no
mesmo o criador da astronomia moderna. Herschel, que era filho de um músico da
Guarda de Hannover, cedo aprendeu música. Aos 18 anos mudou-se, por iniciativa
do seu pai, para Inglaterra. Aprendeu também a tocar violino, cravo e órgão.
Tornou-se organista numa capela da cidade termal de Bath, onde hoje a casa que
habitou com a sua irmã Caroline pode ser vista convertida que foi em Museu de
Astronomia. Tendo começado uma carreira musical (era o tempo do austríaco
Joseph Haydn, que também passou do continente europeu para Inglaterra),
tornou-se compositor, sendo hoje conhecido como autor de 24 sinfonias e numerosos
concertos, para além de música religiosa. Não podendo competir com Haydn no
génio musical, o certo é que ainda hoje se tocam e gravam composições de
Herschel.
Mas Herschel é sobretudo recordado
como astrónomo. Tendo hesitado entre uma carreira de músico e de astrónomo, a
sua paixão pelas estrelas acabou por levar a melhor. Na astronomia, o feito que
lhe deu a glória foi a descoberta do planeta Úrano, o primeiro a ser detectado
após os seis planetas conhecidos desde a Antiguidade. Herschel deu-lhe o nome
de “estrela de George”, em homenagem ao rei George III, mas mais tarde ficou
com o nome actual. Herschel, que trabalhou em conjunto com a sua irmã Caroline
(ela foi a primeira mulher a receber um salário de trabalho científico), fez
muito mais descobertas nos céus: catalogou numerosas estrelas binárias e
nebulosas, descobriu novas nuvens no sistema solar, cunhou o nome “asteróides”,
contou manchas solares procurando correlacionar a actividade solar com o clima
terrestre (para isso serviu-se dos preços do trigo, colectados por Adam Smith)
e descobriu que o Sol se move relativamente a outras estrelas.
Há uma história curiosa passada
entre os irmãos Herschel e o português João Jacinto Magalhães, um dos nossos
estrangeirados, quando este os visitou. Depois de os ter acompanhado na observações
astronómicas, Magalhães foi-se deitar pela meia noite. Quando se levantou
verificou que os dois astrónomos continuavam, em vigília, a ver os céus. Numa
carta a Volta escreveu o português: “Quelle espece
ardeurAlguns autores
invocam este dito de Magalhães para afirmar que ele não seria um verdadeiro
cientista, mas sim e apenas um interlocutor de cientistas. Mas foi não só um
interlocutor como um amigo de grandes cientistas.
O MAR E O ESPAÇO
Meu texto, a propósito da História Trágico-marítima, inserto no manuel de Português do 10.º ano da Tetxo Editores: "Mensagens", de Célia Cameira, Fernanda Palma e Rui Palma:
Hoje, quando astronautas viajam permanentemente
em órbita da Terra, convém recordar que a primeira era de exploração e
descoberta foi protagonizada por portugueses e espanhóis, nos séculos XV e XVI,
quando eles chegaram por mar ao Brasil, à América do Norte e ao Oriente.
Os portugueses foram pioneiros na
extraordinária ousadia que é necessária para se encontrar novos mundos. Para
conhecerem o desconhecido, tiveram de deixar não só as suas famílias mas também
tudo o que lhes era familiar. Tiveram, em muitos casos, de deixar a vida: no
início dos Descobrimentos, dois em cada três homens morriam na viagem. No meio
do mar imenso, que sofregamente “comia” os barcos, os sobreviventes ficaram a
saber que a linha entre a vida e a morte era bastante ténue. Os navegadores,
para irem mais além no mar, tiveram acima de tudo de irem além de si próprios. Escreveu
Fernando Pessoa no poema Mar Português:
Quem quer passar além do Bojador / Tem de
passar além da dor. A experiência foi dolorosa, mas o certo é que esse e
outros cabos foram passados, tendo o mundo ficado maior.
A História Trágico-Marítima conta-nos, como numa reportagem em
directo, como os barcos eram, nessa época, engolidos pelo oceano ou, como
acontece nesta história de Jorge de Albuquerque Coelho, numa viagem na nau Santo António entre o Brasil e Portugal,
como os marinheiros passavam enormes provações para sobreviver. Não era apenas
a fúria dos elementos que causava a morte, era ainda a cobiça dos corsários,
que, com artilharia bem apontada, podiam ser piores do que a Natureza.
Na recente era espacial saímos da
superfície do nosso planeta, elevando-nos em direcção ao espaço. Mas, hoje como
outrora, apesar de a ciência nos ter enchido a mão de instrumentos (as
telecomunicações, o radar, o GPS), a aventura não pode ser feita sem consideráveis
riscos, exigindo por isso aos aventureiros as mesmas qualidades que antigamente.
Está nos nossos dias a ser escrita uma história trágico-espacial. Em 1967 o
astronauta soviético Vladimir Komarov era a primeira vítima no espaço ao morrer,
no regresso da Soyuz I a Terra. E, em
1986 e 2003, explodiam dois vaivéns espaciais norte-americanos, o Challenger e o Columbia, um à partida e outro à chegada, ceifando de cada vez
sete vidas. Era o ar que engolia as naves, em vez de ser o mar. Mas, tal como
antes, os desastres não diminuíram a vontade de conhecer o desconhecido. Aprendendo
com os desastres, os vaivéns voltaram ao espaço.
O astronauta da NASA John
Phillips, que protagonizou duas missões a bordo dos vaivéns, declarou: "[No passado] Navios perderam-se e
pessoas corajosas morreram, mas isso não implicou que não voltássemos a essas
partes do mundo. Passar-se-á o mesmo com
a exploração espacial." Ontem no mar, hoje no espaço, a grande
aventura humana, que consiste afinal em irmos além de nós próprios, continua.
Uma tentativa de resposta ao comentário: "Nada"!
“
Atingir o ideal é compreender o real” (Jean Jaurès).
Pelo interesse do comentário de FMC ao meu post, “O circo funambulesco das pedagogias alternativas” (20/07/2015)”,entendi chamar a atenção para a respectiva leitura (que recomendo vivamente), correndo eu o risco em deslustrar o respectivo brilho pela opacidade do verbo desta minha resposta.
Corro esse risco! Começo por dizer que o nome do comentário (“Nada”) está desajustado. Se me é permitida a sugestão, pelo número de questões nele levantadas, profundidade dos temas questionados e sua complexidade, sugiro este título: “Tudo”.
Assim, logo de início, a questão posta é: “Qual o Homem que queremos construir e com que objectivo supremo”? Sem entrar em domínios ontológicos, para não assumir o papel de sapateiro que toca rabecão (embora pudesse encontrar arrimo em Huxley: “A metafísica!... Num deserto de ideias, um dilúvio de palavras”), entendo ser objectivo, essencialmente, de natureza política. A sociedade comunista tinha um objectivo; a sociedade hitleriana outro; Portugal Salazarista outro; Portugal logo após o 25 de Abril outro; Portugal do tempo de Nuno Crato outro. Repare-se que o insuspeito Francisco de Sousa Tavares (um homem de Abril) não hesitou em escrever criticamente: “Estamos a formar não um país de analfabetos, como até aqui, mas um país de burros diplomados”.
Depois, entrando em domínios freudianos, em tempos em que era convidado para fazer palestras sobre Educação desculpava-me da subjectividade do tema com as costas largas do fundador da psicanálise. Uma vez interpelado por uma mãe angustiada sobre a melhor forma de educar o filho, respondeu: “Minha senhora, faça o que fizer fará sempre mal!”
Batendo à porta da Pedagogia, ocorre-me a história de um pedagogo que dizia, citando-o de memória: “Dantes tinha seis teorias sobre Educação e nenhum filho, hoje tenho seis filhos e nenhuma teoria!”
Mas vejamos, agora, o desencanto de Platão sobre a Educação do seu tempo quando confrontado com a incapacidade das crianças distinguirem os números pares dos números ímpares, dizia: “Quanto a mim, parecemo-nos mais com porcos do que com Homens e sinto-me envergonhado não só de mim, mas de todos os gregos”.
Avancemos séculos e ouçamos Nietzsche: “E assim cheguei até vós, ó homens de hoje, e ao país da educação. E o que me aconteceu? Não obstante toda a minha ansiedade, tive de rir. Nunca os meus olhos tinham contemplado algo tão manchado e heterogéneo”.
Admirador confesso de Eça, de minha leitura de mezinha de cabeceira, não podia deixar de o evocar com esta citação que subalterniza a cultura, lato sensu, a costumes fúteis (ontem como hoje?): “Uma nação vive, prospera, é respeitada, não pelo seu corpo diplomático, não pelo seu aparato de secretarias, não pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas. Isto nada vale, nada constrói, nada sustenta; isto faz reluzir as comendas e assolhar o pano das fardas – mais nada. Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas”.
A Educação é um fenómeno social de real importância em que se devem preparar os jovens de hoje para amanhã - um amanhã onde o avanço da Ciência e das novas tecnologias se renova todos os dias - sem que os próprios educadores saibam qual ele venha a ser! Isto é, já lá vai o tempo em que a Educação era um saber estabilizado transmitido de geração em geração.
“A única forma de prevermos o futuro é ter poder para formar o futuro”, como escreveu Eric Hoffer. E saberemos nós utilizar um poder para qual não estamos preparados? Vazio de soluções sobre o desafio que me é feito sobre se tenho alguma ideia sobre “o papel da escola neste refazer do Homem”, sinceramente, respondo: Não”!
Sinto-me, muito sinceramente, perdido num verdadeiro labirinto de Creta sem o fio de Ariadne que me indique o caminho da saída.
Na imagem: Nietzsche (citado no texto)
P.S. : Acabo de rectificar o último parágrafo do meu texto que estava redigido, parcialmente, da forma seguinte: "Sinto-me, muito sinceramente, perdido num verdadeiro la"(...)
Atingir o ideal é compreender o real” (Jean Jaurès).
Pelo interesse do comentário de FMC ao meu post, “O circo funambulesco das pedagogias alternativas” (20/07/2015)”,entendi chamar a atenção para a respectiva leitura (que recomendo vivamente), correndo eu o risco em deslustrar o respectivo brilho pela opacidade do verbo desta minha resposta.
Corro esse risco! Começo por dizer que o nome do comentário (“Nada”) está desajustado. Se me é permitida a sugestão, pelo número de questões nele levantadas, profundidade dos temas questionados e sua complexidade, sugiro este título: “Tudo”.
Assim, logo de início, a questão posta é: “Qual o Homem que queremos construir e com que objectivo supremo”? Sem entrar em domínios ontológicos, para não assumir o papel de sapateiro que toca rabecão (embora pudesse encontrar arrimo em Huxley: “A metafísica!... Num deserto de ideias, um dilúvio de palavras”), entendo ser objectivo, essencialmente, de natureza política. A sociedade comunista tinha um objectivo; a sociedade hitleriana outro; Portugal Salazarista outro; Portugal logo após o 25 de Abril outro; Portugal do tempo de Nuno Crato outro. Repare-se que o insuspeito Francisco de Sousa Tavares (um homem de Abril) não hesitou em escrever criticamente: “Estamos a formar não um país de analfabetos, como até aqui, mas um país de burros diplomados”.
Depois, entrando em domínios freudianos, em tempos em que era convidado para fazer palestras sobre Educação desculpava-me da subjectividade do tema com as costas largas do fundador da psicanálise. Uma vez interpelado por uma mãe angustiada sobre a melhor forma de educar o filho, respondeu: “Minha senhora, faça o que fizer fará sempre mal!”
Batendo à porta da Pedagogia, ocorre-me a história de um pedagogo que dizia, citando-o de memória: “Dantes tinha seis teorias sobre Educação e nenhum filho, hoje tenho seis filhos e nenhuma teoria!”
Mas vejamos, agora, o desencanto de Platão sobre a Educação do seu tempo quando confrontado com a incapacidade das crianças distinguirem os números pares dos números ímpares, dizia: “Quanto a mim, parecemo-nos mais com porcos do que com Homens e sinto-me envergonhado não só de mim, mas de todos os gregos”.
Avancemos séculos e ouçamos Nietzsche: “E assim cheguei até vós, ó homens de hoje, e ao país da educação. E o que me aconteceu? Não obstante toda a minha ansiedade, tive de rir. Nunca os meus olhos tinham contemplado algo tão manchado e heterogéneo”.
Admirador confesso de Eça, de minha leitura de mezinha de cabeceira, não podia deixar de o evocar com esta citação que subalterniza a cultura, lato sensu, a costumes fúteis (ontem como hoje?): “Uma nação vive, prospera, é respeitada, não pelo seu corpo diplomático, não pelo seu aparato de secretarias, não pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas. Isto nada vale, nada constrói, nada sustenta; isto faz reluzir as comendas e assolhar o pano das fardas – mais nada. Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas”.
A Educação é um fenómeno social de real importância em que se devem preparar os jovens de hoje para amanhã - um amanhã onde o avanço da Ciência e das novas tecnologias se renova todos os dias - sem que os próprios educadores saibam qual ele venha a ser! Isto é, já lá vai o tempo em que a Educação era um saber estabilizado transmitido de geração em geração.
“A única forma de prevermos o futuro é ter poder para formar o futuro”, como escreveu Eric Hoffer. E saberemos nós utilizar um poder para qual não estamos preparados? Vazio de soluções sobre o desafio que me é feito sobre se tenho alguma ideia sobre “o papel da escola neste refazer do Homem”, sinceramente, respondo: Não”!
Sinto-me, muito sinceramente, perdido num verdadeiro labirinto de Creta sem o fio de Ariadne que me indique o caminho da saída.
Na imagem: Nietzsche (citado no texto)
P.S. : Acabo de rectificar o último parágrafo do meu texto que estava redigido, parcialmente, da forma seguinte: "Sinto-me, muito sinceramente, perdido num verdadeiro la"(...)
terça-feira, 21 de julho de 2015
O direito das crianças à sua própria imagem - 1
“Na verdade, os filhos não são coisas ou objetos pertencentes aos pais e de que estes podem dispor a seu belo prazer. São pessoas e consequentemente titulares de direitos”.Esta declaração é de um colectivo de juízes do Tribunal da Relação de Évora que, no julgamento de um caso real, felizmente reafirmaram que "proteger a imagem dos filhos é uma obrigação dos pais, e que os menores não são pertenças dos progenitores, mas pessoas com direitos, onde se inclui o direito à imagem" (Ver aqui).
O conteúdo é absolutamente óbvio, mas as múltiplas evidências sugerem que é preciso reafirmá-lo e explicá-lo. Ainda assim, poucos o entenderão. Efectivmente, não são apenas certas famílias, com destaque para os pais, que divulgam fotografias e dados biográficos e do quotidiano dos seus filhos, é também a generalidade das escolas e alguns professores.
Abra o leitor a página online de uma qualquer escola pública e verá que, infelizmente, talvez só a via legal poderá travar o abuso de que as crianças e jovens são vítimas. Vítimas que, não sendo educadas para questões de privacidade, nem em casa nem na escola, poderão replicar, no futuro, o abuso.
RÓMULO e Ciência Viva no Verão em Rede 2015

No âmbito do Ciência Viva no Verão em Rede 2015, promovido pela Rede Nacional de Centros Ciência Viva, tirando
partido da sua proximidade às populações e às organizações locais mais
dinâmicas e para consolidar o seu papel na promoção da cultura
científica na sociedade portuguesa, o RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra leva a ciência à rua com oficinas orientadas por jovens cientistas com o nome genérico de "Ciência na Rua". As próximas oficinas decorrem entre 22 a 24 de Julho de 2015.
Data: 22 de Julho de 2015
Hora: 10:00 - 13:00
Local: Café Santa Cruz, na Praça 8 de Maio - Coimbra
Oficinas orientadas:
- Porque é que a lua tem manchas?
- Piões coloridos
- Vês-me, ou não?
- Vês-me, ou não?
Data: 23 de Julho de 2015
Hora: 10:00 - 13:00
Local: Café Santa Cruz, na Praça 8 de Maio - Coimbra
Oficinas orientadas:
- Que horas são? (construção de um relógio de sol)
- Padrões com lápis de giz
Data: 24 de Julho de 2015
Hora: 14:00 - 17:00 (horário alterado)
Local: Café Santa Cruz, na Praça 8 de Maio - Coimbra
Oficinas orientadas:
- Forno solar (faça o seu pão)
- Música aquática
*Destinadas ao público em geral, as oficinas "Ciência na Rua", orientadas por jovens cientistas, proporcionam ao público o contacto com cientistas que esclarecem as suas dúvidas em ambiente descontraído.
Entrada Livre e Gratuita
segunda-feira, 20 de julho de 2015
O CIRCO FUNAMBULESCO DAS PEDAGOGIAS ALTERNATIVAS
“Hoje só me diverte o circo de Domingo de toda a semana da minha infância”
(Fernando Pessoa).
O post, publicado ontem no DRN, da académica em Ciências da Educação, Helena Damião, titulado “A legitimação académica e legal da ‘banha da cobra’”, deu-me o arrojo na minha declarada condição de “diletante de coxia”, como diria Eça, de escrever este texto que tem a suportá-lo uma crónica de jornal que, ao contrário de certos filmes que avisam os espectadores que “qualquer semelhança com a realidade é pura ficção”, não justifica qualquer aviso prévio por nessa peça jornalística a realidade suplantar a própria ficção por mais imaginativo que, porventura, tivesse sido o respectivo guião.
É o caso relatado neste artigo intitulado “Brincar às escolas” (08/05/2005), da autoria do director-adjunto do “Público”, Nuno Pacheco, que poderia ser tido por ficção não se desse o caso de espelhar (e documentar) a tragédia de certos cursos sindicais de formação para professores, como se constatará pela respectiva transcrição verbo pro verbo. Escreveu Nuno Pacheco:
“Portugal espanta-nos sempre. Mesmo quando imaginamos que nada pior pode já acontecer, alguém se encarrega de vir desenganar-nos. Veja-se o seminário 'Dicas para ser melhor professor(a)' convocado para 11 e 12 de Maio [2005] em Lisboa e organizado por uma autodeterminada 'pró-Ordem dos Professores'. Vale a pena descrever, na íntegra, os objectivos de tal encontro, tal como vêm escritos no folheto no folheto, sem omitir um único:Porque, segundo Bergson, “não existe cómico fora do que é verdadeiramente humano", o país de lés-a-lés ficou a saber que houve cursos (e corre-se até o risco de poder haver reprises) para o professor “brincar às escolas” e rir a bom riso, até ficar com dores de barriga, sem qualquer motivo para tal, apenas contagiado por si próprio. Mas não será mais do que altura de parar com esta reinação, reflectindo sobre a responsabilidade de quem autoriza este tipo de cursos destinados à (de)formação de professores com a consciência aliviada de não ter de se retractar, ainda que só em lágrimas de remorso por se fazer conivente de um ensino, por vezes, degradado até fronteiras da indignidade?
'Como arranjar a sala de aula para facilitar a aprendizagem?
Qual a melhor postura a adoptar?
Como colocar a voz?
Como gesticular?
Que gestos devo evitar?
De que cor me devo vestir?
De que cor deve ser a sala de aula?
Como gerir conflitos?
Que legislação devo saber de cor?
Como relaxar os alunos antes da aula?
Como auto-relaxar?
É importante saber os signos dos alunos para transmitir melhor a matéria? Se um aluno sofrer um acidente que primeiros socorros devo saber? Como aplicar estas dicas na escola, em casa, aos alunos e a mim?'.
Lê-se e, por melhor boa vontade, não se acredita. Não há pasmo que consiga descrever a sensação de estar perante tamanho disparate. Ainda vamos descobrir que os males do nosso ensino se devem aos cortinados das escolas, ao mau design dos equipamentos ou ao perfume usado pelos professores. Talvez ajude um pouco de meditação transcendental, talvez exercícios tântricos, talvez 'feng shui'... Mas o pasmo aumenta à medida que se vai lendo a lista dos especialistas convidados para as palestras: um colaborador do programa da SIC “Querido mudei a casa” (imagina-se a variante 'pedagógica': 'queridinhos alunos, mudámos a escolinha!'), um actor de telenovela Morangos com Açucar, uma 'formadora em marketing e relações públicas, uma terapeuta de energias, uma astróloga 'licenciada em comunicação' um psicólogo, uma enfermeira, uma professora/advogada para explicar leis e alguém da Associação de Mediadores de Conflitos para, naturalmente, descodificar os artifícios da concórdia. No intervalo, sem desprimor para os ditos, haverá pastéis de Belém junto com o café. É espantoso como em pleno século XXI, se promove um encontro para os professores julgando colmatar com 'dicas' impensáveis a miséria do nosso ensino. É inacreditável como se fala de exercícios de relaxamento, de colocação de voz, de marketing, de cores, de energias e signos , e não se fale da única coisa que as escola devia fazer com a máxima competência e empenho: ensinar, com sabedoria e não com truques de feira; transmitir conhecimentos em condições como é apanágio das melhores escolas e colégios por esse mundo. É patético imaginar que em Harvard ou Oxford haja professores a discutir os benefícios de fazer 'exercícios de relaxamento' com os alunos. Porquê? Precisamente porque são professores e não diletantes do estilo e da forma, porque a sua missão na escola é a mesma de há séculos: formar cidadãos competentes e preparados para a vida e não patetas incapazes de articular um único pensamento aproveitável. Infelizmente o seminário da pró-Ordem é um sinal dos tempos: a mediocridade não se limita a corroer as mentes, já se arvora em ciência, uma 'ciência'que dá 'dicas’. Pobres de nós”.
Ou seja, não basta lamentar este status quo. Há que pôr cobro ao calvário de crianças e adolescentes das nossas escolas, vítimas inocentes de um circo verdadeiramente funambulesco com espectáculo diário de segunda a sexta-feira. Mas o pior disto é que tudo o que acontece neste país, seja no campo da educação, da saúde, da economia, da política e dos próprios costumes tem a cobertura estatal sendo explicado, à falta de melhor explicação, de forma esotérica.
Vá lá a gente saber porquê quando está em jogo a educação da juventude “sem a aquisição fundamental de uma compreensão e uma percepção nítida dos valores”, como escreveu Albert Einstein. O hedonismo, ainda que na simples arte de ensinar, ademais, hoje, emergindo do empirismo que lhe deu os primeiros fôlegos susceptíveis de estudo e de sistematização, tem limites que se não compadecem com pedagogias alternativas a bel-prazer de simples curiosos ou ilusionistas do saber!
domingo, 19 de julho de 2015
A legitimação académica e legal da "banha da cobra"
Na sequência do texto Licenciaturas em banha da cobra, do David Marçal.
Tenho de reconhecer que, a pouco e pouco, mas de modo eficaz, o David tem contribuído para a destruição de um argumento que eu considerava seguro, inabalável até, e que, por isso, usava recorrentemente. O argumento era: tal como na área da saúde, também na área da educação o pensamento científico tem de prevalecer. Deitado por terra esse argumento, agora não sei o que dizer...
Explico melhor...
Há muito anos, era óbvio, para mim, que as ciências que cabem na designação de Ciências da Educação - Psicologia da educação, Estudos curriculares, Pedagogia comparada, Didáctica, etc... - tinham de ter um carácter científico. Foi assim que aprendi na Universidade e nem outro cenário me passaria pela cabeça.
Nos anos mais recentes foi percebendo que sob a capa das Ciências da Educação se iam abrigando, em catadupa, ideias e práticas sem qualquer fundamento teórico e empírico que possa ser considerado científico... a inteligência emocional a que se junta, agora, a espiritual, a risoterapia e o yoga do riso, as massagens para alunos, a leitura da aura e as crianças cristal, as "mãos na massa" e, agora "o coração na massa"... e poderia contifnuar por muitas linhas.
O discurso de "embrulho" dessas ideias e práticas tem trejeitos científicos, mas não consegue enganar; logo no primeiro parágrafo se percebe a substância.
Ao dizer isso fui sendo interpelada cada vez com mais frequência e veemência. Dava-se, por vezes, o caso de esgotar todas as minha razões e, nesse momento, passava eu a interpelar: se fosse na área da saúde, em vez de ser na área da educação, consideraria esta ou aquela ideia ou prática científica?
Bom... E sentia as pessoas a retraírem-se: na saúde, calma lá, aí alguém pode sair lesado, morto até!
Ora, acontece que a minha interpelação, do tipo (pensava eu) "xeque-mate", deixou de surtir efeito e, mais, tem-se virado contra mim. Dizem-me: na universidade tal (situada num bom lugar nos rankings) há uma linha de investigação financiada (se é financiada está acima de qualquer suspeita), no plano de estudo do curso tal há esta e aquela unidade curricular (moderna designação para disciplina, cadeira), foram publicados não sei quantos (uma infinidade) de artigos em revistas com revisão por pares, estão terminadas não sei quantas (também uma infinidade) de teses de mestrado e doutoramento...
Incrédula, das primeiras vezes que isto me aconteceu, fiz o que devia: procurei. E, para mal dos meus pecados, era tudo verdade, eu é que não sabia! As coisas mais inimagináveis tinham suporte académico!
Este golpe de que ainda não recuperei (e não sei se alguma vez isso acontecerá, pois para recuperar seria preciso entender, o que, na verdade, por mais que me esforce, não consigo) foi acompanhado de outro igualmente duro: a legitimação em letra de lei daquilo que eu duvido (ou nem sequer duvido) que seja científico.
Voltando ao David Marçal, o que ele tem demonstrado é que a área da saúde é tão permeável a estes dois duros golpes como a educação. Logo, para defender a cientificidade desta não posso (já) estabelecer uma analogia com aquela. Sem a (última) cartada, vejo-me sem argumentos e, nestas circunstâncias, manda o bom-senso que me cale, o que, confesso, já faço muitas vezes... E, não devia!
"... a comunidade científica e educativa deveria
recusar esse papel e deixar as pseudociências
remetidas aos seus guetos de incenso e cítaras."
David Marçal.
Tenho de reconhecer que, a pouco e pouco, mas de modo eficaz, o David tem contribuído para a destruição de um argumento que eu considerava seguro, inabalável até, e que, por isso, usava recorrentemente. O argumento era: tal como na área da saúde, também na área da educação o pensamento científico tem de prevalecer. Deitado por terra esse argumento, agora não sei o que dizer...
Explico melhor...
Há muito anos, era óbvio, para mim, que as ciências que cabem na designação de Ciências da Educação - Psicologia da educação, Estudos curriculares, Pedagogia comparada, Didáctica, etc... - tinham de ter um carácter científico. Foi assim que aprendi na Universidade e nem outro cenário me passaria pela cabeça.
Nos anos mais recentes foi percebendo que sob a capa das Ciências da Educação se iam abrigando, em catadupa, ideias e práticas sem qualquer fundamento teórico e empírico que possa ser considerado científico... a inteligência emocional a que se junta, agora, a espiritual, a risoterapia e o yoga do riso, as massagens para alunos, a leitura da aura e as crianças cristal, as "mãos na massa" e, agora "o coração na massa"... e poderia contifnuar por muitas linhas.
O discurso de "embrulho" dessas ideias e práticas tem trejeitos científicos, mas não consegue enganar; logo no primeiro parágrafo se percebe a substância.
Ao dizer isso fui sendo interpelada cada vez com mais frequência e veemência. Dava-se, por vezes, o caso de esgotar todas as minha razões e, nesse momento, passava eu a interpelar: se fosse na área da saúde, em vez de ser na área da educação, consideraria esta ou aquela ideia ou prática científica?
Bom... E sentia as pessoas a retraírem-se: na saúde, calma lá, aí alguém pode sair lesado, morto até!
Ora, acontece que a minha interpelação, do tipo (pensava eu) "xeque-mate", deixou de surtir efeito e, mais, tem-se virado contra mim. Dizem-me: na universidade tal (situada num bom lugar nos rankings) há uma linha de investigação financiada (se é financiada está acima de qualquer suspeita), no plano de estudo do curso tal há esta e aquela unidade curricular (moderna designação para disciplina, cadeira), foram publicados não sei quantos (uma infinidade) de artigos em revistas com revisão por pares, estão terminadas não sei quantas (também uma infinidade) de teses de mestrado e doutoramento...
Incrédula, das primeiras vezes que isto me aconteceu, fiz o que devia: procurei. E, para mal dos meus pecados, era tudo verdade, eu é que não sabia! As coisas mais inimagináveis tinham suporte académico!
Este golpe de que ainda não recuperei (e não sei se alguma vez isso acontecerá, pois para recuperar seria preciso entender, o que, na verdade, por mais que me esforce, não consigo) foi acompanhado de outro igualmente duro: a legitimação em letra de lei daquilo que eu duvido (ou nem sequer duvido) que seja científico.
Voltando ao David Marçal, o que ele tem demonstrado é que a área da saúde é tão permeável a estes dois duros golpes como a educação. Logo, para defender a cientificidade desta não posso (já) estabelecer uma analogia com aquela. Sem a (última) cartada, vejo-me sem argumentos e, nestas circunstâncias, manda o bom-senso que me cale, o que, confesso, já faço muitas vezes... E, não devia!
sábado, 18 de julho de 2015
Licenciaturas em banha da cobra
No dia 5 de Junho foram publicadas em Diário da República cinco portarias que definem os cursos que conferem os graus de licenciado em fitoterapia, acupuntura, quiropraxia, osteopatia ou naturopatia. No caso da naturopatia (Portaria nº 172-F/2015), por exemplo, a formação abrange uma miríada de coisas mais ou menos delirantes, entre elas a auricoloterapia e a iridologia. A
auricoloterapia baseia-se na ideia de que a orelha representa o corpo todo, como uma espécie de boneca vodu em que a cada pontinho do pavilhão auricular corresponde um órgão, como o fígado, o pâncreas ou o coração, ou uma parte do corpo, como o ombro ou o pescoço (interrogo-me se orelha também terá um ponto que representa a própria orelha). A iridologia é mais ou menos a mesma coisa, nos olhos. Neste caso a análise da cor e outras características da íris permitiriam identificar doenças em órgãos específicos. Para isso os iridologistas usam mapas das íris, divididas como queijinhos do trivial persuit, que correspondem à vagina, aos rins, à “sexualidade mental”, ao esófago, etc. Tudo isto é fantasticamente divertido, mas penso que não é necessário perder muito tempo a explicar que não tem qualquer fundamento científico. A ciência baseia-se em observações ou experiências, descritas de um modo transparente, de modo a que possam ser confirmadas ou refutadas por outros grupos de investigação. Se as terapias alternativas conseguissem demonstrar cientificamente a sua eficácia e segurança, nomeadamente através de ensaios clínicos bem feitos, não seriam alternativas.
auricoloterapia baseia-se na ideia de que a orelha representa o corpo todo, como uma espécie de boneca vodu em que a cada pontinho do pavilhão auricular corresponde um órgão, como o fígado, o pâncreas ou o coração, ou uma parte do corpo, como o ombro ou o pescoço (interrogo-me se orelha também terá um ponto que representa a própria orelha). A iridologia é mais ou menos a mesma coisa, nos olhos. Neste caso a análise da cor e outras características da íris permitiriam identificar doenças em órgãos específicos. Para isso os iridologistas usam mapas das íris, divididas como queijinhos do trivial persuit, que correspondem à vagina, aos rins, à “sexualidade mental”, ao esófago, etc. Tudo isto é fantasticamente divertido, mas penso que não é necessário perder muito tempo a explicar que não tem qualquer fundamento científico. A ciência baseia-se em observações ou experiências, descritas de um modo transparente, de modo a que possam ser confirmadas ou refutadas por outros grupos de investigação. Se as terapias alternativas conseguissem demonstrar cientificamente a sua eficácia e segurança, nomeadamente através de ensaios clínicos bem feitos, não seriam alternativas.
Este é apenas o mais recente episódio de uma saga legislativa em curso, que teve outro desenvolvimento importante em Outubro de 2014, com a publicação de um outro ramalhete de portarias, que regulam o acesso às profissões das terapias alternativas. Estas, em nada protegem os doentes ou responsabilizam os praticantes, servindo apenas para que a Administração Central do Sistema de Saúde seja obrigada a emitir cédulas profissionais, que os terapeutas podem colar nas paredes dos consultórios, induzindo erradamente no público a ideia de que estas práticas têm um fundamento científico equivalente ao da medicina convencional, o que pura e simplesmente não é verdade. A linguagem nelas usada é constrangedora, abundam expressões como “concepção holística, energética e dialética do ser humano”, “desarmonias energéticas”, “rede de meridianos”, que nada significam e são o equivalente a legislar sobre poderes dos Pokemóns.
Vários países, como a Austrália e o Reino Unido, que cedo deram passos no sentido de adoptar as terapias alternativas, ensaiam agora recuos, em face de estudos que demonstram a sua falta de eficácia e de segurança, nomeadamente no que diz respeito à homeopatia, por exemplo. Que sentido faz convidar as universidade portuguesas, com graves problemas de financiamento, a venderem licenciaturas em banha da cobra? A comunidade científica e educativa deveria recusar esse papel e deixar as pseudociências remetidas aos seus guetos de incenso e cítaras.
David Marçal
Bioquímico
"Estamos a viver uma guerra mundial"
De uma entrevista muito interessante de José Riço Direitinho a Rafael Chirbes, escritor espanhol, autor de um livro recente - Na margem - sobre a "crise" europeia, que também é mundial.
«... vivem-se tempos estranhos: a situação actual faz com que que todas as revoluções mais ou menos proletárias dos últimos dois séculos pareçam nunca ter chegado a acontecer. As recentes leis laborais, a austeridade com cortes na saúde, na educação e nos apoios sociais, e a transferência desses dinheiros para um sistema bancário corrupto são para ele o perfeito exemplo. “A diferença é que antes se conhecia o inimigo e lutava-se contra ele fazendo barricadas nas ruas; actualmente não conhecemos o sujeito histórico do nosso tempo contra quem lutar. Não sabemos como combater. No século XIX faziam-se trincheiras, mas agora não conseguimos identificar o rosto do inimigo. Estamos a viver uma guerra mundial, e já faz algum tempo."»
«... refere ainda a crescente intervenção do Estado na vida privada, o controlo sobre todos os aspectos mundanos, e a tipificação de novos crimes, e tudo isto revestido da capa da protecção aos cidadãos. “Criou-se um ambiente de suspeita sobre todos nós. Como com a pornografia, por exemplo, que está permitida na Internet. Mas de repente a polícia pode entrar em nossa casa e isso funciona como agravante de qualquer coisa de que sejamos acusados, não importa o quê. Deus nos livre dos que nos querem proteger.”».
«... vivem-se tempos estranhos: a situação actual faz com que que todas as revoluções mais ou menos proletárias dos últimos dois séculos pareçam nunca ter chegado a acontecer. As recentes leis laborais, a austeridade com cortes na saúde, na educação e nos apoios sociais, e a transferência desses dinheiros para um sistema bancário corrupto são para ele o perfeito exemplo. “A diferença é que antes se conhecia o inimigo e lutava-se contra ele fazendo barricadas nas ruas; actualmente não conhecemos o sujeito histórico do nosso tempo contra quem lutar. Não sabemos como combater. No século XIX faziam-se trincheiras, mas agora não conseguimos identificar o rosto do inimigo. Estamos a viver uma guerra mundial, e já faz algum tempo."»«... refere ainda a crescente intervenção do Estado na vida privada, o controlo sobre todos os aspectos mundanos, e a tipificação de novos crimes, e tudo isto revestido da capa da protecção aos cidadãos. “Criou-se um ambiente de suspeita sobre todos nós. Como com a pornografia, por exemplo, que está permitida na Internet. Mas de repente a polícia pode entrar em nossa casa e isso funciona como agravante de qualquer coisa de que sejamos acusados, não importa o quê. Deus nos livre dos que nos querem proteger.”».
A COR DOS MINERAIS
Texto do Professor Galopim de Carvalho.
A impressão de cor que nos é dada por um qualquer corpo, no caso vertente, um mineral, é consequência da absorção das radiações de determinados comprimentos de onda do espectro da luz branca que incide sobre ele. Por exemplo, o realgar (sulfureto de arsénio) e o rubi (óxido de alumínio) são vermelhos vivos porque absorvem as radiações com comprimentos de onda 625 a 740 nm (nanómetros).
A autunite e o enxofre são amarelos porque absorvem a gama compreendida entre 565 e 590 nm, a azurite (carbonato de cobre) e a safira (óxido de alumínio) são azuis porque retêm as radiações com 440 a 485 nm.
O quartzo leitoso e o sal-gema são brancos quando não absorvem nenhuma das ditas radiações.
A grafite (carbono nativo) e a pirolusite (dióxido de manganês) são negros porque retêm a quase totalidade das mesmas...
A cor depende de vários factores, entre os quais se destaca a composição química, como é o amarelo no enxofre, o verde e o azul nos minerais com cobre, respectivamente, na malaquite e na azurite, ou o vermelho nos com ferro, como é o caso da hematite.
Depende também da estrutura cristalina que explica a diferença de cor e a permeabilidade à luz dos dois minerais de carbono, o diamante (hialino) e a grafite (opaca e preta).
Depende ainda da presença de de “impurezas”, termo utilizado para referir particular de ínfima dimensão de outros minerais incluídas no seu seio como são os casos do óxido e do hidróxido de ferro, de ferro no interior do quartzo ou do feldspato, corando-os, respectivamente de vermelho e de amarelo.
Consideram-se, ainda, impurezas certos elementos químicos presentes nas redes cristalinas de alguns minerai, em quantidades reduzidíssimas (não figurados na respectiva fórmula química). É o caso do crómio incluído na rede do berilo (silicato de alumínio e berílio),responsável pela cor verde da variedade gema bem conhecida pelo nome de esmeralda.
O mesmo elemento químico é o responsável pela cor vermelha do rubi, ou seja, a variedade gema do corindo (óxido de alumínio). Na safira, uma outra variedade gema do corindo, a bela cor azul é devida à presença de ferro e titânio.
Outros factores determinantes da cor dos minerais, explicados em domínios muito especializados da física, ultrapassam a nossa preparação, sendo suficiente saber que existem.
A impressão de cor que nos é dada por um qualquer corpo, no caso vertente, um mineral, é consequência da absorção das radiações de determinados comprimentos de onda do espectro da luz branca que incide sobre ele. Por exemplo, o realgar (sulfureto de arsénio) e o rubi (óxido de alumínio) são vermelhos vivos porque absorvem as radiações com comprimentos de onda 625 a 740 nm (nanómetros).
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| Enxofre |
O quartzo leitoso e o sal-gema são brancos quando não absorvem nenhuma das ditas radiações.
A grafite (carbono nativo) e a pirolusite (dióxido de manganês) são negros porque retêm a quase totalidade das mesmas...
A cor depende de vários factores, entre os quais se destaca a composição química, como é o amarelo no enxofre, o verde e o azul nos minerais com cobre, respectivamente, na malaquite e na azurite, ou o vermelho nos com ferro, como é o caso da hematite.
Depende também da estrutura cristalina que explica a diferença de cor e a permeabilidade à luz dos dois minerais de carbono, o diamante (hialino) e a grafite (opaca e preta).
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| Esmeralda (variedade gema de berilo) |
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| Safira (variedade gema de corindo) |
Consideram-se, ainda, impurezas certos elementos químicos presentes nas redes cristalinas de alguns minerai, em quantidades reduzidíssimas (não figurados na respectiva fórmula química). É o caso do crómio incluído na rede do berilo (silicato de alumínio e berílio),responsável pela cor verde da variedade gema bem conhecida pelo nome de esmeralda.
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| Rubi (variedade gema de corindo) |
O mesmo elemento químico é o responsável pela cor vermelha do rubi, ou seja, a variedade gema do corindo (óxido de alumínio). Na safira, uma outra variedade gema do corindo, a bela cor azul é devida à presença de ferro e titânio.
Outros factores determinantes da cor dos minerais, explicados em domínios muito especializados da física, ultrapassam a nossa preparação, sendo suficiente saber que existem.
A. Galopim de Carvalho
A NOVA TRAGÉDIA GREGA
Texto do Professor Galopim de Carvalho.
Nos dias difíceis e de grande incerteza que estamos a viver, entendo ser meu dever e meu direito de cidadania intervir mais activa e publicamente no debate político a que se assiste no nosso país e na Europa.
Como escreveu há dias Bernardina Sebastião, na sua página do FB, estamos a assistir em Bruxelas ao recuo civilizacional da Europa e é, precisamente, este sentimento que me invade. Vindo de diversos media, através da palavra falada e escrita de analistas que muito estimo, este recuo afigura-se-me como um prenúncio de mais uma tragédia grega que, desta vez, não deixará de irradiar consequências indesejáveis.
Para Ésquilo (524-455 a. C.), considerado o pai da tragédia grega, há cerca de 25 séculos, Prometeu era um dos seus grandes heróis que lutavam contra os caprichos dos deuses e dos poderosos. Prometeus são hoje todos os gregos que lutam contra a indignidade a que estão a ser sujeitos.
Na capital dos belgas, o poder do dinheiro (maioritariamente representado por governantes e tecnocratas dos países ricos e pelos que, não o sendo, gostavam de o ser) tem vindo a humilhar despudoradamente o povo grego.
O berço da civilização ocidental e da democracia, vítima da má governação e da corrupção de décadas, corre sério risco de sucumbir face à vertigem insaciável do capitalismo.
Com o ainda muito provável afastamento da Grécia, como lembrou Viriato Soromenho Marques, no DN de 29.06.2015, «os que ficarem dentro do muro de uma "Europa alemã", com uma prosperidade cada vez mais aparente e efémera, talvez contemplem o espetáculo de desespero, sofrimento e grandeza de um povo que rejeitou a gamela para recuperar o direito à liberdade».
Assim como Prometeu, o povo grego está hoje agrilhoado.
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| Prometeu agrilhoado, pintura em cerâmica grega, estilo clássico (séc. V e IV a. C.) |
Nos dias difíceis e de grande incerteza que estamos a viver, entendo ser meu dever e meu direito de cidadania intervir mais activa e publicamente no debate político a que se assiste no nosso país e na Europa.
Como escreveu há dias Bernardina Sebastião, na sua página do FB, estamos a assistir em Bruxelas ao recuo civilizacional da Europa e é, precisamente, este sentimento que me invade. Vindo de diversos media, através da palavra falada e escrita de analistas que muito estimo, este recuo afigura-se-me como um prenúncio de mais uma tragédia grega que, desta vez, não deixará de irradiar consequências indesejáveis.
Para Ésquilo (524-455 a. C.), considerado o pai da tragédia grega, há cerca de 25 séculos, Prometeu era um dos seus grandes heróis que lutavam contra os caprichos dos deuses e dos poderosos. Prometeus são hoje todos os gregos que lutam contra a indignidade a que estão a ser sujeitos.
Na capital dos belgas, o poder do dinheiro (maioritariamente representado por governantes e tecnocratas dos países ricos e pelos que, não o sendo, gostavam de o ser) tem vindo a humilhar despudoradamente o povo grego.
O berço da civilização ocidental e da democracia, vítima da má governação e da corrupção de décadas, corre sério risco de sucumbir face à vertigem insaciável do capitalismo.
Com o ainda muito provável afastamento da Grécia, como lembrou Viriato Soromenho Marques, no DN de 29.06.2015, «os que ficarem dentro do muro de uma "Europa alemã", com uma prosperidade cada vez mais aparente e efémera, talvez contemplem o espetáculo de desespero, sofrimento e grandeza de um povo que rejeitou a gamela para recuperar o direito à liberdade».
Assim como Prometeu, o povo grego está hoje agrilhoado.
A. Galopim de Carvalho
quinta-feira, 16 de julho de 2015
UMA CAMPANHA (NADA) ALEGRE PARA UNIVERSITAR OS POLITÉCNICOS
“A história é émula
do tempo, repositório de factos, testemunha do passado, exemplo do presente,
advertência do futuro” (Miguel Cervantes, 1547-1616).
Longos anos porfiei
na procura da letra de uma lengalenga da minha meninice (recordada por António
José Saraiva como a “lógica do macaco”) que se me negava na neblina da memória.
Nela, dedilhando uma guitarra, um símio trauteava: “Do meu rabo fiz navalha / Da navalha fiz camisa /Da camisa fiz
farinha/Da farinha fiz menina /Da menina fiz viola ”.
Algo de semelhante se
passa hoje com o ensino politécnico: De um curso médio foi feito um curso de
curta duração / De um curso de curta duração foi feito um bacharelato / De um
bacharelato foi feito uma licenciatura / De uma licenciatura foi feito um mestrado.
Escreveu André
Berdiaevi: “A liberdade é, antes de tudo, o direito à desigualdade”. Não deve,
consequentemente, Portugal continuar a assistir, em passividade bovina, a uma
campanha dos politécnicos de Coimbra, Lisboa e Porto (desvinculados, em
Fevereiro deste ano, do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores
Politécnicos) que ponha em risco um sistema dual de ensino superior por doxomania
dos seus dirigentes que, em vez de
dignificarem o estatuto do ensino politécnico que representam, buscam insistentemente
veredas esconsas que o conduzam aos claustros universitários.
Sobre esta
controversa temática, que se reveste
ainda hoje de plena actualidade , escrevi: “O
Professor Adriano Moreira, na sua brilhante conferência, subordinada ao tema
“Bolonha e as Profissões Liberais”, criticou a orientação de universitar os
politécnicos ou politécnizar as universidades, consagrando a defesa do princípio da ‘identidade separada
e da igualdade de dignidade de ambos sistemas de ensino superior’’”. E
acrescentou: “Parece muito evidente ser um erro entender a transformação
histórica de institutos politécnicos em universidades, como se de uma promoção
se tratasse” (“Diário de Coimbra", 01/12/ 2004).
Quase passado um ano,
em contramão, Rui Antunes, ao tempo, professor-adjunto da Escola Superior de
Educação de Coimbra e ex-vice presidente do Instituto Poitécnico de Coimbra,
com a força institucional advinda desses
seus cargos, em artigo de opinião, vestiu
a beca justiceira de defensor da fazenda pública: “A Universidade faz o mesmo que o Politécnico, embora este último com
bem menores meios financeiros” (“Diário de Coimbra”, 10/11/2005).
Proclama ele, ainda, urbi et orbi, “doutrina” que envolve a milenária Universidade de
Coimbra: “O País e a cidade de Coimbra, só teriam a ganhar se o Instituto
Politécnico de Coimbra continuasse a fazer o mesmo que tem feito até aqui, com
o nome de Universidade Nova de Coimbra”.
Ou seja, em época de
contenção orçamental ter, como solução de truz para Portugal e margens
do Mondego, uma política económica de se gastar mais para se fazer o mesmo?
Qualquer economista, ou mesmo simples dona de casa, lhe dirão tratar-se de um
esbanjamento, ainda mesmo em tempo de vacas gordas. Quanto mais em tempo de
vaca magras!
Persistentemente, Rui
Antunes volta à carga com a proposta alternativa de crisma das instituições de
ensino politécnico para o nome pomposo de “Universidade de Ciências Aplicadas” (“Diário
as Beiras”, 05/08/2013).
Segundo a “Agência
Lusa”, no dia 10 deste mês de Julho, sem quebranto de vontade, Rui Antunes, em
cerimónia comemorativa do “Dia do Instituto Politécnico de Coimbra”, realizada
no auditório da Escola Superior Agrária desta mesma cidade, desunha-se em
ataques ao actual sistema binário de ensino superior, com argumentos de que se
fez cabeça de cartaz. Passo a reproduzi-los:
1) Hoje as
universidades também já têm os cursos que começaram por ser “exclusivos’ do
politécnico”.
2) A carreira docente
nuns e noutros estabelecimentos de ensino [universitário e politécnico] tem “os
mesmos níveis de exigência”.
3) “Em casos como
Coimbra seria ‘perfeitamente possível’ ter a actual universidade, com vocação
internacional, e a universidade resultante do IPC, ‘com uma vocação mais
regional’”.
4) “Os suportes do
sistema [binário] caíram e, portanto, não faz sentido manter essa dualidade”.
E se para Ortega y
Gasset, “há tantas realidades quantos os
ponto de vista, criando o ponto de vista o panorama”, vejo-me forçado, pelas
circunstâncias, porque, ainda segundo aquele filósofo espanhol, “o
homem é o homem e as suas circunstâncias”, a contra-argumentar, ponto por ponto, os princípios supracitados.
Assim:
Ponto1: Passou-se
precisamente o contrário. Em Coimbra, Porto e Lisboa, onde havia universidades
de grande prestígio e com grande oferta de cursos, foram criados, de supetão,
estabelecimentos de ensino politécnico em desrespeito pelo princípio de serem
implantados em regiões carenciadas de ensino superior. Como se a melhoria da
qualidade da docência dependesse da razão inversa da qualidade da formação dos
professores, exemplifico com a formação de professores através de escolas
superiores de educação (em substituição das antigas escolas do magistério
primário) que passaram a ministrar cursos de professores do 2.º ciclo do ensino básico na variante de matemática
Reportando-me ao caso da formação universitária anterior destes professores,
apenas para a docência da matemática, tinha ela 5 anos, enquanto nos
politécnicos passou a ser ministrada em 4 anos para o ensino, simultâneo, das disciplinas de Matemática e Ciências da Natureza.
Ponto 2: Atente-se no
testemunho de Cristina, segundo ela própria “setenta
por cento marxista”, estudante da Faculdade de Ciências de Coimbra, na
Assembleia Magna da Associação Académica
de Coimbra: “Nós [os universitários] suamos mais e trabalhamos mais do que os do
Politécnico” (“Público”, 01/11/1996).
Ponto 3: Como quem mata um coelho de uma só
cajadada, traça Rui Antunes, numa espécie de aula magistral, orientações de natureza “internacional” e “regional” para uma possível duplicação da
oferta do ensino universitário na Lusa Atenas.
Ponto 4: Tudo leva a
crer que em ditames do coração, por o coração ter razões que a razão desconhece
(Pascal), Rui Antunes faz, finalmente, o
anúncio urbi et orbi, de que os
suportes do sistema binário “caíram”, quando essa anunciada queda é desmentida oficialmente, em título de jornal de página inteira : “MEC recusa acabar com distinção entre universidades
e politécnicos” (“Público”, 08/11/2015).
Entretanto, a Fenprof,
também ela, na pretensão de extermínio do
sistema binário de ensino superior, preparava-se para apresentar para discussão
pública uma proposta nesse sentido - dirigida aos reitores das universidades e
aos presidentes dos institutos politécnicos
- que abortou à nascença.
Em contraposição, Joaquim
Mourato, presidente do Conselho
Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (de que se desvincularam, em Fevereiro
passado, os Politécnicos de Coimbra, Porto e Lisboa), declara que a estratégia do órgão a que
preside “tem sido no sentido de
aprofundamento da diferenciação de missões”.
Igualmente, com o apoio
do movimento associativo estudantil, navega
a todo o pano em águas agitadas de
discordância com o fim do sistema binário de ensino superior, o presidente de
Reitores das Universidades Portuguesas, António Cunha, que passo a citar ipsis verbis: “Temos sempre
defendido um aprofundamento do sistema
binário e uma maior diferenciação entre os sistemas” (“Público”,
08/07/2015).
E se a “história é advertência do futuro”, este
meu texto encontra razão no direito de cidadania que julgo assistir-me ao
contraditório, agora e em muitas outras ocasiões, como, por exemplo, nesta
transcrição que faço de uma notícia, a página inteira, da autoria do jornalista Carlos Picassinos, sobre a contestação dos
licenciados pelas escolas superiores de educação poderem vir a leccionar no 3.º ciclo do ensino básico,
ensino até então a cargo de licenciados universitários. Noticiou ele: “Inédita, em assembleias magnas, foi a intervenção de um sindicalista. Rui
Baptista, presidente da assembleia geral do Sindicato de Professores
Licenciados, solidarizou-se com as causas dos universitários” (“Público”,
01/11/1996).
TV GLOBO VISITA COIMBRA PARA FALAR DO ANO DA LUZ
Ver reportagem que fiz coma TV Globo no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, que passou há pouco no Jornal Nacional daquela estação brasileira: aqui.
quarta-feira, 15 de julho de 2015
CIÊNCIA VIVA NAS FÉRIAS COM O RÓMULO
Começam já
no próximo dia 15 de Julho as actividades estivais de divulgação científica para
toda a família, no âmbito do Ciência Viva no Verão em Rede, que decorrerão até
15 de Setembro. Este é o programa de divulgação científica nacional mais
aguardado da época estival, organizado desde 1996 pela Agência Nacional para a
Cultura Científica e Tecnológica – Ciência Viva
(http://www.cienciaviva.pt/home/).
O programa deste ano é pela primeira vez promovido pela Rede Nacional de
Centros Ciência Viva, constituída por 20 centros localizados um pouco por todo
o país (http://www.cienciaviva.pt/centroscv/rede/), em parceria com a Ciência
Viva, promovendo e consolidando o papel da Rede na promoção da cultura
científica na sociedade portuguesa, potenciado pela proximidade às populações e
às organizações locais mais dinâmicas.
No programa
deste ano - que pode ser consultado na página http://www.cienciaviva.pt/veraocv/2015/ - vão realizar-se mais de 1100
acções gratuitas em todo o país, promovidas por
mais de 100 entidades em colaboração com os Centros Ciência Viva, abrangendo
diversas áreas do conhecimento. Já se inscreveram mais de
10 mil pessoas para participar nas actividades que decorrerão, como já se
disse, entre 15 de Julho e 15 de Setembro.
O
Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade
de Coimbra coordena a realização em Coimbra de 26 acções de divulgação
científica em que serão abordadas diversas áreas do conhecimento
científico (física, química, biologia, matemática) em colaboração
com diversas entidades parceiras.
Para
a concretização dessas actividades, o Rómulo Centro Ciência Viva da
Universidade de Coimbra tem como entidades parceiras o emblemático Café
de Santa Cruz, O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, os
Departamentos
de Química e de Física da Universidade de Coimbra e o SoftCiências.
A
apresentação ao público e aos jornalistas do programa das actividades
coordenadas pelo Rómulo Centro Ciência Viva de Coimbra decorreu no Café de
Santa Cruz, dia 15 de Julho.
Participe e leve a sua família ao encontro do conhecimento e constate
como a ciência, que nos permite compreender o universo em que existimos, pode
ser divertida. Não perca esta oportunidade para saber mais que lhe é oferecida
pelo Ciência Viva no Verão. Consulte o programa e
inscreva-se.
QUARENTA ANOS DE CIÊNCIA EM PORTUGAL
Meu texto, sem as figuras, no livro "Quarenta anos de políticas de ciência e de ensino superior em Portugal" que acaba de sair na Almedina (org. M.L. Rodrigues e M. Heitor)
A revolução
de 25 de Abril de 1974 permitiu desenvolver em extraordinária medida a ciência
em Portugal [1-3]. Tal aconteceu sobretudo após a entrada de
Portugal na União Europeia (à época Comunidade Económica Europeia) em 1 de
Janeiro de 1986, uma vez que ela permitiu que consideráveis fundos europeus
fossem usados para apoiar bolseiros, projectos, unidades de investigação e
infra-estruturas
de ciência entre nós. Portugal era, nesta área, um país muito atrasado e deu,
nestes 40 anos, um passo de gigante para se aproximar da média europeia. Não
alcançou ainda essa posição, mas o lugar actual já não nos envergonha como o
fazia antes. Pode falar-se de um Big Bang da ciência, de uma verdadeira
explosão em todas as áreas do conhecimento, num processo de crescimento que
praticamente não encontra paralelo na Europa
Não há
revoluções sem revolucionários. O maior responsável por esse processo foi o
físico José Mariano Gago [4-7], que, entre 1985 a 1989, dirigiu a Junta
Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), organismo que tinha
sucedido ao Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC). Foi ele que
nessa qualidade organizou em 1987 as primeiras Jornadas de Ciência e lançou o
Programa Mobilizador de Ciência e Tecnologia (1986-1989), que haveria de dar
frutos. Mas a acção de Mariano Gago não ficou por aqui: foi ele que, num
momento de viragem política, assumiu em 2005 a pasta de ministro do recém-criado Ministério
da Ciência e da Tecnologia no quadro do primeiro governo de António Guterres. Em
1996 o ministro criou a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), que
passou a desempenhar as funções antes atribuídas antes à JNICT. Mariano Gago
passou de gestor de ciência a político de ciência, passando a representar a
ciência à mesa do Conselho de Ministros. Ele acabou por ser um dos ministros
mais longevos dos nossos governos democráticos: não só continuou responsável
pela mesma pasta no segundo governo Guterres, de 1999 e 2002, onde teve lugar
relevante na formulação da chamada Agenda
de Lisboa, como em 2005 foi nomeado ministro da Ciência,
Tecnologia e Ensino Superior no primeiro governo de José Sócrates, cargo em que foi
renomeado no segundo governo de Sócrates, iniciado em 2009, que caiu em 2011
para dar lugar a eleições antecipadas e a um governo de outra cor política,
cuja acção tem sido dominada pela ideia fixa e quase única de executar o “reajustamento”
imposto pela troika.
O sistema nacional de ciência e tecnologia
A criação do
Ministério da Ciência e da Tecnologia foi o marco para a ciência nacional,
talvez o maior do ponto de vista político nesta área nestes 40 anos. A ciência é,
por excelência, um empreendimento internacional e a ciência portuguesa cresceu
abrindo-se: expandiu-se através de um forte e inédito processo de
internacionalização. Saíram do país para formação ou complemento de formação (doutoramento
ou pós-doutoramento) muitos jovens cientistas em todas as áreas e entraram no
país em número significativo investigadores estrangeiros. Mas a transposição de
fronteiras não foi apenas individual, foi sobretudo colectiva. O país passou a
fazer parte de vários organismos científicos internacionais a começar pela
Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN), em 1985, e continuando em
2000 com a Agência Espacial Europeia (ESA) e o Observatório
Europeu do Sul (ESO). Mais tarde, em 2006, foi iniciado um programa de
colaboração de Portugal com algumas das melhores universidades norte-americanas,
como Harvard, MIT, Texas em Austin, e Carnegie-Mellon. Portugal beneficiou
também de programas competitivos de ciência da União Europeia abertos a todos
os países membros, embora aí até agora a contribuição portuguesa tenha sido
maior do que aquilo que recebeu. Em particular, alguns cientistas portugueses
beneficiaram de bolsas do European
Research Council.
Com o
impulso da internacionalização e com a ajuda de financiamento, foram alargadas
várias unidades de ciência já existentes, embora em geral incipientes, e
fundadas muitas outras, expandindo e consolidando o sistema científico-tecnológico
nacional. Para atribuição racional de financiamento e para a emulação geral do
sistema foi estabelecida uma avaliação regular da actividade de investigação, um
processo que foi efectuado por comités de peritos independentes, formados maioritariamente
por cientistas estrangeiros de reconhecida competência nas áreas que analisavam.
Aumentou-se o número de áreas cultivadas entre nós, combatendo assimetrias
existentes no cultivo dos ramos do saber: em particular, as áreas das ciências
sociais e humanas conheceram forte crescimento, que resultou em boa medida da
internacionalização. Nas infraestruturas, construíram-se edifícios destinados
em exclusivo à ciência e instalaram-se neles e noutros equipamentos, alguns dos
quais de grande porte, tendo sido planeado o funcionamento em rede.
Perante a
dificuldade de as universidades nacionais absorverem rapidamente e de modo
adequado os importantes recursos postos à disposição para o crescimento da
ciência (em larga medida como foi dito, vindos da União Europeia) surgiram novas
formas organizativas, como associações privadas sem fins lucrativos. Formadas
por muitos docentes universitários e também por bolseiros e investigadores
contratados, elas passaram a funcionar em articulação maior ou menor com as
universidades (por vezes dentro e noutras vezes ao lado), mas gozando de maior
autonomia. Algumas dessas instituições receberam o selo ministerial de
Laboratórios Associados, uma designação que se fez por analogia com os Laboratórios do Estado,
que já vinham muito de trás (como o Laboratório Nacional de Engenharia Civil –
LNEC, criado com outro nome em 1946). A ideia era a de concentrar em instituições
de maior dimensão actividades de investigação, que não só criassem saber como
prestassem serviços ao Estado. Os primeiros laboratórios associados foram em
2000 o Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra
(CNC), o Instituto de
Biologia Molecular e Celular (IBMC) do Porto, o Instituto de
Patologia e de Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), e o Instituto de Tecnologia Química e
Biológica (ITQB), em
Oeiras. Em 2001 juntaram-se-lhes o Instituto de Medicina
Molecular (IMM), em Lisboa, o Laboratório de Instrumentação e Partículas (LIP),
em Lisboa e Coimbra, a Rede de Química
e Tecnologia (REQUIMTE), no Porto e em Lisboa, o Instituto de
Telecomunicações (IT), em Lisboa, Porto e Coimbra, com ramos noutros sítios do
país, o Laboratório de Robótica e
Sistemas em Engenharia e Ciência (LARSyS), em Lisboa e no Funchal. o
Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear
(IPFN), em Lisboa, e o Instituto de Ciências Sociais (ICS),
também em Lisboa. Nos
anos seguintes foram criados outros 15 laboratórios, totalizando actualmente
26.
Estas instituições
conheceram um extraordinário dinamismo em contraste com a maioria dos Laboratórios
do Estado, sob tutelas de outros ministérios: apesar de sucessivas tentativas
de reorganização, não se desenvolveram na medida das expectativas e das
necessidades. Os Laboratórios de Estado são nove: o Instituto de Investigação Científica
Tropical (IICT), em Lishoa, o Instituto Hidrográfico (IH), em Lisboa,
o Instituto Nacional de Saúde Ricardo
Jorge (INSA), sedado em Lisboa com centros no Porto e em Águas de Moura, Instituto Tecnológico e Nuclear (ITN),
em Lisboa (hoje integrado na Universidade de Lisboa), o Laboratório Nacional de Engenharia
Civil (LNEC), em Lisboa, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), sedeado
em Lisboa, o Laboratório
Nacional de Recursos Biológicos (INRB), em Lisboa, o Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG),
sedeado em Lisboa com extensões em
S. Mamede de Infesta e Beja, e o Instituto de Medicina Legal (IML), sedeado
em Coimbra com delegações em Lisboa e Porto. Apesar de alguns estarem sedeados
fora de Lisboa, a situação da ciência portuguesa é muito assimétrica do ponto
de vista geográfica, com uma centralização em Lisboa que muitos julgam
excessiva.
No sector privado
da ciência, há a salientar o papel das fundações. Além do Instituto Gulbenkian
de Ciência (IGC), em Lisboa, actualmente bastante forte na área da biologia,
que remonta em 1961, surgiu em 2010 um centro de investigação na área da biomedicina
– Centro de Investigação para o Desconhecido (CID) - na dependência da Fundação
Champalimaud, fundada em 2004.
A economia
portuguesa conheceu várias vicissitudes nos 40 anos de vida democrática. Acabou
por crescer após o solavanco associado ao período revolucionário de 1974. Tendo
havido processos de modernização, ajudado em boa parte por fundos dos vários
programas-quadro europeus, o certo é que a primeira década do novo século foi
um tempo de paragem do crescimento económico, com estagnação do PIB, que
culminou no pedido de ajuda externo apresentado à troika em 2011. O facto de várias empresas baseadas no conhecimento
terem conhecido evidente sucesso não invalida a realidade de o tecido económico
português, baseado em pequenas e médias empresas (PME), não ter forte ligação
com a ciência. No entanto, o governo efectuou uma tentativa de apurar
estatisticamente quais eram as actividades de investigação e desenvolvimento
realizadas em empresas.
Com o prémio de um incentivo fiscal, muitas empresas
responderam à chamada, tendo aumentado significativamente a participação das
empresas no sistema nacional de ciência. No ano de 2007 o sector privado chegou
mesmo a assegurar mais de metade do financiamento total (0,6% em 1,1% do PIB), embora
não deva ser esquecido, para além da margem de erro dos dados estatísticos, que
muitas empresas com práticas de inovação receberam ajudas públicas. A COTEC –
Portugal, Associação Empresarial para a Inovação, fundada em 2003, reúne as
principais empresas portuguesas com actividade de inovação.
Investimento
O notável
crescimento da ciência e tecnologia só pôde ser realizado através de um reforço
nítido do investimento. Os números oficiais estão disponíveis na PORDATA [8],
base de dados sobre Portugal da responsabilidade da Fundação
Francisco Manuel dos Santos (Fig. 1). O investimento na ciência e tecnologia
aumentou, em valores absolutos, de 32,667 milhares de euros, dos quais 10.193 do
lado das empresas, em 1982 (o primeiro ano da série da PORDATA
– ano que corresponde à normalização democrática, com a revisão constitucional
e com o fim do Conselho da Revolução) para 2.321.600 milhares de euros, dos
quais 1.104.000 do lado das empresas, em 2013, tendo atingido um máximo de
2.771.600 milhares de euros em 2009, dos quais 1.311.070 das empresas. Se
referirmos esses valores ao Produto Interno Bruto (PIB) o investimento em
ciência e tecnologia passou de 0,3% em 1982, dos quais 0,1 do lado das empresas.
para 1,4%, dos quais 0,7% das empresas, em 1013, tendo atingido o máximo em
2009 com 1,6%, dos quais 0,9% das empresas. Para comparação
internacional, a média da União Europeia a 28 países em 2013 era 2,0% do PIB em
2012 (estando a Suécia está no topo com 3,2%, logo seguida da Dinamarca e da
Alemanha). Por alturas do 25 de Abril o investimento em ciência não deveria
exceder 0,1% do PIB, pelo que o aumento em 40 anos foi de 14 vezes! Não foram
muitos os crescimentos que atingiram esta ordem de magnitude.
Índicadores de produtividade
Dois indicadores inequívocos sobre os resultados do sucesso desse
investimento em ciência são o número de novos doutorados formados em cada ano e
o número de novas publicações científicas surgidas também em cada ano. Basta,
de novo, consultar a PORDATA.
Foi enorme o
incremento do número de doutoramentos (Fig. 2) feitos no país e fora dele (cada
vez mais no país e cada vez menos fora dele e reconhecidos depois). O número de
doutoramentos, que era em 1974 de 87 (6 realizados em
Portugal e 51 no estrangeiro) em 2013 passou a ser de 2668 (463 em Portugal em
Portugal e 205 no estrangeiro). Em 1974, a maior parte eram de sexo masculino ao
passo que actualmente são de sexo feminino. Se reportarmos esses números ao
total de habitantes, o número de doutoramentos por cem mil habitantes passou
de 1,0 em 1974 para 25,5 em 2013, um aumento de 25,5 vezes, muito maior que o
aumento no investimento. Os actuais números são ainda insatisfatórios, se
almejarmos metas europeias: em 2013,
a Eslováquia tem 40,3, Alemanha 32,7 e a Irlanda 31,5
doutorados por cem mil habitantes.
Também aumentou de modo significativo o número
de artigos em publicações científicas, assim como impacto destas, que é medido
pelo número de citações (Fig. 3). O número de publicações
científicas, que era em 1974 de 368 em valor absoluto (3,9 papers por cem mil
habitantes) no ano de 1982, passou para 17665 (168 papers por cem mil
habitantes) em 2013, cerca de 40 vezes mais. Quer dizer, os resultados na
criação de conhecimento foram ainda superiores aos alcançados na formação de
pessoas. Apesar de ainda não termos atingido valores da média europeia de
produção científica, muito poucos índices subiram tanto em Portugal em tão
pouco tempo!
O problema
da ciência nas empresas
Apesar do crescimento
bem visível nas estatísticas do crescimento do investimento privado na ciência e
apesar do aparecimento de ligações cada vez maiores entre universidades e
empresas (o que se verifica, por exemplo, pela criação de incubadores de
empresas, como o Instituto Pedro Nunes em Coimbra), o certo é que, como foi
dito, não é ainda muito visível o impacto do crescimento da ciência na economia
[9-11]. O número de patentes cresceu, mas ficou ainda muito aquém de índices
com significado internacional. E o contributo para a economia de empresas
baseadas em tecnologia, não é ainda suficientemente visível. Um indicador da
falta de ligação entre sistema académico e empresas consiste é ainda o número
muito baixo de patentes reconhecidas (cresceu, é facto, mas de modo bastante
insuficiente na compita internacional). Outro indicador é o baixo número de
doutorados que são absorvidos pelas empresas: 3%). No entanto, um índice
económico que mostra uma perspectiva animadora é a balança tecnológica, um
índice que mede o equilíbrio entre saídas e entradas de serviços de ciência e
tecnologia, que tendo sido sistematicamente negativa passou a ficar mais ou
menos equilibrada a partir de 2007. .
A cultura científica
A cultura
científica, que é condição indispensável para a sustentação da ciência pela
sociedade, também alastrou de modo impressionante. A Ciência Viva – Agência
Nacional para Difusão da Cultura Científica e Tecnológica, instituição criada
em 1996, alargou o interesse pela divulgação científica, designadamente com a
criação e apoio a vários centros de ciência espalhados por todo o país, o maior
e mais relevante dos quais é o Pavilhão do Conhecimento, no Parque das Nações em Lisboa. Nesses
centros a ciência apareceu em actividades experimentais com um carácter lúdico.
Museus de Ciência também se desenvolveram associadas às Universidades de
Coimbra, Lisboa e Porto. A iniciativa privada ajudou: a editora Gradiva, com a
colecção Ciência Aberta iniciada por
Guilherme Valente no princípio dos anos 80, tem realizado um assinalável
trabalho de difusão científica e cultural através, num processo que de algum
modo emula a Biblioteca Cosmos de
Bento de Jesus Caraça nos anos 40. Os
media começaram a falar de Ciência como nunca tinham falado antes, a
começar pelos jornais de referência como o
Público e o Diário de Notícias, o
Expresso, o Sol e a Visão. Também a
rádio e a televisão, públicas e privadas, passaram a dar mais atenção à
ciência. E surgiu em 1993, a
meio do período considerado, o fenómeno da World
Wide Web, protocolo originado no CERN, e a divulgação da ciência assumiu
desde cedo forte presença no ciberespaço mundial e nacional.
O passado recente e preocupações quanto ao futuro
O governo de Pedro
Passos Coelho, que tomou posse em 2011, uniu a pasta da Educação com a da
Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, tendo o ministro Nuno Crato, por razões
que nunca explicou, dedicado pouca atenção às questões da ciência. A falta de
apoio político à ciência conduziu a uma ruptura na política de crescimento da
ciência. Com o pretexto do aperto da despesa pública imposta pela troika e esquecendo que o pequeno investimento
em ciência é semente de um futuro mais próspero para todos, Nuno Crato pouco
fez para contrariar a queda do investimento na ciência.
É certo que o
abrandamento no investimento já vinha de trás. Desde 2009 que se verificava uma
queda do investimento, mas ela tornou-se com o governo de Passos Coelho brutal:
a diminuição de 2010 a
2013 é de cerca de 436.000 milhares de euros, que foi quase o investimento
total em 1995, quando foi criado o Ministério da Ciência e da Tecnologia. A
queda ocorreu em todos os domínios de investimento: bolsas, projectos,
unidades. A inversão da FCT na concessão de bolsas individuais de doutoramento por
concurso nacional foi muito nítida no ano de 2014 (cerca de 40%), conduzindo a
um enorme protesto dos bolseiros e dos cientistas em geral. A FCT viu-se
obrigada a alargar o número de bolsas concedidas. Olhando para a PORDATA
verifica-se que o número de doutorados continuava em 2013 a subir em bom ritmo,
não acompanhando a queda do investimento público: mas isso deve-se ao financiamento
e nalguns casos endividamento das famílias, que continuam a acreditar nas
vantagens da formação avançada. Em breve será também aí visível o impacte da
queda recente das bolsas de doutoramento. Em 2013 a maior parte dos
doutoramentos (44%) ocorria em ciências sociais e humanidades, uma área que não
exige tanto investimento em meios materiais como outras.
Na PORDATA [8] pode
olhar-se para a evolução recente do número de publicações científicas. Das sete
áreas do conhecimento, só sobem de 2012 para 2013 as Ciências Naturais, as
Ciências Médicas e da Saúde (muito: cerca de 10%) e as Ciências Agrárias. Todas
as outras descem: Ciências Exactas, Ciências da Engenharia, Ciências Sociais e
Humanidades. Deste modo o total de publicações de autores nacionais sobe muito
pouco: abranda o crescimento e a continuar assim o abrandamento, em breve esse
índice dos resultados da ciência estará a descer, pela primeira vez desde 1974.
No ano de 2014 deu-se um
exercício de avaliação desastroso encomendado pela FCT à European Science Foundation, uma instituição sem suficiente experiência
e que estava em dificuldades organizativas [12]. Essa avaliação decorreu com várias
ilegalidades e anomalias, a começar logo por uma cláusula escondida no contrato
que mandava eliminar à partida metade das unidades do sistema científico.nacional
(um processo que foi designado por “poda”). Seguiu-se o incumprimento da lei,
ao prescindir das visitas de avaliação na primeira fase avaliativa que se
destinava a escolher a metade a liquidar. Os próprios regulamentos elaborados
pela FCT não foram cumpridos: os avaliadores nem eram em suficiente quantidade nem
tinham suficiente qualidade (o que se reflectiu na deficiência dos pareceres
emitidos em certas áreas). De resto, a FCT disponibilizou aos júris dados
bibliométricos errados. Finalmente, como cereja podre em cima de um bolo mal
cozinhado, a FCT atribui um financiamento às unidades sem correlação directa e
clara com a classificação atribuída. O principal critério não era afinal a
classificação obtida, mas sim aquilo que elas tinham pedido. Numerosos centros,
tanto na primeira fase eliminatória como na segunda fase, apresentaram recursos,
tendo, para além dos processos internos, entrado acções nos tribunais
administrativos e no Ministério Público. Das 322 unidades iniciais, só 178
passaram à segunda fase, tendo as outras ficado sem meios suficientes para
trabalharem. Das 178 que passaram, 123 recorreram apontando erros e injustiças.
Em Abril de 2015, perante a situação de caos na gestão da ciência nacional e
pouco antes de ser anunciada publicamente a sua situação de acumulação de
funções em Portugal e no estrangeiro, o Presidente da FCT demitiu-se.
A política do governo
para a ciência, se é que existe, está profundamente errada. Por um lado descontinuou
a aposta, que até aí tinha sido politicamente consensual, na formação de recursos
humanos e no emprego científico, uma decisão que tem levado à emigração de
numerosos jovens altamente qualificados que não encontram condições de trabalho
na sua terra natal. Os quadros das universidades e politécnicos não se
renovaram (há ainda debilidades na ligação entre o sistema de ciência e o
sistema de ensino superior) e as empresas não absorveram os numerosos doutorados.
Para se justificar, o governo passou a repetir o chavão da “excelência”,
afirmando em nome dessa ideia que tinha de haver um número reduzido de bolsas,
projectos e centros. Acontece porém que essa noção de “excelência” nunca foi
objectivada e não foi de resto credibilizada por uma avaliação competente. Não
se pode promover a excelência com uma avaliação que o não é. Por outro lado, não
faz sentido limitar a investigação do país, privilegiando disciplinas e locais.
Na prática verificou-se a afirmação de alguns grupos, como a área das ciências
da biomedicina, próxima de alguns responsáveis governamentais. Estranhamente, alguns
centros ligados a fundações privadas na Grande Lisboa (Fundação Gulbenkian e
Champalimaud) passaram a ser subsidiadas, desviando para o sector privado financiamentos
que antes eram dados ao sector público, nas universidades espalhadas pelo país.
Por outro lado, e em claro contraste com esse discurso da “excelência”, o governo
passou a falar da necessidade da investigação em ambiente empresarial, querendo
orientar os fundos comunitários do novo programa comunitário, o Portugal 2020, para esse sector. O certo
é que o governo pouco tem feito para resolver o problema da ligação da ciência
às empresas.
O governo diminuiu o
apoio à cultura científica. A única iniciativa nova, o programa “O Mundo na
Escola”, um conjunto de conferências escolares resultou num fiasco, pois tendo
começado com a Ciência foi interrompida a esperada continuação com a Literatura
e a Arte.
Precisa-se de uma nova
política de ciência e tecnologia, apostando nos recursos humanos qualificados,
que são afinal a nossa maior riqueza, retomando a convergência de Portugal com
a Europa.
Um
testemunho pessoal
Tendo vivido estes 40
anos de expansão da ciência em Portugal, seja-me permitido para terminar um
breve testemunho pessoal. Sendo caloiro da Universidade de Coimbra à data da
Revolução de 1974 e tendo terminado a minha licenciatura em Física cinco anos
depois, pude acompanhar de perto o extraordinário crescimento do sistema
científico-tecnológico nacional, tendo inegavelmente beneficiado dele. Apesar
de não existir quando terminei o meu curso ensino pós-graduado
institucionalizado, tive oportunidade de frequentar em 1978-1979 na
Universidade de Coimbra um curso de pós-graduação de física teórica, enquanto
me iniciava no ensino como assistente. Tendo sido convidado a fazer um doutoramento
na Alemanha, trabalhei na Universidade Goethe, em Frankfurt am Main, entre 1979
e 1982. No ano em que fiz o meu doutoramento só houve 130 doutorados portugueses,
a maior parte dos quais tal como eu obtidos no estrangeiro.
Regressado a Portugal
com 26 anos tive, como professor auxiliar e membro de um centro de investigação
em Física que beneficiava do apoio do INIC, a oportunidade de participar em
lutas pela manutenção e alargamento dos apoios desse instituto. Ainda foi do
INIC que recebi apoio para uma estada sabática na Universidade Tulane, em Nova Orleães , nos
Estados Unidos, em 1990 (não tive, por necessidade de assegurar serviço
docente, oportunidade de fazer pós-doutoramento, como hoje é relativamente
comum). Foi com júbilo que vi o aparecimento do Ministério da Ciência e da
Tecnologia, com a criação da FCT e da Ciência Viva. Em 1998 contribuí para a
criação do Centro de Física Computacional, na minha Universidade, em cujo
âmbito ajudei a criação de um Laboratório de Computação Avançada que tem
albergado os mais potentes supercomputadores nacionais (esse laboratório foi
inaugurado pelo ministro Mariano Gago em 1999).
Interessei-me desde cedo
pela difusão da cultura científica: Participei nos primeiros projectos do
Ciência Viva, com actividades de “Ciência a Brincar”, interessei-me pela
produção e experimentação de software educativo, e no ano de 2008 pude criar,
no quadro da rede de centros Ciência Viva, o Rómulo - Centro Ciência Viva da
Universidade de Coimbra, um moderno centro de recursos educativos. Fui
participando no esforço de difusão na ciência com livros (Física Divertida, saído na Gradiva em 1991 foi um best-seller), com artigos em jornais (Público, Sol, etc.) Um ano
marcante da ciência em Portugal foi 2005 - Ano Internacional da Física, quando
se celebrou o centenário dos principais trabalhos de Einstein. Ajudei como
consultor, a criação e desenvolvimento do Museu de Ciência da Universidade de
Coimbra, aberto ao público em 2006 e premiado internacionalmente.
Interessei-me pela
modernização das bibliotecas, ajudando a concretizar repositórios digitais na
Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. E interessei-me mais recentemente pela
análise da política de ciência. Primeiro como autor e depois como responsável
pela área do Conhecimento da Fundação Francisco Manuel dos Santos, tive
oportunidade de escrever dois livros sobre o sistema científico nacional (Ciência em Portugal, 2011 [1], e Ciência e Tecnologia em Portugal - Métricas
e impacto (1995-2011), 2015, com Armando Vieira [2]). A actividade empresarial
também me aliciou: ajudei a fundar em 2013 uma empresa – a Coimbra Genomics – instalada no Biocant, em Cantanhede, que visa
aproveitar as potencialidades que a moderna genómica coloca à disposição do
sistema de saúde.
Se muito foi feito,
sinto que há muito ainda a fazer
Bibliografia
[1] Carlos Fiolhais, Ciência em
Portugal, Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos: 2011.
[2] Armando Vieira e
Carlos Fiolhais, Ciência e Tecnologia em
Portugal - Métricas e impacto (1995-2011), Lisboa: Fundação Francisco
Manuel dos Santos, 2015 https://www.ffms.pt/estudo/1005/ciencia-e-tecnologia-em-portugal
[3] Análise SWAT do Sistema de Investigação e Inovação Português,
Lisboa: Fundação par a Ciência e Tecnologia, 2013.
[4] José Mariano Gago, Manifesto para a Ciência em Portugal,
Lisboa: Gradiva, 1990.
[5] José Mariano Gago, Ciência em Portugal, Comissariado para a Europália 91 – Portugal,
Lisboa: Imprensa Nacional. Casa da Moeda, 1991.
[6] O estado das
ciências em Portugal / coord. José Mariano Gago ; org. Comissariado para a
Europália 91-Portugal. 1.ª ed. Lisboa : D. Quixote, 1992.
[7] José Mariano Gago (ed.). The future of
science technology in Europe : setting the Lisbon agenda on track. Lisboa :
Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, 2007.
[8] PORDATA, base de
dados de Portugal da Fundação Francisco Manuel dos Santos, http://pordata.pt
[9] Manuel Mira Godinho,
Inovação em Portugal, Lisboa:
Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.
[10] Lino Fernandes, Portugal
2015: uma segunda oportunidade?, Lisboa: Gradiva, 2014.
[11] Augusto Mateus, 25 Anos de Portugal Europeu, Lisboa:
Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.
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