sexta-feira, 28 de março de 2014

Um País em desconjuntamento geral

Texro recebido do nosso leitor Augusto Kuettner Magalhães e que reflecte o sentimento geral que prevalece hoje no país, devido em boa parte a continuada incompetência da governação:
"Sendo totalmente impossível, por muito que nos esforcemos, desligarmo-nos de tudo o que nos rodeia, vamos constatando a realidade de um País em desconjuntamento geral.
Começando pelo aspecto das nossas ruas e passeios, do exterior de prédios e moradias, de lojas ao abandono, nota-se um progressivo esvaziar de tudo. Parece até, em certos sítios, que não vai haver amanhã.
Olhando para os nossos concidadãos em qualquer lugar público, novos e velhos, elas ou eles, não se notam rostos abertos, antes se sente uma tensão resultante de um descontentamento fortíssimo.
Qualquer conversa, com quem quer que seja, deixou de ser de banalidades como o estado do tempo, passando a ser sobre o estado em que estamos e o facto de não se vislumbrarem quaisquer melhorias. Falar de políticos e políticas cria ainda mais mal-estar, mais desconforto. Falar da nossa Justiça só é para dizer que não funciona. E convirá não falar da Educação, Saúde, Reformas e Pensões, Emprego e Desemprego para não se entrar em total desespero.
Não se poderia esperar que depois de três anos tão difíceis para (quase) todos nós, possamos estar alegres e contentes. Mas deveria supor-se que, nesta altura, houvesse uma porta aberta,  uma esperança com vista a um futuro com mais vida.
Mas, não, não há de modo algum. 
Ninguém entende, por exemplo, por que não foi feita a Reforma do Estado tão prometida, não só por estes governantes, como também pelos anteriores. Estes garantiram-nos que não seriam desleixados como os anteriores. Continuamos a ter o dobro das Câmaras Municipais que seriam necessárias e tudo que se lhes está associado e que não é, de todo, necessário. Como continuamos a ter tantos deputados que não parecem de modo algum serem necessários. Continuamos a ter um Governo demasiado pesado para as funções que (não) exerce. Continuamos a ter serviços centrais que repetem os serviços autárquicos e vice-versa. Continuamos a ter uns serviços da Presidência da República demasiado grandes para a actuação efectiva que têm. Continuamos a aguardar a  renegociação de modo sério das relações Estado/PPP e Estado/Bancos. A maior parte da máquina do Estado ficou exactamente na mesma.
O desemprego não diminuiu. A dívida pública aumentou. 
Por outro lado, o espaço  onde estamos inseridos - a (Des)União Europeia - continua a ser um monte de países sem destino.
Só há que viver cada dia da cada vez, o que significa viver o dia de hoje o melhor que for possível dado que om dia de amanhã será provavelmente pior.
Este sentimento de desconjuntamento geral do País deveria fazer-nos pensar. A todos, mas em particular aos governantes. Para isso mesmo são pagas, pelo erário público, tantas e tantas pessoas em cargos de responsabilidade. Assim, sem topo e com pouca capacidade das bases, não vamos lá.
Augusto Küttner de Magalhães

Jornalismo oculto no Telejornal da RTP

Meu artigo de opinião, no PÚBLICO de hoje:

Segundo o relatório Ciência no Ecrã, da autoria da Entidade Reguladora da Comunicação e do Instituto Gulbenkian de Ciência, apenas 0,8% do tempo dos telejornais em horário nobre é dedicado à ciência, a duração média das peças de ciência no Telejornal da RTP é de três minutos e vinte e quatro segundos e 92% destas têm menos de cinco minutos. No entanto, a televisão pública achou por bem criar um espaço cativo para a pseudociência em horário nobre, a que chamou Acreditar.

No dia 17 de Março, a RTP usou sete minutos do Telejornal para fazer publicidade a um especialista em "medicina popular" que afirma fazer diagnósticos médicos medindo, aos palmos, a roupa dos pacientes. No dia 18, concedeu mais sete minutos de tempo de antena a um "endireita" que diz ter um "dom" que "herdou do pai", que trata "males dos ossos e dos nervos de uma forma que não tem explicação", mas que terá demonstrado, com um galo, a validade do seu tratamento em tribunal. No dia 19, mais seis minutos e 15 segundos no horário mais nobre da televisão pública foram dedicados a uma cartomante que diz acertar em 90% das vezes. No dia 20, mais sete minutos e 24 segundos de publicidade a uma fitoterapeuta que afirma fazer diagnósticos de doenças graves através da leitura da íris, diz tratar o cancro de uma paciente com uma raiz que "tem a forma do corpo humano" e conclui dizendo que "a quântica pode determinar a data da morte do ser humano". No dia 21 de Março, mais sete minutos de horário nobre para promover um médium que afirma "incorporar" os espíritos "de quem partiu, geralmente santos". Em cinco dias, a televisão pública usou 34 minutos e 39 segundos do Telejornal para fazer publicidade a produtos e serviços milagrosos. Isto não é serviço público. Serviço público seria contribuir para desmistificar estas crenças.


A RTP poderia fazer reportagens sobre estes assuntos. Poderia ouvir os curandeiros e recolher testemunhos de clientes satisfeitos. Mas teria que apresentar também um contraponto racional, referindo o conhecimento científico acerca do assunto, recolher também testemunhos de clientes insatisfeitos (ou será que não os há?). A televisão pública portuguesa não poderia simplesmente assumir-se como um magafone acrítico dos curandeiros e cartomantes. Porque isso não é jornalismo. É publicidade enganosa. Seria grave em qualquer contexto. Mas na RTP, que recebe dinheiro de todos os consumidores de electricidade em Portugal, incluindo dos cegos, para fazer serviço público, é inadmissível. É extraordinário que, não tendo a ciência uma presença regular no Telejornal, esse espaço seja dado à pseudociência. Não sei o que se passa pela cabeça dos responsáveis pela informação na RTP. Nem que concepção delirante de serviço público justifica esta opção. Mas isto é uma iniciativa (deliberada ou inadvertida) que contribui para acabar com a ideia de serviço público de televisão.

ANTÓNIO BARRETO SOBRE AS BIBLIOTECAS


Excerto da apresentação de António Barreto na Biblioteca Nacional de Portugal sobre o livro de Paulo Mendes e meu "Biblioteca Joanina" (Imprensa da Universidade de Coimbra):

"Nestes tempos de SMS e de telemóveis, de Kindle e de e-mail, de Internet e de Facebook, é bom encontrar quem se dedique às bibliotecas e aos livros. Não sei bem o que acontecerá dentro de séculos. Mas, durante umas décadas, ainda teremos o livro como modo, instrumento, objecto e obra absolutamente especial. Não querendo cair na banalidade reaccionária, nada direi sobre o encanto especial do livro, muito menos sobre o seu cheiro ou as sensações tácteis que permite. Apenas sublinho o facto de os livros se manterem como a forma mais generalizada, mais segura e mais acessível de conservação, de divulgação e debate de cultura e saber.

Desde Alexandria até às mais modernas de Londres ou Paris, passando pelos mosteiros medievais, os palácios renascentistas e as grandes bibliotecas nacionais do século XIX, sem falar nos dois tesouros portugueses, as Joaninas de Coimbra e de Mafra, as bibliotecas constituem o primeiro monumento à cultura e à ciência, ao saber e ao estudo. É nas bibliotecas que eu sinto a minha pequenez e me dou conta da minha ignorância. É nas bibliotecas que eu me sinto tentado e estimulado. É nas bibliotecas que eu sei que ler é uma das mais importantes actividades humanas, que a curiosidade é a primeira qualidade intelectual dos homens e das mulheres e que perceber é talvez a maior fonte de prazer. É nas bibliotecas que fico extasiado diante destes monumentos à erudição. É nas bibliotecas, que existem há pelo menos dois mil e quinhentos anos, que encontro o verdadeiro significado das expressões “toute la mémoire du monde”, segundo Resnais, ou “tout le savoir du monde”, segundo toda a gente. Uma biblioteca é o único sítio do mundo donde eu saio sempre com a sensação ou a certeza de ter ganhado qualquer coisa"

António Barreto

Foto de Paulo Mendes da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra 

DORÉ: A IMAGINAÇÃO AO PODER

Recebi do Luís Gaspoar este vídeo, que está no Youtube, feito a propósito da exposição que está no Museu d'Orsay em Paris sobre a obra de Gustave Doré "Gustave Doré (1832-1883): L'imaginaire au pouvoir"

"O Colapso da Escola" visto por uma aluna universitária

A propósito do meu artigo no "Público", "O Colapso da Escola" recebi de uma leitora esta mensagem, que, dado o seu inegável interesse,  transcrevo, com a devida autorização da autora, estudante universitária:

O meu nome é Cláudia, tenho 23 anos e cresci numa aldeia no Distrito de Leiria. No meu primeiro ciclo só havia 7 crianças além de mim, e eu era a única filha de pais não-emigrantes. Durante o meu primeiro ciclo cresci com os meus avós, esses sim, foram emigrantes, e não me tentaram dar tudo. Tentaram apenas que eu aprendesse a ser gente, como é costume dizer-se naquelas terras. Sempre tive o que precisei e soube não pedir, porque tive a consciência dos custos, não só monetários, daquilo a que chamamos Vida. Naquela altura os miúdos eram, na sua maioria, exageradamente mimados. Mas muito menos que hoje em dia.

Quando fui para o segundo ciclo ingressei numa escola católica, pertencente à Diocese Leiria-Fátima, um Colégio privado, aberto a todos os alunos, sem propinas. Sem dúvida a melhor escola da zona, tanto em termos de pessoal docente, como de resultados a nível distrital e nacional e também em termos de segurança. Estive na, considerada na altura, pior turma da escola, os melhores alunos, os mais mal comportados. Para cachopos, tínhamos um nível de arrogância ligeiramente alto, que é pólvora uma vez combinada com a intempestividade marcante dos adolescentes. Hoje em dia, os professores que nos rotularam na altura, consideram-nos "uns anjos". Porque hoje em dia, um aluno de 6º Ano, manda-os ir dar uma volta ao bilhar grande, com um M ou F maiúsculo e um aluno de 9º diz ter falta de força de vontade para estudar, porque, reclama, secundário é obrigatório, mas vai ter de ir para o exército porque senão não tem trabalho. E o pobre coitado ainda ouviu dizer que nem assim.

Houve professores a serem criticados pelos pais das crianças porque deviam dar educação aos meninos na escola. Eu pensava que eles deviam fornecer ferramentas de ensino e aprendizagem, e que os pais é que deviam dar educação.

Há uns anos vi um miúdo a ser arrastado pelo chão num hipermercado. Chorava desalmadamente, a gritar o quão queria o boneco "Action Man", agarrado ao tornozelo da mãe. Entretanto fartou-se, viu que não valia o esforço. Depois, numa loja de produtos eléctricos e electrónicos, assisti a algo, penso eu, preocupante. Um adolescente a chorar e gritar com os pais que queria um "Ipod". O filho vestido com roupas de marca, os pais vestidos pobremente. O filho com um telemóvel topo de gama, os pais a comprar o aquecedor mais barato da loja. Acabaram por fazer um crédito na loja, e o mimalhas foi para casa todo contente.

Actualmente estudo no Ensino Superior na Universidade do Minho, Campus de Braga e posso assegurar-lhe, que já não é só nas escolas básicas e secundárias que tal acontece. Tanto nas salas de aula como nos anfiteatros, nos laboratórios e salas de informática dos mais variados cursos, é possível verificar-se a falta de respeito e indisciplina constante. Qualquer professor, considerado, talvez, menos carismático, consegue ser rapidamente ignorado e trocado por alguma conversa sobre um jogo ou mexerico qualquer. Qualquer aluno pode experimentar levantar a voz e responder sem respeito ou educação, porque muitas vezes a pessoa que apresenta a matéria não se sabe impor; e não se sabe impor porque gosta mais de alunos de mestrado ou doutoramento. Sim, ouvi isso na universidade e, para mim, é compreensível - não porque estão mais crescidos logo têm mais maturidade, mas porque muitos já trabalharam, ou dão o couro para conseguir uma bolsa e então sabem o que é penar para terem o que querem e aí sim ganham maturidade - porque quem sai da licenciatura nem idade para saber cuidar dos filhos tem.

Não sei. Especulo. Penso que a culpa não é só da crise, porque ainda não saímos da crise desde O Magnânimo, mas vai-se vivendo. Penso que a culpa é da crise de valores implantada deliberadamente na sociedade actual, e não só da crise financeira. Penso que os pais querem dar tudo, mas não sabem onde parar. Penso que, realmente há muitas crianças expostas a ambientes degradante, mas que é imoral escolher a quem dar a mão. São crianças, merecem ajuda, educação, comida e amor. São crianças, merecem ser crianças e não expostas aos ambiente sexuais e sexistas constantes, tão promovidos pelos media. São crianças, e os adultos não fazem ideia do que fazer.

Grata, Cláudia

quinta-feira, 27 de março de 2014

IX CONGRESSO NACIONAL CIENTISTAS EM AÇÃO 2014


Informação chegada ao De Rerum Natura

DIAS 8, 9 e 10 de MAIO em Estremoz.

Por nível de ensino… 
8 de maio, Prémio Galopim de Carvalho (1.º e 2.º ciclos),
9 de maio, Prémio Déodat Dolomieu (3.º ciclo) e
10 de maio, Prémio António Ribeiro (ensino secundário).

É com todo o gosto que confirmamos a presença do
Professor Doutor Galopim de Carvalho
, dia 8 de maio e do
Professor Doutor António Ribeiro, dia 10 de maio;

O cientista Déodat Dolomieu, estará representado pelo Professor Doutor Rui Dias.

Estão oficialmente abertas as inscrições para o IX Congresso Nacional Cientistas em Ação - Aqui

Ver atualizações na página oficial do CCVEstremoz

As inscrições têm data limite até dia 14 de abril e estão disponíveis nesta página.

Como habitual, haverá prémios e galardões para os alunos participantes/vencedores, professores acompanhantes dos trabalhos e instituição de ensino…

Quanto a apoios no âmbito da inscrição e participação, estão asseguradas as refeições e o alojamento (se necessário e em função da disponibilidade), para os alunos participantes e professores acompanhantes.

Os documentos em anexo, os quais também estão disponíveis na página online (Regulamento, Cartaz, Nota de Imprensa e 2 fotografias – na página constam mais…). Para a IX edição e percorrendo as cores da paleta, escolhemos o “vermelho”, esperamos que combine com a Vossa forte inspiração ;) Desde já e uma vez mais, ficamos disponíveis para eventuais questões que surjam.

Qualquer informação necessária, contactar, por favor:
Centro Ciência Viva de Estremoz |Espaço Ciência – Convento das Maltezas, 7100-513 Estremoz

HISTÓRIA DA CIÊNCIA EM PORTUGAL

 

Carlos Fiolhais apresenta o seu livro “História da Ciência em Portugal” em mais um “Café, Livros e Ciência”
No dia 27 de Março, pelas 18h00, acontece mais uma sessão do ciclo “Café, Livros e Ciência”, na Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro, onde será apresentado o livro “História da Ciência em Portugal”, pelo seu autor Carlos Fiolhais. A entrada é livre.
Esta obra, ilustrada, constitui uma síntese da história da ciência em Portugal, de forma descritiva mas também interpretativa. É dada uma panorâmica de sete séculos de ciência e as razões para as oscilações que se verificaram. Incluiu episódios curiosos que o autor terá oportunidade de partilhar com o público.
"Café, Livros e Ciência" é uma iniciativa que resulta de uma parceria entre a Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro, o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho e o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. Este projeto de divulgação de ciência tem como objetivo principal promover a leitura de livros de ciência junto do público em geral.
A sessão destina-se a público jovem e adulto.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Química e Literatura: uma rede que se estende no tempo

Na rádio, televisão e internet, bombardeiam-nos todos os dias com as bolsas de valores que sobem e descem, mas há uma coisa que sobe todos os dias em cerca de três mil unidades e que não costuma ser notícia: o número de substâncias químicas conhecidas. Dos mais de oitenta e quatro milhões de substâncias actualmente conhecidas, muitas são as que moldam o nosso mundo de forma quase invisível. E muitas outras poderão, talvez, melhorar a nossa qualidade de vida e ajudar a enfrentar as crises que as leis da Finança, improdutiva em termos de substância, nos impõem. E tudo isso poderá, talvez, ser encontrado, de forma directa ou indirecta, na literatura e livros fundamentais da história da humanidade.

Assim, vamos procurar perceber o que é que a narrativa do Livro de Tobias da Bíblia tem que ver com a química. E o que é que a planta que Hermes dá a Ulisses, para este não ser afectado pelas drogas de Circe, tem que ver com a doença de Alzheimer. Vamos procurar a química na Odisseia, em Os Lusíadas, em A Selva de Ferreira de Casto, no conto O Leproso de Miguel Torga, em O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago, e em vários outras obras, procurando estabelecer as redes temporais e temáticas que evidenciam as mudanças que a química trouxe ao nosso mundo.

A palestra, Química e Literatura: uma rede que se estende no tempo, vai ser realizada no Anfiteatro do Departamento de Química (no primeiro piso, ao fundo do corredor do lado direito) pelas 15 horas.

terça-feira, 25 de março de 2014

MAIS UMA CAMPANHA DO GOVERNO CONTRA A CIÊNCIA EM PORTUGAL

Mais uma arma de arremesso da vergonhosa da campanha deste governo contra a ciência, para alimentar a narrativa desonesta de que está tudo mal com a ciência em Portugal e de que é preciso acabar com ela. A Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, que não sabe quantificar a fuga de cérebros, produziu um relatório comparativo sobre o impacto da ciência em Portugal e na Europa, sem ter em conta as diferenças de financiamento nos vários países.

De acordo com esse relatório, estaríamos na cauda da Europa no que diz respeito ao impacto da ciência produzida em Portugal, avaliada pelo número de citações médio por artigo científico, que em Portugal é de 5,58 citações por artigo, na UE15 é s 6,29 e na Dinamarca de 8,49.


Gráfico: DGEEC

Como muito bem nota a jornalista Ana Gerschenfeld no PÚBLICO, o investimento na ciência entre Portugal e o da média da UE15 são ainda mais díspares do que o impacto das publicações. No nosso país o investimento na ciência é de 275,9€ por habitante, ao passo que a média da UE15 é de 610€ por habitante. Mais baixo só mesmo na Grécia, que investe na ciência apenas 126€ por habitante.


segunda-feira, 24 de março de 2014

Livros com Química: Ravelstein de Saul Bellow


Saul Bellow (imagem tinhouse.com)
Ravelstein é um livro de Saul Bellow que, partindo da biografia de Alan Bloom, autor de um livro que teve bastante impacto nos EUA (Cultura Inculta, na tradução portuguesa), nos conduz numa viagem humana e desorganizada pelos enigmas da doença e do envelhecimento. 

O narrador, Chick, é um autor de best sellers, casado com Vela, uma especialista em física do caos de origem balcânica, superficialmente sofisticada e de poucas palavras que, na verdade, o despreza. Chick, que toma quinino para o coração (na verdade quinidina, um isómero desta molécula) e procura agradar a todos, é amigo íntimo de Ravelstein, uma personagem transbordante, ideossincrática, professor idolatrado, com tiques e manias, fumador compulsivo, coleccionador de gadgets, cínico e sem maneiras, que se reconhece como homossexual ou invertido, mas não como “gay”.
Quinino (imagem wikipedia)


Além de SIDA, Ravelstein tem herpes zóster e a doença de Gullian-Barrié, duas viroses que podem ser muito dolorosas, é obeso, sofre dos dentes e tem tremuras nas mãos e pernas. Fumando de forma compulsiva, ouve música em altos berros, dedica-se a mexericos, reuniões, festas e conferências, mas, sobretudo, aparenta não ter medo da morte.

Chick, que prometeu a Ravelstein escrever a sua biografia, mas vai adiando fazê-lo, acaba por casar, depois da morte de Ravelstein, com Rosamud, uma antiga aluna deste último. Segundo Chick, Ravelstein ensinava o amor e erotismo com base em Aristófanes, Sócrates e a Bíblia, contrapondo-o às limitações do modelo biológico que dispensa a alma e sublinha a importância do alívio orgiástico da tensão. Na verdade, os modelo mecânicos do amor baseados em equilíbrios e desequilíbrios, tensões e válvulas de escape, são imagens mecânicas grosseiras, quase sempre falsas. A química e a biologia do amor não substituem a alma por modelos mecânicos e deterministas. De facto, as relações de Chick com Vela e Rosamud, como as dos demais comuns mortais, são complexas e apresentam caracterísiticas únicas que não se reduzem a modelos simples. A biologia e a química são importantes para o sucesso das relações e do amor, mas a alma das relações e do amor, não são redutíveis de forma simples, como já referi num outro texto, à biologia e à química.

maitotoxina (imagem wikipedia)
Numa viagem às Caraíbas, Chick fica doente e quase morre. A principal suspeita é ciguatera, um envenamento com toxinas provenientes de um microorganismo que vive nos corais, Gambrierdiscus toxicus, o qual pode contaminar peixes usados na alimentação. E as toxinas deste microorganismo são, de acordo com o World Records In Chemistry, as moléculas não proteicas mais tóxicas conhecidas: a maitotoxina, a ciguotoxina e a palitoxina. 

Este envenenamento recorda-nos que, contrariamente ao que pensa um certo senso comum as substâncias mais tóxicas que existem não são artificiais mas naturais. Nisso a natureza é inexcedível de eficiência: as moléculas mais tóxicas que existem são as toxinas do botulismo e do tétano, ambas proteínas de origem natural, venenosas em quantidades ínfimas. Numa imagem muito aproximada, cerca de 10 a 100g de toxina do botulismo poderia matar metade da população humana; o LD50 (a dose que mata em média metade dos indivíduos expostos) desta toxina tem valores entre 0.03 a 0.3 nanogramas por quilograma. De origem natural, mas não proteica, surgem logo em seguida as toxinas referidas acima (com LD50 de 0.05 a 0.5 microgramas por quilograma), a taipoxina, proveniente de uma cobra venenosa australiana, a batracotoxina presente nas rãs venenosas e a tetrodoxina do peixe-balão (estas últimas com LD50 entre 2 e 10 microgramas por quilograma). O rícino é uma glicoproteína de origem vegetal também muito venenosa (LD50 0.1 micrograma por quilograma). Os compostos de origem artificial surgem muito depois em nível de toxicidade. As dioxinas têm LD50 de 20 microgramas por quilograma, o paratião, o conhecido e famigerado agente de suicídio dos anos setenta, tem LD50 de 3.6 miligramas por quilograma e o cianeto de potássio 10 miligramas por quilograma. Alguns materiais artificiais radioactivos, como o polónio-210 (LD50 de 10 a 50 nanogramas por quilograma), têm toxicidades mais altas que os compostos artificiais anteriores, embora menores que os das toxinas naturais referidas, mas a toxicidade dos compostos radioactivos é difícil de avaliar, pois estes mantêm-se activos no organismo durante bastante tempo, induzindo outras doenças. Em 2006, o polónio-210 foi usado para matar Alexander Litvinenko e há suspeita de que tenha sido usado para matar também Arafat.

Ravelstein, embora do lado das humanidades, não deixa de ridicularizar com grande acutilância a ignorância e os medos irracionais envolvendo produtos químicos. De acordo com Chick, que não bebia o café de Ravelstein por este ser feito com água cheia de cloro, Ravelstein pregava anti-sermões de estilo picaresco acerca do medo do fumo do tabaco, dos conservantes dos alimentos, do amianto, dos pesticidas e das bactérias nas mão dos empregados dos restaurantes.

Infelizmente, o empastelamento dos riscos e a sobrevalorização de alguns riscos é muito comum e altamente desinformante. O fumo do tabaco é muitíssimo mais perigoso do que os conservantes dos alimentos. Os riscos de fumar são muito superiores aos dos pesticidas actuais, mesmo para os agricultores, se bem utilizados em tratamentos de protecção integrada (actualmente obrigatórios). E mesmo os riscos do amianto são bastante limitados para a a maioria das pessoas. Muitos outros exemplos poderiam ser dados.

Paralelamente à intoxicação, Chick tem uma pneumonia e problemas cardíacos, passando bastante tempo nos cuidados intensivos do hospital a delirar, medicado com midazolam (denominado no livro Verset), um analgésico muito potente. No final do livro, a vida segue, embora se tenha a certeza que esta não possa ser eterna.

Azidatimidina, AZT (imagem wikipedia)
Os aspectos químicos relacionados com as doenças de Ravelstein, em especial a SIDA, quase não são referidos no livro, com a excepção de um momento em que uma enfermeira vem trazer AZT, sigla pela qual é conhecida a azidatimidina, um fármaco bem conhecido por ser usado no tratamento desta doença. A SIDA é actualmente, nos países ocidentais, uma doença crónica. Mas em África, esta é ainda um flagelo e uma das principais causas de morte. Em 2007, um grupo de trabalho da UNESCO propôs que a química nas universidades sub-Sarianas fosse ensinada tendo como contexto esta doença. Nesse documento, que envolve propostas pedagógicas para o ensino da química, dos seus aspectos mais básicos aos mais avançados, podemos ver como a química é importante e central para o entendimento, rastreio e tratamento desta doença em particular. E, claro, podemos induzir que o mesmo se verifique para todas as outras doenças. E na verdade para tudo o que nos rodeia.

domingo, 23 de março de 2014

Porta Nova (Évora), anos 40 (1)

Porta Nova, em começos do século XX, antes da implantação da República
Porta Nova, em Évora, é o nome antigo de um pequeno espaço da cidade que me viu nascer. Pólo importante de uma da comunidade urbana desta capital do Alentejo, foi oficialmente designada por Largo Luís de Camões, com placa, poucos meses depois do derrube da monarquia, em sessão camarária de 1 de Junho de 1911, num tempo marcado pelo surgimento de valores culturais contra a superestrutura mental dos terratenentes que então dominavam a vida da cidade.

Com séculos de história e a mesma tipologia sócio-económica desde finais da Idade Média, a Porta Nova sempre foi uma plataforma apta a responder aos citadinos e aos que, vindos de extra-muros, entravam pelas portas de Avis e da Lagoa.

Num exercício de memória do tempo que ali se viveu nos finais dos anos 30 e parte dos 40 do século que passou, mais ou menos coincidente com o da Segunda Guerra Mundial, este pequeno largo foi, para mim, um mundo de descobertas nos anos em que os meus pais, os meus quatro irmãos, eu e uma irmãzinha, que já ali nasceu, nos tornámos residentes nesta zona da velha urbe. De forma, grosso modo, triangular, ladeado de prédios centenários e de arcadas ainda mais velhas a protegerem os peões do sol abrasador do Verão e da chuva no tempo dela, o largo da Porta Nova, rematado num dos seus três vértices por um belo duplo arco granítico do aqueduto da Água da Prata, continua a ser parte importante de um eixo comercial da cidade, eixo que se estende, quase todo sob as referidas arcadas, entre o Jardim das Canas, no começo da Rua Elias Garcia, até para lá da Praça do Giraldo, na antiga Rua do Paço.

Para os residentes nesta zona da cidade-museu, a Porta Nova era, como se diria hoje, um “centro comercial” a céu aberto. «Tudo aquilo de que preciso para o governo da casa está aqui à mão» dizia, satisfeita, a minha mãe. E tinha razão.

Saído da Rua do Segeiro, a São Francisco, por volta de 1938, sem que me tivessem perguntado a opinião, e interrompido, no melhor da minha aprendizagem, o “ofício de carpinteiro” que vinha desenvolvendo sob simpática e paciente tutela do mestre Roberto, meu vizinho na mesma rua, depressa me iniciei noutras actividades que deram significado e encanto a esses anos, os melhores da minha meninice e primeira adolescência, não obstante o espectro da Guerra, cujos horrores nos chegavam, diariamente, vindos de Londres, pela inesquecível voz do Fernando Pessa aos microfones da BBC. Sentida, sobretudo, pelos seus reflexos no racionamento de muitos produtos essenciais e pelas intermináveis “bichas” que tive de suportar, isso não impediu que desse largas à minha necessidade de participar no mundo que me rodeava. Foi neste outro meu universo, muitíssimo mais alargado, que, como voluntário e no jeito do rapaz curioso do trabalho dos crescidos, ganhei muitas outras “profissões”.

Sempre pelo coração e a custo zero, fui aprendiz ou ajudante de funileiro na oficina do Teófilo, de sapateiro na do meu tio Manuel Almaça e de colchoeiro na do Ventura, fiz queijos de ovelha na francela da minha tia Rosalina, fui caixeiro na mercearia do Anselmo, fiz “mandados”, a troco e magros tostões, e dei serventia onde quer que ela fosse aceite.

Ver fazer, aprender e, por fim, saber fazer foi uma maneira de estar na vida que nunca me abandonou. Sempre parei o tempo que fosse preciso para observar um caiador empoleirado numa escada, com o pincel amarrado na ponta de uma cana, a branquear uma parede, um canastreiro a armar um cabanejo com varas de souto molhadas, ou um engraxador a dar lustro nos sapatos de um cliente, exibindo a sua perícia com sonoros estalos da tira de lona. Observei pedreiros a levantarem uma parede de tijolo e calceteiros, de joelho em terra e martelo de bico na mão, a executarem o seu trabalho e lembro-me de um que, olhando para mim, disse, gracejando «o meu trabalho é como o do médico. Os meus defeitos e os dele tapam-se com terra».

Levantei-me de madrugada para ver o meu amigo padeiro, na travessa de santo André, a amassar à mão, a tender os pães enfarinhados e a arrumá-los num grande tabuleiro aconchegados entre pregas de um pano banco, numa atmosfera quente, marcada pelo lume do forno e pelos cheiros do fermento e da lenha de azinho. Esperar pelo fim da cozedura levar para casa um pão acabado de fazer era algo que dava sentido à minha condição de gente no mundo de gente crescida.

Nesses anos tudo me fascinava na Porta Nova. Fora de casa porque, na verdade, em casa é que eu menos gostava de estar. Faltava-me o ar. Mais a mais, era em casa que eu tinha de passar, diariamente, o tempo necessário para cumprir os meus deveres escolares, “as minhas obrigações”, como se dizia. À tabuada, recitada ao pé da mãe, enquanto ela costurava, seguia-se, ainda com a ajuda dela, a leitura na Cartilha Maternal, do João de Deus. Depois era cópia e as contas, mais tarde, os problemas e as redacções. Tudo isto em casa porque, por decisão do meu pai, cumpri o equivalente aos dois primeiros anos de escolaridade no chamado Ensino Doméstico, uma modalidade legalmente autorizada, sob a tutela de um membro da família com habilitações para o fazer, neste caso o meu pai. Terminadas as ditas obrigações, num tempo que tinha o sabor da prisão e sempre me pareceu uma eternidade, deixada a pasta dos livros caída a um canto, zunia para a minha liberdade. E a minha liberdade era a Porta Nova e tudo o que ali se fazia.

Já aluno da escola primária e, depois, a frequentar o liceu o melhor, para mim, era o som da sineta com que a “menina” Júlia anunciava o fim das aulas, e o melhor dia da semana sempre foi o Sábado, a que se somava mais um dia de liberdade e mil tarefas e projectos para realizar fora de casa, na Porta Nova. Findos esses dois dias, nos serões de Domingo, a procurar fazer, mal e à pressa, os trabalhos de casa, era invadido pelo sentimento do dever não cumprido e, na manhã de 2ª-feira, era com esse sentimento e um certo novelo no estômago que percorria o caminho que me levava ao encontro dos professores.

Nos grandes fins de tarde e nos serões de Verão, corria-se e brincava-se na Porta Nova. Era o tempo dos jogos do agarra e das escondidas, como nós dizíamos. As colunas das arcadas eram esplêndidas para esconder e também para as fintas, travagens e mudanças bruscas de trajectória, até que se chegasse a salvo ao coito. Era o tempo dos filmes do Tom Mix, do Buck Jones e do Ken Maynard. Escarranchados em canas com uma cabeçorra de cavalo recortada em cartão, a rapaziada encarnava aqueles “cobóis”, armada de pistolas de pau, que cada um engerocava de acordo com a sua habilidade, correndo e gritando “camones” e “mãos-ao-ar”, escoiceando com as botas cardadas e fazendo tiros com a boca: pum, pum, pum!...

Este largo, como aliás toda a cidade, tinha trânsito diminuto, quase todo reduzido a carros e carroças de tracção animal e, sobretudo, durante o dia. Só lá de quando em quando passava um automóvel buzinando sempre, a anunciar a aproximação. Brincar e correr na Porta Nova tinha a segurança de um jardim. A única restrição era o polícia do giro e, aí, a malta disfarçava ou sumia-se. Os que jogavam à bola escondiam a bola ou iam jogar para outro lado.

Numa pacata cidade de província desse tempo os elementos da Polícia de Segurança Pública contavam-se pelos dedos e eram nossos conhecidos. Para os rapazes como eu, cujas travessuras mais graves seriam gritar e correr na rua, ir de encontro a um passante, ou acertar-lhe com uma bolada, o agente limitava-se à apreensão do “esférico” (de trapos bem apertados numa meia velha) seguida de uma ameaça nunca cumprida:

«Levo-te à esquadra para que o chefe te mostre a menina-de-cinco-olhos que lá tem numa gaveta. Ninguém sai de lá sem lhe tomar o gosto, com uma dúzia de palmatoadas. E, quando é preciso, põem-se umas pedrinhas de sal na palma da mão». Se punham ou não punham, nunca soube. Talvez o fizessem aos mais pobres, desprotegidos e desgraçados, apanhados a roubar algo para comer, que os havia muitos.

Esta minha riquíssima vivência na Porta Nova só se inverteu já eu era crescidinho e graças a dois ou três professores do Liceu e a uns tantos colegas, três ou quatro anos mais velhos, invulgarmente interessados nas coisas da cultura, fosse ela a das ciências exactas e naturais ou a das humanidades. Estes meus amigos liam muito e discutiam mais. Falavam de hereditariedade, de genética e de evolução, de física nuclear, de poetas e poesia, de filosofia e de arte, sobretudo de pintura. Deram-me a ler os «Cadernos» do Agostinho da Silva. Alguns gostavam e praticavam fotografia, desde o acto de captar a imagem ao trabalho de revelação na câmara escura. Faziam experiências de química e de física, atamancaram um telescópio rudimentar que permitia ver nitidamente as crateras da superfície lunar, dissecavam lagartixas e outros bichos para ver como eram por dentro. Com eles apanhei folhas de árvores e de outras plantas, que espalmávamos e secávamos entre folhas de jornais, com que começámos um herbário.

Eu era ainda um rapazinho de calções quando eles, já adolescentes de calça comprida, me aceitaram como companheiro e me deixavam assistir às suas discussões e participar nas muitas actividades que desenvolviam. Como foi agradável aprender coisas, assim, pelo verdadeiro interesse que elas despertavam, e como esta via de explorar conhecimentos era diferente das aulas, tantas vezes livrescas e de fazer sono, e do estudar a mando do professor.

Foi da Porta Nova que, com o meu irmão Mário ou com dois ou três colegas de Liceu saí para as minhas primeiras incursões no mundo rural envolvente da cidade. Esta experiência, que prolonguei anos a fio, sob a forma de campismo rudimentar e selvagem em territórios sucessivamente mais alargados, somada a todas as outras vividas no meio citadino, foram determinantes na formação da minha maneira de estar e de participar na sociedade. Nestas incursões nos campos do Alentejo, dormindo numa canadiana emprestada pela Ala de Évora da Mocidade Portuguesa e cozinhando o que calhasse numa velha panela de ferro, conheci herdades, homens e mulheres do campo e os trabalhos que faziam. Do lançar do trigo à terra, em braçadas do semeador, certas e cadenciadas, à debulha, sob o brasido do sol de Verão e do calor não menos intenso da ruidosa locomóvel, entre nuvens de moínha, tudo o que vi e experimentei me deu a noção exacta do valor do pão. E esse tudo foi presenciar o abrir dos regos, um trabalho duríssimo de homem só, de mão firme na rabicha do arado, de aivecas bem fundas, puxado por possantes parelhas de mulas, foi a monda da primavera, um trabalho de mulheres novas e velhas, tagarelando e cantando, e, finalmente, a colheita do cereal partilhada por “ratinhos”, nome algo depreciativo que se dava aos homens da Beira Baixa vindos todos os anos para a “aceifa”.

Assisti a descortiçagens (ou despela, no dizer de alguns) nos montados de sobro e dei-me conta da perícia dos tiradores, manuseando o machado, e dos molheiros, a amontoarem as pranchas de cortiça, explicando-me depois que, assim, bem arrumadas numa pilha de base rectangular, permitiam ter uma ideia do peso de toda a tirada.

Ficou-me no ouvido o som cavo do machado, bem afiado e brilhante do uso, a entrar fundo na cortiça madura, e o cantar das grandes e encurvadas pranchas a descolarem do tronco descarnado.

Experimentei o varejo da azeitona e andei de joelhos na apanhá-la caída nos oleados ali estendidos no chão e estive num velho lagar de azeite o tempo suficiente para saber como se faz o precioso óleo da gastronomia mediterrânea. Vi esmagar a azeitona com mós de pedra num engenho da antiga Fábrica Metalúrgica do Tramagal. Vi espremer a pasta entre capachos, a separar o bagaço do mosto oleoso, senti o forte aroma do azeite virgem a sobrenadar uma aguadilha suja e percebi o sentir da minha mãe quando dizia «não se come uma azeitona de uma só vez», explicando que não se trata assim uma preciosidade que leva um ano a criar.

Ajudei, como curioso de ocasião, em vindimas, respirei o cheiro de um outro mosto, provei o vinho novo pelo São Martinho e acompanhei os trabalhadores, na grande adega das Cortiçadas, petiscando toucinho assado no braseiro da destila, junto ao alambique, acompanhado de sorvinhos de aguardente ainda morna, acabada de fazer. Acompanhei, interessado, o trabalho do caleiro, do desmonte e malho da pedra ao empilhamento do forno, vi armar e cobrir de terra os tradicionais fornos de carvão e conheci o intenso cheiro a tição que libertavam. Fiquei horas a ver oleiros no trabalho do barro vermelho com a roda e tive oportunidade de apreciar a arte de enfeitar com pedrinhas de quartzo a tradicional loiça de Nisa.

Bebi água por cocharros de cortiça, tirada do poço, junto ao bebedouro do gado e molhei os pés nos regos das hortas onde nos deixavam apanhar beldroegas com que fizemos tantas das nossas refeições. Foram muitas as vezes que confraternizei com os trabalhadores rurais, sentados no chão, de “navalhinha” na mão, comendo nacos de pão com lasquinhas de queijo ou de linguiça. Com estes meus amigos iniciei a consciencialização dos problemas sociais e políticos que a cidade, nesse tempo vigiada e censurada, não permitia.

Com eles interiorizei uma saudável ruralidade que me acompanhou ao longo da vida e me permitiu caldear as influências elitistas do meio académico a que pertenci durante mais de quarenta anos.

Continua aqui.

A. Galopim de Carvalho

sábado, 22 de março de 2014

A ORIGEM DO MUNDO SEGUNDO UM AUTOR MEDIEVAL

No mesmo dia em que o Público noticiava novidades sobre a origem do mundo (sinais na inflação no fundo de luz de microndas), noticiava também a tentativa de simular matematicamente um texto sobre cosmogonia de um autor medieval, o inglês  Roberto Grosseteste (c. 1168/70-1253), que consta da sua obra "Tratado da luz" (c. 1220/35).

Ora acontece que esta obra foi recentemente traduzida em português a partir do latim original (a edição é bilingue: "Tratado da luz e outros opúsculos sobre as cor e a luz", Introdução e notas de Mário Santiago de Carvalho, tradução de Mário Santiago de Carvalho e Maria da Conceição Campos). Transcrevo a descrição da criação do mundo:
"Então, a luz, que é a primeira forma criada na primeira matéria, multiplicando-se a si mesma por si mesma infinitamente em todas as direcções, e prolongando-se para todo o lado de maneira uniforme, no princípio do tempo, estendeu a matéria, da qual não podia separar-se, difundindo consigo toda a massa que compõe a máquina do mundo. A extensão da matéria não podia dar-se por uma multiplicação finita da luz, porque aquilo que é simples, repetido um número finito de vezes, não gera uma quantidade, tal como Aristóteles mostra de maneira demonstrativa; mas multiplicando infinitamente gera necessariamente uma quantidade finita, porque o número da multiplicação infinita de qualquer coisa supera infinitamente aquilo por causa do qual se faz a multiplicação. Mas o que é simples não é superado infinitamente por outro simples, mas apenas uma quantidade finita supera infinitamente o que é simples. Com efeito, uma quantidade infinita supera o que é simples de uma maneira infinitamente infinita. Logo, a luz, por ser simples em si, multiplicada infinitamente, estende a matéria, que é igualmente simples, em dimensões de grandes necessariamente finita".
Note-se a distinção mas ao mesmo tempo ligação entre luz e matéria, a expansão da luz e da matéria nos cosmos primitivo. Grossteste viu, à sua maneira, o Big bang que hoje sabemos ter existido.

TRÊS POEMAS ERÓTICOS

Hoje é lançado em Cantanhede o novo livro do autor deste blogue Ângelo Alves (parabéns Ângelo!). Transcrevo do seu livro "Falo do fundo" (Papiro Editora) três poemas de teor erótico:

MAR VERMELHO

Abriu-se
O mar
vermelho

Abriram-se
Ao toque
Desta
Língua
Seca
Teus lábios
Com batom
Vermelho

Nossa
Saliva
Via Láctea
Correu
Pelo leito

Depois
Teus lábios
Fecharam-se
Para sempre.

VISÕES NA ESCADARIA DE COIMBRA

Pelo granito
Da escadaria
Monumental
Descem dois seios
Bamboleantes,
Em frenesim,
E opalinos,
E uma vulva
Cor de hulha,
Para os
Meus pés

Teu olhar
Telúrico
E cirúrgico,
Todavia
Veste-me
De vermelho.

CÓPULA AO SOL

Dois grilos: um castanho e outro verde.
O verde por cima, o outro por debaixo.
Cópula, ao Sol viril, contra a parede.
A fêmea entrega-se, carrega o macho.

Ângelo Alves

sexta-feira, 21 de março de 2014

A INACREDITÁVEL IDEIA DE SERVIÇO PÚBLICO DA RTP

A RTP criou uma rubrica regular no telejornal das oito, repetida noutros blocos noticiosos, a que chamou "acreditar", que é um inacreditável espaço de publicidade enganosa.

Hoje, dia mundial da poesia, a televisão pública financiada pela factura de electricidade para fazer serviço público usou mais sete minutos do horário nobre para promover a crendice e o obscurantismo.

Assim, nos últimos cinco dias a RTP já dedicou 27 minutos e 39 segundos de horário nobre a esta inacreditável ideia de serviço público:

- No dia 17 de Março a estação pública de televisão resolveu usar 7 minutos do telejornal (a partir do minutos 12) para fazer publicidade a um especialista em "medicina popular", que afirma fazer diagnósticos médicos medindo, aos palmos, a roupa dos pacientes.

- No dia 19 de Março, foram dados 6 minutos e 15 segundos no horário mais nobre da televisão pública a uma cartomante, que diz acertar em 90% das vezes.

- No dia 20 de Março a televisão pública resolve dar mais 7 minutos e 24 segundos de publicidade a uma fitoterapêuta que afirma fazer diagnósticos de doenças graves através da leitura da íris, dizendo que "os olhos são o espelho da alma", lugar comum que não significa absolutamente nada. Mais grave ainda, afirmou tratar o cancro de uma paciente com a raiz de uma planta de origem coreana, cuja raiz "tem a forma do corpo humano". E conclui dizendo que "a quântica pode determinar a data da morte do ser humano".

- No dia 21 de Março, a RTP achou por bem usar mais 7 minutos (no início da segunda parte) para promover um médium que afirma "incorporar" os espíritos "de quem partiu", "geralmente santos".



Que inacreditável conteúdo de serviço público terá a RTP para nos oferecer amanhã?

QUEIXA AO PROVEDOR DO TELESPECTADOR

(formulário para envio de queixas ao provedor do telespectador aqui)

Exmo Sr. Provedor,

Segundo o relatório Ciência no Ecrã, da autoria da ERC e do Instituto Gulbenkian de Ciência:

- apenas 0,8% do tempo dos telejornais em horário nobre é dedicado à ciência
- a duração média das peças de ciência no telejornal da RTP é de três minutos e vinte e quatro segundos
- 92% delas têm menos de 5 minutos.

No entanto, a televisão pública resolveu criar uma secção regular para  no telejornal das oito, a que chamou "acreditar", para publicitar pseudociência sem qualquer contraditório:

- No dia 17 de Março a estação pública de televisão resolveu usar 7 minutos do telejornal para fazer publicidade a um especialista em "medicina popular", que afirma diagnósticos médicos medindo, aos palmos, a roupa dos pacientes.

- No dia 19 de Março, foram dados 6 minutos e 15 segundos no horário mais nobre da televisão pública a uma cartomante, que diz acertar em 90% das vezes.

- No dia seguinte a RTP usou mais 7 minutos e 24 segundos para fazer publicidade a uma fitoterapêuta que afirma fazer diagnósticos de doenças graves através da leitura da íris, que afirma tratar o cancro de uma paciente com uma raiz que "tem a forma do corpo humano" e conclui dizendo que "a quântica pode determinar a data da morte do ser humano".

Em quatro dias, a televisão pública gastou 20 minutos e 39 segundos a fazer publicidade enganosa, quando a sua obrigação de serviço público seria ajudar a esclarecer este enganos e a não a promovê-los.

“AS BIBLIOTECAS TAMBÉM SE ABATEM”

Recebi através de um bibliotecário esta mensagem sobre a triste situação da Biblioteca Municipal da Nazaré. Nazaré pode ser a "capital do surf" mas é também um lugar que não gosta do livro e da leitura, um lugar onde, por isso, não me apetece ir: 

No passado dia 10/02 foi transmitida oralmente a informação da não renovação dos contratos de trabalho a termo certo do Técnico Superior BD e das 3 (três) Assistentes Técnicas BD a desempenhar funções na Biblioteca Municipal da Nazaré quebrando uma ligação de seis 6 (seis) anos com o município da Nazaré, numa 1.ª fase (3 anos) integrados no grupo de funcionários afetos à Câmara Municipal e, numa 2.ª fase (3 anos) integrados na Empresa Municipal Nazaré Qualifica. Foi comunicado superiormente que, num conjunto de 7 (sete) elementos da equipa, apenas iriam ficar os 3 (três) trabalhadores do quadro de pessoal da câmara que desempenham atualmente funções na Biblioteca Municipal. A justificação oficial fornecida foi de natureza económica decorrendo de uma política global de redução do número de trabalhadores da Nazaré Qualifica não obstante esta continuar em atividade e tendo sido renovados contratos de trabalho de funcionários da empresa municipal noutro tipo de funções que não na biblioteca e que tinham o seu términus na mesma altura. Não foi apontado nenhum critério de índole técnico ou profissional mantendo-se a incógnita formal acerca das razões da extinção da equipa técnica da biblioteca e sobre o futuro deste importante equipamento cultural.

A referida equipa técnica, que assumiu funções no dia 01/03/2008 ao abrigo de um concurso público de recrutamento de pessoal para responder às necessidades de recursos humanos qualificados decorrentes do Contrato-Programa celebrado entre o Municipio da Nazaré e a DGLB (Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas), foi alvo de um despedimento coletivo num equipamento cultural inaugurado em 22/11/2008.

Esta infraestrutura cultural teve um custo total estimado de 1.5 milhões de Euros e a sua conceção e desenvolvimento teve em linha de conta o prosseguimento da política integrada de desenvolvimento da leitura pública que vem sendo impulsionada, desde os anos 80, através de um programa para a criação de uma Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (RNBP) no qual é concedido apoio técnico e financeiro aos municípios para a instalação ou modernização das respetivas bibliotecas. Este apoio tem sido formalizado com a celebração de contratos-programa entre o Ministério da Cultura/Secretaria de Estado Cultura (MC) e os municípios Neste cinco anos, dois meses e 25 dias que decorreram desde a abertura das portas do novo espaço da biblioteca foi executada uma estratégia de funcionamento deste espaço cultural tendo em conta as linhas orientadoras definidas pelo Manifesto da Unesco das Bibliotecas Públicas e tendo como preocupação central a prestação de um serviço público de qualidade junto da comunidade local quer na vertente cultural quer na área da promoção da leitura. A diversidade, quantidade e qualidade das atividades culturais desenvolvidas e os indicadores estatísticos globais para o período 2008 - 2013 são o testemunho disso mesmo.

Os trabalhadores em causa consideram-se seriamente afetados pela forma como foram "notificados" por uma simples folha desprovida dos requisitos mínimos legalmente necessários e ao arrepio das mais elementares regras de convivência numa sociedade civilizada e sem terem tido qualquer tipo de reunião explicativa prévia com os seus superiores hierárquicos.

Por tal situação constituir um precedente gravíssimo no panorama nacional das bibliotecas públicas, pela quebra das implicações legais decorrentes da assinatura de um Contrato-Programa celebrado entre o Estado Português e o Municipio da Nazaré, pelas mais pertinentes dúvidas sobre qual o destino que este equipamento irá ter de futuro, pela salvaguarda e valorização do livro e da leitura, fica registada, nesta missiva, o apelo sentido a uma tomada de posição pública, institucional e individual, de repúdio por este atentado à cultura e aos valores fundamentais da civilização europeia.

A equipa técnica da Biblioteca Municipal da Nazaré
Jorge Gustavo de Albuquerque Furtado Lopes, Rita Isabel Gomes Alves, Idalina Maria do Patrocínio Ferreira e Claudia Margarida Nascimento da Silva.

APRESENTAÇÃO EM LISBOA DO LIVRO "BIBLIOTECA JOANINA"



A Directora da Biblioteca Nacional de Portugal e o Director da Imprensa da Universidade de Coimbra têm o prazer de convidar V. Ex.ª para o lançamento da obra Biblioteca Joanina, da autoria dos Senhores Doutores Carlos Fiolhais e Paulo Mendes.

A sessão terá lugar no dia 25 de março, pelas 17h30, na Biblioteca Nacional de Portugal, estando a apresentação a cargo dos Senhores Doutores António Barreto e António Filipe Pimentel.

Meditação debaixo da tília do Jardim

Enquanto os informáticos aperfeiçoam os programas de fazer poesia, continuemos a fruir aquela que saíu, simplesmente, da mão humana para o papel. No dia que se convencionou ser o internacional da Poesia, um poema de José Gomes Ferreira

(Meditação debaixo da tília do Jardim.) 

Recordar torna o mundo mais exacto
com réguas de fumo,
ângulos perfeitos de olhos nos astros
- e a inocência daquele céu pardo
das manhãs inconcretas
que todos se lembram de ser azul
e não verde para lhe chamarmos oceano
ou folha de árvore.

A realidade é mais confusão
máquina-doida-de-repetir sombras inconcluídas,
bocas dependuradas nos ramos e nas corolas,
destinos de morder o vento,
narinas nas flores,
conluio de pássaros com o sol,
as plantas enganaram-se e deram incêndios em vez de rosas,
construção da Cidade da Morte com pele e cal,
ervas pisadas por espectros
- e este cheiro tão bom a sonho
que torna o mundo mais efémero e real.

As aves nos fios telefónicos alimentam-se de palavras.

In Poeta militante II (Encruzilhada, 1949-1950), Moraes, 1983, p.118.

ACREDITAR EM ALDRABICES NA RTP

Aparentemente a RTP resolveu usar o dinheiro que os contribuintes lhe pagam através da contribuição audiovisual e das transferências do Orçamento de Estado, para criar uma secção regular de aldrabices no telejornal das oito, a que chamou "acreditar". 

É extraordinário que, não tendo a ciência um espaço cativo no telejornal, essa espaço tenha sido dado à pseudociência.

- No dia 17 de Março a estação pública de televisão resolveu usar 7 minutos do telejornal (a partir do minutos 12) para fazer publicidade a um especialista em "medicina popular", que afirma fazer diagnósticos médicos medindo, aos palmos, a roupa dos pacientes.

- No dia 19 de Março, foram dados 6 minutos e 15 segundos no horário mais nobre da televisão pública a uma cartomante, que diz acertar em 90% das vezes.

- Ainda o espectador não estava recomposto de tantos disparates, quando no dia seguinte a televisão pública resolve dar mais 7 minutos e 24 segundos de publicidade a uma fitoterapêuta que afirma fazer diagnósticos de doenças graves através da leitura da íris, dizendo que "os olhos são o espelho da alma", lugar comum que não significa absolutamente nada. Mais grave ainda, afirmou tratar o cancro de uma paciente com a raiz de uma planta de origem coreana, cuja raiz "tem a forma do corpo humano". E conclui dizendo que "a quântica pode determinar a data da morte do ser humano".


A ciência ocupa 0,8% do tempo dos telejornais em horário nobre, a duração média das peças de ciência no telejornal da RTP é de três minutos e vinte e quatro segundos e 92% delas têm menos de 5 minutos. Mas, em quatro dias, a televisão pública gastou 20 minutos e 39 segundos a fazer publicidade enganosa a produtos e serviços milagrosos. 

Segundo o  Decreto-Lei n.º 57/2008 de 26 de Março de 2008 que regula o Regime das Práticas Comerciais Desleais, é considerada uma acção enganosa:

Artigo 7.º – Acções enganosas
1 – É enganosa a prática comercial que contenha informações falsas ou que, mesmo sendo factualmente correctas, por qualquer razão, nomeadamente a sua apresentação geral, induza ou seja susceptível de induzir em erro o consumidor em relação a um ou mais dos elementos a seguir enumerados e que, em ambos os casos, conduz ou é susceptível de conduzir o consumidor a tomar uma decisão de transacção que este não teria tomado de outro modo:
(...)
b) As características principais do bem ou serviço, tais como a sua disponibilidade, as suas vantagens, os riscos que apresenta, a sua execução, a sua composição, os seus acessórios, a prestação de assistência pós-venda e o tratamento das reclamações, o modo e a data de fabrico ou de fornecimento, a entrega, a adequação ao fim a que se destina e as garantias de conformidade, as utilizações, a quantidade, as especificações, a origem geográfica ou comercial ou os resultados que podem ser esperados da sua utilização, ou os resultados e as características substanciais dos testes ou controlos efectuados ao bem ou serviço;
(...)
Os bens ou serviços publicitados em todas estas peças da RTP constituem acções enganosas. E a televisão pública acha por bem publicitá-los gratuitamente em horário nobre. Isto não é serviço público. Serviço público seria contribuir para desmistificar estes enganos. Poderia fazer reportagens sobre o assunto. Poderia ouvir os curandeiros. Mas teria que ter sempre um contraponto racional, apresentar o conhecimento científico acerca desta assunto, e não ser um magafone acrítico dos curandeiros e cartomantes. Assim, não é jornalismo. É publicidade enganosa paga com o dinheiro dos consumidores de electricidade portugueses.

Não sei que que se passa pela cabeça da RTP. Nem que concepção delirante de serviço público o justifica. Isto é uma acção (deliberada ou inadvertida) que contribui para acabar com o serviço público de televisão.

"Um poema em menos de um minuto"


Rara era a conversa ou escrito em que o nosso amável filósofo Agostinho da Silva não insistisse numa ideia algo profética, que marca, aliás, a sua obra: a Pessoa - porque (quem sabe?) criada à imagem de Deus e, nessa medida, com uma centelha divina na alma - não pode existir para trabalhar, mas para contemplar. O futuro da Humanidade, esse futuro onde se situa o Céu na Terra, não seria, não poderia ser, pois, o trabalho, mas a criação.
“A reconquista do Éden comportaria para o homem a libertação do trabalho, lava-lo-ia dessa mancha de animal doméstico sob o jugo, havia de o restituir ao que é o seu essencial carácter: o ser pensante” (in Ir à Índia sem abandonar Portugal, 1994, Assírio & Alvim, p. 6).
Eis uma mensagem que nos envolve e eleva! Mesmo desconfiando deste auspício, pelo menos enquanto por cá andarmos, agrada-nos, certamente, imaginarmos máquinas, que inventamos, a executar as tarefas de subsistência - fundamentais é certo, mas que não estão à altura de "seres pensantes" - enquanto nos passeamos como "deuses por uma morna brisa da tarde", divagando, divagando... e, em resultado desse exercício, encontramos em nós, "medida de todas as coisas", belas ideias.

Belas ideias que podem ser eternizadas em artigos científicos ou em poema, por exemplo...

Deite-se a filosofia de Agostinho da Silva fora, porque, está visto, não serve!

O filósofo enganou-se, acontece. O que se delineia é, precisamente, o contrário: o nosso futuro há-de continuar a ser o trabalho; a criação, essa, vai ser privilégio da máquina.

Surgiu-me esta conjectura quando soube que artigos "científicos", produzidos por programas informáticos são, há que tempos, aceitem por revistas exigentíssimas, que previnem toda a fraude e erro com robustos requisitos de filtragem (aqui). Um espanto!

Não menos espantada fiquei quando, há pouco, li uma notícia que o Carlos Fiolhais me enviou: um programa informático produz poemas e rapidamente: "um poema em menos de um minuto". Sim senhor!

É o PoeTryMe, o "primeiro poeta artificial", que foi desenvolvido por um investigador da minha universidade, a Universidade de Coimbra. Comecei a ler o que se diz sobre a técnica, mas saltei linhas porque ainda tenho algum "preconceito" em relação a ela nesta matéria que julgo tão... (como direi?) humana. Mas, prometo voltar aos pormenores. Até porque tenho de me convencer que quem cria a técnica e a usa é... humano, logo, se calhar, vai dar ao mesmo.

Enfim, saltadas algumas linhas, li também que existe uma tal "Geração Automática de Poesia", que já tem catorze anos (não, essa não nasceu em Portugal) que é, nas palavras desse jovem informático, "uma nova forma de pensar a poesia e pode contribuir para estimular os poetas humanos, desafiando ainda mais a sua criatividade. Pode funcionar, quem sabe, como uma fonte de inspiração". 

Pois é... quem sabe? A primeira leitura do soneto escrito pelo revolucionário poeta não me deixou, digamos, muito convencida... mas, afinal, um poema não faz uma obra, espero por outros para formar melhor opinião.

que a uma natural ou nativa
onde a estação da primavera
que coisa segue inspiração fer
artificial negra sem artífice

não há sinfonia sem harmonia
onde a composição da poesia
um dia natural outro postiço
um natural porto o nascidiço

com natural e puro coração
não fica chama nem inspiração
na sua harmonia apolínea


por mais poética que poesia
por mais simetria que harmonia
a linda máquina computador


Nota: Pode o leitor dar conta da notícia aqui.

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...