sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

OS JESUÍTAS E A GLOBALIZAÇÃO CIENTÍFICA




Trecho ligeiramente adaptado do meu livro "História da Ciência em Portugal", que acaba de sair na Arranha Céus (na imagem, Observatório Astronómico em Pequim):

O século XVII, que entre nós ficou marcado pela acção dos Jesuítas, em particular pela obra desse grande jesuíta que foi o Padre António Vieira, foi, em Portugal, um século relativamente pobre do ponto de vista científico. O Império foi alvo de apetite por outras grandes potências marítimas, pelo que não pode deixar de ser considerado um feito militar e político a recuperação do Brasil pela coroa portuguesa após a Restauração.

Os jesuítas desempenharam um relevante papel na chegada da Revolução Científica a Portugal e ao mundo. A Ordem de Santo Inácio de Loyola, fundada em 1534, que se instalou em Portugal em 1540, haveria de desempenhar um papel determinante na Ciência e na Cultura, não só na metrópole mas também no Império português, ao longo de muito tempo, antes de ter sido extinta em Portugal por ordem do Marquês de Pombal, em 1579, facto que haveria de levar à sua extinção em todo o mundo. No grupo inicial dos companheiros de Loyola estava, além do português Simão Rodrigues, o basco Francisco Xavier – que veio para Portugal a fim de embarcar para o Oriente, onde ganhou jus à santidade. E foi em Portugal que se estabeleceram os primeiros colégios da Ordem. O Colégio de Jesus foi fundado em 1542, um ano antes da publicação dos famosos livros de Copérnico e Vesálio. No mesmo ano foi fundado o Colégio das Artes,  mas, passados sete anos, esta escola, que era gerida por humanistas oriundos de Bordéus (os mestres bordaleses, eivados dos ideais renascentistas, liderados por André de Gouveia) foi entregue aos jesuítas, que construíram um novo edifício na Alta da Cidade, ao lado do Colégio de Jesus, formando um amplo complexo, que esteve ligado por um refeitório comum. Os dois colégios, com a excepção da Igreja (hoje Sé Nova), pertencem actualmente à Universidade de Coimbra. O antigo edifício do Colégio das Artes, contíguo ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, foi, por sua vez, entregue à Inquisição, passando a funcionar como seu tribunal e nessa cidade.

Em Lisboa os jesuítas estiveram primeiro, a partir de 1542, em Alfama, no Colégio de Santo Antão o Velho e, depois, em 1579, passaram para o Colégio de S. Antão-oNovo, onde hoje é o Hospital de S. José. Em Évora estabeleceramse no Colégio do Espírito Santo, onde foi e ainda hoje é a Universidade de Évora. A acção científica dos Jesuítas em Portugal, apesar de notável, não pode ser considerada uniforme no espaço e no tempo. Por um lado, em Coimbra, com algumas notáveis excepções, a Ordem estiolou no final do século XVI e nos séculos XVII  e XVIII, tendo procurado o regresso à escolástica, num movimento que se inseriu na corrente mais vasta da ContraReforma (o Concílio de Trento, terminado em 1543, teve imediatos reflexos em Portugal).

Ficaram famosos os Conimbricenses, comentários a Aristóteles publicados em Coimbra, alguns dos quais da pena de Pedro da Fonseca, o professor mais importante desse período, e que haveriam de ser preponderantes no ensino jesuítico no mundo. Por exemplo, o matemático e filósofo francês René Descartes estudou por eles em jovem, num colégio jesuíta na Bretanha, não tendo gostado muito do que leu. Numa carta ao físico francês Padre Mersenne escreveu: “Os Conimbricenses são longos, sendo bom que fossem mais breves.”

Mas, por outro lado, os jesuítas que ensinavam na famosa Aula da Esfera no Colégio de S. Antão, em Lisboa, foram os principais responsáveis pela recepção de Galileu em Portugal, escassos anos após as primeiras observações deste em 1609 com o telescópio. Nesse ano, Galileu, usando uma luneta que tinha vindo da Holanda, olhou pela primeira vez para o céu e viu coisas verdadeiramente notáveis, como  montanhas e crateras na Lua que faziam sombras, tal como na Terra (o que indiciava que as leis da física eram as mesmas na Terra e fora dela), as manchas do Sol, as fases de Vénus e, principalmente, os satélites mais próximos de Júpiter, o que abonava em favor da veracidade da audaz hipótese de Copérnico e, portanto, contra o antigo modelo geocêntrico de Aristóteles e Prolomeu.

Alguns jesuítas em Roma comprovaram aquelas observações (o jovem Galileu tinha visitado o jesuíta Clavius, professor de Matemática no colégio central dos jesuítas, em Roma, em 1611, tendo os dois ficado amigos), embora não tivessem chegado ao ponto de darem razão a Galileu no que respeita ao heliocentrismo. Clavius afirmou simplesmente que, se as observações de Galileu estivessem certas, elas não deixariam de vir a ser incorporadas pelos astrónomos, em mais um aperfeiçoamento do modelo ptolomaico, como aliás já tinha havido tantos outros ao longo dos tempos. Clavius faleceu, porém, muito antes do caso Galileu.

É bem conhecido o processo que a Inquisição romana levantou a Galileu em 1633. Mas, bem antes disso, alguns jesuítas capazes de montar telescópios e de observar os céus com eles chegaram a Portugal. Entre eles estavam o austríaco Christophoro Grienberger e os italianos Giovanni Lembo e Christophoro Borri. Os dois primeiros foram interrogados pelo cardeal Belarmino no quadro do processo movido a Galileu. E todos foram intimados a renunciar às concepções copernicanas. As primeiras observações realizadas entre nós com o telescópio (que, na época, se chamava longemira) deveramse a padres jesuítas, tendo sido provavelmente feitas por Lembo na Aula da Esfera cerca do ano de 1612.

Em 1627, o padre Christophoro Borri, o autor de Collecta Astronomica (1631), depois de uma prolongada estada na Cochinchina (hoje Vietname), fez, em Coimbra, em 1627, observações da Lua com a ajuda de um telescópio, que deixou registadas em pormenor, incluindo uma imagem gravada. Foi ele que ensinou em Portugal como se fazia um telescópio.

Os telescópios haveriam de chegar à China e ao Japão pelas mãos de missionários portugueses ou estrangeiros que tinham passado por Portugal. Um dos mais famosos foi o italiano Matteo Ricci, que aprendeu português em Coimbra, antes de embarcar para o Oriente. Ricci traduziu as obras de Clavius para chinês. E conseguiu, adoptando os costumes locais, um encontro extraordinariamente fecundo de culturas. Passou evidentemente por Macau, que era para todos os ocidentais a porta de entrada na China. Um outro jesuíta português que por lá entrou foi o padre Tomás Pereira, que trabalhou no Tribunal das Matemáticas e chegou a dirigir o Observatório de Pequim.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Os papagaios pirómanos


Quando da crise política de julho passado, o sociólogo Manuel Vilaverde Cabral deu um depoimento ao Público no qual dizia, a certa altura, que «o PS não é capaz de reconhecer a sua responsabilidade na bancarrota». Penso que é aqui, nesta ausência de consciência de culpa, que radica boa parte do problema da atual situação política.

E, é óbvio, no governo de Passos Coelho que lhe facilitou a tarefa. Imprudente, e deslumbrado com o poder, pensou que iria resolver a crise “rapidamente e em força”, e que não precisariam do apoio e da co-responsabilidade do PS. Se tivessem sido mais avisados e cuidadosos, não deixando escapar os socialistas, agarrando-os desde o princípio às suas responsabilidades e procurando o seu apoio para as duras decisões, talvez hoje tivéssemos o tão necessário compromisso partidário alargado, e por certo não assistiríamos à agitação atual e estaríamos mais fortes para resolver as dificuldades.

Face à arrogância individualista do poder laranja, o PS esfregou as mãos de contente e foi saindo à socapa, pelas traseiras. E agora aparece como o campeão das alternativas que o não são e da «austeridade com crescimento», que é uma daquelas frases balofas de que o António José Seguro gosta muito e toda a gente anda a repetir, porque, já se sabe, o vírus duma frase feita espalha-se com a rapidez e o perigo de uma pneumónica.

Dir-se-ia que em duas gerações se tinha perdido a moderação e a pertinácia que caracterizava, por bons e maus motivos, os portugueses. Mas ainda não, valha-nos isso. Para lá de todos os erros políticos e abusos “de Lisboa”, há um Portugal que passa ao lado desta bagunça da comunicação social, das manifestações e das centrais sindicais. Trabalha, trata da vida com senso e realismo, vai furando por onde pode e, tendo noção de que se fizeram muitos e grandes disparates, considera que alguém tem de os pagar. O que nos vale é que empresários (quase sempre mal tratados pelo poderes - político, burocrático, fiscal e sindical – e, obviamente, trabalhadores de muitos géneros e feitios, vão produzindo riqueza e vão exportando, há universidades que investigam, colaboram com empresas, inovam, rompem com a inércia, e é isso que nos dá esperança.

Da maioria dos velhos políticos, e dos muitos papagaios que esvoaçam em volta, que se acham donos do regime e com direito a incendiar plateias, nada de bom há a esperar. Não têm capacidade para aprender com os erros, e ainda menos para perceber que muito do erro está neles. Aliás, no mesmo comentário Vilaverde Cabral lembra que o PS «é a terceira vez que chama o FMI – duas com Mário Soares (1978 e 1983) e esta com Sócrates». É muita coisa em pouco tempo.

 E o pior é que vai já a enfiar-se outra vez pelo mesmo caminho. Não consegue perceber que o tempo da irresponsabilidade já passou, que o da impunidade tem que passar, e que é preciso mudar mentalidades. Voltar ao bom senso que o povo tem. Acabar com as impunidades.

Entretanto Arménio Carlos destronou, nas televisões, Jorge Jesus. Os amanhãs cantantes, que hão de vir, sobrepuseram-se, e com razão, às vitórias vermelhas, que nunca chegam. Lá desembaraçado a falar é ele, muito mais que o outro. Valha-nos ao menos isso.

João Boavida

UMA IDEIA PARA PORTUGAL: A BOLSA E A VIDA

Depoimento que dei a Fernando Alvim que me pediu uma "ideia para Portugal" para um encontro no Pavilhão do Conhecimento:

A ciência é uma ideia para Portugal.  Fomos grandes quando tivemos ciência - nos séculos XV e XVI, pois os Descobrimentos não se fizeram ao acaso - e no século XVIII - quando a Revolução Científica chegou cá em força. Não fomos grandes quando não a tivemos, por exemplo durante boa parte do século XX.

Nos últimos 20 anos a ciência cresceu muito em Portugal, havendo hoje mais cientistas do que jamais houve. Os nossos jovens cientistas são a nossa maior riqueza.  Mas demos-lhes bolsas sem lhes dar vidas. É indispensável dar-lhe vidas: o futuro deles será o nosso.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Quem quer ser um Pai Natal?


Não há nada que os estudiosos da gestão gostem mais que metáforas. Uma boa metáfora serve para caracterizar um problema de gestão inteiro, embora seja vulgar que a metáfora seja isso mesmo, só metáfora que fica bem no power point. Uma das melhores para mim é o problema do Pai Natal bêbado que vem mesmo a calhar na quadra e na questão dos concursos da FCT para investigador.

O que é o problema do Pai Natal bêbado? As grandes superfícies comerciais americanas (e agora do mundo inteiro) não passam sem ter um sujeito a fazer de Pai Natal durante a quadra para ajudar às vendas. A coisa, entre americanos, é muito importante porque o sujeito contratado anda por lá a divertir a crianças e a tirar fotografias com as criancinhas ao colo. Um Pai Natal acarta consigo um risco de reputação importante.

No entanto, não há actividade mais sazonal que ser Pai Natal. As pessoas que prestam esse serviço são contratadas por pouco mais de um mês. A qualidade de um pai Natal depende em grande medida de encontrar alguém responsável disposto a aceitar um cargo de um mês a aturar crianças sabendo que vai ser despedido no dia 26 de Dezembro. Por isso, as histórias de superfícies comerciais que contratam Pais Natais bêbados são muitas, não porque tivessem a recrutar pessoas alcoolizadas, mas porque as pessoas que aceitam esses empregos a um prazo tão curto, já são pessoas com uma empregabilidade muito baixa devido a problemas desse tipo.

O que nos traz aos concursos de investigadores e a outros casos bem piores da sociedade portuguesa.  Estando eu relativamente próximo dos investigadores e não sendo um profissional da arte acho que tenho uma visão próxima e  desapaixonada do problema. Naquilo que me é dado a perceber, a FCT faz concursos periódicos para investigadores de acordo com orientações estratégicas(?) emanadas do poder político, sendo que esses concursos são para contratos temporários de alguns anos. Quatro, pelo que me parece.

Os resultados do concurso deste ano trouxeram, naturalmente, muitas desilusões às pessoas que estavam ao abrigo dos contratos anteriores, ou ao abrigo de outras formas de contratação temporária como bolsas, que esperavam ver a sua relação “laboral”  ter alguma continuidade. Independentemente da transparência do processo, que pode ser criticável ou não, a recorrência da questão da contratação temporária é um completo mistério para mim.

Há, de facto, tarefas que pela sua natureza são temporárias. Se investigador é uma delas, ou não, na minha opinião, é irrelevante. O governo da república, eleito pelo povo, entende que é temporária. Se o concurso foi aceite por quem concorreu é porque esse alguém decidiu ser o Pai Natal, pelas circunstâncias que só a ele dizem respeito. Mas, sublinho, aceitou um trabalho temporário.

Por tudo isto,  faz-me uma enorme confusão na minha cabeça que pessoas com inteligências no percentil 95 se prestem a ser Pais Natais. E, pior, invistam nisso. Como estou cansado de ver a mesma coisa nos concursos de professores, com pessoas a dizerem que têm contratos de um ano há 15 anos (o que é que ainda não perceberam do vosso posto de trabalho???) achei que deveria escrever estas linhas em estilo de “abre-olhos”. Se o vosso “patrão” (que neste caso é a república)  acha que vocês só devem ser contratados por 4 anos, acreditem que ele acha que vocês só têm utilidade por 4 anos. O ónus da prova de que valem mais que isso, não é da república, é vosso. Se ficaram de fora no concurso e insistem que deveriam ficar dentro, se estão a fazer esse investimento por um contrato de 4 anos é porque querem ser Pais Natais. Eu não consigo entender que direccionem o vosso investimento pessoal para conseguir um reconhecimento que valerá 4 anos quando não o estão a fazer para um reconhecimento que pode durar uma vida profissional com outros patrões. Até podem ter razão perante o vosso patrão. Perante vós, não têm nenhuma. No próximo concurso, vão fazer a mesma coisa? Com mais 4 anos de idade?

Do ponto de vista de contribuinte, estou muito bem. Tenho uma tarefa que digo que é sazonal e não me faltam candidatos para o fazer ao ponto de lutarem por um lugarito em tribunal(*). E, nesse ponto de vista, um problema de Pai Natal bêbado é coisa que estou longe de ter. Continuem assim!
Como vosso “quase-colega”, abram os olhos! Por favor...

(*) Sobre isto, conheço quem tenha ganho e quem tenha perdido. E quem ganhou, ganhou bem! Quem perdeu, não sei.

“E assim, acontece”


E assim, acontece” era a frase com que Carlos Pinto Coelho rematava as emissões do seu magnífico magazine cultural na RTP 2.

Completaram-se ontem, dia 15 de Dezembro de 2013, três anos sobre o falecimento do saudoso autor e apresentador do também saudoso ACONTECE, iniciado em 1994 e estupidamente extinto em 2003. O ministro da tutela, Morais Sarmento criticara a quantidade de dinheiro gasto para produzir o programa, dizendo “ser mais compensador oferecer uma volta ao Mundo a cada espectador”. Na sequência, o presidente da RTP, Almerindo Marques, anunciava o fim do programa.

No dia do seu funeral, ainda sob a comoção do seu súbito e doloroso desaparecimento, escrevi no «sopasdepedra» e no «sorumbático»:
“Acontece a todos. Uns hoje, outros amanhã. Sempre assim foi e assim será. Foi agora a tua vez. Amanhã será a dos que te viram partir. De todos, sem excepção. Dos bons como tu, que fazem falta à sociedade e que nós desejaríamos ter por cá muito mais tempo, e dos outros, incluindo os que não prestam, como aqueles que, estupidamente, te cilindraram na RTP, privando-nos do único e, até hoje, o melhor programa cultural televisivo em Portugal, e aqueles que, afastada a rapaziada que sancionou esse atentado à inteligência, não quiseram ou não souberam ir buscar-te e repor-te no lugar de onde nunca devias ter saído”...”Vais deixar saborosas saudades em muitos dos teus concidadãos e eu sou um deles. É um privilégio póstumo de que nem todas as almas se podem gabar. Mas com a tua, isso acontece”. 
Carlos Nuno de Abreu Pinto Coelho, de seu nome completo, nasceu em Lisboa a 18 de Abril de 1944. Foi um jornalista de muito prestígio, professor de jornalismo durante dois anos na Escola Superior de Tecnologia do Instituto Politécnico de Tomar, tendo revelado notáveis aptidões para a fotografia e a literatura. Viveu em Moçambique desde a idade de um ano até aos dezoito, em 1963, tendo regressado a Lisboa para cursar Direito, licenciatura que abandonou a poucas cadeiras de concluir a licenciatura.

A sua carreira de jornalista iniciou-se, em 1968, como repórter, no Diário de Notícias, e prosseguiu como um dos fundadores do Jornal Novo, redactor da Agência Noticiosa de Informação (ANI), correspondente em Portugal da rádio Deutsche Welle e redactor da revista Vida Mundial, dirigida pela igualmente saudosa Natália Correia. Na RTP foi director-adjunto de informação da direcção, chefe de redacção da Informação/2, director de programas e director de Cooperação e Relações Internacionais. Na rádio, deixou obra na TSF, na Rádio Comercial, na Antena 1 e na Teledifusão de Macau.

Numa carreira de pouco mais de três décadas, o autor do ACONTECE foi conferencista no Instituto de Altos Estudos Militares, membro do Conselho de Administração da Europa TV, coordenador dos Encontros de Televisões de Língua Portuguesa, presidente dos Comités Est-Ouest e Nord-Sud da Université Radiophonique et Télévisuelle Internationale, representante da RTP nos Comités de Informação e de Programas da União Europeia de Radiodifusão, da União das Rádios e Televisões Nacionais de África e da Organização das Televisões Iberoamericanas, representante do Ministério da Cultura na Reunião de Televisões Ibéricas, júri dos Prémios Emmy de Jornalismo de Investigação e dos Festivais de Cinema de Troia, Fantasporto, Cinanima e ICAM.

Pela vultuosa e útil obra que realizou, este nosso amigo foi distinguido como comendador da Ordem do Infante D. Henrique, oficial da Ordre des Arts et des Lettres do Ministério da Cultura da França, Prémio Bordalo, na categoria de Televisão, pela Casa da Imprensa, o Grande Prémio Gazeta, do Clube dos Jornalistas e o Prémio Carreira Manuel Pinto de Azevedo Jr., de O Primeiro de Janeiro.

Hoje, mais do que nunca, sentimos a sua falta.

A. Galopim de Carvalho

sábado, 14 de dezembro de 2013

Egito Gonçalves


O título de alguns livros é, por vezes, suficiente para o leitor os adquirir. Recentemente caiu-me nas mãos "Entre mim e a minha morte há ainda um copo de crepúsculo", livro póstumo de Egito, editado pela Campo das Letras em 2006, e com prefácio do saudoso Manuel António Pina.

Este título é dos mais extensos que conheço e também dos mais venustos. Duvido que, no futuro, saia para as livrarias um livro tão brilhante como este. Egito herdou o humor de Cesariny, de Assis Pacheco, de Alexandre O`Neill, e foi um dos muitos escritores que girou em torno da Árvore. Porque tenho a limousine à porta e um copo de Sol na mão, fico-me com esta relíquia, "Entre um século e outro":


Goethe entrou no automóvel do poeta alemão
que se divertiu a explicar-lhe o funcionamento
da máquina, o número de cavalos do motor,
provocando-lhes as naturais
reacções de espanto. Se eu pudesse imitá-lo,
em vez do poeta de Weimar
escolheria Eça. Este admiraria certamente,
com a ironia do risco rachado,
as maravilhas deste século! Alguém o guiaria
até às Águas Férreas, a visitar Antero
em casa de Oliveira Martins. Ruas estreitas
em macadame onde era fácil aparcar. Diria,
à despedida, com ironia a brunir-lhe o bigode:
"A civilização não se detém! Mas eu
ainda prefiro que os cavalos comam palha
e sejam quadrúpedes. Puxam as tipoias
onde os tornozelos das mulheres se tornam,
quando sobem, ardentes objectos de desejo,
luminosas fontes de inspiração. Que poderia
eu escrever no século das novas bestas?
Fico-me pelo meu tempo. Bem depressa,
os tornozelos serão relíquias anatómicas.

Hoje é Dia de Festa na Escola Ciência Viva na Mamarosa



Entrega dos Certificados dos Estudos Avançados

Na cerimónia serão entregues os certificados aos alunos que frequentaram os Cursos Avançados no IEC, bem como nas Escolas (Escola Adolfo Portela, Escola Homem Cristo, Escola Marques Castilho, Escola Secundária de Oliveira do Bairro e Instituto Educativo de Souselas). 

Participarão entidades regionais e nacionais. e o Prof. Alexandre Quintanilha.proferirá a conferência “Para que serve o conhecimento”

Local: IEC - Instituto de Educação e Cidadania, Mamarrosa
Data: Sábado, 14 de Dezembro, 16h00

NOVO LIVRO: "A BIBLIOTECA JOANINA"/ "THE JOANINA LIBRARY"

Convite enviado pela Reitoria da Universidade de Coimbra:

CONVITE

O Reitor da Universidade de Coimbra, o Diretor da Biblioteca Geral e o Diretor da Imprensa da Universidade têm o gosto de convidar V. Exª. para a cerimónia de apresentação da obra "Biblioteca Joanina", da autoria de Carlos Fiolhais (texto) e Paulo Mendes (fotografia).

A apresentação terá lugar na Biblioteca Joanina (Piso Nobre), no próximo dia 20 do corrente, pelas 17h 30m e estará a cargo do Senhor Doutor Artur Santos Silva.

Coimbra, Paço das Escolas, 12 de dezembro de 2013

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A excelência como análise multivariada

A excelência em determinado domínio não é uma coisa comum.
Nem todos os países têm, a cada momento, algum jogador de futebol capaz de ganhar a bola de ouro. Nem todos os países têm, a cada momento, cientistas capazes de ganhar um prémio Nobel. E os que ganham essas distinções precisam de equipas para as ganhar. O sucesso do indivíduo cada vez mais de deve à equipa. E o espírito de equipa é algo fundamental que se constrói ao longo do tempo.

Num texto anterior escrevi sobre o recente concurso Investigador FCT e o elogio da excelência feito, a esse propósito, pelo presidente desta entidade.
Numa entrevista que deu no momento da assinatura dos contratos, pude perceber qual a definição de excelência em que se apoia nessas declarações: trata-se de um indicador de excelência “definido pela Direção-geral da Investigação, Tecnologia e Desenvolvimento da Comissão Europeia e do Joint Research Center”(JRC) numa publicação de 2012, e relativo a dados de 2005 e 2009.

Nesse relatório, redigido por dois investigadores do JRC, é feita uma análise estatística multivariada para tentar definir esse indicador de excelência. Aí é explicada a opção por determinados indicadores (ou variáveis) em detrimento de outros e, após alguns testes de robustez do modelo, é finalmente apresentado o gráfico com os resultados finais (reproduzido abaixo - a recomendação do autor é a utilização do ‘Framework 3’, o do quadradinho azul).



Encontro semelhanças entre fazer análises multivariadas e o cozinhar, onde vamos misturando ingredientes à panela e provando, ajustando aqui e ali os condimentos, mas com vantagem para a análise estatística onde os ingredientes e condimentos (variáveis) podem ir sendo também retirados se necessário.

A primeira leitura que fiz do gráfico foi a de que, ao dividir os 33 países ali representados no eixo dos xis em três grupos com 11 elementos cada, Portugal (PT) fica na cauda do grupo do meio. Ou seja, não somos os mais excelentes nem os menos excelentes, estamos ali pelo meio. Uma outra leitura foi que, comparativamente à média dos 27 países da UE (EU27) estamos ali um bom degrau de “excelência” atrás, esta na linha da leitura do presidente da FCT.

De seguida entrei um bocado mais no relatório para perceber quais os ingredientes utilizados para a definição de excelência de investigação, e esses ingredientes dividem-se em três grandes “pilares”: excelência da investigação pública, interacções/colaborações e excelência dos ‘actores’ industriais.
No primeiro é avaliada sobretudo a produção científica, e são usados indicadores de quantidade de publicações e de citações, de posições de liderança em projectos europeus, e de patentes registadas. O segundo, para avaliar a internacionalização da actividade científica dos países, usa indicadores de quantidade de bolsas ERC (bolsas europeias para financiamento de projectos individuais de investigação) por país e de co-publicações com cientistas de outros países. Finalmente o terceiro, que avalia a relação com a indústria, usa indicadores de número de patentes, co-publicação com a indústria, e investigação em universidades e instituições públicas financiada por empresas.

Como se percebe, é um conjunto diverso de indicadores, escolhido de entre um número muito mais alargado pelos autores do relatório, para tentar compor esse indicador de excelência científica dos países da UE.

Uma análise mais pormenorizada da construção dos resultados com base nos três pilares atrás descritos (ver gráfico abaixo) mostra que o pilar 2 contribui muito positivamente e o pilar 1 razoavelmente (relativamente ao resultado final) para a posição da ciência portuguesa neste indicador, sendo o pilar 3, que se foca na relação com a indústria, aquele que “puxa” o resultado para baixo.




Há vários indicadores que são considerados, nos pilares 1 e 3, que estão relacionados com o registo de patentes e aí Portugal está claramente em desvantagem, com uma história de registo de patentes claramente inferior a muitos outros países. Bastará comparar o nosso historial aqui, com os equivalentes dos EUA ou, na Europa, da Alemanha por exemplo.
É também interessante notar que boa parte das patentes de portugueses, nos últimos anos, são registadas fora do país.

Um último gráfico do relatório que me parece interessante (abaixo) revela a dinâmica ao longo do tempo na investigação dos vários países, e é interessante ver Portugal (PT) entre os países “catching up”, com um movimento positivo neste indicador de “excelência”.


De tudo isto retiro o seguinte:
A posição portuguesa, nesta medida de “excelência” científica, não é tão débil quanto poderia parecer, apresentando resultados bons em determinados indicadores e uma tendência de evolução positiva (nessa altura, em 2009);
As colaborações internacionais da ciência portuguesa e a produção científica nacional contribuem de modo positivo para os resultados neste indicador de “excelência”, sendo responsáveis por boa parte dos parâmetros considerados nos pilares de indicadores 1 e 2, e pelo consequente patamar em que se encontra a nossa ciência, contrabalançando o peso muito negativo de uma débil relação com a indústria e pouca quantidade de patentes.

Isto vem reforçar a minha ideia, no seguimento do meu texto anterior, de que é um desperdício não aproveitar o investimento feito ao longo de décadas na qualificação e financiamento de cientistas em Portugal, que se empenharam no desenvolvimento do sistema científico que temos, que vestiram a camisola, contribuindo para a sua evolução extraordinária no contexto europeu.

Por isso, apostar apenas numa suposta “excelência”, desprezando o bom trabalho estrutural de muitos investigadores, é desestruturar e desfalcar consideravelmente a equipa que foi criada ao longo de anos e anos. E, sobretudo, romper a confiança e o espírito de equipa construídos na relação com os investigadores científicos. A moção, surgida na sequência do concurso Investigador FCT 2013 e já subscrita por mais de 1700 investigadores, professores universitários e bolseiros na altura da publicação deste texto, é disso forte indicador.

Termino afirmando que a “excelência” do relatório que analisei não me parece sê-lo, pelo menos com o significado que lhe atribuo, aquele partilhado por outras palavras como “óptimo”, “perfeito” ou “excepcional”. Este meu entendimento de excelência dilui-se ali num conceito utilitário forjado a partir de uma diversidade enorme de indicadores. E aqui concordo com o comentário no final do relatório feito por um dos especialistas que o reviu:
“There's just one small comment: I would replace the term 'research excellence' by something more fitting. That's not easy because the selected list of indicators is so divers. How about 'knowledge creation and utilization'?”

A verdadeira excelência é uma coisa rara e invulgar, e a utilização extensiva e abusiva desse conceito, vulgarizando-o, tira-lhe significado.

nota 1: está hoje a ser lançado oficialmente em Portugal o Programa Horizonte 2020, que vai financiar a ciência europeia nos próximos anos. O primeiro dos três pilares programáticos intitula-se ‘Excelência Científica’. Obviamente.

nota 2: todas as imagens foram retiradas do relatório
Vertesy D, Tarantola S., Composite Indicators of Research Excellence . EUR 25488 EN. Luxembourg (Luxembourg): Publications Office of the European Union, 2012. JRC72592
disponível online aqui: http://publications.jrc.ec.europa.eu/repository/handle/111111111/26632

A BIBLIOTECA JOANINA EM LIVRO


Já saiu do prelo da Imprenda da Universidade de Coimbra o livro de fotografia bilingue "A Biblioteca Joanina / The Joanina Library" da autoria de Paulo Mendes (fotografias) e minha (texto introdutório). É uma edição de luxo, de capa dura e magníficamente ilustrada, cujo baixo custo se deve ao patrocínio do Casino da Figueira. O livro será apresentado pelo Doutor Artur Santos Silva, na próxima sexta-.feira, dia 20, pelas 17h30, na Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, precisamente o objecto que o livro esplendorosamente mostra.

Deixo o início do meu texto:

"Entra-se, passando da clara luz do dia para a espessa penumbra interior, e o primeiro olhar é de um deslumbramento incrédulo. O dourado parece estar por todo o lado, o brilho procurando vencer o escuro. A vista habitua-se rapidamente à diminuição luminosa e perde-se no interior da Biblioteca, não sabendo bem para onde olhar, tal é a profusão da folha dourada, que, nos seus primórdios setecentistas, deveria ofuscar. De facto, entrar na Biblioteca é como entrar numa igreja barroca, com a diferença de que, neste templo secular recheado de livros antigos, o Rei ocupa o lugar do Todo Poderoso. Alongando-se na profundidade, em busca de um hipotético altar, a vista acaba por se fixar na mira mais longínqua e encontra o retrato do monarca setecentista que mandou executar a obra, D. João V [1]. É o Rei, num retrato não assinado mas certamente da autoria de Domenico Duprà, um pintor italiano que trabalhou na sua corte, que ocupa o lugar que estaria reservado à divindade se acaso estivéssemos numa igreja.

Será preciso que o dono da vista se aproxime e ademais saiba latim para que consiga ler e compreender a inscrição que jaz aos reais pés. Começa assim:

 “Regia, quam cernis, speculum tibi prestaet imago...”

Na totalidade, pode-se traduzir por [2]:

“Neste régio retrato, como em espelho Vedes quanto este espaço compreende. Tudo o que de majestoso aqui se ostenta, Feito é de João Quinto. Eterna seja, Como o nome do príncipe, a obra sua.”

 O visitante começa agora a perceber a intenção da cobertura em ouro. A Biblioteca devia ser o espelho do rei e este era verdadeiramente poderoso, senhor de um vasto império cuja parcela mais rica era, sem dúvida, o Brasil. O ouro para cobrir a biblioteca tinha vindo, em boa parte dessa colónia,(...)"

Apresentação do livro "Alfabetizar em Democracia"

Veja aqui a apreesntação no Liceu Camões do livro de José Morais "Alfabetizar em Democracia", edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos. O apresentador foi António Sampaio da Nóvoa, com breve introdução minha: aqui.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Café, Livros e Ciência em Aveiro

EM MENOS DE DOIS DIAS CONCURSO INVESTIGADOR FCT PODE IR PARA TRIBUNAL


Com o emprego científico escasso e precário, ficam dúvidas e muitas perguntas por responder sobre o modo como decorreu a edição deste ano do concurso Investigador-FCT, que visa a contratação de 1000 doutorados até 2016. Em causa está o modo como foi executado o guião de avaliação, que na prática compreende dois momentos:

1. Uma avaliação de cada candidatura por dois ou três avaliadores externos (mail reviwers), que dá origem a uma classificação numérica. 

2. As candidaturas ordenadas (não se sabe se todas ou apenas as melhores classificadas) são depois enviadas para um dos painéis de avaliação, que atribui a classificação final, que determina ou não a concessão do contrato.

É um concurso extremamente competitivo e exigente, no qual apenas cerca de um em cada dez candidatos tem sucesso. O modo como o concurso decorreu, nomeadamente no que diz respeito aos avaliadores externos (quem são e que avaliação produziram de cada candidatura) levanta dúvidas a um grupo de investigadores, que exigem um esclarecimento cabal à FCT. Suspeitam que tenha ocorrido um corte significativo e pouco transparente nesta fase, que impediu a maioria das candidaturas de serem avaliadas pelos painéis de avaliação internacionais.

A FCT publicou um esclarecimento no dia 3 de Dezembro, no qual remete o atraso na divulgação dos detalhes de todo o processo de avaliação das candidaturas para problemas na plataforma informática. Enquanto esperam que o rapaz do help desk se digne a arranjar os computadores da FCT (que agora engloba também a FCCN, Fundação para a Computação Científica Nacional) um

Entretanto, numa reunião de investigadores ocorrida na passada segunda-feira foi aprovada uma moção que dá um prazo à FCT, até dia 16 de Dezembro às 16h, para prestar todos os esclarecimentos. Caso contrário segue-se “uma acção judicial no sentido de se anular este concurso e de se proceder a um novo”.

O rapaz do help desk é melhor despachar-se!

Tic, tac, tic, tac...

COMUNICAÇÃO DE CIÊNCIA E CONCURSO DE BOLSAS FCT


Está disponível no sítio da Fundação para a Ciência e Tecnologia  a composição dos painéis de avaliação para o concurso de bolsas individuais 2013. Como era esperado, não há um domínio de comunicação de ciência. Assim, a FCT também terá que esclarecer como são avaliadas as candidaturas que tenham parcial ou totalmente uma componente de Promoção e Admnistração da Ciência e Tecnologia (as extintas bolsas PACT). 

É importante, continuar a divulgar e assinar o Manifesto pela Comunicação de Ciência em Portugal.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

LANÇAMENTO DE "HISTÓRIA DA CIÊNCIA EM PORTUGAL"


(clicar para ver melhor)

A mercantilização da educação

O propósito de fazer chegar o ensino a todos, para que, independentemente da sua condição de origem, aprendessem um núcleo central de conhecimentos, como forma de garantir a igualdade de oportunidades, derivou de um principio iluminista dos mais importantes que este movimento científico e humanista produziu.

Foi ele que, muito por via da pressão dos intelectuais e das populações, obrigou os países ocidentais a abrirem escolas a expensas do erário público, a construírem currículos libertos de qualquer doutrina, a estabelecerem certificações. Ainda que muitos poderes políticos, neste ou naquele momento, se tivessem desviado deste princípio foi ele que permitiu a escolarização de um número crescente de crianças no século que passou.

Os problemas que a operacionalização do princípio suscitou e suscita não derivam da sua essência, mas de contingências sociais, económicas, políticas ou outras. Porém, o questionamento destas contingências tem-se confundido (algumas vezes deliberadamente?) com o questionamento, ou subtil negação do próprio princípio.

Num clima de pensamento pós-moderno, neo-liberal, mercantilista... que (propositadamente) afasta a racionalidade e tudo legitima, torna-se difícil perceber o que se questiona, afinal, e que respostas podem ser encontradas para esses problemas.

O que resulta, na confusão de discursos manipulados e manipuladores, é os sistemas educativos irem perdendo sustentação até se desmoronarem por completo. É esse o cenário do século XXI.

Sobre o assunto vale a pena ler esta entrevista a Gustavo Fischman, professor na Universidade Estadual do Arizona (Estados Unidos) de que aqui se deixa um extracto.
Na prática, assiste-se à globalização da mercantilização da educação. Que outros países estão a pôr em prática este comércio e que consequências poderão advir da abertura aos mercados dos sistemas públicos de educação a médio/ longo prazo?
Este é um fenómeno muito desenvolvido nos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Europa continental, Austrália e também na Ásia e América Latina. A globalização, particularmente com as grandes mudanças nos sectores económicos, produtivos e informáticos, o grande aumento do número de pessoas que hoje lutam para se manter dentro das escolas e universidades (não é por acaso que este período é denominado como “época do conhecimento”), e, particularmente importante no caso de América Latina, as reformas económicas e políticas de redução da participação do Estado nos assuntos nacionais, inclusivamente na área de educação, põem cada vez mais em risco a escola pública. Além destes factores, sabemos que em qualquer parte do mundo, inclusivamente nos Estados Unidos, o custo mais elevado de uma instituição diz respeito ao salário dos professores. Para expandir os serviços com qualidade, seria necessário criar mais escolas e formar mais docentes. A alternativa encontrada pelas escolas foi aumentar o número de alunos por sala de aula e gastar menos com os salários. Só que, dessa forma, a qualidade diminui. Costuma dizer-se que no passado a educação era melhor do que actualmente. Apesar de tudo, acho que essa afirmação é difícil de sustentar quando sabemos que, actualmente, os professores desempenham um maior número de tarefas e têm de dar resposta a exigências sociais e educativas que antes não existiam. Isto acontece porque, em muitos lugares, a capacitação não é vista pela administração como parte do desenvolvimento profissional do docente. Quando as escolas se comercializam procuram sempre ter o menor custo possível e para fazer investimentos querem ter garantias de lucro, o que é muito difícil de prever no sector educativo. É uma situação muito complexa, com muitos agentes económicos a concorrer no sector educativo para ganhar dinheiro. Nos Estados Uni-dos, 250 das companhias do grupo da Fortune 500 envolvem-se nesta corrida através da oferta de materiais educativos e existem grandes cadeias de televisão e rádio a querer vender “pacotes educativos”, tornando muito difícil distinguir quem decide aquilo que os estudantes devem ou não aprender.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A EXCELÊNCIA DA FCT

A Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) repete ad nauseum a palavra "excelência". Mas há um facto indesmentível que contraria o seu discurso: ela própria não é excelente.

SELECÇÃO DE LIVROS PARA O NATAL

Na semana passada, num telejornal da TVI24, com o jornalista Pedro Carvalho, levei comigo e apresentei uma escolha pessoal de livros de Natal. Fica aqui registada (por ordem alfabética do autor), pois não tive tempo de falar de todos:

1- António Lobo Antunes, "Quinto Livro de Crónicas", D. Quixote (crónicas da "Visão" de um dos maiores prosadores contemporâneos).

2- Alexandra Prado Coelho, "Vai Brasil!", Tinta da China (reportagens ao vivo e a cores do Brasil).

3- Afonso Cruz, "Para onde vão os guarda-chuvas", Alfaguara (um livro original, que parece infantil no início.

4-  David Deutsch, "O Início do Infinito", Gradiva (uma extraordinária obra, bastante optimista a respeito do poder da ciência).

5- Darrell Duff, "Como Mentir com a Estatística", Gradiva (um clássico que nensina a desconfiar da estatística).

6- Gavin Hewitt, "O Continente Perdido", Bizâncio (sobre a crise da Europa, Portugal incluído)

7- Ion Morris, "O Domínio do Ocidente", Bertrand(uma comparação magistral entre o Ocidente e o Oriente: o Ocidente  domina por enquanto).

8- Fernando Pessoa, "O Regresso dos Deuses e Outros Escritos de António Mora", Assírio e Alvim (um heterónimo pouco conhecido de Pessoa, ligado a Caeiro).

9- Jerónimo Pizarro e Partício Ferrari (orgs.), "Fernando Pessoa: Eu sou uma antologia. 136 autores fictícios", Tinta da China. (a multiplicidade estonteante de Pessoa)

10- Gonçalo M. Tavares, "Atlas do Corpo e da Imaginação", Caminho (um livro muito original, onde se entra por qualquer sítio e se sai por qualquer sítio, transformado relativamente à entrada)

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...