quarta-feira, 21 de março de 2012

A valorização da divulgação científica e da inovação!


Ajustes na Plataforma Lattes estimulam a divulgação científica
Em breve dois novos critérios de avaliação do pesquisador serão inclusos na Plataforma Lattes, disponível na internet desde 1999. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico ( CNPq/MCTI ) disponibilizará duas abas, uma na qual o pesquisador colocará informações sobre a inovação de seus projetos e pesquisa; e na outra, listará iniciativas de divulgação e educação científica.
Hoje, o Lattes fornece dados de alta qualidade com cerca de 1,8 milhões de currículos e quatro mil instituições cadastradas, sendo que 8% destes currículos são de doutores e cerca de 13% de mestres. A Plataforma representa a experiência do CNPq na integração de bases de dados de currículos e de instituições da área de ciência e tecnologia em um único Sistema de Informações, cuja importância atual se estende, não só às atividades operacionais de fomento do CNPq, como também às ações de fomento de outras agências federais e estaduais.
Segundo o presidente do CNPq, Glaucius Oliva, as duas novas abas promoverão um maior contato da sociedade com a ciência e estimularão ainda mais a inovação. "Se antes os cientistas faziam suas pesquisas em laboratórios fechados e pouco divulgavam seus trabalhos por considerar ser papel do jornalista ou professor levar a informação científica à sociedade, hoje percebemos que isso não é o suficiente. O país precisa de uma ciência cada vez mais antenada com a sociedade, e para isso, o cientista deve reconhecer o seu papel de engajamento no cotidiano das pessoas. Foi nesse contexto que percebemos a necessidade de criar novos critérios de avaliação, que deverão aumentar o conhecimento da sociedade sobre as atividades científicas e estimular o processo de inovação", afirma.
Oliva avalia ser fundamental a inserção das novas abas, já que no Brasil há um fosso profundo entre aqueles que fazem ciência e os que a consomem. "A sociedade não conhece com profundidade todas a riqueza da ciência brasileira e nem que ela tem contribuído para o desenvolvimento nacional e para o bem estar das pessoas. Isso ocorre porque ainda há pouco diálogo dos pesquisadores com a sociedade. Estes são pagos e financiados por ela, por isso têm a responsabilidade de prestar contas e informar sobre aquilo que fazem. As pessoas precisam usar a ciência no seu dia a dia, e não só terem consciência dela", pontua.
Divulgação e educação científica
O novo item de avaliação do CNPq terá em conta o que os cientistas fazem para levar seu trabalho ao público e para promover a educação científica. O CNPq avaliará na aba divulgação, por exemplo, se os cientistas têm blogs pessoais sobre ciência, se divulgam à mídia os resultados dos seus trabalhos, se proferem palestras ou participam de feiras de ciência em escolas, por exemplo. Se antes se valorizava apenas a atividade acadêmica cientifica do profissional na hora de avaliar o seu desempenho, hoje o pesquisador precisa se conscientizar da importância de se fazer divulgação.
Esse item contará na avaliação de produtividade do pesquisador, sendo que todas as áreas serão analisadas pela divulgação científica. Além disso, o CNPq desde de junho de 2011 exige, na submissão eletrônica das propostas de pesquisa e nos relatórios eletrônicos de concessão científica, que o pesquisador escreva em linguagem clara, para não especialistas, o porque do seu estudo ser relevante e os resultados alcançados. O CNPq espera com essa medida criar um banco de dados para alimentar os jornalistas, que poderão ter acesso a uma busca por tema, área geográfica, instituição, entre outras opções. Para que se tenha ideia da quantidade de relatórios, só o Edital Universal, leva hoje anualmente cerca de 15 mil propostas de pesquisa para o Conselho abrangendo todas as áreas do conhecimento.
Mundo inovador
Sabe-se que estimular a inovação também é uma importante missão do CNPq. Neste sentido, junto com a aba sobre divulgação, a agência criou também um outro espaço que pede que os cientistas descrevam a inovação de suas pesquisas. Segundo o presidente Oliva, a ciência moderna, esta intrinsecamente associada à inovação, por isso é preciso estimular cada vez mais as empresas a se apropriarem do conhecimento gerado na academia, para gerar riquezas e serviços úteis à sociedade.
"Precisamos aproximar mais as universidades das empresas para que estas se tornem mais competitivas no mercado externo. É imperativo disseminarmos a cultura da inovação nas cadeias produtivas, diminuirmos também a burocracia e os custos para o registro de patentes e estimularmos ainda mais os empreendedores tecnológicos. Só assim, com esta sinergia entre o governo, a academia e o mercado, o Brasil alçará voos mais altos", ressalta.
Assessoria de Comunicação Social do CNPq

O OCIDENTE E A CHINA


Minha crónica no "Público" hoje (no gráfico, aumento da produção científica chinesa, medida pelo número de artigos; neste momento a China só é passada pelos Estados Unidos, não representado aqui, e provavelmente ultrapassará já em 2013 este país):

No próximo ano, comemorar-se-ão os cinco séculos da chegada dos Portugueses à China. Com efeito, foi em 1513 que o explorador português Jorge Álvares chegou, vindo de Malaca, ao Rio das Pérolas. Foi não só o primeiro português, mas também o primeiro europeu a aportar ao “Império do Meio”. Encontrou, talvez para sua surpresa, uma extraordinária civilização milenar. Algumas décadas volvidas, em 1557, a península de Macau era entregue pelos chineses aos portugueses, através de uma licença de estabelecimento que reconhecia uma ocupação anterior e que haveria de valer até ao fim do século passado.

A Ásia não conheceu nada parecido com a explosão do conhecimento que foi, nos séculos XVI e XVII, a Revolução Científica na Europa, um movimento que transformou completamente o mundo. Mas essa Revolução chegou lá. A ciência moderna, uma “invenção” ocidental, chegou ao Oriente pela mão dos portugueses e só por isso Portugal merece umas linhas, senão mesmo uma página inteira, num breve livro da história do mundo. De facto, foram jesuítas portugueses ou formados em Portugal que introduziram na China conhecimentos de astronomia bem mais exactos do que aqueles que dispunham os imperadores chineses, o que passou pela utilização de instrumentos como os telescópios e relógios mecânicos (que se tornaram populares na corte imperial).

A China, desconhecedora da ciência, conhecia, porém, a tecnologia: tinha desenvolvido artefactos avançadíssimos. Que ciência e tecnologia, apesar de hoje estarem intimamente relacionadas, se distinguiram no passado fica claro se pensarmos que, muito tempo antes dos portugueses lá chegarem, tinham sido criadas na China fantásticas tecnologias - a bússola, a pólvora, o papel, a imprensa, etc. Mas, em vez do “saber fazer” da técnica, a ciência caracteriza-se pelo “saber”. A ciência distingue-se pela curiosidade, pela interrogação, pela ultrapassagem dos limites do conhecido. Foi, embora misturada com outras (como a religião e o negócio), uma atitude de curiosidade a que impeliu os navegadores mais ocidentais da Europa a ir mais para ocidente e para sul, e depois, uma vez dobrado o Cabo da Boa Esperança, para oriente, até Macau. Os chineses, pelo contrário, que se colocavam a si próprios no centro do mundo, não tiveram a mesma atitude. Foram os portugueses que foram à China e não os chineses que vieram a Portugal. Mas a pergunta é legítima: Por que razão foi Jorge Álvares a descobrir a China em vez de ser um navegador chinês a desembarcar em Lisboa? De facto, os chineses dispunham na época de meios formidáveis de navegação (alguns dos seus navios “metiam no bolso” as frágeis caravelas lusitanas) e os seus almirantes só não vieram mais para ocidente por manifesta falta de interesse. Houve um, Zheng He, que, logo no início do século XV, chegou com portentosa frota à costa oriental de África, mas voltou para trás, não passando o cabo em rota inversa à de Vasco da Gama.

Como é sabido, a ciência chegou ao Oriente para ficar: deixou há muito de ser um património ocidental para se tornar num bem universal, partilhado por Ocidente e Oriente. Se houve há cinco séculos uma passagem do testemunho científico de Ocidente para Oriente, hoje há uma passagem de testemunho em sentido inverso quando cada vez mais ciência e tecnologia e cada vez mais produtos de base científico-tecnológica vêm da China. Hoje, os chineses são dos povos que mais participam no esforço científico global de descoberta do conhecimento em todas as áreas. O lucro começa por ser local. O impressionante crescimento económico chinês nos últimos anos tem um forte contributo da ciência e da tecnologia. O previsto crescimento do PIB chinês de oito por cento este ano dá-se ao mesmo tempo que cresce o apoio do governo central à investigação, que vai subir este ano de doze por cento para 36 milhares de milhões de dólares. E, se a relação entre ciência, tecnologia e economia já é grande, o objectivo governamental é que seja maior. O primeiro-ministro Wen Jiabao solicitou no seu recente discurso no Congresso do Povo uma “integração ainda maior da ciência com a economia”. Estava, por exemplo, a pensar na investigação em agricultura, necessária para alimentar uma classe média emergente.

Estará hoje em declínio a civilização ocidental enquanto o Oriente ascende? O historiador britânico Niall Ferguson, autor do livro saído há pouco entre nós “Civilização: o Ocidente e os outros” (Civilização) discute precisamente esta questão. Mas, quando aí lemos os factores que determinaram o domínio do Ocidente – por ordem alfabética, a ciência, a competição, os direitos patrimoniais, a ética do trabalho, a medicina e a sociedade de consumo -, não podemos deixar de reconhecer que a actual emergência da China é, afinal, o triunfo da civilização ocidental.

terça-feira, 20 de março de 2012

O Homem de Acção e a Actualidade da Arte


Post convidado da autoria de Maria do Carmo Vieira:

Vive a tua vida. Não sejas vivido por ela.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

«Mudança» é, porventura, nos nossos dias, um dos vocábulos mais em moda. A ele se associa estreitamente um outro, «movimento», que convive com o seu sinónimo, «acção», e em cujas entrelinhas se entrevê o tão repetido espírito «empreendedor». Neste obsessivo jogo de palavras que «pedagogicamente» se difunde à exaustão e se encara como veículo de novos valores a cultivar, deparamo-nos, por exemplo, com iniciativas camarárias para jovens (a que as crianças também não escapam) cujas t-shirts, oferecidas, têm estampado: «Jovens (ou crianças) em movimento», marca elucidativa de «mudança» e testemunho de uma formatação que desde cedo se inicia, preparando o caminho futuro do «vencedor»; situação idêntica ocorre em documentos oficiais, nomeadamente nos Ministérios, todos eles orgulhosamente «em movimento», uma forma de em teoria garantir que trabalham muito pelo país; e até à velhice se impõe agora essa designação que garantirá a imagem do «eternamente jovem», talvez porque a idade da reforma já se alterou e ameaça novamente alterar-se, como bem sabemos, sendo assim uma maneira de os pré-reformados, já considerados «velhos», se irem habituando à ideia do «envelhecimento em acção», que o slogan do ano internacional apregoa, juntando-lhe sob a capa de uma bondade enganadora a «solidariedade entre gerações».

Conscientemente foi-se menosprezando o «respeito pelos velhos», aqueles que trazem esculpido no rosto a passagem do Tempo e, consequentemente, a experiência e o saber que a vida lhes foi facultando. Agora, sob o disfarce da reabilitação da sua imagem, propaga-se uma caricatura de «velho», trabalhada através de fotografias que de modo artificial exaltam uma alegria eufórica, feita espectáculo de consumo. O próprio discurso repetidamente publicitado é no mínimo caricato, adequando-se às exigências do «mundo novo», entre as quais se inclui a proibição de envelhecer naturalmente e daí o «Não envelheço» ou o «Nunca é tarde demais para… ter um espírito jovem» [1]. Nesse âmbito, o verso - «Cada coisa a seu tempo tem seu tempo» - de Ricardo Reis, heterónimo (de «cultura clássica») de Fernando Pessoa, será considerado antiquado e desajustado enquanto máxima, assim como dificilmente será compreendida a metáfora, do mesmo poema, «À noite, que entra, não pertence, Lídia,/O mesmo ardor que o dia nos pedia.»

Neste «mundo novo», a que pretendem habituar-nos, sobressaem, com alarido mediático e de forma totalitária, «os homens de acção», os tais «Príncipes», em tudo vencedores, e nossos «irmãos», a que se referia Álvaro de Campos, o heterónimo, «engenheiro naval», criado por Fernando Pessoa. Seduzidos pela sua própria imagem e crendo-se «iluminados» por uma verdade que não admite discussão, aceitam estes «homens de acção», «eternamente jovens», apontar o caminho da mudança que ideologicamente não prevê qualquer preocupação com o Outro, que pode ser «estorvado, ferido e esmagado» [2] se o lucro e o sucesso assim o exigirem. Na sua óptica, o cansaço não existe e o ser humano que trabalha em função de outrem nada mais deve ser do que um escravo de trabalho, e daí a inutilidade da cultura, o desprezo pela sensibilidade ou a indiferença pelo quotidiano familiar. Eles, «os homens de acção», são os práticos, os que conseguiram fortuna em pouco tempo e à custa do seu próprio trabalho (dizem), acusando de falta de vontade quem não consegue tal milagre; são ainda os que anseiam desalmadamente pela competição e pela sua projecção no mundo exterior, o único que conhecem e mesmo assim de forma superficial.

Estes homens habilmente funcionais e de personalidade optimista, ditada pela euforia da «acção», foram descritos ao pormenor por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, e semi-heterónimo de Fernando Pessoa que no-lo deu a conhecer através do «Livro do Desassossego». É com as suas palavras que termino, certa de que elas nos farão reflectir sobre os dias de hoje e a actualidade da arte:

O mundo é de quem não sente. A condição essencial para ser homem prático é a ausência de sensibilidade. […]. Quem simpatiza pára. O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte – ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima. […] Todo o homem de acção é essencialmente animado e optimista porque quem não sente é feliz.[…] O patrão Vasques fez hoje um negócio em que arruinou um indivíduo doente e a família. Enquanto fez o negócio esqueceu por completo que esse indivíduo existia, excepto como parte contrária comercial. Feito o negócio, veio-lhe a sensibilidade. Só depois, é claro, pois se viesse antes, o negócio nunca se faria. «Tenho pena do tipo» disse-me ele. «Vai ficar na miséria». Depois acendendo o charuto, acrescentou: «Em todo o caso, se ele precisar qualquer coisa de mim» - entendendo-se qualquer esmola - «eu não esqueço que lhe devo um bom negócio e umas dezenas de contos.» […]. Como o patrão Vasques são todos os homens de acção – chefes industriais e comerciais, políticos, homens de guerra, idealistas religiosos e sociais, grandes poetas e grandes artistas, mulheres formosas, crianças que fazem o que querem. Manda quem não sente.

Maria do Carmo Vieira

NOTAS
[1] Anúncio na Revista Tempo Livre, (INATEL), a propósito do «Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre gerações, 2012».
[2] Bernardo Soares / Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego

Nova teoria do mal

Miguel Real é professor de Filosofia, intervém num programa na rádio, escreve com regularidade para um jornal, é romancista... olha para o mundo e pensa-o.

No seu mais recente livro pensou-o a partir de algo que é primordial, normal, ontológico, desafiador, universal, absoluto, substancial, criativo, que é um mistério ou talvez não, que é... a origem do saber humano: o Mal.

"Há 2000 anos que a civilização europeia se fundou na crença de que Jesus Cristo teria resgatado o mal do coração do homem - um novo mito após a morte das mitologias greco-romanas. O corpo de Jesus Cristo foi oferecido como resgate e penhor da vitória do homem sobre o mal. Deus triunfara sobre o rival diabo, oferecendo-lhe em troca o sofrimento divino de seu filho, Cristo - o novo grande mito criado pela Europa, estendido ao mundo inteiro através de Lisboa e Madrid, dominando-o. Mas o mal continuou a infestar a Europa e a humanidade, e, contra a esperança das primitivas comunidades cristãs, a fome, a violência, a dor, o sofrimento, a escassez, permaneceram e têm permanecido reis e rainhas da acção humana, agora comandadas pelos próprios cristãos" (páginas 91-92).

Obrigada, Câmara Clara

O programa Câmara Clara da Antena 2 da Radio Televisão Portuguesa fez seis anos.

Aproximando-se o Dia Mundial da Poesia, dedicou a edição do passado dia 18 de Março à poesia, precisamente: a quem a faz, a diz, a edita, a ilustra.

Vale a pena ver ou rever o programa para estar com os nossos poetas (Fernando Pessoa, Ruy Belo, Mário Casariny, Luís Pacheco, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Gomes Ferreira...) os nossos diseurs (João Villaret, Mário Viegas, Germanda Tãnger, João Grosso, Eunice Muñoz... e alguns anónimos) os nossos editores (Hermínio Martinho, João da Cruz Santos...)

Em 20 de março de 1916 é publicada a Teoria da Relatividade Geral


Veja matéria abaixo:



A evolução do PIB no Brasil

Livros com química: a memória, o sono e o sonho

A propósito da Semana Internacional do Cérebro, e ainda com base na palestra Livros com Química, recordo alguns livros que nos podem conduzir à química da memória, sono e sonho.

O livro Cem anos de Solidão de Gabriel Garcia Marques, escrito em 1967, começa da seguinte forma:

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou para conhecer o gelo.

Não é dito se o gelo que trazem os ciganos foi ou não obtido de forma artificial, embora muito provavelmente não tenha sido. A produção artificial de gelo só pôde começar a ser realizada em larga escala com os estudos termodinâmicos sobre a expansão dos gases. E, embora lá pelo meio do livro, alguns dos filhos do coronel acabem por ter uma fábrica de gelo, não temos pormenores sobre esta no livro. Também no início do livro, o cigano Melquíades traz utensílios para a construção de um laboratório rudimentar de alquimia e, ao longo da narrativa, este laboratório, assim como alguns resultados alquímicos, vão reaparecendo. Porque se lembrou daquele momento da sua infância o Coronel? A química da criação das memórias e do seu apagamento vai começando agora a ser desvendada. Se a impressão e a atenção que devotamos a um assunto ou situação são importantes, uma proteína conhecida como CREB e um neurotransmissor, a anandamina, parecem ter um papel importante no mecanismo bioquímico de fixação e apagamento das memórias.

É muito curioso, numa dada altura da história, o surgimento da peste da insónia, uma doença de realidade fantástica, que leva à perda da memória. Para evitar o esquecimento, colocam-se etiquetas com os nomes nas coisas, depois completadas com instruções de funcionamento. Por exemplo, isto é uma vaca, tem de se ordenhar. No meio de Macondo coloca-se a placa Deus existe. É feita uma máquina que permite recapitular todos os dias todos os conhecimentos, mas o poder do esquecimento é enorme. Os que queriam dormir, não por cansaço, mas por saudades dos sonhos, recorriam a todo o tipo de métodos de esgotamento. Esta parte do livro, leva-nos através do realismo mágico do autor, às questões do sono, da memória e do sonho. Por que dormimos e sonhamos? Qual é a relação entre o sono e a memória?

A química do sono e dos sonhos é fascinante e tem, na verdade, alguma relação com a memória. A adenosina tem um papel importante em lembrar que está na hora de dormir, embora pareçam existir vários mecanismos cerebrais responsáveis pelo sono. Durante o sono são produzidas menores quantidades dos neurotransmissores serotonina e norepinefrina e os processos nervosos são controlados essencialmente pela acetilcolina, a qual está na origem dos sonhos. Finalmente, o sono parece ser muito importante na formação das memórias e tanto o excesso como a baixa de acetilcolina parecem ter reflexos negativos nesta.

Ao longo do livro encontramos também vários venenos e remédios: noz-vómica, acónito, arsénico, etc. E as compressas de arnica revelam ser um remédio universal para as inflamações. Vamos encontrar este remédio também n'Os Maias de Eça de Queiroz (uma obra de que falaremos noutra altura) no episódio tragicómico que imagina Ega sobre a violência doméstica, seguida de reconciliação dos Cohen. Não nos surpreende que Ega possa imaginar e visualizar cenas que não está a ver ou nunca viu, porque fazemos coisas idênticas a todo o momento mas, se pararmos um pouco para pensar, trata-se de uma coisa verdadeiramente notável, cuja química não deve ser muito diferente da que está envolvida nos sonhos e memória.

Mas voltando aos sonhos. Um dos livros mais influentes de Freud é a Interpretação dos Sonhos. Freud, que começou a sua carreira na química, passou para a zoologia e finalmente chegou à medicina, em muitos aspectos estava errado como têm demonstrado a neurofisiologia e a neuroquímica, e, nas suas experiências, estava muitas vezes mais próximo do Dr. Jekyll de Stevenson que de um cientista moderno. De qualquer forma, dado o seu primeiro interesse científico, não é de estranhar que haja bastantes referências à química e a produtos químicos nesse livro. Curiosamente, um dos sonhos do livro é o do jovem químico que quer livrar-se do que considera ser um vício desagradável, tentando alterar o seu comportamento social. Este sonha com um determinado tipo de reacções químicas, depois de um aluno ter tido um acidente no laboratório. Freud associa e interpreta todos estes dados de uma forma bastante criativa, vingando-se assim, quem sabe, de uma forma verdadeiramente freudiana do seu amor juvenil não correspondido pela química, algo que Freud não parece ter esquecido tão facilmente como as cartas para pessoas de quem não gostava.

Se esquecer algo pode ser mau, nunca esquecer pode ser muito pior. Em Funes o memorioso, um conto de Jorge Luis Borges, a questão do apagamento da memória revela-se de uma forma trágica, mostrando a importância fundamental do esquecimento. Funes memoriza todos os pormenores de tudo e não consegue esquecer nada. A sua memória acaba por ser, diz, uma lixeira. Para não sermos como Funes, temos a CREB e a anandamina para memorizar e esquecer, adormecemos com a adenosina e sonhamos com a dose certa de acetilcolina. E, como é óbvio, os mecanismos do sono, sonho e memória são muito mais complexos do que parecem aqui e há, com certeza, muitas coisas que ainda não sabemos sobre a química do cérebro.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Museu da Ciência desvenda os mistérios da emoção

Informação chegada ao De Rerum Natura

No âmbito da Semana do Cérebro 2012, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC) e o Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) convidam o público para um “Café com Ciência” que tem como tema central a neurobiologia das emoções.

Tendo a música como ponto de partida, os participantes vão ser desafiados a fazer um exercício de desconstrução da emoção proveniente da contemplação estética, cuja missão é verificar qual o efeito da música num ser humano ou porque razão há músicas que gostamos e outras que menos gostamos.

A entrada é livre.

A iniciativa realiza-se na Cafetaria do Museu, no dia 21 de março, quarta-feira, pelas 21h30.

Gestão da Água – Incertezas e Riscos

Recensão publicada na imprensa regional.

Da autoria e coordenação do Professor Emérito António Betâmio de Almeida (Instituto Superior Técnico), o livro “Gestão da Água – Incertezas e Riscos”, publicado pela Esfera do Caos, em Setembro de 2011, e primeiro título da nova colecção "Água, Ciência e Sociedade", é de referência incontornável pela excelência científica do conteúdo, compaginado que está com vários exemplos concretos de estudo de caso. Estes são coligidos no quinto e último capítulo do livro e são da autoria de vários professores e especialistas de referência nesta temática interdisciplinar, a saber: Maria da Conceição Cunha, Maria do Céu Almeida, João Paulo lLeitão, Sérgio Teixeira Coelho, Laura M.S. Caldeira, Teresa Viseu, Maria Manuela Portela, M.G. Brito, L. Bragança, C. Coelho, R. Silva, F. Veloso-Gomes, F. Taveira-Pinto, Luísa Pinho e Filomena Martins.

Ao longo dos primeiros quatro capítulos do livro, o autor introduz o contexto da problemática na sociedade contemporânea, define o conceito de risco, a operacionalização da gestão do risco, e finaliza com algumas reflexões e análises críticas.

Este livro apresenta a problemática das incertezas e riscos na gestão dos recursos hídricos com um profundo pragmatismo, fruto da experiência do autor nesta área, e uma fluência didáctica constante ao longo do texto, tornando-o muito útil a estudantes e profissionais interessados. Mas a clareza com que está escrito permite que o público não especializado também dele tire ensinamentos.

É que a gestão da água diz respeito a todos e a racionalização dos conceitos de incerteza e riscos associados peca por ser pouco popularizada. Neste período de seca prolongada, a sua leitura refresca a necessidade de uma maior literacia sobre os riscos que condicionam a própria biodisponibilidade da água, indispensável à vida.

Título: “Gestão da Água – Incertezas e Riscos. Conceptualização Operacional”,
Autor: António Betâmio de Almeida
Editora: Esfera do Caos
ISBN: 978-989-680-044-4
1ª Edição: Setembro de 2011
240 páginas.

António Piedade

domingo, 18 de março de 2012

Taxi sitting para adolescentes

Numa cidade das mais cosmopolitas do nosso país surgiu uma nova oportunidade de negócio para os taxistas: levar adolescentes a bares e discotecas e fazê-los regressar sãos e salvos a suas casas.

O acordo é feito com os pais que, mediante o pagamento duma determinada quantia, não muito elevada, acordam o local de destino e a hora de entrega.

Isto parece bem a toda a gente que vi entrevistada na televisão: os pais ficam descansados, pelos filhos e por não terem de se levantar a meio da noite para os transportar; os taxistas que, com a crise, vêem rarear os clientes; e, claro, os adolescentes que têm a "logística" necessária para o seu divertimento. 

Um deles disse: "Se eu ou os meus colegas bebermos um copo a mais, não corremos perigo". Não parecia ter idade legal para beber sem correr riscos... Mas, enfim, sempre podemos dizer: "do mal o menos"...

O que é a Inovação? A curiosidade e a criação humana!


Veja matéria abaixo:



Sobre Ferreira de Mira (1875-1953)

Mais um post de António Mota de Aguiar sobre a história da ciência no século XX (na foto, Ferreira de Mira):

Mathias Boleto Ferreira de Mira, nasceu em Canha (Montijo) e estudou em Lisboa na Escola Médico-Cirúrgica, onde terminou o seu curso em 1898. Depois de uma curta passagem pelo Hospital da Misericórdia da vila de Canha, veio residir para Lisboa em 1910, e, já no âmbito das actividades da nova Faculdade de Medicina de Lisboa, assumiu, em 1912, a cadeira de segundo Assistente provisório de Fisiologia.

Esta data marca o começo da brilhante carreira científica de Ferreira de Mira, primeiro, regendo cursos práticos de Fisiologia e Química biológica, a seguir, como investigador científico, mas não só, porque também exerceu funções no Município de Lisboa no pelouro da Instrução primária, além de ter sido deputado à Assembleia da República de 1921 a 1923.

A sua carreira de jornalista começa por volta de 1912, essencialmente nos jornais A Lucta, Diário de Notícias e Seara Nova, onde escreveu dezenas de artigos de vulgarização científica, na área da biologia e de outras ciências.

O Professor Luís Rebelo, da Faculdade de Medicina de Lisboa, considera “Ferreira de Mira, à época o mais importante historiador de medicina portuguesa (…)” e, sem dúvida, não se enganou, pois, por essa altura, Ferreira de Mira tinha um muito atento leitor, o multimilionário Bento da Rocha Cabral (1847-1921), que lhe iria deixar em testamento uma considerável fortuna para obras de investimento científico.

Contudo, não se pode falar de Ferreira de Mira sem o inserir na geração médica de 1911, que elevou a medicina portuguesa ao mais alto nível do que havia de melhor pelo mundo. Geração essa que arrancou, ainda no século anterior, com Sousa Martins e Miguel Bombarda e que, participando activamente na Assembleia da República, promulgou, em 1911, as leis que reformavam os estudos médicos e criavam novas Universidades e novas Faculdades, pondo fim às escolas médicas de Lisboa e Porto, que se transformaram em Faculdades, com estatuto universitário.

Em 1911 estava constituída, em pessoas e instalações, a nova Faculdade de Medicina de Lisboa com as suas cadeiras laboratoriais:

“Era um real progresso, uma transformação quase milagrosa dum ensino e duma medicina anacrónicos, numa medicina francamente moderna; dum espírito decadente passara-se a um espírito empreendedor e progressivo; de instalações decrépitas passava-se a um edifício moderno e de bela arquitectura; duma medicina parasitária a uma ciência com expressão própria. Evolução duma medicina provinciana e fechada para uma ciência médica que transpôs as fronteiras nos dois sentidos”.

É no quadro das transformações ocorridas, como acima nos diz Jaime Celestino da Costa, que devemos compreender a acção científica de Ferreira de Mira, e diria mais, é neste quadro que podemos compreender que o transmontano Bento da Rocha Cabral, emigrante no Brasil, no fim da vida, regressa à sua terra e doa a um desconhecido – Ferreira de Mira – uma soma astronómica de dinheiro e bens com o fim de levar a cabo investigação científica em biologia. Um oásis de esperança no contexto nacional!

Foi no âmbito das actividades da recém-criada Faculdade de Medicina de Lisboa que foram criados os seguintes Institutos:

- O Instituto de Farmacologia e Terapêutica Geral, fundado por Sílvio Rebello (mais tarde por Toscano Rico e Gomes da Costa).

- O Instituto de Histologia e Embriologia, fundado por Augusto Celestino da Costa (com Pedro Roberto Chaves, Alfredo Magalhães Ramalho e Simões Raposo).

- O Instituto de Anatomia, fundado por Henrique de Vilhena (com Vítor Fontes e Barbosa Sueiro).

- O Instituto de Anatomia Patológica e Patologia Geral, fundado por António Pinto de Magalhães (falecido prematuramente).

- O Instituto de Fisiologia e Química Fisiológica, fundado por Marck Athias (com Joaquim Fontes e Ferreira de Mira).

Este instituto foi um importante centro de investigação e aprendizagem para o qual Ferreira de Mira deu uma importante contribuição. Certamente lhe terá servido esta experiência quando, anos mais tarde, fundou o Instituto de Investigação Científica Bento da Rocha Cabral.

Ferreira de Mira tem uma vasta obra de trabalhos de investigação científica, principalmente sobre a fisiologia das cápsulas suprarrenais, publicados em revistas portuguesas e estrangeiras da especialidade, muitos destes trabalhos foram feitos em colaboração com Joaquim Fontes.

Escreveu livros didácticos: Lições de Químico-Fisiologia elementar; Exercícios de Química Fisiológica, de colaboração com Marc Athias; Manual de Química Fisiológica; Química Geral e Química Orgânica, de colaboração com Pereira Forjaz e Kurt Jacobsohn, etc.

Escreveu também livros de divulgação científica, muitas crónicas científicas e deu dezenas de conferências sobre temas científicos.

Ferreira de Mira tinha cerca de 45 anos quando, por volta de 1920, soube da herança que recebia de Bento da Rocha Cabral. Por isso, a sua obra científica, a partir desta data, está ligada ao instituto do mecenas. Olhando para as actividades do Instituto Rocha Cabral, iniciadas no começo dos anos 20, podemos seguir a obra de Ferreira de Mira, cientista da geração médica portuguesa de 1911.

António Mota de Aguiar

sábado, 17 de março de 2012

Eduquer: un métier impossible?

O De Rerum Natura agradece ao leitor João Boaventura a partilha do n.º 4 da Revista Le Portique.

Não obstante a publicação ser de 1999, os artigos têm o maior interesse para uma reflexão ética, filosófica, conceptual... sobre a educação.

(Clicando em cada título, ter-se-á acesso ao seu conteúdo)

Organizar e redigir trabalhos académicos

No próximo dia 21 de Março, na Sala Keynes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, entre as 14 e as 16 horas, realiza-se uma sessão sobre Como organizar e redigir trabalhos académicos respeitando as normas e a integridade científica.

A acção, dinamizada pelo Doutor Paulo Peixoto, destina-se a estudantes e professores, interessando pelas implicações que a cópia e o plágio têm no quotidiano escolar.

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...