terça-feira, 26 de janeiro de 2010
HUMOR: Ponto G homeopático funciona tão bem como o antigo Ponto G
A ÚLTIMA DÉCADA

Depoimento que prestei ao jornal universitário "A Cabra" sobre a primeira década do novo século (década que, começada em 2001, ainda não acabou):
A primeira década do novo milénio não foi das melhores décadas que tivemos. Quase que começou com o ataque às torres gémeas e quase que acabou com a crise financeira internacional. Pelo meio, houve a guerra no Iraque e no Afeganistão, a subida do preço do petróleo, as questões do aquecimento global, etc. A ciência não conseguiu a visibilidade pública que merece. E a cultura não se conseguiu libertar do pior do pós-modernismo das décadas anteriores. Melhores dias virão, estou certo!
CRIAÇÃO: O FILME
From director Jon Amiel (The Singing Detective, Entrapment) and writer John Collee (Master and Commander: The Far Side of the World) comes CREATION. A psychological, heart-wrenching love story starring Paul Bettany (A Beautiful Mind, Master and Commander: The Far Side of the World) as Charles Darwin, the film is based on “Annie’s Box,” a biography penned by Darwin’s great-great-grandson Randal Keynes using personal letters and diaries of the Darwin family. We take a unique and inside look at Darwin, his family and his love for his deeply religious wife, played by Jennifer Connelly (A Beautiful Mind, Requiem for a Dream), as, torn between faith and science, Darwin struggles to finish his legendary book “On the Origin of Species,” which goes on to become the foundation for evolutionary biology. The film co-stars Toby Jones (Frost/Nixon, Infamous) and Jeremy Northam (Gosford Park, Amistad), and was produced by Jeremy Thomas (The Last Emperor, Sexy Beast) at Recorded Picture Company with BBC Films and Ocean Pictures.
MUSEU DA CIÊNCIA FORA DE PORTAS COM SIMULADOR DO CÉU

Informação recebida do Museu de Ciência de Coimbra:
Equipa do Museu da Ciência promove "passeios" pelas estrelas no Centro Comercial Dolce Vita Coimbra
E por que não aproveitar o final da semana para levar as crianças a um "passeio" pelas estrelas? O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC) vai promover sessões de planetário no Centro Comercial Dolce Vita, em Coimbra, nos dias 29 e 30 de Janeiro. Os mais novos poderão, assim, fazer descobertas surpreendentes sobre as constelações e as suas histórias, ao longo de dois dias dedicados à Astronomia.
A iniciativa "Museu Fora de Portas" destina-se a crianças a partir dos cinco anos. A participação é gratuita e não necessita de inscrição prévia.
No planetário, os mais pequenos terão a impressão de estarem a observar o céu numa noite calma e sem nuvens. Com a ajuda da equipa educativa do Museu, vão conseguir descobrir as constelações e a mitologia a elas associada, mas também as características das estrelas, o movimento da Terra e dos planetas, os eclipses e as fases da Lua. Os mais novos poderão ainda aprender a orientar-se pelas estrelas através da localização da estrela polar.
Para além de sessões neste verdadeiro simulador do céu, a equipa do Museu da Ciência da UC tem ainda para os pequenos aprendizes de cientistas duas actividades interactivas sobre o Universo. Na actividade "Sputnik em Órbita", as crianças poderão descobrir, com a ajuda de plasticina e outros materiais simples, é que o ser humano conquista o espaço com as suas sondas, satélites e foguetões. Já em "O Céu a 3 Dimensões", terão a oportunidade de construir o seu próprio modelo 3D de uma constelação conhecida.
No dia 29 de Janeiro (sexta-feira), há sessões de planetário às 14, às 15, às 16 e às 17 horas. As actividades interactivas decorrem, sem interrupção, das 14 às 18 horas.
No sábado, dia 30 de Janeiro, as sessões de planetário terão lugar às 12, 15, 16 e 17 horas. Já as actividades "hands-on" voltam a decorrer das 14 às 18 horas.
A programação da iniciativa "Museu Fora de Portas" está aberta à participação das escolas, desde que procedam a inscrição prévia.
A NÃO HISTÓRIA DA MÃE SOBRANTE

Informação recebida da Editora Minerva Coimbra:
O Autor e as Edições MinervaCoimbra convidam para o lançamento do livro
A NÃO HISTÓRIA DA MÃE SOBRANTE
de Armando Ponce de Leão.
A apresentação será feita pelo Prof. Doutor Aníbal Pinto de Castro e pelo Dr. Fernando Paulouro Neves.
A sessão realiza-se quarta-feira, dia 27 de Janeiro, pelas 18h30, na Livraria Minerva (rua de Macau, 52 - Bairro Norton de Matos), em Coimbra.
O autor, Armando Ponce de Leão Policarpo, foi professor do Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Física Nuclear da mesma Universidade e do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas.
SEI QUEM SABE EM LISBOA
Informação recebida da Fundação Odemira:A Fundação Odemira apresenta Livro “Sei Quem Sabe” na Escola Secundária de Camões
A Fundação Odemira vai estar no próximo dia 28 de Janeiro na Escola Secundária de Camões, Liceu Nacional de Lisboa, para uma apresentação do seu livro “Sei Quem Sabe” e uma sessão de autógrafos. Para além da coordenadora editorial do livro, Sara Monteiro, e do Presidente da Comissão Executiva da Fundação Odemira, Francisco Antunes, na cerimónia vão também estar presentes os alunos do curso de Comunicação, Marketing, Relações Públicas e Publicidade da Escola Profissional de Odemira (EPO).
A obra em questão contou com a colaboração directa destes alunos, uma vez que foram os próprios que criaram as ilustrações.
“Sei Quem Sabe” é um livro de perguntas e respostas onde são abordados temas como Ambiente, Arquitectura, Astronomia, Biologia e Ecologia Marinha, Direito, Energia, Escrita e Oral, Escultura, Filosofia, Física, Geologia, Ilustração Científica, Jornalismo, Justiça, Matemática, Pintura, Psicanálise, Psicolinguística, Saúde. As respostas são dadas por especialistas nestas áreas, já que as perguntas foram também elaboradas pelos alunos de Comunicação da EPO.
Este foi o segundo livro a ser editado pela Fundação Odemira Edições, que havia já antes lançado a obra “Da Natureza”, integrada na Colecção Língua Escrita, uma colecção dedicada ao conto e que se brevemente irá publicar o seu segundo volume intitulado “Da Vida Bela”
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Guia Ilustrado das Macroalgas
Apresentação da obra Guia Ilustrado das Macroalgas no próximo dia 4 de Fevereiro (5.ª feira), pelas 17h 30m, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. A apresentação estará a cargo do Prof. Doutor Jorge Paiva.
Esta obra pretende ser um guia ilustrativo de grande parte da flora algal da costa portuguesa e tem como objectivo ajudar a conhecer melhor estes “vegetais marinhos” e, assim, promover o seu uso nas suas diversas facetas: a sua biodiversidade, como fertilizante agrícola, na alimentação e nos seus múltiplos usos industriais.
Estatuto da Carreira Docente: remendos novos em pano velho
“Leva tempo para alguém ser bem sucedido porque o êxito não é mais do que a recompensa natural pelo tempo gasto em fazer algo direito” (Joseph Ross, 1878-1948).Escreve Daniel Sampaio, no início da sua crónica “Escolas: e agora?”, o seguinte: “Todos estiveram de acordo que foram positivos os resultados alcançadas pela negociação entre o Ministério da Educação (ME) e os sindicatos de professores. O entendimento foi possível pela mudança de atitude dos intervenientes e pelo estilo de negociação: ficou claro que a ‘pressão’ de muitas horas de discussão consegue melhores resultados do que o adiamento sucessivo, pois a pausa entre reuniões reforça os argumentos de cada parte e conduz à não tomada de decisões conjuntas” (Revista "Pública", 24/01/2010).
Mas, porque nada se repete na vida exactamente da mesma forma, até porque alguns dos seus intérpretes são outros, embora um tanto ou quanto diferente do desfecho do polémico “Memorando de Entendimento”, assinado entre o Ministério da Educação e a Plataforma Sindical (02/04/2008), que mereceu o repúdio quase generalizado da classe docente, o facto de ter havido organizações sindicais que não assinaram este “Acordo de Princípios” (que eu definiria, procurando respaldo pessoano, como “uma coisa em que está indistinta a distinção entre nada e coisa nenhuma”), põe em causa o optimismo de Daniel Sampaio quanto aos resultados nele alcançados, quando escreve, com indisfarçável optimismo que, e volto a citar, “todos estiveram de acordo que foram positivos os resultados alcançados pela negociação entre o Ministério da Educação (ME) e os sindicatos de professores”.
Mesmo que à vol d´oiseau, uma visita por inúmeros posts de blogues, e respectivos comentários dos chamados Movimentos Independentes de Professores (v.g., Movimento Mobilização e Unidade dos Professores e PROmova) não espelham, de forma alguma, um clima de festa, de contentamento ou, apenas, de mera concordância com a opinião do autor da crónica em causa. De igual modo, o blogue de Paulo Guinote, “A Educação do meu umbigo”, não lança foguetes a anunciar os festejos. Bem pelo contrário!
Procurando uma opinião de quem não estivesse directamente envolvido nesta querela, encontrei-a em Inês Pedrosa ao pôr, em sérias dúvidas, que esta desgastante tarefa negocial se tenha ficado por aqui ao escrever, com o título, "Agora os alunos, por favor”: “Esperamos que [a saga] tenha terminado mesmo, apesar das ameaças não veladas do secretário-geral da Fenprof à saída da árdua maratona negocial” (“Expresso”, 26/10/2010). Por seu lado, Isabel Alçada lança, “urbi et orbi”, o aviso de que “o país estará sempre à frente dos interesses de uma classe” (id.; ibid.).
Mesmo antes da nomeação de Ana Maria Bettencourt (em finais de 2008), vinda da docência da Escola Superior de Educação de Setúbal, para a presidência do Conselho Nacional de Educação, ocorrência que poderia levar a pensar num possível favorecimento às Escolas Superiores de Educação, pareceres deste órgão colegial vieram reforçar e até ampliar a intenção em dar a estes estabelecimentos de ensino um estatuto em desacordo com a génese que presidiu à respectiva criação. Ou seja, apenas a formação de educadores de infância e professores do 1.º ciclo do ensino básico (antigo ensino primário), apenas com a atribuição do grau académico de bacharel ofendendo, uma vez mais, com a pressão despudorada de certos sindicatos, os direitos dos professores licenciados por universidades antes do chamado Processo de Bolonha.
Assim, à largura de toda a página, foi publicada a seguinte notícia: “Parecer provisório do CNE defende que as Escolas Superiores de Educação formem professores do ensino secundário” (“Público”, 30/01/97). Este parecer atentava contra uma longa e exigente formação científica dos professores do ensino secundário, pondo em risco a sua tradicional formação universitária. Como escrevi, avant la lettre, em artigo de opinião, havia já na altura “licenciados pela Faculdade de Letras de Coimbra que nem sequer tiveram acesso ao respectivo estágio pedagógico, desencadeando uma crise que pode pôr em causa a sobrevivência da própria escola” (“Correio da Manhã”, 16/06/1996).
Existe, agora, o perigo da Fenprof e outras organizações sindicais poderem pensar que têm as vela enfunadas em ventos de feição pelo facto de a actual ministra da Educação Isabel Alçada ser professora da Escola Superior de Educação de Lisboa, ter sido dirigente da Fenprof e poder estar mandatada superiormente para desfazer, a qualquer preço, a má impressão deixada pela teimosia da sua antecessora Maria de Lurdes Rodrigues que tanto prejudicou a classe docente do ensino não superior, podendo até ter feito com que o Partido Socialista, nas ultimas eleições legislativas, tenha perdido a maioria absoluta. Ora, como diz o povo, "gato escaldado de água fria tem medo".
Por outro lado, devido à longa e extenuante maratona de negociações pela madrugada fora, com o estômago dos intervenientes mitigado por refeições leves e apressadas, tudo leva a crer que os sindicatos, que assinaram o “Acordo de Princípios”, não terão convencido a equipa ministerial pela força da razão, mas mais pela força do cansaço. Receio, portanto, que ao contrário do defendido por Joseph Rossi, se não tenha assistido, de nenhuma forma, a uma “recompensa natural pelo tempo gasto em fazer algo direito”. Depois desta “pacificação”, que tratou pela rama assuntos importantes, receio que ela torne os professores reféns de sindicatos que “para tudo isto têm dado uma eficaz mãozinha, não raro intervindo, com desenvoltura, em áreas que não são, nem da sua vocação, nem da sua competência", como escreveu Eugénio Lisboa (“Jornal de Letras”, n.º 964).
A finalizar a sua crónica, em atitude digna de todo o apoio, defende Daniel Sampaio oito pontos essenciais para, em sua opinião, melhorar o sistema de ensino. Ou seja, a condição sine qua non de “nos centrarmos no essencial: ensinar os alunos”. Porém, esta problemática transcende o âmbito dos dirigentes sindicais, entre outros motivos, pelo simples facto de muitos deles se terem tornado profissionais da actividade sindical deixando de ter durante décadas, e por completo, contacto com a docência, visto a sua agenda estar preenchida com questões meramente laborais. Aliás, como é da competência sindical.
Assim, para que os professores possam ser ouvidos a uma só voz, não pode ser deixada à Fenprof e a outros sindicatos a assunção do papel que devia estar, de há muito, a cargo de todos os docentes - a exemplo de outras actividades profissionais de natureza pública -, mas que tem sofrido uma feroz contestação por parte daquela federação sindical, que chega ao ponto de defender que a elaboração do código deontológico da classe deve ser da sua competência e responsabilidade, indo "o sapateiro além da chinela". Claro que estou a referir-me à urgente e inadiável criação de uma Ordem dos Professores para que os docentes, devidamente titulados como professores, deixando, assim, de ser “um arrebalde de si próprios”, como diria Pessoa, não sejam havidos como simples mercenários do ensino em genuflexão aos pés do trono do rei Midas.
Sem desmerecer a sua real importância, mas, por outro lado, em nome do reforço do prestígio da classe docente, não devem estes profissionais ater-se a meras e intermináveis discussões de mais ou menos euros no fim do mês ou de mais ou menos horas de serviço lectivo semanal. Parafraseando o Vate, “outro valor mais alto se alevanta”: um ensino de qualidade ao serviço incondicional da sociedade portuguesa.
FÍSICA E QUÍMICA: NAMOROS E ZANGAS
Recentemente, após uma palestra que dei na Universidade do Minho sobre a teoria quântica no secundário fui questionado sobre a distinção entre física e a química. Transcrevo o meu texto sobre o assunto de "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva, 2005):A escola associa tradicionalmente a Física com a Química na disciplina de Ciências Físico-Químicas. Há, por isso, quem pense que são ciências gémeas. Serão?
Não são decerto gémeas, porque a Física nasceu no século XVII com o inglês Isaac Newton, autor dos “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural”, ao passo que a Química só surgiu no final do século XVIII com o francês Antoine Laurent Lavoisier e o seu “Tratado Elementar de Química”. Facto curioso e pouco conhecido, revelado pelo economista John Keynes, é que Newton foi um alquimista secreto, talvez o último dos grandes alquimistas (não esqueçamos que a alquimia é uma pré-química, é uma espécie de mãe da química!) de modo que foi do fracasso do sonho alquímico de um físico que a Química pôde surgir. Mas a Química tem, de facto, grandes afinidades com a Física. A Física gosta da Química e vice-versa. Não será a disciplina casada com a Física, porque, desde Newton que se sabe que quem forma um matrimónio duradouro com a Física é a Matemática. A Física, e nisso contrasta com a Química, está profundame
nte unida à Matemática, partilhando com ela cama e mesa a ponto mesmo de não poder sobreviver a um divórcio. Assim, só resta à Química ser uma namorada da Física, com a qual tem tido um prolongado devaneio e com quem naturalmente tem, de vez em quando, alguns arrufos.Tão enlaçadas por vezes as duas ciências que é difícil destrinçar a Física da Química, mas uma definição convencional é que a Física trata das propriedades da matéria e da energia e que a Química trata da organização dos átomos, que se combinam para formar moléculas e materiais. Para os químicos, os átomos são portanto blocos que se ligam num jogo de complexidade crescente, que vai dos átomos isolados até às organizadíssimas estruturas da vida. Como os átomos são tanto dos físicos como dos químicos, é natural que seja longo o convívio da Física com a Química. Muitos Prémios Nobel da Química foram ou são até físicos ilustres, uma vez que os químicos, diligentemente, se adiantaram aos físicos no respectivo reconhecimento. O caso mais antigo é também o mais pitoresco e, por isso, vale a pena contá-lo brevemente. A estrutura do átomo é do domínio da Física. Mas o britânico (nascido na Nova Zelândia) Ernest Rutherford, descobridor do núcleo atómico – o ponto minúsculo no centro do átomo - , ganhou no início do século XX não o Prémio Nobel da Física, mas sim... o da Química! Rutherford, autor das primeiras reacções nucleares artificiais, não resistiu a declarar:
“Tenho visto reacções nucleares muito rápidas, mas nenhuma foi tão rápida como a da Academia Nobel que de repente me transformou de um físico num químico”.
Mais recentemente, em 2001, o físico norte-americano de origem austríaca Walter Kohn recebeu também o Prémio Nobel da Química pelo seu notável contributo para resolver a equação fundamental da mecânica quântica, facto que o obrigou a iniciar as suas conferências para químicos esclarecendo que não sabia quase nada de Química... E mostrava um cartune que o representava no meio dos frascos de um laboratório de química, onde ele já não entrava desde os tempos do liceu. Os físicos, por seu lado, também não se têm importado em distinguir e premiar químicos. Lá fora é comum encontrar físicos nos departamentos e laboratórios de Química assim como químicos nos departamentos e laboratórios de Física (antepõe-se o “lá fora”, porque em Portugal, um sistema universitário anquilosado tem impedido essa hoje tão necessária interdisciplinaridade).
Mas há também zangas. Em 1929, o físico inglês (que, por formação, era engenheiro electrotécnico) Paul Dirac, de quem se comemorou o centenário do nascimento em 2003, escreveu uma frase famosa que pretende reclamar que a Química não passa de um ramo da Física. Repare-se que três anos antes, com a ajuda do próprio Dirac, tinha aparecido a mecânica quântica, a doutrina que permite explicar o funcionamento dos átomos. O papel maior de Dirac tinha sido escrever uma equação matemática (inspirada por argumentos de natureza estética) que juntava a teoria quântica de Bohr e outros com a relatividade de Einstein. A equação de Dirac, bela e lapidar, permitia, pelo menos em princípio (haveria que resolvê-la, o que era impossível em casos não triviais, dada a indisponibilidade na época do computador), descrever uma multidão de fenómenos físicos e a totalidade dos fenómenos químicos. Vejamos então o que Dirac afirmou:
“As leis físicas subjacentes à teoria matemática de uma larga parte da física e de toda a química são, portanto, completamente conhecidas, sendo a única dificuldade o facto de a aplicação destas leis conduzir a equações demasiado complicadas para serem resolvidas. É por isso desejável desenvolver métodos práticos de aplicação da mecânica quântica que ofereçam uma explicação das principais características dos sistemas atómicos complexos sem recorrer a muitos cálculos.”
Esta afirmação conduziu a uma discussão sobre a “redução” da Química à Física. Será que toda (sublinhe-se: toda) a Química se pode reduzir à Física? Ou usando, uma linguagem um pouco mais forte, será que a Física possui toda a Química?
Embora se possa perceber o que Dirac tinha em mente, julgo que é manifestamente exagerado pretender que a Química seja um ramo da Física. Na mesma linha de ideias, a Biologia seria um ramo da Química e, portanto, um subramo da Física. Etc. Isto é, tudo ou quase tudo seria Física. A afirmação de Dirac, mais do que reducionista, parece, vista deste modo, totalitária. Não haveria várias ciências mas simplesmente uma ciência. Reside aqui decerto um dos motivos de algumas zangas entre físicos e químicos. Os físicos são acusados da “tentação totalitária” , da tentação de tudo quererem englobar. É um facto que alguns físicos – os que perseguem, na linha de Dirac, mas agora a um nível mais microscópico, uma “teoria de tudo”, uma “teoria final” – defendem que o “leitmotiv” da Física deve ser a busca do mais pequeno e da força unificada que una os blocos mais fundamentais. Mas não é menos verdade que cada vez mais físicos entendem hoje que o domínio da complexidade não lhes é alheio e que o Universo é muito mais vasto e plural do que a atitute estritamente reducionista pressupõe.
Física e Química são subculturas diferentes da mesma cultura científica. São maneiras diversas de ver o mesmo mundo. Concerteza que têm, por isso, muito em comum (usando uma metáfora teológica, não pode o homem separar aquilo que Deus uniu!). Mas também concerteza que são disciplinas com individualidade própria. Os esforços a fazer deverão ir não no sentido de fundir essas culturas mas sim de fomentar o seu contacto. Isto é: de manter o namoro sem zangas de maior.
domingo, 24 de janeiro de 2010
DEUS E O TERRAMOTO

James Wood escreve sobre Deus e o terramoto no "New York Times" de hoje:
Começa assim:
"In the 18th century, the genre of “earthquake sermon” was good business. Two small shocks in London, in 1750, sent the preachers to their pulpits and pamphlets. The bishop of London blamed Londoners’ lewd behavior; the bishop of Oxford argued that God had woven into his grand design certain incidents to alarm us and shake us out of our sin. In Bloomsbury, the Rev. Dr. William Stukeley preached that earthquakes are favored by God as the ultimate sign of his wrathful intervention.
Five years later, when Lisbon was all but demolished by an enormous earthquake, the unholy refrain was heard again — one preacher even argued that the people of Lisbon had been relatively fortunate, for God had spared more people than he had killed. It was the Lisbon earthquake that prompted Voltaire to attack Leibniz’s metaphysical optimism, in which all is for the best in the best of all possible worlds. Theodicy, which is the justification of God’s good government of the world in the face of evil and pain, was suddenly harder to practice. But the preachers kept at it. “There is no divine visitation which is likely to have so general an influence upon sinners as an earthquake,” wrote the founder of Methodism, John Wesley, in 1777."
Ver o resto aqui.
sábado, 23 de janeiro de 2010
Originais e sucedâneos
No dia 31 de Dezembro publicámos o poema “Receita de ano novo” de Carlos Drummond de Andrade, numa escolha de Paulo Rato, um confesso amante da poesia. No espaço dos comentários, uma leitora reproduziu partes de um texto atribuído a Drummond de Andrade. Não reconhecendo esse texto, Paulo Rato procurou-o na Internet, do que resultou a resposta que deu à nossa leitora, na qual alertava para a falsidade da atribuição.
Tendo ficado a pensar no assunto, que não é de menor importância, sugeriu-nos que no De Rerum Natura se sensibilizassem autores e frequentadores de blogues para os surpreendentes “ataques à boa saúde da poesia”.
Assim, decidimos reproduzir a referida resposta para que mais leitores possam ter acesso ao seu conteúdo. Decidimos também tratar oportunamente este assunto de modo mais aprofundado.
"Vera
As versões que consultei, poucas (que não tive pachorra para mais), mas ainda assim com discrepâncias entre elas, confirmaram o que já suspeitava: como muitos outros textos que infestam a rede, falsamente associados a grandes poetas, as ditas cujas não têm (nem de longe!) qualidade que justifique atribuí-las ao imenso Carlos Drummond. Nem mesmo com o "título original", igualmente apócrifo, de "Reverência ao destino".
Já denunciei publicamente vários desses embustes, nomeadamente um escrito completamente parvo, que por aí pulula, imputado a Fernando Pessoa (completamente inocente), e que veio a ser escarrapachado no Público pela jornalista Laurinda Alves, sob o título A coragem de Pessoa, o que me fez perder a paciência, tal como a outros leitores, que comunicaram o desacato ao Provedor do Jornal.
O artigo publicado, citando vários dos queixosos e com a intervenção da própria Casa Fernando Pessoa, deixava tudo muito clarinho, mas... foi inútil: ainda há poucos dias me "re-fordwardaram" o detrito.
De resto, como costumo recomendar a propósito destas vigarices, desconfie desse tão propalado instrumento de "democratização da intervenção do cidadão", onde seja quem for despeja seja o que for, sem sequer alertar, como outrora - "Água vai!"
Viva a Internet! viva! - sim, mas abordada cautelosamente, com armadura crítica sólida e bem temperada. Com a preocupação de distinguir os blogues de qualidade (como este e alguns - não muitos! - outros) e os sites de instituições credíveis e com prestígio a defender, do burburinho ininteligível e dúbio da multidão.
E sem esquecer um bom elmo, que nunca sabe o que lá vem...
Cordialmente,
Paulo Rato
CDSs
Suponha o leitor que acaba de descobrir que terá uma vida curta. Tem vários seguros de vida mas precisa do dinheiro agora. Pode então nomear algumas pessoas como beneficiários, com a condição de lhe pagarem. Como a indemnização estará próxima, elas pagarão bem o benefício que lhes oferece. Mas a venda dos seguros de vida fará com que os compradores fiquem atentos à sua saúde: se um médico certificar que está mais doente, os seguros valerão mais, e mais gente se dispõe a comprá-los. A revenda começa então a ser um negócio. Quanto mais doente estiver, maiores os lucros de quem aposta na sua morte rápida. Imagina agora o que lhe pode acontecer?
Se este cenário é ficção, ele existe com os seguros sobre a vida económica de empresas e nações, os CDS (Credit Default Swaps). Compram-se e vendem-se num mercado desregulado e deixaram de cumprir os objectivos para que foram criados. Várias vozes, incluindo as de Obama, Alan Greenspan, Warren Buffet e Myron Scholes, que participou na organização dos swaps, avisaram para o perigo que representam e clamam por regulação. George Soros tem demonstrado que o seu valor, agravado pela especulação, já não reflecte a saúde das empresas e nações, sendo antes factor de destruição que pode gerar novas crises.
Da influência dos CDSs na crise actual, já ninguém se lembra. Estes produtos tóxicos estão de novo a enriquecer os ex-falidos Bancos de Investimento e a destruir a saúde das nações. Contam com a ajuda das agências de rating que, para já, nos diagnosticaram uma "morte lenta"
Estranho quotidiano
Informação recebida da D. Quixote:Acaba de sair o livro
"Estranho Quotidiano"
de José Luís Pio Abreu
Prefácio de Maria Filomena Mónica
ISBN: 9789722039215
Colecção: Participar
Preço 12,00€
Sinopse:
«Poderíamos nós viver sem telemóveis? É verdade que a televisão pode destruir a democracia? Podemos confiar na economia de mercado? Quais são os poderes que efectivamente nos governam e qual é, neste contexto, o valor do poder democrático? Será que o Estado de Direito ainda existe? Qual é o significado actual dos papéis masculino e feminino? Podem os seres humanos ultrapassar a sua natureza biológica? Como podemos hoje educar as nossas crianças? Apesar da actualidade destas perguntas, é difícil responder-lhes claramente. No entanto, é possível equacionar estes problemas com base nos acontecimentos quotidianos e no conhecimento presente. É isso que procuram fazer os pequenos textos que compõem este livro.»
Sobre o autor:
O autor é médico psiquiatra nos Hospitais da Universidade de Coimbra e professor da Faculdade de Medicina. Tornou-se um "best-seller" o seu livro "Como tornar-se um doente mental". É actualmente cronista no "Destak".
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Sobre liberdade e segurança
A propósito do meu artigo sobre segurança aérea, um leitor enviou-me uma frase que, apesar de aparecer muitas vezes atribuída a Thomas Jefferson, é de Benjamin Franklin (na figura), diplomata, político e cientista norte-americano:"Aqueles que desistem de uma liberdade essencial para obter uma pequena segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança".
No original em inglês:
"They who can give up essential liberty to obtain a little temporary safety, deserve neither liberty nor safety."
Da Wikipedia:
"This was written by Benjamin Franklin, with quotation marks but almost certainly his original thought, sometime shortly before February 17, 1775 as part of his notes for a proposition at the Pennsylvania Assembly, as published in 'Memoirs of the life and writings of Benjamin Franklin' (1818)."
Em 1775 não havia aviões. Mas a frase talvez ainda possa ser útil hoje.
2009, o segundo ano mais quente desde 1880
Informação do Goddard Institute for Space Studies da NASA (21/1/2010):
"NASA Research Finds Last Decade was Warmest on Record, 2009 One of Warmest Years
WASHINGTON -- A new analysis of global surface temperatures by NASA scientists finds the past year was tied for the second warmest since 1880. In the Southern Hemisphere, 2009 was the warmest year on record.
Although 2008 was the coolest year of the decade because of a strong La Nina that cooled the tropical Pacific Ocean, 2009 saw a return to a near-record global temperatures as the La Nina diminished, according to the new analysis by NASA's Goddard Institute for Space Studies (GISS) in New York. The past year was a small fraction of a degree cooler than 2005, the warmest on record, putting 2009 in a virtual tie with a cluster of other years --1998, 2002, 2003, 2006, and 2007 -- for the second warmest on record."
Para mais informaçoes ver aqui.
Português "chega" a Marte
Com a devida vénia transcrevemos notícia do jornal "Campeão das Províncias":Um cientista português, de 29 anos, natural de Manteigas, está a participar até ao próximo dia 7 de Fevereiro, nos Estados Unidos da América (EUA), numa iniciativa da Nasa que simula uma estadia em Marte.
Luís Saraiva, licenciado em Biologia pela Universidade de Évora, doutorado pela Universidade de Colónia (Alemanha) e a frequentar um pós-doutoramento em Seatle (EUA), faz parte de uma equipa de seis cientistas que dão início amanhã, dia 22, a esta aventura “espacial”, numa estação de pesquisa localizada no deserto de Utah (EUA).
Brian Shiro (geofísico, comandante da expedição), Carla Haroz (engenheira), Mike Moran (astrónomo), Darrel Robertson (engenheiro) e Kiri Wagstaff (geóloga e jornalista) são os restantes elementos da equipa.
No site dedicado a esta missão, explicam que para além de contribuírem para os estudos em curso sobre a nutrição ea utilização de fatos espaciais, cada um deles vai dar continuidade aos próprios projectos de investigação. Luís Saraiva dedicar-se-á a pesquisar sobre o impacto ambiental e biomarcadores.
Através do site, os cientistas contam partilhar testemunhos, fotos e vídeos desta saga. Os interessados deverão clicar aqui, assim como enviar comentários e opiniões dos cibernautas através do Twitter.
Iolanda Chaves
PREVENIR O TERRORISMO AÉREO

Minha crónica no "Sol" de hoje:
O passado dia 25 de Dezembro podia ter sido um dia trágico na história da aviação. No voo 253 da Northwest Airlines, de Amsterdão para Detroit, quase houve uma explosão provocada por um terrorrista nigeriano, ligado à Al-Qaeda, Umar Abdulmutallab. O jovem de 23 anos tinha escondido dentro da roupa interior, podendo confundir-se com os testículos, 80 gramas de um poderoso explosivo, o tetranitrato de pentaeritrina (PETN). Os passageiros apagaram rapidamente o fogo, iniciado pela introdução de um líquido, com uma seringa, no explosivo sólido, e dominaram o terrorista, que sobreviveu apenas com queimaduras de segundo grau na zona genital. O mesmo explosivo tinha sido usado por um outro terrorrista da mesma organização, o inglês Richard Reid, que o colocou na sola dos sapatos para fazer explodir o voo 63 da American Airlines, de Paris para Miami, a 22 de Dezembro de 2001. O PETN foi sintetizado pela primeira vez em 1891, por um químico alemão, Bernhard Tollens, que, curiosamente, havia estado, uns anos antes, na Universidade de Coimbra a dirigir os trabalhos práticos do Laboratório Chimico (morou mesmo nesse Laboratório, onde hoje funciona o Museu da Ciência).
Devido a casos como estes, as medidas de segurança nos aeroportos de todo o mundo têm-se intensificado. Hoje, não podemos levar líquidos a bordo para além de certas quantidades e somos obrigados a tirar os sapatos, colocando-os numa máquina de raios X. Mas haverá mais: estão em teste novas máquinas de raios X que permitem uma espécie de strip-tease digital. Qual é a ciência por detrás de tais dispositivos? Ao contrário das máquinas correntes que verificam a nossa bagagem de mão (e também a de porão), cujo funcionamento se baseia na diferente absorção de raios X pelos vários materiais, os novos scanners emitem raios X de baixa intensidade que são reflectidos pelo corpo da pessoa, produzindo-se num écrã uma imagem anatómica. É como se o sujeito estivesse a ser cientificamente “apalpado”! Com esses detectores teria sido possível encontrar o PETN nas partes íntimas do nigeriano.
Os novos detectores colocam vários tipos de problemas, que estão a ser muito discutidos. Talvez o principal seja a defesa da liberdade individual perante uma óbvia invasão de privacidade. Mas há outras questões, como a do alto custo dos aparelhos, que recairá inevitavelmente no público, e a demora adicional nos aeroportos. E há ainda a questão da protecção relativamente às radiações: este problema será, porém, o menor de todos, pois um passageiro, durante um voo de poucas horas, está sujeito a maior radiação natural do que durante os curtos instantes do exame. Seria preciso que um viajante fizesse 2000 exames deste tipo por ano para ultrapassar o limite de segurança. Há, de facto, passageiros frequentes, mas não assim tanto...
Naturalismo atlântico

Informação recebida do Centro Interuniversitário de História da Ciência e da Técnica (CIUHCT), Lisboa:
No próximo dia 27 Janeiro 2010, 17h, na FCUL, Campo Grande Edifício C8, Sala 8.2.23,
vai realizar-se uma Conferência CIUHCT:
"O naturalismo atlântico e a divulgação da história natural portuguesa nos séculos XVI e XVII: Focas versus manatins."
Cristina Brito (Centro de História de Além-Mar, Escola de Mar, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Universidade Nova de Lisboa).
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